A Origem das Espécies
Frederico Cuvier, e m uitos dos velhos…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Refletindo nestes fatos, notei que se a m elípona tivesse estabelecido as esferas a um a distância igual um as das outras, que se as tivesse construído de igual grandeza e em seguida as dispusesse sim etricam ente em duas cam adas, teria resultado um a construção provavelm ente tão perfeita com o o raio da abelha. Escrevi, pois, para Cam brígia, ao professor Miller, para lhe subm eter o docum ento seguinte, feito segundo os seus ensinam entos, e que encontrou rigorosam ente exato:
Se se descrevesse um certo núm ero de esferas iguais, tendo o centro colocado em dois planos paralelos, e que o centro de cada um a dessas esferas estej a a um a distância = raio x raiz de 2=raio x 1,41421 (ou a um a distância um pouco m enor) e a igual distância dos centros das esferas adj acentes colocadas no plano oposto e paralelo; se, em seguida, se fazem passar planos de intersecção entre as diversas esferas dos dois planos, resultará um a dupla cam ada de prism as hexagonais reunidos por bases piram idais a três rom bos, e os rom bos e os lados dos prism as hexagonais terão identicam ente os m esm os ângulos que as observações m ais m inuciosas têm dado para as células das abelhas.
O professor Wy m an, que em preendeu num erosas e m inuciosas observações sobre este assunto, inform a-m e que se tem exagerado m uito a exatidão do trabalho da abelha; a ponto que,j unta ele, sej a qual for a form a tipo da célula, é
m uito raro que j am ais se tenha realizado.
Podem os, pois, concluir com toda a segurança que, se os instintos que a m elípona possui j á, que não são m uito extraordinários, fossem susceptíveis de ligeiras m odificações, este inseto poderia construir células tão perfeitas com o as da abelha. Basta supor que a m elípona pode fazer células com pletam ente esféricas e de grandeza igual; ora, isto não seria m uito para espantar, porque elas che- 295
gam quase a fazê-lo; nós sabem os, além disso, que um grande núm ero de insetos chegam a fazer na m adeira buracos perfeitam ente cilíndricos, o que fazem provavelm ente girando em torno de um ponto fixo. Seria necessário, é verdade, supor ainda que dispunha as suas células em planos paralelos, com o o faz j á para as células cilíndricas, e, além disso, e isto é m ais difícil, que pode avaliar exatam ente a distância à qual deve colocar-se das com panheiras quando m uitas trabalham em conj unto na construção das duas esferas; m as, sobre este ponto ainda, a m elípona j á sabe avaliar essa distância com um a certa exatidão, pois que descreve sem pre as esferas de m odo a cortarem até um certo ponto as esferas vizinhas, e que reúne em seguida os pontos de intersecção por divisões perfeitam ente planas. Graças a sem elhantes m odificações de instintos, que por si nos devem adm irar tanto com o os que guiam a ave na construção do ninho, a seleção natural, parecem e, produz na abelha inim itáveis faculdades arquiteturais. Esta teoria, além disso, pode ser subm etida ao veredicto da experiência. Seguindo o exem plo de M. Tegetm eier, separei dois raios colocando entre eles um a longa e espessa faixa retangular de cera, na qual as abelhas com eçaram logo a fazer pequenas escavações circulares, que aprofundaram e alargaram cada vez m ais até tom arem a form a de pequenas bacias tendo o diâm etro ordinário das células e apresentando à vista um a perfeita calote esférica. Observei com vivo interesse que, por toda a parte onde m uitas abelhas tinham com eçado a fazer estas escavações j unto um as das outras, elas se haviam colocado à distância precisa para que as bacias, um a vez adquirido o diâm etro útil, isto é, o de um a célula ordinária, e em profundidade um sexto do diâm etro da esfera de que form avam um segm ento, os seus bordos se encontrassem . Desde que o trabalho chegava a este ponto, as abelhas cessavam de cavar, e com eçavam a levantar, sobre as linhas de inserção separando as escavações, tabiques de cera perfeitam ente planos, de m odo que cada prism a hexagonal se erguia sobre o bordo ondulado de um a bacia achatada, em lugar de ser construído sobre as arestas retas das faces de um a pirâm ide triedra com o nas células ordinárias.
Introduzi depois no cortiço, em vez de um a faixa de cera retangular e espessa, um a lâm ina estreita e delgada da m esm a substância corada com verm e- 296
lhão. As abelhas com eçaram , com o na outra experiência, a escavar im ediatam ente pequenas bacias aproxim adas um as das outras; m as, com o a lâm ina de cera era m uito delgada, se as cavidades tivessem a m esm a profundidade que na prim eira experiência, confundir-se-iam num a só e a placa de cera seria perfurada de parte a parte. As abelhas, para evitar este acidente, paravam a tem po o seu trabalho de escavação; de m odo que, m al as cavidades estavam um pouco delineadas, o fundo consistia num a superfície plana form ada por um a fina cam ada de cera colorida e estas bases planas eram , tanto quanto a vista o podia j ulgar, exatam ente colocadas num plano fictício de intersecção im aginária passando entre as cavidades situadas do lado oposto da placa de cera. Em alguns pontos, fragm entos m ais ou m enos consideráveis de rom bos eram deixados entre as cavidades opostas; m as o trabalho, atendendo ao estado artificial das condições, não fora bem executado. Deviam as abelhas ter trabalhado com igual velocidade a fim de escavar circularm ente as cavidades dos dois lados da lâm ina de cera colorida, e chegarem a conservar separações planas entre as escavações parando o seu trabalho nos planos de intersecção. Sendo a cera delgada m uito flexível, não vej o dificuldade algum a em que as abelhas, trabalhando dos dois lados da lâm ina, se apercebam facilm ente do m om ento em que tenham levado a parede ao grau de espessura desej ada, e term inem o trabalho ao m esm o tem po. Nos favos ordinários, pareceu-m e que as abelhas não chegam a trabalhar sem pre com a m esm a velocidade dos dois lados; porque observei, na base de um a célula novam ente com eçada, rom bos rem atados em m eio que eram ligeiram ente côncavos de um lado e convexos do outro, o que provinha, suponho eu, de que as abelhas tinham trabalhado m ais velozm ente no prim eiro caso que no segundo. Num a circunstância entre outras, tornei a colocar os favos no cortiço, para deixar as abelhas trabalhar durante algum tem po, em seguida, tendo exam inado de novo a célula, encontrei que a separação irregular fora concluída e tornada perfeitam ente plana; era absolutam ente im possível, por ser dem asiado delgada, que as abelhas pudessem aplaná-la roendo do lado convexo, e suponho que, em casos sem elhantes, as abelhas colocadas um a de cada lado em purrem e façam ceder a cera am olecida pelo calor até que ela se encontre no seu verdadeiro lugar, e fazendo isto, a aplanem por com pleto. Fiz
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no seu verdadeiro lugar, e fazendo isto, a aplanem por com pleto. Fiz alguns ensaios que m e provam que se obtém facilm ente este resultado. A experiência precedente feita com a cera corada prova que, se as abelhas construíssem por si m esm as um a delgada m uralha de cera, poderiam dar às células a form a conveniente, colocando-se à distância precisa um as das outras, cavando com a m esm a velocidade, e procurando fazer cavidades esféricas iguais, sem j am ais perm itir a com unicação das esferas um as com as outras. Ora, assim com o se pode provar, exam inando o bordo de um favo em via de construção, as abelhas estabelecem realm ente em torno do favo um m uro grosseiro que vão roendo dos dois lados opostos trabalhando sem pre circularm ente à m edida que escavam cada célula. Jam ais fazem ao m esm o tem po a base piram idal de três faces da célula, m as som ente os rom bos que ocupam o bordo extrem o do favo crescente, e só com pletam os bordos superiores dos rom bos quando as paredes hexagonais são com eçadas. Algum as destas asserções diferem das observações feitas pelo célebre Huber, m as estou seguro da sua exatidão e, se o espaço m o perm itisse, poderia dem onstrar que nada têm de contraditório com a m inha teoria. A asserção de Huber, que a prim eira célula é cavada num pequeno bloco de cera de faces paralelas, não é m uito exata; todas as vezes que tenho podido observar, o ponto de partida é sem pre um pequeno carapuço de cera; m as não entrarei aqui nestas m inúcias. Vem os que papel im portante goza a escavação na construção das células, m as seria um erro supor que as abelhas não podem levantar um a m uralha de cera num a posição desej ada, isto é, num plano de intersecção entre duas esferas contíguas. Eu possuo m uitos especím enes que provam claram ente que este trabalho lhes é fam iliar. Mesm o na m uralha ou rebordo grosseiro de cera que cerca o favo em via de construção, notam -se algum as vezes curvaturas, correspondendo pela sua Posição às faces rom boidais que constituem as bases das células futuras. Mas, em todos os casos, a grosseira m uralha de cera deve, para ser acabada, ser consideravelm ente roída dos dois lados. O m odo de construção em pregado pelas abelhas é curioso; fazem sem pre a m uralha de cera dez a vinte vezes m ais espessa do que seria a parede excessivam ente delgada da célula definitiva. As abelhas trabalham com o o fariam os pedreiros que,
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depois de terem acum ulado num ponto um a certa m assa de cim ento, a talhassem em seguida igualm ente dos dois lados, para deixar apenas a m eio um a fina cam ada sobre a qual em pilhariam quer o cim ento tirado dos dois lados, quer o cim ento novo. Teríam os assim um m uro delgado elevando-se pouco a pouco, m as sem pre encim ado por um grande pináculo que, cobrindo por toda a parte as células em qualquer grau de avanço a que tenham chegado, perm ite às abelhas segurar-se aí
e aí rastej ar sem danificar as paredes tão delicadas das células hexagonais. Estas paredes variam m uito de espessura, com o foi verificado a m eu pedido pelo professor Miller. Esta espessura, segundo a m édia de doze observações feitas j unto do bordo de um favo, é de 1/353 da polegada inglesa (0,07 m ); enquanto que as faces rom boidais da base das células são m ais espessas na razão aproxim ada de 3 para 2; a espessura, segundo a m édia de vinte e um a observações, é igual a 1/229 da polegada inglesa (0,11 m m ). Portanto do m odo singular de construção que acabam os de descrever, a solidez do favo vai aum entando constantem ente, realizando-se a m aior econom ia possível de cera.
A circunstância de um grupo de abelhas trabalharem em conj unto parece, a princípio, aum entar a dificuldade de com preender o m odo de construção das células; cada abelha, depois de ter trabalhado um m om ento num a célula, passa a outra, de m odo que, com o o fez notar Huber, um a vintena de indivíduos participam , desde o com eço, na construção da prim eira célula. Pude tornar o fato evidente cobrindo os bordos das paredes hexagonais de um a célula, ou o bordo extrem o da circunferência de um favo em via de construção, de um a delgada cam ada de cera colorida com verm elhão. Reconheci invariavelm ente que cor fora tão delicadam ente espalhada pelas abelhas com o se o fosse por m eio de um pincel; com efeito, parcelas de cera corada tiradas do ponto onde haviam sido colocadas, foram conduzidas em volta dos bordos crescentes das células vizinhas. A construção de um favo parece, pois, ser o resultado do trabalho de m uitas abelhas conservando-se todas instintivam ente à m esm a distância relativa um as das outras, descrevendo todas esferas iguais, e estabelecendo os pontos de intersecção entre essas esferas, quer levantando-as diretam ente, quer regulando-as quando as cavam . Em vários casos difíceis, tais com o o encontro num certo ângulo de duas porções de
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favo, nada m ais curioso do que observar quantas vezes as abelhas dem olem e reconstroem um a m esm a célula de diferentes m aneiras, voltando por fim , não sem pre, a um a form a que a princípio tinham rej eitado. - Quando as abelhas podem trabalhar num lugar que lhes perm ite tom ar a posição m ais côm oda - por exem plo um a placa de m adeira colocada a m eio de um favo crescendo para baixo, de m odo que o favo sej a estabelecido sobre um a face da placa - as abelhas podem então dispor as bases da m uralha de um novo hexágono no seu verdadeiro lugar, fazendo saliência para além das células j á construídas e acabadas. Basta que as abelhas possam dispor-se à distância precisa entre si e entre as paredes das últim as células feitas. Levantam então um a parede de cera interm ediária na intersecção de duas esferas contíguas im aginárias; m as, pelo que tenho podido observar, não acabam os ângulos de um a célula roendo-os, antes que esta e as células vizinhas estej am j á m uito avançadas. Esta aptidão que as abelhas têm de levantar, em certos casos, um a grosseira m uralha entre duas células com eçadas, é im portante porque se liga a um fato que parece a princípio destruir a teoria precedente, a saber, que as células do bordo externo dos favos da vespa são algum as vezes rigorosam ente hexagonais, m as a falta de espaço im pede-m e de desenvolver aqui este assunto. Não m e parece que haj a grande dificuldade em que um inseto isolado, com o é a fêm ea da vespa, possa m oldar células hexagonais trabalhando alternativam ente no interior e exterior de duas ou três células com eçadas ao m esm o tem po, conservando sem pre à conveniente distância relativa partes das células j á com eçadas, e descrevendo esferas ou cilindros im aginários entre as quais levante paredes interm ediárias.
A seleção natural atuando som ente pela acum ulação de leves m odificações de conform ação ou instinto, todas vantaj osas ao indivíduo com relação às condições de existência, pode perguntar-se com algum a razão com o num erosas m odificações sucessivas e graduais do instinto construtor, tendendo todas para o plano de construção perfeita que conhecem os hoj e, podem ser proveitosas à abelha? A resposta parece-m e fácil: as células construídas com o as da vespa e da abelha ganham em solidez, econom izando o lugar, o trabalho, e os m ateriais necessários à sua construção. No que é concernente à form ação da cera, sabe-se que as abe- 300
lhas têm m uitas vezes dificuldade em obter néctar suficiente; M. Tegetm eier ensina-m e que é experim entalm ente provado que, para produzir um a libra de cera, um enxam e deve consum ir 12 a 15 libras de açúcar; é necessário, pois, para produzir a quantidade de cera necessária à construção dos favos, que as abelhas colham e consum am um a enorm e m assa de néctar líquido das flores. Adem ais, um grande núm ero de abelhas ficam inertes m uitos dias, enquanto que a secreção se faz. Para nutrir durante o inverno num a num erosa com unidade, é indispensável um a grande provisão de m el, e a prosperidade de um cortiço depende essencialm ente da quantidade de abelhas que pode sustentar. Um a econom ia de cera é, pois, um elem ento de proveito im portante para toda a com unidade de abelhas, pois que se traduz por um a econom ia de m el e do tem po que é necessário para o recolhê-lo. O sucesso da espécie depende ainda, diga-se de passagem , independentem ente do que é relativo à quantidade de m el em provisão, dos inim igos, dos parasitas e de causas diversas. Suponham os, contudo, que a quantidade de m el determ ina, com o provavelm ente m uitas vezes sucede, a existência em grande núm ero num país de um a espécie de zangão; suponham os ainda que, passando a colônia o Inverno, um a provisão de m el sej a indispensável à sua conservação, não há dúvida que seria m uito vantaj oso para o zangão que um a ligeira m odificação do instinto o levasse a aproxim ar as suas pequenas células de m aneira a que se interceptassem , porque então um a só parede com um podendo servir as duas células adj acentes, realizaria um a econom ia de trabalho e de cera. A vantagem aum entaria sem pre se os zangões, aproxim ando e regularizando além disso as suas células, as agregassem num a só m assa, com o a m elípona; porque, então, um a parte m ais considerável da parede lim itando cada célula, servindo às células vizinhas, haveria ainda um a econom ia m ais considerável de trabalho e de cera. Pelas m esm as razões, seria útil à m elípona que estreitasse m ais as suas células, e lhes desse m ais regularidade do que a que têm atualm ente; porque então, as superfícies esféricas desaparecendo e sendo substituídas por superfícies planas, o favo da m elípona seria tão perfeito com o o da abelha. A seleção natural não poderia conduzir-se além deste grau de perfeição arquitetural, pois que, tanto quanto o podem os j ulgar, o favo da abelha é j á absolutam ente perfeito com relação à econom ia de cera
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e de trabalho.
Assim , creio eu, o m ais m aravilhoso de todos os instintos conhecidos, o da abelha, pode explicar-se pela ação da seleção natural. A seleção natural aproveitou as m odificações ligeiras, sucessivas e num erosas que têm sofrido instintos de um a ordem m ais sim ples; conduziu em seguida gradualm ente a abelha a descrever m ais perfeitam ente e m ais regularm ente esferas colocadas em duas ordens a iguais distâncias, e a cavar e a levantar paredes planas sobre as linhas de intersecção. E diga-se de passagem que as abelhas não sabem m ais que descrever as suas esferas a um a distância determ inada um as das outras, que não sabem o que sej am os diversos lados de um prism a hexagonal ou os rom bos da base. A causa determ inante da ação da seleção natural foi a construção de células sólidas, tendo a form a e a capacidade desej adas para conter as larvas, realizada com o m ínim o de despesa de cera e de trabalho. O enxam e particular que construiu as células m ais perfeitas com o m enor trabalho e a m enor despesa de m el transform ado em cera tem realizado o m elhor, e transm itido os seus instintos econôm icos novam ente adquiridos aos enxam es sucessivos que, por seu turno tam bém , têm m ais vantagens em seu favor na luta pela existência.
OBJEÇÕES CONTRA A APLICAÇÃO DA TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL AOS
INSTINTOS: INSETOS NEUTROS E ESTÉREIS
Tem -se feito, contra as hipóteses precedentes sobre a origem dos instintos, a obj eção que « as variações de conform ação e de instinto devem ter sido sim ultâneas e rigorosam ente adaptadas um as às outras, porque toda a m odificação num a, sem um a m udança correspondente im ediata no outro, teria sido fatal» . O valor desta obj eção repousa inteiram ente sobre a suposição de que as alterações, quer de conform ação, quer do instinto, se produzem subitam ente. Tem os para exem plo o caso do grande m elharuco (Parus major), ao qual fizem os alusão num capítulo precedente; esta ave, em poleirada num ram o, tem m uitas vezes entre as patas as sem entes do teixo, que fere com o bico até por a am êndoa fora. Ora, não se pode conceber que a seleção natural tenha conservado to- 302
das as leves variações individuais acrescidas na form a do bico, variações tendentes à m elhor adaptação nem abrir as sem entes, para produzir enfim um bico tão bem conform ado a este fim com o o da trepadeira, e que ao m esm o tem po por hábito, por necessidade, ou por um a alteração espontânea de gosto, a ave se nutra cada vez m ais de sem entes?
Supõe-se, neste caso, que a seleção natural m odificou lentam ente a form a do bico, posteriorm ente a algum as lentas m udanças nos hábitos e gostos, a fim de por a conform ação em harm onia com estas últim as. Mas se, por exem plo, as patas do m elharuco chegam a variar e a engrossar em correlação com o bico ou em virtude de qualquer outra causa desconhecida, não é im provável que esta circunstância sej a de natureza a tornar a ave cada vez m ais trepadora, e que este instinto, desenvolvendo-se sem pre progressivam ente, term ine por adquirir as aptidões e os instintos notáveis da sita. Supõe-se, em tal caso, um a m odificação gradual de conform ação que conduz a um a alteração nos instintos. Para tom ar um outro exem plo: há poucos instintos m ais curiosos do que o da salangana do arquipélago da Sonda construir o ninho com saliva endurecida. Algum as aves constroem o ninho com lam a que se j ulga ser diluída com a saliva, e um gaivão da Am érica do Norte constrói o ninho, com o eu pude verificar, com pequenas varetas aglutinadas com a saliva, e m esm o com placas de saliva endurecida. É, pois, m uito im provável que a seleção natural de certos indivíduos que segreguem um a m uito grande quantidade de saliva tenha podido levar à produção de um a espécie de que o instinto a obrigue a desprezar outros m ateriais e a construir o ninho exclusivam ente com a saliva endurecida? O m esm o se dá em m uitos outros casos. Devem os, todavia, reconhecer que, as m ais das vezes, nos é im possível saber se foi o instinto se a conform ação que prim eiro variou.
Poderiam , sem dúvida algum a, opor-se à teoria da seleção natural um grande núm ero de instintos cuj a explicação é m uito difícil; há-os, com efeito, de que não podem os com preender a origem ; para outros, não conhecem os nenhum dos graus de transição por que têm passado; outros são tão insignificantes, que foi a custo que a seleção natural pôde exercer algum a ação sobre eles; outros, enfim , são quase idênticos em anim ais m uito distanciados na escala dos seres para que
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se possa supor que esta sem elhança sej a herança de um predecessor com um , e é necessário, por conseguinte, considerá-los com o adquiridos independentem ente em virtude da ação da seleção natural. Não posso estudar aqui todos estes casos diversos, levar-m e-ia a um a dificuldade especial que, à prim eira vista, m e pareceu bastante insuperável para com bater a m inha teoria. Quero falar dos neutros ou fêm eas estéreis das com unidades de insetos. Estes neutros, com efeito, têm m uitas vezes instintos e um a conform ação por com pleto diferentes dos dos m achos e das fêm eas fecundas, e, contudo, vista a sua esterilidade, não podem propagar a sua raça. Este assunto m erecia um estudo profundo; todavia, exam inei aqui apenas um caso especial: o das form igas obreiras ou form igas estéreis. Com o explicar a esterilidade destas obreiras, é j á um a dificuldade; não obstante, esta dificuldade não é m aior que a que sofrem outras m odificações um pouco consideráveis de conform ação; é lícito, com efeito, dem onstrar que, no estado natural, certos insetos e outros anim ais articulados podem por vezes tornar-se estéreis. Ora, se estes insetos viviam em sociedade, e era vantaj oso para a com unidade que anualm ente um certo núm ero destes m em bros nascessem aptos para o trabalho, m as incapazes de procriar, é fácil de com preender que este resultado pode ser produzido pela seleção natural. Ponham os, porém , de lado este prim eiro ponto. A grande dificuldade existe sobretudo nas diferenças consideráveis que se m ostram entre a conform ação das form igas obreiras e a dos indivíduos sexuados; o tórax das obreiras tem um a conform ação diferente; são desprovidas de asas e algum as vezes não têm olhos; o seu instinto é diferente por com pleto. Se se tratasse som ente do instinto, a abelha oferecer-nos-ia o exem plo m ais m arcante da diferença entre as obreiras e as fêm eas perfeitas. Se a form iga obreira ou os outros insetos neutros fossem anim ais ordinários, eu adm itiria, sem hesitação, que todos os seus caracteres se acum ularam lentam ente devido à seleção natural; isto é, que indivíduos nascidos com algum as m odificações vantaj osas, as transm itiram aos descendentes, que variando ainda, têm sido escolhidos por sua vez. e assim em seguida. Mas a form iga obreira é um inseto que difere m uito dos pais e que, contudo, é com pletam ente estéril; de m odo que a form iga obreira não tem j am ais podido transm itir as m odificações de conform ação ou de instinto que tão gradualm ente
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adquiriu. Com o é, pois, possível conciliar este fato com a teoria da seleção natural?
Lem bro prim eiram ente que num erosos exem plos atribuídos aos anim ais tanto no estado dom éstico com o no estado natural, nos provam que há toda a espécie de diferenças de conform ações hereditárias em correlação com certas idades e com um e outro sexo. Há diferenças que estão em correlação não som ente com um só sexo, m as ainda com o curto período durante o qual o sistem a reprodutor está em atividade; a plum agem nupcial de m uitas aves, e o gancho da m axila do salm ão m acho. Há m esm o ligeiras diferenças nos chifres de diversas raças de bois, que acom panham um estado im perfeito artificial ao sexo m asculino; certos bois, com efeito, têm os chifres m ais alongados que os dos bois pertencentes a outras raças, relativam ente ao com prim ento destes m esm os apêndices, tanto nos touros com o nas vacas pertencendo às m esm as raças. Não vej o, pois, grande dificuldade em supor que um caráter term ina por se encontrar em correlação com o estado de esterilidade que caracteriza certos m em bros das com unidades de insetos; a verdadeira dificuldade está em explicar com o pôde a seleção natural acum ular sem elhantes m odificações correlativas de estrutura. Insuperável, à prim eira vista, esta dificuldade dim inui e desaparece m esm o, lem brando que a seleção se aplica à fam ília tão bem com o ao indivíduo, e pode deste m odo atingir-se o fim desej ado. Assim , os tratadores de gado bovino desej am que, entre os seus anim ais, o gordo e o m agro estej am bem m isturados: o anim al que apresente estes caracteres bem desenvolvidos é m orto; m as o tratador continua a procurar indivíduos da m esm a fonte, e vence. Podem os acreditar tanto na seleção, que se poderia form ar, passado m uito tem po, um a raça de gado bovino dando sem pre bois de chifres extraordinariam ente longos, observando cuidadosam ente que indivíduos, touros ou vacas, produzam , pela cópula, bois de pontas m uito grandes, se bem que nenhum boi possa j am ais propagar a sua espécie. Eis aqui, além disso, um excelente exem plo: segundo M. Verlot, algum as variedades do goivo anual duplo, tendo sido m uito tem po subm etidas a um a seleção conveniente, dão sem pre, por sem ente, um a grande proporção de plantas tendo flores duplas e inteiram ente estéreis, m as tam bém algum as flores sim ples e fecundas.
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Som ente estas últim as flores asseguram a propagação da variedade, e podem com parar-se às form igas fecundas m achos e fêm eas, enquanto que as flores duplas e estéreis podem com parar-se às form igas neutras da m esm a com unidade. Da m esm a form a que entre as variedades do goivo, a seleção, entre os insetos vivendo em sociedade, exerce a sua ação, não sobre o indivíduo, m as na fam ília, para atingir um resultado vantaj oso. Podem os, pois, concluir que ligeiras m odificações de estrutura ou de instinto, em correlação com a esterilidade de certos m em bros da colônia, são vantaj osas para si m esm as; por conseguinte, os m achos e as fêm eas fecundas prosperaram e transm itiram à sua progenitura fecunda a m esm a tendência em produzir m em bros estéreis apresentando as m esm as m odificações. É devido à repetição deste m esm o processo que pouco a pouco se foi acum ulando a prodigiosa diferença que existe entre as fêm eas estéreis e as fêm eas fecundas da m esm a espécie, diferença que notam os em tantos insetos vivendo em sociedade. Resta-nos tratar do ponto m ais difícil, isto é, o fato de os neutros, nas diversas espécies de form igas, diferirem não som ente dos m achos e das fêm eas fecundas, m as ainda uns dos outros, ainda que por vezes num grau tão dim inuto, e a ponto de form arem duas ou três castas. Estas castas não se confundem um as com as outras, m as são perfeitam ente definidas, porque são tão distintas entre si que tanto podem ser duas espécies do m esm o gênero, com o dois gêneros da m esm a fam ília. Assim , nos Eciton, há neutras obreiras e soldados, de que as m axilas e os instintos diferem extraordinariam ente; nos Cry ptoceros, as obreiras de um a casta têm na cabeça um curioso escudo, cuj o uso é ainda desconhecido; nos My rm ecocy tus do México, as obreiras de um a casta j am ais abandonam o ninho; são nutridas pelas obreiras de um a outra casta, e têm um abdôm en enorm em ente desenvolvido, que segrega um a espécie de m el, suprindo o que fornecem os zangões que as nossas form igas européias conservam em cativeiro, e que se poderiam considerar com o constituindo para elas um verdadeiro gado dom éstico. Acusar-m e-ão de ter um a confiança presuntiva no princípio da seleção natural, porque não adm ito que fatos tão extraordinários e tão bem verificados devam destruir por com pleto a m inha teoria. No caso m ais sim ples, isto é, aquele em
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que há apenas um a sim ples casta de insetos neutros que, segundo m e parece, a seleção natural tornou diferentes das fêm eas e dos m achos fecundos, podem os concluir, pela analogia com as variações ordinárias, que as leves m odificações, sucessivas e vantaj osas, não têm surgido em todos os neutros de um m esm o ninho, m as em alguns som ente; e que, devido à persistência das colônias providas de fêm eas produzindo o m aior núm ero de neutros assim vantaj osam ente m odificados, os neutros acabaram todos por apresentarem o m esm o caráter. Deveríam os, se este m odo de ver tivesse fundam ento, encontrar m uitas vezes, no m esm o ninho, insetos neutros apresentando gradações de estrutura; ora, é isto o que sucede, m esm o bastante freqüentem ente, se se considerar que, até hoj e, se não têm estudado com cuidado os insetos licutros fora da Europa. M. F. Sm ith dem onstrou que, entre m uitas form igas da Inglaterra, os neutros diferem uns dos outros de um a m aneira notável pelo talhe, e algum as vezes pela cor; dem onstrou, além disso, que se podem encontrar, no m esm o ninho, todos os indivíduos interm ediários que ligam as form as m ais extrem as, o que pude verificar por m im próprio. Encontram -se algum as vezes num ninho as grandes obreiras em m aior núm ero do que as pequenas ou reciprocam ente; são abundantes tanto as grandes com o as pequenas, enquanto que as de tam anho m édio são raras. A Forinica fla-va tem obreiras grandes e pequenas, e algum as de talhe m édio; nesta espécie, segundo as observações de M. F. Sm ith, as grandes obreiras têm olhos sim ples ou ocelos, bem visíveis posto que pequenos, enquanto que estes m esm os órgãos são rudim entares nas pequenas obreiras. Um a dissecação atenta de m uitas obreiras provou-m e que os olhos são, nas pequenas, m uito m ais rudim entares do que deveria supor-se pelo tam anho, e creio eu, sem que queira afirm á-lo de um a m aneira categórica, que as obreiras de talhe m édio têm tam bém os olhos apresentando caracteres interm ediários. Tem os, pois, neste caso, dois grupos de obreiras estéreis no m esm o ninho, diferentes não só pelo talhe, m as ainda pelos órgãos da visão, e ligadas por alguns indivíduos apresentando caracteres interm ediários. Juntarei, se m e for perm itida esta digressão, que, se as obreiras m enores fossem as m ais úteis à com unidade, a seleção teria atuado sobre os m achos e as fêm eas produzindo o m aior núm ero destas pequenas obreiras, até que se tornassem to- 307
das assim , teria resultado então um a espécie de form igas de que as neutras seriam quase sem elhantes às da My rm ica. As obreiras da m y rm iCa, com efeito, nem m esm o possuem os rudim entos dos olhos, posto que os m achos e as fêm eas deste gênero tenham olhos sim ples e bem desenvolvidos. Posso citar um outro exem plo. Estava tão seguro de encontrar gradações referentes a m uitos pontos im portantes da conform ação das diversas castas de neutros de um a m esm a espécie, que aceitei com toda a boa vontade a oferta que M. F. Sm ith m e fez de enviar-m e um grande núm ero de indivíduos apanhados num ninho de Anom m a, form iga da África Ocidental. O leitor j ulgará talvez m elhor das diferenças existentes nestas obreiras pelos term os de com paração exatam ente proporcionais, do que pelas m edidas reais: esta diferença é a m esm a que a que existiria num grupo de pedreiros dos quais uns tivessem apenas 1.65m , enquanto que outros tivessem 2m ; m as seria necessário supor, além disso, que estes últim os tinham a cabeça quatro e não três vezes m aior que a dos hom ens pequenos, e as m axilas quase cinco vezes m aiores tam bém . Dem ais, as m axilas das form igas obreiras de diversos tam anhos diferem pela form a e núm ero de dentes. Mas o ponto im portante para nós, é que, posto que se possam agrupar estas obreiras em castas tendo tam anhos diferentes, contudo estes grupos confundem -se uns com os outros, tanto com respeito ao talhe com o à conform ação das m axilas. Desenhos feitos em câm ara clara por sir J. Lubbock, segundo as m axilas que tenho dissecado em obreiras de diferente tam anho, dem onstram incontestavelm ente este fato. Na sua interessante obra, Le Naturaliste sur les Am azones, M. Bates descreveu casos análogos.
Em presença destes fatos, creio que a seleção natural, atuando sobre as form igas fecundas ou parentes, pôde levar à form ação de um a espécie produzindo regularm ente neutras, todas grandes, com as m axilas tendo um a certa form a, ou todas pequenas, com as m axilas tendo um a outra conform ação, ou enfim , o que é
o cúm ulo da dificuldade, ao m esm o tem po obreiras de um a grandeza e estrutura dadas e sim ultaneam ente outras obreiras diferentes em tais aspectos; devia form ar-se a princípio um a série graduada, com o nos casos da Anom m a, pois que as form as extrem as se têm desenvolvido em núm ero sem pre m uito considerável, de- 308
vido à persistência dos pais que as procriaram , até que por fim tenha cessado a produção das form as interm ediárias.
M. Wallace propôs um a explicação análoga para o caso igualm ente com plexo de certas borboletas do arquipélago m alaio de que as fêm eas apresentam regularm ente duas e m esm o três form as distintas. M. Fritz Müller recorreu à m esm a argum entação relativam ente a certos crustáceos do Brasil, nos quais se podem reconhecer duas form as m uito diferentes nos m achos. Mas não é necessário entrar aqui em discussão profunda sobre este assunto.
Creio ter, no que precede, explicado com o se produziu este fato adm irável, que, num a m esm a colônia, existam duas castas nitidam ente distintas de obreiras estéreis, tão diferentes um as das outras com o os pais. Podem os facilm ente com preender que a sua form ação devia ter sido tão vantaj osa às form igas vivendo em sociedade com o o princípio da divisão do trabalho pode ser útil ao hom em civilizado. As form igas, todavia, põem nação instintos, órgãos ou utensílios hereditários, enquanto que o hom em se serve, para trabalhar, de conhecim entos adquiridos e de instrum entos fabricados. Mas devo confessar que, apesar de toda a m inha fé
na seleção natural, nunca pude esperar que pudesse produzir resultados tão im portantes, se não estivesse convencido pelo exem plo dos insetos neutros. Entrei pois, sobre este assunto, em m inúcias um pouco m ais circunstanciadas, se bem que ainda insuficientes, a princípio, para fazer com preender o poder da seleção natural, e, depois, porque se tratava de um a das dificuldades m ais sérias que a m inha teoria tem encontrado.
O caso é tam bém dos m ais im portantes, visto que prova que, tanto nos anim ais com o nas plantas, um a som a qualquer de m odificações pode ser realizada pela acum ulação de variações espontâneas, ligeiras e num erosas, pois que são vantaj osas, m esm o fora de toda a intervenção do uso e do hábito. Com efeito, os hábitos particulares próprios às fêm eas estéreis ou neutras, sej a qual for a duração que tenham tido, não poderiam , de m aneira algum a, afetar os m achos ou as fêm eas, únicos que deixam descendentes. Estou m aravilhado de ninguém ter ainda pensado em argüir o caso dos insetos contra a teoria bem conhecida dos hábitos hereditários enunciada por Lam arck.
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RESUMO
Procurei, neste capítulo, dem onstrar abreviadam ente que os hábitos m entais dos nossos anim ais dom ésticos são variáveis, e que as suas variações são hereditárias. Tenho tam bém , e m ais brevem ente ainda, procurado dem onstrar que os instintos podem ligeiram ente variar no estado de natureza. Com o se não pode contestar que os instintos de cada anim al têm para ele um a alta im portância, não há dificuldade algum a a que, sob a influência de alterações nas condições de existência, a seleção natural possa acum ular em qualquer grau leves m odificações de instinto, desde que apresentem algum a utilidade. O uso e a falta de uso têm provavelm ente desem penhado o seu papel em certos casos. Não pretendo que os fatos indicados neste capítulo venham apoiar m uito a m inha teoria, m as j ulgo tam bém que nenhum a das dificuldades que se levantam é
de m olde a aniquilá-la. Por outro lado, o fato dos instintos não serem sem pre perfeitos e serem algum as vezes suj eitos a erro; - de nenhum instinto ser produzido para vantagem de outros anim ais, se bem que certos anim ais tirem um partido vantaj oso do instinto dos outros! - de o axiom a: Natura non facit saltum (a natureza não dá saltos), tanto aplicável aos instintos com o à conform ação física, se explicar tão facilm ente pela teoria desenvolvida acim a, e de outra form a ficar ininteligível - são outros tantos argum entos que tendem a corroborar a teoria da seleção natural.
Alguns outros fatos relativos aos instintos vêm ainda em seu apoio; o caso freqüente, por exem plo, das espécies vizinhas m as distintas, habitando pontos afastados do Globo, e vivendo em condições de existência m uito diferentes, que, todavia, têm conservado quase os m esm os instintos. Assim torna-se-nos fácil com preender com o, em virtude do princípio de hereditariedade, o tordo da parte tropical da Am érica do Sul forra o ninho de lam a, com o o faz o tordo de Inglaterra; com o é que os calaus tanto da África com o da Índia têm o m esm o instinto bizarro de aprisionar as fêm eas no buraco de um a árvore, deixando apenas um a pequena abertura pela qual os m achos dão o alim ento à m ãe e aos filhos; com o ainda é
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que a carriça m acho (Trogloditas) das Am éricas do Norte constrói um “poleiro” no qual se em poleira com o o m acho da nossa carriça-hábito que se não encontra em qualquer outra ave conhecida. Enfim , adm itindo m esm o que a dedução não sej a rigorosam ente lógica, é infinitam ente m ais satisfatório considerar certos instintos, tais com o o que possui o novo cuco, de expulsar do ninho os seus irm ãos
- o das form igas em procurar escravas - o das larvas do icnêum on em devorar o interior do corpo das lagartas vivas - não com o o resultado de atos criadores especiais, m as com o pequenas conseqüências de um a lei geral, tendo por fim o progresso de todos os seres organizados, isto é, a sua m ultiplicação, a sua variação, a persistência do m ais forte e a elim inação do m ais fraco.
* * * * * * * *
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CAPITULO IX
Hibridez
-Distinção entre a esterilidade dos primeiros cruzamentos e a dos híbridos.-A esterilidade é variável em grau não universal, afetada pela consangüinidade próxima, suprimida pela domesticidade.
-Leis que regem a esterilidade dos híbridos.
-A esterilidade não é um caráter especial, mas depende de outras diferenças, e não é sobrecarregada pela seleção natural.
-Causas da esterilidade dos híbridos e dos primeiros cruzamentos.
-Paralelismo entre os efeitos de mudanças nas condições de existência e nas do cruzamento.
-Dimorfismo e trimorfismo.
-A fecundidade das variedades cruzadas e de seus descendentes mestiços não é
universal.
-Híbridos e mestiços comparados independentemente da sua fecundidade.
-Resumo.
Os naturalistas adm item geralm ente que os cruzam entos entre as espécies distintas são feridos especialm ente de esterilidade para im pedir que elas se confundam . Esta opinião parece, à prim eira vista, m uito provável, porque as espécies de um m esm o país quase se não poderiam conservar distintas, se fossem susceptíveis de se entrecruzar livrem ente. Este assunto tem para nós um a grande im portância, sobretudo neste sentido de a esterilidade das espécies, após um prim eiro cruzam ento, e a da sua descendência híbrida, não poderem provir, com o o dem onstrarei, da conservação de graus sucessivos e vantaj osos para a esterilidade. A esterilidade resulta das diferenças no sistem a reprodutor das espécies próxim as. Ordinariam ente, ao tratar-se deste assunto, confundem -se duas ordens de fatos que apresentam diferenças fundam entais, e que são, por um lado, a esterilidade da espécie em seguida a um prim eiro cruzam ento, e, por outro lado, a dos híbridos que provêm destes cruzam entos.
O sistem a reprodutor das espécies puras está, bem entendido, em perfeito estado, e todavia, logo que se cruzam , não produzem senão poucos ou nenhuns descendentes. Por outro lado, os órgãos reprodutores dos híbridos são funcional-312
m ente im potentes, com o o prova claram ente o estado do elem ento m acho, tanto nas plantas com o nos anim ais, em bora os próprios órgãos, tanto quanto o perm ite o m icroscópio verificar, pareçam perfeitam ente conform ados. No prim eiro caso, os dois elem entos sexuais que concorrem para form ar o em brião são com pletos; no segundo caso, são ou com pletam ente rudim entares ou m ais ou m enos atrofiados. Esta distinção é im portante, quando se considera a causa da esterilidade que é
com um para os dois casos; tem -se-lhe ligado pouca im portância provavelm ente porque, num e noutro caso, se encara a esterilidade com o o resultado de um a lei absoluta cuj as causas escapam à nossa inteligência.
A fecundidade de cruzam entos entre variedades, isto é, entre form as que se sabe ou se supõe descendentes de pais com uns, assim com o a fecundidade entre os m estiços é, pela m inha teoria, tão inteiram ente im portante com o a esterilidade das espécies; porque parece resultar destas duas ordens de fenôm enos um a distinção bem clara e distinta entre as variedades e as espécies.
G RAUS DE ESTERILIDADE
Exam inem os prim eiro a esterilidade de cruzam entos entre as espécies e a da sua descendência híbrida. Dois observadores conscienciosos, Kölreuter e Gärtner, quase que devotaram a sua vida ao estudo deste assunto, e é im possível ler as m em órias que consagraram a esta questão sem adquirir a convicção profunda que os cruzam entos entre as espécies são, até certo ponto, feridos de esterilidade. Kölreuter considera esta lei com o universal, m as este autor corta o nó da questão, porque, por dez vezes, não hesitou em considerar com o verdadeiras duas form as perfeitam ente fecundas entre si e que a m aior parte dos autores olha com o espécies distintas. Gärtner adm ite tam bém a universalidade da lei, m as contesta a fecundidade com pleta nos dois casos citados por Kölreuter. Mas, neste caso com o em m uitos outros, esquecem -se de contar cuidadosam ente as sem entes, para dem onstrar que há grande dim inuição de fecundidade. Com para sem pre o núm ero m áxim o de sem entes produzidas pelo prim eiro cruzam ento entre as duas espécies, assim com o o m áxim o produzido pela sua posteridade híbrida com o
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núm ero m édio que dão, no estado de natureza, às espécies próxim as puras. Introduz assim , parece-m e, um a causa grave de erro; porque um a planta, para ser artificialm ente fecundada, deve ser subm etida à castração, e, o que é m uitas vezes im portantíssim o, ‘deve ser encerrada para im pedir que os insetos lhe levem o pólen de outras plantas. Quase todas as plantas de que Gärtner se serviu para as suas experiências estavam em vasos e colocadas num dos quartos da sua casa. Ora, é certo que sem elhante tratam ento é m uitas vezes nocivo à fecundidade das plantas, porque Gärtner fala de um a vintena de plantas que fecundou artificialm ente com o próprio pólen delas depois de as ter castrado (é necessário excluir os casos com o os das legum inosas, para os quais a m anipulação necessária é dificílim a), e m etade destas plantas sofreram um a dim inuição de fecundidade. Por outro lado, com o Gärtner cruzou m uitas vezes certas form as, tais com o o m orrião azul (Anagallis arvensis e Anagallis caerulea), que os m elhores botânicos consideram com o variedades e que ele encontrou absolutam ente estéreis, pode duvidarse que haj a realm ente tantas espécies estéreis, quando se cruzam , com o ele parece ter suposto. É certo, por um lado, que a esterilidade das diversas espécies cruzadas difere por tal form a em grau e oferece tantas gradações insensíveis; que, por um lado, a fecundidade das espécies puras é tão facilm ente afetada por diferentes circunstâncias, que é, na prática, m uito difícil dizer onde acaba a fecundidade perfeita e onde com eça a esterilidade. Não se saberia, creio eu, encontrar um a m elhor prova deste fato de que as conclusões diam etralm ente opostas, quanto às m esm as espécies, a que chegaram os dois observadores m ais experim entados que têm existido, Kölreuter e Gärtner. É tam bém m uito instrutivo com parar - sem entrar em particularidades que não encontrariam aqui o lugar necessário - as provas apresentadas pelos nossos m elhores botânicos sobre a questão de saber se certas form as duvidosas são das espécies ou das variedades, com as provas de fecundidade apresentadas por diversos horticultores que têm cultivado híbridos, ou por um m esm o horticultor, depois das experiências feitas em diferentes épocas. Pode-se dem onstrar assim que nem a esterilidade nem a fecundidade fornecem distinção algum a segura entre as espécies e as variedades. As provas tiradas des- 314
ta fonte oferecem insensíveis gradações, e dão lugar às m esm as dúvidas que as que se tiram de outras diferenças de constituição e de conform ação. Quanto à esterilidade dos híbridos nas gerações sucessivas, se bem que se tenha podido tratar alguns evitando com grande cuidado todo o cruzam ento com um a ou outra das duas espécies puras durante seis ou sete e m esm o, num caso, durante dez gerações, Gärtner nota expressam ente que a fecundidade delas j am ais aum enta, m as que ao contrário dim inui ordinariam ente de repente. Pode notar-se, a propósito desta dim inuição, que, quando um desvio de estrutura ou de constituição é com um aos dois pais, é transm itido m uitas vezes com m aior intensidade ao descendente; ora, nas plantas híbridas, os dois elem entos sexuais são j á afetados em certo grau. Mas creio que, na m aior parte destes casos, a fecundidade dim inui em virtude de um a causa independente, isto é, os cruzam entos entre indivíduos m uito próxim os. Tenho feito tantas experiências, tenho reunido um conj unto de fatos tão considerável, provando que, por um lado, o cruzam ento ocasional com um indivíduo ou com um a variedade distinta aum enta o vigor e a fecundidade dos descendentes, e, por outro lado, que os cruzam entos consangüíneos produzem o efeito inverso, que não poderia duvidar da exatidão desta conclusão. Os experim entadores ordinariam ente pouco tratam dos híbridos, e com o as duas espécies m ães, assim com o outros híbridos aliados, crescem a m aior parte do tem po no m esm o j ardim , é preciso im pedir com cuidado o acesso de insetos no tem po da floração. Resulta que, em cada geração, a flor de um híbrido é geralm ente fecundada pelo próprio pólen, circunstância que deve prej udicar a sua fecundidade j á dim inuída pelo fato da sua origem híbrida. Um a afirm ação, m uitas vezes repetida por Gärtner, fortifica a m inha convicção a este respeito; ele afirm a que se fecundarm os artificialm ente os híbridos, m esm o os m enos fecundos, com pólen híbrido da m esm a variedade, a fecundidade aum enta m uito visivelm ente e vai sem pre aum entando, apesar dos efeitos desfavoráveis que podem exercer as m anipulações necessárias. Procedendo a fecundações artificiais, tom a-se m uitas vezes pólen por acaso (eu sei-o por experiência), pólen das anteras de um a outra flor que não o da própria flor que se quer fecundar, de form a que resulta um cruzam ento entre duas flores, m uito em bora elas pertençam m uitas vezes à m esm a