A Perdição do Bilionário: Travis

J. S. Scott · Capítulo 5 de 21

Páginas do PDF

A Perdição do Bilionário: Travis

Capítulo 4

Ele já sabia como seriam seus sonhos naquela noite. Não havia como não sonhar vividamente com Ally perguntando se ele queria um boquete, lambendo aqueles lábios tentadores ao sussurrar as palavras que cada homem no mundo queria ouvir da mulher que queria. E, em seus sonhos, Travis nunca se recusaria a beijá-la. Ora, ele provavelmente teria um ataque do coração e morreria dormindo quando respondesse de forma diferente, fizesse exatamente o quisera fazer mais cedo quando ela dissera aquilo.

Travis esperou até que as luzes acendessem no andar de cima antes de acelerar e ir embora, perguntando a si mesmo quando desenvolvera uma consciência e odiando-se porque, em se tratando de Ally... ele tinha consciência.

 

Ally acordou tarde na manhã seguinte, tendo apenas trinta minutos para se arrumar para o trabalho. Ela não quisera sair da cama e não tinha certeza se era pelo álcool que consumira na noite anterior ou pelo fato de que teria que encarar Travis.

Ah, meu Deus, eu realmente pedi a ele que me beijasse?

Ela fez uma careta na frente do espelho ao prender rapidamente os cabelos com uma presilha na nuca, com pressa demais para se preocupar em fazer uma trança ou algo mais complicado. Ela aplicou apenas uma quantidade mínima de maquiagem, o suficiente para não assustar nenhum dos clientes da Corporação Harrison.

Correndo até o armário para pegar um par de sapatos e um cinto colorido para usar com o vestido cinza conservador que vestira mais cedo, ela olhou nervosamente para o relógio.

Cinco minutos para as oito horas.

Ally não tinha dúvidas de que Travis chegaria às oito horas em ponto para levá-la para o escritório. Ele não tinha nenhum compromisso cedo, mas ela sabia dizer a hora pelo momento em que Travis chegava pela manhã. Travis Harrison nunca se atrasava e chegava exatamente na mesma hora todos os dias.

— Merda — xingou Ally quando a meia-calça prendeu na porta do armário, puxando um fio que se estendeu pela perna. Ela virou a perna para olhar, irritada ao ver que o fio puxado corria do joelho até o tornozelo. Ela pegou os sapatos pretos de salto alto, jogou-os no chão e prendeu o cinto preto, cinza e vermelho em volta da cintura, adicionando um pouco de cor ao traje. Pelo menos, conseguia respirar dentro do vestido feio, que tinha uma saia larga para acomodar os quadris.

Vasculhando a gaveta da cômoda, desesperada para encontrar outro par de meias pretas, a única coisa que ela conseguiu encontrar foram meias muito finas e uma cinta-liga preta. — Merda — disse ela de novo, irritada consigo mesma por não ter estocado meias-calças. Ela olhou para o acessório desconfiada, pois tivera que chegar ao fundo da gaveta para encontrá-lo. Ally o comprara alguns anos antes e só o usara uma vez, quando ela e Rick deveriam ter saído para uma noite romântica para celebrar o dia dos namorados. Infelizmente, Rick tinha telefonado cancelando o compromisso, alegando que precisava estudar. Ela vestira uma camisola e fora dormir. No dia seguinte, lavara a roupa íntima e nunca mais a usara, achando-se um pouco boba por ainda tentar apimentar a vida sexual deles. Rick estivera ocupado demais, cansado demais o tempo inteiro.

Agora, Ally se perguntava se, mesmo naquela época, o ex-noivo já mentia. Aquele pensamento fez com que tivesse vontade de jogar a roupa íntima no lixo. Mas ela estava com muita pressa e rapidamente vestiu as meias, a cinta-liga e as calcinhas pretas sensuais que acompanhavam o conjunto. As meias eram pretas e nunca ninguém saberiam que estavam presas a um acessório que dizia “trepe comigo”.

Ally fez uma careta ao ouvir a campainha, colocando os sapatos com muito cuidado para não estragar o último par de meias. — Como diabos vou olhar na cara dele depois de ter pedido que me beijasse? Talvez ele não diga nada. Afinal, sabia que eu tinha bebido — sussurrou ela para si mesma.

Na verdade, ela não estivera bêbada quando pedira a Travis que a beijasse. O álcool reduzira suas inibições, mas ela queria desesperadamente sentir como seria ter aquela boca pecadora dele sobre a sua. Pedir a ele que a beijasse fora possivelmente a coisa mais impetuosa que já fizera. Ele era seu chefe, pelo amor de Deus, e um homem que poderia ter qualquer mulher que quisesse. Ainda assim, aqueles fatos importantes não tinham eliminado a vontade de sentir o beijo dele apenas uma vez. Desde que Travis lhe dissera como era desejável, Ally queria saber se o beijo dele corresponderia às palavras. Conhecendo Travis, ele provavelmente agiria como se não se lembrasse. Ou talvez nem fosse algo importante o suficiente para isso.

Ela desceu a escada correndo, o mais depressa que conseguiu com os saltos altos, chegando sem fôlego para abrir a porta. Travis parecia imaculado como sempre, mas a postura era casual, com as mãos nos bolsos

da calça. Ally prendeu a respiração ao observar o terno preto, com o único toque de cor vindo das pequenas listras azuis e cinzas da gravata.

— Bom dia, srta. Caldwell — disse Travis. — Imagino que tenha se recuperado. — Os olhos escuros a observaram intensamente, como se estivessem buscando sinais de uma ressaca.

— E-estou bem — respondeu Ally nervosamente, abrindo mais a porta para que ele pudesse entrar e odiando-se por estar tão ansiosa. Ela não podia mostrar qualquer fraqueza diante de Travis. O homem era como um tubarão que conseguia sentir o gosto de sangue na água. Se ele soubesse que a tinha deixado abalada, avançaria para o abate. Era uma qualidade que o tornava um excelente homem de negócios, mas um adversário perigoso.

— Deixe-me pegar a minha bolsa e uma caneca de café para levar junto.

Quer uma?

Travis andou até a sala de estar e Ally fechou a porta atrás dele.

— Não estou com pressa — disse Travis casualmente. — Pode fazer as coisas com calma.

Ally olhou espantada para Travis. Desde quando ele não estava com pressa? O homem nunca desperdiçava um momento sequer, trabalhando feito louco todos os instantes do dia. Ela se virou, ligeiramente confusa, e foi para a cozinha. Os saltos bateram na madeira polida do chão quando ela pegou duas canecas e serviu o café da máquina que fora programada na noite anterior. Ela adicionou rapidamente creme ao próprio café, deixando o de Travis puro, como ele gostava, e voltou para a sala de estar. Travis estava de costas para ela, observando as prateleiras que cobriam uma parede inteira da sala. Ela planejara levar a maioria delas para um dos quartos vazios para usá-lo como biblioteca, mas desistira. Afinal, pretendia se mudar em breve. — Aqui está. — Ally entregou a caneca a ele.

Travis se virou para ela e ergueu a sobrancelha. — Você percebeu, srta.

Caldwell, que trouxe o café para mim hoje?

— Não se acostume — resmungou ela sobre a beirada da caneca antes de tomar um gole do café.

Travis sorriu ao dizer: — Você tem um gosto eclético para leitura. Acho que tem de tudo aqui, de clássicos a não ficção e livros de instruções.

Ally deu de ombros desconfortavelmente. — Gosto de ler.

— O que é isto? — perguntou Travis curioso, retirando um manuscrito encadernado da prateleira.

Ela saltou à frente, tentando tirar o manuscrito da mão dele. — Nada de interessante — respondeu ela em tom firme. — Dê-me isso.

— Tem o seu nome nele. Você o escreveu? — Não havia ironia na voz dele, apenas curiosidade, enquanto ele segurava o manuscrito fora do alcance dela.

— Sim — respondeu Ally irritada.

Colocando a caneca em uma das prateleiras, ele folheou as páginas. —

Você é escritora?

— Sou assistente e secretária. E sou bartender. Escrever era só um sonho.

— Por quê? — O olhar de Travis encontrou o dela com uma expressão interrogativa.

— Porque eu não era boa o suficiente para ter alguma coisa publicada.

Tenho as cartas de rejeição para provar — respondeu ela irritada. — Rick me disse para parar de sonhar e trabalhar com algo que pagasse um salário.

E ele tinha razão. Estávamos com pouco dinheiro. Eu precisava de um emprego extra que me pagasse...

— É um romance de fantasia? — interrompeu Travis concentrado no manuscrito.

— Sim — admitiu Ally. — Fantasia para jovens adultos. É uma série.

Nunca cheguei a terminar o segundo livro. — Não que ela não estivesse ansiosa para escrever, mas nunca sobrava tempo para isso. Algum dia, ela terminaria a série, mesmo se não conseguisse publicá-la.

— Eu gostaria de ler — disse Travis pensativo, fechando o manuscrito gentilmente e colocando-o ao lado da caneca. — Então, basicamente, o imbecil tirou tudo de você — disse ele com voz baixa e perigosa.

— O que quer dizer? — perguntou Ally confusa.

Travis cruzou os braços sobre o peito e estreitou as sobrancelhas, lançando um olhar sombrio a Ally. — Ele fez você largar a faculdade para que pudesse terminar a dele. Fez com que desistisse de escrever para trabalhar ainda mais em um maldito bar em uma vizinhança horrível. Fez com que você fizesse exatamente o que ele precisava. Alguma vez ele se importou com você, com o que queria? É claro que não. Caso contrário, não teria pulado na cama de outra mulher.

Ally abriu a boca, querendo dizer a ele que, tecnicamente, Rick não pulara na cama de outra mulher. Usara a deles. Mas não tinha tanta certeza assim de que o ex não tivesse feito aquilo. — Não foi só ele — admitiu ela

relutantemente. — Eu também queria segurança. Era esse o plano. De finalmente ter uma vida que não fosse caótica, uma vida em que eu não precisasse me preocupar em contar centavos.

— E sua vida sempre foi caótica? — perguntou Travis ao dar um passo à frente, parando a pouca distância dela.

— Sim. Fui criada pela minha mãe que era alcoólatra e passava mais tempo bêbada do que sóbria. Portanto, sim, eu queria uma vida normal. —

O coração de Ally batia depressa e ela respirou fundo. Ela tinha ciência de que, algumas vezes, era confusa e codependente, mas não era um tópico que queria discutir com alguém como Travis. Na verdade, não queria discutir aquilo com ninguém.

— Então, você trabalhou feito louca para agradar o cara errado, um homem que não dava a mínima para o que a fazia feliz — declarou Travis.

— E quando será a sua vez, srta. Caldwell?

— Terei minha oportunidade assim que resolver tudo — argumentou Ally.

— É mesmo? Tem certeza? — perguntou Travis com voz rouca.

— Não posso mudar o passado. Sim, eu fui idiota. Sim, eu era influenciável. Preciso aprender com os meus erros e continuar — disse Ally hesitantemente.

— Você é uma organizadora pragmática na superfície, mas, por baixo, é uma sonhadora — observou Travis. — Mas uma coisa que não entendo é por que aguentou aquele cara por tanto tempo. Você não é o tipo de pessoa que aguenta esse tipo de merda de ninguém. Eu sei disso. Ele devia ser um excelente manipulador.

Ally mudou de posição desconfortavelmente. — Ele era. — Rick nunca era abertamente hostil. Ally teria conseguido lidar com isso dando-lhe uma joelhada na virilha e indo embora. Mas ele tinha uma forma de fazer com que ela se sentisse culpada e responsável por tudo, além de ter se aproveitado de suas vulnerabilidades. — Ele era muito bom nisso. — Ally suspirou. — Acho que eu queria o sonho e tinha tudo planejado de forma perfeita. Só não saiu exatamente como eu planejara. — Ela lidara com tudo que viera de Rick só pela possibilidade de, um dia, ter uma vida normal, inventando desculpas para ele como fizera com a mãe alcoólatra a vida inteira. Ela disse a si mesma que a vida ficaria melhor, que Rick seria um homem melhor quando não estivesse sob tanto estresse. Foi só quando Ally o viu transando com outra mulher que percebeu que fora ela que vivera uma

mentira. Ele sempre fora um escroto. Vê-lo com outra mulher finalmente fizera com que ela caísse na realidade.

— Você é uma mulher inteligente. Inteligente o suficiente para conseguir o que deseja — disse Travis com voz rouca, aproximando-se dela para prender um cacho de cabelos atrás da orelha. — Você o amava?

Ally olhou para Travis. Os dois se encararam e ela não conseguiu afastar o olhar. A expressão dele era estoica, mas os olhos estavam ardentes, hipnotizantes, que fez com que todos os pensamentos não relacionados a ele sumissem da mente dela. — E-eu não acho que o conhecia de verdade.

Acho que amei a ideia de um plano e de uma vida normal. — Travis estava perto o suficiente para que ela sentisse seu cheiro e Ally recuou um passo como forma de se proteger, encostando as costas na parede. Ela já fizera papel de tola na noite anterior. Travis era seu chefe, o chefe milionário infernal, e ela precisava se lembrar exatamente de quem ele era. Por algum motivo, tinha problemas em se lembrar das coisas quando ele chegava tão perto, como se o corpo inteiro superaquecesse e entrasse em curto-circuito.

Travis avançou e apoiou uma das mãos na parede ao lado da cabeça de Ally, com o indicador da outra mão movendo-se repetidamente da orelha para a bochecha dela. — Peça-me de novo para beijá-la, Alison — exigiu ele, correndo o dedo sobre os lábios dela.

Ally queria afastar o olhar, queria correr o mais depressa possível e colocar uma grande distância entre ela e Travis. A expressão sombria no rosto dele não combinava com o ardor nos olhos escuros, um olhar que a deixou assustada e excitada.

Ela não queria pensar na rejeição dele na noite anterior nem por que ele queria que pedisse de novo. Finalmente, ela simplesmente perguntou: —

Por quê?

Travis tirou a caneca da mão dela e colocou-a sobre uma mesinha ao lado, sem tirar os olhos de seu rosto ao levantar seu queixo. O polegar acariciou a pele de Ally quando ele respondeu: — Porque esperei a noite inteira que você me pedisse de novo, desta vez quando está sóbria. Peça —

exigiu ele em voz rouca, com a respiração pesada como se tivesse acabado de correr muito.

Ah, como Ally queria obedecer àquela ordem de Travis. Queria sentir aqueles lábios duros e exigentes sobre os seus mais do que qualquer outra coisa. Mas ela sussurrou: — Não posso. Você é meu chefe. Sou sua funcionária. Não podemos fazer isto.

— É claro que podemos. Você está demitida — resmungou ele.

Talvez aquela fosse a única vez em que Ally gostara do fato de Travis maltratá-la diariamente. — Muito bem — respondeu ela, agarrando a gravata imaculada e puxando a boca de Travis para a sua, incapaz de resistir à tentação de tocá-lo, de ser tocada por ele. Ela fechou os olhos, sentindo-se imediatamente inebriada pela sensação da boca quente e exigente sobre a sua. A língua insistente de Travis superou qualquer resistência ou hesitação que ela tivera mais cedo. Ally se abriu para ele, que tomou o que queria, ao mesmo tempo em que lhe dava exatamente o que ela precisava.

Ally gemeu, enterrando as mãos nos cabelos escuros de Travis e estremecendo ao sentir os fios correndo por entre os dedos. Ele segurou o traseiro dela com uma das mãos, puxando-a com força contra o corpo quente e musculoso. Com a outra mão, puxou a presilha que segurava os cabelos, liberando uma cascata de cachos loiros. Agarrando-a pelos cabelos, ele inclinou a cabeça dela mais para trás, dando acesso completo à sua boca.

Minha nossa, estou encrencada!

Travis a beijou como um homem possuído e Ally respondeu à altura, dando de volta exatamente o que ele lhe dava. A lascívia tomou conta de seu corpo como uma onda. Ela se sentiu quente e úmida, esfregando o corpo contra o dele em uma paixão frustrada, irritada porque queria sentir a pele contra a sua. O casaco pesado impedia que suas mãos tocassem a pele nua de Travis e ela queria tirá-lo. Queria tirar toda a roupa dele.

Travis afastou a boca da dela, ofegante. Outro puxão nos cabelos expôs a pele sensível do pescoço de Ally e a boca dele o explorou, como se quisesse saborear cada parte exposta do corpo dela. — Se você não parar de se esfregar contra mim, daqui a alguns segundos estará nua e deitada de costas

— avisou ele em voz baixa perto da têmpora de Ally. — Ou nua contra a parede — acrescentou ele com voz rouca.

Por um momento maluco, Ally teve vontade de pagar para ver, pressionar o corpo contra a ereção que conseguia sentir no abdômen. Mas ela se sentia exposta demais. E deixar-se aberta para Travis seria mais um erro burro. Ele era sombrio demais, tentador demais e incrivelmente imprevisível. A última coisa de que precisava era ter um caso com o chefe e perder o emprego. Por mais que o quisesse, e certamente o queria, sentiu-se aterrorizada ao pensar em qual seria o resultado de ter um caso com Travis. Ele era um idiota sem coração. Talvez estivesse com vontade de se divertir com ela no momento, mas encontraria outro brinquedo muito em breve. E ela estaria sem emprego.

— Vamos nos atrasar para o trabalho. — Ally tentou não parecer que estava choramingando.

— Sou o dono da empresa. Não acho que teremos problemas por isso —

respondeu Travis, mordendo o lóbulo da orelha dela de leve.

Mas que merda, se ela não se afastasse de Travis imediatamente, arrancaria as roupas dele. Ele afastou a cabeça para lançar um olhar ardente, que quase fez com ela o deixasse nu bem ali. Os cabelos de Travis estavam desgrenhados, como se ele tivesse acabado de sair da cama ou de uma trepada, e as roupas estavam desarrumadas. Era uma visão totalmente diferente do chefe e, puta merda, era incrível. Fazia com que ele parecesse mais amigável e ainda mais sexy do que o normal. — Esqueci. Não tenho mais emprego. Você me demitiu. — Ela puxou os cabelos dele de forma brincalhona.

— Consigo pensar em algumas coisas que provavelmente me persuadiriam a recontratar você — respondeu Travis com voz rouca, apertando possessivamente o traseiro dela.

Incapaz de aguentar a tortura do toque de Travis por mais um momento, Ally se abaixou e passou por baixo do braço dele. — Não deveríamos ter feito isso — disse ela em tom infeliz.

Travis endireitou a gravata e alisou os cabelos. — Foi apenas um beijo, Alison. — Ele pestanejou e o rosto voltou à expressão dura normal.

Apenas um beijo? Seu idiota!

O tom dele era irritante e ela teve vontade de lhe bater por chamar o que acabara de acontecer de apenas um beijo. Para ela, fora uma experiência avassaladora, um abraço que ainda deixava seu corpo quase derretido por causa do calor.

Sem outra palavra, ela pegou a bolsa, virando-se de costas para ele. —

Isso mesmo. Só um beijo. Nada de espetacular — respondeu ela em tom direto, torcendo para que a dor que sentia não pudesse ser detectada na voz.

Ela nem sabia como era um beijo ardente normal. Talvez realmente não fosse nada de extraordinário. Ela não tinha muito com o que comparar.

Ela se virou a tempo de ver Travis pegando o manuscrito e bebendo o restante do café. Por um momento, ela considerou discutir por ele estar levando seu livro, mas, como escrevera para que as pessoas pudessem ler as histórias que tinha a compartilhar, não importava tanto assim. Ele avançou

para levar a xícara para a cozinha, mas Ally o interceptou e levou ela mesma as duas xícaras para a pia. Em seguida, pegou a presilha do chão e prendeu novamente os cabelos. — Hora de irmos — disse ela, atravessando a sala de estar até a porta, torcendo para soar mais calma do que se sentia.

Travis a alcançou, segurando seu braço quando ela abriu a porta. — Ele foi um idiota de perder você, Alison — disse ele. — E, se eu achasse que estava pronta e que não se arrependeria, estaria transando com você agora.

Observar você gozar seria uma das coisas mais satisfatórias que eu faria.

Ally o encarou por um momento, espantada ao ver como ele conseguia ser ardente em um momento e transformar-se em gelo no próximo. Ela corou e sentiu a eletricidade sensual que fluía entre eles, sabendo que uma fagulha no lugar errado causaria uma chama imensa. — Duvido. E foi apenas um beijo — relembrou ela com uma falsa doçura na voz.

— Foi mais do que isso — admitiu ele, percorrendo o rosto dela com os olhos, procurando... alguma coisa.

Ally se virou, sem conseguir aguentar o olhar dele. Ela já se expusera demais. Abrindo a porta, esperou que ele saísse e trancou-a. Ao dar meia volta, ela viu que ele segurava um molho de chaves em frente ao seu rosto.

— Eu prometi — disse ele, soando quase triste.

Ally pegou as chaves. — Prometo nos levar até a Harrison sem um arranhão no carro.

Travis deu de ombros. — Não é com o carro que estou preocupado.

Ele a ajudou a se sentar no banco do motorista, prendeu o cinto de segurança, deu a volta e sentou-se no outro banco. — Você não está acostumada com o carro.

Travis deu instruções a ela durante todo o caminho até o trabalho, apesar de Ally manusear muito bem o carro. Talvez ela nunca tivesse dirigido uma Ferrari, mas entendia tudo o que o carro tinha a oferecer. Algumas vezes, ela acelerou demais, fazendo com que Travis resmungasse para que reduzisse a velocidade. Quando ela finalmente estacionou o carro na vaga pessoal de Travis, ele admitiu, em tom rabugento, que dirigira muito bem, mas estragou o elogio ao relembrar que fora depressa demais. Mas, obviamente, ela não iria dirigir uma Ferrari como uma vovó. Se Travis não resmungasse o tempo inteiro por causa da velocidade, ela teria gostado de acelerar um pouco mais, apesar de não haver muitos locais na cidade onde era possível fazer isso. Ainda assim, a experiência fora incrível.

— Obrigada — disse ela com sinceridade ao devolver as chaves fora do prédio da Harrison. — Você acabou de me ajudar a riscar uma das coisas da minha lista de coisas a fazer antes de morrer.

— Não acho que fazer vinte e oito anos exija uma lista de coisas a fazer antes de morrer, Alison — respondeu Travis, endireitando a gravata ao entrarem no prédio.

Ally deu de ombros ao entrarem no elevador. — Nunca se sabe. Posso ser sentenciada com a pena de morte depois de matar meu chefe bilionário do inferno — respondeu ela suavemente, abrindo um sorriso maligno. — Está com o seu telefone?

Travis a olhou de soslaio. — Sim. Por quê?

— Só queria adicionar alguns lembretes. — Ela estava mentindo, mas, sempre que ele começava a agir daquela forma, causava pensamentos malignos nela.

Ele entregou o telefone com um suspiro. — Se você trocar o toque, será demitida.