A Carga

Agatha Christie · Capítulo 12 de 25

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A Carga

Capítulo 2

Laura voltou para casa mais reconfortada. Ao entrar foi recebida por Ethel que, surgindo das sombras, murmurou, num tom confidencial:

— Tem um senhor esperando, um tal de Glyn-Edwards... é muito jovem. Está na sala de visitas... pois disse que ia esperar. Não se trata de vendedor ou coisa parecida.

Laura sorriu, sabendo que podia confiar no tirocínio de Ethel.

Glyn-Edwards? Quem seria? Talvez um dos jovens pilotos que estivera na casa, durante a guerra?

Cruzou o hall em direção à sala de vistas; assim que entrou viu que não conhecia o jovem sorridente que pareceu tão surpreso em vê-la.

— Sra. Franklyn? Pensei que... — o rapaz voltou a sorrir. — Ela é sua irmã?

— Shirley?

— Sim — disse Henry, aliviado. — Shirley. Conhecia-a ontem, no jogo de tênis. Meu nome é Henry Glyn-Edwards.

— Sente-se, por favor. Shirley deve estar chegando; foi tomar chá na casa do pároco. Aceita um sherry ou prefere gim?

Ele aceitou um sherry e os dois se puseram a conversar amigavelmente. Henry tinha um tom desarmante que não a incomodava e nem parecia grosseiro; falava com naturalidade e alegria, sem constrangimento, e mesmo que fosse um pouco irreverente, jamais faltava com a educação.

— Está hospedado em Bellbury? — perguntou Laura.

— Não, estou com minha tia em Endsmoor.

Laura surpreendeu-se com a explicação, pois sabia que Endsmoor era uma pequena cidade perto de Mullchester.

— Ontem, pedi emprestada a raquete de um amigo — continuou o jovem, — e estupidamente a esqueci no clube. Vim buscá-la e resolvi devolvê-la mas acabei ficando sem gasolina.

— Encontrou a raquete? — perguntou Laura, enquanto Henry a observava curioso.

— Sim — respondeu. — Foi uma sorte! Infelizmente, sou meio distraído. Quando eu morava na França vivia perdendo meus apetrechos de tênis — concluiu Henry, piscando o olho maliciosamente.

— E como estava por perto — prosseguiu Henry, — resolvi fazer uma visita a Shirley.

Laura sentiu, mas não pôde precisar, um tom de acanhamento nas palavras dele.

Como era um rapaz interessante, de uma graça particular, ela sentiu-se incapaz de hostilizá-lo. E no final das contas, por que deveria hostilizá-lo? Por um sentimento de possessividade. Estranho que Shirley não tivesse falado nele.

Continuaram a conversar até às sete horas. Henry não parecia se incomodar com as convenções usuais sobre boas maneiras. Ele obviamente tinha vindo com algum intuito e iria ficar até Shirley chegar. Laura, por seu lado, estava começando a se preocupar com a demora da irmã; pedindo desculpas ao visitante, ela foi para o estúdio a fim de telefonar para a casa do vigário.

— Shirley? — exclamou a senhora do vigário, — ah! Sim, Laura, ela está aqui, jogando golfe com Robin. Vou chamá-la.

Depois de um pequeno intervalo Laura ouviu a voz alegre e despreocupada de Shirley.

— Laura?

— Você tem um admirador — disse Laura, secamente.

— Que admirador? Quem é?

— Chama-se Glyn-Edwards. Chegou há uma hora e meia e ainda está aqui. Parece que pretende esperá-la até que você se decida a voltar para casa. Infelizmente, já esgotamos todos os assuntos possíveis.

— Glyn Edwards? Nunca ouvi falar dele. Bem, é melhor eu voltar. Que pena! Logo agora que eu estava começando a liquidar com Robin.

— Ele não jogou tênis com vocês ontem?

— Henry? — perguntou Shirley incrédula, num tom que surpreendeu Laura.

— Pode ser Henry — disse a irmã. — Ele está hospedado com uma tia...

Shirley, quase sem fôlego, a interrompeu.

— É Henry, já estou indo para aí.

Laura desligou espantada. Voltou vagarosamente para a sala.

— Shirley está voltando — disse. — Espero que possa ficar conosco para o jantar.

 

3

Laura encostou-se no espaldar da cadeira, presidindo a mesa, e observando os dois. A noite caía, mas ainda não estava escuro e as janelas estavam abertas. A luz enfeitava o rosto dos jovens, que pareciam tão absortos um no outro.

Olhando-os clinicamente Laura tentou compreender o crescente ressentimento que a invadia. Será que não tinha simpatizado com Henry? Não, não era possível. Ela reconhecia o encanto do rapaz e sua boa educação. Como ainda não sabia coisa alguma sobre ele, não podia formar um julgamento. Talvez fosse um tanto casual, um tanto displicente, um pouco desligado. É, talvez fosse isso — um tanto desligado.

Certamente que no âmago deste sentimento estava Shirley. O que Laura sentia era o choque natural que se sente quando se descobre uma faceta desconhecida numa pessoa que se julgava conhecer profundamente. Laura e Shirley não eram muito expansivas, mas recordando o passado, Laura lembrou-se de Shirley falando sobre seus ódios, amores, desejos e frustrações.

Ontem, quando Laura perguntara casualmente: — Alguém de fora? Ou só o pessoal de Bellbury? Shirley respondera: — Só o pessoal de Bellbury.

Laura perguntou-se por que Shirley não falara em Henry. Em seguida, lembrou-se da falta de fôlego da irmã ao saber que ele estava em casa. Aos poucos resolveu prestar mais atenção ao que eles diziam.

— ... se quiser eu a apanho em Carswell — concluía Henry.

— Eu adoraria, nunca estive numa corrida de cavalos.

— Marldon é uma barbada, mas um amigo meu tem um palpite certo. Podíamos...

Laura concluiu calmamente que sua irmã estava sendo cortejada. A presença inexplicável de Henry, a falta de gasolina, a desculpa esfarrapada — ele estava interessado em Shirley. Naquele momento ela não pensou que tudo poderia dar em nada. Acreditou, ao contrário, num futuro nada promissor.

Henry e Shirley se casando. Laura tinha certeza. A irmã casando com um estranho... um homem que ela mal conhecia e que talvez nunca chegasse a conhecer bem.

E Shirley, será que algum dia conheceria verdadeiramente este rapaz?

Capítulo Três

 

1

— Não sei — disse Henry, olhando para Shirley, — se você devia conhecer minha tia. Não acredito que vá ser muito divertido.

Os dois estavam debruçados na cerca, observando o cavalo número 19 que estava sendo exercitado na pista. Era a terceira vez que Shirley ia ao padding com Henry. Os outros jovens que ela conhecera geralmente gostavam de cinema, mas Henry só se entusiasmava por esportes e era este interesse que o tornava mais atraente aos olhos de Shirley.

— Não creio que não vá ser divertido — respondeu Shirley com doçura.

— Não tem muito jeito de ser ao contrário — disse Henry. — Minha tia tem a mania de horóscopos e algumas idéias preconcebidas sobre as Pirâmides.

— Você não acha incrível, Henry, que eu não saiba sequer o nome da sua tia?

— Não sabe? — perguntou Henry, surpreso.

— É Glyn-Edwards?

— Não, é Fairborough, Lady Muriel Fairborough. Ela na verdade não é má pessoa; não liga muito para mim, mas quando é necessário está sempre pronta a enfrentar uma crise.

— Este cavalo é muito deprimente — comentou Shirley, olhando para o número 19, enquanto se preparava para abordar outro assunto.

— Feio, também — disse Henry. — É um dos piores cavalos de Tommy Twisdom. Creio que veio para cá na primeira leva.

Apareceram dois cavalos novos na pista e outras pessoas começaram a debruçar-se sobre a cerca.

— Já é o terceiro páreo? — perguntou Henry, consultando um caderno. — Já apareceram os números? Será que o número 18 está correndo?

Shirley examinou a tabela.

— Sim.

— Vamos dar uma tentada nele se não estiver muito caro.

— Você entende um bocado sobre cavalos, não é Henry? Onde foi criado havia muitos cavalos?

— Não, tenho muito mais experiência com bookmakers.

Shirley preparou-se para fazer a pergunta decisiva.

— Você não acha engraçado que eu saiba tão pouco da sua vida. Você tem pai e mãe ou é órfão como eu?

— Meus pais morreram num bombardeio; estavam no Café Paris.

— Que horror!

— Não é mesmo? — comentou Henry, sem um mínimo de emoção. Como para corrigir esta impressão, ele acrescentou: — Já faz mais de quatro anos; eu gostava muito deles, mas não se pode passar a vida olhando para o passado.

— Acho que tem razão — concordou Shirley, duvidosa.

— Por que esta sede de informações?

— Bem, é natural a gente se interessar pelos outros — disse Shirley, quase em tom de desculpa.

— É mesmo? — perguntou Henry, realmente surpreso. — De qualquer maneira, acho bom você vir conhecer minha tia... creio que assim Laura ficará menos preocupada.

— Laura?

— Laura é uma pessoa convencional, não é? É para que ela se certifique de que sou um homem respeitável.

Pouco tempo depois chegou um bilhete de Lady Muriel convidando Shirley para almoçar e avisando que Henry passaria, de carro, para apanhá-la.

 

2

A tia de Henry parecia a Rainha Branca1; usava uma roupa de lã de várias tonalidades, certamente tricotada por ela mesma; seu cabelo, amarrado num rolo, no alto da cabeça, era castanho, com alguns fios cinza, caindo desalinhadamente por volta da cabeça. Era uma mulher que conseguia combinar eficiência com desligamento.

1 Personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll — N.T.

— Que bom que você veio, meu bem — disse ela, apertando a mão de Shirley, enquanto deixava cair um novelo de lã. — Apanhe meu novelo, meu filho. Agora diga-me, em que dia nasceu?

— 18 de setembro de 1928.

— Ah! Virgem... foi o que pensei. A que horas?

— Não sei.

— Que pena; pois bem, procure descobrir pois é de uma importância capital sabermos esses dados. Onde estão minhas outras agulhas? As de número 8? Estou fazendo tricô para a Marinha... isto é um suéter com gola roulé...

Ela estendeu a malha.

— Deve ser um marinheiro bem grande — comentou Henry.

— Eles devem ter gente de todo o tamanho na Marinha — disse Lady Muriel, sem se perturbar. — No Exército também — acrescentou distraída. — Lembro-me do major Tug Murray... um homem enorme que para montar tinha cavalos especiais, até que acabou quebrando o pescoço...

Um velho mordomo abriu a porta e anunciou que o almoço estava servido. Foram para a sala de jantar onde foi servido um almoço simples e Shirley não pôde deixar de notar que a prata estava manchada.

— Pobre Melsham — comentou Lady Muriel, quando o mordomo saiu da sala. — Ele na verdade não vê coisa alguma! E treme tanto que fico apavorada em pensar que a comida não vai chegar à mesa. Já pedi para ele colocar tudo no bufete mas não há quem o convença. Também não abre mão da prata, embora não consiga limpá-la direito. Implica com os empregados... não se acostuma com as novidades... ainda mais agora que tudo mudou com a guerra!

Voltaram para a sala de visitas onde Lady Muriel conduziu a conversa para os temas bíblicos, as medidas das Pirâmides, o preço dos cupons de racionamento e as dificuldades de se manter uma horta. Em seguida, embrulhou o tricô e anunciou que ia levar Shirley para dar uma volta no jardim, despachando Henry com um recado para o chofer.

— Ele é um amor de rapaz — disse ela, enquanto conduzia Shirley. — Muito egoísta e extravagante, mas que se pode esperar com a educação que recebeu!

— Ele puxou à mãe? — perguntou Shirley cuidadosamente .

— Não, Mildred era um prodígio de contenção e economia. Para ela isto era uma questão de honra. Nunca pude entender por que meu irmão se casou com ela, que não era bonita, nem interessante. Acho que ela só viveu bem, com ele, quando moraram no Quênia, no meio de uma fazenda. Mais tarde, é que ingressaram na sociedade, mas não creio que ela tenha se dado tão bem.

— O pai de Henry... — começou Shirley.

— Pobre Ned... foi processado três vezes por falência, mas era um homem agradabilíssimo. Henry lembra muito ele, às vezes. Repare nestas folhagens... que estranhas... não nascem em qualquer lugar.

Ela arrancou um galho seco e olhou para Shirley.

— Você é muito bonita... e muito jovem. Não se incomode se faço comentários muito pessoais.

— Já estou com quase dezenove anos.

— Muito bem. E sabe fazer tudo que as moças inteligentes sabem fazer hoje em dia?

— Não... não sei. Minha irmã quer que eu faça um curso de secretariado.

— Deve ser divertido... pode vir a ser secretária de um deputado, dizem que é interessante... não sei bem por quê. Mas não acho que você vá trabalhar a vida inteira... vai acabar se casando logo, — disse Lady Muriel, com um suspiro. — O mundo anda tão estranho — prosseguiu ela; — acabo de receber uma carta de um velho amigo... a filha dele casou-se com um dentista. No meu tempo uma moça não se casava com um dentista... um médico podia ser... mas nunca com um dentista!

Lady Muriel voltou a cabeça para o lado.

— Aí vem Henry. Então, já veio tirar a senhorita...

— Franklyn.

— A Srta. Franklyn de mim?

— Pensei que seria agradável darmos um passeio até Bunny Heath.

— Você pegou gasolina com Harman?

— Só uns dois galões, tia Muriel.

— Não quero mais isto, ouviu? Você precisa arranjar gasolina sozinho. O pouco que eu consigo mal dá para mim.

— Ora titia, no fundo a senhora não liga para isso...

— Bem, desta vez passa. Adeus minha cara. Não esqueça de me mandar os detalhes sobre o seu nascimento. Não esqueça! Preciso desses dados para tirar seu horóscopo. Use verde, todos os nativos de Virgem devem usar verde.

— Eu sou Aquário — disse Henry, — de 20 de janeiro.

— Instável — respondeu a tia, — lembre-se disso, minha cara. Não se pode confiar num aquariano.

— Espero que não tenha se aborrecido — disse Henry quando já estavam na estrada.

— Absolutamente, achei sua tia muito simpática.

— Não precisa exagerar. Ela é passível.

— Gosta muito de você.

— Não creio; o que acontece é que ela não se importa que eu fique aqui, porque eu não a atrapalho. Já está na época de voltar, vou ser desmobilizado.

— E o que pretende fazer?

— Não sei. Talvez estude Direito.

— Sim?

— Mas, acho que deve ser muito puxado. Talvez eu me meta num negócio.

— Que tipo?

— Depende de arranjar um amigo que dê um impulso. Tenho alguns amigos banqueiros, além do mais conheço alguns milionários que gostariam de me ajudar a começar na vida. Eu não tenho muito dinheiro — prosseguiu Henry, sorrindo. — Para ser exato só tenho uns trezentos e poucos... a maioria dos parentes é de um pão-durismo incalculável. Quem me salva de vez em quando é tia Muriel, mas infelizmente ela também não anda bem de dinheiro. Tenho também uma madrinha que é bastante generosa, quando está bem disposta. Tudo muito pouco mas...

— Por que está me contando tudo isto? — perguntou Shirley, espantada com a torrente de informações.

Henry corou e derrapou com o carro ligeiramente.

— Pensei que você soubesse — murmurou ele, num tom quase ininteligível, — querida... você é tão linda... quero casar com você... você precisa casar comigo... precisa.

 

3

Laura olhou para Henry com desânimo. Sentia-se como se estivesse subindo por uma ladeira íngreme e escorregadia, e acabava sempre voltando para o mesmo lugar.

— Shirley é muito jovem — protestou ela, — muito jovem.

— Ora, Laura, ela está com dezenove anos. Tenho uma avó que se casou com dezesseis e tinha um casal de gêmeos, antes de completar dezoito anos.

— Isto era antigamente.

— Muita gente se casou jovem por causa da guerra...

— E hoje em dia está amargamente arrependida.

— Você não acha que está sendo muito pessimista? Não creio que nem eu nem Shirley vamos nos arrepender.

— Isto você não pode garantir.

— Posso — respondeu Henry, sorrindo, — Tenho certeza, amo Shirley. Amo Shirley loucamente. Farei tudo para torná-la feliz. — Olhou para Laura com esperança. Amo-a demais — repetiu.

Como já havia acontecido antes, a sinceridade de Henry desarmava Laura.

— Eu sei que não estou muito bem de finanças...

Outro trunfo desarmante. Não era por causa do dinheiro que Laura estava preocupada; ela não esperava que Shirley fizesse “um bom casamento.” Henry e Shirley começariam a vida com pouco dinheiro mas com uma razoável segurança. As perspectivas de Henry não eram melhores nem piores do que de centenas de outros rapazes no fim da guerra. Ele era saudável, inteligente, educado e cativante, e era justamente por causa deste traço que Laura não aprovava o casamento. Ninguém tinha o direito de ser tão cativante.

Quando Laura voltou a falar resolveu ser mais autoritária.

— Não, Henry, não podemos pensar em casamento para já. Pelo menos um ano de noivado, que dará tempo de vocês se certificarem de que é mesmo isso que desejam.

— Francamente, Laura, você fala como um pai vitoriano de cinqüenta anos de idade.

— Tenho que ser um pai para Shirley. Neste tempo de noivado você terá oportunidade de arranjar um emprego, e se estabelecer na vida.

— Que deprimente! — comentou Henry, sorrindo. — Na verdade acho que você não quer que Shirley se case.

Laura enrubesceu.

— Não seja tolo.

Henry pareceu satisfeito com a perspicácia do comentário e saiu para procurar Shirley.

— Laura está criando problemas — disse ele. — Por que não nos casamos? Eu não quero esperar, detesto ficar esperando! Se espero muito tempo para obter qualquer coisa acabo perdendo o interesse. Nós dois podíamos casar num cartório qualquer, sem grandes pompas, que tal?

— Ora, não podemos fazer uma coisa destas!

— Não sei por que não. Além de ser mais econômico daria muito menos trabalho.

— Eu sou menor, por isso creio que precisamos do consentimento de Laura.

— Tem razão. Ela é sua tutora, não é? E o que faz aquele velho?

— Acho que Baldy é o testamenteiro.

— O pior de tudo — disse Henry — é que Laura não gosta de mim.

— Que bobagem, Henry. Tenho certeza de que gosta.

— Não gosta. É claro que está com ciúmes.

— Você acha? — perguntou Shirley perturbada.

— Desde o começo não foi com a minha cara, e eu fiz de tudo para ser simpático — queixou-se Henry em tom de fúria.

— Sei que você é um amor com ela, mas precisa compreender que a surpresa foi muito grande. Nós só nos conhecemos há três semanas... e não creio que haja mal algum em esperar um ano...

— Meu amor, não quero esperar um ano. Quero casar com você, já! Amanhã, na semana que vem. Você não quer se casar comigo?

— Quero, Henry, quero!

 

4

Como era de se esperar, Laura ofereceu um jantar ao Sr. Baldock para apresentar Henry. Assim que acabou a refeição, Laura voltou-se ansiosa para o velho amigo.

— Então que achou dele?

— Vamos com calma. Como posso julgar uma pessoa que mal conheci? Parece um rapaz educado, não me tratou como se eu fosse um velho senil, ouviu-me com atenção!

— É tudo que tem a dizer? Acha que ele seria bom para Shirley?

— Ninguém poderá ser bom para Shirley, de acordo com seu critério.

— Talvez tenha razão... mas, você gostou dele?

— Sim, me pareceu um rapaz bem agradável.

— Acha que vai dar um bom marido?

— Não posso saber, mas creio que como marido ele não vai ser grande coisa.

— Então não podemos permitir esse casamento!

— Não podemos, como? Se ela quiser casar, o problema é dela. Além do mais, não creio que Shirley seria capaz de escolher um bom marido. Não digo que ele vá tratá-la mal, envenená-la ou desfeiteá-la em público. Aliás, um marido bem educado já é uma grande coisa.

— Sabe o que penso dele? Considero-o egoísta e... inescrupuloso .

O Sr. Baldock ergueu as sobrancelhas.

— Talvez você tenha razão.

— E então?

— Mas se ela gosta dele, Laura. Gosta muito, é óbvio que ela é louca por ele. Talvez Henry não seja o ideal, para nós dois, mas é o ideal para Shirley.

— Se ela ao menos pudesse vê-lo realisticamente — protestou Laura.

— Bem, um dia acabará vendo — sentenciou Baldock.

— Aí será tarde demais. Eu queria que ela o visse como é, agora.

— Não ia fazer a menor diferença. Ela parece disposta a aceitá-lo como ele é!

— Se ela fosse para o exterior, uma viagem à Suíça talvez... mas as coisas se complicaram tanto com a guerra!

— Se quer minha opinião — disse Baldock, — não vale a pena impedir que as pessoas se casem. Se houvesse algum impedimento sério, se ele fosse casado ou tivesse cinco filhos, se fosse epiléptico ou tivesse sido preso por estelionato... aí sim, justificar-se-ia uma intervenção. Mas, quer saber o que aconteceria se você mandasse Shirley para a Suíça ou para um cruzeiro pelas ilhas dos Mares do Sul?

— O quê?

O Sr. Baldock sacudiu o dedo no ar.

— Ela voltaria casada com um homem igual a esse. As pessoas sabem o que querem. Shirley quer Henry e se não puder casar com ele, vai procurar encontrá-lo a vida inteira. Isso é um fenômeno muito comum. Um velho amigo foi casado com uma mulher que lhe infernizou a vida, o aborreceu, perseguiu, escravizou, não lhe deu um momento de sossego enquanto nós nos perguntávamos por que ele não a assassinava. Mas ele teve sorte, pois ela morreu de pneumonia dupla. Seis meses depois ele parecia outro homem, várias moças passaram a se interessar por ele. Dezoito meses depois o que aconteceu? Ele casou com uma megera pior do que a falecida. A natureza humana é um mistério.

Baldock deu um longo suspiro.

— Portanto, pare de andar de um lado para o outro como uma trágica grega. Já lhe disse para levar a vida menos a sério. Não adianta querer dirigir o destino dos outros. Shirley vai seguir o caminho que quiser e, se perguntou minha opinião, aí vai: ela sabe se defender melhor sozinha do que com sua ajuda. Minha única preocupação é você.