A Perdição do Bilionário: Travis
Capítulo 9
Irritado, ele tirou o celular do bolso e enviou uma mensagem para Ally.
Seis horas, em vez de sete.
Pronto. Era uma hora a menos que teria que esperar. Pelo menos, ele a veria mais cedo. Se Ally não estivesse pronta ou não recebesse a mensagem, ele teria que esperar... ou pensar em alguma outra coisa para preencher o tempo...
Ele guardou o telefone no bolso e virou-se para o computador, perguntando-se se perdera completamente o juízo e achando que era o cara mais desesperado e ridículo da face da Terra. Afinal, que diferença faria uma hora?
O telefone apitou, avisando que chegara uma mensagem, e ele o pegou ansioso. Era de Ally e não havia palavras, apenas uma fotografia. Ele tocou na imagem, que foi ampliada, mostrando a lingerie vermelha delicada, uma calcinha minúscula e uma cinta-liga.
Travis quase deixou o telefone cair.
Ele resmungou baixinho e decidiu que uma hora faria uma diferença imensa.
Ally observou o reflexo no espelho de corpo inteiro do quarto. Era apenas cinco e meia da tarde, mas ela já estava pronta. O vestido vermelho era simples, com um decote ligeiramente maior do que ela normalmente usava, e delineava os quadris de uma forma que não sabia se era muito bom para a silhueta. Mas achou que estava com aparência passável. Ela arrumara os cabelos e aplicara maquiagem, deixando os cachos loiros caírem pelas costas e pelos ombros. A saia do vestido terminava perto dos joelhos e as mangas três-quartos escondiam os arranhões. Os saltos altos prejudicavam um pouco o andar, mas, se andasse com cuidado, ela não teria problemas.
Ally desejou, não pela primeira vez, que fosse magra e bonita. Ela suspirou ao se afastar do espelho, recriminando-se por se importar com aquilo. Ela só ia jantar fora com o chefe. Travis a olhava com fome nos olhos, mas ela ainda tinha muita dificuldade em acreditar que um homem como ele a quisesse. Talvez ele fosse, algumas vezes, tão solitário quanto ela. Mesmo quando estivera noiva de Rick, ela se sentira sozinha. Só não tivera tempo para pensar no assunto na época.
Tocando na corrente em volta do pescoço enquanto descia a escada com cuidado, seu coração ficou mais leve ao pensar em Travis e na fé que tivera nela ao lhe dar o unicórnio. Ela não podia nem daria muita importância à atenção que Travis lhe dava. Apesar de fazer bem para o ego, o comportamento dele não devia ser nada além de uma tentativa de animá-la e, talvez, uma sensação indevida de responsabilidade pelo acidente no estacionamento. Homens como Travis Harrison não se interessavam por mulheres como ela. Talvez ele transasse com ela, se estivesse sozinho entre uma mulher e outra, mas ter um caso breve não seria bom para Ally. Isso a
deixaria sentindo-se ainda mais vazia quando terminasse. Ela precisava se lembrar disso.
A campainha tocou e ela olhou para o relógio. Ele estava vinte e cinco minutos adiantado. Seu coração bateu mais depressa quando andou até a porta e segurou a maçaneta, imaginando se deveria ter mandado aquela fotografia da lingerie vermelha que estava usando. Fora um impulso, um momento raro de malícia. Agora, ela se perguntou o que ele diria.
O rosto que viu ao abrir a porta não era o que esperava e o sorriso leve em seus lábios se transformou em uma careta ao ver o ex-noivo parado lá.
Ele vestia calça jeans e uma camiseta, parecendo mais desarrumado do que nunca. Ally observou os cabelos castanhos e as feições dele, esperando que as emoções que deveria sentir fossem registradas. Mas ela não sentiu nada.
— O que você quer? — perguntou ela calmamente, querendo apenas que ele fosse embora.
— Quero voltar, Ally. — Rick a olhou com expressão atormentada.
— Não — respondeu ela simplesmente. Ele achava mesmo que ela consideraria a ideia? Talvez ela fosse uma pessoa dependente, mas não era tão idiota assim.
Ele passou por ela e entrou no saguão. — Você fez com que eu fosse demitido. Acho que, pelo menos, me deve um lugar para ficar.
Ally fechou a porta e encarou-o. — Não fiz com que fosse demitido. E
você deveria estar na cadeia pelas dívidas que fez em meu nome depois de transar com outra mulher nesta casa e terminarmos.
— Mentira. Meu chefe sabe exatamente o que aconteceu. Como ele saberia? Achou que não era um comportamento adequado para um novo profissional. Eles são todos homens de família. Como ele teria descoberto, a não ser por você? Você, eu e Amber éramos os únicos que sabiam — disse Rick em tom amargo.
Ally rangeu os dentes. — Saia. Vá ficar com a sua nova namorada. Não vai ficar aqui.
— Amber não quer que eu fique com ela. Disse que reconsiderou nosso relacionamento e terminou tudo. — O tom ficou menos raivoso.
Talvez porque você seja um idiota traidor. Será que a namorada dele sabia ou Rick inventara alguma história fantástica que a garota engolira por ser jovem e ingênua? — Ela sabia que estávamos noivos?
— Eu disse a ela que estávamos tendo problemas. E estávamos, Ally.
Você estava engordando e chegava todas as noites cheirando a álcool, graxa
e cigarros por causa do bar. Não foi uma coisa boa para o nosso relacionamento romântico. Você nunca tinha tempo para mim. Eu precisava de você, mas nunca estava lá. Por isso, eu acabei me desviando. Sei que não deveria ter feito isso com você, mas estávamos juntos havia cinco anos.
Quer mesmo desistir de tudo isso por causa de um erro? Deveríamos tentar de novo. — Os olhos azuis dele não mostravam remorso nenhum. O olhar era calculista, bem como as palavras. — Eu ia pagar você. Precisava de alguma coisa até receber meu pagamento. De qualquer forma, estive pensando sobre nós. Acho que podíamos ter resolvido tudo. Fizemos planos durante anos. Só ficou muito difícil com você longe o tempo inteiro.
Mas que filho da puta! Ele precisara do dinheiro para comprar coisas e impressionar a nova mulher. Sem dúvida, não pensara nela por um segundo até que a namorada começasse a repensar. Ele acabara de admitir isso.
Ela encarou Rick com olhar duro. Ele era fisicamente atraente, mas a visão dele a deixava enjoada. Aquele homem, aquele idiota infiel, fora a vida dela durante anos. Agora, queria que ela o aceitasse de volta? Ele não era só um idiota, era um sociopata. — Então, você veio correndo de volta até encontrar um novo emprego e outra mulher com quem trepar?
— Ally, preciso de você. Não percebi o quanto até que não a tivesse mais. — Os olhos dele percorreram o rosto e o corpo dela. — Você está bonita. Emagreceu?
Ela cerrou os punhos, tentando desesperadamente não deixar que ele a atingisse. Aquele homem fora sua vida, seu motivo para existir, até que arruinara tudo.
Ele está tentando fazer com que você se sinta culpada. Está tentando atingir você, fazendo com que pareça que tem justificativa por causa do seu comportamento.
Talvez ela não estivera lá sempre que ele precisara, mas estava trabalhando para eles. — Trabalhei feito uma louca por você, Rick. E não sou responsável por você ter perdido o emprego. E sim, deixei de lado minha aparência porque precisava dormir mais do que precisava de um corte de cabelo ou de uma manicure. E sim, ganhei alguns quilos porque não tinha tempo de fazer exercícios nem de cuidar da dieta. Estava ocupada demais com você e o que queria.
— Ally, eu me arrependo...
Ela ergueu a mão para silenciá-lo. — A única coisa de que me arrependo é de ter desperdiçado cinco anos da minha vida com você. — Ela abriu a
porta. — Agora, dê o fora da minha casa.
Rick a olhou furioso, sem se esconder mais sob a fachada de remorso. —
Você se arrependerá disto, Ally. Construímos uma vida juntos. Você estava tentando fazer com que eu voltasse ao me fazer perder o emprego. Mas conseguirei outro e você se odiará por não nos dar outra chance.
— Saia — disse ela com raiva, com a mão tremendo na maçaneta.
Rick lentamente saiu pela porta com uma expressão assassina. — Você está jogando tudo fora. Tudo pelo que trabalhamos tanto. Você não é mais tão jovem e nunca será bonita. Fui o melhor cara que você conseguiria encontrar.
Ally bateu a porta e trancou-a, com a madeira batendo nele ao sair. Ela ficou parada por um momento com o corpo inteiro trêmulo de raiva.
Por que os comentários dele ainda a magoavam? Ela não sentia nada além de nojo dele, mas a mente estava repleta de dúvidas.
Você engordou.
Nunca teve tempo para mim.
Nunca foi bonita.
Eu precisava de você. Nunca teve tempo para mim.
Racionalmente, ela sabia que ele era um filho da puta, mas, por algum motivo, as palavras negativas ainda a abalaram.
Uma lágrima correu por seu rosto e outra logo depois. Ela nem sabia por que estava chorando. Talvez fosse por causa dos anos vazios que passara com Rick ou talvez porque os comentários manipuladores dele tinham a intenção de magoá-la o suficiente para que o aceitasse de volta.
Ela se sentou no sofá, tentando entender os pensamentos confusos. Ela passara da mãe alcoólatra e verbalmente abusiva para Rick e conseguia ouvir a voz dos dois na cabeça. A mãe nunca tivera nada de bom a dizer quando não estava em estado de coma, resmungando sobre como o pai de Ally morrera, deixando-a com uma filha feia e ingrata para alimentar. Ally sabia que eram comentários de uma alcoólatra amarga, mas ainda assim moldaram a forma como se sentia sobre si mesma. Depois, encontrara Rick e, apesar de ele ocultar as críticas sob uma cortina de manipulação, a depreciação velada magoara do mesmo jeito.
Ela quisera tão desesperadamente ser amada que estivera disposta a aceitar o que Rick tivera a oferecer, pois era melhor do que nada?
Ally soltou um soluço estragulado e as lágrimas escorreram mais depressa. Tudo se resumia ao fato de que ela quisera ser amada. — Ele
nunca me amou — sussurrou ela com voz angustiada. — Acho que eu nunca o amei. — Rick a usara e, de certa forma, ela também o usara.
Quisera preencher a solidão que tinha dentro de si e enganara a si mesma acreditando que, se trabalhasse bastante, se desistisse o bastante por Rick, ele a amaria. — Sou uma mulher muito idiota. — Ela também não amara Rick. Apenas se convencera disso porque talvez ele estivesse certo. Talvez ela achasse que ele era o melhor que conseguiria ou que era tudo o que merecia.
Ally estava chorando abertamente quando a campainha tocou.
Controlando as emoções, ela rapidamente passou as mãos no rosto, tentando esconder as lágrimas.
Travis.
Qualquer animação que sentira mais cedo sobre a noite com o chefe desaparecera. Ela não queria sair com ele. Não queria ver ninguém. A única coisa de que precisava era algum tempo para se recompor. Ver Rick a deixara emocionalmente vulnerável. Ela não conseguiria enfrentar Travis no momento. As emoções estava perto demais da superfície.
Ela foi até a porta, mas não a abriu. Olhando pelo olho mágico, ela viu o rosto de Travis. — Tenho que cancelar o jantar. Não estou me sentindo bem
— disse ela na voz mais calma possível. — Desculpe.
— Está doente? — A voz de Travis parecia preocupada. — Abra a porta, Alison.
— Não posso. Talvez seja contagioso. Telefonarei para você quando estiver me sentindo melhor. — A voz dela tremeu e ela xingou a si mesma por deixar que a ansiedade ficasse evidente.
— Você está chateada. Abra a porta agora — exigiu Travis. — Não vou embora até ver se está bem.
Mas que merda. Por que Travis tinha que ser tão persistente? E teimoso!
— Por que não pode simplesmente ir embora? Não quero ver ninguém agora. — O desespero em se ver livre dele fez com que desistisse de fingir que estava doente.
— Você não está doente. Está chateada. Abra a porta ou quebrarei uma janela — ameaçou Travis.
O problema era que Ally sabia que Travis nunca fazia ameaças vazias e a última coisa que queria era trocar um vidro. Ele faria aquilo sem pensar duas vezes. Parte dela estava com raiva por ele a ameaçar, mas outra parte estava emocionada porque Travis parecia se importar de forma sincera.
Nada daquilo era culpa dele. O mínimo que ela poderia fazer era enfrentá-lo, mostrar que estava bem.
Depois de passar a mão sobre o rosto mais uma vez, ela destrancou a porta. Se ele ficasse satisfeito ao ver que ela estava bem, iria embora. Ela abriu a porta e a expressão preocupada no rosto dele fez com que ela quisesse se jogar em seus braços e chorar até que as emoções fossem embora. Mas, em vez disso, ela virou a cabeça e disse em voz fraca: —
Estou bem. Tive um dia ruim. Lamento que tenha dirigido até aqui.
Travis passou por ela e fechou a porta. Em seguida, ergueu o queixo dela e estudou-a por vários segundos antes de falar. — Você estava chorando. O
que aconteceu? Não existe problema grande o suficiente para fazê-la chorar.
Posso resolver o que for.
Ally olhou para ele, correndo os olhos sobre o terno imaculado e a gravata. Quando seu olhar caiu sobre o rosto dele, ela ficou abalada com a ferocidade em sua expressão. Mas aquele era Travis. Ele resolvia problemas, grandes e pequenos. Infelizmente, não poderia resolver o tormento emocional nem a mente perturbada dela. — Rick esteve aqui.
Quer voltar. — Ela se afastou dele e foi para a sala de estar, precisando se afastar da tentação de contar tudo a Travis. — Nós discutimos e isso me deixou um pouco abalada. Vou ficar bem. — Ela ficaria bem. Assim que conseguisse enterrar a sensação de inutilidade e a culpa, fundo o suficiente para que ninguém as visse.
Travis a pegou pela cintura e virou-a para si. — Ele machucou você? Ele encostou em você? Se fez isso, juro que vou matá-lo.
— Não. Só tivemos uma discussão. Não foi nada demais — respondeu ela, tentando manter a voz calma.
Travis a segurou pelos ombros. — O que aconteceu? Diga-me que não considerou, nem por um momento, voltar com aquele imbecil — disse ele, com toques de exigência e desespero na voz.
— Não. Eu não faria isso. É só que... — A voz dela morreu e Ally não sabia como explicar. As lágrimas começaram a se formar novamente, escorrendo pelo rosto em frustração e dor.
Travis a pegou nos braços e sentou-se no sofá, mantendo-a no colo. —
Diga. — A voz dele era baixa e persuasiva. Os braços eram reconfortantes.
Ally desabou como um galho quebrado, balançando ao vento, que finalmente cedera à pressão e caíra no chão. Entre soluços, ela contou tudo a Travis, libertando as emoções que a perturbaram por tanto tempo. Depois
de contar a ele sobre o encontro indesejado com Rick, explicou como a mãe fora enquanto ela crescia e como sempre se sentira inadequada.
— Por que não consigo deixar de ouvir a voz dela dentro da minha cabeça? Ela está morta há anos — terminou Ally, sentindo-se frustrada consigo mesma.
— Talvez porque você escolheu o idiota como a próxima voz na sua cabeça. Achou mesmo que ele era tudo o que merecia, Ally? Um homem que deixaria você trabalhar até a morte, que a tratava muito mal e que a manipulava o tempo inteiro? — perguntou Travis, sentindo todos os músculos do corpo tensos. — Eu sei como é difícil não acreditar em tudo o que lhe dizem e ensinam. Mas acredite em mim quando digo que você não mereceu o que teve.
Ally olhou para Travis, que estava com o maxilar cerrado e os olhos furiosos. — Como você conseguiu, Travis? Como sobreviveu a tudo com que teve que lidar na vida sem ser afetado por isso? — Ele crescera com um louco e algumas das experiências que contara a ela fizeram com que estremecesse.
Ele prendeu um cacho dos cabelos dela atrás da orelha ao responder: —
Não foi assim. Aquilo tudo me afetou. Mas eu tinha Mia e Kade. A única coisa que sabíamos era que o que acontecia não era normal. E cresci enquanto estava na faculdade. Foi preciso. Meu pai não podia mais cuidar da empresa. No minuto em que terminei a faculdade, eu o afastei por incompetência e assumi seu lugar. A Harrison estava começando a florescer e havia pessoas demais contando conosco para sobreviver. A empresa não aguentaria o comportamento louco e as tomadas de decisões malucas dele por muito mais tempo.
— Isso fez com que se sentisse vingado? Conseguiu se libertar? —
perguntou ela baixinho.
— Não me fez mal — admitiu Travis. — Não fiz aquilo por vingança.
Fiz para salvar a empresa que meu pai trabalhou muito para construir. Mas não vou dizer que parte de mim não ficou satisfeita quando finalmente consegui tirar do meu pai o poder que ele teve sobre todos nós a vida inteira.
— Quando você parou de ter medo dele? — perguntou Ally curiosa.
— Assim que cresci o suficiente para dar uma surra nele — respondeu Travis com a mão acariciando os cabelos dela distraidamente. — Ele era o monstro que nos aterrorizou durante anos. Finalmente percebi, quando
terminei a escola, que não precisava mais ter medo dele. Quando Kade e eu fomos embora para a faculdade, avisei a ele que, se algum dia encostasse a mão em Mia ou na minha mãe, eu o mataria.
— Você deu uma surra nele? — perguntou ela em tom hesitante.
Travis deu de ombros. — Não precisei. Na época, ele era só uma casca com uma mente insana. Mas ele nunca mais encostou em Mia. Nem na minha mãe... até matá-la.
— Você teria feito isso, se fosse necessário?
— Sim — respondeu Travis imediatamente. — Eu teria feito qualquer coisa para impedi-lo de machucar o resto da minha família.
Ally estendeu a mão e acariciou o rosto dele, deixando os dedos subirem para os cabelos. — Você foi muito corajoso. Sei que tudo pelo que passou foi muito doloroso, mas você sobreviveu intacto.
Travis soltou uma risada triste. — Talvez não intacto, mas, sim, sobrevivi.