A Carga

Agatha Christie · Capítulo 7 de 25

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A Carga

Capítulo Quatro · — Gostou do batizado? — perguntou o Sr. Baldock.

 

1

— Gostou do batizado? — perguntou o Sr. Baldock.

— Não — respondeu Laura.

— A igreja devia estar fria — disse Baldock. — Só se salva a fachada normanda de mármore.

Laura não ficou impressionada com esta informação; estava preocupada com outras coisas.

— Posso lhe fazer uma pergunta, Sr. Baldock?

— Claro.

— É pecado rezar pedindo para alguém morrer?

O Sr. Baldock olhou de soslaio.

— Acho que seria uma interferência imperdoável.

— Interferência?

— O Todo-Poderoso é quem manda, não é? Para que se meter nos assuntos d'Ele? O que você tem a ver com isso?

— Não acho que Ele vai se importar muito. Afinal, depois que uma criança é batizada, se ela morre, vai para o Céu.

— Acho que vai.

— Deus gosta das crianças, segundo a Bíblia. Logo vai recebê-la bem.

O Sr. Baldock deu uma volta pela sala. Sentia-se nervoso, mas não quis demonstrar.

— Ouça, Laura — disse, finalmente. — Você deve ocupar-se dos seus assuntos.

— Mas isto é meu assunto.

— Não, não é. Seu único assunto é você mesma. Reze o que quiser em relação a você; reze para ter orelhas azuis, uma tiara de brilhantes, ou para ganhar um concurso de beleza. O pior que pode acontecer é ver realizado seu sonho.

Laura olhou para Baldock sem entender.

— Sei do que estou falando — enfatizou o professor.

Laura agradeceu e disse que precisava voltar para casa. Ao passar pela igreja hesitou. Lembrou-se das conversas de uma faxineira católica que fazia serviços em sua casa. Um dia, conversando com a cozinheira, que era muito religiosa, elas falaram sobre uma mulher escarlate. Agora, quem e o que era esta mulher escarlate, Laura não sabia. Somente tinha uma vaga idéia de associá-la com a Babilônia.

Naquele momento lembrou-se da conversa de Molly, que rezava por uma intenção acendendo uma vela ou coisa parecida. Laura hesitou, deu um suspiro, olhou para a rua e entrou na igreja.

Era uma igreja pequena e escura e não cheirava bem como a paróquia aonde iam todos os domingos. Nem sinal da mulher escarlate, mas sim uma imagem de uma senhora de capa azul, segurando um candelabro com algumas velas acesas. Ao lado, algumas velas novas numa caixa coletora.

Laura hesitou novamente. Suas noções teológicas eram limitadas c confusas. Deus, ela sabia, tinha obrigação de amá-lo porque era Deus. O Diabo, de chifres e rabo, era especialista em tentar as pessoas. A mulher de escarlate ficava num plano intermediário. Olhando para a imagem da Senhora de Capa Azul, Laura concluiu que poderia tratar com ela o problema das intenções.

Deu um longo suspiro e puxou do bolso algumas moedas. Depositou algumas na caixa e apanhou uma vela, colocando-a no candelabro, e em seguida falou baixinho com a imagem:

— Esta é minha intenção. Por favor, deixe o bebê ir para o Céu. O mais depressa possível — acrescentou.

Ficou parada diante da imagem por alguns momentos. As velas queimavam, e a Senhora de Capa Azul continuava impassível e bondosa. Laura sentiu uma sensação de vazio, suspirou profundamente e foi para casa.

No terraço encontrou o bebê deitado no seu carrinho; aproximou-se e examinou a criança adormecida. Enquanto olhava, a cabecinha se mexeu e dois olhos azuis encararam Laura.

— Você vai para o Céu logo — disse Laura, baixinho, para a irmã. — Lá é maravilhoso — insistiu, num tom encorajador. — Cheio de pedras preciosas e de ouro... e harpas — acrescentou num tom convincente. — Muitos anjos com asas de pena. Muito melhor do que aqui!

Laura pensou por alguns instantes.

— Você vai encontrar-se com Charles. Não é maravilhoso? Imagine encontrar Charles.

Angela apareceu na porta.

— Alô, Laura. Está conversando com o bebê? — perguntou, debruçando-se sobre o carrinho. — Alô, meu bem. Já está acordada?

Arthur Franklyn entrou em seguida.

— Por que as mulheres têm mania de falar bobagens com os bebês? Não é mesmo, Laura? Você não acha estranho?

— Eu não acho que seja bobagem — disse Laura.

Arthur surpreendeu-se com a resposta.

Que menina estranha, pensou. Como era difícil saber o que se passava na sua cabeça.

— Preciso comprar um cortinado ou uma gaze — disse Angela —, para colocar em cima do carrinho. Tenho medo de que um gato dê um pulo e asfixie a menina. Temos tantos gatos em casa.

— Ora.— disse o marido. — Outra grande bobagem. Não acredito que um gato asfixie uma criança.

— Mas, é verdade Arthur. Eu já li sobre isto nos jornais.

— Não é possível.

— De qualquer maneira vou comprar um cortinado e avisar a babá para ficar de olho, quando colocar a menina no terraço. Pena que a velha ama tivesse que ir visitar a irmã doente; não tenho a menor confiança nesta nova babá...

— Ora, por quê? Ela parece muito boa. Adora o bebê, tem ótimas referências...

— Eu sei. Ela “parece” ótima. Mas... nas referências existe um espaço em branco de um ano...

— Foi quando ela esteve cuidando da mãe doente.

— É o que todas dizem e é impossível a gente verificar. Pode ser uma desculpa para esconder alguma outra falta...

— Alguma complicação amorosa?

Angela olhou para o marido apreensiva, avisando-o com o olhar da presença de Laura.

— Cuidado, Arthur. Não, não foi isso que quis dizer.

— O que foi então, querida?

— Não sei bem — respondeu Angela, vagarosamente. — É que quando estou com ela sinto que existe algo que ela não quer revelar...

— Quem sabe se a polícia está atrás dela?

— Arthur! Que brincadeira de mau gosto!

Laura afastou-se silenciosamente. Como era inteligente, sentiu que devia deixar os pais a sós, conversando à vontade, sobre a babá; aliás, o assunto não lhe interessava em absoluto. Afinal, a babá era uma moça pálida, suave e simpática, que não tomava o menor conhecimento da existência de Laura.

E ela precisava de sossego para se concentrar na Senhora de Capa Azul.

 

2

— Venha Josephine — disse Laura zangada.

Josephine, ex-Jehoshaphat, embora não resistisse ativamente, mostrava todos os indícios de resistência passiva. Tirada de um delicioso sono, tinha sido carregada, por Laura, até o terraço.

— Pronto — disse Laura, colocando Josephine no chão, perto do carrinho do bebê.

Laura encaminhou-se para o gramado, indo até a limeira.

Josephine, sacudindo o rabo vagarosamente, lembrando-se indignada do sono interrompido, começou a lavar o estômago, esticando a pata traseira. Assim que terminou esta parte da toalete, bocejou e deu um olhar em volta. Começou a lavar desinteressadamente as costas, mudou de idéia, bocejou novamente e, por fim, resolveu retirar-se para os fundos da casa.

Laura seguiu-a, apanhou-a com determinação e colocou-a de volta no terraço; Josephine olhou para a dona furiosa, sacudindo o rabo. Assim que Laura voltou para a árvore, Josephine levantou-se, bocejou, espreguiçou-se e partiu. Novamente Laura trouxe-a de volta.

— Está quente aqui, Josephine!

Era óbvio que Josephine não concordava; estava furiosa, sacudindo o rabo e retesando as orelhas.

— Alô, Laura.

Laura voltou-se espantada. O Sr. Baldock estava atrás dela, sem que tivesse sido notado. Josephine aproveitando-se da distração momentânea de Laura, correu para uma árvore e encarapitou-se num galho, bem alto, apreciando a cena com seus olhos maliciosos.

— É uma das vantagens que os gatos têm sobre os seres humanos — disse Baldock. — Quando querem escapar dos homens sobem nas árvores. Nós, por exemplo, se quisermos escapar de alguém, temos que nos fechar no banheiro.

Laura chocou-se com a comparação. Banheiro era uma palavra que entrava na categoria das coisas que a antiga ama considerava imprópria para mocinhas.

— Mas temos que sair dele — continuava Baldock — quanto não fosse para deixar outras pessoas entrarem. Este seu gato pelo jeito vai passar algumas horas em cima desta árvore!

Imediatamente, Josephine demonstrou que os gatos são guiados por outra lógica, pois desceu da árvore correndo e veio se enroscar nas calças do Sr. Baldock.

Era isto que eu queria, parecia dizer Josephine.

— Alô, Baldy — disse Angela, aparecendo pelo terraço. — Veio cumprimentar a herdeira? Ah! meu Deus, estes gatos! Laura, meu bem, leve Josephine lá para dentro. Coloque-a na cozinha. Eu estou para arranjar um mosqueteiro para proteger o berço, mas ainda não tive tempo. Arthur caçoa de mim, mas já ouvi falar de gatos que pulam e adormecem no colo dos bebês e acabam asfixiando-os. Não quero gatos aqui no terraço.

O Sr. Baldock acompanhou, com o olhar, Laura que se retirava com o gato. Depois do almoço, Arthur Franklyn levou o amigo para a biblioteca.

— Tenho um artigo aqui...

O Sr. Baldock interrompeu-o, sem a menor cerimônia, como era seu costume.

— Espere um pouco... preciso falar com você. Por que não manda a menina para a escola?

— Laura? Mas é o que vamos fazer. Depois do Natal, é claro, quando ela estiver com onze anos...

— Não devem esperar até lá. Mande-a já!

— No meio do ano? Além do mais a Srta. Weekes...

O Sr. Baldock deu sua opinião, entre os dentes, sobre a Srta. Weekes.

— Laura não precisa ser instruída por uma solteirona frustrada, cheia de idéias revolucionárias. O que ela precisa é o convívio de outras crianças, outras ocupações. Senão vai ocorrer uma tragédia.

— Tragédia? Como assim?

— Dois meninos, há pouco tempo, arrancaram a irmãzinha o berço e a atiraram no rio porque achavam que a criança estava dando muito trabalho à mãe. Pelo menos elas acreditavam nisso!

Arthur Franklyn limitou-se a olhar para Baldock.

— Por ciúmes? — perguntou, por fim.

— Meu caro Baldy, Laura não é nem jamais foi uma criança ciumenta.

— Como sabe? O ciúme corrói por dentro.

— Ela nunca demonstrou ciúmes. É uma menina doce, sem grande temperamento, gentil... pelo menos, eu acho.

— Você acha — resmungou Baldock. — Nem você nem Angela têm a menor idéia do que se passa com Laura.

Arthur Franklyn sorriu confiante, pois estava acostumado aos exageros de Baldock.

— Vamos ficar de olho nela, se é isso que o está preocupando. Vou falar com Angela, preveni-la para não fazer muita festa na pequena e dar mais atenção a Laura. Isto será o suficiente. Aliás, sempre quis saber o que você viu em Laura.

— Ela promete ser uma personalidade muito interessante, pelo menos na minha opinião — disse Baldock.

— Vou falar com Angela... sei que ela vai achar graça.

Mas Angela, para surpresa do marido, não achou graça.

— Acho que ele tem certa razão. Os psicólogos concordam que é normal uma criança ter ciúmes do irmão. É claro que Laura não demonstra nada, sempre tão calma... além do mais não parece estar tão ligada comigo... vou procurar demonstrar que estou ligada a ela...

Por isso, uma semana depois, quando iam passar o fim de semana fora, visitando uns amigos, Angela recorreu a Laura.

— Você vai tomar conta do bebê, não vai? Pelo menos enquanto estivermos fora. Sinto-me segura, sabendo que você está aqui para olhar por tudo. A nova babá ainda não tem muita experiência...

Laura ficou satisfeita com a recomendação da mãe. Sentiu-se importante, adulta. Seu rosto brilhou com a nova responsabilidade.

Infelizmente, logo depois, ouviu uma conversa entre Ethel e a nova babá que destruiu a recomendação da mãe.

— Que criança linda, não é? — perguntou Ethel, apontando para o bebê. — Que gracinha! É estranho Laura ser tão sem graça... não me admira que os pais sempre tenham preferido Charles e agora esta pequerrucha. Laura é muito boazinha mas tão feiosa...

Aquela noite, Laura ajoelhou-se à beira da cama.

A Senhora da Capa Azul não tinha tomado conhecimento da intenção. Laura precisava recorrer a uma instância superior.

— Por favor, Deus, mate o bebê depressa e mande-o para o Céu!

Deitou-se em seguida, o coração batendo, sentindo-se cuida e má. Havia cometido o que o Sr. Baldock dissera que não devia fazer. Desobedecera um homem muito inteligente... Quanto à vela que acendera à Senhora da Capa Azul, Laura não se sentia culpada.

Talvez porque achasse que sua prece não seria atendida. Também não tinha importância colocar Josephine no terraço; ela nunca colocaria o gato dentro do carrinho, pois sabia que isto era errado e criminoso. Mas e se Josephine por conta própria tivesse...?

Hoje, contudo, ela cruzara o Rubicão. Deus era Todo- Poderoso ...

Arrepiada de frio, Laura finalmente adormeceu.