A Origem das Espécies
6 De la Variation des Animaux et…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
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prende; na estrutura do escaravelho que m ergulha na água; no grão com pêlos que a m ais leve brisa transporta; num a palavra, podem os notar adm iráveis adaptações por toda a parte e em todas as partes do m undo organizado. Pode ainda perguntar-se com o é que as variedades, que eu cham o espécies nascentes, acabaram por se converter em espécies verdadeiras e distintas, as quais, na m aior parte dos casos, diferem evidentem ente m uito m ais um as das outras que as variedades de um a m esm a espécie; com o se form am estes grupos de espécies, que constituem o que se cham am gêneros distintos, e que diferem m ais uns dos outros que as espécies do m esm o gênero? Todos estes efeitos, com o explicarem os de m aneira m ais m inuciosa no capítulo seguinte, dim anam de um a causa: a luta pela existência. Devido a esta luta, as variações, por m ais fracas que sej am e sej a qual for a causa de onde provenham , tendem a preservar os indivíduos de um a espécie e transm item -se ordinariam ente à descendência logo que sej am úteis a esses indivíduos nas suas relações infinitam ente com plexas com os outros seres organizados e com as condições físicas da vida. Os descendentes terão, por si m esm o, em virtude deste fato, m aior probabilidade em persistir; porque, dos indivíduos de um a espécie nascidos periodicam ente, um pequeno núm ero pode sobreviver. Dei a este princípio, em virtude do qual um a variação, por insignificante que sej a, se conserva e se perpetua, se for útil, o nom e de seleção natural, para indicar as relações desta seleção com a que o hom em pode operar. Mas a expressão que M. Herbert Spencer em prega: « a persistência do m ais apto» , é m ais exata e algum as vezes m ais côm oda. Vim os que, devido à seleção, o hom em pode certam ente obter grandes resultados e adaptar os seres organizados às suas necessidades, acum ulando as ligeiras m as úteis variações que lhe são fornecidas pela natureza. Mas a seleção natural, com o verem os m ais adiante, é um poder sem pre pronto a atuar; poder tão superior aos fracos esforços do hom em com o as obras da natureza são superiores às da arte. Discutam os agora, um pouco m ais m inuciosam ente, a luta pela existência. Tratarei este assunto com os desenvolvim entos que m erece num a obra futura. De Candolle, o velho, e Ly ell dem onstraram , com a sua habitual perspicácia, que todos os seres organizados têm que sustentar um a terrível concorrência. Ninguém
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tratou este assunto, relativam ente às plantas, com m ais elevação e talento que M. W. Herbert, deão de Manchester; o seu profundo conhecim ento de botânico punha-o em condições de o fazer com toda a autoridade. Nada m ais fácil que adm itir a verdade deste princípio: a luta universal pela existência; nada m ais difícil - e falo por experiência - do que ter este princípio sem pre presente ao espírito; pois não sendo assim ou se vê m al toda a econom ia da natureza, ou se erra com respeito ao sentido que convém atribuir a todos os fatos relativos à distribuição, à raridade, à abundância, à extinção e às variações dos seres organizados. Contem plam os a natureza exuberante de beleza e de prosperidade, e notam os m uitas vezes um a superabundância de alim entação; m as não vem os, ou esquecem os, que as aves, que cantam em poleiradas descuidadam ente num ram o, se nutrem principalm ente de insetos ou de grãos, e que, fazendo isto, destroem continuam ente seres vivos; esquecem os que as aves carnívoras e os anim ais de presa estão à espreita para destruir quantidades consideráveis destes alegres cantores, devastando-lhes os ovos ou devorando-lhes os filhos; não nos lem bram os sem pre que, se há superabundância de alim entação em certas épocas, o m esm o se não dá em todas as estações do ano.
A EXPRESSÃO: LUTA PELA EXISTÊNCIA, EMPREG ADA NO SENTIDO FIG URADO
Devo fazer notar que em prego o term o luta pela existência no sentido geral e m etafórico, o que im plica as relações m útuas de dependência dos seres organizados, e, o que é m ais im portante, não som ente a vida do indivíduo, m as a sua aptidão e bom êxito em deixar descendentes. Pode certam ente afirm ar-se que dois anim ais carnívoros em tem po de fom e, lutam um com o outro em busca de alim entos necessários à sua existência. Mas chegar-se-á a dizer que um a planta, à beira de um deserto, luta pela existência contra a falta de água, posto que fosse m ais exato dizer que a sua existência depende da um idade. Poder-se-ia dizer com m ais exatidão que um a planta, que produz anualm ente um m ilhão de sem entes, das quais um a, em m édia, chega a desenvolver-se e a am adurecer por seu turno, luta com as plantas da m esm a espécie, ou espécies diferentes, que cobrem
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j á o solo. O visco depende da m acieira e de algum as outras árvores; ora, é som ente no sentido figurado que se poderá dizer que luta contra estas árvores, porque se grande núm ero de parasitas se estabelecem na m esm a árvore, esta enfraquece e m orre; m as pode dizer-se que m uitos viscos, vivendo em conj unto sobre o m esm o ram o e produzindo sem entes, lutam uns com os outros. Com o são as aves que espalham as sem entes do visco, a sua existência depende delas, e poderá
dizer-se, em sentido figurado, que o visco luta com as outras plantas que tenham frutos, porque im porta a cada planta levar os pássaros a com er os frutos que produz, para dissem inar as sem entes. Em prego, pois, para m ais com odidade, o term o geral luta pela existência, nestes diferentes sentidos que se confundem uns com os outros.
PROG RESSÃO G EOMÊTRICA DO AUMENTO DOS INDIVíDUOS
A luta pela existência resulta inevitavelm ente da rapidez com que todos os seres organizados tendem a m ultiplicar-se. Todo o indivíduo que, durante o term o natural da vida, produz m uitos ovos ou m uitas sem entes, deve ser destruído em qualquer período da sua existência, ou durante um a estação qualquer, porque, de outro m odo, dando-se o princípio do aum ento geom étrico, o núm ero dos seus descendentes tornar-se-ia tão considerável, que nenhum país os poderia alim entar. Tam bém , com o nascem m ais indivíduos que os que podem viver, deve existir, em cada caso, luta pela existência, quer com outro indivíduo da m esm a espécie, quer com indivíduos de espécies diferentes, quer com as condições físicas da vida. É a doutrina de Malthus aplicada com a m ais considerável intensidade a todo o reino anim al e vegetal, porque não há nem produção artificial de alim entação, nem restrição ao casam ento pela prudência. Posto que algum as espécies se m ultiplicam hoj e m ais ou m enos rapidam ente, não pode ser o m esm o para todas, porque a terra não as poderia com portar.
Não há exceção nenhum a à regra que se todo o ser organizado se m ultiplicasse naturalm ente com tanta rapidez, e não fosse destruído, a terra em breve seria coberta pela descendência de um só par. O próprio hom em , que se produz
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tão lentam ente, veria o seu núm ero dobrado todos os vinte e cinco anos, e, nesta proporção, em m enos de m il anos, não haveria espaço suficiente no Globo onde pudesse conservar-se de pé. Lineu calculou que, se um a planta anual produz som ente duas sem entes - e não há planta que tão pouco produza - e no ano seguinte cada um a destas sem entes desse novas plantas que produzissem outras duas sem entes, e assim seguidam ente, chegar-se-ia em vinte anos a um m ilhão de plantas.
De todos os anim ais conhecidos, o elefante, assim se j ulga, é o que se reproduz m ais lentam ente. Fiz alguns cálculos para avaliar qual seria provavelm ente o valor m ínim o do seu aum ento em núm ero. Pode, sem tem or de errar, adm itir-se que com eça a reproduzir-se na idade de trinta anos, e que continua até aos noventa; neste intervalo, produz seis filhos, e vive por si m esm o até à idade de cem anos. Ora, adm itindo estes núm eros, em setecentos e quarenta ou setecentos e cinqüenta anos, haveria dezenove m ilhões de elefantes vivos, todos descendentes do prim eiro casal.
Mas, tem os m elhor, sobre o assunto, do que os cálculos teóricos, tem os provas diretas, isto é, os num erosos casos observados da rapidez assom brosa com que se m ultiplicam certos anim ais no estado selvagem , quando as circunstâncias lhes são favoráveis durante duas ou três estações. Os nossos anim ais dom ésticos, tornados selvagens em m uitas partes do m undo, oferecem -nos um a prova m uito m arcante ainda deste fato. Se não tivéssem os dados autênticos sobre o aum ento das bestas e dos cavalos - que todavia se reproduzem tão lentam ente - na Am érica Meridional e m ais recentem ente na Austrália, não se poderia decerto acreditar nos núm eros que se indicam . Da m esm a form a para as plantas; poderiam citar-se num erosos exem plos de plantas im portadas tornadas com uns num a ilha em m enos de dez anos. Muitas plantas, tais com o o cardo e o grande cardo, que são hoj e as m ais com uns nas grandes planícies do Prata, e que cobrem espaços de m uitas léguas quadradas, com exclusão de qualquer outra planta, foram im portadas da Europa.
O Dr. Falconer diz-m e que há hoj e nas índias plantas com uns, desde o cabo Com orin ao Him alaia, que foram im portadas da Am érica, necessariam ente
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desde a descoberta desta últim a parte do m undo. Nestes casos, e em tantos outros que poderiam citar-se, ninguém supõe que a fecundidade dos anim ais e das plantas tenha de repente aum entado de um a m aneira tão sensível. As condições de vida são de todo favoráveis, e, por conseguinte, os pais vivem m uito m ais tem po, e todos ou quase todos os filhos se desenvolvem ; tal é, evidentem ente, a explicação destes fatos. A progressão geom étrica do seu aum ento, progressão cuj os resultados j am ais deixam de surpreender, explica facilm ente este aum ento tão rápido, tão extraordinário, e a sua distribuição considerável num a nova pátria. No estado selvagem , quase todas as plantas chegadas há m aturação produzem anualm ente sem entes, e, nos anim ais, poucos há que se não copulem . Podem os pois afirm ar, sem receio de engano, que todas as plantas e todos os anim ais tendem a m ultiplicar-se segundo um a progressão geom étrica; ora, esta tendência deve ser reprim ida pela destruição de indivíduos em certos períodos da vida, porque, de outra m aneira, invadiriam todos os países e não poderiam subsistir. A nossa fam iliaridade com os grandes anim ais dom ésticos tende, creio eu, a dar-nos idéias falsas; não vem os para eles caso algum de destruição geral, m as não nos lem bram os que se abatem , cada ano, m ilhares deles para a nossa alim entação, e que no estado selvagem um a outra causa deve certam ente produzir igual efeito.
A única diferença que há entre os organism os que produzem anualm ente um grande núm ero de ovos ou de sem entes e os que produzem m uito pouco, é
que seriam necessários m ais anos para estes últim os povoarem um a região colocada em condições favoráveis, por m ais extensa que fosse. O condor põe dois ovos, e o avestruz vinte, e contudo, num m esm o país, o condor pode ser a ave m ais num erosa das duas. Os albatrozes põem apenas um ovo, e contudo considera-se esta espécie de ave a m ais num erosa que há no m undo. Tal m osca deposita centenas de ovos; tal outra, com o a hipobosca, não deposita m ais que um ; m as esta diferença não determ ina quantos indivíduos das duas espécies podem encontrar-se na m esm a região. Um a grande fecundidade tem algum a im portância para as espécies cuj as existências dependem de um a quantidade de alim entação essencialm ente variável, porque ela lhes perm ite crescer rapidam ente em núm ero
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num m om ento dado. Mas a im portância real do grande núm ero de ovos ou de sem entes é com pensar um a destruição considerável num certo período da vida; ora, este período de destruição, na m aioria dos casos, apresenta-se cedo. Se o anim al tem poder para proteger de qualquer m aneira os ovos ou os filhos, um a reprodução pouco considerável basta para m anter no seu m áxim o o núm ero dos indivíduos da espécie; se, ao contrário, os ovos e os filhos são expostos a um a fácil destruição, a reprodução deve ser considerável para que a espécie se não extinga. Bastaria, para conservar no m esm o núm ero os indivíduos de um a espécie de árvore, vivendo em m édia um m ilhar de anos, que um a só sem ente fosse produzida um a vez todos os m il anos, m as com a expressa condição de tal sem ente não ser destruída, e ser colocada em lugar onde pudesse desenvolver-se. Assim , pois, e em todos os casos, a quantidade de sem entes ou de ovos produzidos tem unicam ente um a influência indireta sobre o núm ero m édio dos indivíduos de um a espécie anim al ou vegetal. É necessário, por isso, quando se contem pla a natureza, estar-se com penetrado das observações que acabam os de fazer; é necessário não esquecer que cada ser organizado se esforça sem pre por m ultiplicar-se; que cada um deles sustenta um a luta durante um certo período da sua existência; que os novos e os velhos estão inevitavelm ente expostos a um a destruição incessante, quer durante cada geração, quer em certos intervalos. Quando um desses obstáculos acaba por afrouxar, ou a destruição pára por pouco que sej a, o núm ero dos indivíduos de um a espécie sobe rapidam ente a um a conta considerável.
DA NATUREZA DOS OBSTÁCULOS À MULTIPLICAÇÃO
As causas que obstam à tendência natural à m ultiplicação de cada espécie são m uito obscuras. Considerem os um a espécie m uito vigorosa; quanto m aior é o núm ero dos indivíduos que a com põem , tanto m ais este núm ero tende a aum entar. Não poderíam os m esm o, num dado caso, determ inar exatam ente quais são os obstáculos que atuam . Isto nada deve surpreender, quando se reflita que a nossa ignorância sobre este ponto é absoluta, relativam ente m esm o à espécie hum ana,
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posto que o hom em sej a m ais bem conhecido que qualquer outro anim al. Muitos autores têm discutido este assunto com grande elevação; espero m esm o estudálo largam ente num a obra futura, principalm ente com respeito a anim ais que têm voltado ao estado selvagem na Am érica Meridional. Lim itar-m e-ei aqui a algum as notas, para recordar certos pontos principais ao espírito do leitor. Os ovos ou os anim ais m uito novos parecem ordinariam ente sofrer m ais, m as nem sem pre é assim ; nas plantas, faz-se um a grande destruição de sem entes; m as, pelas m inhas observações, parece que são as sem eadas que m ais sofrem , porque germ inam num terreno j á atravancado por outras plantas. Diferentes inim igos destroem tam bém um a grande quantidade de renovos; observei, por exem plo, alguns renovos das nossas ervas indígenas, sem eadas num canteiro tendo 3 pés de com prim ento por 2 de largo, bem cultivado e bem desem baraçado de plantas estranhas, e onde, por conseguinte, não podiam sofrer a vizinhança dessas plantas: em trezentas e cinqüenta e sete plantas, duzentas e noventa e cinco foram destruídas, principalm ente pelas lesm as e pelos insetos. Se se deixa rebentar a relva que tem sido ceifada por m uito tem po, ou, o que quer dizer o m esm o, que os quadrúpedes têm o hábito de pastar, as plantas m ais vigorosas m atam gradualm ente as que são m ais fracas, ainda que estas tenham atingido a sua plena m aturidade; assim , num pequeno tabuleiro de relva, tendo 3 pés por 7, em vinte espécies que aí rebentaram , nove m orreram , porque se deixaram crescer as outras livrem ente. A quantidade de nutrição determ ina, diga-se de passagem , o lim ite extrem o da m ultiplicação de cada espécie; m as, m ais ordinariam ente, o que determ ina o núm ero m édio dos indivíduos de um a espécie, não é a dificuldade de obter alim entos, m as a facilidade com que esses indivíduos se tornam presa de outros anim ais. Assim , parece fora de dúvida que a quantidade de perdizes, de tetras e de lebres que podem existir num grande parque, depende principalm ente do cuidado com que se destroem os seus inim igos. Se se não m atasse um a só cabeça na Inglaterra durante vinte anos, m as que ao m esm o tem po se não destruísse um só dos seus inim igos, haveria então provavelm ente m enos caça do que há hoj e, posto que se m atem centenas de m ilhares por ano. É verdade que, em m uitos casos particulares, com o se dá com o elefante por exem plo, as feras não atacam o
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anim al; na Índia, o próprio tigre só raram ente se aventura a atacar um elefante novo defendido pela m ãe.
O clim a goza de um papel im portante quanto à determ inação da m édia de um a espécie, e a volta periódica dos frios ou das secas extrem as parece ser o m ais eficaz de todos os obstáculos. Tenho calculado, baseando-m e em alguns ninhos construídos na Prim avera, que o Inverno de 1854 a 1885 destruiu os quatro quintos das aves da m inha propriedade; foi um a destruição terrível, quando se com para com os 10% que para o hom em constituem um a m ortalidade extraordinária em caso de epidem ia. À prim eira vista, parece que a ação do clim a é absolutam ente independente da luta pela existência; m as é necessário lem brar que as variações clim atéricas atuam diretam ente sobre a quantidade de nutrição, e produzem assim a m ais viva luta entre os indivíduos, quer da m esm a espécie, quer de espécies distintas, que se nutrissem do m esm o gênero de alim entos. Quando atua diretam ente, o frio extrem o, por exem plo, são os indivíduos m enos vigorosos, ou os que têm à sua disposição m enor nutrição durante o Inverno, que sofrem m ais. Quando vam os do sul para o norte, ou passam os de um a região úm ida para um a região seca, notam os sem pre que certas espécies se tornam cada vez m ais raras, e acabam por desaparecer; a alteração de clim a ferindo os nossos sentidos, dispõe-nos a atribuir este desaparecim ento à sua ação direta. Ora, isto não é exato; esquecem os que cada espécie, nos m esm os pontos onde é m ais abundante, sofre constantem ente grandes perdas em certos m om entos da sua existência, perdas que lhe infligem inim igos ou concorrentes ao m esm o habitat e para a m esm a nutrição; ora, se estes inim igos ou estes concorrentes são favorecidos, por pouco que sej a, por um a leve variação do clim a, o seu núm ero cresce consideravelm ente, e, com o cada distrito contém j á tantos habitantes quantos pode nutrir, as outras espécies devem dim inuir. Quando nos dirigim os para o sul e vem os um a espécie dim inuir em núm ero, podem os estar certos que esta dim inuição atinge tanto um a outra espécie que é favorecida com o a prim eira que sofreu um prej uízo. Dá-se o m esm o, ainda que em m enor grau, quando vam os para o norte, porque o núm ero de espécies de todas as qualidades, e, por conseqüência, dos concorrentes, dim inui nos países setentrionais. Tam bém encontram os m uitas vezes, dirigin- 84
do-nos para o norte, ou fazendo a ascensão de um a m ontanha, o que nos não sucede seguindo um a direção oposta, form as definhadas, devidas diretam ente à
ação nociva do clim a. Quando atingim os as regiões árticas, ou os píncaros cobertos de neves eternas, ou os desertos absolutos, a luta pela existência existe apenas com os elem entos. O núm ero prodigioso de plantas que, nos nossos j ardins, suportam perfeitam ente o nosso clim a, m as j am ais se aclim atam , porque não podem sustentar a concorrência com as plantas próprias do nosso país, ou resistir aos nossos anim ais indígenas, prova claram ente que o clim a atua principalm ente de um a m aneira indireta, favorecendo as outras espécies. Quando um a espécie, graças às circunstâncias favoráveis, se m ultiplica desm edidam ente num a pequena região, as epidem ias se declaram nela m uitas vezes. Ao m enos, parece que isto se dá com a nossa caça; podem os observar nisto um obstáculo independente da luta pela existência. Mas algum as destas pretendidas epidem ias parecem provir da presença de verm es parasitas que, por um a causa qualquer, talvez por causa de um a difusão m ais fácil no m eio de anim ais m uito num erosos, têm tom ado um desenvolvim ento m ais considerável; assistim os, por isso, a um a espécie de luta entre o parasita e a sua presa. Por outro lado, em m uitos casos, é necessário que um a m esm a espécie com porte um grande núm ero de indivíduos relativam ente ao núm ero dos seres inim igos, para poder perpetuar-se. Assim , cultivam os facilm ente m uito trigo, m uita couve silvestre, etc., nos nossos cam pos, porque as sem entes são em excesso considerável com parativam ente ao núm ero de aves que vêm com ê-las. Ora, as aves, se bem que tenham um a superabundância de nutrição durante este m om ento da estação, não podem aum entar proporcionalm ente a esta abundância de sem entes, porque o Inverno põe um obstáculo ao seu desenvolvim ento; m as sabese quanto é difícil recolher alguns pés de trigo ou outras plantas análogas num j ardim ; quanto a m im , tem -m e sido im possível. Esta condição da necessidade de um núm ero considerável de indivíduos para a conservação de um a espécie explica, creio eu, certos fatos singulares que nos oferece a natureza, por exem plo, plantas m uito raras que são por vezes abundantíssim as em alguns pontos onde
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existem ; e plantas verdadeiram ente sociáveis, isto é, que se agrupam em grande núm ero de extrem os lim ites do seu habitat. Podem os crer, com efeito, em sem elhantes casos, que um a planta só pode existir num único ponto, em que as condições da vida são assaz favoráveis para que m uitas possam existir sim ultaneam ente e salvar assim a espécie de um a com pleta destruição. Devo acrescentar que os bons efeitos dos cruzam entos, e os deploráveis efeitos das uniões consangüíneas, gozam tam bém de um papel im portante na m aior parte destes casos. Mas não posso desenvolver aqui este assunto.
RELAÇÕES COMPLEXAS Q UE TÊM ENTRE SI OS ANIMAIS E AS PLANTAS NA LUTA PELA EXISTÊNCIA
Muitos casos bem constatados provam quanto são com plexas e inesperadas as relações recíprocas dos seres organizados que têm que lutar no m esm o país. Contentar-m e-ei em citar aqui um único exem plo, que, ainda que m uito sim ples, m e tem interessado. Um dos m eus parentes possui, no Staffordshire, um a propriedade onde tenho tido ocasião de fazer num erosos estudos; ao lado de um a grande charneca m uito estéril, que j am ais foi cultivada, encontra-se um terreno de m uitas centenas de j eiras, tendo exatam ente a m esm a natureza, m as que foi tapado há vinte e cinco anos e plantado a pinheiros da Escócia. Estas plantas têm apresentado, na vegetação da parte fechada da charneca, alterações tão notáveis, que se j ulgava passar de um a região a outra; não som ente o núm ero proporcional das urzes ordinárias tem m udado com pletam ente, m as doze espécies de plantas (sem contar ervas e espadanas) que não existiam na quinta, prosperam na parte plantada. O efeito produzido sobre os insetos tem sido ainda m aior, porque se encontram a cada passo, nas plantações, seis espécies de aves insetívoras que j am ais se viram na charneca, a qual era apenas freqüentada por duas ou três espécies distintas de aves insetívoras. Isto prova que im ensa alteração produziu a introdução de um a só espécie de árvores, porque se não tinha feito cultura algum a nesta terra; contentaram -se em fechá-la, de m aneira que o gado não pudesse entrar. É verdade que o cerrado é tam bém um elem ento m uito im portante de que pude observar os efeitos j unto de Farnham , no condado de Surrey. Aí se encon- 86
tram extensas propriedades plantadas aqui e ali, no vértice das colinas, de alguns grupos de velhos pinheiros da Escócia; durante estes dez últim os anos, têm fechado algum as destas quintas, e hoj e aparecem em todas as partes novos pinheiros em quantidade, nascidos naturalm ente, e tão aproxim ados uns dos outros, que não podem viver todos. Quando soube que estas árvores novas não tinham sido nem sem eadas nem plantadas, fiquei de tal m aneira surpreendido, que m e dirigi a diversos pontos de onde podia abranger com a vista centenas de hectares de propriedades que não estavam fechadas; pois nada pude descobrir a m ais que as velhas árvores. Exam inando com m ais cuidado o estado da charneca, descobri um a grande quantidade de pequenas plantas que tinham sido roídas pelos anim ais. No espaço de um só m etro quadrado, a um a distância de algum as centenas de m etros de um a das velhas árvores, contei trinta e duas plantas novas; um a delas tinha vinte e seis anéis; tinha pois tentado, durante m uitos anos, levantar a curuta acim a das urzes, e não o conseguira. Não adm ira, pois, que o solo se cubra de novos pinheiros vigorosos desde que os cerrados foram estabelecidos. E, contudo, estas charnecas são tão estéreis e tão extensas, que ninguém poderia im aginar que os anim ais pudessem aí encontrar alim entos.
Vem os aqui que a existência do pinheiro da Escócia depende absolutam ente da presença ou da ausência dos anim ais; em algum as partes do m undo, a existência do gado depende de certos insetos. O Paraguai oferece talvez o m ais m arcante exem plo deste fato; neste país nem os anim ais silvestres, nem os cavalos, nem os cães voltaram ao estado selvagem , bem pelo contrário se têm produzido em grande escala nas regiões situadas ao norte e ao sul. Azara e Rengger dem onstraram que deve atribuir-se este fato à existência no Paraguai de um a certa m osca que põe os ovos nas ventas desses anim ais logo depois do nascim ento. Por m ais num erosas que sej am estas m oscas, a sua m ultiplicação deve ser ordinariam ente em baraçada por qualquer obstáculo, provavelm ente pelo desenvolvim ento de outros insetos parasitas. Por isso, se certas aves insetívoras dim inuíssem no Paraguai, os insetos parasitas aum entariam decerto em núm ero, o que traria o desaparecim ento das m oscas, e então os anim ais silvestres e os cavalos voltariam ao estado selvagem , o que teria com o resultado seguro m odificar consi- 87
deravelm ente a vegetação, com o eu m esm o pude observar em m uitas partes da Am érica Meridional. A vegetação, pelo seu lado, teria um a grande influência sobre os insetos, e o aum ento destes provocaria, com o acabam os de ver do exem plo de Staffordshire, o desenvolvim ento de aves insetívoras e assim sucessivam ente, em círculos cada vez m ais com plexos. Todavia, na natureza, as relações não são sem pre tão sim ples com o isto. A luta deve sem pre reproduzir-se com sucessos diferentes; contudo, no decorrer dos séculos, as forças equilibram -se tão exatam ente, que a face da natureza fica uniform e durante im ensos períodos, posto que seguram ente a causa m ais insignificante baste para assegurar a vitória a tal ou tal ser organizado. Não obstante, a nossa ignorância é tão profunda e a nossa vaidade tão grande, que nos adm iram os quando conhecem os a extinção de um ser organizado; com o não com preendem os a causa desta extinção, sabem os apenas invocar cataclism os, que vieram entristecer o m undo, e inventar leis sobre a duração das form as vivas!
Ainda um outro exem plo para m elhor fazer com preender que relações com plexas ligam entre si as plantas e os anim ais m uito afastados uns dos outros na escala da natureza. Terei m ais tarde ocasião de dem onstrar que os insetos, no m eu j ardim , nunca visitam a Lubelia fulgens, planta exótica, e por conseqüência, em razão da sua conform ação particular, esta planta nunca produziu sem entes. É
necessário absolutam ente, para as fecundar, que os insetos visitem quase todas as nossas orquídeas, porque são eles que transportam o pólen de um a flor para outra. Depois de num erosas experiências, reconheci que o zangão é quase indispensável para a fecundação do Am or-perfeito (Viola tricolor), porque os outros insetos do gênero abelha não visitam esta flor. Reconheci igualm ente que as visitas das abelhas são necessárias para a fecundação de algum as espécies de trevo; vinte pés de trevo de Holanda (Trifolium repens), por exem plo, produziram duas m il e duzentas e noventa sem entes, enquanto que outros vinte pés, de que as abelhas não puderam aproxim ar-se, não produziram um a única. O zangão só visita o trevo verm elho, porque as outras abelhas não podem atingir o néctar. Afirm ase que as borboletas podem fecundar esta planta; m as duvido m uito, porque o peso do corpo não é suficiente para deprim ir as pétalas alares. Podem os pois
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considerar com o m uito provável que, se o gênero zangão chegasse a desaparecer, ou se tornasse m uito raro na Inglaterra, o am or-perfeito e o trevo verm elho tornar-se-iam tam bém m uito raros ou desapareceriam com pletam ente. O núm ero de zangões, num distrito qualquer, depende, em grande parte, do núm ero de arganazes que destroem os seus ninhos e os seus favos; ora, o coronel Newm an, que durante m uito tem po estudou os hábitos do zangão, j ulga que « m ais de dois terços destes insetos são destruídos por ano em Inglaterra» . Por outro lado, todos sabem que o núm ero de arganazes depende essencialm ente do dos gatos, e o coronel Newm an acrescenta: « Notei que os ninhos de zangões são m ais abundantes nas aldeias e pequenas cidades, o que atribuo ao m aior núm ero de gatos que destroem os arganazes» . É pois perfeitam ente possível que a presença de um anim al felino num a localidade possa determ inar nesta m esm a localidade, a abundância de certas plantas, em razão da intervenção dos ratos e das abelhas!
Diferentes obstáculos, cuj a ação se faz sentir em diversas épocas da vida e durante certas estações do ano, afetam então a existência de cada espécie. Uns são m uito eficazes, outros o são m enos, m as o efeito de todos é determ inar a quantidade m édia dos indivíduos de um a espécie ou a própria existência de cada um deles. Poderia dem onstrar-se que, em alguns casos, obstáculos absolutam ente diferentes atuam sobre a m esm a espécie em certos distritos. Quando se consideram as plantas e os arbustos que constituem um a forragem , tem -se tentado atribuir o seu núm ero proporcional ao que se cham a o acaso. Mas é um grande erro. Todos sabem que, quando se corta um a floresta am ericana, surge um a vegetação com pletam ente diferente; observei que antigas ruínas indígenas, no Sul dos Estados Unidos, ruínas que deviam ser outrora despovoadas de árvores, apresentam hoj e a m esm a diversidade, a m esm a proporção de espécies que as florestas virgens circunvizinhas. Ora, que com bate se devia ter travado durante longos séculos entre as diferentes espécies de árvores, das quais cada um a espalha anualm ente as sem entes aos m ilhares! Que guerra incessante de inseto para inseto, que luta entre os insetos, as lesm as e outros anim ais análogos, com as aves e os anim ais selvagens, esforçando-se todos por m ultiplicar-se, com endo-se uns aos outros, ou nutrindo-se da substância das árvores, das suas sem entes, dos seus
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rebentos, ou de outras plantas que cobriram a princípio o solo e que im pediam por isso o crescim ento das árvores! Quando se lança ao ar um punhado de penas, cairão todas sobre o solo em virtude de certas leis definidas; m as com o é sim ples o problem a da queda, com parado ao das ações e reações das plantas e dos anim ais inum eráveis que, durante o decorrer dos séculos, determ inaram as quantidades proporcionais das espécies de árvores que crescem hoj e nas ruínas indígenas!
A dependência de um ser organizado em frente de outro, tal com o a de um parasita nas suas relações com a sua presa, m anifesta-se de ordinário entre seres m uito afastados uns dos outros na escala da natureza. Tal é o caso, algum as vezes, de certos anim ais que não podem os considerar com o lutando um com outro pela existência; e isto no sentido m ais restrito da palavra, os gafanhotos, por exem plo, e os quadrúpedes herbívoros. Mas a luta é quase sem pre m uito m ais encarniçada entre os indivíduos pertencendo à m esm a espécie; com efeito, freqüentam os m esm os territórios, procuram o m esm o alim ento, e estão expostos aos m esm os perigos. A luta é quase tam bém encarniçada quando se trata de variedades da m esm a espécie, e é curta a m aior parte do tem po; se, por exem plo, se sem eiam j untam ente m uitas variedades de trigo, e no ano seguinte se sem eiam os grãos m isturados provenientes da prim eira colheita, as variedades que m elhor convêm ao solo e ao clim a, e que naturalm ente se vêem ser as m ais fecundas, prevalecem sobre as outras, produzem m ais sem entes, e, por conseguinte, ao fim de alguns anos, suplantam todas as outras variedades. E tão verdade é isto, que, para conservar um a m istura de variedades tão próxim as com o são as da ervilhade-cheiro, é necessário escolher cada ano separadam ente as sem entes de cada variedade e ter cuidado de as m isturar na proporção desej ada, de outra form a as variedades m ais fracas dim inuem pouco a pouco e acabam por desaparecer. O
m esm o se dá para as variedades de carneiros; afirm a-se que certas variedades do m onte esfom eiam de tal m aneira as outras, que não se podem deixar reunidas nas m esm as pastagens. Igual resultado se produz quando querem os conservar no m esm o vaso diferentes variedades de sanguessugas m edicinais. É m esm o duvidoso que todas as variedades das nossas plantas cultivadas e dos nossos anim ais
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dom ésticos tendo tão exatam ente a m esm a força, os m esm os hábitos e a m esm a constituição que as prim eiras proporções de um a m assa m isturada (não falo, claro está, dos cruzam entos) possam m anter-se durante um a m eia dúzia de gerações, se, com o nas raças no estado selvagem , deixarm os a luta travar-se entre elas, e se não tiverm os cuidado em conservar anualm ente um a proporção exata entre as sem entes ou os filhos.
A LUTA PELA EXISTÊNCIA É MAIS ENCARNIÇADA Q UANDO SE TRAVA ENTRE
INDIVíDUOS E VARIEDADES PERTENCENDO A MESMA ESPÉCIE
As espécies pertencendo ao m esm o gênero têm quase sem pre, posto que haj a m uitas exceções a esta regra, hábitos e constituição m uito parecidos; a luta entre estas espécies é pois m uito m ais renhida, se se encontram colocadas em concorrência um as com as outras, do que se a luta se travar entre espécies pertencendo a gêneros distintos. A extensão recente que tem tom ado, em certas partes dos Estados Unidos, um a espécie de andorinha que causou a extinção de um a outra espécie, oferece-nos um exem plo deste fato. O desenvolvim ento do abelharuco trouxe, em certas partes da Escócia, a raridade crescente do tordo com um . Quantas vezes tem os ouvido dizer que um a espécie de rato expulsa outra diante de si nos m ais diversos clim as! Na Rússia, a pequena barata da Ásia leva diante de si a sua grande congênere. Na Austrália, a abelha que im portam os exterm ina rapidam ente a pequena abelha indígena, desprovida de aguilhão. Um a espécie de m ostarda suplanta um a outra, e assim sucessivam ente. Podem os conceber, ainda que pouco, com o se faz que a concorrência sej a m ais viva entre as form as aliadas, que ocupam quase o m esm o lugar na econom ia da natureza; m as é m uito provável que, em alguns casos, pudéssem os indicar as razões exatas da vitória obtida por um a espécie sobre outra na grande batalha da vida. As notas que acabam os de dar conduzem a um corolário da m ais alta im portância, isto é, que a conform ação de cada ser organizado está em relação, nos pontos m ais essenciais e algum as vezes contudo m ais ocultos, com a de todos os seres organizados com os quais se encontra em concorrência para a sua alim entação e habitação, e com a de todos aqueles que lhe servem de presa ou contra os quais tem de defender-se. A conform ação dos dentes e das garras do
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os quais tem de defender-se. A conform ação dos dentes e das garras do tigre, a das patas e dos ganchos do parasita que se prende aos pêlos do tigre, oferece um a confirm ação evidente desta lei. Mas as adm iráveis sem entes em plum adas da chicória silvestre e as patas achatadas e franj adas dos coleópteros aquáticos não parecem estar em relação com o ar e com a água. Contudo, a vantagem apresentada pelas sem entes em plum adas encontra-se, sem dúvida, em relação direta com o solo j á guarnecido de outras plantas de m aneira que as sem entes possam distribuir-se num grande espaço e cair sobre um terreno que ainda não está ocupado. No coleóptero aquático, a estrutura das pernas, tão adm iravelm ente adaptada para que possa m ergulhar, perm ite-lhe com bater com outros insetos aquáticos para procurar a sua presa, ou para escapar aos ataques de outros anim ais.
A substância nutritiva depositada nas sem entes de m uitas destas plantas parece, à prim eira vista, não apresentar espécie algum a de relação com outras plantas. Mas o crescim ento vigoroso das novas plantas provindo destas sem entes, as ervilhas e os feij ões, por exem plo, quando se sem eiam por entre outras gram íneas, parece indicar que a principal vantagem desta substância é favorecer o crescim ento da sem enteira, na luta que tem de sustentar com as outras plantas que crescem em volta de si.
Porque se não m ultiplica cada form a de planta em toda a extensão da sua região natural até dobrar ou quadruplicar o núm ero dos seus representantes? Sabem os perfeitam ente que pode suportar um pouco m ais de calor ou de frio, um pouco m ais de um idade ou de secura, porque sabem os que habita regiões m ais quentes ou m ais frias, m ais úm idas ou m ais secas. Este exem plo dem onstra-nos que, se desej arm os dar a um a planta um m eio de acrescentar o núm ero dos seus representantes, é necessário pô-la em condições de vencer os seus concorrentes e de obstar aos ataques dos anim ais que se nutrem dela. Nos lim ites geográficos do seu habitat, um a alteração de constituição, em relação com o clim a, seria de um a certa vantagem ; m as tem os toda a razão para j ulgar que algum as plantas ou alguns anim ais som ente se afastam para longe por serem exclusivam ente destruídos pelo rigor do clim a. É som ente nos confins extrem os da vida, nas regiões árticas, ou nos lim ites de um deserto absoluto, que cessa a concorrência. Quando a
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terra sej a m uito fria e m uito seca, não haverá m enos concorrência entre algum as espécies ou entre indivíduos da m esm a espécie, para ocupar os lugares m ais quentes ou m ais úm idos.
Disto resulta que as condições de existência de um a planta ou de um anim al colocado em novo país, em m eio de novos com petidores, devem m odificar-se de um a m aneira essencial, posto que o clim a sej a perfeitam ente idêntico ao do seu antigo habitat. Se se desej a que o núm ero dos seus representantes cresça na nova pátria, é necessário m odificar o anim al ou a planta de m aneira diferente do que se fazia na sua antiga região, porque é necessário procurar-lhe certas vantagens sobre um conj unto de concorrentes ou de inim igos m uito diversos. Nada m ais fácil que ensaiar assim , em im aginação, o procurar a um a espécie certas superioridades sobre um a outra; m as, na prática, é m ais que provável que não soubéssem os o que teríam os a fazer. Isto só bastaria para nos convencer da nossa ignorância sobre as relações m útuas que existem entre todos os seres organizados; é um a verdade que nos é tão necessária com o difícil de com preender. Tudo o que podem os fazer, é lem brar-nos a todo o m om ento que todos os seres organizados se esforçam continuam ente por se m ultiplicar segundo um a progressão geom étrica; que cada um deles em certos períodos da vida, durante certas estações do ano, no decurso de cada geração ou em certos intervalos, deve lutar pela existência e estar exposto a um a grande destruição. O pensam ento desta luta universal provoca tristes reflexões, m as podem os consolar-nos com a certeza de que a guerra não é incessante na natureza, que o m edo é desconhecido, que a m orte está geralm ente pronta, e que são os seres vigorosos, sãos e felizes, que sobreviverão e se m ultiplicarão.
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