A Origem das Espécies
Frederico Cuvier, e m uitos dos velhos…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Debaixo destas diversas relações e sob outras ainda, as form as da m esm a espécie, ilegitim am ente unidas, com portam -se exatam ente da m esm a m aneira com o duas espécies distintas cruzadas. Isto m e levou a observar, durante quatro anos, um grande núm ero de plantas provenientes de diversas uniões Ilegítim as.
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O resultado principal destas observações é que estas plantas ilegítim as, com o se podem cham ar, não são perfeitam ente fecundas. Podem fazer-se produzir às espécies dim orfas plantas ilegítim as de estilete longo e estilete curto e às plantas trim orfas as três form as ilegítim as; podem em seguida unir-se estas últim as entre si legitim am ente. Feito isto, não há razão algum a aparente para que não produzam tantas sem entes com o os seus pais legitim am ente fecundados. Mas não é tudo. São todas m ais ou m enos estéreis; algum as são-no tão absolutam ente e tão incuravelm ente para não ter produzido, durante o decurso de quatro estações, nem um a cápsula, nem um a sem ente. Pode rigorosam ente com parar-se a esterilidade destas plantas ilegítim as, unidas em seguida de um a m aneira legítim a, às dos híbridos cruzados inter se. Quando, por outro lado, se recruza um híbrido com um a ou outra das espécies origens puras, a esterilidade dim inui; o m esm o acontece quando se fecunda um a planta ilegítim a com um a legítim a. Do m esm o m odo, ainda que a esterilidade dos híbridos não corresponda à dificuldade de operar um prim eiro cruzam ento entre duas espécies parentes, do m esm o m odo a esterilidade de certas plantas ilegítim as pode ser m uito pronunciada, enquanto que a da união de que elas derivam nada tem de excessivo. O grau de esterilidade dos híbridos nascidos da sem ente de um a m esm a cápsula é variável de um a m aneira inata; o m esm o fato é m uito notado nas plantas ilegítim as. Enfim , um grande núm ero de híbridos produz flores em abundância e com persistência, enquanto que outros, m ais estéreis, produzem apenas poucas, e ficam fracas e defeituosas; nos descendentes ilegítim os das plantas dim orfas e trim orfas notam -se fatos inteiram ente análogos. Há, pois, em sum a, um a grande identidade entre os caracteres e a m aneira de ser das plantas ilegítim as e dos híbridos. Não seria exagero adm itir que os prim eiros são híbridos produzidos nos lim ites da m esm a espécie por união im própria de certas form as, enquanto que os híbridos ordinários são o resultado de um a união im própria entre pretendidas espécies distintas. Já vim os tam bém que há, em todas as relações, a m aior analogia entre as prim eiras uniões ilegítim as e os prim eiros cruzam entos entre espécies distintas. É o que um exem plo fará com preender m elhor. Suponham os que um botânico encontra duas variedades bem acentu- 336 adas (podem encontrar-se) da form a de longo estilete do Lythrum salicaria trimor-fo, e que experim enta determ inar a sua distinção específica cruzando-as. Encontraria que dão som ente um a quinta parte da quantidade norm al de sem entes, e que, debaixo de todas as relações, elas se conduzem com o duas espécies distintas. Mas, para m elhor se assegurar, sem earia estas sem entes supostas híbridas, e não obteria m ais que pobres plantas enfezadas, inteiram ente estéreis, e conduzindo-se, sob todas as relações, com o híbridos ordinários. Teria então o direito de afirm ar, segundo as idéias recebidas, que forneceu realm ente a prova de que estas duas variedades são espécies tão acentuadas quanto possível; contudo, estaria absolutam ente enganado. Os fatos que acabam os de indicar nas plantas dim orfas e trim orfas são im portantes porque provam , prim eiram ente, que o fato fisiológico da fecundidade dim inuída, tanto nos prim eiros cruzam entos com o nos híbridos, não é um a prova certa de distinção específica; em segundo lugar, porque podem os concluir que deve existir qualquer laço desconhecido que liga a esterilidade das uniões ilegítim as à sua descendência ilegítim a, e que podem os tirar a m esm a conclusão para os prim eiros cruzam entos e para os híbridos; em terceiro lugar, e isto parece-m e particularm ente im portante, porque vem os que podem existir duas ou três form as da m esm a espécie, não diferindo sob relação algum a de estrutura ou de constituição relativam ente às condições exteriores, e que, contudo, podem ficar estéreis quando se unam de certas m aneiras. Devem o-nos lem brar, com efeito, que a união dos elem entos sexuais de indivíduos tendo a m esm a form a, por exem plo a união de dois indivíduos de longo estilete, fica estéril, enquanto que a união de elem entos sexuais próprios a duas form as distintas, é perfeitam ente fecunda. Isto parece, à prim eira vista, exatam ente o contrário do que se passa nas uniões ordinárias entre os indivíduos da m esm a espécie e nos cruzam entos entre espécies distintas. Todavia, é duvidoso que sej a realm ente assim ; m as não m e deterei m ais sobre este obscuro assunto.
Em resum o, o estudo das plantas dim orfas e trim orfas parece autorizar-nos a concluir que a esterilidade das espécies distintas cruzadas, assim com o a dos seus produtos híbridos, depende exclusivam ente da natureza dos seus elem entos sexuais, e não de qualquer diferença da estrutura e constituição geral. Som os igualm ente levados à m esm a conclusão pelo estudo dos cruzam entos recíprocos,
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gualm ente levados à m esm a conclusão pelo estudo dos cruzam entos recíprocos, nos quais o m acho de um a espécie não pode unir-se ou se une apenas m uito dificilm ente com a fêm ea de um a segunda espécie, enquanto que a união inversa pode operar-se com a m aior facilidade. Gärtner, esse excelente observador, chegou igualm ente a esta m esm a conclusão, que a esterilidade das espécies cruzadas é devida a diferenças restritas ao sistem a reprodutor.
A FECUNDIDADE DAS VARIEDADES CRUZADAS E DE SEUS DESCENDENTES
MESTIÇOS NÃO É UNIVERSAL
Poder-se-á alegar, com o argum ento esm agador, que deve existir algum a distinção essencial entre as espécies e as variedades, pois que estas últim as, por diferentes que possam ser pela aparência exterior, se cruzam com facilidade e produzem descendentes absolutam ente fecundos. Adm ito, por com pleto, que é
esta a regra geral; há todavia algum as exceções que vou registrar. Mas a questão é cheia de dificuldades, porque, no que diz respeito às variedades naturais, se se descobre entre duas form as, até então consideradas com o variedades, a m enor esterilidade em seguida ao seu cruzam ento, são logo classificadas com o espécies pela m aior parte dos naturalistas. Assim , quase todos os botânicos consideram o m orrião azul e o m orrião verm elho com o duas variedades; m as Gärtner quando os cruzou, tendo-os encontrado com pletam ente estéreis, considerou-os conseqüentem ente com o duas espécies distintas. Se girarm os assim num círculo vicioso, é
certo que devem os adm itir a fecundidade de todas as variedades produzidas no estado de natureza.
Se passarm os às variedades que se produzem , ou se supõe produzidas no estado dom éstico, encontram os ainda m atéria para dúvidas. Porque, quando se verifica, por exem plo, que certos cães dom ésticos indígenas da Am érica do Sul se não cruzam facilm ente com os cães europeus, a explicação que se apresenta a cada um , e provavelm ente a verdadeira, é que estes cães descendem de espécies prim itivam ente distintas. Todavia, a fecundidade perfeita de tantas variedades dom ésticas, tão profundam ente diferentes um as das outras aparentem ente, tais, por exem plo, com o as variedades do pom bo ou as da couve, é um fato realm ente no- 338
tável, sobretudo se pensarm os na quantidade de espécies que, parecendo-se m uito de perto, são inteiram ente estéreis quando se entrecruzam . Algum as considerações bastam para explicar a fecundidade das variedades dom ésticas. Pode observar-se em prim eiro lugar que a extensão das diferenças externas entre duas espécies não é um indício seguro do seu grau de esterilidade m útua, de tal m aneira que as diferenças análogas não seriam , além disso, um indício seguro no caso das variedades. É certo que, para as espécies, é nas diferenças de constituição sexual que é preciso procurar exclusivam ente a causa. Ora, as condições variantes a que são subm etidos os anim ais dom ésticos e as plantas cultivadas possuem tão pouca tendência a atuar sobre o sistem a reprodutor para o m odificar no sentido de esterilidade m útua, que tem os ocasião para adm irar com o verdadeira a doutrina inteiram ente contrária a Pallas, isto é, que estas condições têm geralm ente por efeito elim inar a tendência à esterilidade; de form a que os descendentes dom ésticos de espécies que, cruzadas no estado de natureza, se m ostrassem estéreis num certo grau, acabariam por se tornar inteiram ente fecundas um as com as outras. Quanto às plantas, a cultura, bem longe de determ inar, nas espécies distintas, um a tendência à esterilidade, tem , ao contrário, com o o provam diversos casos bem verificados, que j á citei, exercido um a influência inteiram ente contrária, a ponto de que certas plantas, que se não podem m ais fecundar a si próprias, conservam a aptidão de fecundar outras espécies ou de ser fecundadas por elas. Se se adm ite a doutrina de Pal as sobre a elim inação da esterilidade por um a dom esticação m uito prolongada, e quase que não é possível refutá-la, torna-se extrem am ente im possível que as m esm as circunstâncias, por m uito tem po continuadas, possam determ inar esta m esm a tendência, se bem que, em certos casos, e nas espécies dotadas de um a constituição particular, a esterilidade possa ter sido o resultado das m esm as causas. Isto, creio eu, explica-nos a razão por que se não produziram , nos anim ais dom ésticos, variedades m utuam ente estéreis, e por que, nas plantas cultivadas, se observam apenas certos casos, que nós tratarem os um pouco m ais adiante.
A verdadeira dificuldade a resolver na questão que nos ocupa não é, segundo a m inha opinião, explicar com o foi que as variedades dom ésticas cruzadas
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se não tornaram reciprocam ente estéreis, m as, antes, com o sucedeu que esta esterilidade sej a geral nas variedades naturais, desde que foram suficientem ente m odificadas desse m odo perm anente para tom ar o lugar das espécies. A nossa profunda ignorância acerca da ação norm al ou anorm al do sistem a reprodutor, im pede-nos de conhecer a causa precisa deste fenôm eno. Todavia, podem os supor que, pela continuidade da luta pela existência que têm de sustentar contra num erosos concorrentes, as espécies selvagens devem ter sido subm etidas, durante longos períodos, a condições m ais uniform es do que tiveram as variedades dom ésticas; circunstância que pode m odificar consideravelm ente o resultado definitivo. Sabem os, com efeito, que os anim ais e as plantas selvagens, tirados das suas condições naturais e reduzidas a cativeiro, tornam -se ordinariam ente estéreis; ora, os órgãos reprodutores, que sem pre viveram em condições naturais, devem tam bém ser provavelm ente m uito sensíveis à influência de um cruzam ento artificial. Podia prever-se, por outro lado, que os produtos dom ésticos que, assim com o o prova o Próprio fato da sua dom esticação, não devem ter sido, no princípio, m uito sensíveis a m udanças de condições de existência, e que resistem atualm ente ainda sem prej uízo da sua fecundidade, a m odificações repetidas nas m esm as circunstâncias, devessem produzir variedades m enos susceptíveis de ter o sistem a reprodutor afetado por um ato de cruzam ento com outras variedades de proveniência análoga.
Falei aqui com o se as variedades de um a espécie fossem invariavelm ente fecundas quando as cruzam . Não se pode, contudo, verificar a existência de um a ligeira esterilidade em certos casos a que vou referir-m e em breves palavras. As provas são tão concludentes com o as que nos fazem adm itir a esterilidade num a m ultidão de espécies; são-nos, além disso, fornecidas pelos nossos adversários, para os quais, em todos os outros casos, a fecundidade e a esterilidade são os m ais seguros indícios de diferenças de valor específico. Gärtner estudou um a a um a, no seu j ardim , durante m uitos anos, um a variedade anã de um m ilho de grãos am arelos e um a variedade de grande talhe e de grãos verm elhos; ora, m uito em bora estas plantas tenham sexos separados, j am ais se cruzaram naturalm ente. Fecundou então treze flores de um a destas variedades com pólen da outra, e ob- 340
teve som ente um a única espiga com cinco grãos apenas. Os sexos sendo distintos, nenhum a m anipulação de natureza prej udicial à planta pode intervir. Ninguém , creio, pretendeu que estas variedades de m ilho fossem espécies distintas; é essencial aj untar que as plantas híbridas provenientes dos cinco grãos obtidos foram por si m esm as tão com pletam ente fecundas, que o próprio Gärtner não ousou considerar as duas variedades com o espécies distintas.
Girou de Buzareingues cruzou três variedades de aboboreiras, que com o o m ilho, têm sexos separados; afirm a que a fecundação recíproca é tanto m ais difícil quanto as suas diferenças são m ais pronunciadas. Não sei que valor se pode atribuir a estas experiências; m as Sageret, que fez basear a sua classificação principalm ente na fecundidade ou na esterilidade dos cruzam entos, considera as form as nas quais fez esta experiência, com o variedades, conclusão a que Naudin chegou igualm ente.
O fato que se segue é m ais notável ainda; parece inteiram ente inacreditável, m as resulta de um núm ero im enso de ensaios contínuos durante m uitos anos sobre nove espécies de verbasco, por Gärtner, o excelente observador, cuj o testem unho tem tanto m ais valor quanto é certo que parte de um adversário. Gärtner verificou que quando se cruzam variedades brancas e am arelas, se obtêm m enos sem entes do que quando se fecundam estas variedades com o pólen das variedades da m esm a cor. Afirm a, além disso, que quando se cruzam as variedades am arelas e brancas de um a espécie com as variedades am arelas e brancas de um a espécie distinta, os cruzam entos operados entre flores de cor sem elhante produzem m ais sem entes do que os operados entre flores de cores diferentes. M. Scott tam bém em preendeu experiências nas espécies e variedades de verbasco, e, em bora não pudesse confirm ar os resultados de Gärtner sobre os cruzam entos entre espécies distintas, encontrou que as variedades dessem elhantem ente coloridas de um a m esm a espécie cruzadas em conj unto dão m enos sem entes na proporção de 86 por 100, que as variedades da m esm a cor fecundadas um a pela outra. Estas variedades diferem contudo apenas pela cor da flor, e algum as vezes um a variedade se obtém da sem ente de um a outra.
Kölreuter, de quem todos os observadores subseqüentes têm confirm ado a
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exatidão, estabeleceu o fato notável de que um a das variedades do tabaco ordinário é m ais fecunda que outras, em casos de cruzam entos com um a outra espécie m uito distinta. Fez experiências com cinco form as, consideradas ordinariam ente com o variedades, que subm eteu à prova do cruzam ento recíproco; os híbridos provenientes destes cruzam entos foram perfeitam ente fecundos. Além disso, em cinco variedades, um a’ só em pregada, quer com o elem ento m acho, quer com o elem ento fêm ea e cruzada com a Nicotiana glutinosa, produziu sem pre híbridos m enos estéreis que os que provêm do cruzam ento das outras quatro variedades com a m esm a Nicotiana glutinosa. O sistem a reprodutor desta variedade particular deve ter sido m odificado de algum a m aneira e em qualquer grau. Estes fatos provam que as variedades cruzadas não são sem pre perfeitam ente fecundas. A grande dificuldade em provar a esterilidade das variedades no estado de natureza-porque toda a variedade suposta, reconhecida com o estéril em qualquer grau, será logo considerada com o constituindo um a espécie distinta;
-o fato de o hom em se ocupar som ente dos caracteres exteriores nas variedades dom ésticas, as quais não foram além disso expostas durante m uito tem po em condições uniform es são outras tantas considerações que nos autorizam a concluir que a fecundidade não constitui um a distinção fundam ental entre as espécies e as variedades. A esterilidade geral que acom panha o cruzam ento das espécies pode ser considerada não com o um a aquisição ou com o um a propriedade especial, m as com o um a conseqüência de m udanças, de natureza desconhecida, que afetam os elem entos sexuais.
COMPARAÇÃO ENTRE OS HÍBRIDOS E OS MESTIÇOS, INDEPENDENTEMENTE DA FECUNDIDADE
Pondo-se de lado a questão da fecundidade, pode-se com parar entre si, sobre outras diversas relações, os descendentes de cruzam entos entre espécies com as de cruzam entos entre variedades. Gärtner, por m uita vontade que tivesse de traçar um a linha de dem arcação bem nítida entre as espécies e as variedades, não pôde encontrar m ais que diferenças pouco num erosas, e que, em m inha opinião, são bem insignificantes, entre os descendentes cham ados híbridos das es-342
pécies e os descendentes cham ados m estiços das variedades. Por outro lado, estas duas classes de indivíduos parecem -se m uito de perto sobre diversas relações im portantes. Exam inem os rapidam ente este ponto. A distinção m ais im portante é que, na prim eira geração, os m estiços são m ais variáveis que os híbridos; todavia, Gärtner adm ite que os híbridos de espécies subm etidas desde longo tem po à cultura são m uitas vezes variáveis na prim eira geração, fato que eu m esm o pude observar em exem plos m uito acentuados. Gärtner adm ite, por outro lado, que os híbridos entre espécies m uito vizinhas são m ais variáveis que os que provêm de cruzam entos entre espécies m uito distintas; o que prova que as diferenças no grau de variabilidade tendem a dim inuir gradualm ente. Quando se propagam , durante m uitas gerações, os m estiços ou os híbridos m ais fecundos, nota-se na sua posteridade um a variabilidade excessiva; poderiam , contudo, citar-se alguns exem plos de híbridos e m estiços que conservaram , durante m uito tem po, um caráter uniform e. Todavia, no decurso das gerações sucessivas, os m estiços parecem ser m ais variáveis que os híbridos.
Esta variabilidade m aior nos m estiços que nos híbridos nada tem que adm ire. Os pais dos m estiços são, com efeito, variedades, e, para a m aior parte, variedades dom ésticas (apenas se tentaram m uito poucas experiências sobre variedades naturais), o que im plica um a variabilidade recente, que deve continuar-se e j untar-se à que provoca j á o próprio fato do cruzam ento. A ligeira variabilidade que oferecem os híbridos na prim eira geração, com parada com as seguintes, constitui um fato curioso e digno de atenção. Nada, com efeito, confirm a m elhor a opinião que em iti sobre um a das causas de variabilidade ordinária, isto é, que, dada a excessiva sensibilidade do sistem a reprodutor para toda a m udança produzida nas condições da existência, cessa, nestas circunstâncias, de desem penhar as funções de um a m aneira norm al e de produzir um a descendência idêntica em todos os pontos à form a origem . Ora, os híbridos, durante a prim eira geração, provêm de espécies (à exceção das que têm sido desde m uito tem po cultivadas) cuj o sistem a reprodutor não foi de m aneira algum a afetado, e que não são variáveis; o sistem a reprodutor dos híbridos é, ao contrário, superiorm ente afetado, e os seus
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descendentes são por conseqüência m uito variáveis.
Voltando à com paração dos m estiços com os híbridos, Gärtner afirm a que os m estiços estão, m ais que os híbridos, suj eitos a regressar a um a ou a outra das form as origens; m as, se o fato é verdadeiro, não há aí m ais que um a diferença de grau. Gärtner afirm a expressam ente, além disso, que os híbridos provenientes de plantas desde há m uito cultivadas estão m ais suj eitos ao regresso que os híbridos provenientes de espécies naturais, o que explica provavelm ente a diferença singular dos resultados obtidos por diversos observadores. Assim , Max Wichura duvida que os híbridos j am ais regressem às suas form as origens, fazendo as suas experiências em salgueiros selvagens; enquanto que Naudin, que experim entou em plantas cultivadas, insiste fortem ente sobre a tendência quase universal que têm os híbridos ao retrocesso. Gärtner afirm a, adem ais, que quando se cruzam com um a terceira espécie, duas espécies aliás m uito vizinhas, os híbridos diferem consideravelm ente uns dos outros, enquanto que, se se cruzam duas variedades m uito distintas de um a espécie com outra espécie, os híbridos diferem pouco. Todavia, esta conclusão é, tanto quanto posso saber, baseada num a única observação, e parece ser diretam ente contrária aos resultados de m uitas experiências feitas por Kölreuter.
Tais são as únicas diferenças, aliás pouco im portantes, que Gärtner pôde assinalar entre as plantas híbridas e as plantas m estiças. Por outro lado, segundo Gärtner, as m esm as leis aplicam -se ao grau e à natureza da sem elhança que têm com os pais respectivos, tanto os m estiços com o os híbridos, e m ais particularm ente os híbridos que provêm de espécies m uito próxim as. Nos cruzam entos de duas espécies, um a delas é por vezes dotada de um poder predom inante para im prim ir a sua sem elhança ao produto híbrido, e o m esm o acontece, assim o j ulgo, com as variedades das plantas. Entre os anim ais, não é m enos certo que um a variedade tem m uitas vezes a m esm a preponderância sobre outra variedade. As plantas híbridas que provêm de cruzam entos recíprocos parecem -se geralm ente m uito, e o m esm o se dá com as plantas m estiças que resultam de um cruzam ento deste gênero. Os híbridos com o os m estiços, podem voltar ao tipo de um ou de outro dos pais, por um a série de cruzam entos repetidos com eles durante diversas
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gerações sucessivas.
Estas diversas observações aplicam -se provavelm ente tam bém aos anim ais; m as a questão com plica-se m uito neste caso, quer em razão da existência de caracteres sexuais secundários, quer, sobretudo, porque um dos sexos tem um a predisposição m uito m ais forte que o outro para transm itir a sua sem elhança, quer o cruzam ento se opere entre espécies quer se realize entre variedades. Creio, por exem plo, que certos autores sustentam , com razão, que o burro exerce um a ação preponderante sobre o cavalo, de m aneira que o m ulo e o j um ento tenham m ais do prim eiro que do segundo. Esta preponderância é m ais pronunciada no burro que na burra, de form a que o m ulo, produto de um burro e de um a égua, tem m ais de burro do que o j um ento, que é o produto de um a burra e de um cavalo inteiro.
Alguns autores têm insistido m uito sobre o pretendido fato de que só os m estiços não têm caracteres interm ediários aos dos pais, m as parecem -se m uito com um deles; pode dem onstrar-se que o m esm o acontece algum as vezes com os híbridos, m as m enos freqüentem ente do que com os m estiços, eu confesso. Depois dos ensinam entos que recolhi sobre os anim ais cruzados que se assem elham m uito de perto a um dos pais, vi sem pre que as sem elhanças incidem sobretudo sobre caracteres de natureza um pouco m onstruosa e que apareceram subitam ente - tais com o o albinism o, a falta de cauda ou de chifres, a presença de dedos suplem entares nas m ãos ou nos pés - e de form a algum a sobre os que têm sido lentam ente adquiridos por via de seleção. A tendência à regressão espontânea ao caráter perfeito de um ou de outro antepassado deve tam bém apresentarse m ais freqüentem ente nos m estiços que derivam de variedades produzidas m uitas vezes subitam ente e tendo um caráter sem im onstruoso, do que nos híbridos, que provêm de espécies produzidas naturalm ente e lentam ente. Em sum a, estou de acordo com o Dr. Prosper Lucas, que, depois de ter exam inado um vasto conj unto de fatos relativos aos anim ais, concluiu que as leis da sem elhança de um filho com os pais são as m esm as, que os pais diferem pouco ou m uito um do outro, isto é, que a união se deu entre dois indivíduos pertencendo à m esm a variedade, a variedades diferentes ou a espécies distintas.
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Posta de lado a questão da fecundidade ou da esterilidade, parece haver, nos outros pontos de vista, um a identidade geral entre os descendentes de duas espécies cruzadas e as de duas variedades. Esta identidade seria m uito surpreendente na hipótese de um a criação especial das espécies, e da form ação das variedades por leis secundárias; ela, porém , está em harm onia com pleta com a opinião de que não existe qualquer distinção essencial a estabelecer entre as espécies e as variedades.
RESUMO
Os prim eiros cruzam entos entre form as bastante distintas para constituir espécies e os híbridos que daí provêm , são m uito geralm ente, ainda que nem sem pre, estéreis. A esterilidade m anifesta-se em todos os graus; é por vezes assaz fraca para que os experim entadores m ais cuidadosos sej am conduzidos às conclusões m ais opostas quando querem classificar as form as orgânicas pelos indícios que ela lhes fornece. A esterilidade varia nos indivíduos de um a m esm a espécie em virtude de predisposições inatas, e é extrem am ente sensível à influência das condições favoráveis ou desfavoráveis. O grau de esterilidade não corresponde rigorosam ente às afinidades sistem áticas, m as parece obedecer à ação de m uitas leis curiosas e com plexas. Os cruzam entos recíprocos entre as duas m esm as espécies são geralm ente afetados de um a esterilidade diferente e por vezes m uito desigual. Não é sem pre do m esm o grau, no prim eiro cruzam ento, e nos híbridos que dele provêm . Da m esm a form a que, no enxerto das árvores, a aptidão de que goza um a espécie ou um a variedade em se enxertar num a outra depende de diferenças geralm ente desconhecidas existindo no sistem a vegetativo; igualm ente nos cruzam entos, a m aior ou m enor facilidade com que um a espécie pode cruzar-se com outra depende tam bém de diferenças desconhecidas no sistem a reprodutor. Não há m ais razão para adm itir que as espécies foram especialm ente feridas por um a esterilidade variável em grau, a fim de im pedir o cruzam ento e confusão na natureza, com o para crer que as árvores foram dotadas de um a propriedade especial,
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m ais ou m enos pronunciada, de resistência à enxertia, para im pedir que se não enxertem naturalm ente um as nas outras nas nossas florestas. Não foi a seleção natural que produziu a esterilidade dos prim eiros cruzam entos e a dos seus produtos híbridos. A esterilidade, nos casos dos prim eiros cruzam entos, parece depender de m uitas circunstâncias; em alguns casos, depende sobretudo da m orte precoce do em brião. No caso dos híbridos, parece depender da perturbação trazida à geração, pelo fato de ser com posta de duas form as distintas; a sua esterilidade oferece bastante analogia com a que afeta m uitas vezes as espécies puras, quando são expostas a condições de existência novas e pouco naturais. Quem explicar estes últim os fatos, pode tam bém explicar a esterilidade dos híbridos; esta suposição apóia-se no paralelism o de um outro gênero, isto é, em que, a princípio, leves alterações nas condições de existência parecem j untar-se ao vigor e à fecundidade de todos os seres organizados, e, secundariam ente, em que o cruzam ento das form as que foram expostas a condições de existência ligeiram ente diferentes ou que tenham variado, favorece o vigor e a fecundidade da descendência. Os fatos notados a respeito das uniões ilegítim as das plantas dim orfas e trim orfas, assim com o a respeito da dos seus descendentes ilegítim os, perm item -nos talvez considerar com o provável que, em todos os casos, qualquer laço desconhecido existe entre o grau de fecundidade dos prim eiros cruzam entos e os dos seus produtos. A consideração dos fatos relativos ao dim orfism o, j unta aos resultados dos cruzam entos recíprocos, conduz evidentem ente à
conclusão de que a causa prim ária da esterilidade dos cruzam entos entre espécies deve residir nas diferenças dos elem entos sexuais. Mas não sabem os porque, no caso das espécies distintas, os elem entos sexuais foram tão geralm ente m ais ou m enos m odificados num a direção tendente a provocar a esterilidade m útua que os caracteriza, porém este fato parece provir de as espécies terem sido subm etidas durante longos períodos a condições de existência quase uniform es. Não é para adm irar que, na m aior parte dos casos, a dificuldade que se encontra no cruzam ento de duas espécies quaisquer, corresponda à esterilidade dos produtos híbridos que daí resultam , ainda que estas duas ordens de fatos fossem devidas a causas distintas; estes dois fatos dependem , com efeito, do valor das
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diferenças existentes entre as espécies cruzadas. Não é, pois, para adm irar que a facilidade de operar um prim eiro cruzam ento, a fecundidade dos híbridos que dali provêm , e a aptidão das plantas enxertadas um as nas outras - posto que esta últim a propriedade dependa evidentem ente de circunstâncias com pletam ente diferentes - estej am todas, até certo ponto, em relação com as afinidades sistem áticas das form as subm etidas à experiência; porque a afinidade sistem ática com preende sem elhanças de toda a natureza.
Os prim eiros cruzam entos entre form as conhecidas com o variedades, ou m uito análogas para serem consideradas com o tais, e os seus descendentes m estiços, são m uito geralm ente, ainda que não invariavelm ente fecundos, assim com o se tem pretendido m uitas vezes. Esta fecundidade perfeita e quase universal não deve adm irar-nos, se pensarm os no círculo vicioso no qual cam inham os no que respeita às variedades no estado de natureza, e se nos lem brarm os que a grande m aioria das variedades foi produzida no estado dom éstico pela seleção de sim ples diferenças exteriores, e que j am ais foram expostas m uito tem po a condições de existência uniform es. É necessário lem brar que, a dom esticação prolongada tendendo a elim inar a esterilidade, é pouco verossím il que deva tam bém provocá-la. Posta de parte a questão de fecundidade, há, com respeito a todas as outras relações, um a sem elhança geral m uito pronunciada entre os híbridos e os m estiços, quanto à sua variabilidade, à sua propriedade de absorver-se m utuam ente por cruzam entos repetidos, e à sua aptidão em herdar caracteres de duas form as origens. Em sum a pois, posto que sej am os tão ignorantes sobre a causa precisa da esterilidade dos prim eiros cruzam entos e dos seus descendentes híbridos com o o som os sobre as causas da esterilidade que provoca nos anim ais e nas plantas um a alteração com pleta de condições de existência, contudo os fatos que acabam os de discutir neste capítulo não m e parece que se oponham à teoria de que as espécies existiram prim itivam ente em form a de variedades.
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CAPITULO X
Insuficiência dos documentos geológicos
-Ausência atual de variedades intermediárias.
-Da natureza das variedades intermediárias extintas; do seu número.
-Lapso de tempo decorrido, calculado segundo a extensão da desnudação e dos depósitos. Lapso de tempo avaliado em anos.
-Pobreza das nossas coleções paleontológicas.
-Intermitência das formações geológicas. Desnudação das superfícies graníticas.
-Carência de variedades intermediárias em qualquer formação.
-Aparição imprevista de grupos de espécies.
-Sua aparição súbita nas camadas fossilíferas mais antigas.
-Antiguidade da terra habitável.
Enum erei no sexto capítulo as principais obj eções que se podiam razoavelm ente levantar contra as opiniões em itidas neste volum e. Já discuti a m aior parte. Há um a que constitui um a dificuldade evidente, é a distinção bem nítida das form as específicas, e a ausência de inum eráveis elos de transição que as liguem entre si. Indiquei por que razões não são com uns atualm ente estas form as de transição, nas condições que parecem , contudo, as m ais favoráveis ao seu desenvolvim ento, tais com o um a superfície extensa e contínua, apresentando condições físicas graduais e diferentes. Esforcei-m e por dem onstrar que a existência de cada espécie depende m uito m ais da presença de outras form as organizadas j á
definidas com o clim a, e com o, portanto, as condições de existência verdadeiram ente eficazes não são susceptíveis de gradações insensíveis com o são as do calor ou da um idade. Procurei tam bém dem onstrar que as variedades interm ediárias, sendo m enos num erosas do que as form as que ligam , são geralm ente vencidas e exterm inadas durante o curso das m odificações e dos aperfeiçoam entos ulteriores. Contudo, a causa principal da ausência geral de inum eráveis form as de transição na natureza depende sobretudo da própria m archa da seleção natural, em virtude da qual as variedades novas tom am constantem ente o lugar das form as prim eiras de que derivam e que exterm inam . Mas, quanto m ais este exterm ínio é produzido em grande escala, tanto m ais o núm ero das variedades interm ediárias, que outrora existiram , é considerável. Portanto, porque não regurgita de
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form as interm ediárias cada form ação geológica, em cada cam ada das que a com põem ? A geologia não revela seguram ente um a série orgânica bem graduada, e nisto é, talvez, que consiste a obj eção m ais séria que pode fazer-se à m inha teoria. Creio que a explicação se encontra na extrem a insuficiência dos docum entos geológicos.
É necessário, a princípio, fazer-se um a idéia exata da natureza das form as interm ediárias que, pela m inha teoria, devem ter existido anteriorm ente. Quando se exam inam duas espécies quaisquer, é difícil não nos deixarm os arrastar a figurar form as exatam ente interm ediárias entre am bos. É esta um a suposição errônea; é-nos sem pre necessário procurar form as interm ediárias entre cada espécie e um ascendente com um , m as desconhecido, que terá geralm ente diferido em alguns pontos dos seus descendentes m odificados. Assim , para dar um exem plo dessa lei, o pom bo-pavão e o pom bo de papo descendem am bos do torcaz; se possuíssem os todas as variedades interm ediárias que têm sucessivam ente existido, teríam os duas séries contínuas e graduadas entre cada um a destas duas variedades e o torcaz; m as nem um a só encontraríam os que fosse exatam ente interm ediária entre o pom bo-pavão e o de papo; algum a, por exem plo, que reunisse conj untam ente um a cauda m ais ou m enos em form a de leque e um papo m ais ou m enos dilatado, traços característicos destas duas raças. Além disso, estas duas variedades estão tão profundam ente m odificadas, desde o seu ponto de partida, que, sem as provas históricas que possuím os sobre a sua origem , seria im possível determ inar pelo sim ples confronto da sua conform ação com a do torcaz (C. livia), se derivam da m esm a espécie, ou de qualquer outra espécie vizinha, tal com o o C. aenas.
O m esm o sucede com as espécies no estado livre; se considerarm os form as m uito distintas, com o o cavalo e o tapir, não tem os razão algum a para supor que houvesse j am ais entre estes dois seres form as exatam ente interm ediárias, m as há toda a razão para crer que deviam ter existido entre cada um deles e um ascendente com um desconhecido. Este ascendente com um devia ter tido, no conj unto da sua organização, um a grande analogia geral com o cavalo e o tapir; m as pode tam bém , por diferentes pontos da sua conform ação, ter diferido considera- 350
velm ente destes dois tipos, talvez m esm o m ais do que diferem atualm ente um do outro. Por isso, em todos os casos deste gênero, ser-nos-ia im possível reconhecer a form a origem de duas ou m uitas espécies, m esm o pela com paração m ais atenta da organização do ascendente com a dos descendentes m odificados, se não tivéssem os conj untam ente à nossa disposição a série quase com pleta dos anéis interm ediários da cadeia.
É contudo possível, pela m inha teoria, que, de duas form as vivas, um a derive da outra; que o cavalo, por exem plo, sej a originado do tapir; ora, neste caso, deviam existir elos diretam ente interm ediários entre os dois. Mas um caso tal, im plicaria a persistência sem m odificação, durante um período m uito longo, de um a form a de que os descendentes tivessem sofrido alterações consideráveis; um fato, porém , desta natureza não pode ser senão m uito raro, em razão do princípio da concorrência entre todos os organism os ou entre o descendente e os pais; porque, em todos os casos, as form as novas aperfeiçoadas tendem a suplantar as form as anteriores tornadas fixas.
Todas as espécies vivas, pela teoria da seleção natural, se ligam à origem m ãe de cada gênero, por diferenças que não são m ais consideráveis do que as que verificam os atualm ente entre as variedades naturais e dom ésticas da m esm a espécie; cada um a destas origens-m ães, agora geralm ente extintas, ligam -se por seu turno da m esm a m aneira a outras espécies m ais antigas; e, assim seguidam ente, subindo e convergindo sem pre para o ascendente com um de cada grande classe. O núm ero das form as interm ediárias constituindo elos de transição entre todas as espécies vivas e as espécies perdidas devia, pois, ter sido infinitam ente grande; porém , se a m inha teoria é verdadeira, têm certam ente vivido sobre a terra.
LAPSO DE TEMPO DECORRIDO, DEDUZIDO DA APRECIAÇÃO DA RAPIDEZ DOS
DEPÓSITOS E DA EXTENSÃO DAS DESNUDAÇÕES
Com o não encontram os restos fósseis destes inum eráveis elos interm ediários, pode obj etar-se que, devendo cada um a destas alterações ter-se produzido m uito lentam ente, o tem po deve ter faltado para desem penhar tão grandes m odifi- 351 cações orgânicas. Ser-m e-ia difícil lem brar ao leitor, que não está fam iliarizado com a geologia, os fatos por m eio dos quais se chega a fazer um a vaga e fraca idéia da im ensidade da duração das idades decorridas. Quem ler a grande obra de sir Charles Ly ell sobre os princípios da Geologia, à qual os historiadores futuros atribuirão por j usto título um a revolução nas ciências naturais, sem reconhecer a prodigiosa duração dos períodos decorridos, pode fechar aqui este volum e. Não é
porque baste estudar os Princípios da Geologia, ler os tratados especiais dos diversos autores sobre esta ou aquela form ação, e tom ar conta dos ensaios que tentam para dar um a idéia insuficiente das durações de cada form ação ou m esm o de cada cam ada; é estudando as forças que entraram em j ogo que m elhor podem os fazer um a idéia dos tem pos decorridos, é tom ando conta da extensão da superfície terrestre que foi desnudada e da espessura dos sedim entos depositados, que chegam os a fazer um a vaga idéia da duração dos períodos passados. Assim com o Ly ell tão j ustam ente o fez notar, a extensão e a espessura das nossas cam adas de sedim entos são o resultado e dão a m edida da desnudação que a crosta terrestre sofreu então. É necessário, pois, exam inar por si m esm o estas enorm es pilhas de cam adas sobrepostas, estudar os pequenos regatos arrastando lodo, contem plar as vagas roendo as velhas penedias, para ter-se qualquer noção da duração dos períodos decorridos, de que os m onum entos nos chegam de toda a parte.
É necessário vaguear ao longo das costas form adas de rochas m oderadam ente duras, e notar os progressos da sua desagregação. Na m aior parte dos casos, o fluxo atinge os rochedos duas vezes apenas por dia e por pouco tem po; as vagas roem -nos som ente quando são carregadas de areias e calhaus, porque a água pura não desbasta a rocha. A penedia, assim m inada pela base, desaba em grandes m assas que, correndo sobre a praia, são desbastadas e gastas átom o por átom o, até que fiquem reduzidas bastante para serem roladas pelas ondas, que em seguida as esm agam m ais prontam ente e as transform am em calhaus, em areias ou em vasa. Mas quantas não encontram os nós, j unto das penedias, que recuam passo a passo, de blocos arredondados, cobertos de um a espessa cam ada de vegetações m arinhas, cuj a presença é um a prova da sua estabilidade e do
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pequeno gasto a que são subm etidas! Enfim , se seguirm os durante o espaço de algum as m ilhas um a penedia na qual o m ar exerça a sua ação destrutiva, encontram o-la ferida apenas aqui e ali, em espaços pouco extensos, à volta de prom ontórios salientes. A natureza da superfície e a vegetação de que está coberta provam que m uitos anos são passados desde que a água vinha banhar-lhe a base. As observações recentes de Ram say, de Jukes, de Geikie, de Croll e de outros, ensinam -nos que a desagregação produzida pelos agentes atm osféricos goza nas costas de um papel m uito m ais im portante do que a ação das vagas. Toda a superfície da Terra está subm etida à ação única do ar e do ácido carbônico dissolvido na água das chuvas, e ao gelo nos países frios; a m atéria desagregada é arrastada pelas fortes chuvas, m esm o nos declives suaves, e m ais do que se j ulga geralm ente, pelo vento nos países áridos; é então levada pelos ribeiros e pelos rios que, quando o curso é rápido, cavam profundam ente o seu leito e trituram os fragm entos. Os regatos lodosos que, por um dia de chuva, correm ao longo de todas as encostas, m esm o nos terrenos fracam ente ondulados, m ostram nos os efeitos da desagregação atm osférica. M. Ram say e Whitaker dem onstraram , e esta observação é m uito notável, que as grandes linhas de declive do distrito wealdiano e as que se estendem através da Inglaterra, que outrora se consideravam com o antigas costas m arítim as, não puderam ser assim produzidas, porque nenhum a delas é constituída de um a form ação única, enquanto que as nossas penedias atuais são por toda a parte com postas da intersecção de form ações variadas. Sendo isto assim , é-nos fácil adm itir que as escarpas devem em grande parte a sua origem a que a rocha que as com põe tem resistido m elhor à ação destrutiva dos agentes atm osféricos do que as superfícies vizinhas, cuj o nível baixou gradualm ente, enquanto que as linhas rochosas ficaram em relevo. Nada pode m elhor fazer-nos conceber o que sej a a im ensa duração do tem po, segundo as idéias que dele fazem os, com o a vista dos resultados tão consideráveis produzidos pelos agentes atm osféricos que nos parecem ter tão pouco poder e atuar tão lentam ente.
Depois de se estar assim convencido da lentidão com que os agentes atm osféricos e a ação das vagas sobre as costas rom pem a superfície terrestre, ne- 353
cessário se torna em seguida, para apreciar a duração dos tem pos passados, considerar, de um a parte, o volum e im enso das rochas que se levantaram em extensões consideráveis, e, por outro lado, exam inar a espessura das form ações sedim entares. Lem bro-m e de ter sido vivam ente im pressionado vendo as ilhas vulcânicas, cuj as costas fendidas pelas vagas apresentam hoj e penedias perpendiculares com 300 a 600m de altura, porque o declive doce das correntes de lava, devido ao seu estado outrora líquido, indicava até que ponto as cam adas rochosas deviam ter avançado pelo m ar. As grandes fendas, isto é, as im ensas aberturas ao longo das quais as cam adas são m uitas vezes levantadas de um lado ou baixadas do outro, a um a altura ou a um a profundidade de m uitos m ilhares de m etros, dãonos igual lição; porque, desde a época em que estas aberturas se produziram , quer bruscam ente, com o a m aior parte dos geólogos o crêem hoj e, quer lentam ente em seguida a num erosos e pequenos m ovim entos, a superfície do país está
desde então tão bem nivelada, que nenhum vestígio dessas prodigiosas deslocações é exteriorm ente visível. A fenda de Craven, por exem plo, estende-se num a linha de 50 km de com prim ento, ao longo da qual o deslocam ento vertical das cam adas varia de 200 a 900 m etros. O professor Ram say notou um enfraquecim ento de 700 m etros na ilha de Anglesey, e se diz convencido que, em Merionethshire existe um a outra de 3.500 m etros; contudo, em todos estes casos, nada à superfície m ostra estes prodigiosos m ovim entos, tendo sido com pletam ente esm agados os am ontoados de rochedos de cada lado da fenda.
Por outro lado, em todas as partes do Globo, os m ontões das cam adas sedim entares têm um a espessura prodigiosa. Vi, nas Cordilheiras, um a m assa de conglom erado de que avaliei a espessura em cerca de 3.000m ; e, se bem que os conglom erados deveriam ter-se aglom erado provavelm ente m ais depressa do que as cam adas de sedim entos m ais finos, são contudo com postos som ente de calhaus rolados e arredondados que, tendo cada um a im pressão do tem po, provam com que lentidão puderam acum ular-se m assas tão consideráveis. O professor Ram say deu-m e as espessuras m áxim as das form ações sucessivas nas diferentes partes da Grã-Bretanha, segundo as m edidas tom adas nos lugares na m aior parte dos casos.
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Eis o resultado (em m etros):
Cam adas paleozóicas (não com preendendo rochas ígneas)
11.000m
Cam adas
secundárias