A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 10 de 55

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A Viúva

Capítulo 9

 

Quarta-feira, 9 de junho de 2010

A VIÚVA

Kate entra na van de Mike alguns quilômetros à frente, no estacionamento de um supermercado. Ela ri e diz que “o bando” tinha se aproximado às pressas da casa para ver se eu estava lá dentro depois que ela saiu dirigindo sozinha.

— Idiotas — xinga. — Quem diria que cairiam nessa.

Ela se virou no banco da frente para que eu pudesse ver seu rosto.

— Você está bem, Jean?

A voz dela voltou a ser afetuosa e delicada. Não me engana. Ela não se importa comigo. Só quer a matéria. Faço que sim com a cabeça e permaneço calada.

Conforme seguimos, Mick e ela conversam sobre “a redação”. Parece que o chefe dela é um valentão que grita e xinga as pessoas.

— Ele usa tanto a palavra que começa com B que a reunião de pauta matinal é chamada de Monólogo da Vagina — diz ela, e os dois começam a rir.

Não sei o que é um Monólogo da Vagina, mas não revelo isso.

É como se eles vivessem em outro mundo. Kate está contando a ele que o chefe de reportagem — o Terry, com quem ela estava falando ao telefone — está muito feliz. Feliz por ela estar com a viúva, suponho.

— Ele vai ficar entrando e saindo do escritório do editor o dia inteiro, pobre coitado. Mas isso vai impedir que ele azucrine os outros repórteres. É um sujeito divertido; coloque-o em um pub e ele vira a alma da festa. Mas, na redação, passa doze horas por dia na escrivaninha, olhando para a tela do computador. Só levanta a cabeça quando vai dar um esporro em alguém. Parece um morto-vivo.

Mick ri.

Eu me deito no saco de dormir. Está um pouco sujo, mas não cheira tão mal, então cochilo, e suas vozes diminuem até se tornarem um zumbido distante. Quando acordo, já chegamos.

O hotel é grande e caro. O tipo de lugar que tem aquelas flores enormes que praticamente enchem o saguão e maçãs de verdade no balcão da recepção. Nunca sei se as flores são de verdade, mas as maçãs são. Você pode comê-las se quiser.

Kate está no comando.

— Oi, temos três quartos reservados para nós em nome de Murray — informa ela à recepcionista, que sorri e olha para a tela. — Fizemos as reservas há umas duas horas — diz Kate, impaciente.

— Aqui estão — diz a recepcionista finalmente.

Mick deve ser o Murray. Ele dá o cartão de crédito à moça, que olha para mim.

De repente me dou conta de como deve estar minha aparência. Uma visão e tanto. Meu cabelo está todo desgrenhado, depois de ter deixado uma jaqueta sobre a cabeça e dormido na van. A roupa que estou usando mal servia para fazer compras, que dirá para ir a um hotel chique. Fico de pé ali, com minhas calças velhas e camiseta, olhando para meus pés em chinelos baratos enquanto o preenchimento das fichas prossegue. Eles me registram como Elizabeth Turner, e eu olho para Kate.

Ela apenas sorri e sussurra.

— Dessa forma ninguém vai encontrar você. Eles vão nos procurar.

Fico pensando em quem realmente é Elizabeth Turner e o que está fazendo nesta tarde. Aposto que está olhando os cabideiros de uma filial da loja TK Maxx, sem se esconder da imprensa.

— Malas? — pergunta a mulher, e Kate diz que estão no carro e que as pegaremos mais tarde.

No elevador eu olho para ela e ergo as sobrancelhas. Ela dá um sorriso para mim. Não falamos nada porque um funcionário do hotel está nos acompanhando. Na verdade, é uma idiotice, já que não há malas para carregar, mas ele quer nos mostrar os quartos. E receber uma gorjeta, imagino. O quarto 142 é o meu, ao lado do de Kate, que é o 144. O funcionário faz uma grande cena para abrir a porta e me deixar entrar. Fico de pé, observando. É lindo. Enorme e brilhante, com um lustre. Há um sofá, uma mesinha de centro, luminárias e mais maçãs. Eles devem ter algum acordo com algum supermercado para ter tantas frutas espalhadas.

— Está tudo bem? — pergunta Kate.

— Ah, sim — respondo, e me sento no sofá para olhar tudo novamente.

Nosso hotel de lua de mel não era tão elegante quanto aquele. Foi um lugar familiar na Espanha. Ainda assim, também era lindo. Nós nos divertimos muito. Quando chegamos lá ainda havia um pouco de confete no meu cabelo, e a equipe fez uma festa conosco. Havia uma garrafa de champanhe à espera — uma coisa espanhola, um pouco enjoativa —, e as garçonetes continuavam indo até nós e nos cumprimentando.

Passamos os dias deitados à beira da piscina, olhando um para o outro. Amando um ao outro. Tanto tempo atrás.

Kate diz que tem uma piscina aqui. E um spa. Eu não trouxe roupa de banho — na verdade, não trouxe nada —, mas ela pergunta meu tamanho e sai para conseguir “algumas coisas” para mim.

— O jornal vai pagar — diz.

Ela marca uma massagem para mim durante o tempo em que vai estar fora.

— Para você relaxar — explica. — Vai ser ótimo. Eles usam óleos essenciais: jasmim, lavanda, esse tipo de coisa. E você pode dormir. Você precisa de um pouco de mimo, Jean.

Não tenho muita certeza, mas aceito. Não perguntei por quanto tempo vão me manter ali. Esse assunto não surgiu, e eles parecem tratar a situação como se fosse uma folga de fim de semana.

* * *

Uma hora depois, estou na cama vestindo um roupão do hotel, praticamente flutuando de tão relaxada que me sinto. Glen teria dito que eu cheirava a “alcova de uma rameira”, mas estou adorando. Estou cheirando a coisa cara. Então Kate bate à porta e volto à realidade.

Ela passa pela porta com um monte de sacolas.

— Aqui está, Jean — diz ela. — Experimente para ver se caem bem.

Engraçado como ela continua usando meu prenome. Como uma enfermeira. Ou uma charlatã.

Kate escolheu coisas muito bonitas. Um pulôver de caxemira azul-claro que eu nunca teria condições de comprar, uma camisa branca elegante, uma saia leve, calças sociais cinza, calcinhas, sapatos, um maiô, uma luxuosa espuma de banho e uma bela camisola comprida. Desembrulho tudo enquanto ela observa.

— Adoro essa cor, você não, Jean? — pergunta ela, pegando o pulôver. — Azul-turquesa.

Ela sabe que eu também adoro, mas tento não revelar tanto.

— Obrigada — digo. — Eu realmente não preciso de tudo isto. Só vou passar a noite aqui. Talvez você possa devolver uma parte.

Ela não responde, apenas junta as sacolas vazias e sorri.

Já passou bastante da hora do almoço, e eles decidem pedir algo para comer no quarto de Kate.

Eu só quero um sanduíche, mas Mick pede filé e uma garrafa de vinho. Vejo depois que o vinho custava trinta e duas libras. Era possível comprar oito garrafas de Chardonnay no supermercado por esse preço. Ele disse que era “gostoso para c...”. Ele usa muito a palavra com C, mas Kate não parece notar. A atenção dela está toda voltada para mim.

Quando os pratos são colocados do lado de fora para serem recolhidos, Mick vai para o quarto dele arrumar as câmeras. Kate, por sua vez, se acomoda em uma poltrona e começa a falar. Apenas uma conversa normal, o tipo de coisa que eu diria a uma cliente enquanto lavasse o seu cabelo. Mas sei que isso não vai durar.

— Você deve estar passando por um estresse terrível desde a morte de Glen — começa ela.

Concordo, parecendo nervosa. Não posso dizer a ela que não. A verdade é que o alívio tem sido maravilhoso.

— Como você está lidando com isso, Jean?

— Tem sido horrível — digo com a voz embargada, e volto a ser Jeanie, a mulher que costumava ser quando me casei.

Jeanie me salvou. Ela seguiu com a vida, preparando chá, lavando o cabelo de clientes, varrendo o chão e fazendo as camas. Ela sabia que Glen era vítima de uma trama policial. Ela ficou ao lado do homem com quem se casara. O homem que ela havia escolhido.

De início, Jeanie só reaparecia quando parentes ou policiais faziam perguntas, mas, à medida que mais coisas ruins começaram a vazar por baixo da porta, Jeanie se mudou de volta para casa, de modo que Glen e eu pudéssemos seguir com a nossa vida juntos.

— Foi um choque terrível — conto a Kate. — Ele caiu debaixo do ônibus bem ali, na minha frente. Não tive nem tempo de gritar. Já tinha acabado. Depois todas aquelas pessoas chegaram correndo e meio que assumiram. Eu estava chocada demais para me mexer, e eles me levaram ao hospital para terem certeza de que eu estava bem. Todos foram muito gentis.

Até descobrirem quem ele era.

Veja bem, a polícia disse que Glen tinha levado Bella.

Quando disseram o nome dela, quando eles foram à nossa casa, eu só consegui pensar em sua foto, aquele rostinho, aqueles pequenos óculos redondos e o curativo cobrindo um dos olhos. Parecia um bebê pirata. Tão doce que eu poderia ter devorado aquela criança. Por meses, ninguém conseguira falar de outra coisa — no salão, nas lojas, no ônibus. A pequena Bella. Estava brincando no jardim na frente de casa em Southampton e alguém simplesmente apareceu e a levou.

Claro que eu nunca teria deixado um filho meu brincar do lado de fora sozinho. Ela tinha apenas dois anos e meio, pelo amor de Deus. A mãe deveria ter cuidado melhor da filha. Aposto que ela estava sentada assistindo ao programa de entrevistas de Jeremy Kyle ou algum outro lixo na TV. É sempre com esse tipo de gente que essas coisas acontecem, dizia Glen. Pessoas descuidadas.

E eles falaram que foi Glen que a levou. E a matou. Não consegui respirar quando disseram isso — os policiais, quero dizer. Eles foram os primeiros. Outros disseram depois.

Ficamos lá de pé na sala da frente, boquiabertos. Bem, eu digo que nós ficamos. Glen meio que ficou vazio. O rosto dele estava vazio. Não parecia mais Glen.

A polícia foi discreta quando apareceu. Nada de esmurrar a porta ou coisa assim, como na TV. Eles bateram, rá-tá-tá-tá-tá. Glen acabara de entrar, depois de ter lavado o carro. Ele abriu a porta e eu coloquei a cabeça para fora da cozinha para ver quem era. Eram dois sujeitos pedindo para entrar. Um se parecia com o meu professor de geografia na escola, o Sr. Harris. O mesmo paletó de tweed.

— Sr. Glen Taylor? — perguntou ele, com toda a calma e discrição.

— Sim — respondeu Glen, depois perguntando se eles estavam ali para vender alguma coisa.

No início, não consegui ouvir bem, mas então eles entraram. Eram policiais: o detetive Bob Sparkes e seu sargento, disseram.

— Sr. Taylor, gostaria de conversar sobre o desaparecimento de Bella Elliott — explicou o detetive Sparkes.

Abri a boca para falar algo, para fazer o policial parar de dizer aquelas coisas, mas não consegui. E o rosto de Glen ficou vazio.

Durante todo o tempo ele não olhou para mim. Não passou o braço ao meu redor nem tocou minha mão. Mais tarde ele disse que estava em choque. Ele e os policiais continuaram a conversar, mas não consigo me lembrar de ter escutado o que falavam. Eu via as bocas em movimento, mas não conseguia entender. O que Glen tinha a ver com Bella? Ele não macularia um fio de cabelo da cabeça de uma criança. Ele adora crianças.

Então eles saíram, Glen e os policiais. Glen depois me contou que ele se despediu e disse para eu não me preocupar, que era só alguma confusão idiota que ele iria resolver. Mas não me lembro disso. Outros policiais ficaram na casa para me fazer perguntas, para revirar a nossa vida, mas durante tudo isso, girando e girando em minha cabeça, eu continuava pensando no rosto dele e em como não o reconheci por um segundo.

Depois me contou que alguém tinha dito que ele fizera uma entrega perto de onde Bella havia desaparecido, mas que isso não significava nada. Apenas uma coincidência. Devia haver centenas de pessoas pela área naquele dia.

Ele não estava nem perto da cena do crime — a entrega era a quilômetros dali, alegou. Mas a polícia estava investigando todo mundo, para verificar se tinham visto alguma coisa.

Ele começara a trabalhar como motorista de entregas depois de ter sido demitido do banco. Estavam querendo reduzir o pessoal, Glen disse às pessoas, e ele queria uma mudança. Sempre sonhara em abrir o próprio negócio, ser o próprio patrão.

Descobri a verdadeira razão em uma noite de quarta-feira. Ginástica para mim e um jantar mais tardio para nós. Ele gritou comigo por estar mais atrasada que o habitual, palavras horríveis sendo cuspidas, cheias de raiva e obscenidade. Palavras que ele normalmente nunca usaria. Tudo estava errado. Ele preenchia a cozinha com suas acusações, seu ódio. Os olhos estavam mortos, como se ele não me conhecesse. Achei que iria me bater. Notei seus punhos se fechando e se abrindo ao lado do corpo, congelada junto ao fogão, empunhando uma espátula.

Minha cozinha, minhas regras, costumávamos brincar. Mas não naquela quarta-feira.

A briga terminou com uma porta batida quando ele foi para a cama — foi dormir no outro quarto, longe de mim. Lembro-me de ter ficado ao pé da escada, chocada. O que era aquilo tudo? O que havia acontecido? Eu não queria pensar no que aquilo significava para nós.

— Pare — disse a mim mesma. — Vai ficar tudo bem. Ele deve ter tido um dia ruim. É melhor deixá-lo dormir.

Comecei a arrumar as coisas, peguei o cachecol e o paletó que ele tinha pendurado no corrimão e os coloquei nos ganchos junto à porta. Senti algo rígido em um dos bolsos, uma correspondência. Um envelope branco com um quadrado de plástico transparente que exibia o nome dele e o nosso endereço. Do banco. As palavras eram oficiais e tão duras quanto o envelope: “Investigação... Comportamento antiprofissional... Inadequado... Demissão imediata.” Eu me perdi na linguagem formal, mas sabia que aquilo significava desgraça. O fim dos nossos sonhos. Nosso futuro. Subi a escada às pressas, apertando a carta na mão. Entrei pisando firme no outro quarto e acendi a luz. Ele devia ter me ouvido chegar, mas fingiu que tinha pegado no sono, até que me ouvi guinchar:

— O que é isto?

Ele olhou para mim como se eu não fosse nada.

— Fui demitido — respondeu, e rolou novamente para fingir que estava dormindo.

Na manhã seguinte, Glen entrou no nosso quarto com chá na minha xícara preferida. Ele parecia não ter dormido quase nada e me pediu desculpas. Sentou-se na cama e explicou que estava sob muita pressão, que tudo aquilo era apenas um mal-entendido no trabalho e que nunca se dera bem com o chefe. Contou que haviam armado para ele, que fora acusado de algo. Algum equívoco, explicou. Não havia feito nada de errado. O chefe estava com inveja. Glen falou que tinha grandes planos para o futuro, mas que isso não teria importância se eu não estivesse ao seu lado.

— Você é o centro do meu mundo, Jeanie — disse, e me abraçou.

Retribuí o abraço e esqueci meu medo.

Mike, um amigo que ele disse ter conhecido na internet, ofereceu o trabalho de motorista — “Só enquanto descubro em que ramo quero atuar, Jeanie”. Inicialmente era dinheiro vivo, e depois eles o empregaram em caráter permanente. Glen parou de falar em ser o próprio patrão.

Ele precisava usar um uniforme, bastante elegante: camisa azul-clara com o logotipo da empresa no bolso e calças azul-marinho. Glen não gostava de usar uniforme — “É humilhante, Jeanie, como voltar para a escola” —, mas se acostumou, e pareceu bastante feliz. Ele saía de manhã e acenava para mim enquanto ia de carro pegar a van. Saindo em viagem, dizia.

Só fui com ele uma vez. Um trabalho especial para o chefe em um domingo pouco antes do Natal, certo ano. Deve ter sido no último Natal antes de ser preso. Era apenas até Canterbury, e eu estava com vontade de sair de casa. Viajamos em total silêncio. Eu tinha dado uma espiada no porta-luvas. Nada de mais. Alguns doces. Peguei um, depois ofereci a Glen, para animá-lo. Ele não quis, e me disse para guardá-los de volta no porta-luvas.

A van era bonita e limpa. Impecável. Eu normalmente não a via. Ficava no depósito, e ele ia de carro pegá-la de manhã.

— Bela van — falei, mas ele apenas grunhiu. — O que tem lá atrás?

— Nada — respondeu, e ligou o rádio.

E ele estava certo. Dei uma olhada enquanto Glen conversava com o cliente.

A traseira estava totalmente limpa. Bem, quase. Havia um canto rasgado de um pacote de doces à mostra sob uma beirada do carpete. Eu o tirei com a unha. Estava um pouco coberto de pó e pelos, mas coloquei no bolso do casaco. Para deixar arrumado.

Tudo aquilo parecia ter sido muito antes. Nós dois em um passeio feito pessoas normais.

* * *

— Glen Taylor? — pergunta a enfermeira, despertando-me bruscamente dos meus pensamentos e franzindo a testa ao escrever o nome dele em um formulário. Tentando lembrar. Esperei pelo inevitável.

A ficha caiu.

— Glen Taylor? O homem que foi acusado de levar aquela garotinha, Bella? — pergunta ela em voz baixa para um dos socorristas, e finjo não ouvir. Quando ela se vira novamente para mim, a cara está fechada. — Entendo — diz, e se afasta.

Ela deve ter feito alguma ligação, porque meia hora depois os repórteres estão lá, circulando pela emergência e tentando se disfarçar de pacientes. Consigo identificá-los a quilômetros.

Mantenho a cabeça abaixada e me recuso a falar com qualquer um deles. Que tipo de gente eles são, caçando uma mulher que acabou de ver o marido morrer?

A polícia também está lá. Por causa do acidente. Não são aqueles que costumamos ver. É o pessoal da polícia local, não os policiais de Hampshire. Apenas fazendo trabalho de rotina, tomando depoimentos das testemunhas, de mim, do motorista do ônibus. Ele também está aqui. Pelo visto bateu feio com a cabeça ao frear, e diz que nem sequer viu Glen.

Ele provavelmente não viu, foi bem rápido.

E então aparece o detetive Bob Sparkes. Eu sabia que ele acabaria aparecendo, feito um estorvo. Mas deve ter vindo dirigindo rápido como o vento para chegar tão rápido de Southampton. Ele vem com um rosto triste e me dá as condolências, só que está ainda mais triste por ele mesmo. Certamente não queria que Glen morresse. O fim dele significa que o caso nunca será encerrado. Pobre Bob. Passará a vida inteira carregando esse fracasso.

Ele se senta ao meu lado em uma cadeira de plástico e pega minha mão. Fico tão constrangida que permito. Ele nunca me tocou assim. Como se Bob se importasse comigo. Ele segura minha mão e fala em uma voz baixa e suave. Eu sei o que está dizendo, mas não ouço, se é que você me entende. Ele está me perguntando se sei o que Glen fez com Bella. Fala com delicadeza, explicando que agora posso revelar o segredo. Tudo pode ser contado. Eu era tão vítima quanto Bella.

— Eu não sei nada sobre Bella, Bob. Nem Glen sabia — respondo, e afasto minha mão, fingindo que precisava secar uma lágrima.

Depois fico enjoada no banheiro do hospital. Eu me limpo e sento no vaso com a testa apoiada nos lindos azulejos frios da parede.