A instrução pública nas vozes dos portadores de futuros (Brasil – séculos XIX e XX)
Verbo social, pátria viva
“O Brasil é um mundo” (ou o grande
dia tropical)
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! não verás nenhum país como este! Olha que céu! que mar! que rios! que floresta! A Natureza, aqui, perpetuamente em festa, É um seio de mãe a transbordar carinhos. Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos! Vê que luz, que calor, que multidão de insetos! Vê que grande extensão de matas, onde impera Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Dotados de apelos cálidos, no sentido de dar a conhecer e fazer amar o Brasil,por gerações,os versos romântico-patrióticos desse poema de circunstância,“A Pátria”, de Olavo Bilac (1904, p.15), impressionam a meninice escolar. Desde os fins do século XIX, a pedagogia escolar encontra-se acometida por manifestações de patriotismo e civismo, considerada instituição social capaz de superar divisões e desarmonias, via-se na escola a efígie do nacionalismo. Conhecer as “pequenas pátrias”, as regiões brasileiras, amar a “grande pátria”, a Nação, são os apelos duma literatura didática de cunho nacional e nacionalizante, com isso intentava-se estimular o patriotismo, a exemplo das nações liberais Estados Unidos, Itália, França e Alemanha, cujos valores ecumênicos e missionários desbordavam em solidarismos.
Tudo leva a crer que a idolatria da nação (e da pátria) preenche o vazio gerado pela ausência de instrução religiosa; e, como não há educação sem fé, opta-se pela adoração do altar da Pátria. No intento de consubstanciar um povo feito de irmãos fraternos, cedo ou tarde, dos Céus encantados e radiantes, a Nação desceria a Terra. Resumidamente, para esse ponto de vista, o agir coletivo harmonioso tem suas raízes na educação comum, donde o contínuo estampar de certificados de civismo, isto é, os compêndios centrados na elegia da natureza, no culto das origens, no caráter do povo e, acima de tudo, no bem coletivo como referencial a ser incutido na infância escolar.
Nessa figuração cívico-nacionalista dos fatos de realidade, o entendimento e o coração da prole da nação são instruídos e afeiçoados não com referência às classes sociais, às crenças religiosas, às doutrinas políticas, mas à Sociedade, ao Estado e à Nação. Que escopos? Suscitar sentimento de lealdade e estima a uma totalidade maior e anterior à existência individual, porquanto isenta de quaisquer egoísmos sociais ou lealdades facciosas. Transfundir espíritos, ou seja, o brasileirismo pela boa vontade cívica, amar e servir o corpo e alma da nação, espalhar a cultura heroica e republicana. De resto, como se afirmava, as escolhas individuais subordinam-se ao bem coletivo, muito embora sabe-se hoje que o pressuposto de sentimento nacional recalcasse a origem e o fundamento das desigualdades entre as classes sociais.
Bussolada pelo nacional e nacionalizante, melhor dizendo, pelo intento de atrair o povo para si e nele reconhecer-se, desponta uma literatura didática desejosa de afetar o leitor com imagens benfazejas, na qual, por assim dizer, há credulidade excessiva; nela, a literatura, destacava-se o gênio distintivo das regiões brasileiras e
sua junção num todo unitário, inextrincável, sobremodo pulsátil. 86 Certamente as origens dessa literatura a exultar a imagem material do país remontam a Por que me ufano de meu país? – do monarquista Afonso Celso, livreto publicado no 4º Centenário do Descobrimento do Brasil. Na folha de rosto, o anexim – “Right or wrong, my country”; na sequência, Afonso Celso descreve um país exuberante, incomensurável, imerso num sonho agradável. O excerto a seguir, embora longo, capta à perfeição o exotismo brasileiro, segundo a visão do autor.
O Brasil é um dos mais vastos países do globo, o mais vasto da raça latina, o mais vasto do Novo Mundo, à exceção dos Estados Unidos. É pouco menor que toda a Europa.
Rivaliza em tamanho com o conjunto dos outros países da América Meridional. Representa uma décima quinta parte do orbe terráqueo. Só a Rússia, a China e os Estados Unidos o excedem em extensão. É quatorze vezes maior do que a França, cerca de trezentas vezes maior do que a Bélgica.
A sua circunscrição territorial menos dilatada, Sergipe, sobreleva a Holanda, a Dinamarca, a Suíça, o Haiti e Salvador. Cada um dos municípios em que se subdivide a mais ampla, Amazonas, equivale a Estados, como Portugal, Bulgária e Grécia. Pará, Goiás, Mato Grosso ultrapassam qualquer nação européia, salvante a Rússia.
O Brasil é um mundo (Figueiredo, 1901, p.9).
Insinuante e agregador, ainda que hoje soe irreal, Afonso Celso, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, elabora uma mitologia das origens e destinação social do país. De saída diverge, motivo edênico, a fusão das raças como fato benquisto, embora muitos a caluniassem. “Negros, brancos, peles-vermelhas, mestiços vivem aqui em abundância e paz”, “Deus não nos abandonará. Se aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos.” Mais à frente de Por que me ufano de meu país? de Afonso Celso, viriam outros artífices desse gênero empenhado na descrição afetuosa das singularidades do país, Alfredo Varela, Livro da mocidade; Olavo Bilac, A pátria brasileira; Júlia Lopes de Almeida Histórias da nossa terra; Viriato Correia, Histórias de nossa história; Afrânio Peixoto, Minha terra e minha gente; Olavo Bilac e Manoel Bomfim, Através do Brasil e Olavo Bilac e Coelho Neto, Contos pátrios.
E, mais ao largo no corpo real da pátria, remanesciam litígios de fronteiras entre Brasil e países sul-americanos, de sorte que a demarcação histórico-geográfica dos limites era objeto de disputas contenciosas. Sob as ações de um dos expoentes da tradição diplomática do Segundo Reinado, José Maria da Silva Paranhos, ministro plenipotenciário, aos poucos se resolvem as pendências
relativas às fronteiras externas.87 De sorte que os tratados internacionais finalizam o bordado das fronteiras, mesmo assim, ainda é relativo o conhecimento da territorialidade comum, as representações cartográficas mais exatas concernem ao Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, e Rio Grande do Sul.
No introito da Estatística da instrução, 1916, Oziel Bordeaux Rego desabafa: para estabelecer a divisão administrativa do país, enumerar municípios, cidades, vilas e paróquias, fora obrigado a recorrer ao “precioso Atlas do Império do Brasil”, de Cândido Mendes de Almeida, e às fontes antigas, isto é, relatórios de presidentes de províncias, legislação anterior ao Ato Adicional, legislações provinciais, obras de Robert Southey, Ferdinand Denis, Aires de Casal, Costa Pereira, Jaboatam, Silva Lisboa, Fernandes Gama, Accyoli, Saint-Hilaire, Koster, Perdigão Malheiro e Cortines Laxe.
Instruir entendimento e coração da
prole da nação
Um dos pontos altos da literatura didática a exultar a grandeza e o orgulho nacional, quer dizer, a noção abstrata da Pátria (e de povonação), é, sem dúvida, Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, o primeiro, inspetor escolar, o segundo professor e diretor na Escola Normal do Distrito Federal. O compêndio é decalcado de Le tour de la France par deux garçons, subintitulado “Devoir et patrie”, de G. Bruno, pseudônimo, um dos melhores produtos do clima pedagógico do começo da Terceira República
francesa.88 O entrecho do livro incita o leitor a acompanhar as jornadas de norte a sul do país por dois adolescentes, Carlos e Alfredo em busca do pai desaparecido. Misto de périplo educativo e enciclopédia popular, a narrativa descreve os meandros geográficos e as peculiaridades regionais.
E acreditamos – escrevem Bomfim e Bilac – que isso se dá com o nosso
trabalho. Estamos certos que a criança, com a sua simples leitura, já lucrará
alguma coisa: aprenderá a conhecer um pouco o Brasil; terá uma visão a um
tempo geral e concreta, da vida brasileira – as suas gentes, os seus
costumes, as suas paisagens, os seus aspectos distintivos.
Em capítulo seguinte. “E então o professor apelará para a observação da criança, para que ela note a diferença entre o estado selvagem e as indústrias, instituições, obras e costumes que distinguem a civilização; mostrará que essas instituições e indústrias faltam ainda em grande parte algumas terras do interior, onde a civilização ainda não penetrou” (Bomfim; Bilac, 1910, p.15). Desse
título foram tiradas 60 edições em cinco décadas. 89
Em Viagem de uma família brasileira ao norte do país, Coelho Neto tenta emular a façanha de Bilac e Bomfim; logo seria a vez de Minha terra, minha gente, obra de iniciação etnográfica e antropogeográfica, de Afrânio Peixoto, diretor da Escola Normal e da Instrução Pública do Distrito Federal. No compêndio, o autor aborda os problemas de raça, clima e meio social a emperrar a formação da nacionalidade. “Nem lamúrias de uns, nem o lirismo de outros, produzem nada. Pareceu, pois, ao autor novidade útil escrever para as crianças de sua terra um livro sincero, sem reservas nem veemências, no qual procurasse, sobre os problemas essenciais da nossa nacionalidade, dizer-lhes verdades necessárias”.
A fusão lenta das misturas malfeitas ainda, a seleção reiterada da cultura, a disciplina forçada da vida social, farão dessa massa um povo forte, são e feliz? O esboço de hoje dará um povo voluntarioso, sentimental, inteligente, digno da terra e do tempo em que vive?
Haja liberdade de comunicações, de comércio, de indústria; é o que reclama um país agrícola, distante dos mercados, distante de si mesmo, tão apartados são os núcleos disseminados da sua população. As nossas riquezas tão faladas, quase em ser, sejam exploradas, pois da riqueza virá progresso, conforto, civilização (Peixoto, 1916, p.225).
Guardadas as inclinações pessoais desses autores tão diferentes entre si, há propósitos extraliterários comuns, a fidelidade à ideia do nacional, o despertar de afeto, o amor à causa pública, a consciência da comunidade de destinos, isso no intento de enraizar o sentimento nacional e promover a amabilidade humanitária, em suma. “É, então, ali, a ideia sagrada da Pátria se apresentou, nítida e bela, diante da alma de Anselmo. E ele compreendendo enfim que a sua vida valia menos do que a honra de sua nação, pediu a Deus, com os olhos cheios de lágrimas, que o fizesse um dia morrer graciosamente, abraçado às dobras daquela formosa bandeira, toda verde e dourada, verde como os campos, dourada como as madrugadas de sua terra.” Enterneciam Olavo Bilac e Coelho Neto (1904, p.15), em Contos pátrios.
Nem ideia abstrata nem produto raciocinante,figurava-se a pátria, como ente coletivo vivo tal como em Breviário cívico, de Coelho Neto, “Publicação da Liga de Defesa Nacional” ou em Tradições nacionais: episódios históricos e brasileiros notáveis, de Carlos Alberto Gomes Cardim, sinceros produtos e subprodutos da ideia
plasmática de nação e nacionalidade.90 Enquanto isso, no aquecido circuito de edição e comercialização de obras didáticas, a Livraria e Editora Francisco Alves e a Companhia Melhoramentos destacavam-se na atração de autores didáticos, em maioria lotados
em aparelhos escolares. 91 Nesse gênero em evidência, carregado de audácias divinatórias, o país aparece mais moderno e menos arcaico, não se alude ao latifúndio, à monocultura de exportação, tampouco às condições de vida e trabalho do povo pobre ou aos entrechoques sociais e às disparidades espaços-temporais.
Objetivando incrementar o “são brasileirismo”, como escrevera Silvio Romero ou conhecer um país “distante de si mesmo”, como queria Afrânio Peixoto, essa literatura de ficção destinada à infância e a juventude (a copiosidade de reedições chama a atenção) assume a feição de certificados de civismo votados à construção simbólica da coletividade social, quer dizer, à supremacia da grande pátria sobre as “pequenas pátrias”ao mesmo tempo em que coligem a antropogeografia e a antropossociologia “da nossa terra e nossa gente”.
De par, nos planos regionais, expandem-se a montagem de aparelhos escolares, as causas são as mais diversas, surtos de modernização das oligarquias estaduais, expansão de fronteiras agrícolas, ondas imigratórias, crescente urbanização e claro demanda social por escola. Nos circuitos políticos e nas instâncias do sistema intelectual, um consenso radical, o Brasil, país jovem e promissor, dotado de horizontes geográficos infindos, em que a natureza prodigiosa armara panoramas sedutores e deslumbrantes,
carecia de direção e soberania mental.92
Vazados em registro de convocatória social, as vozes faladas e as palavras escritas estimam lições intensas extraídas da firmeza cívica e da coragem marcial. Porventura, não mais bastava singularizar a nacionalidade pelos atributos externos, a extensão territorial, a variedade climática, a fertilidade dos solos, as florestas luxuriosas, os rios caudalosos, as cachoeiras majestosas, as praias magníficas, o céu de anil, e, as tradições populares. Porventura, não mais bastavam as ofuscantes tomadas panorâmicas (e extasiantes) enunciadas pelo indianismo-romântico dos poetas oitocentistas ou pelo ufanismo orgulhosamente aristocrático de Afonso Celso: era preciso ir além do ficcional maravilhoso, pois se dizia, a pátria não é apenas natureza.
Das lições auriverdes ministradas entre os escuros horizontes do presente, as noites estreladas e os fulgores da nova manhã, origina-se uma “religião cívica”, crente, fervorosa, assemelhada à dos primeiros cristãos. “Pátria, família e sociedade”, “O Brasil para os brasileiros”, “Tudo pela Pátria!”, “Tudo pela República!”, “Tudo pela Humanidade!”, “Pátria, Nação, Humanidade e Civismo”. E, muito mais do que antes, clamava-se por um filtro admirável, a ação social da escola e sua cultura letrada na formação de uma identidade coletiva mais congregante, mais hegemônica, mais unitária. Esmerilhava-se a confiança na escola social, nela se concentram as intenções educativas da prole da nação, considerada porvir do amanhã futuro. Em suma, na sua variedade, o pensamento
nacionalista e suas “invenções históricas arbitrárias” 93 avultam uma literatura social caracterizada pela confiança na instrução popular.
Dos extravasamentos das inquietudes morais, desdobra-se um chão forrado de publicações vibráteis, apostólicas mesmo, por vezes, mera ficção verbal, nem por isso menos sonoras, contudo aparentadas no desejo de construir uma consciência didática nacional – O Brasil e a educação popular, de Antonio Carneiro Leão; Educação primária escolar, de Raul Alves de Sousa; Pela instrução primária no Brasil, de A. C. Sales Júnior; Problemas de educação nacional e de instrução pública, de Egas Muniz Barreto de Aragão; O problema da educação nacional, de Azevedo Sodré; Eduquemo-nos, de José Augusto Bezerra de Menezes; Educação nacional, de Monteiro de Souza; Ensino popular no Brasil, de Orestes Guimarães; Educar-se para educar, de Venancio Filho; Educação popular, de Firmino Costa; A educação nacional e Virilização da raça, ambos de Mario Pinto Serva e No Brasil só há um problema nacional: a educação do povo, de Miguel Couto.
Tempos idos, tempos novos, num
crescendo
Irmãos do norte! Irmãos do sul, amigos! Unamo-nos em torno da nossa
bandeira; que os elos que nos ligam não se dessoldem nunca, para que seja
grande a sua glória e poderosa a sua força!
Júlia Lopes de Almeida, “A nossa bandeira” (1907).
Na linguagem diagnóstica, o liberalismo-federalista ressoa espécime estrangeiro enxertado em florestas tropicais,por consequência, dizia-se, nelas efloresciam vinte hinos e bandeiras das vinte pátrias estaduais e sobre elas, a tremular, o fantasma da cissiparidade. Na segunda edição de A educação nacional, possivelmente influenciado pelo Os sertões de Euclides da Cunha, a quem demonstrara apreço e admiração, José Veríssimo colocava o problema claramente. “Estas diferenças fundamentais na evolução e índole da nação e da federação encerram os perigos intrínsecos desta forma, perigos que aos políticos previdentes cabe antever e conjurar. Além desses a federação brasileira encerra um outro e gravíssimo, qual é a indicada falta ou pobreza de sentimento nacional, tornando acaso prováveis, e em todo caso possíveis, as tentativas de separação” (Veríssimo, 1906, p.10). Nas imagens anoitecidas, alardeia-se a existência de um país indeterminado, sujeito à incoesão e à indisciplina. “O que me aterra é a possibilidade do desmembramento.”
Amedronta-me este espetáculo: este imenso território, povoado por mais de
vinte e cinco milhões de homens, que não são continuamente ligados por
intensas correntes de apoio e de acordo, pelo sem ideal, pela educação
cívica, pela coesão militar, conflitos ridículos sobre fronteiras, dentro da
integridade da pátria, explorados pela retórica, envenenados pelo fanatismo;
originando guerras fratricidas, a desigualdade entre Estados irmãos, desirmanados pela diferença das fortunas e das prendas (Bilac, 1917, p.23).
Apreensão verbalizada por Oliveira Vianna em Evolução do povo brasileiro, obra em que fixava na forma de mural o desenrolar histórico-sociológico-cultural do país. “Repartindo os poderes da soberania entre a União e os Estados, o novo regime cria, ao lado da história geral das suas instituições, uma história local, que se capitula em vinte histórias particulares, correspondentes aos vinte Estados da Federação” (Oliveira Vianna, 1923, p.29). É de então os ciclos afervorados de conferências, palestras, fundação de sociedades patrióticas, pregoante, o poder da palavra acena ensino cívico, linhas de tiro e escotismo, chegara o tempo atiçado das ligas
e associações civis votadas a sublimar a proto-história nacional. 94 Na tábua de prioridades, a debelação do analfabetismo, a conscrição militar compulsória, o voto obrigatório e secreto, a obrigatoriedade escolar.
Sediada no Rio de Janeiro, com ramificações em Sergipe, Espírito Santo, Pernambuco, a Liga Brasileira contra o Analfabetismo bate-se pelo ensino primário obrigatório, educação nacional, caixas
escolares.95 A Liga de Defesa Nacional conclama a defesa da pátria, educação cívica, voto secreto, batalhões patrióticos, linhas de tiro, escotismo, moralização da política, ensino da língua materna,
valoração do trabalhador, serviço militar e instrução obrigatórios. 96
A sua vez, a Liga Nacionalista de São Paulo desfralda a bandeira negra do perigo: a fidelidade dos imigrantes e descendentes à sua
cultura de origem e a inexistência de patriotismo entre brasileiros. 97 Sob os influxos da Liga, Sampaio Dória, ao reformar a engrenagem dos serviços de instrução, subordina as escolas ditas estrangeiras às determinações da diretoria-geral da Instrução, além de proibir o ensino em língua estrangeira aos menores de dez anos, as obrigava a guardar os feriados nacionais, a prover ensino de língua portuguesa por professor brasileiro ou português nato, a prover ensino de história e geografia por brasileiro, e sobretudo a entoar os hinos nacionais.
Donde campanhas na imprensa, discursos nas tribunas, distribuição gratuita de brochuras para “educar o povo no amor à Pátria, à Lei, à Liberdade e às tradições nacionais”. Em chave socialmente empenhada com frequência destrinçavam-se os mandamentos cívicos. “Amai a liberdade! Defendei a Pátria! Pagai impostos! Votai! Cooperai na política! Não vos esquiveis do dever do júri! Respeitai a lei! Fiscalizai a execução das leis! Falai bem a língua nacional! Não desdenheis a civilidade, o cavalheirismo, as boas maneiras!”.
Eis aí, Srs. e Exas. Sras., o decálogo da religião da Pátria que a Liga
Nacionalista houve por bem mandar fosse espalhado hoje pelo Estado
inteiro. Realizar esses dez mandamentos é ter educação cívica, pois já o
referi, educação é ato, educação é prática de preceitos; ter educação é agir
no sentido da instruída possuída (Silveira, 1919, p.3).
Nas elocuções hiperbólicas, reserva-se à escola a celebração hagiográfica dos fastos nacionais, o ensino da língua, história e geografia pátrias. Se o analfabetismo possibilitava a troca injusta da vontade geral pela vontade de minorias votantes, concluía-se que, a ativação do ensino cívico seria o corretivo, de tal sorte que o vozerio das ligas e associações converge para a qualificação do voto. “Onde não se permite a válvula das oposições à maioria, sociedades secretas, subversivas, carcomem o solo, sobre que se alteiam os governos descuidados. O melhor preventivo contra a explosão das rebeliões, sempre iminentes, é dar-lhes uma tribuna, por onde se desabafem, se queixem, preguem as suas ideias, trovejem as suas reclamações.” Encarecia Sampaio Dória (1919, p.142), em O que o cidadão deve saber. Manual de instrução cívica, opúsculo editado pela Tipografia Olegário Ribeiro, Lobato & Cia. Ltda., com a tiragem espetacular de 10 mil exemplares. Nesse decálogo popular de direito constitucional, o autor explica as noções de júri, serviço militar, estado de sítio, partidos políticos, soberania nacional, Estado e federação.
Ora bem, assim se idealizava a superação da malformação do país. No mais, é bom lembrar que o alistamento eleitoral é reduzido, na eleição presidencial de 1918-1919, por exemplo, girou em torno de 1,5%, nas demais eleições, 2,3% a 2,4%, e em 1930,
excepcionalmente em 5%.98 Além do que predominam as defraudações habituais praticadas pelo mandonismo local, o “bico de pena”, a adulteração das atas pelas mesas eleitorais e a “degola” ou “depuração”, isto é, o não reconhecimento dos diplomas dos opositores eleitos.
Na aura ingente de cogitações nacionalistas, o escotismo de Baden-Powell, sumariado no manual A educação pelo amor substituindo a educação pelo temor, efloresce nos marcos escolares tanto pelo apoio das autoridades quanto pela iniciativa da
Associação Brasileira de Escotismo.99 Elaborado pelo jornalista e folclorista Amadeu Amaral, o decálogo de imperativos, assim preceitua a ética do boy-scout, pré-figuração do adulto reto.
1 – A palavra do scout é sagrada; 2 – O scout é leal; 3 – O scout tem o dever de ser útil e de ajudar a outrem; 4 – O scout é amigo de todos e é irmão de qualquer outro scout; 5 – O scout é cortês; 6 – O scout é amigo dos animais; 7 – O scout sabe obedecer; 8 – O scout é alegre sorri e assobia; 9 – O scout é econômico; 10 – O scout é puro de pensamentos, de palavras e de atos (Amaral, 1916, p.4).
E raras, muito raras, foram as vozes a contraditar a pressão da voga nacionalista na subjetividade infantil. A de José Getúlio Frota-Pessoa, certamente, é uma delas. “A força de se inocular na criança essa idolatria, acabaremos formando gerações de fetichistas, para as quais o sentimento da Pátria,ideal e nebuloso,se substituirá pela adoração a esse ídolo concreto e palpável, que se vê fulgir e tremular” (Frota-Pessoa, 1924, p.117).
Num quadro social pintado e repintado a golpes e a contragolpes, translações de futuros, difusão de valores embandeirados e construções de futuro possíveis, avantaja-se o afã de engendrar de uma vontade única devotada a um todo transcendental preexistente aos indivíduos e às classes sociais. Resumidamente o corte histórico-cultural é feito pelo nacional, valer dizer, trata-se de transfigurar o país para além das contingências da situação histórica (na lógica nacionalista, há uma inversão de sinais, é a nação que faz o homem e não o inverso). Com isso origina-se uma figura de destino coletivo, uma fé comum, isto é, a escola e sua cultura, para além da alfabetização, modelariam as novas gerações ao formar hábitos mentais e atitudes comportamentais necessários à coesão da vida nacional.
Ensinar o b a ba ou dar os rudimentos de um oficio, abandonando o espírito,
a inteligência do jeca-tatu, do caipira e do alfabetizado em geral, no mesmo
estado de inconsciência, desorientação ou anarquia, em que eles vivem há
quatro séculos, é em nada resolver o problema de nossa cultura e de nossa
grandeza. Uns e outros, quer os aprendizes de artífices, quer os
alfabetizados se constituirão, talvez mais facilmente do que até agora, pasto
da demagogia impenitente, ou das doutrinas extremistas, em voga (Carneiro
Leão, 1923, p.133-4).
O elo é a pátria, a reação congregante
O recenseamento geral de 1920 estimara em 1,6 milhão o total de estrangeiros radicados no Distrito Federal, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Desse total, São Paulo abrigava 53%. Sob a pressão da antífona nacionalista, ascendente e alarmista, a estrangeirização do país soa como perigo iminente. Entrava em marcha o abrasileiramento das áreas do Sul do Brasil. Em relatório à Conferência Interestadual de Ensino Primário, Orestes Guimarães contabiliza 310 escolas mantidas pela Itália: 87 no Rio Grande do Sul, 38 em Santa Catarina, 102 em São Paulo, 39 no Paraná, 11 na Capital Federal, 23 em Minas Gerais, 10 no
Espírito Santo.100 Em memorial ao ministro da Justiça e Negócios Interiores, esse inspetor federal estribilha o desnacionalismo.
Quistos da alma brasileira, frequentados a dezenas, senão as centenas de
milhares de crianças, filhas de estrangeiros, tais escolas, pela dinâmica
educativa de que revestem reduzem os novos imigrantes avultadíssimo
número de crianças aqui nascidas, as quais, infelizmente, as tornam os
piores estrangeiros entre nós, embora com foros de cidadãos brasileiros.
Ao deixarem essas escolas, de cursos de seis a oito anos, as crianças saem
perfeitamente estrangeiradas e assim, mais tarde, educarão seus filhos, só
com o tempo com o convívio dos balcões e das estradas passarão a
papaguear algumas palavras da língua vernácula, mas a leitura, a cultura,
enfim, só a podem fazer nos diários, revistas e livros estrangeiros
(Guimarães, 1925, p.3-4).
E a respeito “desses brasileiros feitos estrangeiros que sequer sabíamos assimilar”, dizia Afrânio Peixoto. “O senhor Orestes Guimarães, pedagogo de responsabilidade, fez ainda notar que não se toma providência alguma a respeito das escolas alemãs, em outros centros do país, em S. Paulo e no Rio, por exemplo, que continuaram e continuam livremente a funcionar, fazendo de estrangeiros patrícios nossos, que não sabemos nem podemos instruir” (1930, p.112).
1917. No esforço de outorgar identidade à vida coletiva, Wenceslau Brás, presidente da República, decreta o fechamento de centenas de escolas em áreas de colonização no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul por ensinarem em língua alemã. Passo seguinte, o Decreto nº 13.014, de maio de 1918, estipula a criação de escolas subvencionadas em núcleos de descendentes de imigrantes, ao todo, 404 unidades, 120 no Rio Grande do Sul, 168 em Santa Catarina, 116 no Paraná. De par, Orestes Guimarães, professor paulista comissionado em Santa Catarina, é nomeado
inspetor escolar federal das Escolas Subvencionadas pela União. 101 Na contiguidade, o Decreto nº 13.175, de setembro de 1918, abriria crédito de 100:198$548 para auxiliar 96 escolas oficializadas ou instaladas em núcleos coloniais no Paraná.
No mandato do vice-presidente, Delfim Moreira, o ministério da Justiça e Negócios Interiores concede crédito de 113:937$580 para a instalação de 167 escolas no Rio Grande do Sul, já o Decreto nº 13.014, de 4 de maio de 1918, credita 175:900$160 para 148 escolas em Santa Catarina. Enfim, alardeia-se o poder agregador da escola primária, instituição social essencial às instituições políticas, ao civismo, à saúde e ao rendimento econômico Se se atribuía à escola a finalidade de homogeneizar as populações – a cada nova geração, seriam concedidos o domínio da língua na forma culta, noções de geografia e história pátria, folclore, civismo e moral; paulatinamente, as finalidades da educação constantes nos regulamentos e regimentos, “o fim da escola é alfabetizar”, “promover a educação física, moral e intelectual”, o “ensino de letras”, são substituídas por outra finalidade, o ideal de construção da identidade nacional.