A Perdição do Bilionário: Travis
Capítulo 7
Ela ficou em silêncio por um momento, encarando-o de forma interrogativa. — E quais são exatamente as minhas funções?
Travis não pensara naquilo. Ela já fazia o trabalho de dois funcionários.
— Decidiremos no decorrer do tempo.
— Não vou dormir com você — avisou Ally, franzindo a testa.
Travis cruzou os braços em frente ao peito, sentindo-se infeliz, e encarou-a de volta. — Você dormirá, sim. Mas, quando isso acontecer, não será porque é parte do seu trabalho. Fará isso livremente porque quer.
Ally tomou um gole do refrigerante e respondeu: — Não conte com isso.
— E você levará meu café todas as manhãs, como parte de suas novas funções — informou ele.
Ela balançou a cabeça negativamente. — Claro que não.
Ele já sabia que ela diria aquilo, mas não se importou. Desde que estivesse segura e ele conseguisse persuadi-la a voltar a trabalhar na Harrison, aceitaria de bom grado.
Quando Ally acordou no dia seguinte, era quase meio-dia. Quando fora a última vez em que dormira até tão tarde? Ela se espreguiçou, fazendo uma careta quando o corpo protestou por causa do movimento súbito. Como sempre, Travis tinha razão. As áreas arranhadas da pele doíam mais agora do que no dia anterior.
Ele ainda está aqui?
Ela saiu cuidadosamente da cama, pegando o roupão para vesti-lo sobre a camisola leve. Travis a mandara para a cama, dizendo que estaria lá se precisasse de alguma coisa. Ele realmente ficara apenas para garantir que ela ficaria bem? Aquele homem enfurecedor estava deixando-a confusa. Em um momento, era o mesmo idiota de sempre. No momento seguinte, fazia com que ela balançasse a cabeça em confusão. Ela ficara furiosa por ele ter interferido em sua vida. Ainda assim, o que ele fizera fora uma das coisas mais simpáticas que alguém já fizera por ela, mesmo sendo algo arrogante e imposto. Estranhamente, ela acreditara quando ele dissera que não fizera aquilo por si mesmo. Mas as ações benevolentes não eram consistentes com o Travis que ela conhecia. Certamente, ela o vira fazer coisas incríveis pela família, coisas que eles provavelmente nem tinham ciência. No entanto, ela não era família, apenas uma funcionária valiosa.
Curiosa, ela desceu a escada, passando pelas portas dos quartos e do banheiro e vendo todos os aposentos abertos e vazios. A mochila de Travis estava sobre a cama do quarto principal, o mesmo quase que ela se recusara a usar, pois fora onde encontrara Rick transando com a namorada. A prova da presença de Travis naquele quarto deu a ela uma estranha sensação de satisfação. A ideia de Travis dormindo naquela cama de alguma forma exorcisou alguns dos fantasmas do passado.
Ally parou abruptamente ao entrar na cozinha, vendo as pilhas de papel sobre a mesa. Travis estava sentado em uma das cadeiras, movendo papéis de uma pilha para outra. Ele resmungou e largou uma folha de papel sobre uma das pilhas, passando para a próxima com a mesma concentração intensa que ela via em seu rosto todos os dias no trabalho.
— O que está fazendo? — perguntou ela perplexa, notando a caixa dela, onde guardava todos os papéis, sob o cotovelo dele.
Travis ergueu o olhar, com os olhos escuros passeando por seu corpo e parando em seu rosto. — Contemplando como eu gostaria de colocar o seu ex no hospital para uma longa estadia. Ele estaria lá agora se eu não achasse que isso só causaria mais problemas para você.
Ally abriu a boca, mas fechou-a novamente ao ver a expressão frustrada no rosto de Travis. Pela primeira vez, ele não parecia tão imaculado. Parecia perigosamente desarrumado, com os cabelos desgrenhados como se tivesse corrido a mão por eles várias vezes. — Esses são meus papéis pessoais?
Travis deu de ombros. — Contas são coisas pessoais?
— Por que está vasculhando as minhas contas? Como ousa? — A raiva e a curiosidade batalhavam dentro dela.
— Você disse que precisava limpar a bagunça que o seu ex fez em sua vida para que pudesse prosseguir. É o que estou fazendo, limpando. —
Travis declarou aquilo com absoluta calma, lançando a ela um olhar questionador como se não entendesse o protesto dela. — Você deixou tudo arrumado, fácil de encontrar. É muito organizada. Tudo está em ordem alfabética. Apesar de eu não ter certeza de que você deveria rotular algumas contas como “idiota do ex”.
Ally respirou fundo e soltou o ar lentamente, sem saber se ria ou se estrangulava Travis. — Eu disse que precisava resolver tudo. Não acredito que está olhando as minhas contas.
— Na verdade, já terminei — retrucou Travis calmamente, recolhendo as pilhas e guardando-as na caixa. — E, se estava noiva, por que o idiota nunca comprou uma aliança para você? Ou você que não quis usá-la?
— Ele não comprou. Disse que não tínhamos dinheiro para isso.
— Ele comprou. Está em uma das contas. — Travis olhou para ela com preocupação. — Depois que vocês terminaram, por que diabos não o tirou de suas contas?
— Ele comprou a aliança para ela — respondeu Ally, sentindo a náusea subir do estômago para a garganta, horrorizada novamente por ter sido tão idiota. — Só olhei para o saldo. Não consegui me forçar a ver o que ele tinha comprado. Em todo o tempo que ficamos juntos, ele nunca comprou uma joia para mim. Mas usou meus cartões e meu crédito para comprar milhares de coisas para ela. — Ally parou por um segundo para controlar as emoções. — Eu fui ingênua. Acho que nunca me ocorreu que um homem com quem passei cinco anos faria dívidas em meu nome depois de ter me traído.
— Mas que cara filho da puta — rosnou Travis, fechando a caixa com um barulho alto.
Ally sentiu os olhos se encherem de lágrimas, com uma sensação enorme de não ter sido valorizada deixando-a atordoada. — Eu não era importante o suficiente. Não importava o que eu fazia, nunca era suficiente.
— Não chore — disse Travis em tom sombrio. — Ele não vale a pena.
Acabou. Está tudo pago e você pode seguir a vida, Ally. Ele era uma sanguessuga que não se importava com ninguém além de si mesmo. O
problema não era você. A maioria dos homens mataria para ter uma mulher como você. O problema é ele, não você.
A voz de Travis soou tão sincera que Ally teve vontade de chorar ainda mais. — Tenho que pagar você. Não sou da sua família, Travis. Você não pode simplesmente assumir o controle da minha vida. — Ela queria brigar com Travis, ficar furiosa por ele ter interferido em suas coisas. Mas, na verdade, o que ele estava fazendo era uma das coisas mais doces que alguém já fizera por ela. Por isso, Ally tinha dificuldade em ficar brava com ele. Travis era voluntarioso e estava acostumado a cuidar de tudo. Mas quando fora que um homem se importara ou ouvira o que ela queria, oferecendo, ou até mesmo exigindo, que o deixasse ajudá-la a tornar seus sonhos realidade?
— Achei que quisesse deixar tudo no passado. — Travis parecia confuso.
— E não, não sou da sua família, o que é realmente uma ideia horrenda se levar em consideração como quero desesperadamente trepar com você.
Seria muito esquisito.
Ally suspirou. Não tinha dúvidas de que Travis queria transar com ela, mas não sabia o motivo. — É por isso que está fazendo isso tudo? — Os homens não pagavam as contas das funcionárias nem organizavam a vida delas para que fosse melhor sem motivo algum.
— Não — respondeu Travis com voz rouca. — Acho que eu só queria fazer com que você sorrisse para mim.
Aquela resposta a deixou atônita. Ela estudou o rosto de Travis, onde os arranhões que sofrera ao salvar a vida dela ainda estavam evidentes. Com os cabelos desgrenhados, o rosto cheio de marcas vermelhas, vestindo apenas uma calça jeans preta e um pulôver escuro, ele parecia quase...
vulnerável.
Ela sentiu os lábios tremerem por um momento ao prender a respiração atônita. Em seguida, não conseguiu se conter e sorriu como uma louca. Sim, ela estava furiosa por ele ter vasculhado seus papéis pessoais, mas o desejo de agradá-la estava estampado no rosto dele, o que fez com que seu coração saltasse de alegria. Travis Harrison, bilionário extraordinário, tirara a manhã para ajudá-la sem querer nada em troca além de vê-la felz. — Assim está bom? — perguntou ela, ainda com um sorriso largo no rosto ao se aproximar do bule de café. — E vamos ter que conversar sobre como pagarei você e sobre como é errado mexer nos papéis dos outros.
Travis se mexeu desconfortável. — Esse sorriso foi suficiente para eu ficar de pau duro o dia inteiro.
Ally riu ao servir uma xícara de café. Não conseguiu evitar. — Mas você queria — relembrou ela.
— Ainda quero. Mas será muito confortável. Acho que vou ter que passar outra noite na sua cama me masturbando com fantasias em que trepo com você — disse ele em tom direto. — Mas posso garantir que as minhas fantasias sobre você foram muito melhores do que a trepada dele com a namoradinha poderia ser.
Ally quase engasgou com o café. Ela sentiu o corpo quente ao pensar em Travis nu, masturbando-se na cama dela, enquanto imaginava coisas que fazia com ela. — Você não fez isso — retrucou ela.
— Ah, fiz sim — respondeu Travis em tom malicioso. — E foi muito satisfatório saber que eu provavelmente tive mais prazer naquela cama com minhas fantasias sobre você do que ele com a namorada.
Ok... talvez ele tivesse feito isso. E aquilo deixou Ally ainda mais quente.
Se os fantasmas do ex transando com outra mulher naquele quarto ainda não tinham sido exorcisados, agora estavam, com certeza. Mudando de assunto, ela se sentou ao lado dele. — Podemos conversar sobre meu novo cargo e os termos do salário? — Ela não conseguiria passar mais um momento pensando em Travis acariciando a si mesmo.
— Não — respondeu ele de forma simples, pegando a própria xícara de café e tomando um gole. — Considere um bônus. Mas não vou discutir se
me deixar ser a primeira pessoa a ler o segundo livro da sua série de fantasia. Quero saber o resto da história.
— Você leu mesmo o primeiro? — perguntou ela espantada. Ele deveria ter lido o manuscrito quase imediatamente para já ter terminado.
— Eu disse que queria ler. É um livro bom, Ally. Muito bom. Você precisa terminar a série. O jovem herói consegue chegar à princesa?
Ele dissera que queria ler o livro, mas as pessoas diziam esse tipo de coisa o tempo todo, sem que fosse necessariamente verdade. Obviamente, ele lera a história, pois queria saber sobre o herói e a princesa. — Meu herói ainda é um pouco jovem para isso. — Ela tomou um gole do café. — Você não parece ser o tipo de pessoa que lê fantasia para adolescentes.
— Eu cresci lendo fantasia — respondeu Travis pensativo. — As Crônicas de Nárnia foram uma das minhas favoritas. Depois de ler o primeiro livro, eu me lembro de procurar em todos os armários que tínhamos, tentando achar uma porta secreta para que pudesse levar Kade e Mia para outro lugar.
O coração de Ally ficou apertado ao pensar em um Travis jovem tentando escapar da infância horrível. — Adorei aquela série. — Também fora uma de suas favoritas pelos mesmos motivos de Travis: escapar da infância sofrida.
— Você precisa escrever, Ally. Termine os livros. Você tem talento. Não faço ideia de por que o livro foi rejeitado, mas livros como o seu iluminam a vida de muitos jovens. Eles podem escapar para um sonho quando tudo mais na vida é difícil. — Travis a encarou com uma expressão pensativa.
Em seguida, colocou a mão no bolso e tirou uma caixinha de veludo. —
Perdi o seu aniversário, mas isto me fez lembrar de você. Era para ter lhe dado ontem.
Ally olhou por um momento para a caixa sofisticada que Travis segurava.
Em seguida, estendeu a mão trêmula para pegá-la. Ela não estava acostumada a receber presentes, especialmente de homens. — Por quê? —
perguntou ela nervosa.
— É um lembrete para que siga seus sonhos. E um presente atrasado de aniversário. Não é nada demais — disse Travis tenso, como se estivesse sentindo-se desconfortável.
Ally abriu a tampa e soltou uma exclamação ao ver o conteúdo. No interior, aninhado sobre o veludo vermelho, estava o colar mais exótico que ela já vira. Mas não foram os diamantes nem as safiras que chamaram sua
atenção imediatamente, foi o desenho. Era um pequeno unicórnio, com o corpo inteiro brilhando com diamantes brancos. O chifre e os olhos eram feitos de safiras pequenas. — Meu unicórnio — disse ela sem fôlego, pegando a joia que era uma réplica quase exata do unicórnio de seus livros.
— Ele não fala, como o seu, mas espero que se lembre de escrever sempre que o usar — disse Travis com voz rouca.
As lágrimas correram pelo rosto de Ally quando ela tocou na fera delicada e bela pendurada na corrente de ouro. — Não sei o que dizer. —
Ela realmente não sabia. Ninguém nunca lhe dera um presente tão especial.
— A primeira joia que ganhei de presente na vida — murmurou ela. — É
linda. — Ela também sabia que era cara. — Travis, é um presente caro demais para que eu possa aceitar.
— Besteira. Eu disse que não é nada demais — resmungou ele. — Não vou aceitá-lo de volta, a não ser que diga que não gostou. Nesse caso, vou comprar alguma outra coisa.
— Eu adorei — gritou ela ansiosa. — Mas não recebo presentes assim. É
demais. Mas é incrível.
— Não é nada comparado ao que quero dar a você, Ally. E ainda quero ser o primeiro a ler o próximo livro — exigiu ele.
Ally moveu o olhar do unicórnio brilhante para o rosto dele, vendo que seus olhos estavam turbulentos e desconfortáveis, como se não soubesse exatamente como se expressar. — Você acredita tanto assim nos meus livros?
— Não é só nos seus livros. Eu acredito em você — admitiu ele com tom sincero.
Com o coração pronto a pular do peito, Ally se levantou e aproximou-se de Travis, colocando os braços em volta dele gentilmente e beijando-o de leve no rosto. — Obrigada — sussurrou ela, sem conseguir mostrar o quanto a fé dele significava. Ela queria dizer a ele, queria que soubesse o quanto o apoio dele significava depois do que passara com o ex. Mas o nó na garganta não a deixou dizer mais nada. Portanto, ela simplesmente o abraçou, com as lágrimas ainda escorrendo pelo rosto. — Eu adorei o colar e vou ficar com ele. Vai me lembrar sempre de que uma pessoa realmente gostou do meu livro — disse ela em tom leve, sabendo que Travis não conseguia lidar facilmente com as emoções. — E nós vamos conversar sobre como vou pagar as contas. — Ela o soltou relutantemente e sentou-se novamente.
— Não, não vamos — respondeu Travis. — E esse abraço foi suficiente para que eu fique de pau duro a semana inteira.
Ela riu, divertida com o olhar no rosto dele. Ela duvidava que Travis ficasse excitado com um simples abraço, mas ele fazia muito bem para o seu ego ferido. Travis Harrison poderia ter qualquer mulher que quisesse, quando quisesse. Mas ela deixou que os elogios a envolvessem, deixou que o fato de ele a achar atraente aquecesse sua alma. — Não consigo acreditar que você não foi para o escritório hoje. Vamos trabalhar amanhã? —
perguntou ela, sabendo que Travis nunca faltara a um dia de trabalho.
— Claro que não. E terei que trocar o curativo dos seus machucados de novo mais tarde. Você não vai trabalhar por algum tempo. Suas férias começaram mais cedo. — Travis lançou a ela um olhar obstinado.
Ally revirou os olhos. — Estou bem. Você não precisa cuidar de mim.
— Mas vou — respondeu ele irritado. — Portanto, acostume-se com a ideia.
Ally cruzou os braços em frente ao corpo, adorando secretamente a proteção que ele oferecia, mas, ao mesmo tempo, sentindo-se confusa. —
Por quê? Sou apenas uma funcionária. Não sou como Mia ou Kade.
Entendo que interfira na vida deles. Mas por que na minha?
— Eu não interfiro na vida deles — respondeu Travis irritado.
— Ah, então você não fez Mia desaparecer por dois anos para que o ex não a ferisse, sem contar nada a ninguém, exceto à sua equipe de segurança? E foi coincidência estar no Colorado quando aquele mesmo ex teve um acidente de carro fatal? — Travis achava que era completamente cega e surda? Ela era assistente dele. Via e ouvia praticamente tudo o que acontecia no escritório.
— O que diabos você sabe sobre isso? — Travis lançou um olhar penetrante a ela.
— Eu sei que Mia telefonou para você um dia antes de desaparecer e parecia perturbada. E desapareceu no dia seguinte. Todos os dias, depois disso, você teve uma reunião com a segurança bem cedo pela manhã, coisa que nunca fizera antes. Você nunca se importou com a própria segurança. E
sei que você se distanciou de Kade e Max. Além do mais, sei que você não ficou triste, como sei que teria ficado, se achasse que alguma coisa acontecera com a sua irmã.
— Você sabia o tempo inteiro? — perguntou Travis incrédulo. — E
nunca contou nada a ninguém.
— Por que contaria? Percebi que, de alguma forma, você estava tentando protegê-la — respondeu Ally. — Por que eu colocaria a segurança dela em risco? Sou sua assistente e nunca trairia você.
— Como poderia saber com certeza que eu a estava protegendo? E se eu tivesse feito alguma coisa para tentar me livrar dela? E se eu quisesse a parte dela das ações e das empresas?
Ally fez um gesto de desprezo. Obviamente, Travis nunca se vira quando olhava para Mia, nunca notara o amor que sentia pela irmã nas profundezas de seus olhos. Talvez não soubesse se expressar bem, mas o amor pela irmã era evidente. — Impossível — respondeu Ally em tom firme. — Eu não entendia tudo o que estava acontecendo, mas sei o quanto gosta de Mia e era tudo de que precisava saber.
— Ele a atacou, bateu nela, fez chantagem — admitiu Travis com voz rouca. — Quando eu finalmente o encontrei, ele fugiu. Eu segui.
Convenientemente, ele caiu de uma ribanceira com o carro. Mas eu fiz com que isso acontecesse. Eu o matei. E nunca tive um pingo de remorso. Só fiquei feliz porque o idiota estava morto e não poderia matar a minha irmã.
— Também fico feliz — afirmou Ally.
— Você não fica assustada por eu ser um assassino? — perguntou Travis com olhar sombrio.
— Não. Você fez o que era preciso para proteger Mia. Só lamento que tenha precisado carregar esse fardo sozinho.
— Não tinha outro jeito. EU não podia arriscar que Max e Kade denunciassem a localização dela — disse Travis com remorso.
Ally se perguntou se Kade e Max sabiam o preço que Travis tivera que pagar para não contar nada a eles, assumindo o fardo de saber completamente sozinho. — Você ama os seus irmãos, Travis. Eu sempre soube disso. Acho que nunca perdeu um dos jogos de Kade. Ele sabia que você estava sempre lá? — Sempre fora Ally quem providenciara o jatinho para que Travis voasse para onde Kade estava jogando e para trazê-lo de volta no mesmo dia.
Travis deu de ombros. — Eu não queria deixá-lo nervoso. Só queria estar lá.
Eu só queria estar lá. Subitamente, Ally percebeu que aquela frase resumia quem era Travis: um homem que queria apoiar os irmãos e não se importava se levaria crédito por ser um irmão incrível para eles.
Provavelmente, nem Mia nem Kade percebiam com que frequência Travis
os apoiara sem que soubessem de nada. Mia sabia o quanto Travis aguentara para mantê-la escondida e segura, como tivera que se isolar do próprio irmão e do cunhado? Ela sabia o quanto Max e Kade se ressentiam do que ele fizera? Kade percebia que Travis assistira a todos os seus jogos e como ficara arrasado com o acidente dele? Depois do acidente, ele passara no hospital praticamente todos os momentos em que estava acordado. —
Você é um irmão incrível, Travis Harrison — disse Ally baixinho. — Eu teria dado qualquer coisa para ter alguém como você.
— Ainda assim, não quero ser seu irmão — respondeu Travis em tom agressivo. — Quero demais transar com você. — Ele se levantou e foi até o balcão da cozinha para pegar os comprimidos de analgésico, que entregou a ela. — Tome isto. Precisamos trocar esses curativos.
Ally pegou os comprimidos da mão dele e engoliu-os com um gole de café. — São só arranhões, Travis.
Ele fez um gesto de desprezo ao responder: — Você não precisa deixar que aconteça uma infecção. — Ele fez uma careta ao se sentar novamente.
— Você está sentindo dor — comentou Ally. — Você se machucou?
Achei que estava bem.
— Só arranhões por bater no asfalto — respondeu Travis, não querendo que ela se preocupasse. — Não é nada demais.
— Você está sentindo dor. Deixe-me ver — disse ela em tom firme.
Travis se virou obedientemente na cadeira e levantou a camiseta. Ally soltou uma exclamação ao ver uma contusão do tamanho da mão na parte inferior das costas dele. Estendendo a mão, ela a tocou com a ponta do dedo. — Meu Deus, Travis. Eu sinto muito.
— Caí sobre uma pedra ao bater no chão. Vou ficar bem — respondeu ele.
— Talvez seja preciso fazer um raio-X. E se você quebrou alguma coisa?
— Não quebrei. Já me machuquei o suficiente para saber.
— Há mais? Onde elas terminam? — Ally ficou abalada com o fato de que não sabia que Travis se machucara.
Travis virou a cabeça lentamente e abriu o sorriso mais malicioso que ela já vira. — Querida, para mostrar todas elas, eu teria que tirar a calça. Mas ficarei muito feliz em mostrá-las se tocar em todas elas.
Ally engoliu em seco, dividida entre o desejo de ver os machucados e sabendo que não deveria ver o chefe bilionário tirar a calça. — São muito ruins? — perguntou ela.
— A das costas provavelmente é a pior. Foi onde bati na pedra. Mas, se quiser, ficarei feliz em mostrar. — Ele começou a se levantar.
— Não, não — disse ela apressada. — Eu acredito em você. Mas, se a dor ficar muito forte, iremos ao hospital para que faça um raio-x. Não acredito que se preocupou com alguns arranhões pequenos em mim quando está todo machucado. Sente dor em mais algum lugar?
Travis se sentou de novo lentamente. — Meu pau está doendo. Quer tocar nele? — perguntou ele com voz rouca, mas o olhar dele era provocador e malicioso.
O rosto de Ally ficou vermelho e as palavras diretas de Travis a deixaram sem palavras por um momento. — Você tem a mente suja — recriminou ela de leve. — E estou realmente preocupada com os seus machucados.
— Estou machucado. E esta é a pior dor que estou sentindo — disse Travis, encarando-a com olhar faminto.
A expressão predatória dele a deixou ainda mais vermelha. Ela não corava daquele jeito desde a época da escola. Travis lhe mostrara outro lado de si mesmo e ela gostara. Gostava dele naquele momento. Mas o olhar feroz a deixava tão nervosa que quase ficava ofegante com a vontade de tocá-lo. — Você está machucado e ainda consegue pensar nisso?
— Alison, eu teria que estar morto para não querer que me toque —
respondeu Travis.
Ally estremeceu, sentindo-se inundar de um calor úmido e os mamilos ficarem rígidos devido à intensidade do olhar dele. O problema era que ela se sentia exatamente da mesma forma. Ela afastou o olhar, sem conseguir aguentar o calor nos olhos dele. Se demorasse mais um segundo, estaria implorando para que ele a deixasse tocá-lo. — Nada de tocar — disse ela em tom muito mais firme do que sentia naquele momento. — Você precisa se curar. — Ally se levantou e colocou a xícara vazia na pia, segurando o presente precioso de Travis na mão.
— Eu tinha receio de que você diria isso — respondeu Travis descontente, levantando-se para colocar a própria xícara na pia.
— Obrigada por isto — sussurrou Ally, gesticulando em direção ao colar.
— Foi o presente mais incrível que já recebi. Significa muito para mim. — Não era o valor monetário, mas o significado do símbolo, um sinal da crença de Travis nela.
Ally caminhou em direção à entrada da cozinha para subir e tomar um banho.
— Ally? — A voz de Travis, ainda parado ao lado da pia, soou hesitante.
— Sim? — Ela virou a cabeça para ele.
— Obrigado por não me trair — disse ele.
— Você não precisa me agradecer por isso, Travis. Sempre teve a minha lealdade. — E era verdade. Ele a deixava enfurecida com frequência, mas em momento algum ela duvidara da integridade de Travis nem do amor dele pela família.
Ele assentiu abruptamente e virou-se de costas, deixando Ally perguntando a si mesma o que acabara de acontecer entre eles. O
relacionamento deles mudara, deixando-a imaginando se seria realmente possível que ela e Travis se tornassem... amigos.
Travis a derretia apenas com o olhar, deixando-a em chamas com a voz sedutora e os comentários maliciosos. Mas ela precisava ignorar as duas coisas, esperar até que ele encontrasse outro interesse romântico. Ser qualquer coisa para Travis além de funcionária e amiga era perigoso. Ela já ficara arrasada quando achara que ele traíra sua confiança ao fazer com que fosse demitida do Sully’s, quase jogando-se sobre um caminhão em movimento por estar tão desesperada. Ally mal conseguia imaginar como as coisas seriam se ela se permitisse ficar mais íntima dele do que já acontecera. Travis a deixava exposta e vulnerável, inebriada e aterrorizada.
Chegar perto demais dele seria um erro e não haveria como recuar depois que o deixasse se aproximar. A intensidade dele a destruiria e ela teria que recolher os pedaços de si mesma depois que o caso amoroso terminasse.
— Não se apaixone por ele, Ally. Mantenha-o à distância — disse ela a si mesma enquanto subia a escada.