A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 38 de 55

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A Viúva

Capítulo 37

 

Sábado, 16 de janeiro de 2010

O DETETIVE

Matthew Evans não era um homem feliz. A polícia batera à sua porta sem aviso, e sua esposa, com o bebê no colo e o filho pequeno ao lado, atendera.

Bob Sparkes sorriu educadamente, com Salmond, nervosa, ao lado dele. A policial mais jovem tinha concordado em ir com o antigo chefe, mas sabia que estava se colocando em risco. Ela seria punida com total severidade se seus superiores descobrissem, mas ele a convencera de que estavam fazendo a coisa certa.

— Eu sei que não estou no caso agora.

— O senhor foi afastado.

— Certo, obrigado por me lembrar, Salmond. Mas preciso estar lá. Conheço o caso de trás para frente, e conseguirei identificar as mentiras — dissera ele.

Ela sabia que ele estava certo, e ligou para a polícia de West Midlands para informar que estaria na área deles, mas assim que desligou se sentiu pressionada e indisposta. Salmond foi dirigindo, mas Sparkes pegou o trem rumo ao norte para não ser visto pelos antigos colegas. Quando viu Salmond esperando por ele diante da estação ferroviária, ela parecia desanimada e estressada.

— Vamos lá, Salmond, vai dar tudo certo — disse ele, em voz baixa. — Ninguém vai saber que eu estive lá. Serei como o homem invisível, prometo.

Ela lhe dirigiu um sorriso corajoso, e a dupla partiu para encontrar Matt Evans.

* * *

— Matt, tem dois policiais aqui procurando você — chamou a esposa. — Do que se trata? — perguntou ela aos policiais na entrada, mas Sparkes e Salmond esperaram o marido estar diante deles antes de dizer mais alguma coisa. É preciso ser justo, pensou Sparkes.

Evans fazia uma boa ideia de por que a polícia estava ali. Desde a primeira vez que viu Dawn e Bella na televisão e fez as contas, percebeu que um dia a polícia apareceria. Mas, à medida que semanas, meses e depois anos se passavam, ele começara a ter esperança.

“Ela pode não ser minha”, disse a si mesmo no começo. “Aposto que Dawn estava dormindo com outros caras.” No entanto, devido ao frio na barriga — uma parte do corpo muito mais confiável do que seu coração —, ele sabia que Bella era sua. Parecia tanto com sua filha “de verdade” que ele estava impressionado que as pessoas não tivessem visto e ligado para o Crimewatch.

Mas não tinham, e ele seguira com a vida, aumentando a família e pegando novas Dawns pelo caminho. Só que nunca mais tinha feito sexo sem camisinha.

O policial mais velho sugeriu uma conversa discreta, e ele os levou, cheio de gratidão, à sala de jantar que nunca usavam.

— Sr. Evans, conhece alguma Dawn Elliott? — perguntou Salmond.

Evans pensou em mentir — ele era muito bom nisso —, mas sabia que Dawn o identificaria caso chegassem a esse ponto.

— Sim. Tivemos meio que um romance há alguns anos, quando eu era representante de vendas no litoral sul. Você sabe como é quando trabalha demais, acaba precisando de um pouco de diversão, um pouco de relaxamento...

Salmond olhou para ele friamente, registrando a franja caída, os olhos castanhos e o sorriso ao mesmo tempo atrevido e persuasivo, e seguiu em frente.

— E sabia que Dawn teve um bebê depois desse romance? Ela entrou em contato?

Evans engoliu em seco.

— Não, eu não sabia nada sobre o bebê. Veja bem, eu troquei o número do celular porque ela estava ficando um pouco grudenta e...

— Você não queria que sua esposa descobrisse. — Sparkes concluiu por ele.

Matt pareceu grato, e entrou no papo de homem para homem.

— É. Bem, Shan, minha esposa, não precisa saber disso, precisa?

Na última vez que Shan Evans fora procurada por uma das conquistas do marido, dissera que não haveria novas chances, e exigiu que tivessem outro filho, o terceiro. “Isso irá nos aproximar, Matt.” Não aproximou. As noites insones e a falta de sexo pós-parto fizeram com que ele voltasse a procurar diversão e relaxamento. No momento, havia uma secretária de Londres. Ele não conseguia evitar.

— Isso é com o senhor — disse Sparkes. — Houve algum contato entre vocês desde que trocou o número do celular?

— Não, eu me afastei totalmente. É perigoso retornar; elas acham que você voltou para se casar com elas.

Desgraçado sem coração, pensou Zara Salmond, escrevendo DSC na margem do seu caderno — depois emendando para DSCFDP. Ela tivera seus próprios encontros adolescentes com homens casados.

Evans estava inquieto em sua cadeira desconfortável.

— Na verdade, tem uma coisa engraçada. Uma vez eu a vi em uma sala de bate-papo na internet. Eu estava simplesmente navegando, como se costuma fazer, e lá estava ela. Se bem me lembro, ela era Pequena Miss Sunshine, como no livro infantil, a minha mais velha tem, mas usava a própria foto. Dawn nunca foi exatamente brilhante.

— Você se apresentou à Pequena Miss Sunshine?

— Claro que não. A única razão para haver salas de bate-papo é que todos devem ficar anônimos. É mais divertido assim.

A sargento Salmond anotou tudo, pedindo que ele soletrasse o nome das salas de bate-papo que ele preferia e suas identidades na internet. Depois de vinte e cinco minutos Evans começou a se levantar para levá-los à saída, mas Sparkes ainda não havia terminado.

— Gostaríamos de coletar algumas amostras suas, Sr. Evans.

— Para quê? Tenho certeza absoluta de que Bella era minha filha; ela se parece muito com meus outros filhos.

— É bom saber disso. Mas precisamos ter certeza e criar condições de descartá-lo da nossa investigação.

Evans pareceu chocado.

— Investigação? Eu não tive nada a ver com o desaparecimento daquela garotinha.

— Da sua garotinha.

— Bem, sim, certo, mas por que eu sequestraria uma criança? Eu tenho três só para mim. Em alguns dias eu pagaria a alguém para sequestrá-las.

— Tenho certeza disso — falou Sparkes. — Mas precisamos ser minuciosos, para que possamos descartá-lo. Por que não pega o seu paletó e diz à sua esposa que precisa sair?

* * *

Os policiais esperaram do lado de fora.

Salmond parecia que ia explodir, de tão satisfeita consigo mesma.

— Ele viu Dawn em uma sala de bate-papo para maiores de dezoito anos. Ela participava do jogo; era amadora, mas participava.

Sparkes tentou manter a calma, mas a adrenalina também o inundava.

— Essa poderia ser a ligação, Salmond. A ligação entre Glen Taylor e ela — disse Sparkes, e riu, apesar de tudo.

Eles não ouviram a discussão entre marido e mulher, mas Salmond sentiu que havia pontas soltas quando Evans entrou no carro com eles.

— Vamos resolver isso — disse ele, depois se calou.

Na delegacia local, Evans deu amostras de DNA, tentando puxar papo com as policiais mais jovens, mas nenhuma delas se encantou. Uma plateia mais rigorosa do que as garotas bêbadas na pista de dança, pensou Sparkes, enquanto Salmond aplicava um pouco mais de força do que o necessário sobre os dedos de Evans na tinta.

— Desculpe, senhor, mas tem que apertar com força para conseguir uma boa impressão.

Zara Salmond disse a Sparkes que dirigiria de volta ao QG para dar as notícias à nova chefe pessoalmente. Precisava de tempo para organizar sua história sem colocar Sparkes — e ela mesma — no meio de tudo.

— Vou dizer que West Midlands não tinha pessoal, então fui lá e o encontrei, o pai de Bella Elliott. Ele é um mulherengo de Birmingham, como pensamos, um tal de Matthew Evans. Representante de vendas, casado e com três filhos. O que acha, senhor?

Ele sorriu para encorajá-la, acrescentando:

— E ele pode fornecer o elo entre Glen e Bella.

Corta para rolhas de champanhe, pensou Sparkes, mais por esperança que expectativa.

* * *

No fim, ela lhe contou depois, a importância da descoberta fez com que fossem deixadas de lado perguntas sobre por que ela havia decidido visitar Evans por conta própria.

— Falamos sobre isso depois, Salmond — disse a inspetora-chefe Wellington enquanto ligava para o superintendente-chefe Parker a fim de reivindicar sua parcela da glória.

O retorno de Sparkes ao esquadrão de Hampshire ocorreu quatro dias depois. Parker foi breve e direto ao ponto.

— Temos uma nova pista no caso Bella, Bob. Com certeza você já ouviu. Queremos que assuma. Conversei com a polícia local para resolver isso. Em quanto tempo você pode voltar?

— Estou a caminho, senhor.

* * *

Sua volta foi tipicamente discreta.

— Olá, Salmond. Vamos ver em que pé estamos com Matthew Evans — disse, tirando o paletó.

E ele se encaixou novamente, como se tivesse passado apenas alguns minutos fora.

Salmond e a equipe de perícia de TI não tinham notícias animadoras. Eles haviam investigado os dados baixados do computador original de Taylor para fisgar a Pequena Miss Sunshine assim que conseguissem a informação. Mas ela não estava lá.

— Nada de bate-papos, nada de e-mails, senhor. Examinamos todas as trocas, mas pelo visto ela não está aqui.

Sparkes, Salmond e o policial Dan Fry, que havia sido reincorporado à equipe, estavam de pé em um semicírculo irregular atrás da cadeira do técnico, olhando para a tela enquanto os nomes subiam, desejando que o dela surgisse. Era a quarta vez que repassavam a lista, e o clima na sala era desalentador.

Sparkes voltou para a sua sala e pegou o telefone.

— Olá, Dawn, é Bob Sparkes. Não, não exatamente novidades, mas eu tenho umas perguntas. Preciso conversar com você. Posso ir aí agora?

Ela merecia ser tratada com cuidado depois de tudo pelo que tinha passado, mas aquilo precisava ser abordado diretamente.