A Origem das Espécies
6 De la Variation des Animaux et…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
um a grande analogia entre os seus hábitos e a conform ação de todas as raças dom ésticas; segundo, que, ainda que o Correio inglês ou o Cam balhota de face curta difiram consideravelm ente do Torcaz por certos caracteres, se pode, contudo, com parando as diversas subvariedades destas duas raças, e principalm ente as provenientes de países afastados, estabelecer entre o Torcaz e elas um a série quase com pleta ligando os dois extrem os (podem estabelecer-se as m esm as sé- 39
ries em alguns outros casos, m as não com todas as raças); terceiro, que os principais caracteres de cada raça são, em cada um a delas, essencialm ente variáveis, tais com o, por exem plo, as carúnculas e o com prim ento do bico no Correio inglês, o bico tão curto do Cam balhota, e o núm ero de penas caudais no Pom bo pavão (a explicação evidente deste fato ressaltará quando tratarm os da seleção); quarto, que os pom bos têm sido obj eto dos m ais extrem os cuidados da parte de um grande núm ero de am adores, e que foram reduzidos ao estado dom éstico há m ilhares de anos nas diferentes partes do m undo. O docum ento m ais antigo que se encontra na história relativam ente aos pom bos ascende à quinta dinastia egípcia, cerca de três m il anos antes da nossa era; este docum ento foi-m e indicado pelo professor Lepsius; por outra parte, M. Birch ensina-m e que o pom bo está m encionado num boletim de refeição da dinastia precedente. Plínio diz-nos que os Rom anos pagavam os pom bos por um preço considerável: “Chegou-se, diz o naturalista latino, a tom ar conta da sua genealogia e da sua raça”. Na Índia, pelo ano 1600, Abker-Khan fazia tão grande caso dos pom bos, que o seu pom bal tinha pelo m enos vinte m il exem plares. « Os m onarcas do Irão e do Turão enviavam -lhe aves m uito raras» ; em seguida o cronista real acrescenta: « Sua m aj estade, cruzando as raças, o que ainda não tivera sido feito até então, m elhorou-as extraordinariam ente» . Nesta m esm a época, os Holandeses m ostravam -se tam bém am adores de pom bos com o o tinham sido os antigos Rom anos. Quando tratarm os da seleção, com preender-se-á a grande im portância destas considerações para explicar a som a enorm e de variantes que os pom bos apresentam . Verem os então, tam bém , com o se faz com que m uitas vezes as diferentes raças ofereçam caracteres m onstruosos. É necessário, por fim , indicar um a circunstância extrem am ente favorável para a produção de raças distintas, e que os pom bos m achos e fêm eas se unam de ordinário para a vida, e que se possam tratar m uitas raças diferentes num a m esm a gaiola.
Acabo de discutir m uito largam ente, e contudo de um a m aneira insuficiente, a origem provável dos nossos pom bos dom ésticos; se tal fiz, foi porque, quando com ecei a tratar dos pom bos e a observar as diferentes espécies, eu estava tam bém pouco disposto a adm itir (sabendo com que fidelidade as diversas raças se
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reproduzem ), que derivassem todas de um a única espécie m ãe, e se tivessem form ado desde o m om ento em que foram reduzidas ao estado dom éstico, com o o estaria qualquer naturalista em aceitar a m esm a conclusão com respeito a num erosas espécies de pardais ou de qualquer outro grupo natural de aves selvagens. Um a circunstância m e feriu sobretudo, é que a m aior parte dos tratadores de anim ais dom ésticos, ou os cultivadores com os quais estou em contato, ou de que tenho lido as obras, estão todos firm em ente convencidos que as diferentes raças de que cada um se tem ocupado em especial, derivam de outras tantas espécies prim itivam ente distintas. Perguntai, assim com o eu o fiz, a um célebre tratador de bois de Hereford, se não poderia fazer derivar o seu gado de um a raça de longos cornos, ou que as duas raças derivassem de um a origem com um , e ele se rirá de vós. Nunca encontrei um tratador de pom bos, de galinhas, de patos ou de coelhos, que não estivesse inteiram ente convencido que cada raça principal derivasse de um a espécie distinta. Van Mons, no seu tratado sobre peras e m açãs, recusase categoricam ente a acreditar que espécies diferentes, um pippin Ribsion e um a m açã Codlin, por exem plo, possam descender de sem entes de um a m esm a árvore. Poder-se-iam citar um a infinidade de outros exem plos. A explicação deste fato parece-m e sim ples: fortem ente im pressionados, em razão dos seus longos estudos, pelas diferenças que existem entre as diversas raças, e ainda sabendo bem que cada um a delas varia ligeiram ente, pois que som ente ganham prêm ios nos concursos escolhendo com cuidado estas leves diferenças, os tratadores ignoram contudo os princípios gerais, e recusam -se a tom ar em linha de conta as leves diferenças que se foram acum ulando durante um grande núm ero de gerações sucessivas. Os naturalistas, que sabem bem m enos que os tratadores sobre as leis da hereditariedade, que não sabem m ais a respeito dos elos interm ediários que ligam entre si longas séries genealógicas, e que, contudo, adm item que a m aior parte das nossas raças dom ésticas derivam de um m esm o tipo, não poderiam tornar-se um pouco m ais prudentes, e não zom barem da opinião de que um a espécie, no estado natural, pode ser a posteridade direta de outras espécies?
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PRINCIPIOS DE SELEÇÃO ANTIG AMENTE APLICADOS E SEUS EFEITOS
Considerem os agora, em algum as linhas, a form ação gradual das nossas raças dom ésticas, quer derivem de um a espécie única, quer derivem de m uitas espécies vizinhas. Podem atribuir-se alguns efeitos à ação direta e definida das condições exteriores de existência, alguns outros aos hábitos, m as necessário seria ser bem ardiloso para explicar, por tais causas, as diferenças que existem entre o Cavalo de tiro e o Cavalo de corrida, entre o Perdigueiro e o Galgo, entre o Correio e o Cam balhota. Um dos caracteres m ais notáveis das nossas raças dom ésticas, é que vem os entre elas adaptações que não contribuem em nada para o bem -estar do anim al ou da planta, m as sim plesm ente para vantagem e capricho do hom em . Determ inadas variações úteis ao hom em são provavelm ente produzidas sucedânea e gradualm ente por outras; alguns naturalistas, por exem plo, j ulgam que o Cardo penteador arm ado de ganchos, que não pode substituir qualquer m áquina, é m uito sim plesm ente um a variedade do Dipsacus selvagem ; ora, esta transform ação pode m anifestar-se num a só sem ente. Igualm ente é provável que o tenha sido para o cão Tournebroche, sabe-se, pelo m enos, que o carneiro Ancon surgiu de um a m aneira súbita. Mas é necessário, se com pararm os o cavalo de tiro e o cavalo de corrida, o drom edário e o cam elo, as diversas raças de carneiros adaptadas quer às planícies cultivadas, quer às pastagens das m ontanhas, e de que a lã, segundo a raça, é apropriada tanto a um com o a outro uso; se com pararm os as diferentes raças de cães, de que cada um a é útil ao hom em sob pontos de vista diversos; se com pararm os o galo de com bate, tão inclinado à luta, com outras raças tão pacíficas, com as poedeiras perpétuas sem nunca chocarem , e com o galo Bantam , tão pequeno e tão elegante; se considerarm os, enfim , essa legião de plantas agrícolas e culinárias, as árvores que ensom bram os nossos vergéis, as flores que adornam os nossos j ardins, um as tão úteis ao hom em em diferentes estações e para tantos usos diversos, ou som ente tão agradáveis à vista, é necessário procurar, penso eu, algum a coisa a m ais que um sim ples efeito de variabilidade. Não podem os supor, com efeito, que todas estas raças tenham sido sim ultaneam ente produzidas com toda a perfeição e toda a utilidade que têm hoj e;
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sabem os m esm o em m uitos casos, que não tem sido assim . O poder de seleção, de acum ulação, que possui o hom em , é a chave deste problem a; a natureza fornece as variações sucessivas, o hom em as acum ula em certas direções que lhe são úteis. Neste sentido, pode dizer-se que o hom em criou em seu proveito raças úteis.
O grande valor deste princípio de seleção não é hipotético. É certo que m uitos dos nossos m ais em inentes criadores têm , durante a sim ples idade de um hom em , m odificado consideravelm ente os seus gados e seus rebanhos. Para bem com preender os resultados que têm obtido, é indispensável ler algum as das num erosas obras que têm consagrado a este assunto e ver os próprios anim ais. Os criadores consideram ordinariam ente o organism o de um anim al com o um elem ento plástico, que podem m odificar a seu bel-prazer. Se não tivesse falta de espaço, poderia citar, a este respeito, num erosos exem plos com pilados de autoridades altam ente com petentes. Youatt, que, m ais que qualquer outro, conhecia os trabalhos dos agricultores, e que por si m esm o era um excelente j uiz em questões de anim ais, adm ite que o princípio da seleção « perm ite ao agricultor, não som ente m odificar o caráter do seu rebanho, m as transform á-lo inteiram ente. É a vara m ágica por m eio da qual pode apresentar as form as e os m odelos que lhe agradarem » . Lorde Som erville diz, a propósito do que os criadores têm feito para o carneiro: « Parece que traçaram o esboço de um a form a perfeita, e depois lhe deram existência» . Em Saxe, com preende-se tão bem a im portância do princípio da seleção, relativam ente aos carneiros m erinos, que se tem feito um a profissão; colocase o carneiro sobre um a m esa e um conhecedor o estuda com o faria a um quadro; repete-se este exam e três vezes por ano, e cada vez se m arcam e se classificam os carneiros de m aneira a escolher os m ais perfeitos para a reprodução. O preço considerável atribuído aos anim ais de que a genealogia é irrepreensível prova os resultados que os criadores ingleses têm j á atingido; os seus produtos são expedidos para quase todas as partes do m undo. Não seria necessário crer que estas m elhoras fossem ordinariam ente devidas ao cruzam ento de diferentes raças; os m elhores criadores condenam esta prática em absoluto, e em pregam -na som ente para as sub-raças estreitam ente relacionadas. Quando um
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cruzam ento deste gênero se faz, um a seleção rigorosa se torna ainda m uito m ais indispensável que nos casos ordinários. Se a seleção consistisse sim plesm ente em isolar algum as variedades distintas e fazê-las reproduzir-se, este princípio seria tão óbvio, que a custo teríam os de nos ocupar dele; m as a grande im portância da seleção consiste nos efeitos consideráveis produzidos pela acum ulação num a m esm a direção, durante gerações sucessivas, de diferenças absolutam ente inapreciáveis a olhos inexperientes, diferenças que, quanto a m im , em vão tenho tentado apreciar. Nem um hom em entre m il tem agudeza de vista e a segurança de critério necessários para tornar-se um hábil criador. Um hom em dotado destas qualidades, que se consagra longos anos ao estudo deste assunto, desde que a ele dedica a existência inteira, aplicando-lhe toda a sua energia e um a perseverança indom ável, terá bons resultados sem dúvida e poderá realizar im ensos progressos; m as a falta de um a só destas qualidades determ inará forçosam ente o m au resultado. Poucas pessoas im aginam quantas capacidades naturais são precisas, e quantos anos de prática para se chegar a ser um bom criador de pom bos. Os horticultores seguem os m esm os princípios; m as aqui as variações são m uitas vezes repentinas. Ninguém supõe que as nossas m ais belas plantas são o resultado de um a única variação da fonte original. Sabem os que tem sido de outra m aneira em m uitos casos a respeito dos quais possuím os conhecim entos exatos. Assim , pode citar-se com o exem plo o aum ento sem pre crescente da groselha com um . Se com pararm os as flores atuais com os desenhos feitos há som ente vinte ou trinta anos, notam -se os m elhoram entos na m aior parte dos produtos do floricultor. Quando um a raça de plantas j á está am plam ente difundida, os horticultores não se dão m ais ao trabalho de escolher as m elhores plantas; contentam -se em visitar as plantas lim ites para apartar aquelas que voltaram ao tipo ordinário. Pratica-se tam bém esta espécie de seleção com os anim ais, porque ninguém é bastante negligente para perm itir que os indivíduos defeituosos de um rebanho se reproduzam . Há ainda um outro m eio de observar os efeitos acum ulados da seleção nas plantas; basta, com efeito, com parar, num canteiro, a diversidade das flores nas diferentes variedades de um a m esm a espécie; num a horta, a diversidade de fo- 44
lhas, de vagens, de tubérculos, ou em geral da parte procurada das plantas hortícolas, relativam ente às flores das m esm as variedades; e, enfim , num pom ar, a diversidade de frutos de um a m esm a espécie, com parativam ente às folhas e às flores dessas m esm as árvores. Notai quanto diferem as folhas da Couve, e quanta sem elhança na flor; quanto, ao contrário, são diferentes as flores do Am or-perfeito, e com o as folhas são uniform es; com o os frutos das diversas espécies de Groselheira diferem pelo tam anho, pela cor, pela form a e grau de vilosidade, e que pouca diferença nas flores. São apenas as variedades que diferem m uito num ponto, não diferindo de resto em todos os outros, porque posso afirm ar, após longas e cuidadosas observações, que isto j am ais se dá ou quase nunca. A lei da correlação do crescim ento, de que não se deve esquecer a im portância, arrasta quase sem pre algum as diferenças; m as, em regra geral, não se pode duvidar que a seleção contínua de ligeiras variações, quer nas folhas, quer nas flores, quer nos frutos, não produza raças diferentes um as das outras, m ais particularm ente num dos órgãos.
Poder-se-ia obj etar que o princípio da seleção tem sido reduzido à prática apenas há cerca de três quartos de século. Sem dúvida que este assunto, recentem ente, tem m erecido m ais interesse e se têm publicado num erosas obras a seu respeito; tam bém os resultados têm sido, com o era de esperar, rápidos e im portantes; m as não é perm itido dizer-se que este princípio sej a um a descoberta m oderna. Eu poderia citar m uitas obras de um a rem ota antiguidade provando que, desde então, se reconhecia a im portância deste princípio. Tem os a prova de que, m esm o durante os períodos bárbaros pelos quais tem passado a Inglaterra, se im portavam m uitas vezes anim ais de raça, e as leis proibiam a exportação; ordenava-se a destruição dos cavalos que não atingiam um a certa altura; o que se pode com parar ao trabalho que fazem os horticultores quando elim inam , entre os produtos das suas sem entes, todas as plantas que tendam a desviar-se do tipo regular. Um a antiga enciclopédia chinesa form ula nitidam ente os princípios da seleção; certos autores clássicos rom anos indicam algum as regras precisas; resulta de certas passagens do Gênese que, desde esse antigo período, se prestava j á
algum a atenção à cor dos anim ais dom ésticos. Ainda hoj e os selvagens cruzam
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algum as vezes os seus cães com as espécies caninas selvagens para m elhorar a raça; Plínio confirm a que o m esm o se fazia outrora. Os selvagens da África Meridional aparelham as suas j untas de bois pela cor; os Esquim ós usam da m esm a form a para as m atilhas de cães. Livingstone constata que os negros do interior da África, que não têm relação algum a com os Europeus, avaliam em alto preço as boas raças dom ésticas. Sem dúvida, alguns destes fatos não testem unham seleção direta; m as provam que, desde a antiguidade, a cultura dos anim ais dom ésticos era obj eto de cuidados m uito particulares, e que os selvagens fazem hoj e o m esm o. Seria estranho, além disso, que a hereditariedade das boas qualidades e dos defeitos sendo tão evidente, a escolha tivesse constantem ente atraído a atenção do hom em .
SELEÇÃO INCONSCIENTE
Os bons criadores m odernos, que prosseguem num fim determ inado, procuram , por um a seleção m etódica, criar novas castas ou sub-raças superiores a todas aquelas que existem no país. Mas há um a outra m aneira de seleção m uito m ais im portante do ponto de vista que nos ocupa, seleção que poderia cham ar-se inconsciente; tem por m óbil o desej o que cada um experim enta em possuir e fazer produzir os m elhores indivíduos de cada espécie. Assim , quem quer possuir cães de caça procura naturalm ente obter os m elhores cães que pode; em seguida, faz reproduzir os m esm os unicam ente, sem ter o desej o de m odificar a raça de um a m aneira perm anente e sem m esm o nisso pensar. Todavia, este hábito, continuado durante séculos, acaba por m odificar e por m elhorar um a raça qualquer que sej a; é além disso seguindo este processo, m as de um a m aneira m ais m etódica, que Bakewell, Collins, etc., chegaram a m odificar consideravelm ente, durante o decurso da sua vida, as form as e as qualidades dos seus gados. Alterações desta natureza, isto é, lentas e insensíveis, som ente podem ser apreciadas tanto com o as antigas m edidas exatas ou desenhos feitos com cuidado podem servir de ponto de com paração. Em alguns casos, contudo, encontra-se nas regiões m enos civilizadas, onde a raça é m enos m elhorada, indivíduos da m esm a raça pouco m odifica- 46 dos, outros m esm o que não sofreram m odificação algum a. Há lugar para acreditar que o podengo King Charles foi bastante m odificado de m aneira inconsciente, desde a época em que reinava o rei de que ele tira o nom e. Algum as autoridades m uito com petentes estão convencidas que o cão perdigueiro descende diretam ente do podengo, e que as m odificações se produziram m uito devagar. Sabe-se que o cão de caça inglês foi consideravelm ente m odificado durante o últim o século; atribui-se, com o causa principal a estas m udanças, o cruzam ento com o galgo. Mas o que nos im porta, é que a alteração foi efetuada inconscientem ente, gradualm ente, e contudo com tanta eficácia que, posto que o nosso velho cão de caça espanhol venha com certeza de Espanha, M. Borrow disse-m e não ter visto neste últim o país um único cão indígena sem elhante ao nosso cão de caça atual. O m esm o processo de seleção, j untam ente com cuidados particulares, transform ou o cavalo de corrida inglês e levou-o a ultrapassar em velocidade e talhe os cavalos árabes de que descende, se bem que estes últim os, seguindo os regulam entos das corridas de Goodwod, tenham um peso m enor. Lorde Spencer e outros dem onstraram que o boi inglês aum entou em peso e em precocidade, com parativam ente ao antigo boi. Se, com auxílio dos dados que nos fornecem os velhos tratados, com pararm os o estado antigo e o atual estado dos Pom boscorreios e dos Cam balhotas na Grã-Bretanha, na Índia e na Pérsia, podem os ainda determ inar as bases por que têm passado sucessivam ente as diferentes raças de pom bos, e com o vieram a diferir tão prodigiosam ente do Torcaz. Youatt cita um excelente exem plo dos efeitos obtidos por m eio da seleção contínua que pode considerar-se com o inconsciente, pela razão de que não podem os criadores prever nem desej ar o resultado que tenha sido a conseqüência, isto é, a criação de dois ram os distintos de um a m esm a raça. M. Buckley e M. Burgess possuem dois rebanhos de carneiros de Leicester, que « descendem em linha reta, depois de m ais de cinqüenta anos, diz M. Youatt, de um a m esm a origem que possuía M. Bakewell. Quem entenda um pouco de criação não pode supor que o proprietário de um ou de outro rebanho tivesse j am ais m isturado o puro sangue da raça Bakewell, e, contudo, a diferença que existe atualm ente entre estes dois rebanhos é tão grande, que parecem com postos de duas variedades
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com pletam ente distintas» .
Se existem povos bastante selvagens para j am ais pensarem em ocupar-se da hereditariedade dos caracteres entre os descendentes dos seus anim ais dom ésticos, pode suceder todavia que um anim al, que lhes é particularm ente útil, sej a m ais preciosam ente conservado durante um a fom e, ou durante outros acidentes a que estão suj eitos os selvagens, e que, por isso, este anim al de escolha deixe m ais descendentes que os seus congêneres inferiores. Neste caso, resulta um a seleção inconsciente. Os selvagens da Terra do Fogo ligam tão grande valor aos seus anim ais dom ésticos, que preferem , em tem po de fom e, m atar e devorar as velhas m ulheres da tribo, pois as consideram m uito m enos úteis que os cães. Os m esm os processos de aperfeiçoam ento conduzem a resultados análogos nas plantas, em virtude da conservação acidental dos m ais belos indivíduos, quer sej am ou não bastante distintos para que se possam classificar, quando aparecem , com o variedades distintas, quer sej am ou não o resultado de cruzam ento entre duas ou m ais espécies ou raças. O aum ento do porte e da beleza das variedades atuais do Am or-perfeito, da Rosa, do Delargonium , da Dália e de outras plantas, com paradas com a fonte prim itiva ou m esm o com as antigas variedades, indica claram ente estes aperfeiçoam entos. Ninguém poderia chegar a obter um Am or-perfeito ou um a Dália de prim eira escolha sem eando grãos de um a planta selvagem . Ninguém poderia esperar produzir um a pêra sum arenta de prim eira ordem sem eando a pevide da pêra selvagem ; talvez pudesse obter-se este resultado se se em pregasse um a pobre sem ente crescendo no estado selvagem , m as provindo de um a árvore outrora cultivada. Posto que a pêra fosse m uito cultivada nos tem pos clássicos, era, segundo o testem unho de Plínio, apenas um fruto de qualidade m uito inferior. Pode ver-se, nas obras de horticultura, a surpresa que sentiram os autores vendo os resultados adm iráveis obtidos por j ardineiros, que apenas tinham ingratos m ateriais ao seu alcance; todavia, o processo é m uito sim ples, e tem sido aplicado quase de m aneira inconsciente para chegar ao resultado final. Este processo consiste em cultivar sem pre as m elhores variedades conhecidas, em sem ear os grãos e, quando um a variedade um pouco m elhor chegue a produzir-se, cultivá-la de preferência a qualquer outra. Os horticultores da época greco-latina, que cultivavam as
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época greco-latina, que cultivavam as m elhores peras que então se podiam procurar, não poderiam im aginar quão deliciosos frutos nós com eríam os agora; sej a com o for, devem os, sem dúvida algum a, estes excelentes frutos a que têm sido naturalm ente escolhidas e conservadas as m elhores variedades conhecidas. Estas consideráveis m odificações efetuadas lentam ente e acum uladas de m aneira inconsciente explicam , j ulgo eu, o fato bem conhecido de, num grande núm ero de casos, nos ser im possível distinguir e, por conseguinte, reconhecer as origens selvagens das plantas e das flores que, desde um a época afastada, têm sido cultivadas nos nossos j ardins e pom ares. Se foram necessárias centenas ou m esm o m ilhares de anos para m odificar a m aior parte das nossas plantas e para as aperfeiçoar de m aneira que se tornassem tão úteis ao hom em , é fácil com preender com o nem a Austrália, nem o Cabo da Boa Esperança, nem qualquer outro país habitado pelo hom em selvagem nos tenha fornecido qualquer planta digna de ser cultivada. Estes países tão ricos em espécies devem possuir, sem dúvida algum a, os tipos de m uitas plantas úteis; m as estas plantas indígenas não têm sido m elhoradas por um a seleção contínua, e não têm sido trazidas, por isso, ao estado de aperfeiçoam ento com parável ao que têm atingido as plantas cultivadas nos países m ais rem otam ente civilizados.
Quanto aos anim ais dom ésticos dos povos selvagens, é conveniente não esquecer que têm quase sem pre, pelo m enos durante algum as estações, de procurar por si m esm o os alim entos. Ora, em dois países m uito diferentes com relação às condições de vida, indivíduos pertencendo a um a m esm a espécie, tendo, porém , um a constituição ou um a conform ação ligeiram ente diferentes, podem m uitas vezes aclim atar-se m elhor num país que noutro; resulta que, por processo de seleção natural que m ais adiante exporem os m inuciosam ente, podem form ar-se duas sub-raças. É talvez aí, com o o têm feito notar m uitos autores, que é conveniente procurar a explicação do fato de, entre os selvagens, os anim ais dom ésticos terem m uitos m ais caracteres de espécies do que os anim ais dom ésticos dos países civilizados. Se se ponderar bem o papel im portante que tem desem penhado o poder seletivo do hom em , explicar-se-á facilm ente com o as nossas raças dom ésticas,
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quer pela sua conform ação, quer pelos seus hábitos, são tão com pletam ente adaptados às nossas necessidades e caprichos. Encontram os, além disso, a explicação do caráter tão freqüentem ente anorm al das nossas raças dom ésticas e do fato de as suas diferenças serem tão grandes, posto que as diferenças sofridas pelo organism o sej am relativam ente tão pequenas. O hom em não pode escolher senão os desvios de conform ação que afetam o exterior; quanto aos desvios internos, só poderia escolhê-los com a m aior dificuldade, e pode m esm o acrescentar-se que pouco se incom oda com isso. Além disso, apenas pode exercer o seu poder seletivo sobre variações que a natureza lhe forneceu de princípio. Ninguém , por exem plo, teria j am ais ensaiado produzir um pom bo-pavão, antes de ter visto um pom bo cuj a cauda oferecia um desenvolvim ento um tanto inusitado; ninguém teria procurado produzir um pom bo Papudo, antes de ter notado um a dilatação excepcional do papo em um a destas aves; ora, quanto m ais um desvio acidental apresenta um caráter anorm al ou bizarro, tanto m ais atrai a atenção do hom em . Mas acabam os de em pregar a expressão: ensaiar produzir um pom bopavão; é isto, não há dúvida, na m aior parte dos casos, um a expressão absolutam ente inexata. O prim eiro hom em que escolheu, para o fazer reproduzir, um pom bo cuj a cauda era um pouco m ais desenvolvida que a dos seus congêneres, nunca im aginou no que se tornariam os descendentes deste pom bo em seguida a um a seleção longam ente continuada, quer inconsciente, quer m etódica. Talvez o pom bo, origem de todos os pom bos-pavões, tivesse só catorze penas caudais um pouco abertas em form a de leque, com o o atual pom bo-pavão de Java, ou com o alguns indivíduos de outras raças distintas entre os quais se contam até dezessete penas caudais. Talvez o prim eiro pom bo Papudo não inchasse m ais o papo do que o atual Turbit quando dilata a parte superior do esôfago, hábito a que nenhum dos criadores presta atenção, porque não é um dos caracteres desta raça. Não seria preciso crer, contudo, que para prender a atenção do criador, o desvio de estrutura deve ser m uito pronunciado.
O criador, ao contrário, nota as m enores diferenças, porque é próprio de cada hom em prender-se com qualquer novidade por insignificante que sej a. Não poderia j ulgar-se da im portância que se atribuía outrora a algum as diferenças en- 50
tre indivíduos da m esm a espécie, pela im portância que hoj e se lhe atribui quando as diversas raças estão bem estabelecidas. Sabe-se que pequenas variações se apresentam ainda acidentalm ente entre os pom bos, m as têm -se considerado com o defeitos ou desvios do tipo de perfeição adm itido para cada raça. O Pato com um não tem fornecido variedades bem acentuadas; todavia, têm -se ultim am ente exposto com o espécies distintas, nas exposições ornitológicas, a raça de Tolosa e a raça com um , que só diferem pela cor, isto é, pelo m ais fugaz de todos os caracteres. Estas diferentes razões explicam porque nada sabem os, ou quase nada, sobre a origem ou sobre a história das nossas raças dom ésticas. Mas, com efeito, pode sustentar-se que um a raça, ou um dialeto, tenha um a origem distinta? Um hom em conserva e faz reproduzir um indivíduo que apresenta qualquer leve desvio de conform ação; ou então dispensa m ais cuidados do que faria de ordinário para aparelhar os seus m ais belos exem plares; fazendo isto, aperfeiçoa-os, e estes anim ais aperfeiçoados espalham -se lentam ente na vizinhança. Não têm ainda um nom e particular; pouco apreciados, a sua história é desprezada. Mas, se continua a seguir este processo lento e gradual, e que, por conseqüência, estes anim ais se aperfeiçoam cada vez m ais, espalham -se extensam ente, e term ina-se por os reconhecer com o raça distinta tendo algum valor; recebem então um nom e, provavelm ente um nom e de província. Nos países m eio civilizados, onde as com unicações são difíceis, um a nova raça só se espalha m uito lentam ente. Os principais caracteres da nova raça sendo reconhecidos e apreciados pelo seu j usto valor, o princípio da seleção inconsciente, com o o tenho cham ado, terá sem pre por efeito aum entar os traços característicos da raça, quaisquer que possam ser além disso - sem dúvida num a época m ais particular que outra, segundo a nova raça é ou não da m oda - m ais particularm ente tam bém num país que noutro, segundo os habitantes são m ais ou m enos civilizados. Mas, em todo o caso, é m uito pouco provável que se conserve a história de m udanças tão lentas e tão insensíveis.
CIRCUNSTÂNCIAS FAVORÁVEIS A SELEÇÃO OPERADA PELO HOMEM
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Convém agora indicar, ainda que resum idam ente, as circunstâncias que facilitam ou contrariam o exercício da seleção feita pelo hom em . Um a grande faculdade de variabilidade é evidentem ente favorável, porque fornece todos os m ateriais sobre que repousa a seleção; todavia, sim ples diferenças individuais são m ais que suficientes para perm itir, j untando-lhe ainda m uitos cuidados, a acum ulação de um a grande som a de m odificações em quase todos os sentidos. Contudo, com o variações m anifestam ente úteis ou agradáveis ao hom em se produzem apenas acidentalm ente, tem -se tanto m ais desej o em produzi-las quanto m aior é o núm ero de indivíduos que se tratam . O núm ero é, pois, um dos grandes elem entos de sucesso. É partindo deste princípio que Marshall fez notar outrora, falando dos carneiros de certas partes de Yorkshire: « Estes anim ais, pertencendo a gente pobre e estando, por isso, divididos em pequenos rebanhos, há pouca probabilidade de j am ais m elhorarem » . Por outra parte, os horticultores, que cultivam quantidades consideráveis da m esm a planta, acertam ordinariam ente m elhor que os am adores em produzir novas variedades. Para que um grande núm ero de indivíduos de um a espécie qualquer exista num m esm o país, é útil que a espécie encontre aí
condições de existência favoráveis à sua reprodução. Quando os indivíduos são em pequeno núm ero, perm ite-se a todos reproduzir-se, sej am quais forem de m ais as suas qualidades, o que im pede a ação selecionante de se m anifestar. Mas o ponto m ais im portante de todos, é, sem contradição, que o anim al ou a planta sej a bastante útil ao hom em , ou tenha bastante valor a seus olhos, para que prenda a m ais escrupulosa atenção aos m enores desvios que podem produzir-se nas qualidades ou na conform ação desse anim al ou dessa planta. Nada é possível sem estas precauções. Tenho ouvido fazer a sério a observação de que o m orangueiro com eçou a variar precisam ente quando os j ardineiros prestaram atenção a esta planta. Ora, não há dúvida que o m orangueiro devia variar desde quando se cultiva, som ente foram desprezadas estas pequenas variações. Desde, porém , que os j ardineiros com eçaram a escolher as plantas que davam o m aior fruto, o m ais perfum ado e m ais precoce, a sem ear os seus grãos, a estrum ar as plantas para fazer reproduzir as m elhores, e assim seguidam ente, chegaram a obter, aj udados com
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os cruzam entos com outras espécies, essas num erosas e adm iráveis variedades de m orangos que têm aparecido nestes trinta ou quarenta últim os anos. Im porta, para a form ação de novas raças de anim ais, im pedir tanto quanto possível os cruzam entos, pelo m enos num país que encerra j á outras raças. A este respeito, os cerrados gozam de um grande papel. Os selvagens nôm ades, ou os habitantes das planícies, possuem raram ente m ais de um a raça da m esm a espécie. O pom bo acasala-se para a vida; o que é um a grande com odidade para o criador, que pode assim aperfeiçoar e fazer reproduzir fielm ente m uitas raças, contanto que habitem o m esm o pom bal; esta circunstância deve, além disso, ter favorecido singularm ente a form ação de novas raças. Há um ponto que é bom frisar: os pom bos m ultiplicam -se m uito e m uito depressa, e podem sacrificar-se todos os filhotes defeituosos, porque servem para a alim entação. Os gatos, ao contrário, devido aos seus hábitos noturnos e vagabundos, não podem ser facilm ente acasalados, e, posto que tenham um grande valor aos olhos das m ulheres e das crianças, vem os raram ente um a raça distinta perpetuar-se entre si; as que se encontram , são, com efeito, quase sem pre im portadas de outro país. Alguns anim ais dom ésticos variam m enos que outros, sem dúvida; pode-se, contudo, j ulgo eu, atribuir este fato a que a seleção lhes não tem sido aplicada, e à raridade ou ausência de raças distintas no gato, no burro, no pavão, no pato, etc.; nos gatos, porque é m uito difícil acasalá-los; nos burros, porque estes anim ais se encontram ordinariam ente apenas na gente pobre, que se ocupa pouco em vigiar a sua reprodução, e a prova é que, m uito recentem ente, se chegou a m odificar e a m elhorar singularm ente este anim al por um a seleção cuidadosa em certas partes de Espanha e dos Estados Unidos; nos pavões, porque este anim al é difícil de criar e não se conserva em grande quantidade; nos patos, porque esta ave tem som ente valor pela carne e pelas penas, e sobretudo, talvez, porque ninguém tem desej ado j am ais m ultiplicar as raças. É j usto acrescentar que o Pato dom éstico parece ter um organism o singularm ente inflexível, posto haj a variado um pouco, com o j á acim a dem onstrei. Alguns autores têm afirm ado que o lim ite da variação nos nossos anim ais dom ésticos é cedo atingido e que não poderia ser ultrapassado. Seria talvez tem e- 53
rário afirm ar que o lim ite foi atingido num caso qualquer, porque quase todos os nossos anim ais e quase todas as nossas plantas foram m uito m elhoradas de qualquer m aneira num período recente; ora, estes aperfeiçoam entos im plicam variações. Seria igualm ente tem erário afirm ar que os caracteres, levados hoj e até ao seu extrem o lim ite, não poderão, depois de estar fixos durante séculos, variar de novo em novas condições de existência. Claro está que, com o o fez notar M. Wallace com m uita razão, se term inará por atingir um lim ite. Há, por exem plo, um lim ite na velocidade de um anim al terrestre, porque este lim ite é determ inado pela resistência a vencer, pelo peso do corpo e pelo poder de contração das fibras m usculares. Mas o que nos interessa, é que as variedades dom ésticas das m esm as espécies diferem um as das outras, em quase todos os caracteres de que o hom em se tem ocupado e de que faz obj eto de seleção, m uito m ais do que fazem as espécies distintas dos m esm os gêneros. Isidore Geoffroy de Saint-Hilaire dem onstrou-o relativam ente ao talhe; e da m esm a form a para a cor, e provavelm ente para o com prim ento do pêlo. Quanto à velocidade, que depende de tantos caracteres físicos, Eclipse era m uito m ais rápido, e um cavalo de carro é incom paravelm ente m ais forte que qualquer outro indivíduo pertencendo ao m esm o gênero. Da m esm a form a para as plantas, os grãos das diferentes qualidades de favas ou de m ilho diferem provavelm ente m ais, com relação ao tam anho, do que os grãos de espécies distintas de um gênero qualquer pertencendo às m esm as duas fam ílias. Esta nota aplica-se aos frutos das diferentes variedades de am eixeiras, m ais ainda aos m elões e a um grande núm ero de outros casos análogos. Resum am os em algum as palavras o que há de relativo à origem das nossas raças de anim ais dom ésticos e das nossas plantas cultivadas. As alterações nas condições de existência têm a m ais alta im portância com o causa de variabilidade, e porque estas condições atuam diretam ente sobre o organism o, e porque atuando indiretam ente afetam o sistem a reprodutor. Não é provável que a variabilidade sej a, em todas as circunstâncias, um a resultante inerente e necessária destas alterações. A força m aior ou m enor da hereditariedade e a da tendência à regressão determ inam ou não a constância das variações. Muitas leis desconhecidas, de que a correlação de crescim ento é provavelm ente a m ais im portante, re- 54
gulam a variabilidade. Pode atribuir-se um a certa influência à ação definida das condições de vida, m as não sabem os em que proporções esta influência se exerce. Pode considerar-se com o causa, m esm o até com o causa considerável, o aum ento do uso ou não uso das partes. O resultado final, se se consideram todas estas influências, torna-se infinitam ente com plexo. Em alguns casos, o cruzam ento de espécies prim itivas distintas parece ter desem penhado um papel m uito im portante do ponto de vista da origem das nossas raças. Desde que m uitas raças foram form adas em qualquer região, o seu cruzam ento acidental, com auxílio da seleção, tem sem dúvida contribuído poderosam ente para a form ação de novas variedades. Tem -se, todavia, exagerado consideravelm ente a im portância dos cruzam entos, tanto relativam ente aos anim ais, com o às plantas que se m ultiplicam por sem entes. A im portância do cruzam ento é im ensa, ao contrário para as plantas que se m ultiplicam tem porariam ente por estacas, por garfos etc., porque o cultivador pode, neste caso, desprezar a extrem a variabilidade das híbridas e das m estiÇas e a esterilidade das híbridas; m as as plantas que se não m ultiplicam por sem entes têm para nós pouca im portância, a sua duração é apenas tem porária. A ação acum uladora da seleção, quando sej a m etódica e rapidam ente aplicada, ou o sej a inconscientem ente, lentam ente, m as da form a m ais eficaz, parece ter sido a m aior potência que tem presidido a todas estas causas de alteração.
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CAPITULO II
Variação no estado selvagem
-Variabilidade.
-Diferenças individuais.
-Espécies duvidosas.
-As espécies tendo um habitat muito extenso, as espécies muito espalhadas e as espécies comuns são as que mais variam.
-Em cada país, as espécies pertencendo aos gêneros que contêm mais espécies variam mais freqüentemente que aquelas que pertencem aos gêneros que côn têm poucas espécies.
-Muitas espécies pertencendo aos gêneros que contêm um grande número de es-pécies assemelham-se às variedades, pois que estão aliadas muito de perto, mas desigualmente, entre si e porque têm um habitat restrito.
VARIABILIDADE
Antes de aplicar aos seres organizados vivendo no estado selvagem os princípios que expusem os no capítulo precedente, im porta exam inar rapidam ente se estes últim os estão suj eitos a variações. Para tratar este assunto com a atenção que m erece, seria necessário apresentar um longo e árido catálogo de fatos; reservo-os, porém , para um a obra próxim a. Nem tam pouco discutirei aqui as diferentes definições dadas do term o espécie. Nenhum a destas definições tem satisfeito com pletam ente todos os naturalistas, e, contudo, cada um deles sabe vagam ente o que quer dizer quando fala de um a espécie. Ordinariam ente o term o espécie im plica o elem ento desconhecido de um ato criador distinto. É igualm ente difícil definir o term o variedade; todavia, este term o im plica quase sem pre um a com unidade de descendência, posto que possam raram ente fornecer-se provas. Tem os, igualm ente, o que se designa sob o nom e de m onstruosidades; porém estas confundem -se com as variedades. Quando se em prega o term o m onstruosidade, quer-se exprim ir, penso eu, um desvio considerável de conform ação, ordinariam ente nocivo ou pelo m enos pouco útil à espécie. Alguns autores em pregam o term o variação, no sentido técnico, isto é, com o fazendo supor um a m odificação que deriva diretam ente das condições físicas da vida; ora neste sentido as variações não são susceptíveis de ser transm itidas por hereditariedade.
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ções não são susceptíveis de ser transm itidas por hereditariedade. Quem poderia sustentar, contudo, que a dim inuição do talhe das conchas das águas salobras do Báltico, ou a das plantas nos píncaros dos Alpes, ou o espes-sam ento da pele de um anim al ártico não são hereditários durante algum as gerações pelo m enos?
Neste caso estas form as, suponho eu, cham ar-se-iam variedades. Pode duvidar-se que os desvios de estrutura tão rápidos e tão consideráveis com o os que observam os algum as vezes nas nossas produções dom ésticas, principalm ente nas plantas, se propagam de m aneira perm anente no estado selvagem . Quase todas as partes de cada ser organizado são tão adm iravelm ente dispostas, relativam ente às condições com plexas da existência deste ser, que parece im provável que cada um a destas partes tenha atingido logo de pronto a perfeição, com o pareceria im provável que um a m áquina m uito com plicada tenha sido inventada pelo hom em logo no estado perfeito. Nos anim ais reduzidos à dom esticidade, produzem -se algum as vezes m onstruosidades que se assem elham às conform ações norm ais em anim ais m uito diferentes. Tam bém os porcos nascem algum as vezes com um a espécie de trom ba; ora se um a espécie selvagem do m esm o gênero possuísse naturalm ente um a trom ba, poderia sustentar-se que este apêndice apareceu sob a form a de m onstruosidade. Mas, até ao presente, apesar de estudos escrupulosos, não pude encontrar caso algum de m onstruosidade sem elhando-se às estruturas norm ais nas form as quase vizinhas, e são essas som ente que teriam im portância no caso que nos ocupa. Adm itindo que m onstruosidades sem elhantes aparecem por vezes no anim al no estado selvagem e que são susceptíveis de transm issão por hereditariedade-o que não é sem pre o caso-a sua conservação dependeria de circunstâncias extraordinariam ente favoráveis, porque elas se produzem raram ente e isoladam ente. Além disso, durante a prim eira geração e gerações seguintes, os indivíduos afetados destas m onstruosidades deveriam cruzar-se com os indivíduos ordinários, e, por conseqüência, o seu caráter anorm al desapareceria quase inevitavelm ente. Mas eu voltarei, num capítulo subseqüente, à conservação e perpetuação das variações isoladas ou acidentais.