A Perdição do Bilionário: Travis
Capítulo 3
Travis faria aquilo, sim, e não se importava mais com as repercussões.
Estranhamente, apesar de Ally adorar o trabalho que fazia na Harrison muito mais do que misturar bebidas, ela se sentia mais confortável no Sully’s. Às vezes, era um trabalho extremamente entediante, mas era um lugar em que podia ser ela mesma, sem precisar agir a noite inteira como fazia na Harrison. Não era tão interessante, mas era muito mais relaxado. O
lugar não ficava em um bairro muito bom, mas a maioria dos clientes aparecia regularmente, pessoas que ela via quase todos os dias porque era um bar pequeno e agradável. E Charlie Sullivan era do tipo paternal. O
chefe ali no Sully’s era muito diferente do chefe bilionário infernal na Harrison. Se algum homem causasse problemas a ela, Charlie o jogava porta afora. Ele não aceitava que ninguém assediasse as funcionárias.
Estava ficando tarde e o movimento do bar estava diminuindo. Era quarta-feira, um dia normalmente de pouco movimento. Ela limpou o bar, sorrindo para vários clientes que conhecia e preparando pedidos em meio à limpeza.
Ela não contara a ninguém no Sully’s que terminara com Rick. Nunca usara aliança porque Rick não tivera dinheiro para comprá-las, portanto, Tina nem nenhuma das outras moças que trabalhava no Sully’s tivera alguma indicação de que algo acontecera. E era humilhante demais contar que o noivo estava transando com outra mulher na cama deles. Ela mantivera seus problemas para si mesma, indo trabalhar todos os dias e apenas cumprindo seu dever.
A única pessoa a quem fizera confidências fora Travis.
— Feliz aniversário, Ally! — Charlie Sullivan, um homem enorme com cabelos ruivos e voz estrondosa, saiu da sala de trás carregando uma bandeja de bebidas.
— O que é isto? — perguntou Ally confusa. O aniversário dela era no dia seguinte, mas ela certamente não queria ser lembrada que faria vinte e oito anos, sem um plano para o resto da vida.
O chefe de meia idade bateu de leve nas costas dela ao colocar as bebidas sobre uma mesa vazia. — Você me disse, um dia desses, que, apesar de fazer estas bebidas, nunca experimentou nenhuma delas. Acho que você merece uma surpresa de aniversário. Hora de experimentar algo novo.
— Preciso trabalhar amanhã. E tenho que dirigir para casa. — Ela lançou um olhar dúbio para Charlie. Ela não gostava muito de cerveja e, de vez em quando, tomava uma taça de vinho, mas era até onde ia sua experiência com álcool. Sendo filha única de um alcoólatra, ela não se envolvia muito com bebidas. Talvez fosse um pouco estranho que trabalhasse como bartender, mas nunca ficara bêbada. Por outro lado, nunca tivera tempo sequer de respirar, quanto mais perder tempo com uma ressaca.
— Eu levarei você para casa — respondeu Charlie, segurando-a pelo braço e puxando-a de trás do bar.
— Vamos, Ally — encorajou Tina, uma das garçonetes, ao parar ao lado da mesa. — Viva um pouco. Experimente.
— Ainda não terminei a limpeza — protestou Ally com uma risada quando Charlie a levou até a mesa.
— Eu limparei. E prepararei as outras bebidas que precisarem ser servidas. Experimente algumas bebidas do seu instrutor — disse Charlie.
Ally olhou para a bandeja de bebidas e para o bar em volta. Só havia alguns clientes frequentes que já estavam em volta da mesa, batendo de leve em suas costas e dando-lhe os parabéns.
A bandeja tinha, em sua maioria, Boquetes, um drinque que ela fizera cerca de mil vezes e que vira mulheres consumirem abundantemente em todos os fins de semana. Charlie colocara bastante creme nos copos, o que faria com que fosse quase impossível não se lambuzar.
Viva um pouco.
Ally nunca vivera de verdade, nunca fizera nada que não fosse cuidadosamente planejado. Não doeria se divertir um pouco apenas uma vez, rir um pouco com os amigos. Ela não se transformaria em uma alcoólatra como a mãe só por tomar alguns drinques. Seu aniversário seria no dia seguinte e ela passaria o dia inteiro aguentando Travis.
Vamos, Ally. Uma vez na vida, faça algo espontâneo. É uma ocasião especial.
— Ora, por que não? — cedeu ela, pegando um dos copos.
— Ah, não — disse Tina, rindo e batendo de leve na mão de Ally. —
Você tem que fazer da maneira certa.
Ally resmungou, mas, de forma obediente, colocou as mãos nas costas quando Charlie as posicionou corretamente. Ela tentaria apenas uma vez.
Tina colocou o drinque em um guardanapo sobre a mesa.
Ally frequentemente vira aquilo sendo feito por outras mulheres, mas sempre parecera muito mais fácil do que realmente era. Abrindo bem a boca, ela sentiu a doçura sedosa atingir as papilas gustativas e fechou os lábios em volta da borda do copo. Infelizmente, o copo escorregou e ela só bebeu metade. O restante derramou na frente da camiseta quando o copo caiu da boca.
Todos gritaram e riram alto, encorajando-a a tentar de novo. Tina deu um passo à frente, instruindo-a sobre a arte de beber Boquetes, e Ally tentou de novo, conseguindo beber tudo desta vez. Era uma bebida doce e suave, com gosto delicioso, que desceu com facilidade. Ela lambeu o creme que ficara nos lábios e resolveu beber mais uma.
— Ally, um boquete tem que ser feito da forma certa. Incline a cabeça para trás e engula.
Travis parou subitamente, com o corpo congelando ao ouvir aquele comentário vindo do bar. A mão dele apertou a maçaneta com força, deixando as juntas brancas.
Ally? Boquetes? Engolir? Puta merda, não!
Travis sentiu a raiva subir, algo que quase nunca acontecia. Ele raramente deixava que ela chegasse tão longe antes de empurrá-la de volta, exceto nas discussões normais com Ally. Mas não era o mesmo tipo de raiva. Era do tipo muito mais perigoso. Ele sentiu as entranhas se revirarem ao pensar no que poderia encontrar ao entrar e subitamente sentiu uma urgência homicida ao imaginar Ally tocando em alguém daquela forma. Ou de qualquer forma.
Ele ouviu vários homens rindo e uma voz feminina que não pertencia a Ally. Mas que diabos? Estava acontecendo uma orgia no bar?
Travis apoiou todo o peso do corpo contra a porta ao girar a maçaneta e o movimento o jogou para dentro do bar. Lá, no meio do aposento, estava Ally. Havia um homem segurando as mãos dela nas costas e Ally estava
com a cabeça tão inclinada para trás que Travis ficou surpreso por não ter quebrado o pescoço. Uma mulher e vários homens estavam em volta da mesa, todos sorrindo.
Idiotas!
— O que diabos você está fazendo? — gritou Travis, fazendo com que Ally jogasse a cabeça para a frente e um copo caísse de sua boca. A julgar pela quantidade de copos vazios sobre a mesa, não era o primeiro.
Ally o encarou horrorizada, esticando a língua para lamber o creme branco dos lábios.
A fúria emanava de Travis quando ele rosnou: — Tire suas mãos dela ou quebrarei todos os seus dedos. — Ver o homem, qualquer homem, encostar em Ally fazia com que ele perdesse o controle. E o fato de aquele estar segurando Ally em uma posição submissa quase fez com que saltasse sobre o homem para lhe dar uma surra.
O homem mais velho se afastou dela. — Olhe, cara, não quero uma briga. Ally é minha funcionária. Só estávamos comemorando o aniversário dela.
— Eles são amigos — confirmou Ally, lambendo os lábios novamente.
— Esse é o seu cara, Ally? — perguntou o homem mais velho, olhando para ela.
— Não — respondeu Ally, andando na direção de Travis. — O que você está fazendo aqui? — sussurrou ela em tom ansioso.
— Sou Travis Harrison. E ela também é minha funcionária. — Por que diabos ele dissera aquilo? Odiava dizer quem era às pessoas. Havia pouquíssimas pessoas que não reconheceriam o nome. Ele olhou para Ally ainda furioso. — Tem certeza de que não estavam machucando você?
— Absoluta — respondeu ela com os olhos verdes ligeiramente enevoados.
Aquela foi a única resposta que impediu Travis de dar uma surra em todos os homens. — Você está bêbada? — perguntou ele surpreso.
Ela cobriu a boca e soluçou. — Acho que talvez eu esteja um pouco alegre. Não costumo beber.
— Vou levá-la para casa. Ela não vai dirigindo — acrescentou o homem mais velho que segurara as mãos de Ally.
Só em um maldito sonho, cara. Travis lançou um olhar de advertência para o homem. — Eu vou levá-la para casa — informou ele a todos em um tom que os desafiava a questioná-lo. Ele não deixaria que ninguém
chegasse perto dela naquele momento, pois Ally estava em uma condição muito vulnerável.
Ally colocou a mão no braço dele e ele olhou para os olhos cor de esmeralda. Em seguida, percorreu o corpo dela inteiro com o olhar. A camiseta que ela vestia era fina e estava molhada, revelando o contorno dos mamilos sob o sutiã, obviamente também úmido. Pela primeira vez, ele notou que ela estava com os cabelos soltos e a massa de cachos loiros caía sobre os ombros.
— Eu só estava tomando Boquetes. Nunca fiz isso antes. Quer um Boquete? — perguntou Ally, lambendo os lábios novamente.
Travis quase gozou ali mesmo. Ally certamente estava mais do que só um pouco alegre e não tinha ideia do que estava dizendo. Não havia maldade no rosto dela, nenhuma expressão sedutora. Ela simplesmente oferecia um drinque a ele por estar inebriada. Mas, minha nossa, ouvir aquelas palavras dos lábios dela era uma das fantasias mais excitantes dele e vê-la passar a língua para lamber os lábios cheios quase o levou à loucura.
Ele pegou a mão dela e puxou-a em direção à porta. — Está na hora de ir para casa, Alison.
— Espere. — Ela puxou a mão e virou-se para Charlie. — Obrigada, Charlie. Eu me... diverti.
Charlie pegou a bolsa dela de sob o bar e entregou-a a ela. — Feliz aniversário, Ally — disse ele com sinceridade.
Travis pegou a mão dela novamente, vendo-a acenar alegre para as demais pessoas no bar ao arrastá-la porta afora.
— Acho que você não quis um Boquete. Eles são muito gostosos —
disse Ally em tom alegre ao saírem do bar.
— Pelo amor de Deus... pare de dizer isso, Alison. — Travis tentou soar calmo, tentou manter o desespero fora da voz. Se ela perguntasse aquilo mais uma vez, o pênis certamente explodiria.
Ele a colocou dentro do carro, prendeu o cinto de segurança e deu a volta até a porta do motorista. No dia seguinte, eles teriam uma conversa muito séria sobre a segurança dela. Ou talvez não houvesse conversa nenhuma...
apenas ação. Ele era bom nisso e pretendia garantir que Ally estivesse bem dali em diante. Obviamente, ninguém mais parecia se preocupar com ela. E
o imbecil do noivo nunca se importara.
Travis sabia que os pais dela estavam mortos e que ela não tinha irmãos.
O pai morrera quando Ally era muito jovem e a mãe falecera logo depois
que ela começara a faculdade. Não era de surpreender que tivesse caído na conversa do primeiro idiota que lhe fizera promessas. Fora fácil ser convencida pelo ex, provavelmente por ainda estar de luto e solitária. Não que ela tivesse contado nada daquilo a ele. A maior parte da história de Ally, ele soubera por Kade, o que, por algum motivo, o deixara furioso.
Talvez ela converse com Kade porque ele não é tão grosseiro quanto eu.
Travis levou Ally para casa, dizendo muito pouco exceto para obter indicações do caminho. Ele tinha receio de que, se dissesse qualquer coisa, perderia o controle. Não havia como se esquecer daquele momento em que a vira com as mãos presas nas costas por outro homem. Seus instintos protetores tinham explodido e ele estivera pronto para atacar o idiota só por tocar em Ally, apesar de a situação ter sido inocente. Ele não pensara em nada... apenas reagira. As coisas normalmente não funcionavam assim com ele. Era um planejador, um pensador, pesava os riscos e os benefícios de cada ação. E nunca fizera nada remotamente emocional ou escandaloso.
— Por que você foi ao bar hoje à noite? — perguntou Ally baixinho, parecendo mais lúcida. Claramente, o caminho até a casa a deixara um pouco mais sóbria. — Sei com certeza que não é um dos lugares que você frequenta.
— Eu queria ter certeza de que você estava bem — respondeu Travis com sinceridade ao parar em frente à casa de Ally.
— Foi porque eu quase desmoronei no seu escritório mais cedo?
Não. Não fora. Ele fizera isso porque não conseguira se manter longe depois de perceber exatamente qual era a situação da vida dela no momento. Como poderia explicar que, subitamente, queria protegê-la, resolver os problemas dela, além de estar louco para trepar com ela? Nem mesmo ele conseguia entender. Mas respondeu: — Sim. — Era a desculpa mais fácil.
— Eu ficarei bem.
Merda! A voz dela estava muito vulnerável e Travis fez o máximo esforço para não sair à procura do ex e matar o filho da puta. Ele sacaneara Ally e deixara-a sozinha em uma situação péssima depois que ela lhe dera tudo. O idiota não percebia como era valioso aquele tipo de devoção de uma mulher? Não se importava? — Eu sei que você ficará bem —
respondeu Travis em tom rabugento. Ele pretendia garantir que isso acontecesse dali em diante.
Ally pareceu mais equilibrada quando ele a ajudou a sair do carro. Ela correu a mão com adoração sobre o capô da Ferrari. — Bom, pelo menos, consegui andar em um de seus carros caros — disse ela brincando. — Este é lindo.
— Não é tão caro quando comparado a alguns dos outros na pista —
admitiu ele. — Mas gosto dele para andar por aí.
A risada divertida de Ally envolveu Travis como um bálsamo para a alma.
— Eu daria tudo para dirigir esta F12 e você fala como se fosse um carro qualquer — disse Ally.
Travis sentiu os cantos da boca começarem a se mover. — Acabei de receber um Hennessey hoje. Eu o estava testando antes de vir procurar você.
Travis abriu um sorriso quando ouviu Ally soltar uma exclamação e dizer: — Um Venom GT?
— Sim — respondeu ele surpreso por Ally saber tanto sobre carros. —
Você conhece carros muito bem.
— Cresci em Daytona Beach. Trabalhei nas concessionárias da rodovia quando estava no ensino médio. Teria sido difícil não aprender algo sobre carros velozes — respondeu ela. — Ainda presto atenção neles.
— Eu dirigi naquela pista mais de uma vez — disse Travis ao acompanhá-la até a porta.
— Eu sei — respondeu Ally, procurando a chave dentro da bolsa. —
Você se arrepende de ter desistido da carreira de piloto profissional?
Travis balançou a cabeça negativamente. — Não. Gosto de administrar a Harrison. Acho que, se as corridas fossem minha profissão, não seria mais divertido. — Ele era a Corporação Harrison e nunca deixaria que ela ficasse nas mãos de outra pessoa enquanto estivesse pilotando carros de corrida.
Travis tirou o chaveiro da mão dela quando viu que estava tendo problemas para colocar a chave na fechadura. Talvez estivesse menos bêbada, mas ainda não estava completamente sóbria. Ele abriu a porta, devolvendo-lhe o chaveiro. Ela deixara as luzes acesas e o olhar de Travis absorveu a visão dela. Os olhos de Ally ainda estavam brilhantes, mas ela o encarava com intensidade, como se nunca o tivesse visto. O olhar dela passeou por todo o corpo de Travis abertamente, parando nos lábios com uma expressão faminta.
— Pode me beijar? — pediu ela em tom hesitante, ainda olhando intensamente para os lábios bele.
Travis a encarou, querendo lhe dizer que ela era a mulher mais adorável e gostosa do planeta. O que ele mais queria fazer naquele momento era devorar os lábios dela. Mas ele agarrou com força o batente da porta para se impedir de tocá-la. — Você não está completamente lúcida, Alison. Não sabe o que quer neste momento. Tome duas aspirinas e vá dormir. — Puta merda... aquilo doeu. Travis quase tropeçara nas palavras, querendo algo totalmente diferente, mas não pretendia se aproveitar de Ally depois que ela bebera. Aquela situação o deixou com o pênis ainda mais enrijecido do que quando ela lhe oferecera um Boquete, provavelmente porque, desta vez, Ally sabia o que estava pedindo. Estava pedindo Travis.
Ela afastou o olhar da boca dele e balançou a cabeça. — Desculpe. Não sei por que pedi isto.
Ele esperava muito que fosse porque ela o queria, mesmo que fosse só um pouco. — Feche e tranque a porta. — Ele não iria embora enquanto não ouvisse a porta sendo trancada. Ele precisava sair dali, afastar-se dela antes que mudasse de ideia.
Ela assentiu, começando a fechar a porta, sem encontrar o olhar dele.
— Alison? — disse ele rapidamente antes que ela fechasse totalmente a porta.
Ela parou. — Sim?
Não a beije. Não tire vantagem dela. Você se odiará mais tarde.
Travis segurou a madeira com um pouco mais de força. — Virei buscá-la por volta das oito horas da manhã e enviarei alguém para buscar o seu carro. — Ele se empurrou para longe da porta para que ela pudesse fechá-la.
— E, se estiver se sentindo bem, deixarei que dirija a F12 amanhã.
— Sério? — perguntou ela, parecendo chocada.
Travis deu de ombros. Era apenas um carro. E não havia nada que ele não faria se conseguisse que ela apenas lhe desse um sorriso. — É seu aniversário — usou ele como explicação para aquela decisão, sabendo que deixaria de qualquer forma só porque era algo que ela queria. — Agora, tranque a porta — exigiu ele.
Ally fechou a porta obedientemente e o barulho da tranca foi ouvido logo depois.
Boa garota.
O coração de Travis ainda batia com força quando ele andou de volta para o carro, entrou nele e ligou a ignição. Ele encostou a cabeça no volante por um momento, tentando recuperar o fôlego. Jesus! Não tocar em Ally fora a coisa mais difícil que já fizera. Ele a queria muito, mas não daquela forma. Queria que ela estivesse disposta, consciente de tudo o que estava acontecendo. E talvez houvesse uma pequena parte dele que não queria que ela se arrependesse, que o odiasse por se aproveitar dela. O instinto de protegê-la era tão forte quanto o desejo de trepar com ela, o que era dizer muito, pois aquele desejo estava muito perto de matá-lo.