A Herdeira das Sombras
Capítulo Quatro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Se fosse de porcelana ou m árm ore, teria se despedaçado no chão de pedra.
Era carne.
Por um m om ento, ficou agradecida por ser um a m ão aparentem ente norm al, sem m utilações nem deform idades.
Com a respiração irregular, Hekatah se levantou e olhou de novo para o baú aberto. Moveu a m ão para trás e para a frente, acim a do baú. Erguidas pelo vento da Arte, as raspas se espalharam pelo chão.
Outra m ão. Antebraços. Braços. Pés. Pernas. Coxas. Genitais. Tronco. E no canto, olhando-a fixam ente com um olhar vazio, estava a cabeça de Lord Menzar.
Hekatah gritou, m as nem ela m esm a saberia dizer se de m edo ou raiva. Parou bruscam ente.
Um aviso. Ele não dava m ais do que um aviso. Mas por quê?
Hekatah se abraçou e sorriu. Em seu trabalho na escola de Halaway, Menzar devia ter se aproxim ado dem ais da nova queridinha de Saetan.
Suspirou. Saetan podia ser m uito possessivo. Com o Menzar o provocara a ponto de ser executado, não era provável que a garota fosse autorizada a sair do Paço dos SaDiablo sem um acom panhante escolhido a dedo. E ela sabia bem que quem quer que tivesse sido escolhido por Saetan para um serviço particular não seria m uito receptivo a qualquer tipo de suborno. Por isso...
Hekatah suspirou novam ente. Teria de ser bastante convincente para persuadir Greer a entrar escondido no Paço para ver o novo bichinho de estim ação do Senhor Suprem o.
Ainda bem que a garota que choram ingava no quarto ao lado tinha sido um aperitivo bem escolhido.
9 / Terreille Surreal passeava pela rua tranquila e isolada onde ninguém fazia perguntas. Hom ens e m ulheres estavam sentados nos alpendres, apreciando a leve brisa que perm itia suportar a tarde quente e úm ida. Não lhe dirigiam a palavra, e Surreal, que passara dois anos da sua infância num a rua desse tipo, fazia-lhes o favor de passar com o se fossem invisíveis.
Ao chegar ao edifício onde tinha um apartam ento no últim o andar, Surreal reparou no olhar que cruzou com o seu por um breve m om ento. Com toda a naturalidade, passou o pesado cesto de com pras da m ão direita para a esquerda enquanto observava um hom em atravessar a rua, aproxim ando-se de m aneira cautelosa.
Com este não usaria o punhal, decidiu. Um a faca afiada, se necessário. Pela m aneira com o ele se m ovia, parecia ainda estar se recuperando de um a ferida profunda do lado esquerdo. Tentaria proteger a região. Ou talvez não, se fosse um Senhor da Guerra experiente em com bates.
O hom em parou perto dela.
— Senhora.
— Senhor da Guerra.
Percebeu um trem or de m edo nos olhos do hom em , que no entanto se apressou em ocultá-lo. O fato de ela conseguir identificar sua casta tão facilm ente, apesar de seus esforços para escondê-la, era um aviso de que Surreal era forte o bastante para vencer qualquer disputa em que se envolvessem .
— O cesto parece pesado — disse o hom em , ainda cauteloso.
— São apenas alguns livros e o j antar de hoj e.
— Poderia levá-lo para você... daqui a alguns m inutos.
Surreal entendeu o recardo. Alguém a aguardava. Se sobrevivesse ao encontro, o Senhor da Guerra subiria com o cesto. Caso contrário, dividiria os despoj os com alguns privilegiados do seu prédio, com prando assim um pouco de aj uda de que um dia pudesse precisar.
Surreal colocou o cesto na calçada e recuou.
— Dez m inutos. — Assim que o hom em concordou, subiu agilm ente a escadaria da frente do prédio e fez um a pausa para colocar dois escudos Cinza de proteção à sua volta e um escudo Verde sobrepondo-os. Esperava que quem quer que a aguardasse lá dentro reagisse prim eiro ao escudo Verde, de m enor im portância. Invocou, tam bém , seu m aior facão de caça. Se o ataque fosse físico, a lâm ina lhe proporcionaria um alcance adicional.
Com a m ão na m açaneta da porta, passou rapidam ente a sonda psíquica pela entrada do prédio. Ninguém . Nada de anorm al.
Girou a m açaneta num m ovim ento rápido e entrou, virando-se para a parte de trás da porta. Fechou-a com um pontapé, m antendo-se encostada à parede onde estavam as caixas de correio enferruj adas. Seus grandes olhos verde-dourados logo se adaptaram à entrada em m eia-luz, bem com o às escadas igualm ente m al ilum inadas. Silêncio. E nenhum a sensação clara de de perigo.
Subiu as escadas bem rápido, m antendo-se atenta a alterações de estado de espírito ou a pensam entos que poderiam vir da m ente de um inim igo.
Subiu até o terceiro andar, até o quarto. Finalm ente, chegou ao quinto.
Encostada no canto oposto à sua própria porta, Surreal sondou m ais um a vez — e, por fim , sentiu-o.
Um odor psíquico escuro. Taciturno, de certo m odo alterado, m as fam iliar.
Aliviada — e um pouco aborrecida — pela ausência de um com bate, fez a faca desaparecer, destrancou a porta e entrou.
Não o via desde que deixara a casa da Lua Verm elha de Dej e m ais de dois anos antes. Pelo que podia ver, não tinham sido anos fáceis. Seu cabelo negro estava com prido e desigual. Suas roupas, suj as e rasgadas. Ele não reagiu ao som da porta se fechando de repente, e continuou a olhar o croqui que ela tinha adquirido recentem ente, o que fez Surreal com eçar a se sentir apreensiva.
A falta de reação era problem ática. Muito problem ática. Esticando o braço para trás, Surreal abriu a porta apenas o suficiente para não ter de lidar com a fechadura.
— Sadi?
Foi nesse m om ento que ele se virou. Seus olhos dourados não dem onstravam reconhecê-la, porém m anifestavam algo que lhe era fam iliar, em bora não se lem brasse de onde tinha visto aquele olhar.
— Daem on?
Ele continuou a olhar para ela, com o se esforçando-se para se recordar. Foi então que sua expressão confusa se desanuviou.
— É a pequena Surreal. — A voz de Daem on, aquela voz profunda e sedutora, estava agora enrouquecida e envelhecida.
A pequena Surreal?
— Não está aqui sozinha, não é? — perguntou Daem on, preocupado.
Com eçando a atravessar a casa, ela disse rispidam ente:
— Mas é claro que estou sozinha. Quem m ais estaria aqui?
— Onde está sua m ãe?
Surreal ficou petrificada.
— Minha m ãe?
— Você é m uito nova para ficar aqui sozinha.
Titian estava m orta há séculos. Ele sabia disso. Tinham -se passado séculos desde que ele e Tersa...
Os olhos de Tersa. Olhos que se esforçavam para discernir as form as acinzentadas e fantasm agóricas da realidade em m eio à névoa do Reino Distorcido.
Mãe Noite, o que teria acontecido a ele?
Mantendo distância, Daem on com eçou a cam inhar lentam ente até a porta.
— Não posso ficar aqui. Não sem a sua m ãe. Não quero... não posso...
— Daem on, espere. — Surreal deu um salto, interpondo-se entre Daem on e a porta. Os olhos de Daem on lam pej aram de pânico. — Minha m ãe precisou se ausentar por uns dias com ... com Tersa. Eu... m e sentiria m ais segura se você ficasse.
Daem on ficou nervoso.
— Alguém tentou m achucá-la, Surreal?
Fogo do Inferno, aquele tom de voz não. Não quando havia um Senhor da Guerra chegando a qualquer m om ento com o cesto de com pras.
— Não — disse, na esperança de parecer j ovem , m as convincente. — Mas você e Tersa são o que tem os de m ais parecido com fam ília, e sinto-m e... sozinha.
Daem on olhava fixam ente para o tapete.
— Além disso — acrescentou, franzindo o nariz —, você precisa de um banho.
Ele levantou a cabeça repentinam ente. Olhou para ela com um a esperança e um desej o tão óbvios que a assustou.
— Senhora? — sussurrou, estendendo a m ão. — Senhora? — Observou o cabelo em aranhado nos dedos e balançou a cabeça. — Preto. Não deveria ser preto.
Se ela m entisse, isso o aj udaria? Perceberia a diferença? Fechou os olhos, sem saber se conseguiria aguentar a angústia que sentia em Daem on.
— Daem on — disse docilm ente. — Sou eu, Surreal.
Ele se afastou dela, m urm urando baixinho.
Surreal levou-o até um a cadeira, sem conseguir pensar no que m ais poderia fazer.
— É. Você é um a am iga.
Surreal rodopiou até a porta, os pés em posição de com bate e o facão de caça de volta à m ão.
O Senhor da Guerra estava à porta, o cesto de com pras a seus pés.
— Sou um a am iga — disse Surreal. — E você, o que é?
— Não sou um inim igo. — O Senhor da Guerra olhou para a faca. — Não pode guardar isso?
— Acho que não.
Suspirou.
— Ele m e curou e m e aj udou a chegar aqui.
— Vai se queixar dos serviços prestados?
— Não, fogo do Inferno — rebateu o Senhor da Guerra. — Antes de com eçar, ele m e disse que não tinha certeza de ter conhecim entos suficientes de Arte m edicinal para reparar os danos. Mas eu não sobreviveria sem aj uda e um a Curandeira m e denunciaria. — Passou a m ão pelo curto cabelo castanho. — E m esm o que m e m atasse, teria sido m elhor do que o que a m inha Senhora teria feito com igo por abandonar seus serviços tão repentinam ente. — Gesticulou na direção de Daem on, que estava enroscado na cadeira, ainda m urm urando baixinho. — Não percebi que...
Surreal fez a faca desaparecer. Im ediatam ente, o Senhor da Guerra pegou o cesto, apertando a m ão esquerda contra o corpo e fazendo um a careta.
— Idiota — disse Surreal com rispidez, apressando-se a pegar o cesto. — Não devia carregar um peso destes se ainda está se recuperando.
Deu um puxão. Vendo que o hom em não largava o cesto, resm ungou:
— Idiota. Tolo. Pelo m enos use a Arte para dim inuir o peso.
— Não sej a grossa. — Cerrando os dentes, o Senhor da Guerra levou o cesto até a m esa da cozinha. Virou-se para sair, m as hesitou. — O que dizem por aí é que ele m atou um a criança.
Sangue. Tanto sangue.
— Não é verdade.
— Ele acha que é.
Não conseguia ver Daem on, m as podia ouvi-lo.
— Merda.
— Acha que conseguirá sair do Reino Distorcido?
Surreal olhou fixam ente para o cesto.
— Até hoj e ninguém conseguiu.
— Daem on. — Ao ver que não obteria qualquer resposta, Surreal m ordeu o lábio inferior. Talvez devesse deixá-lo dorm ir, se é que estava m esm o dorm indo. Não, as batatas estavam assando, os bifes prontos para grelhar, a salada preparada. Ele precisava de nutrientes tanto quanto de repouso. Tocá-lo? Não havia com o saber o que estaria vendo no Reino Distorcido, de que form a poderia interpretar um a suave cutucada para que acordasse. Tentou novam ente, falando m ais alto. — Daem on.
Daem on abriu os olhos. Passado um longo m inuto, estendeu a m ão.
— Surreal — disse, com a voz rouca.
Surreal agarrou sua m ão, desej ando saber com o aj udá-lo. Quando sentiu a m ão se soltar, agarrou-a com m ais força, puxando-o.
— Levante. Você precisa de um banho antes de j antar.
Daem on levantou-se com m uito da sua graça fluida e felina, porém , quando Surreal o levou até o banheiro, ficou olhando em volta, com o se nunca tivesse visto um antes. Surreal levantou o tam po do vaso sanitário, na esperança de que pelo m enos ainda se lem brasse com o usá-lo. Vendo que ele não se m exia, tirou seu casaco e a cam isa, com algum esforço. Não se sentia incom odada quando Tersa apresentava esta passividade infantil, m as a inércia de Daem on lhe dava nos nervos. Quando tentou retirar o cinto, porém , Daem on rosnou, apertando seu pulso a ponto de Surreal pensar que seus ossos seriam feitos em pedacinhos.
Resm ungou:
— Então tire você m esm o.
Percebeu a derrocada interior, o desespero.
Afrouxando o aperto no pulso de Surreal, Daem on ergueu sua m ão e levou-a aos lábios.
— Me desculpe. Eu... — Largou-a. Tinha um ar abatido ao afrouxar o cinto e com eçar a tirar as calças, desaj eitadam ente.
Surreal saiu.
Alguns m inutos depois, quando Daem on abriu o chuveiro, os canos de água ressoaram e chiaram .
Enquanto colocava a m esa, Surreal se perguntou se ele teria realm ente tirado todas as roupas. Há quanto tem po estaria assim ? Se era isto o que restava de um a m ente outrora brilhante, com o fora capaz de curar aquele Senhor da Guerra?
Surreal parou e pousou um prato na m esa. Tersa sem pre tivera seus lam pej os de lucidez, geralm ente quando se tratava da Arte. Um a vez, ao cuidar de um corte profundo na perna de Surreal, a Viúva Negra louca respondera às preocupações de Titian dizendo: “Não esquecem os o básico.” Mas, um a vez term inado o curativo, não se lem brava sequer do próprio nom e.
Passados alguns m inutos, Surreal ouviu o grito abafado que indicava que a água quente tinha acabado. Os canos ressoaram e chiaram quando ele fechou a torneira.
Não se ouviu m ais nenhum som .
Reclam ando baixinho, Surreal abriu de rom pante a porta do banheiro. Daem on estava na banheira, com a cabeça baixa.
— Seque-se — disse Surreal.
Vacilante, ele pegou um a toalha.
Esforçando-se para m anter a voz firm e, em bora calm a, acrescentou:
— Separei roupas lim pas. Vista-as depois de se secar.
Foi para a cozinha preparar os bifes, enquanto escutava os m ovim entos no banheiro. Estava servindo a com ida quando Daem on surgiu, devidam ente vestido.
Surreal sorriu em sinal de aprovação.
— Agora j á se parece m ais com você.
— Jaenelle está m orta — disse, num tom severo e m onocórdio.
Surreal apoiou-se na m esa, absorvendo as palavras, que eram m ais violentas do que um golpe físico.
— Com o você sabe?
— Lucivar m e disse.
Estando em Pruul, com o ele poderia saber algo que nem ela nem Daem on sabiam ao certo? E a quem poderiam perguntar? Cassandra não voltara ao Altar depois daquela noite, e Surreal não sabia quem era o Sacerdote, quanto m ais onde procurá-lo.
Cortou e am assou as batatas.
— Não acredito nele. — Levantou os olhos a tem po de perceber o olhar lúcido e contido de Daem on, que em seguida desapareceu. Mexeu a cabeça.
— Ela está m orta.
— Talvez ele tenha se enganado. — Serviu-se de duas porções de salada e tem perou-a antes de se sentar e com eçar a cortar o bife. — Com a.
Sentou-se à m esa.
— Ele não m entiria para m im .
Surreal colocou crem e azedo na batata assada de Daem on e cerrou os dentes.
— Eu não disse que ele m entiu. Disse que talvez tenha se enganado.
Daem on fechou os olhos. Passados alguns m inutos, voltou a abri-los, fitando a refeição à sua frente.
— Você fez o j antar.
Perdido. Andando por outro cam inho naquela paisagem interior estilhaçada.
— Sim , Daem on — disse Surreal calm am ente, controlando-se para não chorar. — Fiz o j antar. Por isso, vam os com er enquanto está quente.
Ele a aj udou a lavar a louça.
Enquanto lavavam os pratos, Surreal percebeu que a loucura de Daem on estava lim itada a em oções, a pessoas, àquela tragédia ím par que não conseguia enfrentar. Era com o se Titian nunca tivesse m orrido, com o se Surreal não tivesse passado três anos se prostituindo em becos escuros antes de Daem on encontrá-la e tom ar as providências para que tivesse um a educação adequada num a casa da Lua Verm elha. Ele achava que ela ainda era um a criança e continuava incom odado com a ausência de Titian. No entanto, quando ela m encionou um livro que estava lendo, Daem on fez um a observação m ordaz sobre o gosto eclético de Surreal e indicou outros livros que talvez a interessassem . Aconteceu o m esm o com a m úsica, com a arte. Nada disso representava um a am eaça, não pertencia a um período específico de sua vida, não fazia parte do pesadelo de Jaenelle sangrando naquele Altar das Trevas.
Ainda assim , era cansativo passar-se por um a m enina, fingir não perceber a incerteza e o suplício naqueles olhos dourados. A noite m al tinha caído quando Surreal sugeriu que descansassem um pouco.
Suspirou, aninhando-se na cam a. Talvez Daem on se sentisse tão aliviado por estar longe dela com o ela se sentia por estar longe dele. No fundo, ele sabia que Surreal não era um a criança. Assim com o sabia que estivera com ele no Altar de Cassandra.
Névoa. Sangue. Tanto sangue. Cálices de cristal estilhaçados. Você é meu instrumento.
As palavras mentem. O sangue, não.
Caminha entre as cildru dy athe. Talvez estivesse enganado.
Deu voltas e m ais voltas.
Talvez estivesse enganado.
A névoa se dissipou, m ostrando um a trilha estreita que subia. Ela a fitou e estrem eceu. Era um a trilha forrada com rochas pontiagudas que apontavam para os lados e para baixo, com o grandes dentes de pedra. Quem a descesse pisaria nas partes lisas. Quem a subisse...
Com eçou a escalar, deixando um pouco m ais de si m esm o a cada extrem idade pontuda e fam inta. A um quarto do cam inho, reparou enfim no som , no barulho da água j orrando. Olhou para cim a e viu-a irrom per por sobre o penhasco acim a da trilha, seguindo rapidam ente na sua direção.
Não era água. Era sangue. Tanto sangue.
Não havia com o voltar. Chegou a tentar, m as foi apanhado na m esm a hora pela inundação verm elha, que o arrem essou contra as palavras de pedra que lhe tinham fustigado a m ente durante tanto tem po. Aos tropeções, perdido, vislum brou um terreno calm o que se erguia sobre a inundação. Com esforço, abriu cam inho até aquela pequena ilha de segurança, agarrou-se à gram a com prida e afiada e subiu para o terreno em desintegração. Trem endo, agarrou-se à ilha do talvez.
Quando a torrente e o rugido cessaram , percebeu que estava deitado em um a pequena ilha de form ato fálico, rodeada por um im enso m ar de sangue.
Mesm o antes de estar com pletam ente desperta, Surreal invocou o punhal.
Um som suave e furtivo.
Deslizou para fora da cam a e abriu ligeiram ente a porta, escutando com atenção.
Nada.
Talvez fosse Daem on no banheiro.
Um a luz cinza, que precedia o am anhecer, inundava a pequena entrada. Mantendo-se j unto à parede, Surreal exam inou os outros côm odos.
O banheiro estava vazio. O quarto de Daem on tam bém .
Resm ungando baixinho, Surreal verificou o quarto. Um furacão parecia ter passado pela cam a, em bora o resto do am biente estivesse intacto. As únicas roupas que faltavam eram as que lhe tinha dado na noite anterior.
Não faltava nada na sala de estar. Não faltava nada — m aldição! — na cozinha.
Surreal fez desaparecer o punhal antes de pôr um a chaleira no fogo.
Tersa costum ava se ausentar durante dias, m eses, por vezes até anos, antes de voltar a um destes refúgios. Surreal pretendia partir em breve, m as e se Daem on voltasse dali a poucos dias e não a encontrasse? Ele se lem braria dela com o um a criança e ficaria preocupado? Tentaria encontrá-la?
Preparou chá e torradas e foi para a sala da frente, onde se enroscou no sofá com um dos grossos livros que havia com prado.
Esperaria algum as sem anas até decidir. Não havia pressa. Nesta zona de Terreille não faltavam hom ens com o os que frequentavam Briarwood e que ela poderia caçar.
10 / Kaeleer
Ignorando obstinadam ente o fluxo contínuo de criados que passavam correndo pela porta do escritório em direção aos quartos da frente, Saetan pegou o relatório seguinte.
Tinham percorrido m etade do cam inho. Levaria ainda outros 25 m inutos até que a carruagem parasse j unto à escadaria. O que teria Mephis na cabeça ao decidir usar a teia de desem barque em Halaway em vez da que ficava a alguns m etros da porta principal do Paço?
Cerrando os dentes, folheou o relatório sem prestar atenção.
Era o Príncipe dos Senhores da Guerra de Dhem lan, o Senhor Suprem o do Inferno. Devia dar o exem plo, ter um a conduta digna.
Pôs o relatório na m esa e saiu do escritório.
Que se danasse a dignidade.
Cruzou os braços e encostou-se num a parede na m etade do cam inho entre o escritório e a porta principal. Dali, era possível observar confortavelm ente sem ser atropelado por um dos criados. Assim esperava.
Esforçando-se para m anter o rosto im passível, Saetan ouviu Beale aceitando um a enxurrada de desculpas im plausíveis com o j ustificativa para que este criado ou aquela criada estivessem no salão principal naquele exato m om ento.
Concentrados em seu próprio caos e em suas próprias desculpas, ninguém percebeu a porta principal se abrindo até que um Mephis bastante desgrenhado disse:
— Beale, você podia... Deixa pra lá, os criados j á estão aqui. Há m ais alguns pacotes...
Mephis olhou furioso para os criados que se precipitavam porta afora até que viu Saetan. Ziguezagueando por entre as criadas, dirigiu-se a ele, apoiou-se na parede e suspirou, cansado.
— Ela não vai dem orar. Saiu para falar com Tarl assim que a carruagem parou, para perguntar a ele sobre a situação de seu j ardim .
— Um sortudo, esse Tarl — sussurrou Saetan. Ouvindo Mephis bufar, exam inou o filho desgrenhado. — Viagem com plicada?
Mephis voltou a bufar.
— Eu não achava possível que um a garota pudesse virar toda um a cidade de pernas para o ar em apenas cinco dias. — Encheu as bochechas de ar. — Felizm ente, só vou ter de aj udar com a papelada. As negociações vão ficar por sua conta... com o deve ser.
A sobrancelha de Saetan se ergueu de repente.
— Que negociações? Mephis, m as que...
Alguns criados voltaram , trazendo a bagagem de Jaenelle. Os outros...
Saetan observou com crescente interesse os em pregados sorridentes que entravam carregados de pacotes de papel pardo, indo em direção ao labirinto de corredores que levavam aos aposentos de Jaenelle.
— Não são o que você está pensando — bufou Mephis.
Com o Mephis sabia que Saetan esperava que Jaenelle com prasse m ais roupas, o Príncipe das Trevas resm ungou, desapontado. A ideia de Sy lvia sobre o vestuário apropriado para um a garota não incluía um único vestido, e a única concessão que ela e Jaenelle tinham feito à insistência de Saetan para que todos no Paço se vestissem a rigor para o j antar foi uma cam isa preta com prida e duas blusas. Quando ele argum entou — com m uita sensatez — que calças, blusas e cam isas com pridas não eram artigos exatam ente fem ininos, Sy lvia lhe pregou um longo serm ão, cuj o ponto central era que o que quer que um a m ulher gostasse de vestir era fem inino e o que não gostasse de vestir não era, e se ele era teim oso e antiquado dem ais para com preender isso, então era m elhor que enfiasse a cabeça num balde de água fria. Muito em bora não a tivesse perdoado inteiram ente por ter acrescentado que teriam de procurar bastante para encontrar um balde grande o suficiente para com portar a sua cabeça, adm irara a audácia do com entário.
Nesse m om ento, Jaenelle entrou pela porta, com um sorriso ofuscante para Beale e o restante dos criados, perguntando em seguida a Helene, educadam ente, se poderiam levar a seus aposentos um sanduíche e um suco de fruta.
Parece feliz, pensou Saetan, esquecendo-se de todo o resto.
Depois de Helene sair às pressas para a cozinha e de Beale conduzir o resto da criadagem de volta às suas respectivas obrigações, Saetan se afastou da parede, abriu os braços... e lutou contra a súbita náusea provocada pelas m em órias e fantasias de Menzar, que lhe inundaram a m ente. Estrem eceu diante da ideia de tocar Jaenelle, de conspurcar, de algum a form a, o afeto e a boa disposição que dela fluíam . Com eçou a baixar os braços, m as Jaenelle enfiou-se entre eles e abraçou-o forte, dizendo:
— Olá, papai.
Abraçou-a com força, inspirando o odor físico e o obscuro odor psíquico dos quais tinha sentido um a saudade profunda nos últim os dias.
Por um m om ento, esse odor som brio tornou-se ágil e penetrante. Contudo, quando ela se afastou para olhá-lo de frente, seus olhos azul-safira nada lhe transm itiram . Sentiu um calafrio de apreensão.
Jaenelle beij ou-o no rosto.
— Vou desfazer as m alas. Mephis precisa conversar. — Voltou-se para Mephis, que ainda estava encostado à parede, com um ar cansado. — Obrigada, Mephis. Me diverti m uito, e desculpe por ter dado tanto trabalho.
Mephis abraçou-a afetuosam ente.
— Foi um a experiência única. Da próxim a vez preciso m e preparar m elhor.
Jaenelle deu um a gargalhada.
— Você voltaria a Am darh com igo?
— Não m e atreveria a deixá-la ir sozinha — resm ungou Mephis.
Assim que Jaenelle foi em bora, Saetan pôs o braço em volta dos om bros de Mephis.
— Venha ao m eu escritório. Você está precisando de um copo de y arbarah.
— Preciso m esm o é dorm ir por um ano — resm ungou Mephis.
Saetan levou o filho m ais velho até o sofá de couro e esquentou um copo de y arbarah. Sentado num banquinho, pousou o pé direito de Mephis na sua coxa, tirou seu sapato e m eia e com eçou um a m assagem relaxante. Passados alguns silenciosos m inutos, Mephis ganhou um pouco m ais de ânim o e, lem brando-se do copo de y arbarah, bebeu um gole.
Sem parar a m assagem , Saetan disse calm am ente:
— Pois então, m e diga.
— Por onde quer que com ece?
Boa pergunta.
— Algum daqueles pacotes é de roupa? — Não conseguiu evitar o tom esperançoso.
Os olhos de Mephis tinham um brilho perverso.
— Um deles. Ela com prou um suéter para você. — Gritou, de repente.
— Desculpe — m urm urou Saetan entre dentes, m assageando com delicadeza os dedos do pé que tinha acabado de apertar com força, enquanto o m urm úrio de Mephis se transform ava num rosnado. — Não uso suéter. E tam bém não uso pij am a. — Estrem eceu, pois as palavras despertaram outras lem branças. Pousando com cuidado o pé direito de Mephis no chão, tirou o sapato e a m eia de seu pé esquerdo e com eçou a m assagem .
— Foi difícil, não foi? — perguntou Mephis afavelm ente.
— Sim . Mas as contas foram acertadas. — Saetan ficou em silêncio por um m om ento, m assageando o pé. — Por que um suéter?
Mephis deu um gole no y arbarah, deixando a pergunta no ar.
— Ela disse que você precisa relaxar, física e m entalm ente.
A sobrancelha de Saetan se ergueu de repente.
— Que você nunca poderá se largar no sofá e tirar um a sesta se estiver sem pre vestido de m aneira tão form al.
Oh, Mãe Noite!
— Acho que não sei m e largar.
— Bem , sugiro sinceram ente que aprenda. — Mephis fez o copo vazio flutuar até um a m esa próxim a.
— Você tem um traço m aldoso de caráter, Mephis — resm ungou Saetan. — O que há nos m alditos pacotes?
— Livros, sobretudo.
Dessa vez, Saetan se lem brou de não apertar os dedos.
— Livros? Talvez m inha velha perspicácia tenha m e abandonado, m as eu achava que tínham os um a sala im ensa cheia de livros. Várias, na verdade. Cham am -se bibliotecas.
— Pelo visto elas não têm este tipo de livros.
Saetan sentiu um frio na barriga.
— Que tipo?
— Com o vou saber? — protestou Mephis. — Não vi a m aior parte deles. Só paguei. Mas...
Saetan bufou.
— ... em todas as livrarias — e fom os a todas as livrarias de Am darh — ela pedia livros sobre Tigrelan ou Sceval ou Pandar ou Centauran, e quando o livreiro lhe m ostrava lendas e m itos relativos a esses locais, escritos por autores dhem lanos, ela dizia com toda a educação... a propósito, foi sem pre m uito cortês... que não estava interessada em livros sobre lendas e m itos, a não ser que tivessem origem direta naquelas raças. Naturalm ente, os livreiros e os clientes que se aproxim avam durante estas discussões explicavam que esses Territórios eram locais inacessíveis, com os quais ninguém m antinha relações com erciais. Ela agradecia sua aj uda e eles, querendo continuar nas graças de Jaenelle e m anter o acesso à m inha conta bancária, diziam : “Quem pode dizer o que é real e o que não é? Quem viu esses lugares?”, e ela respondia: “Eu vi”, pegava os livros que j á tinha com prado e saía porta afora antes que o livreiro e os clientes tivessem tem po de se recobrar do espanto.
Saetan voltou a bufar.
— Quer que eu lhe conte sobre a m úsica?
Saetan largou o pé de Mephis e apoiou a cabeça nas m ãos.
— O que tem a m úsica?
— As loj as de m úsica de Dhem lan não vendem m úsica foclórica de Scelt ou m úsica para flauta de Pandar ou...
— Chega, Mephis — gem eu Saetan. — Todos virão à m inha porta querendo saber que tipo de acordos com erciais poderão ser estabelecidos com esses Territórios, não é?
Mephis suspirou, satisfeito. Saetan fulm inou o filho m ais velho com o olhar.
— Alguma coisa ocorreu com o previsto?
— Tivem os m om entos agradáveis no teatro. Pelo m enos lá eu vou poder voltar sem que rosnem para m im . — Aproxim ou-se do pai. — Há outra coisa. sobre a m úsica. — Cruzou as m ãos, hesitante. — Algum a vez você j á ouviu Jaenelle cantar?
Saetan tentou se lem brar e, por fim , balançou a cabeça.
— Ela tem um a voz encantadora quando fala, então pensei que... Não m e diga que ela não tem ouvido para m úsica ou é desafinada?
— Não. — O olhar de Mephis apresentava um a estranha expressão. — Não é desafinada. Ela... Assim que a ouvir, vai com preender.
— Por favor, Mephis, chega de surpresas por hoj e.
Mephis suspirou.
— Ela entoa cânticos de feiticeira... no Idiom a Antigo.
Saetan levantou a cabeça.
— Cânticos de feiticeira autênticos?
Os olhos de Mephis encheram -se de lágrim as, que ilum inaram seu olhar.
— Cantados de um j eito que nunca ouvi antes, m as, sim , autênticos cânticos de feiticeira.
— Mas com o... — Era inútil perguntar com o Jaenelle sabia o que sabia. — Acho que está na hora de subir e ver nossa intratável criança.
Mephis levantou-se com dificuldade. Bocej ou e espreguiçou-se.
— Se você descobrir o que é aquilo tudo por que paguei, gostaria m uito de ser inform ado.
Saetan passou a m ão na nuca, suspirando.
— Com prei um a coisa para você, Mephis disse?
— Ele m encionou — respondeu Saetan, cautelosam ente.
Os olhos cor de safira cintilavam quando lhe entregou, com toda a solenidade, a caixa.
Saetan abriu-a e tirou o suéter. Macio, grosso, preto, com bolsos fundos. Despiu o casaco e colocou o suéter.
— Obrigado, criança-feiticeira. — Fez a caixa desaparecer e caiu graciosam ente no chão, estendendo as pernas e apoiando-se num cotovelo. — Pareço relaxado o bastante?
Jaenelle soltou um a gargalhada e caiu no chão ao lado dele.
— Com pletam ente.
— O que m ais você com prou?
Ela não o encarou.
— Alguns livros.
Saetan fitou as pilhas de livros cuidadosam ente arrum adas, form ando um enorm e sem icírculo em volta de Jaenelle.
— Dá para ver. — Lendo as lom badas m ais próxim as, reconheceu a m aior parte dos livros de Arte, dos quais possuía exem plares na biblioteca da fam ília ou em sua biblioteca privada. O m esm o para os livros de história, artes e m úsica. Eram o com eço da biblioteca de um a j ovem feiticeira.
— Sei que a fam ília tem a m aior parte destes livros, m as queria exem plares m eus. É com plicado fazer anotações em livros que não são nossos.
Saetan sentiu dificuldade em respirar. Anotações. Guias m anuscritos que aj udariam a explicar aqueles saltos de cortar a respiração que Janealle dava ao criar um feitiço. E não teria acesso a eles. Agitou-se m entalm ente. Não seja tolo. Você só precisa pedir a porcaria do livro emprestado.
Nesse m om ento, foi invadido por um a tristeza agridoce. Ela queria sua própria biblioteca, para levar em bora quando estivesse preparada para ter sua própria casa. Restavam poucos anos para aproveitar até que o Paço ficasse vazio outra vez.
Afastou esses pensam entos e voltou-se para as outras pilhas, as dos livros de ficção. Estes eram m ais interessantes, pois um a análise m inuciosa das escolhas de Jaenelle revelaria bastante sobre seus gostos e interesses im ediatos. Tentar descobrir um traço com um entre eles era desnorteante dem ais, por isso apenas m em orizou as inform ações. Considerava-se um leitor eclético. Quanto a Jaenelle, não sabia com o descrevê-la. Alguns livros pareciam m uito infantis para ela, outros m uito realistas. A alguns não deu grande atenção, outros o fizeram lem brar do tem po que tinha passado desde a últim a vez que entrara em um a livraria, para seu próprio entretenim ento. Muitos livros sobre anim ais.
— Um a bela coleção — disse, por fim , colocando o últim o livro com cuidado na respectiva pilha. — E aqueles, o que são? — Apontou para os três livros m eio escondidos sob um papel pardo.
Corando, Jaenelle balbuciou:
— São só livros.
Saetan levantou um a sobrancelha e aguardou.
Com um suspiro resignado, Jaenelle deslizou a m ão por baixo do papel e em purrou um livro para Saetan.
Estranho. Sy lvia tinha reagido de form a idêntica quando Saetan aparecera de surpresa, certa noite, e a encontrara lendo aquele m esm o livro. Não o tinha ouvido chegar, e quando, por fim , olhou para cim a e o viu, escondeu o livro na m esm a hora atrás de um a alm ofada, transm itindo a clara im pressão de que nada a faria retirá-lo do esconderij o e entregá-lo.
— É um rom ance — disse Jaenelle m uito baixinho, enquanto Saetan invocava os óculos em m eia-lua e com eçava a folhear o livro ao acaso. — Algum as m ulheres na livraria não paravam de falar sobre ele.
Rom ance. Paixão. Sexo.
Ele conteve — a duras penas — o ím peto de dar um salto e rodopiar com ela em volta do quarto. Um sinal de recuperação em ocional? Por favor, doces Trevas, que sej a um sinal de recuperação.
— Você acha ridículo? — O tom de voz de Jaenelle era defensivo.
— O rom ance nunca é ridículo, criança-feiticeira. Quer dizer, às vezes é ridículo, m as não ridículo. — Folheou m ais páginas. — Além do m ais, eu costum ava ler coisas deste tipo. Tiveram um papel im portante na m inha educação.
Jaenelle olhou-o espantada.
— Verdade?
— Hum . É claro que eram um pouco m ais... — Passou os olhos por um a página. Fechou o livro cuidadosam ente. — Pensando bem , talvez não fossem . — Tirou os óculos e os fez desaparecer antes que ficassem em baçados.
Jaenelle aj eitou o cabelo, um pouco nervosa.
— Papai, se eu tiver perguntas sobre algum as coisas, você estaria disposto a respondê-las?
— Mas é claro, criança-feiticeira. Você terá todo o apoio de que necessitar na Arte ou em qualquer outro assunto.
— Nããão. Eu queria dizer... — Olhou de relance para o livro diante de Saetan.
Fogo do Inferno, Mãe Noite e que as Trevas sej am m isericordiosas. A perspectiva o encheu de alegria e de pavor. Alegria, pois poderia aj udá-la a pintar um a tela em ocional diferente, que contrabalançaria, assim esperava, as feridas provocadas pelo estupro. Pavor, pois, a despeito dos conhecim entos que possuía sobre qualquer que fosse o assunto, Jaenelle tinha sem pre um a perspectiva que ultrapassava com pletam ente sua experiência.
Os pensam entos de Menzar, as fantasias de Menzar voltaram a inundar sua m ente.
Saetan fechou os olhos, lutando para que as im agens parassem .
— Ele m achucou você — disse ela.
O corpo de Saetan reagiu à som bria voz sepulcral, ao esfriam ento instantâneo do quarto.
— Fui eu que realizei a execução, senhora. É ele que está com pletam ente m orto.
O quarto esfriou ainda m ais. O silêncio era m ais do que silêncio.
— Sofreu? — perguntou com bastante delicadeza.
Névoa. Trevas cortadas por relâm pagos. A beira do abism o estava m uito perto, e o chão desm oronava depressa sob seus pés.
— Sim , sofreu.
Ela ponderou a resposta.
— Não o bastante — disse, por fim , pondo-se de pé.
Entorpecido, Saetan olhou atônito para a m ão estendida à sua frente. Não o bastante? O que teriam feito seus parentes de Chaillot para que ela não m ostrasse rem orsos diante de um assassinato? Até ele próprio lam entava ter de tirar um a vida.
— Venha com igo, Saetan. — Olhava-o com aqueles olhos antigos e perturbados, na expectativa de que se afastasse dela.
Jam ais. Agarrou sua m ão, deixando que o aj udasse a se levantar. Jam ais se afastaria dela.
Porém , não podia negar o calafrio que o percorreu enquanto a seguia até a sala de m úsica naquele m esm o andar. Não podia negar a prudência instintiva quando viu que a única luz do am biente vinha de dois candelabros ao lado do piano. Velas, e não lam parinas. Luz que dançava com cada corrente de ar, dando à sala um ar irreal, sensual e proibitivo. As velas ilum inavam as teclas do piano e o suporte das partituras. Todo o resto pertencia à noite.
Jaenelle invocou um pacote em brulhado em papel pardo, abriu-o e folheou as partituras.
— Encontrei m uitas delas em caixas no fundo das estantes, sem qualquer feitiço de conservação para protegê-las. — Balançou a cabeça, aborrecida, entregando-lhe um a partitura. — Consegue tocar isto?
Saetan sentou-se ao piano e abriu a partitura. O papel estava am arelado e roto, os sím bolos desbotados. Esforçando-se para ler à luz trêm ula das velas, tocou a peça em silêncio, com os dedos m al pressionando as teclas.
— Acho que consigo tocá-la m uito bem .
Jaenelle se posicionou atrás de um candelabro, m isturando-se às som bras.
Saetan tocou a introdução e parou. Música estranha. Desconhecida, e apesar disso... Reiniciou.
A voz de Jaenelle elevou-se, um som pastoso. Elevava-se, m egulhava, espiralava em volta das notas tocadas por Saetan, cuj a alm a se elevava, m ergulhava, espiralava com aquela voz. Um Cântico de Pesar, Morte e Conciliação. No Idiom a Antigo. Um cântico de luto... por duas vítim as de um a execução. Estranha m úsica. Fazia arder a alm a, despedaçava o coração, esta m úsica de tem pos im em oriais.
Cântico de feiticeira. Não, era m ais do que isso. Os cânticos da Feiticeira.
Ele não percebeu quando parou de tocar, quando suas m ãos trêm ulas deixaram de bater nas teclas, nem quando seus olhos ficaram cheios de lágrim as. Foi arrebatado por aquela voz que lancetava a m em ória da execução, deixando um a ferida lim pa, m as que sangrava — para depois tam bém curar.
Mephis, você tinha razão.
— Saetan?
Saetan pestanej ou, afastando as lágrim as, e suspirou tão profundam ente que chegou a estrem ecer.
— Desculpe, criança-feiticeira. Eu não... estava preparado.
Jaenelle abriu os braços.
Saetan contornou o piano aos tropeções, ansioso por aquele abraço puro e afetuoso. Menzar era um a cicatriz recente em sua alm a, que ficaria m arcada para sem pre, m as ele j á não tem ia abraçar Jaenelle, j á não duvidava do tipo de am or que sentia por ela.
Passou a m ão nos seus cabelos durante m uito tem po, reunindo coragem para perguntar:
— Com o conhecia esta m úsica?
Ela m ergulhou o rosto ainda m ais no om bro de Saetan. Por fim , sussurrou:
— Faz parte de quem eu sou.
Saetan sentiu o com eço de um afastam ento interior, um a distância protetora entre Jaenelle e ele.
Não, minha Rainha. Você diz “Faz parte de quem eu sou” com convicção, porém o seu afastamento grita a sua incerteza. Não permitirei isso.
Tocou levem ente o nariz de Jaenelle.
— Sabe um a outra coisa que você é?
— O quê?
— Um a feiticeirazinha m uito cansada.
Ela com eçou a rir e precisou conter um bocej o.
— Com o a luz do dia deixa Mephis m uito cansado, nossos passeios eram quase sem pre depois do pôr do sol, m as eu não queria desperdiçar as horas do dia dorm indo, então... — Voltou a bocej ar.
— Mas você chegou a dorm ir, não?
— Mephis m e obrigou a tirar a sesta — queixou-se. — Disse que só assim conseguia descansar. Eu não sabia que dem ônios precisavam descansar.
Era m elhor não responder.
Jaenelle estava quase dorm indo quando ele a levou para o quarto. Quando Saetan com eçou a tirar seus sapatos e m eias, ela lhe garantiu que ainda estava bem acordada para se arrum ar sozinha e que ele não precisava se preocupar. Dorm ia profundam ente antes de chegarem à porta do quarto.
Saetan, por outro lado, estava desperto e agitado.
Depois de sair por um a das portas dos fundos do Paço, vagueou pelo j ardim cuidadosam ente aparado, desceu um pequeno lance de largos degraus de pedra e seguiu as trilhas que levavam aos j ardins m ais selvagens. As folhas faziam barulho na brisa ligeira. Um coelho pulou na frente de Saetan, alerta, m as sem grandes preocupações.
— Devia ser m ais prudente, bola de pelos — disse Saetan baixinho. — Você ou alguém da sua fam ília tem vindo com er os feij ões verdes da Sra. Beale. Se atravessar na frente dela, ainda acaba com o prato principal um a destas noites.
O coelho m exeu as orelhas antes de desaparecer atrás de um arbusto.
Saetan passou os dedos pelas folhas laranj a-averm elhadas. O arbusto estava carregado de botões inchados, prestes a florir. Em breve, estaria coberto de flores am arelas, com o cham as erguendo-se de brasas incandescentes.
Soltou um longo suspiro. A m esa cheia de papéis ainda o aguardava.
Confortavelm ente protegido da noite fresca de verão, com as m ãos aquecidas nos bolsos fundos do suéter, Saetan cam inhou devagar de volta ao Paço. No m om ento em que subia os degraus de pedra em baixo do j ardim , parou e escutou.
Além dos j ardins m ais selvagens estavam os bosques ao norte.
Balançou a cabeça e retom ou o cam inho.
— Maldito cão.