A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 54 de 55

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A Viúva

Capítulo 53

 

 

Quinta-feira, 1º de julho de 2010

O DETETIVE

Os sonhos de Glen Taylor com Bella abriram os boletins das rádios durante toda a tarde e apareceram em um respeitável terceiro lugar no noticiário da televisão. Nos dias mortos de verão — a “temporada de tolices” da imprensa, quando políticos estão de férias, as escolas estão fechadas e o país está parado —, qualquer coisa que pareça notícia ganha destaque.

Sparkes tinha ouvido tudo de Salmond logo depois da audiência, mas ainda assim leu nos jornais, estudando cada palavra.

— Jean está começando a desmoronar, Bob — dissera Salmond, bufando suavemente enquanto marchava de volta ao carro. — Tentei falar com ela depois. Todos os repórteres estavam lá, a sua Kate Waters estava lá, mas Jean não disse mais nenhuma palavra. Ainda está se segurando, mas por muito pouco.

Sparkes tinha a sensação de que o choque no tribunal era um sinal de que, com Glen morto, o segredo estava se tornando demais para ela.

— Jean está deixando vazar de um modo controlado, como quando se costumava sangrar um paciente na Idade Média. Para se livrar da coisa ruim um pouco de cada vez — sugerira a Salmond. Olhou para ela, que estava sentada ao computador dele, olhando para as matérias da imprensa. — Vamos esperar por Jean do lado de fora. Literalmente.

* * *

Eles estavam em posição às cinco horas da manhã seguinte, estacionados fora de vista, a oitocentos metros da casa de Jean Taylor, esperando uma ligação da equipe de vigilância.

— Sei que é uma aposta arriscada, mas temos que tentar. Ela vai fazer alguma coisa — dissera Sparkes a Salmond.

— Sente isso nos ossos, senhor? — perguntou ela.

— Não sei exatamente como estão meus ossos, mas sim. Eu sinto.

Doze horas depois, o ar no carro estava denso com a respiração deles e o cheiro de comidas de fast food.

Às dez da noite, eles haviam esgotado suas histórias de vida, os criminosos que prenderam, desastres de férias, programas de TV da infância, pratos preferidos, melhores filmes de ação e quem estava dormindo com quem no escritório. Sparkes achava que podia participar do programa Mastermind e responder a perguntas sobre Zara Salmond sem medo de errar, e ambos ficaram silenciosamente aliviados quando a equipe de vigilância enfim ligou para dizer que todas as luzes na casa haviam sido apagadas.

Sparkes encerrou o dia. Eles ficariam no hotel barato no pé da colina para dormir um pouco antes de reiniciar a vigília. Outra equipe permaneceria de vigia durante a noite.

* * *

O telefone dele tocou às quatro da manhã.

— As luzes estão acesas, senhor.

Ele vestiu as roupas correndo e ligou para Salmond ao mesmo tempo, deixando o telefone cair por uma perna da calça.

— Alô, é o senhor?

— Sim, sim. Ela acordou. Lá embaixo em cinco minutos.

Zara Salmond pela primeira vez parecia menos que perfeita; com cabelos de quem acabou de acordar e sem maquiagem, ela esperava por ele junto à porta da frente.

— E pensar que eu disse à minha mãe que queria ser aeromoça — falou.

— Então vamos lá. Poltronas em posição vertical para a decolagem — retrucou ele com um arremedo de sorriso.

* * *

Jean saiu pela porta da frente com rapidez, disparando a luz de segurança, e parou sob a luz do poste, olhando para os dois lados da rua em busca de sinais de vida. Apertou o botão na chave para destravar o carro, e o bipe eletrônico ecoou na fachada das casas do outro lado da rua enquanto ela abria a porta e se sentava atrás do volante. Estava novamente com o vestido do funeral.

A duas ruas dali, Zara Salmond ligou o carro e aguardou as instruções da equipe. Sparkes estava mergulhado em pensamentos ao lado dela, mapas no colo.

— Acabou de entrar na A2 em direção à M25, senhor — rosnou pelo telefone o policial no carro sem identificação.

E eles partiram para iniciar a perseguição.

— Aposto que está indo para Hampshire — disse Salmond enquanto acelerava pela larga rodovia.

— Vamos tentar não antecipar nada — respondeu Sparkes.

A expectativa dele era quase insuportável enquanto acompanhava com o dedo a trajetória dela no mapa.

O sol nascente começava a clarear o céu, mas o GPS ainda não tinha abandonado as cores noturnas quando entraram na M3 em Southampton. O comboio estava bem espaçado ao longo de quase cinco quilômetros de rodovia, com Sparkes e Salmond se contendo para não serem reconhecidos.

— Ela está dando sinal para entrar no posto de gasolina, senhor — informou o homem na van. — Onde estão os seus policiais agora? Vamos ter que trocar, ou ela vai nos identificar.

— Estamos aí. Temos outro veículo esperando no próximo acesso. Fique por perto até que ela saia do posto, e então assumiremos — respondeu Sparkes.

A van se arrastou até a área de estacionamento e parou em uma vaga dois carros atrás do alvo. Um policial da equipe saltou, coçando a cabeça e se esticando, e foi atrás de Jean Taylor. Ela entrou no toalete e o policial ficou na fila para comprar um hambúrguer. Fingiu comparar as qualidades dos pratos anunciados em cores nucleares acima do balcão enquanto esperava que Jean saísse. Pouco tempo depois, ela saiu sacudindo as últimas gotas de água das mãos. O policial mastigou seu cheesebúrguer duplo e a viu entrar na loja e examinar os baldes plásticos com flores, escolhendo um buquê de botões de rosas e lírios brancos embrulhados em papel de seda rosa e celofane. Ela os levou ao rosto para sentir o perfume dos estames cobertos de pólen enquanto caminhava até o balcão de doces para pegar um pacote com cores brilhantes. Skittles, registrou o policial do outro lado da loja deserta. Depois entrou na fila para pagar.

— Ela comprou flores e doces, senhor. Está indo para o carro. Vamos segui-la até a rodovia e transferir.

Sparkes e Salmond se entreolharam.

— Ela está indo a um túmulo — disse Sparkes, a boca seca. — Prepare os nossos rapazes.

* * *

Cinco minutos depois, dois outros veículos estavam na cola dela, ultrapassando um ao outro, revezando-se para ficar sempre três carros atrás. Jean manteve uma velocidade constante de cento e cinco quilômetros por hora. Motorista cautelosa, pensou Sparkes. Provavelmente não está acostumada a dirigir na estrada. Fico imaginando se é a primeira vez que faz essa viagem.

Salmond e ele não tinham falado desde que saíram do posto; estavam concentrados nas conversas nos canais da polícia. Mas em Winchester, quando ouviram que o carro de Jean Taylor havia deixado a rodovia e seguia rumo ao leste, ele pediu para ela acelerar.

Estavam pegando um pouco mais de trânsito, mas o carro de Jean estava agora menos de dois quilômetros à frente, com outro veículo da polícia ensanduichado no meio.

— Ela está parando — dizia a mensagem enviada pelo policial. — Árvores à direta, trilha, sem portão. Tenho que seguir com o carro ou ela me verá. Faço o retorno logo. Ela é toda sua.

— Firme, Salmond — disse Sparkes. — Suave e firme.

Eles quase perderam o carro dela, enfiado na trilha enlameada, mas Sparkes notou o lampejo metálico entre as árvores no último minuto.

— Ela está aqui — disse ele, e Salmond reduziu e deu a volta. — Estacione na estrada. Vamos precisar de acesso para os outros veículos.

Quando saltaram, uma chuva fina começou a cair sobre as árvores, e eles pegaram os casacos no porta-malas.

— Ela provavelmente ouviu o carro — sussurrou Sparkes. — Não sei até onde as árvores vão. Sigo na frente, e você espera a equipe. Chamarei quando precisar de você.

Salmond assentiu, de repente parecendo chorosa.

Sparkes atravessou a estrada rapidamente, virando-se e acenando antes de desaparecer entre as árvores.

Ainda não havia luz do dia suficiente para penetrar no bosque, e ele seguiu com cautela. Não conseguia ouvir nada além de sua respiração e dos corvos grasnando acima, perturbados por sua presença.

De repente, viu movimento à frente. Um flash de algo branco na penumbra. Parou e esperou um momento até estar pronto. Precisava se controlar, e ficou feliz por Salmond não estar lá para vê-lo tremer feito um mergulhador à beira de um trampolim. Respirou fundo três vezes, depois avançou com cuidado. Estava com medo de tropeçar nela. Não queria assustá-la.

Então a viu, no chão sob a copa de uma árvore. Estava sentada em um casaco, as pernas colocadas de lado para que todos vissem, como se em um piquenique. Ao lado dela, as flores pousadas no papel de seda.

— É você, Bob?

Ele ficou paralisado ao som de sua voz.

— Sim, Jean.

— Pensei ter ouvido um carro. Sabia que seria você.

— Por que está aqui, Jean?

— Jeanie. Prefiro que me chame de Jeanie — disse ela, ainda sem olhar para ele.

— Por que está aqui, Jeanie?

— Vim ver nossa menininha.

Sparkes se agachou ao lado da viúva, depois tirou o casaco, no qual se sentou para poder ficar perto dela.

— Quem é sua menininha, Jeanie?

— Bella, claro. Ela está aqui. Glen a colocou aqui.