A Carga

Agatha Christie · Capítulo 15 de 25

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A Carga

Capítulo Seis · O problema, pensou Shirley, é que agente acaba se cansando.

 

Encostou-se no assento do metrô.

Três anos atrás ela desconhecia o que fosse o cansaço. Talvez a mudança para Londres fosse a causa; começara num emprego de meio expediente, mas acabara tendo de trabalhar o dia inteiro, numa loja de flores. Depois do trabalho tinha que fazer as compras, voltar para casa, na hora do rush, fazer o jantar. Se bem que Henry gostasse dos pratos que ela preparava.

Fechou os olhos um momento. Sentiu um forte pisão no pé. Abriu os olhos, pensando: — Meu Deus, como estou cansada! Recordou os três anos e meio de casada...

A felicidade completa...

As contas...

Sonia Cleghorn...

A derrota de Sonia Cleghorn, Henry arrependido, amando-a novamente...

Mais dificuldades financeiras...

Muriel vindo em socorro...

Umas férias caras e desnecessárias em Cannes...

A Sra. Emlyn Blake...

A libertação de Henry dos tentáculos da Sra. Emlyn Blake...

Henry agradecido e penitente...

Bertha, a madrinha, vindo, em socorro...

A Srta. Lonsdale...

Problemas financeiros...

Ainda a Srta. Lonsdale...

Laura...

Escondendo a verdade de Laura...

Laura descobrindo tudo...

Briga com Laura...

Apendicite. Operação. Convalescença...

Volta para casa...

Fase final da Srta. Lonsdale...

Shirley recordou com detalhes o último item: estava descansando no apartamento, o terceiro que havia alugado desde que casara, mobiliado por imposição dos credores, no sistema de aluguel.

A campainha tinha tocado e ela sentiu-se muito fraca para abrir a porta. Quem quer que fosse acabaria desistindo. No entanto, a campainha continuava tocando.

Acabou levantando-se furiosa. Abriu a porta e viu-se diante da Srta. Lonsdale.

— Ah! É você, Sue.

— Sim.Posso entrar?

— Para dizer a verdade estou exausta. Acabei de chegar do hospital.

— Eu sei, Henry me falou. Pobrezinha! Trouxe umas flores para você.

Shirley apanhou o buquê sem se dar o trabalho de agradecer.

— Entre — disse.

Deitou-se no sofá com os pés para o alto. Susan pegou ama cadeira.

— Enquanto você estava no hospital eu não quis preocupá-la, mas agora acho que está na hora de acertarmos os ponteiros.

— Como assim?

— Bem... Henry.

— Que tem Henry?

— Meu bem, você não vai dar uma de avestruz, vai? Enterrar a cabeça na areia?

— Não creio.

— Você sabe, então, que eu e Henry estamos apaixonados...

— Teria que ser cega, surda para não perceber — disse Shirley, friamente.

— É claro. Além do mais, Henry adora você. Não quer fazer coisa alguma que possa magoá-la. É isto.

— É isto o quê?

— Estou me referindo ao divórcio.

— Henry quer um divórcio?

— Sim.

— E por que ele não me disse?

— Você conhece Henry. Não quer se comprometer e além do mais não quer preocupá-la.

— Mas vocês dois querem se casar?

— Sim. Que bom que você entendeu logo.

— Eu entendi muito bem — disse Shirley vagarosamente.

— Você então fala com ele?

— Falo.

— Que bom. No fim, eu acho...

— Agora vá embora — disse Shirley. — Acabei de sair do hospital e estou cansada. Vá embora... já!

— Ora, veja! — exclamou Susan, levantando-se indignada. — Ao menos podemos tentar parecer gente civilizada.

Retirou-se batendo a porta.

Shirley ficou quieta. Uma lágrima escorreu pelo rosto, mas ela a enxugou furiosa.

Três anos e meio, pensou, três anos e meio, para chegarmos a isso!

Sem conseguir se conter começou a rir. Estava se comportando como uma heroína de um melodrama barato.

Não sabia se tinha ouvido a chave na porta cinco minutos ou horas depois; devia ter adormecido.

Ele entrou sorridente e feliz como de costume, trazendo uma enorme braçada de rosas amarelas.

— Para você, meu amor.

— Que lindas! — exclamou Shirley. — Acabei de ganhar umas violetas meio murchas e amareladas.

— Quem mandou?

— Não foram mandadas, foram trazidas por Susan Lonsdale.

— Que impertinência!

Shirley olhou para ele espantada.

— Porque ela veio aqui? — perguntou Henry.

— Você não sabe?

— Creio que sim. Esta moça está se tornando uma maçada.

— Ela veio comunicar que você quer o divórcio.

— Que eu quero me divorciar?

— Sim. Não é verdade?

— Claro que não.

— Você não quer casar com Susan?

— De maneira alguma.

— Pois ela quer casar com você.

— Infelizmente — admitiu Henry. — Vive me telefonando, mandando cartas. Não sei o que fazer com ela.

— Você disse a ela que pretendia se casar?

— Pode ser — respondeu Henry, num tom vago. — Ela deve ter abordado o assunto e eu não neguei... fiquei calado... — Henry sorriu sem graça. — Você não quer se divorciar de mim, quer Shirley?

— Quem sabe — respondeu Shirley.

— Querida...

— Estou ficando cansada, Henry...

— Sou um estúpido, faço tudo errado — disse Henry, ajoelhando-se ao pé do sofá, com um sorriso maravilhoso. — Mas eu amo você, Shirley. Estas bobagens não contam, não querem dizer coisa alguma. Não queria estar casado com outra pessoa no mundo que não fosse você... espero que continue me aceitando...

— Então, o que sentiu por Susan?

— Não poderíamos mudar de assunto? Susan é tão chata!

— Eu gostaria de entender.

— Bem — disse Henry, pensativo. — Por uns quinze dias fiquei louco por ela, não podia dormir, nem comer direito. Depois passei a achar que ela era maravilhosa, mais tarde comecei a achar que era um pouco chata. Ultimamente concluí que ela é o fim!

— Pobre Susan.

— Não se preocupe com ela; é uma mulher amoral e sem escrúpulos.

— Às vezes, Henry, penso que você é um degenerado.

— Não sou — protestou Henry, indignado. — Não vejo por que as pessoas tenham que se manter grudadas. As coisas só têm graça quando não são levadas a sério.

— Egoísta!

— Sou mesmo? Acho que sim! Mas você não se importa, não é?

— Não vou me separar de você, mas estou cheia, ouviu? Não se pode confiar em você com dinheiro... além disso, creio que vai passar a vida tendo casos estúpidos...

— Não, nunca, eu juro, nunca mais.

— Henry, por favor, seja honesto.

— Farei o possível, mas procure compreender que esses casos não significam coisa alguma! Para mim só existe você

— Eu e que estou com vontade de ter um caso — comentou Shirley.

Henry declarou que não a culparia caso isso acontecesse. Em seguida, sugeriu que fossem jantar fora, num lugar divertido. Foi uma noite maravilhosa...