A Perdição do Bilionário: Travis

J. S. Scott · Capítulo 2 de 21

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A Perdição do Bilionário: Travis

Capítulo 1

Esvaziando a mente, deixando de lado todos os pensamentos sobre o passado, ela deixou que o corpo exausto sucumbisse.

 

Um mês depois

Ally Caldwell nunca precisava realmente ver o chefe, Travis Harrison, para saber quando ele ia para o escritório. Ele era como uma força da natureza da qual todos se escondiam. O andar superior inteiro do prédio luxuoso da Harrison passava do burburinho de atividade intensa a um silêncio absoluto sempre que Travis, o Tirano, saía do elevador. Todos os funcionários congelavam, como cervos diante de um farol, até que ele passasse, respirando aliviados quando ia embora sem perceber a presença deles. Ninguém queria ser notado por Travis Harrison, pois isso normalmente significava problemas.

Ally suspirou em desalento. Na maioria dos dias, ela gostava das batalhas verbais com um dos homens mais teimosos do planeta. Mas aquele dia não era um deles. Desde que o seu mundo desabara um mês antes, ela não tinha mais a energia nem o desejo de batalhar com Travis, mas fazia isso mesmo assim só porque ele era um idiota.

Empurrando os óculos sobre o nariz e virando-se para o computador, ela murmurou para si mesma:

— Cinco...

— Quatro...

— Três...

— Dois...

— Um...

— Café, Alison — exigiu pontualmente a voz estrondosa de Travis quando ele passou pelas portas automáticas do escritório privado espaçoso,

atravessando a área de recepção com passos determinados sem nem olhar para ela.

Ally revirou os olhos. Ela trabalhava para Travis havia quatro anos e, nos três últimos anos, não buscara café para ele. Mas ele nunca desistira de tentar. — Eu adoraria um pouco, sr. Harrison — respondeu ela, sem erguer o olhar da tela do computador. — Somente creme, por favor — relembrou ela polidamente, como fazia todos os dias. Em alguns dias, ele a xingava.

Em outros, buscava o próprio café com expressão rabugenta, mas sem dizer uma palavra. Ally ficou imaginando o que aconteceria naquele dia.

Travis hesitou na porta do escritório, virando-se para olhá-la friamente.

— Quatro malditos anos e ainda não consigo uma xícara de café no meu escritório? — reclamou ele em tom obstinado.

Ally girou a cadeira e dobrou as mãos sobre a mesa. — É claro que consegue — respondeu ela. — Fiz um bule mais cedo. — Ela acenou na direção da cozinha pequena atrás de si. — E só parei de levar café para você como um cachorro obediente há três anos.

Talvez, se tivesse me agradecido pelo menos uma vez, eu ainda fizesse isso. Idiota.

Travis endireitou a gravata já perfeita ao atravessar o aposento, entrando na cozinha sem dizer nada. Ally fez uma careta ao ouvir o barulho de vidro batendo contra vidro quando Travis serviu o café. Talvez ela não devesse ter parado de servir café a ele anos antes. A falta de habilidade dele na cozinha custara à Harrison muito dinheiro para repor louças. Mas ela se recusara a atender às ordens dele como escrava pessoal, pois era exatamente como a tratava. Ela trabalhava muito para atender Travis como secretária e assistente, esperando que pudesse usar a experiência na Harrison ao voltar para terminar a faculdade, mas colocou um limite nas exigências dele. Ally aprendera, muito tempo antes, que, se cedesse apenas um pouco, Travis a levaria aos limites e continuaria tratando-a como escrava. E ela tinha muitas outras responsabilidades agora na Harrison e tarefas mais importantes do que buscar o maldito café para ele. Portanto, ela parara de buscá-lo, a não ser que fosse algo relacionado a negócios, e não uma necessidade pessoal, em vez de enlouquecer tentando agradá-lo. Não havia como agradar Travis Harrison e as palavras “por favor” e “obrigado” simplesmente não existiam no vocabulário dele, mesmo ao lidar com colegas. Só o fato de ainda ter o emprego mostrava o valor dela na Corporação Harrison e ela imaginava que seria a única validação que jamais receberia. Ela podia não ter se inscrito

em um programa de MBA, mas aprendera o suficiente para saber exatamente como se tornar praticamente indispensável a Travis, o que acontecera em um ano. E, no momento em que percebera como era valiosa como funcionária, parara de aceitar tudo que vinha dele.

Travis saiu da cozinha, colocando com força uma caneca sobre a mesa dela ao passar. — Você pode colocar seu maldito creme sozinha — disse ele abruptamente, andando em direção ao escritório com uma xícara na mão ao acrescentar: — Precisarei...

— Sua agenda do dia está no seu computador, juntamente com as informações que pediu ontem — terminou ela.

— E eu tenho uma reunião...

— Com Jason Sutherland, eu sei. Já está na sua agenda. Ele me telefonou. — Ele sim é um bilionário educado. Ally sorriu ao pegar a caneca de café e os dois pacotinhos de creme que Travis deixara sobre sua mesa. Ele até mesmo deixara uma colher. Obviamente estava sendo simpático naquele dia... por enquanto. Ultimamente, ele fazia aquilo com frequência cada vez maior. Não que estivesse sendo exatamente agradável.

Mas, naquele dia, estava claramente de bom humor, o que significava que seria só difícil de aguentá-lo. Sem dúvida, ele mostraria o lado “escroto” em algum momento. Sempre mostrava.

— Sutherland telefonou para você? — perguntou Travis irritado.

— Hoje pela manhã, antes de você chegar. — Ally olhou diretamente para Travis, algo difícil de fazer quando os dois estavam de pé. Ele era tão alto que ela normalmente olhava para o peito e os ombros enormes. Ally sempre usava os maiores saltos que conseguia aguentar para ficar um pouco mais alta. Qualquer vantagem que conseguisse ao lidar com ele era mais uma arma em seu arsenal.

A aparência dele era impecável e imaculada, como sempre. O irmão gêmeo de Travis, Kade, gostava de implicar com ele por causa dos ternos escuros e entediantes, mas ninguém conseguia vestir um terno sofisticado como Travis Harrison. Claro, a roupa imaculada que vestia era sempre sombria, como ele. Mas o terno cinza escuro que ele usava naquele dia era perfeito, acentuando os ombros largos e cobrindo o que Ally sabia, de vê-lo em roupas mais casuais ou sem o casaco, ser um físico em excelente forma.

Ele não tinha um único fio de cabelo fora do lugar e os olhos escuros, cor de chocolate, eram penetrantes demais para que ela se sentisse confortável.

— O sr. Sutherland achou que seria bom que eu soubesse da reunião de vocês dois, pois monto a sua agenda do dia. Achei muito educado da parte dele entrar em contato comigo — respondeu Ally em tom doce. A verdadeira finalidade do comentário era destacar como Travis não era educado.

Ally sabia da existência de Jason Sutherland, mas nunca encontrara o bilionário pessoalmente. Ele fora muito gentil no telefone e dissera a ela que falara diretamente com Travis porque estava interessado em doar e cuidar dos investimentos da nova ação de caridade que Travis iniciava para mulheres vítimas de abuso doméstico. O amigo de Travis, Simon Hudson, falara sobre a organização de caridade ao amigo da faculdade, Grady, um filantropo muito conhecido da família Sinclair. Grady aceitara participar e mencionara o assunto ao amigo de infância, Jason, que, por algum motivo, se interessara pelo projeto e também queria participar da nova fundação.

— Leve-o ao meu escritório assim que ele chegar. — Travis se virou e entrou no escritório, fechando a porta atrás de si.

— Sim, senhor — resmungou ela irritada para a porta fechada, fazendo a melhor saudação militar fingida na direção dele. Ela sabia muito bem que o gesto deixava o chefe muito aborrecido. Era uma sensação boa fazer algo que o irritava, mesmo que ele não estivesse lá para ver.

Ally sacudiu os dois pacotinhos de creme, abriu-os e derramou-os na xícara de café com um olhar distante, perdida nos próprios pensamentos ao mexer o líquido quente.

Não era que ela não gostava de Travis. Bem... não exatamente. Gostar era uma palavra muito tépida para Travis Harrison. Ele inspirava emoções fortes nos funcionários, do terror à admiração. Não sendo uma pessoa agradável, Travis mantinha uma distância deliberada de todos, portanto, Ally fazia o possível para tirá-lo daquela casca, o que o deixava extremamente irritado. Algumas vezes, ela preferia a raiva dele, em vez da indiferença gelada. Travis era sério demais, sombrio demais e completamente sem humor. Talvez ela não devesse perturbá-lo com tanta frequência, mas era difícil não querer ver o homem que existia por baixo do exterior endurecido. Até o momento, só o que ela conseguira fora a fúria dele nos três anos anteriores. Ela passara o primeiro ano como funcionária dele sentindo-se apenas grata por ter o emprego, querendo agradá-lo para que pudesse manter o salário fantástico que recebia e, talvez, usar a experiência futuramente em um programa de MBA. Em menos de um ano,

ela percebera que ele nunca a demitiria, pois precisava demais dela, apesar de não admitir. Depois daquilo, ela tomara como missão descontrolar Travis Harrison, qualquer coisa que afastasse aquele olhar assombrado que percebera no rosto dele algumas vezes, apesar de nem mesmo ele notá-lo.

Travis odiaria saber que, se alguém olhasse atentamente, veria que ele tem vulnerabilidades.

— Quatro anos e ainda não consegui entender o homem totalmente —

resmungou ela para si mesma, soprando o café antes de tomar um gole da bebida quente. Ele era sombrio e impassível, a não ser que estivesse furioso. Pessoalmente, ela preferia a ira de Travis à inquietude infeliz que sentia nele. Talvez a maioria das pessoas achasse que Travis Harrison era uma pessoa que tinha tudo, mas Ally não pensava assim. E nunca desistira de ver quem era o homem sob o exterior grosseiro.

Certamente, ele tinha qualidades admiráveis. Ele prestava tanta atenção às obras de caridade quanto aos negócios, escolhendo cuidadosamente as organizações para as quais dava fortunas. Mas Travis Harrison não fazia nada sem dedicação completa. Quando decidia sobre as causas que valiam a pena, trabalhava tanto para que aquelas organizações de caridade fossem bem-sucedidas quanto para os negócios. Ally admirava isso em Travis.

Infelizmente, com frequência demais, ele também era um idiota completo.

Como um homem podia ser tão completamente sombrio quanto seu chefe, mas, ainda assim, ajudar tanto outras pessoas? Ela se fizera aquela pergunta durante anos, mas não descobrira ainda a resposta.

— Srta. Caldwell! — gritou Travis do escritório, sem se preocupar em usar o interfone. Não que precisasse.

Ally se levantou resignada. Ela esperara o grito familiar dele, já sabendo o que Travis queria. Alisando a saia apertada sobre os quadris curvos para que a bainha ficasse novamente abaixo dos joelhos, ela se recriminou novamente pela dieta ruim e pela falta de exercícios. A agenda maluca se mostrava na aparência e, para começo de conversa, ela nunca fora muito bonita. A saia fora do tamanho certo alguns anos antes, quando ela já não era muito magra. Agora, todas as peças de roupa que tinha estavam apertadas demais e ela não tinha dinheiro para renovar o guarda-roupa.

— Dieta — murmurou ela de forma automática, prendendo atrás da orelha alguns cachos de cabelo que tinham escapado da trança loira que descia pelas costas. Ela colocou os óculos de leitura cuidadosamente sobre a mesa, sabendo que não precisaria deles para aquele confronto com Travis.

Ela abriu a porta e entrou. Em seguida, encostou-se contra a porta para fechá-la. — Precisa de alguma coisa, sr. Harrison? — perguntou ela com doçura excessiva.

— O que diabos é isto? — Ele sacudiu uma folha de papel, encarando-a furioso.

— É um lembrete sobre as minhas férias. Fiz o pedido há quase um ano

— respondeu ela calmamente, aproximando-se da mesa.

— A resposta é não — respondeu Travis com a voz irritante de um ditador, rasgando o lembrete e jogando-o na lata de lixo.

— Não foi uma solicitação. Eu pedi minhas férias há um ano. Só estava lembrando a você que precisará de um substituto durante duas semanas.

— Impossível — descartou ele. — Irei para o Colorado em um daqueles fins de semana e precisarei de você lá.

Ally rangeu os dentes. — Escolhi essas duas semanas por causa do meu casamento. Você sabia disso há um ano. — Ela se inclinou sobre a mesa, colocando a palma das mãos na beirada e encarando-o furiosa. — Não tirei um único dia de folga durante os quatro anos em que trabalho aqui. Vendi todas as férias por causa do dinheiro. Desta vez, preciso tirar alguns dias. E

vou tirá-los.

Travis cruzou os braços teimosamente. — Fazer café pode não estar na descrição de seu trabalho, srta. Caldwell, mas viajar comigo quando preciso certamente é uma condição para o seu emprego. E não precisei deste tipo de assistência nos quatro anos em que trabalha para mim.

Travis tinha razão. Ele nunca lhe pedira que viajasse, o que era parte do seu trabalho caso houvesse a necessidade. Ele fazia tudo sozinho. Então, por que precisava dela agora? — É importante — murmurou ela.

Ally sabia que precisava de alguns dias de folga para recuperar a sanidade. Ela precisava arrancar a casca das feridas e lidar com os destroços que Rick deixara para trás. Os extratos dos cartões de crédito dela tinham chegado no dia anterior e ela percebeu que não se lembrara de cancelar os privilégios de usuário de Rick. O idiota usara os cartões imediatamente depois que ela fechara a venda da casa e pegara-o traindo-a, provavelmente para comprar presentes caros para a nova namorada. Nem mesmo nas ideias mais loucas, ela teria imaginado que Rick faria isso. É claro, ela também nunca achara que o encontraria trepando com outra mulher na casa deles. E

a casa precisava ser vendida. Não só ela não precisava se lembrar do noivado fracassado e dos cinco anos que perdera, como não conseguiria

pagar a hipoteca cara sem a ajuda dele. Não com as outras dívidas que ele fizera no nome dela. E Ally não queria se matar, trabalhando em dois empregos, só para sustentar uma casa que não desejava mais. Não era assim que sua vida deveria ser. Ela deveria ter um noivo, com quem se casaria em breve, que finalmente estava trabalhando em sua profissão, contribuindo para a vida deles juntos. Em vez disso, ela precisava lidar com aquela confusão, com o sonho destruído de finalmente ter uma vida normal.

Não pense nisso agora. Você resolverá tudo quando tiver um minuto para respirar. Concentre-se no trabalho.

Travis fez um som desagradável. — Você vai se casar com um idiota. É

melhor se não se casar. Estará divorciada em menos de um ano.

Ally rangeu os dentes furiosa. Quantas vezes Travis dissera aquilo? E, minha nossa, ela ficava muito mais irritada por ele realmente ter razão. —

Não vou me casar — respondeu ela com voz incerta.

Travis afastou o olhar abruptamente do computador, encarando-a de forma intensa. — Desde quando?

— Cerca de um mês atrás, quando encontrei meu suposto futuro marido transando com uma garota jovem, maior de idade por pouco, atraente, de peitos grandes, em nossa cama novinha — respondeu ela, erguendo a voz e sem censurar as palavras. Travis a deixava louca, mas, pela primeira vez em quatro anos, ela se viu perdendo totalmente o controle. — Portanto, peço que me desculpe se preciso das malditas férias, que mereço de sua empresa, para lidar com isto. Não tenho um segundo para respirar entre o emprego aqui e o no Sully’s. Tenho coisas pessoais que preciso resolver. Tenho uma casa que agora preciso vender e preciso dar um jeito no buraco dos meus cartões de crédito e em outras dívidas que não foram criadas por mim. —

Ally respirou fundo, sentindo, pela primeira vez, o pânico invadindo-a. —

Preciso de um pouco de tempo para resolver tudo. — O que faria dali em diante? A vida inteira dela tinha girado em torno dos planos que tinha e da faculdade de Rick.

— Você não me contou — respondeu Travis calmamente.

Ally jogou as mãos para o alto, tentando se conter para não colocá-las em volta do pescoço de Travis. Como se ele fosse aberto a conversas daquele tipo. Passava a maior parte do tempo latindo ordens para ela. — Não sabia que precisava dividir minha vida pessoal com meu chefe idiota e egocêntrico. Guardo meus problemas para mim mesma porque sei que é assim que você gosta. Você me paga para trabalhar e eu faço o meu

trabalho. Agora, quero tirar minhas férias merecidas. — Ela realmente acabara de chamar Travis de idiota? Eles brigavam constantemente e com certeza ela quisera dizer aquelas palavras a ele um milhão de vezes no passado, mas nunca fora tão direta e antiprofissional. Estava decididamente perdendo o controle. — Por favor. Só me deixe tirar minhas férias. Voltarei uma pessoa melhor.

— Ele magoou você — disse Travis em tom neutro.

Ally se jogou na cadeira em frente à mesa de Travis, sentindo-se esgotada. — Minha vida inteira girou em volta da carreira dele durante anos. Larguei a faculdade e desisti de tentar o MBA para que ele pudesse terminar a dele primeiro. Fazia sentido na época. Pelo menos, achei que fazia. Sacrifiquei tudo o que queria, mas eu tinha um plano para que tudo desse certo. Eu trabalharia bastante, ajudaria Rick a terminar a faculdade e, depois, seria a minha vez. Exceto que, agora que chegou a minha vez, não é mais — respondeu ela baixinho, pois a raiva se fora.

— Eu não sabia que você tinha outro emprego. O que você faz? —

Travis se recostou na poltrona, mas não afastou o olhar dela. Os olhos escuros a observavam atentamente.

— Sou bartender. Trabalho no Sully’s Oasis praticamente todas as noites. Comecei como garçonete e o dono me ensinou a fazer drinques.

Depois de algum tempo, fiquei boa nisso. Paga mais.

Travis ergueu a sobrancelha. — Mais do que eu pago a você?

— Não. Mais do que uma garçonete. Tive que trabalhar para subir. — Ela levara dois anos, mas conseguira um aumento no Sully’s. — As gorjetas são boas. Você me paga um salário muito bom. Nunca conseguiria ganhar tanto como bartender. Mas o emprego extra me ajuda a pagar as contas. Preciso vender a casa, pagar a dívida que meu noivo idiota fez e livrar-me do emprego extra para que possa voltar à faculdade em meio expediente.

— Você parece cansada, Alison — observou Travis, com o olhar passeando sobre seu rosto.

— Estou exausta há anos. Já estou acostumada. — Ally riu, tentando deixar o clima mais leve. Não era o tipo de conversa que normalmente tinha com Travis e ela se sentia estranha. Ficava muito mais confortável quando estava brigando com ele.

— Espero que ela seja uma boa substituta temporária — disse Travis finalmente depois de um momento de silêncio. — Ainda precisarei de você no Colorado, mas pode tirar suas férias antes da viagem. Adiante-as uma

semana para que volte antes da minha partida. Suponho que, como não vai mais se casar, não importa quando sairá.

Ally olhou para Travis surpresa. — Ele é um bom substituto, sim, e isso significa que eu teria que sair de férias na semana que vem.

— Então vá. — Travis deu de ombros.

— O que faremos no Colorado? — perguntou ela curiosa.

Travis fez uma careta. — Arrecadação de fundos. Preciso de uma companhia.

Ally o encarou. — Não vou como sua companheira a um evento de arrecadação de fundos. Isso é algo pessoal. Achei que tinha negócios lá.

— Tenho. E, tecnicamente, você não será minha companheira. Preciso participar desse evento e não quero ir sozinho — resmungou Travis. — Não é tão difícil. Você vai, conversa com as pessoas e tenta não chamá-las de idiotas egocêntricas. Depois, você come e bebe o que eles oferecerem. Tate Colter é um associado e um amigo meu há anos. Concordou em fazer esse baile de caridade somente se eu fosse ao Colorado, pois faz algum tempo que não o visito. Ele quer que eu esteja lá. Ir sozinho seria... — Travis tossiu antes de terminar — estranho.

— Por quê? — Ally cruzou os braços em frente ao corpo. Não havia nada de estranho em ir sozinho a um evento de arrecadação de fundos. Devia haver alguma coisa que Travis não lhe dissera. — Você vai a esse tipo de evento o tempo todo. Não precisa de mim.

— Esse é... diferente — respondeu Travis hesitantemente. — Só preciso que vá comigo, Alison. Tecnicamente, é um evento de negócios. Sua presença é necessária. O substituto poderá cuidar de tudo com Kade enquanto estivermos fora.

Ally observou Travis curiosa, imaginando o que ele não dissera. — Não tenho o traje necessário para esse tipo de evento. Nunca precisei de nada além de trajes de trabalho.

— Eu providenciarei. Você pode voltar ao trabalho. — Ele acenou com a mão como se ela fosse uma mosca irritante.

Ally odiava quando Travis fazia aquilo. Ela se sentia como uma colegial chata. — E por quanto tempo ficaremos fora?

— Sairemos na sexta, voltaremos na segunda. O baile mesmo é no sábado à noite – respondeu Travis com expressão ausente, como se já tivesse deixado o assunto de lado.

Ally se levantou, alisando rugas imaginárias da saia justa sobre os quadris. — Dieta — relembrou ela a si mesma, virando-se para sair do escritório. Ela queria discutir com Travis, mas não podia. Ele nunca lhe pedira que viajasse e era parte de seu trabalho como assistente dele. O fato de Travis ser um solitário e preferir ser assim fora um dos motivos pelos quais ela conseguira ter um segundo emprego. Ele normalmente estava sozinho e não sentia a necessidade de ter companhia. E nunca lhe pedira nada fora do horário de trabalho. Ela faria aquilo simplesmente porque ele não exigira nada, como poderia ter feito. De alguma forma, apesar de ele não ter demonstrado, parecia ser algo importante. Além do mais, ele nunca lhe pedira que viajasse em sua companhia para participar de algum evento.

— Totalmente desnecessário, Alison — disse Travis em voz baixa e rouca. Tão baixa, na verdade, que Ally quase não escutou.

Ela se virou novamente para ele. — O que é desnecessário?

— Você não precisa de dieta — retrucou Travis.

Ally revirou os olhos. — Ah, claro. Meu corpo maravilhoso certamente não impediu que meu noivo transasse com outra mulher na nossa cama —

respondeu ela, surpreendendo-se novamente com as palavras que saíram de sua boca. Ela discutia com Travis com bastante frequência, mas nunca de forma tão pessoal.

Travis se levantou lentamente, sem afastar por um segundo o olhar ardente do rosto dela ao atravessar a sala devagar, parando bem à frente dela. Ally recuou um passo, ficando presa entre o corpo enorme de Travis e a porta quando ele avançou novamente. O perfume masculino encheu o ar à volta dela e Ally quase suspirou ao inalar o aroma inebriante. Ela não chegava tão perto dele com frequência, mas, sempre que isso acontecia, sentia os joelhos fracos com o perfume masculino e viril que emanava do corpo de Travis como feromônios, incitando-a a se aproximar o suficiente para se perder nele. Travis era um idiota teimoso na maior parte do tempo, mas uma coisa que Ally não podia negar era que ele era um homem deslumbrante, potente e cheio de testosterona.

Travis colocou uma mão em cada lado da cabeça de Ally, abaixando-se até que ela estremeceu ao sentir o hálito quente acariciar sua orelha.

— O seu ex-noivo era um idiota. Você, Alison, tem o tipo de corpo feminino e macio que qualquer homem deseja sob si ao enterrar o pênis no corpo de uma mulher. Tudo em você é absolutamente perfeito. — A voz dele era rouca, quente e hipnotizante. — Se ele tivesse sido inteligente, teria

feito você gozar. Ele teria lhe dado exatamente o que você queria para que ficasse tão presa que nunca teria ido embora. E ele nunca desejaria outra mulher enquanto tivesse você na cama dele.

Ally quase gemeu contra o ombro de Travis, com a voz sedutora no ouvido deixando-a excitada. — Ele não fez isso — admitiu ela, encostando a cabeça novamente na porta. Rick nunca se importara se ela estava ou não satisfeita.

Travis endireitou o corpo, olhando para baixo para encará-la e com o rosto transformando-se em uma máscara de indiferença. — Então ele não merecia você. Na verdade, ele nunca mereceu. — Ele deu um passo para trás, dando espaço para que a porta fosse aberta.

Ally abriu a porta desajeitadamente. O que diabos acabara de acontecer com ela? Ally saiu correndo, sem olhar para trás ao fechar a porta do escritório, com as mãos trêmulas e os mamilos rígidos e sensíveis em resposta ao puro erotismo na voz baixa e sedutora de Travis sussurrando aquelas coisas em seu ouvido.

Ela se sentou à mesa, sentindo-se confusa, imaginando se a própria imaginação fértil acabara de inventar aquele momento particular. Travis Harrison nunca olhara para ela com outro sentimento que não fosse irritação. E certamente nunca dissera nada que a deixasse excitada e perturbada em poucos segundos.

Bebendo o restante do café já morno, ela colocou os óculos sobre o nariz e virou-se para o computador, xingando-se mentalmente para parar de pensar em Travis. Afinal de contas, ele nem a tocara. Não era nada com que devesse se importar. Ele fizera um elogio muito estranho, sim, mas isso não mudava nada. Travis só estava... diferente naquele dia, com um humor muito esquisito.