A instrução pública nas vozes dos portadores de futuros (Brasil – séculos XIX e XX)

Parte V — Do imediato pós-30 à mitologia do Estado Novo

Parte V — Do imediato pós-30 à

 

mitologia do Estado Novo

 

Mas não se espante. Teremos a nossa cultura. Devemos, pois, trabalhar

para isso. O essencial é que não se perca tempo, pois já perdemos

séculos... Somos uma nação continental, no entanto a nossa população mal

chega a povoar a vigésima parte do nosso solo ubérrimo. Mal temos

explorado a centésima parte de nossa riqueza natural. Quase tudo está por

fazer-se, como o senhor mesmo o reconheceu há pouco.

-- É verdade. O Brasil é ainda o grande desconhecido. É uma fabulosa

riqueza em potencial. Vivem em nós todas as idades pré-históricas e

históricas, desde o homem da pedra lascada até o cidadão supercivilizado

do Rio e São Paulo, sem esquecer outras zonas do litoral. O Oeste é ainda

um enigma de mistérios.

 

Ferdinando Martinho Filho,

Professores anônimos: romance social (1943)

 

Sentido do Brasil, república

 

agrícola

 

Consorciar o homem a terra

 

Nas pessoas de Joaquim Francisco de Assis Brasil, advogado e estadista gaúcho, e Luiz Pereira Barreto, médico e intelectual paulista, a doutrina fisiocrata, a terra como fonte de riqueza, encontrara abrigo e ressonância. O primeiro bate-se pelas técnicas de mecanização da lavoura e educação agrícola, sua propriedade, a Granja de Pedras Altas, é citada pela exemplaridade; o último, um dos mentores da Sociedade Paulista de Agricultura, bate-se pela racionalização da lavoura em moldes norte-americanos. Em poucas palavras, o agrocentrismo e suas divisas revalorizam a terra fecunda, boa mãe e fonte do ser verdade da substância nacional. Ao mesmo tempo se rediscute o trabalho na lavoura realizado em moldes desusados (ou se se preferir pré-capitalistas). De fato, esforços a evidenciar a imbricação do tema do agrocentrismo nas associações classistas e instituições políticas remontam à Sociedade Nacional de Agricultura e à Sociedade Brasileira para

Animação da Agricultura. 107 Da crítica à industrialização, à monocultura, à urbanização, defluem reivindicações dos setores à margem da economia agrícola monopolizada pelo exclusivismo concedido à cultura e à exportação do café.

Ademais, desde a virada do século, o apreço por uma escola conforme o meio cultural e geográfico tornara-se assunto opulento no verbo social de Silvio Romero a Alberto Torres. Opulência magnificada pela Sociedade dos Amigos de Alberto Torres e nos escritos agrocêntricos de Antonio Carneiro Leão, Belizário Penna e Sud Mennucci, sujeitos sociais aparentados na rejeição de um provável feudalismo vigente nos desvãos geográficos. Aos olhos de muitos, conquanto reservas prodigiosas, interior, campo e sertão subsistiam à custa de atroz medievalismo e servidão. No auge da projeção política e intelectual, Fernando de Azevedo é uma das vozes a alardear a existência de um povo amortalhado na ignorância.

 

O quadro sombrio da vida, que arrastam esses grupos disseminados pelo interior e recolhidos em choças de pau a pique, em ranchos de sapé ou em casebres em ruína, contrasta violentamente com a suavidade bucólica ou a grandeza soberba das paisagens, que se desenvolvem, para o prazer dos olhos, à contemplação dos forasteiros, mas a cuja própria beleza a miséria física e social já tornou quase indiferentes e insensíveis às populações locais (Azevedo, 1937a, p.49).

 

Num dos primeiríssimos livros a repercutir a tese da escola orientada para o aprendizado de técnicas exploratórias da pequena propriedade, Pela educação rural, Antonio Carneiro Leão proclamava. “Soou, afinal, para o Brasil a hora da construção econômica. Consolidando politicamente o país, o que se pode julgar realizado com a estabilidade da República, o problema é não já de construção da nacionalidade, no ponto de vista político, mas da consolidação nacional no ponto de vista econômico” (Carneiro Leão, 1918, p.5). À figura do cidadão portador de direitos, o publicista agrega à do trabalhador produtivo e cultivador esclarecido.

Logo se fazia sentir a influência do pensamento agrocêntrico de Félix-Jules Méline e seu elogio ao princípio ativo da terra nutriz. Na condição de ministro da Agricultura e primeiro-ministro da França, à época da Terceira República, Méline manifestara-se pela modernização da atividade agrícola, políticas protecionistas para o setor e ensino modificador da mentalidade camponesa. Nos seus ensaios doutrinais, Retour à la terre et la surproduction industrielle e Le salut par la terre et le programme économique de l’avenir, o ministro aclama a valoração da terra. É de supor que à consigna de Saint-Simon, “Tudo na indústria, para a indústria”, Méline houvera por bem contrapor “Tudo na agricultura, para a agricultura”. Para esse pertinaz doutrinador do agrocentrismo, da terra feracíssima, brota a felicidade nacional.

 

Com o fim do século XIX, o espetáculo muda bruscamente e encontra-se

entregue ao desconhecido; há de repente uma lacuna, um corte seco e

profundo. Em menos de cinquenta anos, tudo é atingido de cima a baixo, a

indústria, a agricultura, o comércio, os transportes, os meios de produção, de

consumo, de circulação e as relações entre os homens são profundamente

modificados.

Não resta mais que um único campo de ação e de expansão capaz de

absorver todas as forças sem emprego, e que tem a vantagem de ser

inesgotável, ao menos por alguns séculos, é a terra que dá consolo a todas

as misérias e que não deixa nunca morrer de fome aqueles que a amam e

que se confiam a ela... Então, retornemos a terra e dirijamos para ela o

máximo possível a atenção do grande público; tentemos se interessar pela

questão e em breve ela será tão apaixonante quanto a indústria. Mostremos

a ele que tanto a prosperidade do dia quanto a serenidade do dia seguinte

têm esse preço (Méline, 1905, p.36).

 

Promessa bíblica de messe farta, as consignas agrocêntricas – “retour à la terre” e “salut par la terre” –, prosperam em certas instâncias do magistério brasileiro.

 

O que diz Méline da Europa tem muita aplicação ao nosso país. Aqui, como

lá, se tem dado o êxodo dos campos. As cidades atraem as populações

rurais com o engodo de uma vida mais brilhante, mais movimentada e os

bairros da roça se despovoam. Os que ficam, pertencem, não raro, ao tipo do caboclo tão bem caracterizado nos artigos publicados no Estado de S.Paulo pelo doutor Monteiro Lobato, que parece conhecer a fundo o assunto de seus trabalhos (Couto, 1917, p.13).

 

Ponto de vista disseminado, a terra como fonte nutriz corrobora a urgência de ações votadas à fixação da população rural, quer apelando-se a uma pedagogia escolar sensível ao primado agrícola

quer apelando-se ao apego a terra.108 Porquanto, não é de se estranhar que a comissão de expertos, integrada por Antonio de Sampaio Dória (relator), Américo de Moura e Plínio Barreto, reunida para aprovar o uso de livros didáticos, assim se manifestasse. “Também não há obras que despertem o amor a terra, ao ar livre, à cultura dos campos. Sobretudo, para as escolas rurais, conviria abolir os livros que sugiram a sedução da cidade, e o desamor à vida produtiva e saudável dos campos. Animar a produção daquelas obras é um beneficio prestado às crianças nascidas e habituadas com as ‘fazendas’, e uma necessidade pública de países agrícolas como o nosso” (Anuário do Ensino..., 1918, p.152).

Excetuando-se os compêndios de dignificação da agricultura e idilização da vida rural de Mario Bulcão, outrora inspetor-geral da Instrução de São Paulo, Rumo ao campo, Noções de agricultura e educação cívica e Vida infantil: uma viagem imaginária pelos estados do Brasil, aprovados e adotados em São Paulo, Minas Gerais, Pará, Paraná, Capital Federal, não eram muitos os títulos sobre a temática rural. Em Rumo ao campo, segundo livro da série “Vida infantil”, aproximadamente 32 edições, Bulcão enuncia noções de civilidade, civismo, rudimentos de agricultura, “higiene animal e vegetal” e cantos românticos relativamente à vida na natureza.

 

Na roça vive-se mais. Com maior tranquilidade, corre a vida mais feliz. Os gozos da cidade não se comparam à tranquilidade da vida do lavrador. Este trabalho, sem o luxo das cidades, pode fazer economias e assegurar melhor a existência de todos da família, já que produz-se de tudo um pouco. É um erro quererem todos educar os filhos como doutores. Se o mundo fosse cheio de sábios, morreriam todos de fome (Bulcão, 1925, p.179).

De par coexistiam compêndios e cartilhas editados por associações classistas, ABC do agricultor, de Francisco Dias Martins e Cartilha agrícola, de Ezequiel Ubatuba ou títulos de diletantes, como Alfeu Domingues, O ensino agrícola nas escolas primárias e Silvio de Andrade Maia, As escolas rurais e o êxodo dos campos. Nesse rol de títulos e autores, habita um corpo de crenças e valores destinados a convencer a massa de lavradores a vibrarem o conteúdo fisiocrático da terra pela exploração racional. De modo geral, os conteúdos desse gênero textual contrapõem a sobriedade da vida rural às ilusões da cidade, reprova-se a vida nas cidades, invariavelmente descritas como antros povoados de proletários e subproletários viventes em penúria e sobrecarregada de vícios morais e doenças. De outra forma, descabida a vontade de viver a vida citadina, elemento disgênico no organismo nacional, deveria ser combatida.

 

Não vos deixeis embriagar pelas seduções das cidades. Elas não são, como

vos parecerem, a fonte de grandezas e de venturas, mas de vícios e de

misérias, são ninhos de ambições desenfreadas, de hipocrisias mal contidas,

de maldades horripilantes. Ali, no torvelinho das excitações e dos prazeres, o

nosso sangue se envenena, os nossos músculos se enfraquecem, o nosso

organismo se depaupera, as nossas faculdades se atrofiam, gastam-se a

nossa saúde a força física da nossa raça. A cidade é uma ilusão perversa

(Moraes, 1919, p.8).

 

A esse juízo condenatório, Pedro Deodato de Moraes saturava com palavras idealizadas o vigor e a serenidade, melhor, a pureza existencial no campo. “A vida campestre, ao contrário, longe de ser agitada e mecânica, aproxima os homens uns dos outros, dá ao corpo robustez e riqueza, desenvolve o sentimento da vida íntima, é cheia de ensinamentos práticos que exigem mais iniciativa, invenção e experiência pessoal” (Moraes, 1919, p.15). Em boa-fé, esse professor normalista superioriza o terreno paterno em Rumo ao campo... a escola social, enfática predicação aos professorandos da Escola Normal de Casa Branca, predicação, diga-se de passagem, retomada não sem certo estardalhaço por ocasião da 1ª Conferência Nacional de Educação.

O sertão brasileiro será eternamente triste, inculto e estéril enquanto o professor primário para ele não transportar os modernos preceitos das ciências práticas e das artes úteis. Todo mal, como todo bem de um país, vem da escola primária. É na escola popular que devem nascer a tradição agrícola e o prestígio do trabalho da roça. Parti. Ide ao campo (1ª Conferência Nacional de Educação, 1997 [1927], p.194).

 

Donde o zelo em despertar gosto e encanto pela vida rural. É quando se publica Saudade, do professor Thales Castanho de Andrade, livro de leitura em que se encampa no plano da ficção o discurso oficial acerca da urgência de estancar a depopulação rural. Bem recepcionado, Saudade constituir-se num dos tesouros do nacional-popular; os demais são Narizinho arrebitado, “segundo livro de leitura para uso das escolas primárias”, de Monteiro Lobato; As férias no Pontal, de Rodolfo Ihering, Coração brasileiro, de F. Faria Neto e Campos e arrebóis, de Túlio Espínola. Se o nacionalismo traveja a indivisibilidade da sociedade de classes, portanto da nação como corpo social orgânico, o agrocentrismo instrui as diferenças econômicas e as funções produtoras das classes.

 

Trazer os desvãos para o século XX

 

A tese construtivista a projetar nas vastidões territoriais os fundamentos da nação e da nacionalidade, elege o interior do país como lócus da autenticidade e contraponto ao artificialismo da cidade, para muitos simples “civilização de cópia” dos centros europeus e norte-americanos. Quaisquer que fossem as apostas, de fato, o sistema econômico era determinado pela monocultura de exportação.

Nas vozes as mais autorizadas, o interior guardava em si o sublime mistério da nacionalidade. Donde intensos e afetivos apelos cujos sinais são invertidos, não se explica o mundo rural como origem mítica das sociedades, mas futuro previdente, donde ainda a intenção de retornar às profundezas da terra e raça, história e geografia, celebrá-las, significa valorizar o homem comum, o anônimo pé-descalço. Com efeito, o homem do campo, esquecido de si (e pelos outros), dizia-se, era detentor imprevidente e improdutivo da terra, estático nos vazios geográficos de sua existência recolhida, transcorria num tempo indiviso e imóvel, quer dizer, intocado pelos modos de pensar e viver das civilizações avançadas e suas modernas técnicas de trabalho. De sorte que a expressão “zona rural” soa como contrafação da economia de sobrevivência das vilas, arraiais e bairros rurais. Nesses cenários silenciosos de população rala, habitavam pequenos proprietários, arrendatários, colonos, parceiros, meeiros, tipos desde sempre submetidos aos mandatários locais. Noutras palavras, maratimbas, caipiras, caboclos, cafuzos, caiporas, curibocas, tabaréus, paroaras compunham os reservatórios dos políticos locais, fenômeno analisado pela literatura sociológica sob a epígrafe “coronelismo,

enxada e voto”. 109

O mote era este, soerguer o povo pequeno, trazer os rincões desfrequentados pela racionalidade técnica para a história das relações de produção capitalistas e para a geografia na nação. Como dissera Oliveira Vianna no ensaio introdutório ao Censo Geral de 1920, sobriamente intitulado O povo brasileiro e a sua evolução. “É no campo que se forma a nossa raça e se elaboram as formas íntimas da nossa civilização o dinamismo da nossa história, no período colonial, vem do campo do campo, as bases em que se assenta a estabilidade admirável da nossa sociedade, no período imperial” (Oliveira Vianna, 1923, p.282).

 

O recrudescer do agrocentrismo

 

Intelectuais formuladores de sínteses sociológicas decisivas no tocante a formação social brasileira, em conjunturas de exames e reexames do país, Euclides da Cunha, Alberto Torres e Oliveira Vianna assomam como ascendentes intelectuais dos críticos do republicanismo liberal-estadualista e seu implacável laissez-faire. Ex-aluno no colégio de Menezes Vieira, Alberto Torres ingressara aos 14 anos na escola de Medicina do Rio de Janeiro e, aos 16, na faculdade de Direito de São de Paulo. Na mocidade vivida no final do século XIX, na companhia de Antonio da Silva Jardim, declarara-se abolicionista e republicano, no decênio de 1910, sobressaíra como propositor de uma organização nacional em tom diverso do verbalismo patriótico de Olavo Bilac. Aos olhos dos discípulos, esse sociologista prima como pensador adverso à imaginação arbitrária e a seus excessos. Em O problema nacional brasileiro e em A organização nacional, compreende o industrialismo e o urbanismo como fenômenos desagregadores.

 

O Brasil tem de ser uma república social, por força de seu destino, e da fatalidade de seu surto na era da questão social, e tem de ser, intuitivamente, uma república agrícola. É preciso, porém uma república social, previdente e conservadora, para que o povo não sinta um dia a necessidade de arrancar à força o que os governos lhes podem dar dentro da ordem, sem prejuízo de terceiros. Poder-se-ia, talvez, temer que os proletários, aglomerados nas cidades, não aceitassem de bom grado à volta ao trabalho rural; e que a falta de preparo e indolência a que se habituaram trouxessem certa dificuldade à

execução da ideia (Torres, 1914, p.132).110

 

Republicano moderado, contraditor do domínio econômico das grandes potências e monopólios internacionais, esse dublê de jurista e sociólogo, concebe uma organização econômica esteada em pequenos produtores. “O Brasil tem por destino evidente ser um país agrícola: toda a ação que tender a desviá-lo desse destino, é um crime contra a sua natureza e contra os interesses humanos” (Torres, 1982 [1914], p.74). Incitante desaprova a instrução em moldes urbanos. “Organizávamos uma ‘instrução pública’ que, da escola primária às academias, não é senão um sistema de canais de êxodo da mocidade do campo para as cidades e da produção para o parasitarismo” (1982 [1914], p.273).

 

Ressurgência da obra

 

Na Era Getuliana, segundo formulação de Humberto Grande, as ideias torreanas retornam à cena. Editam-se estudos de divulgação, exegese e síntese para guiar leitores que “quiserem se aventurar no oceano alto do pensamento de Torres, pela leitura direta das suas obras”, conforme Oliveira Vianna, no prefácio de As ideias de Alberto Torres, livro curioso no qual Alberto Gentil reúne extratos do pensamento do mestre, por exemplo.“Se o analfabetismo é o estado mental de quase toda a população, o nível da nossa mentalidade superior desceu até à incapacidade para o raciocínio”. A sua vez, A. Saboia Lima publica Alberto Torres e sua obra; já Edgard Roquette-Pinto, em Ensaios de antropologia brasileira, não hesita em revalidar as teses do “homem de gênio”.

 

De onde, então, provém a insuficiência? Única e exclusivamente de um

elemento decisivo: falta de organização nacional. (Alberto Torres). O Brasil,

pregava o homem de gênio, tem de ser obra de arte da política. É uma

nação que será o que as classes cultas fizerem dela. Organização nacional,

no Brasil, quer dizer principalmente, educação do povo, nacionalização da

economia, e circulação de ideias e da riqueza (1933, p.125, grifo do autor).

 

É quando são reeditados na prestigiosa série “Brasiliana” da Companhia Editora Nacional, O problema nacional brasileiro e A organização nacional, livros que bussolariam parcela do pensamento social crítico-dissidente na década de 1930. Com efeito, no trabalho de exegese e divulgação do pensamento do mestre, perfilam homens irmanados na esperança de um Brasil unido e melhorado: Alcides Gentil, Aprígio Gonzaga, Celso Kelly, Atílio Vivacqua, Belizário Penna, Everardo Backheuser, Fernando de Azevedo, Leoni Kassef, Lourival de Almeida, Mario Casassanta, Edgard Roquette-Pinto, Simões Lopes, Sud Mennucci, Mario

Augusto Teixeira de Freitas e outros mais. 111 Passo seguinte, intelectuais empáticos às correntes estatizantes concretizam certos propósitos torreanos, qual seja a criação de um instituto de estudos nacionais, com efeito, em 1932, no Rio de Janeiro, fundava-se a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, com núcleos em Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Goiás, São Paulo. A entidade apega-se às soluções torreanas: ensino rural, exploração de recursos naturais, representação classista, soluções acatadas como objetivas numa conjuntura de fomento da consciência da singularidade (e/ou identidade) do país, seu destino ulterior, bem como de repúdio ao anarquismo, socialismo e

individualismo liberal.112

Dentre as iniciativas da Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, constam estudos sobre as secas do nordeste, proteção à natureza, instalação de lactários, higiene infantil, cursos para professores de escolas regionais e realizações muitíssimo bem-sucedidas, o 1º Congresso de Ensino Rural, semanas ruralistas, clubes rurais. No mais, para além da crítica ao exclusivismo agroexportador, há aparatosos consensos: diversificação da estrutura produtiva rural, cooperativismo, povoamento, colonização, educação rural e uma urgência não declarada, arregimentar, estabilizar e qualificar a força de trabalho rural.

 

Vibração emocional

 

Entre as tormentas e desconformidades da Era Getuliana, a tese da escola condizente com os quadros sociais e naturais do país triplica o fôlego. É quando acontece a 4ª Semana Nacional de Educação, promovida pela Associação Brasileira de Educação, organizada sob o tema geral “A escola regional”. Nesse evento, Fernando de Magalhães pronuncia a conferência de abertura “A emancipação mental do Brasil pelo ensino rural”. Na sequência discursam C. A. Barbosa de Oliveira, “A escola regional nos seus aspectos urbano, rural, marítimo e fluvial”; Armando Pinna, “A escola marítima e fluvial e os seus cursos de pesca”; Belizário Penna, “A educação rural: o problema brasileiro e sua enorme importância social e econômica”; H. Rolfs, “O ensino agrícola no grau médio e sua organização no Brasil”; Everardo Backheuser, “A

escola ativa nos centros urbanos”.113 E sob a trilogia povoar-escolarizar-unir, acontecem o 1º Congresso Brasileiro de Ensino Rural, promovido pela Sociedade “Luiz Pereira Barreto” com o apoio do governo de São Paulo, a 3ª Conferência Nacional de Educação, o 1º Congresso Nacional de Ensino Regional e, por último, o 8º Congresso Nacional de Educação da ABE, de par ocorre a fundação da Sociedade Brasileira de Educação Rural.

Nesse quadro de iniciativas, popularizam-se os Clubes Agrícolas Escolares decalcados dos Clubs Works norte-americanos, vulgarizados como “4-H Clubs”: “health” (saúde), “hand” (exercitar a mão), “head” (cultivar a inteligência), “hearth” (formar o coração). Em São Paulo, o ruralismo escolar e nele a prática do clubismo ganha rumos certeiros com a atuação de Thales de Andrade em postos administrativos, ou seja, na Escola Normal de Piracicaba, na Assistência Técnica do Ensino Rural e à frente do Departamento de Ensino. É quando vicejam os “Clubes do Milho”, apoiados pela Sociedade dos Amigos de Alberto Torres e oficializados sob a denominação de “Clubes Agrícolas Escolares” por iniciativa do

interventor federal general Daltro Filho. 114 Mais à frente, o Decreto-lei estadual nº 8.951, de 1938, cria os grupos escolares rurais, o mais bem-sucedido, o do Butantã, subúrbio da capital, cuja direção é exercida por Noêmia Saraiva de Matos Cruz, pessoa de projeção no 1º Congresso Brasileiro do Ensino Regional.

 

O gênio de Sud

 

Sem procurar inserção na intriga biográfica, é possível dizer que na Era Getuliana, Sud Mennucci assume a condição de vulto paradigmático da “Cruzada pela escola rural” e “ensino rural”. Naquele passo, era recepcionado como construtor político dotado de honesto entusiasmo; ademais, notabilizara-se como defensor do mundo rural e suas possibilidades.

Filho de imigrantes italianos, Sud Mennucci cursara o ensino elementar no Grupo Escolar “Moraes Barros” e, em 1908, diplomara-se professor primário na Escola Complementar de Piracicaba, interior paulista, a “Meca do ruralismo brasileiro”, por sediar a Escola de Agricultura “Luiz de Queiroz”.

No magistério, leciona em escolas isoladas, grupos escolares do interior; nos serviços de instrução, ocupa cargos importantes, delegado regional de ensino em Campinas e Piracicaba, e chefe dos recenseamentos escolares nas reformas capitaneadas por Sampaio Dória e Fernando de Azevedo em São Paulo e Distrito Federal, bem mais tarde chefiará em São Paulo os trabalhos do recenseamento de 1940. Embora portador do diploma de normalista, apenas, projeta-se como homem “de sete instrumentos” – crítico, ensaísta,

historiador, sociólogo, geógrafo e jornalista.115 Na temperatura alta do Governo Provisório, 1930-1934, presidido por Getúlio, Sud Mennucci ocupa por duas vezes a diretoria de Ensino da Secretaria de Educação e Saúde Pública do estado de São Paulo. No embaralhado ideológico da hora, Sud adere à Legião Revolucionária de São Paulo, organizada por Miguel Costa e o tenente João

Alberto, interventor federal no mesmo Estado.116

Nacionalista (e corporativista), o Manifesto à Nação, expedido em 1931 pela Legião Revolucionária, postula eleições indiretas para a presidência da República, representação parlamentar por classe social, poder legislativo integrado por técnicos e não por políticos profissionais, e por fim posiciona-se contrariamente aos latifúndios e

à ditadura de qualquer classe, fosse burguesa, fosse proletária. 117 De súbito, a Legião Revolucionária é reconvertida no efêmero Partido Popular Paulista, cujo programa partidário é redigido por Plínio Salgado, cuja plataforma programática propugna a continuidade das ações revolucionárias mediadas por um Estado forte, bem como a extensão da instrução popular “a fim de se combater o patriotismo lírico e o pessimismo”. No desenrolar da década de 1930, a Sud Mennucci concede-se as investiduras de “Pai do ruralismo brasileiro”, “Campeão do ruralismo nacional”, “Pontífice da ruralização do ensino”. Em suma, sob a fronde das ideias torreanas, Sud Mennucci publica A crise brasileira de educação, obra premiada no concurso “O melhor meio de disseminar o ensino primário no Brasil”, levado a efeito pela Academia Brasileira de Letras. No parecer exarado pela comissão indicada pela ABL, Roquette-Pinto, relator, Miguel Couto e Aloísio de Castro, solene elogio ao realismo do autor.

 

O livro de Sud Mennucci é o mais claro, o mais lógico, o mais prático. É também o mais original no modo de encarar o problema e na solução que propõe. Sud Mennucci no seu livro indica, pois, de maneira realmente superior, todas as condições sociais em que se define o problema considerado. E indica, com clareza, simplicidade, entusiasmo, de maneira prática, soluções modernas e possíveis. Deve receber o primeiro prêmio Alves (Mennucci, 1934, p.7).

 

É de Sud Mennucci a sentença trovejante. “O alfabeto em vez de ser um auxiliar, um amparo, um sustentáculo da lavoura, virou um tóxico violento. Põe na cabeça da juventude aldeã o desejo louco de aprender para libertar-se do fardo agrícola” (Mennucci, 1934, p.45). Nas páginas de A crise brasileira de educação, o autor endossa a crítica ao regime de latifundiário de propriedade, a seu ver, o pleno domínio do meio físico implicaria a revisão do regime de propriedade, não em moldes soviéticos ou romenos, isto é, a coletivização da propriedade fundiária, mas, nos moldes franceses, isto é, em pequenos lotes. Igualmente movidos pelo diapasão torreano viriam Cem anos de instrução pública, O que fiz e o que pretendia fazer, Aspectos piracicabanos do ensino rural, Pelo sentido ruralista da civilização, A ruralização, Discursos e conferências ruralistas. Quanto aos pródromos relativos ao ensino rural, não hesitava.

 

O que foi que nos faltou? Faltou o complemento natural da política

imigratória. Faltou-nos a visão clara de que só a obra educativa, corrigindo o

erro fundamental dos escravocratas, poderia tornar a dar ao homem do

campo brasileiro aquela noção do valor supremo do trabalho, que nós lhe

havíamos roubado em quase quatro séculos de instituição servil (Mennucci,

1944a, p.21).

 

No conjunto da obra teórica, Sud repropõe a organização das escolas normais rurais em três níveis, o pedagógico, o higiênico/ sanitário e o agrícola. Os estabelecimentos comportariam professores “propriamente ditos”, “professores-médicos” e “professores-agrônomos.” Como diretor do Departamento de Ensino, em decreto-lei por ele lavrado, mas não promulgado, estipula a criação de cinco normais rurais, grupos escolares e escolas isoladas vocacionais, além de uma inspetoria técnica do Ensino Rural integrada por inspetores-escolares, inspetores-médicos e inspetores-agrônomos. Em O que fiz e pretendia fazer: defesa e fundamentação da reforma do ensino de 1932, Sud reafirma a necessidade de escolas ajustadas às cidades e aos meios rurais e marítimos com o intuito de formar “três mentalidades absolutamente diversas e que, no entanto, reciprocamente se complementem para o equilíbrio social do organismo nacional” (Mennucci, 1932b, p.118-119).

Na condição de diretor-interino, Sud lavra o Decreto nº 6.047, de 19 de agosto de 1933. “Artigo 1º – O governo do Estado São Paulo instalará uma Escola Normal, rural, em Piracicaba, que manterá íntima colaboração com a Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’”. Por falta de verba, o decreto é revogado sem que se concretizasse a experiência de formar professores rurais.

Simultaneamente aos fatos anteriormente narrados, na escalada nacional, em 1931, na sede do Rádio Clube do Brasil, Sud Mennucci profere a conferência “A reforma do ensino rural em São Paulo”; em 1934, no Congresso Pedagógico Regional, pronuncia a conferência “Aspectos piracicabanos do ensino rural”; em 1933, a convite da Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, participa do Curso da Escola Regional, no Distrito Federal, lá profere a célebre conferência “A guerra à zona rural”. Nesse evento, Celso Kelly, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, respectivamente, diretores do ensino no Rio de Janeiro, Distrito Federal, São Paulo, proferem as demais conferências. Em 1934, na Bahia, o reformador participa do 1º Congresso Brasileiro do Ensino Regional; em 1935, “A vida rural e a educação nacional”, na sede da ABE para o curso da Universidade Rural, na Exposição do 1º Centenário da Revolução Farroupilha, Porto Alegre; em 1939, a pedido do Grêmio Universitário “Alberto Torres” da Faculdade de Direito de São Paulo, a conferência “O pensamento de Alberto Torres”. E por iniciativa de Joaquim Moreira de Sousa, diretor-geral do Ensino do Ceará, a criação de uma normal rural ocorreria não em São Paulo, mas em

Juazeiro, Ceará. 118 A Sud Mennucci coube a honra de paraninfar as primeiras professoras imbuídas das promessas ruralistas. Transbordante de certezas, para a solenidade, dezembro de 1937, ele compôs “Hino Juazeiro”.

 

Professorandas. À medida que se contemplam os vários aspectos que, como um feixe de luz, se reúnem nesta festa, mais avulta e mais cresce o significado desta cerimônia.

Vede-lhe a colocação da Escola: pleno interior do Brasil, naquilo que nós outros, supercivilizados habitantes da orla do litoral, convencidos e presumidos de nossa cultura de empréstimo, chamamos o “sertão”, o que implica dizer “Farwest”, isto é, a zona que se atrasou nas conquistas do século, que se foi deixando ficar à margem das vitórias modernas e não acompanhou o rito da expressão humana. Porque para nós outros, “caranguejos das praias”, como no apelidou expressiva e pitorescamente um historiador colonial, só o que nos chega de fora, com o rótulo e o sinete do

estrangeiro, representando o adiantamento da civilização (Mennucci, 1944a,

p.3).

 

No tempo, estabelecimentos semelhantes são criados no Pará, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás, Rio Grande do Sul, cujos planos didáticos são submetidos à apreciação do

reformador. 119 No retorno à vida democrática, sucedem os 1º e 2º Congressos Normalistas de Educação Rural, Campinas, 1945, e Piracicaba, 1947. Sud Mennucci é eleito vice-presidente de honra do primeiro evento. Com temário amplo, as comissões debatem temas ligados à saúde, higiene, formação do professor, carreira do magistério, povoamento, assimilação dos imigrantes e descendentes, demografia, escola rural, prédios escolares. No segundo evento, debatem-se a alfabetização de adultos e os programas de matérias das normais.

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Sob o protagonismo de diferentes sujeitos, em diferentes momentos, em diferentes lugares, os discursos respeitantes ao país interior, o Brasil distante de si, deixam de ser mensagem mística saturada de idealidades compensatórias para serem programas da alçada técnica e civilizatória. Nos enunciados agrocêntricos, para muito além das visões tardo-românticas, o homem, radicado na bela natureza, fazia-se sentir a concepção organicista e/ou corporativista de sociedade, quer dizer, a especialização produtiva das classes insertas em meios geográficos diversos. Em suma, das vozes a profetizarem futuros e até aqui ouvidas a plenos pulmões, é possível discernir urgências, relevando-se, obviamente, as circunstâncias históricas: visão fisiocrática da produção de riquezas, elogio do usufruto da pequena e média propriedade, alargamento do mercado interno, oposição ao exclusivismo concedido ao regime industrial e à monocultura de exportação, combate aos fluxos migratórios, regulação de força de trabalho agrícola, ampliação das terras agricultáveis. De outro modo, entrecruzavam-se a razão de Estado com os postulados da economia política, visando a elevação do corpo e do espírito das populações. Para esse ponto de vista, saúde e instrução constituem os princípios da riqueza da nação, porquanto assuntos a serem apreciados pelo ângulo da economia política – desde que saudáveis e ativas, as populações representam as fontes de produção, distribuição, consumo de bens materiais e de ativação monetária.