A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 8 de 22 · parte 2/3

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A Herdeira das Sombras

Capítulo Quatro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Não, não foi suficiente.

— Você podia ter escolhido outro hom em . É o que devia ter feito. Até encoraj ei você a fazer isso.

Luthvian olhou espantada para Saetan. Sofra, maldito, sofra tanto quanto eu sofri.

— E com o você acha que esses hom ens se sentiriam assim que percebessem que o pai do m eu filho era o Senhor Suprem o do Inferno?

O golpe foi certeiro, m as o sofrim ento e a m ágoa que viu nos olhos de Saetan não a fizeram se sentir m elhor.

— Eu queria levá-lo com igo, educá-lo. Você sabia disso.

A raiva e as incertezas antigas extravasaram .

— Educá-lo para quê? Para ser ração? Para que você tivesse um abastecim ento constante de sangue fresco e forte? Quando você descobriu que ele era m eio ey rieno, quis m atá-lo!

Os olhos de Saetan brilharam .

— Você queria cortar as asas dele.

— Para que tivesse a oportunidade de um a vida digna! Sem elas, passaria por dhem lano. Poderia adm inistrar um a das suas propriedades. Poderia ser respeitado.

— Você acredita m esm o que essa seria um a troca j usta? Viver um a vida respeitável sem j am ais ter conhecim ento da linhagem ey riena, sem com preender o desej o ardente que experim entaria na alm a ao sentir o vento no rosto, sem pre na dúvida sobre desej os que não fariam qualquer sentido, até o dia em que olhasse para o seu prim ogênito e visse as asas? Ou você tinha a intenção de am putar todas as gerações?

— As asas seriam um estorvo, um a aberração.

Saetan estava com pletam ente im óvel.

— Vou lhe dizer de novo o que disse quando ele nasceu. Ele é ey rieno de alm a, e isso tinha que ser honrado acim a de tudo. Se você tivesse cortado as asas dele, aí sim eu lhe teria cortado a garganta no berço. Não porque eu não estivesse preparado para isso, e não estava, j á que você fez todos os esforços para não m e inform ar, m as porque ele sofreria dem ais.

As palavras furiosas de Luthvian saíram cortantes:

— Então você acha que ele não sofreu? Você sabe m uito pouco sobre Lucivar, Saetan.

— Mas então por que ele não foi confiado aos m eus cuidados, Luthvian? — perguntou, com falsa delicadeza. — Quem foi responsável por isso?

As lágrim as voltaram . As lem branças, a angústia, a culpa.

— Você não am ava a m im nem a ele.

— Isso é só em parte verdadeiro, m inha cara.

Luthvian engoliu um soluço. Olhou fixam ente para o teto.

Saetan balançou a cabeça e suspirou.

— Mesm o após todos estes anos, é inútil tentarm os conversar. Acho m elhor ir em bora.

Luthvian enxugou a única lágrim a que fugiu ao seu autocontrole.

— Você não disse por que veio. — Pela prim eira vez, olhou para ele sem o véu do passado a encobrir o presente. Parecia m ais velho, com o se carregasse um peso nos om bros.

— Provavelm ente seria m uito difícil para todos nós.

Luthvian esperou. O desconforto, a relutância em abordar o assunto a deixaram apreensiva — e curiosa.

— Eu queria contratar você com o professora de Arte de um a j ovem Rainha que tam bém é Viúva Negra natural e Curandeira. É extrem am ente talentosa, em bora sua educação tenha sido extrem am ente... irregular. As aulas teriam de ser particulares e m inistradas no Paço dos SaDiablo.

— Não — disse Luthvian com rispidez. — Aqui. Se eu for ensiná-la, terá de ser aqui.

— Se ela viesse para cá, teria de ser acom panhada. E com o você sem pre achou Andulvar e Prothvar ey rienos além do tolerável, teria de ser por m im .

Luthvian bateu um dedo nos lábios. Um a Rainha que era tam bém Curandeira e Viúva Negra? Mas que com binação potencialm ente letal de forças. De fato, um desafio digno das suas capacidades.

— A aprendizagem dela com igo abrangeria os ensinam entos m edicinais e os da Am pulheta?

— Não. Ela ainda tem dificuldades com a Arte que consideram os básica, e é nesta área que gostaria que você trabalhasse. Não m e oponho a estender as aulas à Arte m edicinal, se isso for de seu interesse, porém eu m esm o m e encarregarei da Arte da Am pulheta.

O orgulho exigia um desafio.

— E quem é esta feiticeira que precisa de um professor de Joia Negra?

O Príncipe das Trevas, o Senhor Suprem o do Inferno, exam inou-a, refletindo, ponderando. Por fim , respondeu:

— A m inha filha.

 

4 / Inferno

Mephis colocou a pasta sobre a m esa do escritório particular de Saetan e com eçou a esfregar as m ãos, com o se lim pando a suj eira.

Saetan gesticulou com o se abrisse algo. A pasta se abriu, m ostrando várias folhas com a caligrafia com pacta de Mephis.

— Tem os que tom ar um a providência, não é? — resm ungou Mephis.

Saetan invocou os óculos em m eia-lua, colocou-os cuidadosam ente na ponta do nariz e pegou a prim eira folha.

— Deixe-m e ler.

Mephis bateu com a m ão na m esa.

— Ele é obsceno!

Saetan olhou para o filho m ais velho por cim a dos óculos, sem deixar transparecer a raiva que com eçava a sentir.

— Deixe-m e ler, Mephis.

Mephis se afastou de um salto, rosnando, e com eçou a andar de um lado para o outro.

Saetan leu e releu o relatório. Por fim , fechou a pasta, fez desaparecer os óculos e esperou que Mephis se acalm asse.

Obsceno não era a palavra adequada para Lord Menzar, o diretor da escola de Halaway. Lam entáveis acidentes ou doenças haviam perm itido que ele fosse prom ovido a cargos de autoridade em escolas de vários Distritos em Dhem lan — acidentes aos quais não era possível relacioná-lo, que estavam desprovidos do seu odor. Ele sem pre m ostrou deferência o bastante para agradar, a autoconfiança necessária para convencer os outros da sua capacidade. E ali estaria ele, destruindo m inuciosam ente o antigo código de honra, retalhando a frágil teia de confiança que ligava os hom ens e as m ulheres dos Sangue.

O que aconteceria aos Sangue se essa confiança fosse destruída? Bastava olhar para Terreille para obter a resposta.

Mephis estava em pé, em frente à m esa, com os punhos cerrados.

— O que vam os fazer?

— Deixe que eu cuido disto, Mephis — disse Saetan, com delicadeza excessiva. — Se Menzar tem espalhado seu veneno livrem ente durante todo este tem po, foi porque não estive alerta o suficiente para detectá-lo.

— Mas e quanto às Rainhas e seus Prim eiros Círculos, que tam bém não estiveram alertas o suficiente para detectá-lo quando ele esteve em seus territórios? Não é que você não tenha recebido avisos e os ignorado, você nunca recebeu qualquer aviso até Sy lvia procurá-lo.

— A responsabilidade não deixa de ser m inha, Mephis. — Quando Mephis com eçou a protestar, Saetan o interrom peu. — O que quer que eu faça? Que envie estas inform ações às Rainhas? Que exiba as provas de com o foram m anipuladas por um homem? Quer que elas cobrem a dívida?

Mephis estrem eceu.

— Não, não é isso que eu quero. A raiva delas perm aneceria acesa durante m uito tem po.

— E atingiria outros hom ens além do culpado. — Saetan forçou a voz para soar afável. — Em Dhem lan há j ovens feiticeiras, dentre as quais Rainhas, Viúvas Negras e Sacerdotisas, que estão atingindo a m aioridade e que carregam as cicatrizes das ações daquele hom em . Tem os de contar o que aconteceu a alguns dos m achos m ais fortes nesses Distritos para que estej am preparados, e, em seguida, fazer o que estiver ao nosso alcance para aj udar a reconstruir a confiança destruída por Menzar. — Balançou a cabeça, tristem ente. — Não, Mephis, se eu não estiver disposto a aceitar as responsabilidades, só m e restaria renunciar a estas terras.

— O sangue desse hom em não deveria suj ar apenas as suas m ãos — disse Mephis baixinho.

Obrigado, Mephis. Muito obrigado por isso.

— Um a execução oficial requer apenas um carrasco. — Fez um a pausa, para perguntar em seguida: — Há alguém que dependa dele?

Mephis assentiu.

— Um a irm ã que tom a conta da casa.

— Um a feiticeira dom éstica?

Os olhos de Mephis se transform aram em pedras am arelas.

— Não por form ação nem por vocação, pelo que eu soube. Parece que ele tolera sua presença... Segundo a fofoca dos vizinhos, sem dúvida plantada por ele, ela não possui a inteligência nem a sabedoria para ser independente. Enfim , ele deixa que a irm ã lhe pague a m oradia e a alim entação com todo tipo de serviços dom ésticos. — O tom de voz não deixava dúvidas quanto ao tipo de serviços exigido por Menzar.

— Você acha que ela possui a inteligência ou a sabedoria para ser independente?

Mephis deu de om bros.

— Duvido que j á tenha tido oportunidade de tentar. Não usa Joias. Se nunca possuiu as com petências para isso ou se foram tiradas dela... é difícil dizer neste m om ento.

Hekatah, você treina bem os seus servos.

— Com os rendim entos da fam ília, providencie-lhe discretam ente um a pensão equivalente ao salário de Menzar. A casa é alugada? Pague o aluguel por um período de cinco anos.

Mephis cruzou os braços.

— Sem o aluguel para pagar, ela nunca terá tido tanto dinheiro à disposição.

— Isso vai lhe dar o tem po e os recursos para descanssar. Não vej o m otivo para que ela pague pelos crim es do irm ão. Se suas faculdades m entais tiverem sido prej udicadas pelas m anipulações de Menzar, vão se recuperar. Se, de fato, ela não for capaz de tom ar conta de si própria, tom arem os outras providências.

Mephis pareceu perturbado.

— Sobre a execução...

— Deixe que eu m e encarrego disso, Mephis. — Saetan deu a volta na m esa e roçou o om bro no do filho. — Além disso, há outra coisa que quero que faça. — Esperou que Mephis olhasse para ele. — Ainda tem aquela casa em Am darh?

— Você sabe que sim .

— E ainda gosta de ir ao teatro?

— Bastante — disse Mephis, perplexo. — Alugo um cam arote todas as tem poradas.

— E há algum a peça em cartaz que possa agradar a um a j ovem de quinze anos?

Mephis sorriu ao entender aonde o pai queria chegar.

— Haverá duas na sem ana que vem .

Saetan respondeu com um sorriso sinistro.

— Muito oportuno, na m inha opinião. Um passeio à capital de Dhem lan com o irm ão m ais velho antes que os novos professores com ecem a fazer exigências parece perfeito para os nossos planos.

 

5 / Terreille

As pernas de Lucivar vacilavam devido à exaustão e à dor. Acorrentado de frente para a parede no fundo da cela, ele tentava repousar o peito contra a parede a fim de reduzir o peso nos m em bros inferiores, tentava ignorar a tensão nos om bros e no pescoço.

As lágrim as com eçaram a cair, lenta e silenciosam ente de início, transform ando-se em um choro convulsivo que lhe com prim ia o peito, fruto do profundo sofrim ento acum ulado.

O guarda taciturno tinha se encarregado do espancam ento. Desta vez não foram as costas, m as as pernas. E não um chicote para ferir a pele, m as um a grossa tira de couro que golpeara com toda a força os m úsculos retesados. Seguindo o ritm o lento do tam bor, o guarda batia com a tira de couro diligentem ente, sobrepondo cada batida à anterior para que nenhum a área de suas pernas fosse ignorada. Batia e retirava, batia e retirava. Além da respiração que silvava entre os dentes, Lucivar não produzia qualquer outro som . Depois de term inada a surra, foi obrigado a se levantar — seus pés estavam m altratados dem ais para suportar o peso —, e recebeu o novo brinquedo de Zuultah: um cinto de castidade m etálico. Ele se fechava em volta da cintura, m as a presilha m etálica entre as pernas não estava apertada o bastante de form a a lhe causar desconforto. Lucivar ficara intrigado com aquilo por alguns m om entos, antes de ser forçado a cam inhar para a cela. Depois disso, não havia espaço para m ais nada a não ser a dor. E, ao chegar à cela, ele entendeu m uito bem que aconteceria.

Um a nova corrente havia sido fixada na parede do fundo. A presilha inferior do cinto foi passada por um buraco na faixa em volta da cintura, ao qual foi presa a corrente. A corrente só perm itia que ele se m antivesse em pé, e, se as pernas cedessem , sua cintura não suportaria o peso. Certam ente Zuultah estava sendo m assageada enquanto esperava por seu atroz grito de dor.

No entanto, não era por isso que ele chorava.

Um m uco bolorento tinha com eçado a se form ar nas suas asas. Sem a lim peza de um a Curandeira, iria se propagar cada vez m ais até que elas não passassem de filam entos sebosos de pele m em branosa suspensa no esqueleto. Ele não podia esticar as asas na m ina de sal sem levar um golpe, e nas últim as noites suas m ãos eram presas atrás das costas, apertando as asas j unto ao corpo coberto de poeira de sal, que pingava de suor.

Um a vez tinha dito a Daem on que preferia perder os testículos às asas, e estava sendo sincero.

No entanto, não era por isso que chorava.

Não via o sol há m ais de um ano. Com exceção dos breves e preciosos m inutos em que era levado, todos os dias, da cela para as m inas de sal, para depois regressar, não tinha respirado ar puro nem sentido a brisa na pele. Seu m undo resum ia-se a dois buracos som brios e fétidos — e a um pátio coberto onde regularm ente era estendido nas pedras e espancado.

No entanto, não era por isso que chorava.

Não era a prim eira vez que era castigado, chicoteado, fechado em celas escuras. Por várias vezes fora vendido para servir a feiticeiras cruéis e pervertidas. Sem pre respondera lutando, com toda a ferocidade que tinha, tornando-se tão destrutivo que acabavam por enviá-lo de volta a Askavi.

Não tinha tentado fugir de Pruul nem um a única vez, nem um a única vez libertara o seu volúvel tem peram ento para rasgar, despedaçar e destruir. Há alguns anos, o sangue de Zuultah e dos guardas teria m anchado as paredes deste lugar, e, do m eio dos destroços, ele soltaria um grito de guerra ey rieno clam ando vitória e inundando a noite.

Mas esses eram os tem pos em que ainda acreditava no m ito, no sonho. Eram os tem pos em que ainda acreditava que um dia encontraria a Rainha que o aceitaria, com preenderia e apreciaria. Conhecê-la fora o seu sonho, um a flor perfum ada e resplandecente na sua alm a. A Senhora da Montanha Negra. A Rainha de Ebon Askavi. Feiticeira.

Então o sonho virou carne — e Daem on a assassinou.

Era por isso que chorava. Pela perda da senhora a quem ansiara servir, pela perda do único hom em em quem acreditava poder confiar.

Agora restava um vazio, um desespero tão profundo que cobria sua alm a com o o m uco bolorento cobria suas asas.

Restava um único sonho.

Por fim , a dor no peito dim inuiu. Lucivar reprim iu o últim o soluço e abriu os olhos.

Sem pre soubera onde e com o queria m orrer. E não era nas m inas de sal de Pruul.

Suas pernas trem iam devido ao esforço. Lucivar fincou os dentes no lábio inferior até sangrar. Mais algum as horas e os guardas viriam libertá-lo para conduzi-lo às m inas de sal. Mais dor, m ais sofrim ento.

Choraria um pouco, estrem eceria um pouco. Na sem ana seguinte, com a aproxim ação de um guarda, estrem eceria um pouco m ais. Aos poucos, esqueceriam aquilo que nunca deveriam esquecer sobre Lucivar. E então...

Lucivar sorriu com os lábios cobertos de sangue.

Havia ainda um a razão para viver.

 

6 / Terreille

Dorothea SaDiablo olhou espantada para o Mestre da Guarda.

— O que quer dizer com encerrou as buscas?

— Ele não está em Hay ll, Sacerdotisa — respondeu Lord Valrik. — Eu e m eus hom ens vasculham os todos os celeiros, todas as casas de cam po, todos os povoados plebeus e dos Sangue. Entram os em todos os becos de todas as cidades. Daem on Sadi não está em Hay ll, nunca esteve em Hay ll. Eu apostaria m inha carreira nisso.

E perderia.

— Você encerrou as buscas sem a m inha autorização.

— Sacerdotisa, eu daria a m inha vida por você, m as estam os perseguindo um hom em que não está aqui. Ninguém o viu, Sangue ou plebeus. Os hom ens estão abatidos. Precisam ficar algum tem po em casa, com suas fam ílias.

— E daqui a dez m eses um exército de fedelhos chorões irá testem unhar quão abatidos seus hom ens estão.

Valrik não respondeu.

Dorothea com eçou a andar de um lado para outro, batendo os dedos no queixo.

— Ora, se ele não está em Hay ll, com ece a procurar nos Territórios de fronteira e...

— Não tem os o direito de realizar buscas em outro Território.

— Todos esses Territórios estão sob a proteção de Hay ll. As Rainhas não se atreveriam a negar acesso às suas terras.

— A autoridade das Rainhas que governam esses Territórios j á é fraca. Não podem os nos dar ao luxo de fragilizá-la ainda m ais.

Dorothea se afastou de Lord Valrik. Ele tinha razão, m aldito fosse. Mas precisava fazê-lo agir de alguma m aneira.

— Então você m e deixar à m ercê do Sádico — disse, com a voz trêm ula.

— Não, Sacerdotisa — exclam ou Valrik. — Falei com todos os Mestres da Guarda de todos os Territórios de fronteira e os inform ei sobre a índole brutal de Sadi. Eles estão cientes de que suas j ovens correm perigo. Se o descobrirem em algum dos seus Territórios, ele não escapará com vida.

Dorothea se virou.

— Nunca o autorizei a m atá-lo.

— Ele é um Príncipe dos Senhores da Guerra. É a única form a de...

— Você não deve matá-lo.

Dorothea cam baleou, sentindo-se satisfeita quando Valrik a envolveu com os braços e a conduziu até um a cadeira. Colocando os braços em volta do pescoço do seu Mestre da Guarda, puxou sua cabeça para baixo até as testas dos dois se tocarem .

— A m orte de Sadi teria consequências para todos nós. Ele precisa ser trazido de volta a Hay ll com vida. Você precisa ao m enos supervisionar as buscas nos outros Territórios.

Valrik hesitou, suspirando em seguida.

— Não posso. Pelo seu bem e pelo bem de Hay ll... não posso.

Um bom hom em . Mais velho, experiente, respeitado, honrado.

Dorothea deslizou a m ão direita pelo pescoço de Valrik, num a carícia sensual, e em seguida cravou as unhas na sua carne, inj etando todo o veneno pelo dente de serpente.

Valrik recuou, horrorizado, levando a m ão ao pescoço.

— Sacerdotisa... — Seus olhos brilharam . Ele deu um passo cam baleante para trás.

Dorothea lam beu delicadam ente o sangue dos dedos e sorriu para Valrik.

— Você disse que daria a vida por m im . Assim foi feito. — Exam inou as unhas, ignorando Valrik, que saía aos tropeções, m oribundo. Invocando um a lixa, corrigiu um a irregularidade na unha.

Era um a pena perder um Mestre da Guarda tão bom , e um aborrecim ento ter de substituí-lo. Fez a lixa desaparecer e sorriu. Contudo, Valrik serviria para ensinar um a lição m uito im portante ao seu sucessor: o excesso de honra pode m atar.

 

7 / Kaeleer

Saetan fez um a bola com a cam isa recém -engom ada, am arrotando-a. Sacudiu-a, sinistram ente satisfeito com o resultado, e vestiu-a.

Odiava isto. Sem pre odiara.

As calças pretas e o casaco tipo túnica passaram pelo m esm o processo que a cam isa. Enquanto abotoava o casaco, deu um sorriso sarcástico. Ainda bem que insistira para que Helene e o resto do pessoal não trabalhasse esta noite. Se sua cerim oniosa governanta o visse vestido daquela form a, se sentiria pessoalm ente insultada.

Seus sentim entos eram estranhos. Preparava-se para um a execução e não sentia nada além de alívio por não ferir o orgulho da governanta com a sua aparência.

Não, não era só isso o que sentia. Havia raiva diante daquela necessidade, e um a ansiedade terrível, pois tem ia que, considerando o que estavas prestes a fazer, aqueles olhos azul-safira, um dia o olhassem com condenação e aversão em vez de afeto e am or.

Mas Jaenelle estava com Mephis em Am darh. Nunca saberia.

Saetan invocou a bengala que tinha posto de lado algum as sem anas antes.

É claro que Jaenelle saberia. Era inteligente dem ais para deixar de perceber o significado do desaparecim ento repentino de Menzar. No entanto, o que iria pensar dele? Que significado isso teria para ela?

Tivera a esperança — que sensação agridoce! — de poder viver sossegado neste local sem dar razão para que as pessoas recordassem vividam ente quem ele era e o que era. Havia desej ado apenas ser um pai a educar um a filha Rainha.

Nunca fora assim tão sim ples. Não para ele.

Nunca o questionaram sobre as razões que o haviam levado a lutar em favor de Dhem lan Terreille quando Hay ll am eaçou aquela terra pacata tantos séculos antes. Am bos os lados partiram do princípio de que ele agia m ovido pela am bição. Porém o que o havia m ovido era algo m uito m ais sedutor e de um a sim plicidade m uito m aior: queria ter um lugar que pudesse cham ar de lar.

Queria ter um a terra para cuidar, um povo com o qual se preocupar, crianças — suas e dos outros — para encher a casa com sua alegria e exuberância. Sonhava com um a vida sim ples na qual usaria sua Arte para o bem e não para destruir.

Entretanto, um Príncipe dos Senhores da Guerra, Viúva Negra e de Joias Negras, a quem j á cham avam Senhor Suprem o do Inferno, não poderia sim plesm ente entrar de um a hora para outra na vida tranquila de um pequeno povoado. Por isso, ele determ inou um preço digno do seu poder: construiu Paços dos SaDiablo em todos os três Reinos, governou com m ão de ferro e um coração piedoso, ansiando pelo dia em que conheceria um a m ulher cuj o am or por ele superasse o m edo.

Mas em vez disso conheceu e casou-se com Hekatah.

Durante algum tem po, m uito pouco tem po, achou que seu sonho tinha se concretizado — até Mephis nascer e Hekatah ter certeza de que ele não partiria, de que não abandonaria o filho. Mesm o nessa época, com prom etido com Hekatah, tentou ser um bom m arido, tentou ainda m ais ser um bom pai. Quando ela engravidou pela segunda vez, Saetan se atreveu a acreditar, novam ente, que Hekatah gostava dele, que pretendia construir um a vida a seu lado. Contudo, Hekatah tinha um a única paixão: suas próprias am bições. E os filhos representavam um pagam ento ao apoio de Saetan. Som ente quando carregava seu terceiro filho no ventre foi que ela percebeu que Saetan j am ais usaria seu poder para torná-la a incontestada Sacerdotisa Suprem a de todos os Reinos.

Saetan nunca chegou a ver seu terceiro filho. Apenas partes dele.

Saetan fechou os olhos, respirou fundo e lançou o pequeno feitiço preso a um a teia em aranhada de ilusões que tinha criado m ais cedo, naquele m esm o dia. Os m úsculos das pernas estrem eceram . Abriu os olhos e exam inou as m ãos, que agora pareciam deform adas e trem iam ligeiram ente, m as de form a perceptível.

— Odeio isto. — Devagar, surgiu um sorriso. Parecia um velho resm ungão.

Enquanto se dirigia ao salão público, suas costas com eçaram a doer, pois estavam arqueadas de form a pouco natural, e as pernas com eçaram a arder sob seu peso. No entanto, se Menzar fosse esperto o bastante para desconfiar da arm adilha, o desconforto físico aj udaria a ocultar as ilusões da teia.

Saetan entrou no salão principal e assobiou baixinho para o hom em que estava em silêncio j unto à porta.

— Eu falei que era para tirar a noite de folga — disse, a voz despida de vigor e do tom profundo e suave com o um trovão.

— Não seria adequado o senhor abrir a porta para seu convidado, Senhor Suprem o — respondeu Beale.

— Que convidado? Não aguardo ninguém esta noite.

— A Sra. Beale foi visitar a irm ã m ais nova em Halaway. Vou m e j untar a elas depois que o seu convidado chegar e então irem os j antar fora.

Saetan pousou as m ãos na bengala e ergueu um a sobrancelha.

— A Sra. Beale sai para j antar fora?

Os lábios de Beale curvaram -se ligeiram ente.

— Às vezes. Com relutância.

O sorriso com o qual Saetan respondeu sum iu.

— Vá se j untar à sua senhora, Sr. Beale.

— Depois que o seu convidado chegar.

— Não estou esperando...

— Minhas sobrinhas frequentam a escola de Halaway. — A Joia Verm elha cintilou sob a cam isa branca de Beale.

Saetan inspirou através dos dentes. Tinha de cuidar do assento de m odo discreto. O Conselho das Trevas não podia fazer nada com ele diretam ente, m as se rum ores sobre o que ia se passar chegassem aos seus ouvidos... Olhou fixam ente para o m ordom o Senhor da Guerra de Joia Verm elha.

— Quantos criados j á sabem ?

— Sabem o quê, Senhor Suprem o? — retorquiu Beale afavelm ente.

Saetan não pestanej ou. Estaria equivocado? Não. Por um breve m om ento, tinha vislum brado um a intensa e feroz satisfação nos olhos de Beale. Os Beale nada diriam . Nem um a palavra. Mas iriam celebrar.

— Vai aguardar no escritório público? — perguntou Beale.

Aceitando a sugestão, Saetan retirou-se para o escritório. Enquanto servia e aquecia um copo de y arbarah, reparou que suas m ãos trem iam , m as não apenas por conta do feitiço que tinha lançado.

Nascido em Hay ll, servira em cortes terreillianas e governara a m aior parte do tem po em Terreille, e depois no Inferno. Apesar de ter dom ínio sobre o Território Dhem lan em Kaeleer, tinha sido um senhorio ausente, um visitante que som ente via o que era perm itido aos visitantes.

Sabia o que Terreille pensara sobre o Senhor Suprem o. Mas aqui era Kaeleer, o Reino das Som bras, um a terra m ais feroz e m ais selvagem , que adotava um a m agia m ais obscura e m ais poderosa do que Terreille poderia im aginar.

Obrigado, Beale, pelo aviso, pela advertência. Não voltarei a me esquecer do terreno sobre o qual estou pisando. Não esquecerei que o que você acabou de me demonstrar jaz debaixo do fino manto do Protocolo e do comportamento civilizado. Não esquecerei... pois estes são os Sangue atraídos por Jaenelle.

 

Lord Menzar estendeu a m ão para bater na porta com a argola, afastando-a depressa no últim o segundo. A cabeça de dragão em bronze bem fixada a um largo pescoço curvo olhava-o fixam ente de cim a, com olhos verdes de vidro reluzindo sinistram ente à luz da tocha. A argola, logo abaixo da cabeça, representava um a detalhada pata com garras a segurar um a bola lisa.

A Sacerdotisa das Trevas deveria ter me avisado.

Segurando a pata com a m ão suada, bateu na porta um a, duas, três vezes, antes de recuar e olhar em volta. As tochas produziam som bras repletas de silhuetas em constante m utação e Menzar desej ou, m ais um a vez, que este encontro tivesse sido à luz do dia.

Acenou com a m ão para afastar aquele pensam ento inútil e estendeu-a em direção à argola j usto no m om ento em que a porta se abriu de rom pante. Por pouco não recuou diante do grande hom em que ocupava todo o vão da porta, até que reconheceu o terno preto e o colete do uniform e de um m ordom o.

— Pode inform ar ao Senhor Suprem o que j á estou aqui.

O m ordom o não se m oveu nem disse nada.

Menzar m ordeu furtivam ente o lábio inferior. O hom em estava vivo, não estava? Sabia que m uitos dos habitantes de Halaway trabalhavam para o Paço, de um a form a ou de outra, m as não lhe tinha ocorrido que pudessem ser com pletam ente diferentes depois do pôr do sol. Com certeza isso não aconteceria com aquela garota que vivia aqui — em bora esse fato pudesse explicar suas excentricidades.

Por fim , o m ordom o lhe deu passagem .

— O Senhor Suprem o o aguarda.

O alívio de Menzar por entrar durou pouco. Tão repleto de som bras quanto a escada exterior, o salão principal estava m ergulhado num silêncio rico em m urm úrios interm itentes. Ele seguiu o m ordom o até o final do corredor, perturbado pela ausência de gente. Onde estavam os criados? Talvez em outra ala ou j antando? Um lugar deste tam anho... poderia abrigar m etade do povoado.

O m ordom o abriu a últim a porta à direita e anunciou a chegada do visitante.

Era um aposento desprovido de j anelas e sem outra porta perceptível. Com a form a de um L invertido, a parte alongada estava m obiliada com grandes cadeiras, um a m esa baixa de m adeira escura, um sofá de couro preto, um tapete de Dharo, velas em suportes de ferro batido de diversas form as e quadros intensos e um pouco inquietantes. A parte m ais curta...

Menzar arquej ou ao reparar, por fim , nos olhos dourados que reluziam na escuridão. Um a luz suave com eçou a brilhar de um candelabro no canto m ais afastado do espaço. Na parte m ais curta havia um a grande m esa de m adeira escura. Atrás dela, estantes que iam do chão ao teto. As paredes de am bos os lados estavam cobertas por um veludo verm elho escuro, que transm itia um a sensação diferente do resto do aposento. Um a sensação de perigo.

As luzes das velas ganharam m ais intensidade, fazendo as som bras recuarem até os cantos.

— Vá para um lugar onde eu possa vê-lo — disse um a voz lam urienta.

Menzar aproxim ou-se devagar da m esa, quase soltando um a gargalhada de alívio.

Era este o Senhor Suprem o? Este velho m irrado, trêm ulo e grisalho? Era este o hom em cuj o nom e todos tem iam sussurrar?

Menzar fez um a reverência.

— Senhor Suprem o. Seu convite foi de um a grande am abilidade...

— Am abilidade? Bah! Não vi nenhum a razão para torturar m eus velhos ossos um a vez que suas pernas gozam de boa saúde. — Saetan acenou com a m ão trêm ula na direção da cadeira em frente à m esa. — Sente-se. Sente-se. Fico cansado só de vê-lo aí em pé. — Enquanto Menzar se acom odava, Saetan resm ungou e gesticulou para o espaço vazio. Voltando, finalm ente, a atenção para o convidado, disse com rispidez: — E então? O que ela fez agora?

Reprim indo o regozij o que sentia, Menzar fingiu considerar a pergunta.

— Faltou às aulas esta sem ana — disse, de form a educada. — Acho que passará a ter aulas particulares daqui em diante. Devo salientar que a socialização com crianças da m esm a idade...

— Aulas particulares? — interrom peu Saetan, batendo com a bengala no chão. — Aulas particulares? — bateu com a bengala m ais um a vez. — Por que haveria de gastar m eu dinheiro com aulas particulares? Ela tem toda a instrução de que necessita para realizar suas obrigações.

— Obrigações?

A boca de Saetan se curvou num sorriso m alicioso.

— A m ente dela está um pouco desequilibrada e ela não é um a beleza, m as no escuro é um docinho.

Menzar se esforçou para não arregalar os olhos. O am igo da Sacerdotisa Suprem a tinha dado a entender, contudo... Não tinha visto m arcas de dentes no pescoço da garota. Bem , havia outras veias. Que outras coisas faria Saetan — ou exigiria que ela fizesse — enquanto se deliciava bebendo de um a veia? Menzar podia pensar em várias. Todas o repugnavam . Todas o excitavam .

Menzar pôs um a m ão sobre a outra para m antê-las firm es.

— E quanto às aulas particulares?

Saetan acenou com a m ão, rej eitando as palavras.

— Precisei dar algum a desculpa quando aquela vagabunda da Sy lvia veio aqui farej ar e fazer perguntas sobre a garota. — Sem icerrou os olhos. — Você parece ser um hom em perspicaz, Lord Menzar. Quer ver m eu quarto especial?

O coração de Menzar bateu acelerado. Se ele o convidar para o escritório particular, invente uma desculpa, qualquer uma, para ir embora.

— Quarto especial?

— Meu quarto especial. Onde eu e a garota... brincam os.

Menzar estava prestes a recusar o convite, porém as dúvidas e advertências haviam desaparecido. O Senhor Suprem o não passava de um velho devasso. Era, sem dúvida, um conhecedor de assuntos sobre os quais Menzar só tinha lido.

— Gostaria m uito.

A cam inhada pelos corredores foi penosam ente lenta. Saetan descia os lances de escada de lado, resm ungando e praguej ando. Sem pre que Menzar com eçava a se sentir apreensivo em relação àquela descida, um sorriso m alicioso e um a alusão a um ato erótico faziam desaparecer de novo as dúvidas.

Chegaram por fim a um a grossa porta de m adeira com um a fechadura do tam anho do punho de um hom em . Menzar aguardou im paciente, enquanto a m ão trêm ula de Saetan tentava encaixar a chave na fechadura, aj udando depois o Senhor Suprem o a em purrar a pesada porta. Quem aj udaria o Senhor Suprem o em outros m om entos? Aquele m ordom o? Será que a garota o seguiria até o quarto com o um anim al de estim ação bem treinado ou estaria presa? Será que Saetan necessitava de auxílio? Será que o m ordom o vigiava enquanto... Menzar lam beu os lábios. A cam a deve ser... nem conseguia im aginar com o seria a cam a naquele quarto de brincar.

— Entre, entre — disse Saetan lam uriosam ente.

A luz da tocha do corredor não ilum inava o quarto. À entrada, relutante m ais um a vez, Menzar forçou os olhos para conseguir ver a m obília, m as o quarto estava envolto num a escuridão absoluta, um a escuridão expectante que era m ais do que a sim ples ausência de luz.

Menzar não conseguia decidir se deveria voltar ou seguir em frente. Foi nesse m om ento que sentiu alguma coisa fantasm agórica sussurrar ao passar por ele, deixando um a névoa tão ligeira que era quase im perceptível. No entanto, a névoa estava repleta de coisas, e, na sua m ente, viu um ram alhete de j ovens rostos, os rostos de todas as feiticeiras cuj os espíritos tinha podado com tanto zelo. Sem pre se considerara um j ardineiro discreto, m as este quarto oferecia m ais. Muito, m uito m ais.

Entrou, atraído para o centro do quarto por pequenas m ãos fantasm as. Algum as puxavam de m aneira brincalhona, outras acariciavam . A últim a se encostou firm em ente j unto ao peito, im pedindo-o de dar outro passo, antes de deslizar pela barriga e desaparecer, contrariando suas expectativas.

Sua decepção foi tão brusca quanto o som da chave rodando na fechadura.

Frio. Escuridão. Silêncio.

— S-Senhor Suprem o?

— Sim , Lord Menzar — respondeu um a voz profunda que ressoou pelo quarto com o um suave trovão. Um a voz sedutora, acariciando na escuridão.

Menzar lam beu os lábios.

— Preciso ir em bora.

— Não será possível.

— Tenho outro com prom isso.

Lentam ente, a escuridão m udou, dissipando-se. Um a luz fria e prateada se espalhou ao longo das paredes de pedra, do chão e do teto, seguindo as linhas radiais e de orientação de um a vasta teia. Suspensa na parede do fundo havia um a enorm e aranha de m etal preto, com sua am pulheta feita de rubis lapidados. Presas à teia prateada em butida na pedra, era possível ver facas de todos os tam anhos e tipos.

Além disso, havia apenas um a m esa no quarto.

Os m úsculos de seu esfíncter se retesaram .

A m esa tinha um a borda elevada e canais que levavam a pequenos orifícios nos cantos. Tubos de vidro saíam dos orifícios e desem bocavam em j arros de vidro.

Pare com isto. Pare com isto. Estava perm itindo que o próprio m edo o vencesse. Estava perm itindo ser intim idado pelo quarto. O velho é que sem dúvida não era intim idador. Poderia facilm ente enxotar aquele velho louco e trêm ulo.

Menzar virou-se, disposto a insistir em sair.

Levou algum tem po para reconhecer o hom em encostado à porta, esperando.

— Tudo tem um preço, Lord Menzar — advertiu Saetan. — Chegou o m om ento do acerto de contas.

 

A água que escoava pelo ralo finalm ente corria lim pa. Saetan girou as torneiras, parando o forte esguicho que o lavava. Segurou-se nelas para m anter o equilíbrio, descansando a cabeça no antebraço.

Não tinha acabado. Faltavam os últim os detalhes.

Secou-se energicam ente e j ogou a toalha na cam a estreita ao passar pelo pequeno quarto adj acente ao escritório particular abaixo do Paço no Reino das Som bras. Aguardava-o um a garrafa de y arbarah, na grande m esa de m adeira escura. Estendeu a m ão, hesitou e invocou um decantador de conhaque. Encheu um copo quase até a borda e bebeu-o de um a vez só. O conhaque lhe provocaria um a terrível dor de cabeça, m as serviria tam bém para acalm á-lo e para em baçar as m em órias e as fantasias pervertidas que haviam irrom pido da m ente de Menzar com o pus de um furúnculo.

O conhaque além disso não tinha gosto de sangue, e o gosto e o cheiro de sangue eram coisas que ele não conseguiria suportar esta noite.

Encheu o segundo copo e ficou nu em frente à lareira apagada, olhando fixam ente para o quadro de Duj ae, Descida aos infernos. Um artista talentoso conseguira capturar, m ediante form as am bíguas, a m escla de terror e de alegria sentida pelos Sangue ao entrarem pela prim eira vez no Reino das Trevas.

Encheu o terceiro copo. Queim ara suas roupas. Jam ais conseguira m anter a indum entária usada num a execução. Um a parte do m edo e do sofrim ento parecia sem pre se im pregnar no tecido. Ser tom ado de assalto por esses sentim entos, m ais tarde...

O copo se estilhaçou na m ão de Saetan. Vociferando, ele fez desaparecer os vidros partidos antes de voltar ao pequeno quarto e vestir apressadam ente roupas lim pas.

Havia retirado Menzar do seu corpo, m as seria possível algum dia lim par os pensam entos de Menzar da sua m ente?

 

— Com preendem o que têm de fazer?

Dois dem ônios, outrora hom ens de Halaway, fitavam o grande baú de m adeira.

— É claro, Senhor Suprem o. Farem os exatam ente com o nos instruiu.

Saetan entregou um a pequena garrafa a cada um deles.

— Pelo seu esforço.

— Não é esforço algum — disse um deles. Puxou a rolha da garrafa e cheirou, arregalando os olhos. — É...

— Um pagam ento.

O dem ônio voltou a colocar a rolha na garrafa e sorriu.

 

— As cildru dyathe não querem isto.

Saetan pousou a pequena garrafa num a rocha plana que servia com o m esa. Já tinha distribuído todas as outras. Esta era a últim a.

— Não a estou oferecendo às outras cildru dyathe. Som ente a você.

Char m udou a posição dos pés, pouco à vontade.

— Aguardam os o m om ento em que desaparecerem os nas Trevas — disse, em bora sua língua enegrecida lam besse o que restava dos lábios enquanto ele fitava a garrafa.

— Com você é diferente — afirm ou Saetan. Sentiu o estôm ago em brulhado. Finas agulhas de dor atravessavam suas têm poras. — Você se preocupa com os outros, aj uda-os na adaptação e a efetuar a transição. Luta para se m anter aqui, para lhes dar um lugar. E sei que, quando as oferendas são realizadas em m em ória de um a criança que partiu, vocês não as recusam . — Saetan pegou a garrafa e estendeu-a para o rapaz. — É apropriado que a aceite. Mais do que você pensa.

Lentam ente, Char estendeu a m ão para a garrafa, tirou a rolha e cheirou. Bebeu um pequeno gole e suspirou, satisfeito.

— É sangue puro.

Saetan cerrou os dentes com força para suportar a dor e a náusea. Olhou fixam ente para a garrafa, odiando-a.

— Não. É um a indenização.

 

8 / Inferno

Hekatah olhava boquiaberta para o grande baú de m adeira, batendo de leve no queixo com o papel branco dobrado.

Magnificam ente decorado com entalhes de m adeiras preciosas e incrustações de ouro, o baú em anava opulência, um a cáustica recordação da vida que outrora levara e dos luxos que acreditava lhe serem devidos.

Usando a Arte, Hekatah sondou o interior do baú pela quinta vez em um a hora. Nada. Talvez fosse apenas um baú.

Abrindo o papel, exam inou a elegante caligrafia m asculina.

Hekatah,

Em sinal de m inha estim a.

Saetan

Tinha que haver algum a outra coisa. O baú não era m ais do que um em brulho, em bora caro. Talvez Saetan tivesse percebido, por fim , o quanto precisava dela. Talvez tivesse se cansado do papel de patriarca benfeitor e estivesse preparado para reclam ar o que devia — o que deviam — ter reclam ado há m uito tem po. Talvez sua odiosa honra tivesse sido m anchada pelas brincadeiras com a garota de estim ação que adquirira em Kaeleer para ocupar o lugar de Jaenelle.

Saborearia tais pensam entos depois de abrir o presente.

A chave de bronze ainda estava no envelope. Retirou-a, aj oelhou-se j unto ao baú e abriu a fechadura.

Levantou o tam po e franziu a sobrancelha. O baú estava cheio de raspas de m adeira perfum ada. Ficou olhando surpresa por um m om ento e depois sorriu de m odo com placente. Acondicionam ento, é claro. Com um gritinho de excitação, enfiou a m ão entre as raspas, à procura do presente.

A prim eira coisa que retirou foi um a m ão.

Deixou-a cair e rastej ou para longe do baú. Sua garganta se agitava enquanto olhava atônita para a m ão caída no chão, com a palm a para cim a e os dedos ligeiram ente dobrados. Por fim , a curiosidade venceu o m edo. Engatinhando, avançou bem devagar.

Continuar: parte 3 de 3