A Herdeira das Sombras
Quarta Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Mas ela se recusara a caçar, a obter algum alívio em detrim ento da vida de outra criatura. Incluindo Lucivar.
Porém , não tinha piedade do próprio corpo. Tratava-o com o um inim igo que não m erecia nada além de desprezo, um inim igo que a traíra, deixando-a vulnerável ao j ogo sádico dos outros.
*Lucivar? *
Lucivar sacudiu a cabeça, verificando na m esm a hora o m otivo da ansiedade de Fum aça. Alguns pássaros cantando. Um esquilo pulando nos galhos acim a. Os sons habituais do bosque. Apenas os sons habituais.
O coração quase saltava do seu peito enquanto corria j unto com Fum aça para a pequena clareira.
A barraca agora era um am ontoado de m adeiras destruídas. A alguns m etros, Jaenelle estava sentada no chão, de pernas abertas, ainda segurando o m artelo.
Aproxim ando-se com cautela, Lucivar se agachou perto dela.
— Gata?
As lágrim as caíam por seu rosto. A m ordida no lábio inferior fazia o sangue escorrer pelo queixo. Jaenelle engoliu em seco e estrem eceu.
— Estou tão cansada, Lucivar. Mas é algo que se apodera de m im e...
Os m úsculos de Jaenelle ficaram tão tensos que o corpo vibrou. Ela arqueou as costas e as veias do pescoço saltaram . Inspirou pelos dentes cerrados. O cabo do m artelo se desfez nas suas m ãos.
Lucivar aguardou, sem se atrever a tocá-la enquanto os m úsculos estivessem tão tensos que podiam arrebentar. Não durou m ais do que dois m inutos. Pareceram horas. Por fim , seu corpo cedeu e Jaenelle com eçou a chorar com tal violência que Lucivar pensou que aquilo iria destruí-lo.
Ela não o im pediu de passar os braços ao redor de seus om bros, então ele a abraçou, em balou e deixou que ela se desfizesse em lágrim as.
Assim que ela parou de chorar, Lucivar sentiu a tensão sexual se elevar, m as não a largou. Se estava interpretando a intensidade direito, o pior j á tinha passado.
Depois de vários m inutos, Jaenelle ficou relaxada o suficiente para apoiar a cabeça no om bro dele.
— Lucivar?
— Hm m ?
— Estou com fom e.
O coração de Lucivar cantou de alegria.
— Então vou alim entá-la.
*Fogo?*
Jaenelle levantou a cabeça de repente. Olhou espantada para o lobo na beira da clareira.
— Por que ele quer fazer um a fogueira?
— Eu bem queria saber. Mas, se fizéssem os um a fogueira, eu poderia preparar um café com uísque.
Jaenelle ficou pensativa por alguns m om entos.
— Você faz um bom café com uísque.
Tom ando o com entário com o um sinal de concordância, Lucivar levou Jaenelle até o outro lado da clareira enquanto Fum aça com eçava a procurar lenha nos destroços.
Lucivar invocou a m ochila de com ida, a garrafa e o saco de dorm ir que deixara j unto ao riacho. Jaenelle cam inhava devagar, de um lado para outro, m ordiscando o sanduíche que Lucivar lhe dera. Enquanto acendia a fogueira, invocava o resto do equipam ento e m ontava o acam pam ento, ele a vigiava. Parecia agitada, m as não descontrolada, o que era positivo, j á que estava escurecendo e esfriando.
Quando term inou de preparar o café com uísque, Jaenelle j á estava aconchegada no saco de dorm ir, trem endo, e aceitou a caneca com avidez. Não lhe sugeriu que vestisse m ais roupas. Contanto que ela percebesse a fogueira com o um a fonte de calor, ficaria relutante em se afastar daquele local até o am anhecer.
Ele vasculhava a m ochila de com ida, à procura de algo que pudesse lhe oferecer para com er, quando ouviu um ronco suave.
Depois de m ais de dois dias de atividade im piedosa, Jaenelle dorm ia.
Lucivar fechou o saco de dorm ir e adicionou um feitiço de aquecim ento para m antê-la confortável à m edida que a tem peratura descia com o passar da noite. Retirou o café do fogo e acrescentou m ais lenha à fogueira. Depois, descalçou as botas e acom odou-se no seu saco de dorm ir.
Deveria colocar um escudo protetor em volta do cam po. Duvidava que um predador quadrúpede desej asse tanto assim o que restava na m ochila de com ida a ponto de desafiar os odores com binados de hum anos e de lobo, m as estavam na fronteira setentrional de Ebon Rih, desconfortavelm ente próxim os do território Jhinka. O que Jaenelle m enos precisava agora era ser acordada aos solavancos por um ataque surpresa de um grupo de caçadores j hinka.
Lucivar caiu em um sono profundo antes de term inar o pensam ento.
6 / Inferno
Conform ado com a introm issão, Saetan recostou-se num a das cadeiras j unto à lareira e serviu dois copos de y arbarah. Decidira passar algum tem po em seu escritório privado sob o Paço, pois j á não estava disposto a lidar com outras m entes atem orizadas e suplicantes, ainda m ais depois das últim as vinte e quatro horas. Contudo, sendo ou não um Príncipe dos Senhores da Guerra de Joia Negra, sendo ou não o Senhor Suprem o, um hom em não podia recusar quando um a Rainha Dea al Mon solicitava um a audiência — sobretudo um a Harpia dem ônia-m orta.
— O que posso fazer por você, Titian? — perguntou gentilm ente, oferecendo-lhe um copo do vinho de sangue aquecido.
Titian aceitou o copo e bebericou com delicadeza, sem desviar os grandes olhos azuis dos olhos dourados de Saetan.
— Você deixou os habitantes do Inferno bastante nervosos. Esta foi a prim eira vez, em todos os séculos com o Senhor Suprem o, que purgou o Reino das Trevas.
— Eu governo o Inferno. Aqui, posso agir com o bem entender — disse Saetan sereno. Até um louco perceberia a advertência subj acente no tom de voz.
Titian aj eitou o longo e delicado cabelo grisalho atrás da orelha pontiaguda, optando por ignorar a advertência.
— Pode agir com o bem entender ou tem que agir assim ? Os m ais atentos não deixaram de perceber que os únicos consum idos nesta purga foram os seguidores da Sacerdotisa das Trevas.
— É m esm o? — Parecia educadam ente interessado. De fato, sentia-se aliviado por terem percebido aquela ligação. Isso não só deixaria os outros dem ônios-m ortos tranquilos, assim que percebessem que os escolhidos para a antecipação da m orte final tinham em com um um a lealdade específica, com o qualquer um que Hekatah abordasse no futuro pensaria dem orada e seriam ente sobre o custo dessa lealdade. — Com o isso não é da sua conta, que a trouxe aqui?
— Você deixou escapar alguns. Achei que deveria saber.
Saetan disfarçou depressa a repulsa e a consternação. Titian sem pre via dem ais.
— Diga-m e os nom es. — Não era um a pergunta.
Titian sorriu.
— Não é necessário. As Harpias encarregaram -se deles por você. — Hesitou por um instante. — E quanto à Sacerdotisa Suprem a?
Cerrando os dentes, Saetan fitou a lareira.
— Não consegui encontrá-la. Hekatah é especialista em se esconder.
— Caso a tivesse encontrado, teria antecipado seu regresso às Trevas? Teria enviado a Sacerdotisa para a m orte derradeira?
Saetan arrem essou o copo para a lareira, arrependendo-se no m esm o instante que o fogo crepitou e o cheiro de sangue quente invadiu o aposento.
Fazia-se a m esm a pergunta desde que tom ara a decisão de elim inar todo o apoio de Hekatah entre os dem ônios-m ortos. Se a encontrasse, conseguiria drenar toda a energia até ela desvanecer nas Trevas? Ou hesitaria, com o acontecera tantas vezes antes, um a vez que séculos de desconfiança e de repulsa não eram o bastante para apagar o sim ples fato de lhe ter dado dois filhos. Três, se contasse... m as não podia contar, não podia contar essa criança, assim com o nunca se perm itira considerar quem teria segurado a faca.
Deu um salto quando Titian passou a m ão pela dele.
— Tom e. — Ofereceu-lhe outro copo de y arbarah aquecido. Sentando-se outra vez, passou o dedo pela borda do copo. — Não gosta de m atar m ulheres, não é?
Saetan bebeu o vinho de sangue de um gole só.
— Não, não gosto.
— Foi o que pensei. Você foi m uito m ais obj etivo e condescendente com elas do que com os hom ens.
— Talvez pelos seus critérios. — Pelos critérios de Saetan, fora m ais do que brutal. — Ele deu de om bros. — Som os filhos das nossas m ães.
— Um a suposição razoável. — Ela soava solene. Parecia estar se divertindo.
Saetan retesou os om bros, incapaz de se livrar da sensação de que Titian acabara de passar um a corda por seu pescoço.
— É um a das m inhas teorias preferidas para explicar por que não existe um a categoria para os m achos equivalente à de Rainha.
— Porque os m achos são filhos das suas m ães?
— Porque faz m uito tem po os únicos Sangue serem m ulheres.
Titian enroscou-se na cadeira.
— Intrigante.
Saetan observou-a com cautela. Titian tinha a m esm a expressão de Jaenelle quando o encurralava com êxito e se dispunha a aguardar até Saetan parar de se contorcer e lhe dizer o que ela queria saber.
— É só um a ideia que eu e Andulvar costum ávam os discutir nas longas noites de inverno — resm ungou, enchendo outra vez os copos.
— Podem os não estar no inverno, m as, no Inferno, as noites são sem pre longas.
— Conhece a história sobre os dragões que governaram os Reinos, no princípio?
Titian deu de om bros, indiferente. Tinha se aconchegado para ouvir a história.
Saetan ergueu o copo num brinde, sorrindo contrariado. Os m achos com Joias podiam ser treinados com o defensores dos territórios, m as nenhum deles conseguia superar um a Rainha em term os de pensam ento estratégico.
— Há m uito tem po — com eçou —, quando os Reinos eram j ovens, vivia neles um a raça de dragões. Poderosos, brilhantes e m ágicos, governavam todas as terras e todas as criaturas. Porém , após centenas de gerações, chegou o dia em que perceberam que a raça se extinguiria. Em vez de deixar que seus conhecim entos e dons desaparecessem , optaram por concedê-los às outras criaturas, para que elas continuassem a Arte e cuidassem dos Reinos.
“Um após o outro, os dragões dirigiram -se aos seus covis e abraçaram a noite eterna, tornando-se parte das Trevas. Quando restavam apenas a Rainha e seu Príncipe, Lorn, a Rainha despediu-se do Consorte. Ao sobrevoar os Reinos, suas escam as caíam e se espalhavam , e qualquer criatura tocada por elas, não im porta se cam inhasse em duas ou quatro pernas ou fosse alada e dançasse pelos ares, tornava-se sangue do seu sangue. Não deixava de pertencer à raça de origem , m as tam bém tornava-se Outra, renascida para se tornar vigilante e governante. Quando caiu a últim a escam a, a Rainha se dissipou. Algum as histórias contam que seu corpo se m etam orfoseou em outra form a, em bora conservasse a alm a de dragão. Outras, que o corpo se desvaneceu e regressou às Trevas.”
Saetan fez o y arbarah girar no copo.
— Li todas as histórias antigas, algum as do texto original. O que sem pre m e intrigou é que, independente da raça de onde se origina, nunca há referência ao nom e da Rainha. Em todas as histórias, Lorn é m encionado pelo nom e diversas vezes, m as ela não. A om issão parece deliberada. Sem pre m e perguntei qual a razão para isso.
— E o Príncipe dos Dragões? — perguntou Titian. — O que aconteceu com ele?
— De acordo com as lendas, Lorn ainda está vivo e detém toda a sabedoria dos Sangue.
Titian ficou pensativa.
— Quando Jaenelle fez quinze anos e Draca contou que Lorn afirm ara que Jaenelle iria viver com você no Paço, pensei que tinha dito isso para im pedir as obj eções de Cassandra.
— Não, ela estava falando a verdade. Lorn e Jaenelle são am igos há anos. Foi ele quem lhe atribuiu as Joias que ela usa.
Titian abriu e fechou a boca, sem em itir qualquer som .
A expressão atordoada agradou Saetan.
— Já o viu?
— Não — respondeu Saetan com rancor. — Ele ainda não me concedeu um a audiência.
— Ah, querido — disse Titian, sem a m enor com paixão. — O que a lenda tem a ver com o fato de os Sangue terem sido exclusivam ente fêm eas em tem pos passados, e por que não m antivem os as coisas desse j eito?
— Você gostaria que tivesse sido assim , não é?
Ela sorriu.
— Ora, a m inha teoria é a seguinte. Com o as escam as da Rainha concediam a Arte a outras raças, e com o as características são com partilhadas pelo sexo sem elhante, parece com preensível que apenas as fêm eas tivessem a capacidade de absorver a m agia. Ficaram ligadas à terra, atraídas pelos próprios ritm os corporais ao fluxo e refluxo do m undo natural. Tornaram -se o Sangue.
— O que deve ter durado um a geração — Titian salientou.
— Nem todos os hom ens são estúpidos. — Vendo o ar duvidoso de Titian, Saetan soltou um suspiro exasperado. Mais inútil do que discutir com um a Harpia sobre o valor dos m achos era ensinar um a pedra a cantar. Teria m ais sorte com a pedra. — A favor da teoria, digam os que estej am os falando dos Dea al Mon.
— Ah. — Titian recostou-se, satisfeita. — Os nossos m achos são inteligentes.
— Estou certo de que tirou um peso das costas deles por pensar dessa form a — disse Saetan, com frieza. — Ora, ao descobrirem que algum as m ulheres do Território tinham adquirido poderes m ágicos de um a hora para outra...
— Os m elhores j ovens guerreiros teriam se oferecido com o parceiros e protetores — com pletou Titian, prontam ente.
Saetan levantou um a sobrancelha. Com o os plebeus, os elem entos de cada raça que não eram Sangue, tendiam a ser tão desconfiados em relação aos Sangue e à Arte, não era bem assim que im aginara os acontecim entos. Contudo, achou interessante que um a feiticeira dos Dea al Mon partisse desse pressuposto. Teria de perguntar a Chaosti e a Gabrielle, quando surgisse a ocasião.
— E, dessas uniões, nasceram crianças. As garotas, pelo gênero, herdaram todo o dom .
— Mas os garotos eram m eio-Sangue, com pouca ou nenhum a Arte. — Titian estendeu o copo. Saetan tornou a enchê-lo.
— As feiticeiras não concebem com frequência — prosseguiu Saetan, depois de voltar a encher o próprio copo. — Dependendo da proporção de filhos para filhas, pode ter levado várias gerações para que os m achos fossem gerados com a linhagem com pleta. Durante todo esse tem po, o poder devia estar na linha m aterna das fam ílias, cada geração aprendendo com a anterior e tornando-se ainda m ais forte. As prim eiras Rainhas devem ter surgido m uito antes do prim eiro Senhor da Guerra, para não falar de um m acho m ais forte. Nessa altura, o conceito de que os m achos serviam e protegiam as fêm eas j á devia estar entranhado. Por fim , chegou-se a este ponto na sociedade dos Sangue em que os Senhores da Guerra possuem um status igual ao das feiticeiras, os Príncipes equivalem às Sacerdotisas e às Curandeiras e as Viúvas Negras só precisam ser deferentes aos Príncipes dos Senhores da Guerra e às Rainhas. E os Príncipes dos Senhores da Guerra, que todos pensam que agem por conta própria, estão um degrau acim a das outras castas, e um degrau m uito alto abaixo das Rainhas.
— Quando é adicionada um a casta à categoria social de cada indivíduo, bem com o à categoria das Joias, gera-se um a dança estranha. — Titian pousou o copo na m esa. — Um a teoria interessante, Senhor Suprem o.
— Um a distração interessante, Lady Titian. Por que fez isso? Por que m e ofereceu sua com panhia esta noite?
Titian aj eitou a túnica verde-floresta.
— Você é fam ília da m inha fam ília. Achei... adequado... lhe oferecer consolo esta noite, j á que Jaenelle está im possibilitada de fazê-lo. Boa noite, Senhor Suprem o.
Muito tem po depois de Titian ter saído, Saetan perm anecia sentado tranquilam ente, observando os troncos na lareira que se partiam e se acom odavam . Reuniu energia suficiente para se servir de um copo de y arbarah e aquecê-lo, satisfeito pela solidão e pelo silêncio.
Não contestara a teoria de Titian sobre o que teria levado os m achos a servir, m as não era nisso que acreditava. Não fora apenas a m agia que atraíra os m achos. Fora o esplendor interior contido nos corpos fem ininos, um a lum inescência pela qual alguns hom ens ansiavam tal com o ansiariam por um a luz brilhando num a j anela, quando estivessem ao frio. Ansiavam por aquela luz com tanto ardor quanto ansiavam ser em bainhados na encantadora escuridão de um corpo fem inino, ou talvez ainda m ais.
Os m achos tornaram -se Sangue pois foram atraídos por am bas as coisas.
E, com o bem sabia, isso ainda acontecia.
7 / Kaeleer
Lucivar estava deitado na gram a, com as m ãos atrás da cabeça e as asas abertas, tentando secá-las após o rápido m ergulho na lagoa. Jaenelle ainda chapinhava na água gelada, lavando o suor e a suj eira dos longos cabelos.
Ele fechou os olhos e gem eu de satisfação ao sentir o sol aquecer lentam ente seus m úsculos tensos, relaxando-os.
No dia anterior, acordara pouco antes do am anhecer e vira Jaenelle rem exendo na m ochila de com ida. Prepararam um a refeição rápida antes que ela fosse forçada a se m over devido à tensão física provocada pelas drogas.
Não era o im pulso im piedoso dos últim os dias e, ao longo das horas, a tensão física deu lugar a tem pestades em ocionais. De repente, ela era invadida pela fúria, para logo depois cair em lágrim as. Lucivar lhe dava espaço enquanto ela se enfurecia e praguej ava. Abraçava-a quando chorava. Quando a tem pestade passava, Jaenelle ficava bem durante breves m om entos. Cam inhava num passo tranquilo, detendo-se para pegar frutas silvestres ou descansar à m argem de um regato. Então o ciclo recom eçava, dim inuindo de intensidade a cada vez.
Naquela m anhã, Lucivar e Fum aça abateram um pequeno veado. Guardaram carne suficiente para encher a pequena m arm ita que levavam , à qual Lucivar aplicou um feitiço para que se m antivesse fresca. Mandara Fum aça levar o resto para a Fortaleza. Se Saetan não estivesse na Fortaleza, Fum aça prosseguiria até o Paço para inform ar o Senhor Suprem o de que o pior j á passara e que ficariam m ais alguns dias em Askavi, para depois voltarem para casa.
Casa. Fazia um ano que vivia em Kaeleer e, às vezes, ainda ficava perplexo pela form a com o as feiticeiras tratavam os m achos no Reino das Som bras.
Um dia, deparara-se com um a discussão entre Chaosti, Aaron e Khardeen sobre a diferença entre o Anel de Honra usado pelos m achos do Prim eiro Círculo de um a Rainha e o Anel Dom inador que os terreillianos eram obrigados a usar até se provarem dignos de confiança. Contou-lhes sobre o Anel de Obediência usado em Terreille.
Não acreditaram nele. Racionalm ente entenderam o que ele disse, m as não conheciam o m edo intenso e diário a que os m achos terreillianos estavam suj eitos, por isso não queriam , não podiam, acreditar nele.
Julgando que os rapazes apenas não tinham idade suficiente para conhecer as artim anhas das feiticeiras para m anter os m achos em rédea curta, perguntara a Sy lvia, a Rainha de Halaway, com o um a Rainha controlava um m acho que não desej ava servir na sua corte.
Ela olhou para Lucivar boquiaberta por um m om ento, antes de responder:
— Quem iria querer um desses?
Alguns m eses antes, quando estava em Nharkhava tratando de assuntos do Senhor Suprem o, fora convidado a tom ar chá por três Senhoras anciãs que elogiaram seu físico de m aneira tão adorável que lhe fora im possível sentir-se insultado. Sentindo-se à vontade com elas, perguntara se tinham ouvido falar de um Príncipe dos Senhores da Guerra que recentem ente m atara um a Rainha.
Com relutância, elas adm itiram que a história era verdadeira. Um a Rainha que tom ara gosto pela crueldade fora incapaz de constituir um a corte porque não conseguiu convencer doze m achos a servi-la de livre vontade. Assim , decidiu forçá-los a servir, colocando neles um Anel de Obediência. Ela reunira onze Senhores da Guerra de Joias m ais claras e procurava o décim o segundo quando o Príncipe dos Senhores da Guerra a confrontou. Estava à procura de um prim o m ais novo que desaparecera no m ês anterior. Quando ela tentou forçá-lo a se subm eter, ele a m atou.
O que acontecera com o Príncipe dos Senhores da Guerra?
Dem oraram alguns instantes para entender a pergunta.
Não acontecera nada com o Príncipe dos Senhores da Guerra. Sej a com o for, ele agira conform e o esperado. Sem dúvida preferiam que ele tivesse apenas dom inado aquela m ulher horrível e a entregado à Rainha de Nharkhava para que fosse castigada, m as este tipo de reação é esperado quando um Príncipe dos Senhores da Guerra é provocado ao ponto de ascender ao lim iar do assassinato.
Lucivar passara o resto do dia num a taberna, sem saber se achava graça ou se sentia aterrado pela atitude das Senhoras. Lem brou-se das surras, dos açoites, das vezes em que gritou por causa das dores atrozes provocadas pelo Anel de Obediência. Pensou no que havia feito para m erecer tal sofrim ento. Sentado naquela taberna, riu até chorar ao perceber, por fim , que j am ais conseguiria conciliar as diferenças entre Terreille e Kaeleer.
Em Kaeleer, prestar serviço era um a dança com plexa, e a liderança alterava-se constantem ente entre os gêneros. As feiticeiras estim ulavam e protegiam a força e o orgulho dos m achos. Os m achos, por sua vez, protegiam e respeitavam a força fem inina, m ais dócil, em bora, de certo m odo, m ais profunda.
Os m achos não eram escravos ou anim ais de estim ação cuj os sentim entos podiam ser m enosprezados. Eram parceiros valiosos e estim ados.
Era essa a correia que as Rainhas usavam em Kaeleer, concluíra Lucivar, naquele dia — um controle tão delicado e encantador que não havia qualquer razão para que o hom em não o aceitasse, e todas as razões o levavam a protegê-lo com unhas e dentes.
Lealdade recíproca. Respeito recíproco. Honra recíproca. Orgulho recíproco.
Era este o lugar que agora considerava, orgulhosam ente, a sua casa.
— Lucivar.
Lucivar pôs-se em pé de um salto, rogando pragas em silêncio. Considerando a tensão que sentia em Jaenelle, tivera sorte de ela não ter partido sozinha.
— Tem algum a coisa errada — disse ela, com a voz de m eia-noite.
Na m esm a hora, ele perscrutou a área.
— Onde? Não estou sentindo nada.
— Não é aqui. A leste.
A leste havia apenas um povoado de plebeus sob a proteção de Agio, o povoado dos Sangue na extrem idade setentrional de Ebon Rih.
— Há algum a coisa errada, m as é difícil de definir — disse Jaenelle, com os olhos sem icerrados, olhando para leste. — E parece deturpada, de certo m odo, com o um a arm adilha cheia de iscas envenenadas. Mas som e sem pre que m e tento concentrar nela. — Resm ungou, frustrada. — Devem ser as drogas, distorcendo m inha capacidade de sentir.
Pensou na Rainha que iludira onze j ovens antes de ser m orta.
— Ou talvez a isca não sej a dirigida ao seu gênero. — Mantendo as barreiras interiores fortem ente escudadas, enviou um a suave sonda psíquica para leste. Passado um m inuto, rom peu a ligação e agarrou-se a Jaenelle, deixando que a força lím pida e obscura da garota fizesse a im undície em que tinha tocado desaparecer.
Colou a testa na dela.
— É coisa ruim , Gata. Muito desespero e sofrim ento cercados por... — Procurou um a form a de descrever o que sentira.
Corpos em decom posição.
Arrepiando-se, perguntou-se por que tinha pensado naquela palavra.
Poderia sobrevoar o povoado e dar um a olhada. Se os plebeus estivessem se defendendo de um ataque surpresa dos j hinkas, ele estava forte o suficiente para oferecer a aj uda de que precisavam . Se fosse um a daquelas febres prim averis que às vezes assolam um povoado, era m elhor descobrir antes de enviar um a m ensagem para Agio, um a vez que precisariam de Curandeiras.
A m aior preocupação era encontrar um lugar seguro para...
— Nem pense nisso, Lucivar — advertiu Jaenelle em um tom sereno. — Vou com você.
Lucivar fitou-a, tentando avaliar até que ponto poderia pressioná-la desta vez.
— Sabe, o Anel de Honra que você m e deu não m e deterá da m esm a form a que um Anel Dom inador.
Jaenelle m urm urou um a praga ey riena entre dentes.
Lucivar deu um sorriso triste. Isso respondia à questão sobre até que ponto poderia pressioná-la. Olhou para leste.
— Muito bem , você vai com igo. Mas vam os fazer as coisas do m eu j eito, Gata.
Jaenelle assentiu.
— É você que tem experiência de com bate. Mas... — Colocou a palm a da m ão direita sobre a Joia Cinza-Ébano no peito de Lucivar. — Abra as asas.
Ao abrir as asas com pletam ente, sentiu um form igam ento quente-frio provocado pelo Anel de Honra.
Jaenelle recuou, satisfeita.
— Este escudo está trançado no escudo protetor contido no Anel. Mesm o que você esgote as Joias até elas se quebrarem , ele continuará ao seu redor. Está colocado a cerca de trinta centím etros do seu corpo, e com bina com o m eu de tal m odo que podem os ficar j untos sem um colocar o outro em perigo. No entanto, certifique-se de ficar longe de qualquer coisa que não quiser danificar.
Com o passeava com frequência por todos os povoados de Ebon Rih, Lucivar conhecia bem o povoado plebeu e as terras em volta. Havia m uitos m ontes baixos e zonas arborizadas a um a curta distância do povoado, lugares perfeitos para o grupo de atacantes j hinka se esconder.
Os j hinka eram um povo alado e m uito feroz, com posto por clãs patriarcais m antidos j untos, com algum a dificuldade, por um a dúzia de chefes tribais. Tal com o os ey rienos, eram originários de Askavi, m as eram m enores e tinham apenas um a fração da expectativa de vida dos ey rienos, que viviam m uito tem po. Desde tem pos im em oriais, as duas raças nutriam um ódio profundo entre si.
Enquanto os ey rienos dispunham da vantagem da Arte, os j hinkas dispunham da num erosidade. Quando esgotavam as energias psíquicas e as reservas de suas Joias, os guerreiros ey rienos ficavam tão vulneráveis com o qualquer outro hom em diante de um inim igo em m aioria num érica avassaladora. Por isso, cientes da m atança exigida para derrotar um inim igo, os j hinkas estavam sem pre dispostos a encarar um ey rieno no cam po de batalha.
Salvo por duas exceções. Um a cam inhava entre os m ortos, a outra entre os vivos. Am bas usavam Joias Cinza-Ébano.
— Muito bem — declarou Lucivar. — Viaj arem os neste fio radial Branco até passarm os o povoado, depois saltarem os dos Ventos e irem os bem depressa até o outro lado. Se for um ataque dos j hinkas, eu cuido deles. Se for algum a coisa diferente...
Jaenelle lim itou-se a olhar para ele.
Pigarreou.
— Vam os, Gata. Vam os dar um a razão para se arrepender a quem quer que estej a incom odando o nosso vale.
8 / Kaeleer
Saltando do Vento Branco, Lucivar e Jaenelle planaram em direção ao povoado aparentem ente tranquilo, ainda a cerca de um quilôm etro e m eio de distância.
*Você disse que iríamos bem depressa*, disse Jaenelle, num fio psíquico.
*Também disse que faríamos as coisas do meu jeito*, respondeu Lucivar, bruscam ente.
*Lá embaixo há sofrimento e privação, Lucivar.*
Tam bém havia a im undície que agora se esquivava. Ainda estava lá. Tinha de estar. O fato de j á não detectá-la, de pensar que nunca a detectaria se fosse apenas verificar com o estava o povoado, deixava-o apreensivo. Teria caído na arm adilha, fosse ela qual fosse, que aguardava lá em baixo.
Sentiu o despertar do instinto predador em Jaenelle enquanto m ergulhou pelos ares, deslizando para o povoado a toda velocidade. Praguej ando, Lucivar j untou as asas e m ergulhou atrás dela no exato m om ento em que centenas de j hinkas surgiram do nada, guinchando gritos de guerra enquanto tentavam cercá-lo e derrubá-lo.
Por m eio da Arte, Lucivar aum entou a velocidade e atravessou o enxam e de j hinkas, deleitando-se com os gritos que davam ao chocar-se contra o escudo protetor. Bradando um grito de guerra ey rieno, libertou a força das Joias Cinza-Ébano, enviando-a em explosões curtas e controladas.
Os corpos dos j hinkas explodiram num a nuvem de sangue e m em bros decepados.
Lucivar irrom peu pelo fundo do enxam e, freando o m ergulho a um a asa de distância do chão.
*Gata!*
*Venha até a rua principal, mas depressa. O túnel não resistirá por muito tem po. Evite as ruas secundárias. Estão... im undas. Na extrem idade oposta do povoado, encontrará um edifício protegido por um escudo.*
Voando baixinho, Lucivar virou para a rua principal e logo chegou ao lim ite do povoado, praguej ando com todas as forças ao sentir o escudo roçando na tem pestade psíquica de feiticeira, que engolia o povoado enganosam ente tranquilo. O escudo crepitou com o gotas de água fria lançadas num a panela quente. Todos os fios psíquicos ilusórios cintilavam com o se fossem fios físicos com postos por relâm pagos.
Im pulsionando-se, voou pelo túnel que Jaenelle construíra ao passar pela tem pestade de feiticeira, que j á se estava se fechando. Alcançou-a, por fim , a um quarteirão do edifício escudado. Um a rápida exploração psíquica m ostrou-lhe os parâm etros do escudo em cúpula, ovalado, que protegia um edifício de pedra de dois andares, além de dez m etros do terreno ao redor.
Quatro hom ens correram na direção do lim ite do escudo, sacudindo os braços e gritando:
— Voltem ! Afastem -se daqui!
Atrás dos hom ens, m ilhares de j hinkas surgiram dos m ontes baixos além do povoado, preenchendo o céu até obscurecerem o sol.
Jaenelle passou pelo escudo do edifício com tanta facilidade com o se fosse feito de um a fina cam ada de água. Distraído pelos hom ens e pelos j hinkas que se aproxim avam , Lucivar sentiu que atravessavam um a parede de caram elo quente.
Já no interior do escudo que protegia o edifício, Lucivar aterrissou j unto aos quatro hom ens. O escudo protetor de Jaenelle foi dim inuindo até se tornar um revestim ento j unto à pele, provocou um ligeiro form igam ento no Anel de Honra e desapareceu por com pleto.
— Quantos feridos? — perguntou Jaenelle, de repente.
Lord Randahl, Senhor da Guerra de Agio e Mestre da Guarda de Lady Erika, respondeu com relutância:
— Pelas últim as contas, cerca de trezentos, Senhora.
— Quantas Curandeiras?
— No povoado havia dois m édicos e um a sábia com conhecim entos de ervas m edicinais. Estão todos m ortos.
Sabendo que não deveria interrom per quando Jaenelle se concentrava em curar, Lucivar esperou que ela corresse para dentro do edifício antes de fazer suas próprias perguntas.
— Quem está sustentando o escudo?
— Adler — disse Randahl, apontando para um j ovem Senhor da Guerra de aspecto selvagem .
Lucivar olhou de relance para os m ontes baixos. Os j hinkas chegariam ali a qualquer m om ento.
— Consegue estender o escudo m ais um centím etro ou dois em toda a extensão? — perguntou a Adler. — Colocarei um escudo Cinza-Ébano atrás dele. Depois, poderá deixar cair o seu e descansar.
O j ovem Senhor da Guerra assentiu com dificuldade e fechou os olhos.
Poucos segundos depois de Lucivar levantar o escudo, os j hinkas atacaram . Chocaram -se contra a barreira invisível, e seus corpos com eçaram a se am ontoar. Alguns j hinkas, com prim idos entre o escudo e o restante do grupo, foram asfixiados ou esm agados pela m assa de corpos que se contorciam . Olhos m ortos e cheios de ódios fitavam os cinco hom ens m ais abaixo.
— Fogo do Inferno — m urm urou Randahl entre dentes. — Nunca atacaram com esta ferocidade, nem m esm o durante as incursões m ais violentas.
Lucivar exam inou o Senhor da Guerra de m eia-idade por um m om ento, antes de voltar a concentrar a atenção nos j hinkas. Talvez, até hoje, não tivessem conseguido encurralar aquilo que queriam.
Podia sentir a pressão de todos os corpos am ontoando-se j unto ao escudo, podia sentir as Joias Cinza-Ébano libertando gota após gota das reservas de energia. Em bora todas as Joias tivessem um reservatório de poder psíquico, quanto m ais escuras, m ais fundo o reservatório. Sendo a segunda Joia m ais escura, a Cinza-Ébano possuía um depósito de energia tão fundo que, se não tivesse necessidade de usá-la em nada além da m anutenção do escudo contra ataques físicos, poderia m anter os j hinkas afastados durante um a sem ana até com eçar a sentir a pressão. Até lá, alguém viria à procura deles. Tudo o que precisava fazer era aguardar.
No entanto, era preciso levar em consideração aquela tem pestade de feiticeira. Tinha certeza de que alguém criara aquela cilada especialm ente para ele. Teria de confirm ar com Randahl, m as suspeitava que o prim eiro ataque dos j hinkas não lhes dera tem po para j untar m antim entos. E Jaenelle precisava de outras Curandeiras para auxiliar os feridos. Só as Trevas sabiam que ela até possuía as reservas psíquicas para tratar de todos, m as seu corpo não resistiria àquele tipo de exigência, sobretudo depois das drogas e do esforço físico dos últim os dias.
Além do m ais, j am ais fora acusado de possuir um tem peram ento passivo.
Lucivar fez o anel Cinza-Ébano desaparecer e invocou a Verm elha de Direito por Progenitura. A Cinza-Ébano em volta do pescoço alim entaria o escudo. A Verm elha...
— Avise seus hom ens para se m anterem j unto ao edifício — pediu a Randahl, calm o. — Está na hora de igualarm os as condições.
Com seu típico sorriso indolente e arrogante, ergueu a m ão direita e ativou o feitiço que passara anos aperfeiçoando. Sete finos “aram es” psíquicos foram lançados da Joia Verm elha do anel. Mantendo o braço estendido, fez m ovim entos largos e lentos para a frente e para trás, tom ando cuidado para não se aproxim ar dem ais do edifício. Para a frente e para trás. Para cim a e para baixo.
O sangue dos j hinkas escorria pelo escudo. Corpos de j hinkas resvalavam e deslizavam , enquanto os que se davam conta do perigo tentavam abrir cam inho antes que o braço devastador voltasse.
Satisfeito com a onda de pavor do outro lado do escudo, contornou o edifício, a m ão sem pre dirigida para o escudo.
E os j hinkas m orreram .
Com eçava um a terceira volta quando os j hinkas que ainda tentavam escalar o escudo perceberam o pânico dos que tentavam fugir. Em alvoroço e aos gritos, abandonaram a em preitada e voaram para os m ontes baixos.
Lucivar retraiu os “aram es” psíquicos para o anel, cessou o feitiço e baixou o braço devagar.
Randahl, Adler e os dois outros Senhores da Guerra a que ainda não tinha sido apresentado olhavam boquiabertos, com um ar agoniado, para o sangue que escorria pelo escudo, para os pedaços de corpos que deslizavam para o chão.
— Mãe Noite — m urm urou Randahl. — Mãe Noite.
Não conseguiam olhar para Lucivar. Ou m elhor, sem pre que seus olhos se voltavam na direção dele, sua perturbação era perceptível, com o se se perguntassem se o que estava ali dentro com eles não era m uito m ais perigoso e m ortífero do que o inim igo do lado de fora.
O que era verdade.
— Vou ver com o está a Senhora — disse Lucivar, de repente.
Por ser Mestre da Guarda, Randahl tentaria agir norm alm ente assim que dispusesse de alguns m inutos para se recom por. Pelo m enos o hom em recorreria ao Protocolo para se dirigir a um Príncipe dos Senhores da Guerra. Já os outros...
Tudo tem um preço.
Lucivar aproxim ou-se da parte da frente do edifício e se perm itiu um m om ento para estabilizar as próprias em oções. Se outros m em bros dos Sangue não conseguiam enfrentar um Príncipe dos Senhores da Guerra no lim iar do assassinato decerto não seriam os plebeus feridos que fariam isso. E, neste m om ento, a histeria poderia desencadear um desej o feroz por derram am ento de sangue. Um m acho recém -saído do lim iar do assassinato precisava de alguém , de preferência um a m ulher, para aj udá-lo a estabilizar. Esse era um dos m uitos finos fios que ligavam os Sangue. Durante os períodos em que estavam m ais vulneráveis, as feiticeiras precisavam da força m asculina agressiva, e os m achos, por sua vez, às vezes precisavam desesperadam ente do am paro e do conforto que encontravam na força delicada de um a m ulher.
Ele precisava de Jaenelle.
Lucivar deu um sorriso am argo ao entrar no edifício. Naquele m om ento, todos precisavam de Jaenelle. Esperava — doces Trevas, e com o esperava! — que bastasse estar j unto dela.
O centro com unitário era form ado por várias salas onde os aldeões podiam se reunir para bailes ou reuniões. Pelo m enos, era para isso que j ulgava que seriam . Tivera pouco contato com os plebeus. Enquanto perscrutava os salões, ansiando pela presença fam iliar de Jaenelle, sentiu a dor e o m edo dos feridos encostados às paredes ou deitados no chão. A dor era fácil de suportar. O m edo, que brotava naqueles que reparavam nele, corroía o seu instável autocontrole.
Lucivar j á tinha com eçado a se virar para ir em bora quando reparou num j ovem rapaz que j azia num colchão estreito perto da porta. Em circunstâncias norm ais, poderia pensar tratar-se de m ais um plebeu, m as vira m uitos hom ens em condições sem elhantes para que o fraco odor psíquico passasse despercebido.
Apoiando-se num j oelho, Lucivar levantou o lençol que cobria o corpo do pescoço aos pés com cuidado. Seus olhos iam das feridas ao rosto calado e tenso, e depois em sentido contrário. Praguej ou baixinho. Os ferim entos internos eram graves. Por m enos do que isso j á vira hom ens m orrer. As feridas não estavam além dos poderes curativos de Jaenelle, m as não sabia se ela conseguiria reconstruir os pedaços que j á não existiam .
Baixando o lençol, Lucivar saiu do salão, praguej ando cada vez m ais alto e com m ais crueldade, enquanto procurava um a sala vazia onde pudesse tentar controlar o tem peram ento, que estava cam inhando para um a espiral descontrolada.
Randahl não m encionara nenhum ferido entre seus hom ens. E por que o rapaz — ou m elhor, o hom em : um a pessoa com aquele tipo de ferim entos de guerra não m erecia ser cham ado de rapaz. Por que ele estava separado dos outros, enfiado num canto escuro, onde poderia facilm ente passar despercebido?
Detectando o calor de um odor psíquico fem inino, Lucivar abriu um a porta de rom pante e entrou na cozinha antes de se dar conta, tarde dem ais, de que a m ulher que tentava bom bear água com um a m ão não era Jaenelle.
Ela se virou ao ouvir a porta bater na parede, levantando o braço esquerdo em defesa contra o atacante.
Lucivar odiou-a. Odiou-a por não ser Jaenelle. Odiou-a pelo m edo nos olhos, que o im peliam a um a fúria cega. Odiou-a por ser j ovem e bela. E, acim a de tudo, odiou-a por saber que, a qualquer m om ento, ela sairia correndo e ele iria pegá-la, m achucá-la e m atá-la antes que conseguisse se controlar.
Ela engoliu em seco e disse, num a voz calm a e trêm ula:
— Estou tentando ferver água para fazer chá para os feridos, m as a bom ba está dura e não consigo trabalhar só com um a m ão. Poderia m e aj udar?