A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 17 de 22 · parte 3/3

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A Herdeira das Sombras

Quarta Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Um nó de tensão se desfez dentro de Lucivar. Aqui, pelo m enos, havia um a fêm ea dos plebeus que sabia se dirigir aos m achos dos Sangue. Pedir aj uda era sem pre a form a m ais fácil de redirecionar um deles para a prestação de serviços.

Quando Lucivar avançou, ela se afastou para o lado, trem endo. A fúria voltou a surgir, até que ele reparou no braço direito enfaixado que a j ovem m antinha j unto ao estôm ago, com a m ão enfiada entre o vestido e o avental.

Não era m edo, era cansaço e perda de sangue.

Lucivar puxou um a cadeira e posicionou-a perto o bastante para que ela supervisionasse, m as longe o suficiente para que não a tocasse ao passar.

— Sente-se.

Quando a m ulher se sentou, Lucivar bom beou água e colocou os bules cheios no fogão a lenha. Reparou nos sacos de ervas organizados sobre a m esa de m adeira ao lado da pia dupla e olhou para a m ulher com curiosidade.

— Lord Randahl m e disse que a sábia e dois m édicos m orreram .

Seus olhos encheram -se de lágrim as, e ela assentiu com a cabeça.

— Era m inha avó. Disse que eu possuía o dom e estava m e ensinando.

Lucivar encostou-se à m esa, intrigado. As m entes dos plebeus eram fracas dem ais para exalar um odor psíquico, m as a dela era diferente.

— Onde aprendeu a lidar com m achos dos Sangue?

Ela arregalou os olhos, ansiosa.

— Não estava tentando controlá-lo!

— Eu disse lidar, não controlar. Há um a diferença.

— Eu... eu só fiz o que a Senhora disse.

A tensão interior aliviou-se um pouco m ais.

— Com o se cham a?

— Mari. — Hesitou. — Você é o Príncipe Yaslana, certo?

— Isso a incom oda? — perguntou Lucivar, com voz inexpressiva. Para sua surpresa, Mari deu um sorriso tím ido.

— Oh, não. A Senhora disse que podíam os confiar em você.

As palavras o reconfortaram com o a carícia de um a am ante. No entanto, ao detectar a ligeira ênfase no tom , perguntou-se em quem os plebeus no povoado não poderiam confiar. Sem icerrou os olhos dourados, estudando-a.

— Há gente dos Sangue na sua fam ília, não é?

Mari em palideceu um pouco e não conseguiu olhar para Lucivar.

— Minha bisavó era m eio-Sangue. H-há quem diga que puxei a ela.

— Do m eu ponto de vista, isso não é negativo. — O alívio evidente da m ulher era dem ais para Lucivar, por isso ele com eçou a inspecionar os sacos de ervas. Ela logo pensaria que era a causa da raiva dele, por isso Lucivar ficou rem exendo nos sacos até conseguir controlar as em oções.

Pela sua experiência, as crianças m eio-Sangue raram ente eram bem -vindas ou aceitas por qualquer um a das sociedades. Os Sangue não os queriam por não possuírem força suficiente para executar as ações m ais básicas para as quais usavam a Arte, e, por isso eles nunca passariam de criados inferiores. Os plebeus não os queriam , j á que possuíam poder dem ais, e esse dom , sem treino ou código m oral com o am paro, produzira m uitos tiranos m esquinhos que se valeram da m agia e do m edo para governar povoados que, de outro m odo, não os aceitariam .

A água com eçou a ferver.

— Sente-se — ordenou Lucivar, ríspido, quando Mari com eçou a se levantar. — Pode m e dizer o que quer m isturar daí. Além disso — acrescentou, sorrindo, para atenuar a rispidez —, j á fiz m isturas de infusões m edicinais para um a Senhora m ais severa do que você.

Com um a expressão apropriadam ente com preensiva, e concordando que a Senhora era um pouco rabugenta no que dizia respeito à m istura de infusões m edicinais, Mari ia indicando as ervas que pretendia usar e descrevia as m isturas que queria.

— Vê a Senhora com frequência? — perguntou Lucivar, enquanto retirava os bules do fogão, colocando-os em tripés de pedra, dispostos num a das extrem idades da m esa. Apesar de continuar se recusando a constituir um a corte form al, as opiniões de Jaenelle eram ouvidas com atenção em quase todo o território de Kaeleer.

— Ela nos visita durante a tarde, de duas em duas sem anas. Jaenelle, Vovó e eu falam os sobre Arte m edicinal enquanto seus am igos ensinam Khevin.

— Quem ... — Interrom peu a pergunta. Julgara que o odor psíquico do j ovem estava fragilizado devido à gravidade dos ferim entos. No entanto, era bastante forte para um m eio-Sangue. — Quem são os am igos que ensinam ele?

— Lord Khardeen e Príncipe Aaron.

Khary e Aaron eram escolhas adequadas para ensinar Arte básica a um j ovem m eio-Sangue. O que não desculpava Jaenelle por não ter pedido a ele para participar. Lucivar colocou as trouxinhas de ervas nos bules com cuidado.

— Am bos possuem bons fundam entos na Arte básica. — E acrescentou, sentindo-se rancoroso: — Ao contrário da Senhora, que ainda não consegue invocar os próprios sapatos.

A fungadela afetada de Mari pegou-o de surpresa.

— Não sei por que fazem tanto estardalhaço por causa disso. Se eu tivesse um a am iga capaz de todas aquelas m agias m aravilhosas, não m e im portaria nem um pouco de ir buscar seus sapatos.

Aborrecido, Lucivar resm ungou baixinho enquanto vasculhava os arm ários ruidosam ente, à procura de xícaras. A m aldita j ovem com certeza era um a descendente. Pelo m enos, tinha o tem peram ento de um a feiticeira.

Calou-se ao ver quão pálida Mari ficara. Um pouco envergonhado, encheu um a xícara com um a das infusões m edicinais e aguardou enquanto a m ulher bebia.

— Vi Khevin quando entrei — disse, com a voz serena. — Exam inei os ferim entos. Por que Khary e Aaron não o ensinaram a se escudar?

Mari levantou os olhos, surpresa.

— Ensinaram . Foi Khevin que produziu o escudo em volta do centro com unitário, quando os j hinkas iniciaram os ataques.

— Acho que preciso de um a explicação m elhor — disse Lucivar, com a sensação de que Mari retirara todo o ar de seus pulm ões. Um m eio-Sangue forte poderia ter poder suficiente para criar um escudo pessoal durante alguns m inutos, m as não conseguiria criar e m anter um escudo que protegesse todo um edifício. Mas, é claro, Jaenelle possuía instintos m isteriosos no que dizia respeito a reconhecer forças bloqueadas.

Mari, com um ar intrigado, confirm ou a ideia.

— Khevin conheceu a Senhora quando ela veio visitar a m im e à Vovó. Ela olhou para ele por um longo tem po, em seguida disse que era m uito forte e não podia deixar de receber treinam ento adequado na Arte. Quando voltou, trouxe Lord Khardeen e o Príncipe Aaron. A prim eira lição foi a criação de um escudo.

A m ão de Mari com eçou a trem er e bateu na xícara.

Lucivar usou a Arte para erguer a xícara de form a que o líquido não se derram asse.

— Foram os prim eiros am igos que Khevin j á teve. — Seus olhos suplicavam com preensão. Depois, corou e baixou-os. — Quero dizer, am igos hom ens. Ninguém ria dele ou lhe dava apelidos, com o fazer alguns dos j ovens Senhores da Guerra de Agio.

— E os Senhores da Guerra m ais velhos? — perguntou Lucivar, cuidando para m anter a fúria afastada da voz.

Mari deu de om bros.

— Quando vinham ver com o estava o povoado, pareciam envergonhados sem pre que o viam . Não queriam saber da sua existência. Tam bém não gostavam de m e ver por perto... — acrescentou, am arga. — Mas Lord Khardeen e Príncipe Aaron... Quando a aula term inava, ficavam m ais um pouco bebendo cervej a e conversando. Falavam com ele sobre o código de honra dos Sangue e as regras pelas quais os m achos devem reger suas vidas. Às vezes, eu m e perguntava se os Sangue em Agio nunca ouviram falar dessas regras.

Se não tivessem ouvido, agora iriam .

— O escudo — lem brou.

— De um m om ento para outro, o céu ficou tom ado de j hinkas aos gritos. Khevin m e disse para ir ao centro com unitário. Nós... a Senhora diz que às vezes form a-se um a ligação quando pessoas com o nós são... íntim as.

Lucivar olhou de relance para a m ão esquerda da garota. Não tinha aliança, então eram am antes. Pelo m enos, Khevin conhecera e proporcionara esse prazer.

— Eu estava nesta ponta do povoado, entregando algum as ervas m edicinais da Vovó. Os adultos não m e deram atenção, por isso agarrei um a m enina que brincava na rua e gritei às outras crianças que viessem com igo. A-acho que obriguei algum as delas.

“Quando chegam os ao centro com unitário, Khevin j á tinha levantado o escudo em volta do edifício. Ele transpirava. Parecia que aquilo o m achucava.

Lucivar não tinha dúvidas.

— Khevin disse que tentaria enviar um a m ensagem a Agio por um fio psíquico, m as não sabia se alguém o detectaria. Depois m e disse que alguém precisava ficar dentro do escudo para atravessá-lo e puxar outra pessoa. Ele m e puxou para dentro no m om ento exato em que um dos j hinkas se atirou sobre nós, chocando-se contra o escudo com tanta força que perdeu os sentidos. Khevin pegou o m achado, estava cortando lenha quando com eçou o ataque, atravessou o escudo e m atou o j hinka. A essa altura, todos os hom ens do povoado estavam nas ruas, lutando. Khevin ficou do lado de fora, protegendo as crianças enquanto eu as puxava para dentro.

“Os j hinkas j á tinham feito o cerco. Muitas das m ulheres que tentavam chegar ao edifício não conseguiram escapar ou j á estavam gravem ente feridas quando foram puxadas. Vovó... Vovó... estava quase alcançando o edifício quando um dos j hinkas atacou de repente e... Deu um a gargalhada. Olhou para m im e riu, enquanto m atava Vovó.”

Lucivar voltou a encher a xícara e lançou um feitiço de aquecim ento nos bules enquanto Mari rem exia no bolso do avental à procura de um lenço.

Ela bebeu o chá de ervas em pequenos goles e ficou calada durante um m inuto.

— Khevin não podia continuar lutando e, ao m esm o tem po, m anter o escudo. Até m esm o eu podia perceber. Tinha f-flechas nas pernas. Não conseguia se m over com rapidez. Foi atingido antes de conseguir atravessar o escudo e sofreu aquilo. Foi então que Lord Randahl chegou com os outros, e eles com eçaram a lutar.

“Dois dos Senhores da Guerra escudavam os feridos, trazendo-os para cá, enquanto os outros dois continuavam a m atança.

“O escudo de Khevin com eçava a enfraquecer. Tem i que, se os Senhores da Guerra erguessem outro, eu não conseguiria atravessar e Khevin ficaria do lado de fora. Quando estendi o braço para pegá-lo, um dos j hinkas m e viu e m e golpeou. Puxei Khevin para dentro logo antes de os Senhores da Guerra atravessarem e erguerem outro escudo.”

Mari bebeu o chá.

— Lord Adler com eçou a vociferar, j á que não conseguiam penetrar na tem pestade de feiticeira ao redor do povoado e enviar um a m ensagem para Agio. Lord Randahl, porém , não parava de olhar para Khevin. Depois, ele e Lord Adler pegaram Khevin, com o se finalm ente ele t-tivesse algum valor. Foram buscar o colchão e os lençóis na cam a do zelador e fizeram o possível para que ficasse confortável.

Mari olhou fixam ente para a xícara, as lágrim as escorrendo pelo rosto.

— E isso é tudo.

Lucivar pegou a xícara vazia, desej ando oferecer-lhe algum consolo, m as sem saber se ela aceitaria aquilo vindo de um Príncipe dos Senhores da Guerra. Talvez de alguém com o Aaron, que era da m esm a idade, m as dele?

— Mari?

Quando Jaenelle entrou na cozinha, sentiu um a onda de alívio.

— Deixe-m e ver seu braço — pediu Jaenelle, afrouxando as ataduras com cuidado e ignorando as súplicas de Mari para que tratasse de Khevin. — Prim eiro, seu braço. Preciso que estej a bem para m e aj udar com os outros. Vam os precisar de... ah, você j á preparou.

Enquanto Jaenelle tratava o corte profundo que ia do cotovelo ao pulso de Mari, Lucivar encheu xícaras de chá m edicinal e colocou um feitiço de aquecim ento em cada um a delas. Depois de um a busca pelos arm ários, encontrou duas bandej as de m etal. Com as xícaras, seriam m uito pesadas para Mari, ainda m ais porque Jaenelle acabara de avisá-la que o tipo de cura rápida que teria de aplicar não resistiria sob pressão. Mas os j ovens Senhores da Guerra lá fora poderiam carregar e erguer pesos, agora que Lucivar estava m antendo o escudo.

Jaenelle resolveu o problem a lançando um feitiço flutuante sobre as duas bandej as, para que pairassem ao nível da cintura. Mari não teria de carregá-las, apenas conduzi-las.

Com Lucivar e Mari guiando as bandej as, os três se dirigiram ao grande salão. Jaenelle ignorou o falatório que surgiu assim que os aldeões a viram , dirigindo-se ao canto onde Khevin repousava.

Mari hesitou, m ordendo o lábio, claram ente dividida entre o desej o de ir para perto do am ante e seus deveres com o assistente de Curandeira. Lucivar deu um rápido apertão em seu om bro, com o encoraj am ento, antes de se j untar a Jaenelle. Não sabia com o poderia aj udar, m as faria o que fosse possível.

Quando a Senhora com eçou a levantar o lençol, Khevin abriu os olhos. Com esforço, segurou a m ão dela.

Jaenelle olhou para o j ovem de um j eito inexpressivo. Era com o se tivesse descido tão profundam ente dentro de si m esm a que as j anelas da alm a j á não conseguiam revelar a pessoa que vivia lá dentro.

— Tem m edo de m im ? — perguntou, num sussurro de m eia-noite.

— Não, Senhora — Khevin passou a língua pelos lábios secos. — Mas proteger seu povo é um privilégio de um Senhor da Guerra. Cuide deles prim eiro.

Lucivar tentou alcançá-la por m eio de um fio psíquico, m as Jaenelle bloqueara a entrada. Por favor, Gata. Deixe-o manter o orgulho.

Jaenelle pôs a m ão debaixo do lençol. Khevin gem eu, um protesto sem palavras.

— Farei com o pede só porque pediu — respondeu —, m as vou ligar alguns fios da teia curativa que acabei de tecer para que perm aneça com igo. — Alisou o lençol e pousou um dedo com a unha com prida na base da garganta do rapaz. — E estou avisando, Khevin, é m elhor que perm aneça com igo.

Khevin sorriu e fechou os olhos.

Segurando-a pelo cotovelo, Lucivar conduziu Jaenelle até a entrada.

— Com o não serão necessários para o escudo, m andarei os Senhores da Guerra m ais novos aqui para dentro, para aj udarem no que for preciso.

— Adler, sim . Mas os outros dois, não.

O gelo na voz o assustou. Nunca ouvira um a Rainha condenando um hom em com tam anha convicção.

— Muito bem — disse respeitosam ente. — Posso...

— Mantenha este local seguro, Yaslana.

Sentiu o estrem ecim ento, que controlou depressa, e trancou bem as em oções. Fogo do Inferno, m esm o que o efeito das drogas estivesse passando, perm itindo que ela realizasse os tratam entos, as em oções ainda não tinham estabilizado. E ela sabia disso.

— Gata...

— Eu aguento. Não precisa ficar preocupado.

Ele sorriu.

— Na verdade, quando está silvando e bufando é que você é m ais útil no que diz respeito a m e vigiar.

Os olhos azul-safira reanim aram -se um pouco.

— Não deixarei que se esqueça disso.

Lucivar dirigiu-se à porta que dava para o exterior. Precisaria ficar de olho nela, para se certificar de que beberia água e com eria qualquer coisa de duas em duas horas. Falaria com Mari. Era sem pre m ais fácil fazer Jaenelle com er quando alguém tam bém estava com endo.

Ao virar-se para trás, sentiu o im pacto de corpos contra o escudo e ouviu os gritos de advertência dos Senhores da Guerra que estavam do lado de fora.

Falaria com Mari m ais tarde. Os j hinkas tinham voltado.

 

9 / Kaeleer

Apoiando-se no poço coberto, Lucivar aceitou, agradecido, a caneca de café que Randahl oferecia. Tinha um sabor áspero e lam acento. Não im portava. Naquele m om ento, beberia qualquer coisa quente, até urina.

Os j hinkas vieram durante toda a noite. Às vezes em pequenos grupos que atacavam o escudo e depois fugiam , outras vezes em agrupam entos de duzentos, que batiam no escudo sem parar, enquanto Lucivar os esquartej ava. Sem dorm ir, sem descansar. O cansaço e o esgotam ento físico aum entavam a cada segundo, por causa da canalização do poder arm azenado nas Joias, que tam bém ia se esgotando — um esgotam ento m ais rápido do que o previsto. Randahl e os outros Senhores da Guerra j á tinham esgotado suas forças quando ele e Jaenelle chegaram , de m aneira que Lucivar era a única proteção e a m aior parte da capacidade de com bate. Com o o escudo não ia m ais do que alguns centím etros sob a terra, descobrira, quase tarde dem ais, que os j hinkas estavam usando as pilhas de corpos com o cobertura enquanto escavavam . Por isso, agora o escudo descia a um a profundidade de um m etro e m eio, para depois virar para dentro e ir, por baixo da terra até as fundações do edifício.

Enquanto com batiam os j hinkas que tinham conseguido penetrar sob a extrem idade a sul do escudo, Lucivar reagira ao instinto e correra para a extrem idade norte do edifício, chegando à esquina quando um j hinka corria na direção do poço. O pote de barro que carregava continha veneno concentrado em quantidade suficiente para destruir a única fonte de água de que dispunham . Por isso, o poço agora possuía um escudo de proteção separado.

Assim que o ataque ao poço foi frustrado e o escudo prolongado, a tem pestade de feiticeira voltou a se form ar sobre o edifício. Já não se estendia por todo o povoado para ocultar a destruição, tornando-se agora um a m assa com pacta de fios psíquicos em aranhados, um a nuvem invisível repleta de relâm pagos psíquicos que faiscavam sem pre que tocava no escudo.

A proteção adicional e o reforço constante contra a Arte alheia eram responsáveis pelo que os j hinkas não conseguiam : esgotá-lo até o ponto de ruptura. Aguentaria m ais um dia. Talvez dois. Depois disso, surgiriam pontos fracos no escudo, pontos que perm itiriam a penetração da tem pestade de feiticeira, enredando as m entes exaustas, pontos que poderiam ser atravessados pelos j hinkas, atacando os corpos exaustos.

Considerara por breves instantes a ideia de convencer Jaenelle a voltar à Fortaleza em busca de aj uda. Abandonara-a com a m esm a rapidez. Até term inar os tratam entos, nada nem ninguém a convenceria a sair dali. Se adm itisse que o escudo poderia vir a falhar, o m ais certo era que Jaenelle erguesse um escudo Negro ao redor do edifício, esgotando um corpo j á sobrecarregado pela enorm e teia curativa que criara para fortalecer todos os feridos até conseguir chegar a cada um . Inteiram ente concentrada nos tratam entos, ela não pensaria duas vezes em forçar o corpo além dos lim ites. E, se Lucivar argum entasse sobre os danos que infligiria a si própria, sabia qual seria a resposta: tudo tem um preço.

Por isso, calara-se e refreara o tem peram ento, determ inado a resistir até que alguém de Agio ou da Fortaleza viesse procurá-los.

Agora, no despontar frio da aurora, não conseguia reunir energia suficiente para produzir calor corporal, por isso envolveu a caneca quente com as m ãos geladas.

Randahl bebia o café em silêncio, com as costas voltadas para o povoado. Era um rihlander de pele clara, olhos azuis m ortiços e cabelo fino acanelado. Seu corpo possuía um a rigidez característica da m eia-idade, em bora os m úsculos perm anecessem fortes, e ele tivesse m ais vigor do que os três Senhores da Guerra m ais j ovens j untos.

— As m ulheres em boas condições estão aj udando na cozinha — disse Randahl, após alguns m inutos. — Gostaram m uito da carne de veado e dos outros m antim entos que vocês trouxeram . Estão usando grande parte da carne para fazer um caldo para os feridos m ais graves, e disseram que, com o que sobrasse, fariam um guisado. Você devia ter visto os olhares azedos que lançaram a Mari quando ela insistiu que as prim eiras tigelas deveriam ser para nós. Fogo do Inferno, queixaram -se até m esm o de nos dar esta água suj a para beber, m esm o com igo presente. — Balançou a cabeça, indignado. — Malditos plebeus. A coisa chegou ao ponto de as crianças correrem , aos gritos, sem pre que entram os num povoado. Eles fazem sinais para afastar o m al atrás das nossas costas, m as não deixam de gritar bem alto sem pre que precisam de aj uda.

Lucivar bebeu o café que esfriava depressa.

— Se tem essa opinião sobre os plebeus, por que veio aj udá-los quando os j hinkas atacaram ?

— Não foi por eles. Foi para proteger a terra. Não querem os essa escória dos j hinkas em Ebon Rih. Viem os proteger a terra e tirar aqueles dois daqui. — Os om bros de Randahl relaxaram . — Fogo do Inferno, Yaslana. Quem im aginaria que o rapaz conseguiria criar um escudo daqueles?

— Naturalm ente, ninguém em Agio. — Antes que Randahl conseguisse responder, Lucivar prosseguiu, ríspido: — Se Khevin e Mari são im portantes para vocês, por que não perm itiram que vivessem em Agio, em vez de deixá-los aqui para serem zom bados e desprezados?

O rosto de Randahl ganhou um tom verm elho som brio.

— E o que sabe um Príncipe dos Senhores da Guerra sobre ser zom bado e desprezado?

Lucivar não sabia se tom ara a decisão por j á não se im portar com o que as pessoas sabiam sobre ele ou por não ter certeza se ele e Randahl sobreviveriam .

— Cresci em Terreille, não em Kaeleer. Era m uito novo para m e lem brar do m eu pai quando fom os afastados, por isso cresci com a convicção de que era um m estiço bastardo, indesej ado, que ninguém reclam ara com o seu. Você não faz ideia do que é ser bastardo num cam po de caça ey rieno. Zom bado? — Lucivar deu um a risada am arga. — A provocação preferida era “seu pai é um j hinka”. Sabe o que isso significa para um ey rieno? Que o seu progenitor é um m acho de um a raça odiada e que sua m ãe deve ter consentido na relação, j á que o carregou na barriga até o parto? Oh, acho que sei o que alguém com o Khevin sente.

Randahl pigarreou.

— Fico envergonhado por dizê-lo, m as não foi m ais fácil para ele em Agio. Lady Erika tentou inseri-lo na corte. Sentia que era seu dever, j á que o pai dele fora seu ex-Consorte. Contudo, ele não era feliz, e Mari e a Vovó dela ficaram aqui. Por isso, ele voltou.

E suportara o ostracism o por parte dos plebeus e as provocações dos j ovens m achos dos Sangue, o que explicava por que os dois Senhores da Guerra usando a Arte para afastar os corpos dos j hinkas do escudo estavam sendo m antidos tão longe de Jaenelle quanto possível.

Lucivar respondeu à pergunta que via nos olhos de Randahl.

— Dois am igos de Lady Angelline estavam treinando Khevin.

Randahl esfregou a nuca.

— Nós é que devíam os ter pensado em pedir isso. Ela tem um talento especial para isso.

Lucivar sorriu com pesar.

— Não há dúvida. — E talvez tam bém tivesse algum a ideia de um local para onde o j ovem casal poderia se m udar. Se sobrevivessem .

Por um m om ento, perm itiu-se acreditar que sobreviveriam .

Logo em seguida, os j hinkas voltaram .

 

10 / Kaeleer

Randahl pôs a m ão sobre os olhos para protegê-los do sol vespertino, exam inando os m ontes baixos obscurecidos por j hinkas à espera.

— Devem ter cham ado todos os clãs de todas as tribos — disse, com a voz rouca. Deixou-se cair contra as paredes dos fundos do centro com unitário. — Mãe Noite, Yaslana, devem ser uns cinco m il.

— Creio que seis m il. — Lucivar afastou m ais as pernas. Era a única form a de fazer com que os m em bros cansados e trêm ulos o m antivessem em pé.

Mais seis m il, além das centenas que m atara no decorrer dos últim os dias, e aquela violenta tem pestade de feiticeira em volta deles, alim entando-se do escudo para m anter a força, esgotando Lucivar no processo. Mais seis m il, e não havia com o pegar os Ventos, pois a tem pestade im possibilitava a detecção das estradas psíquicas.

Podiam escudar-se e com bater, m as não podiam enviar um pedido de aj uda nem fugir. A com ida acabara no dia anterior. O poço secara naquela m anhã. E ali estavam seis m il j hinkas, aguardando que o sol se pusesse atrás dos m ontes baixos a oeste, antes de iniciar o ataque.

— Não vam os sobreviver, não é? — perguntou Randahl.

— Não — respondeu Lucivar, sereno. — Não vam os sobreviver.

Nos últim os três dias, esgotara as Joias Cinza-Ébano e o anel com a Joia Verm elha. A Joia Verm elha em volta do pescoço agora era a única reserva de energia que possuía, e não resistiria m uito além do prim eiro ataque. Randahl e os outros três Senhores da Guerra tinham esgotado as Joias antes da chegada de Lucivar e Jaenelle. A com ida e o repouso não foram suficientes para que recuperassem as forças.

Não, os m achos não sobreviveriam . Todavia, Jaenelle tinha que sobreviver. Era um a Rainha valiosa dem ais para se perder num a cilada que, estava convencido, fora arm ada com o obj etivo de destruí-lo.

Satisfeito por ter preparado todos os argum entos que o Protocolo perm itia para fazer o pedido a Jaenelle, Lucivar disse:

— Peça à Senhora que venha se j untar a m im aqui.

Com o não era tolo, Randahl com preendeu por que o pedido estava sendo feito naquele exato m om ento.

Sozinho por alguns instantes, Lucivar girou o pescoço e alongou os om bros, na tentativa de aliviar os m úsculos tensos e fatigados.

É mais fácil matar do que curar. É mais fácil destruir do que preservar. É mais fácil demolir do que construir. Aqueles que se alimentam de emoções e ambições destrutivas, negando a responsabilidade que é o preço de exercer o poder, podem destruir tudo aquilo que todos prezam e protegem. Estejam sempre atentos.

Palavras de Saetan. As advertências de Saetan aos j ovens Senhores da Guerra e Príncipes dos Senhores da Guerra que se reuniam no Paço.

Contudo, Saetan nunca m encionara a parte final da advertência: às vezes a m orte é m ais m isericordiosa.

Não tinha forças suficientes para proporcionar um a m orte j usta e rápida a Jaenelle. Mas, m esm o com todas as forças, Randahl e os outros Senhores da Guerra usavam Joias m ais claras, e os plebeus não possuíam defesas interiores contra os Sangue. Assim que Jaenelle e Mari estivessem longe dali, assim que os j hinkas iniciassem a investida final, executaria um a descida veloz, reuniria todas as gotas de poder que lhe restassem e libertaria essa força. Os plebeus m orreriam na m esm a hora, com as m entes consum idas. Randahl poderia sobreviver m ais alguns segundos, m as não por tem po suficiente para que os j hinkas os alcançassem .

E os j hinkas... tam bém m orreriam . Alguns. Muitos. Mas não todos. Ficaria sozinho enquanto os sobreviventes o destroçariam . Tom aria providências para isso. Já com batera j hinkas em Terreille. Vira o que faziam aos prisioneiros. No que dizia respeito à crueldade, eram um povo habilidoso. Assim com o tantos dos Sangue.

Lucivar se virou quando percebeu um m ovim ento com o canto do olho.

Jaenelle estava parada a alguns centím etros, com os olhos fixos nos j hinkas.

Não usava nada além da Joia Negra em volta do pescoço.

Percebia o m otivo. Nem m esm o a roupa íntim a teria servido. Todos os seus m úsculos tinham desaparecido, todas as curvas fem ininas que ganhara ao longo do ano anterior. Sem outra fonte de alim ento, seu corpo consum ira-se na luta para ser o receptáculo do poder interior. Os ossos exerciam pressão na pele pálida, abatida e suj a de sangue. Conseguia contar as costelas, conseguia ver os ossos dos quadris deslocando-se quando ela m exia os pés. O cabelo louro estava escurecido e endurecido com o sangue que suj ava nos fios sem pre que ela levava a m ão à cabeça.

Apesar disso, ou talvez por causa disso, seu rosto era estranham ente fascinante. A j uventude fora consum ida na fogueira curativa, deixando-a com um a beleza atem poral e eterna que se adequava aos olhos azul-safira antigos e perturbados. Parecia um a m áscara refinada que j am ais voltaria a ser tocada pelas preocupações da vida.

Foi então que a m áscara se estilhaçou. O pesar e a fúria inundaram Lucivar, lançando-o contra o edifício.

Lucivar agarrou-se a um canto e aguentou com um desespero que logo foi consum ido por um m edo avassalador.

O m undo girava a um a velocidade revoltante, em espirais cada vez m ais estreitas, arrasando sua m ente, am eaçando arrancá-lo de qualquer abrigo de sanidade. Cada vez m ais veloz. Indo cada vez m ais fundo.

Espirais. Saetan dissera algo sobre as espirais, m as ele não conseguia ver, não conseguia respirar, não conseguia pensar.

O escudo de Lucivar cedeu, e a energia foi sugada para a espiral. A tem pestade de feiticeira tam bém foi puxada, e os fios psíquicos se partiam enquanto ele lutava para perm anecer ao redor do edifício.

Cada vez m ais rápido, cada vez m ais fundo, e então o poder negro ergueu-se do abism o, ribom bando ao passar por Lucivar a um a velocidade que congelou sua m ente.

Lucivar em purrou-se para longe do edifício e cam baleou na direção de Jaenelle. Para baixo. Precisava puxá-la para o chão, precisava...

Pop.

Pop pop.

Pop pop pop pop pop.

— MÃE NOITE! — gritou Adler, apontando na direção das colinas.

Lucivar distendeu um m úsculo do pescoço ao virar a cabeça na direção do som dos corpos dos j hinkas, que explodiam .

Outra onda de poder negro dardej ou através do que restava dos fios psíquicos da tem pestade de feiticeira. Eles flam ej aram , ficaram enegrecidos, desapareceram .

Pensou ter ouvido um grito fraco.

Pop pop pop.

Pop pop.

Pop.

Em trinta segundos, seis m il j hinkas foram destruídos.

Jaenelle não olhou para ninguém . Lim itou-se a dar m eia-volta e com eçar a cam inhar devagar, rígida, na direção da extrem idade oposta do povoado.

Lucivar tentou pedir para ela esperar, m as não conseguia produzir nenhum som . Tentou ficar de pé, sem entender com o acabara aj oelhado, m as suas pernas pareciam feitas de gelatina.

Lem brou-se, por fim , do que Saetan dissera sobre espirais.

Não a tem ia, m as, fogo do Inferno, queria saber o que teria provocado Jaenelle, para que soubesse, de algum a form a, com o lidar com ela.

Sentiu m ãos puxando-o pelo braço.

Randahl, pálido e parecendo nauseado, aj udou-o a se levantar.

Ficaram ofegantes pelo esforço de alcançar o edifício e apoiaram -se na parede de pedra.

Randahl esfregou os olhos. Os lábios estavam trêm ulos.

— O rapaz m orreu — disse, com a voz rouca. — Ela tinha acabado de curar o últim o plebeu. Fogo do Inferno, Yaslana, curou os trezentos. Trezentos em três dias. Quase não se aguentava nos próprios pés. Mari estava dizendo que ela precisava se sentar, precisava descansar. A Senhora balançou a cabeça e foi cam baleando até o local onde Khevin estava deitado e... e ele olhou para ela e m orreu. Extinguiu-se. Extinguiu-se com pletam ente. Não restou nem um m urm úrio.

Lucivar fechou os olhos. Pensaria nos m ortos depois. Ainda havia m uito a fazer pelos sobreviventes.

— Tem força suficiente para enviar um a m ensagem a Agio?

Randahl negou com a cabeça.

— Nenhum de nós tem força suficiente para viaj ar pelos Ventos neste m om ento, m as éram os esperados há um dia, por isso deve haver gente nos procurando pelas estradas.

— Quando seu povo chegar, quero que acom panhem Mari ao Paço.

— Nós podem os tom ar conta dela — respondeu Randahl, ríspido.

Mas será que Mari quer ficar sob os cuidados dos Sangue em Agio?

— Acom panhem -na ao Paço — disse Lucivar. — Ela precisa de tem po para o luto e de um local onde o coração possa com eçar a sarar. No Paço, terá quem possa aj udá-la.

Randahl pareceu descontente.

— Acha que os Sangue de Dhem lan serão m ais afáveis com ela do que nós?

Lucivar deu de om bros.

— Não estava pensando nos Sangue de Dhem lan. Estava pensando nos parentes.

Depois que Randahl concordou, Lucivar entrou no centro com unitário, perm anecendo apenas o tem po necessário para dizer a Mari que voltaria ao Paço. Ela agarrou-se a ele durante alguns m inutos, chorando copiosam ente.

Lucivar abraçou-a, consolando-a tanto quanto possível.

Quando duas plebeias, lançando olhares desafiadores às dem ais, se ofereceram para tom ar conta de Mari, ele deixou-a, esperando sinceram ente nunca m ais ter de conviver com plebeus.

Encontrou Jaenelle a alguns passos dos lim ites do povoado, enroscada em posição fetal, produzindo pequenos sons desesperados.

Deixou-se cair de j oelhos e tom ou-a nos braços.

— Eu não queria m atar — lam entou-se. — Não é o obj etivo da Arte. Não é o obj etivo da minha Arte.

— Eu sei, Gata — m urm urou Lucivar. — Eu sei.

— Poderia ter colocado um escudo em volta deles, que os detesse até obterm os aj uda de Agio. Era essa a m inha intenção, m as a fúria com eçou a fervilhar dentro de m im quando Khevin... Eu podia sentir as m entes deles, podia sentir sua ânsia de fazer o m al. Não consegui frear a fúria. Não consegui.

— São as drogas, Gata. Essas porcarias em baralham as em oções por m uito tem po, ainda m ais num a situação com o esta.

— Não gosto de m atar. Preferia ser ferida a ter de ferir alguém .

Lucivar não discutiu com ela. Estava exausto dem ais, e as em oções de Jaenelle eram brutas dem ais. Tam bém não m encionou que ela apenas reagira à dor e à m orte de um am igo. O que não conseguia, não queria fazer por si própria, faria por alguém de quem gostava.

— Lucivar? — disse Jaenelle, num tom queixoso. — Preciso de um banho.

Era apenas um a das coisas que Lucivar tam bém desej ava.

— Vam os para casa, Gata.

 

11 / Terreille Dorothea SaDiablo deixou-se cair num a cadeira e olhou espantada para a visita inesperada.

— Aqui? Você quer ficar aqui? — Será que a vagabunda tinha se olhado num espelho, recentem ente? Com o explicaria a presença de um cadáver am bulante e ressequido que parecia acabar de ter saído da sepultura?

— Não aqui, na sua querida corte — respondeu Hekatah, com os lábios descarnados apertados em um rosnado. — E não estou lhe pedindo perm issão. Estou avisando que vou ficar em Hay ll e que preciso de aloj am ento.

Avisando. Sem pre avisando. Sem pre lem brando-a de que j am ais teria se tornado Sacerdotisa Suprem a de Hay ll sem a orientação e o apoio sutil de Hekatah, sem que Hekatah lhe indicasse as rivais com forte potencial, que poderiam frustrar seus sonhos de se tornar um a Sacerdotisa Suprem a tão poderosa que até as Rainhas se subm eteriam a ela.

Bem , na verdade era a Sacerdotisa Suprem a de Hay ll, e, depois de séculos m anobrando e m altratando m achos, que, por sua vez, praticavam a sua própria cota de m aus-tratos, não restara nenhum a Rainha de Joia escura em Terreille. Não havia Rainhas nem Viúvas Negras, não havia nenhum a outra Sacerdotisa que se equivalesse à sua Joia Verm elha. Em alguns territórios m enores e m ais renitentes, não havia sequer m em bros dos Sangue que usassem Joias. Em m ais cinco anos, teria sucesso onde Hekatah falhara: se tornaria a Sacerdotisa Suprem a de Terreille, tem ida e venerada por todo o Reino.

E, quando esse dia chegasse, teria algo especial preparado para sua m entora e conselheira.

Dorothea recostou-se e reprim iu um sorriso. Aquele saco de ossos ainda poderia ser útil. Sadi continuava solto por aí, j ogando seu j ogo furtivo e zom beteiro. Em bora não sentisse sua presença há bastante tem po, sem pre que abria a porta esperava encontrá-lo do outro lado, à sua espera. Mas se um a Sacerdotisa Suprem a de Joia Verm elha e Viúva Negra estivesse aloj ada no chalé que m antinha para noites m ais enérgicas e im aginativas, e ele por acaso descobrisse que um a feiticeira vivia ali tranquilam ente... bem , seu odor psíquico estava entranhado no local, e pode ser que Sadi nem perdesse tem po distinguindo entre o odor do local e o odor psíquico da inquilina. Seria um a pena perder a construção, m as era certo que ela não restaria em pé quando ele term inasse.

E, claro, tam bém não restaria nada de Hekatah.

Dorothea prendeu um a m adeixa preta na trança sim ples em volta da cabeça.

— Percebi que não estava m e pedindo perm issão, Irm ã — ronronou. — Algum a vez m e pediu o que quer que fosse?

— Não se esqueça de a quem está se dirigindo — silvou Hekatah.

— Nunca esqueço — respondeu Dorothea, com gentileza. — Tenho um chalé no cam po a cerca de um a hora de carruagem de Draega. É utilizado para diversões discretas. Você pode ficar lá o tem po que quiser. O pessoal está m uito bem treinado, por isso lhe peço que não faça refeição deles. Providenciarei um banquete de j ovens. — Franzindo a sobrancelha enquanto observava um a unha, invocou um a lixa, aparou um a im perfeição, avaliou o resultado e retom ou a tarefa. Finalm ente satisfeita, fez desaparecer a licha e sorriu para Hekatah. — Mas, é claro, se m eus aloj am entos não forem do seu agrado, sem pre pode voltar para o Inferno.

 

Vadia gananciosa e ingrata.

Hekatah deixou outro espelho opaco. Até m esm o essa pequena am ostra de Arte era quase dem ais.

Não era desse j eito que planej ara voltar a Hay ll, escondida com o um parente senil e babão despachado para um lugar rem oto sem ninguém com o com panhia além de criados taciturnos.

É claro que depois de recuperar um pouco de força...

Hekatah balançou a cabeça. As diversões teriam de ficar para m ais tarde.

Considerou a ideia de tocar a sineta para que um criado viesse colocar m ais lenha na lareira, m as acabou fazendo aquilo sozinha. Acom odada num a poltrona m uito velha, observou enquanto a lenha era envolvida e consum ida pelas cham as.

Consum ida, tal com o haviam sido todos os seus belos planos.

Prim eiro, o fiasco com a garota. Se aquilo era o m elhor que Jorval conseguia fazer, teria de reconsiderar sua pretensa utilidade.

Depois, o ey rieno conseguira fugir da cilada, destruindo todos aqueles adoráveis j hinkas que ela cultivara com tanto cuidado. E o poder que recebera de volta através da tem pestade de feiticeira provocara-lhe isto.

E, por últim o, m as não m enos im portante, a purga que aquele filho da puta realizara no Reino das Trevas. Neste m om ento, não havia refúgio seguro no Inferno e ninguém , ninguém para servi-la.

Sendo assim , por ora, teria de aceitar a hospitalidade zom beiteira de Dorothea, teria de aceitar esm olas em vez do tributo que lhe era devido.

Não im portava. Ao contrário de Dorothea, que estava ocupada dem ais tentando conquistar poder e devorar Territórios, tinha observado os dois Territórios dos vivos por m uito tem po, com m uita atenção.

Deixe que Dorothea fique com as ruínas de Terreille.

Hekatah teria Kaeleer.