A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 2 de 55

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A Viúva

Dedicatória

Para Gary, Tom e Lucy, sem os quais nada teria significado.

CAPÍTULO 1

 

Quarta-feira, 9 de junho de 2010

A VIÚVA

Dá para ouvir o ruído de alguém pisando o cascalho no caminho de entrada da casa. Pés pesados em saltos altos. Ela está quase à porta, hesitando e afastando o cabelo do rosto. Bela roupa. Paletó de botões grandes, um vestido razoável por baixo e óculos no alto da cabeça. Não é testemunha de Jeová nem membro do Partido Trabalhista. Deve ser jornalista, mas não uma habitual. É a segunda vez hoje — a quarta esta semana, e ainda é quarta-feira. Aposto que vai dizer: “Lamento incomodá-la em um momento tão difícil.” Todos dizem a mesma coisa e fazem aquela cara idiota. Como se eles se importassem.

Vou esperar para ver se ela toca a campainha duas vezes. O homem que veio de manhã não tocou. Alguns, obviamente, estão entediados demais para insistir. Vão embora assim que tiram o dedo da campainha. Voltam pelo mesmo caminho o mais rápido possível, entram no carro e partem. Contarão aos chefes que bateram à porta, mas que não havia ninguém. Patético.

Ela toca duas vezes. Depois bate com força daquele jeito rá-tá-tá-tá-tá, feito um policial. Ela me vê olhando por uma fresta na lateral das cortinas de tule e dá um grande sorriso. Um sorriso de Hollywood, minha mãe diria. Depois bate novamente.

Quando abro a porta, ela estende a garrafa de leite que estava na soleira e diz:

— Você não vai querer deixar isto do lado de fora. Vai estragar. Posso entrar? Está com a chaleira no fogo?

Não consigo respirar, muito menos responder alguma coisa. Ela sorri novamente, inclinando a cabeça.

— Meu nome é Kate. Kate Waters, repórter do Daily Post.

— Eu sou… — começo, e de repente me dou conta de que ela não perguntou.

— Eu sei quem você é, Sra. Taylor. — Não são ditas as palavras Você é a matéria. — Não vamos ficar paradas aqui fora.

E, de algum modo, ela entra enquanto está falando.

Eu me sinto chocada demais com o rumo dos acontecimentos para responder, e a mulher toma meu silêncio como permissão para entrar na cozinha com a garrafa de leite e preparar uma xícara de chá para mim. Vou atrás dela em direção à cozinha — não é um cômodo grande, e temos que nos encolher um pouco enquanto ela circula, enchendo a chaleira e abrindo todos os meus armários à procura de xícaras e açúcar. Apenas fico ali, deixando que tudo isso aconteça.

Ela está tagarelando sobre os armários.

— Que cozinha linda, parece novinha; adoraria que a minha fosse assim. Você mesma montou?

É como conversar com uma amiga. Não pensei que falar com um jornalista seria assim. Achei que seria como um depoimento para a polícia. Que seria um suplício, um interrogatório. Foi o que o meu marido, Glen, disse. Mas não é.

— Sim, nós escolhemos portas brancas e puxadores vermelhos porque pareciam bem despojados — respondo.

Estou em casa discutindo armários de cozinha com uma repórter. Glen teria um ataque.

— É por aqui, não é? — diz ela, e eu abro a porta que dá para a sala de estar.

Não sei bem se quero que ela fique — não sei direito como me sinto. Não parece certo protestar agora — ela está apenas sentada, batendo papo com uma xícara de chá na mão. É engraçado, estou gostando bastante da atenção. Fico um pouco solitária nessa casa, agora que Glen se foi.

E ela aparenta estar no comando das coisas. É realmente agradável ter alguém cuidando de mim outra vez. Eu estava começando a entrar em pânico por ter que lidar com tudo sozinha, mas Kate Waters está me dizendo que vai resolver tudo.

Só o que preciso fazer é lhe contar tudo sobre a minha vida, diz ela.

A minha vida? Na verdade, ela não quer saber sobre mim. Não foi até a minha porta para ouvir sobre Jean Taylor. Ela quer saber a verdade sobre ele. Sobre Glen, meu marido.

Veja bem, ele morreu há três semanas. Atropelado por um ônibus bem em frente ao supermercado Sainsbury’s. Em um minuto, meu marido estava ali, me dando um sermão sobre o tipo de cereal que eu deveria ter comprado, e no instante seguinte estava morto na rua. Traumatismo craniano, disseram. Morto, de qualquer forma. Simplesmente fiquei ali olhando para ele caído. As pessoas corriam de um lado para outro procurando cobertores, e havia um pouco de sangue na calçada. Mas não muito. Ele teria ficado contente. Não gostava de ver nada bagunçado.

Todos foram muito gentis e tentaram me impedir de ver o corpo dele, e eu não podia lhes dizer que estava contente por ele ter partido. Eu havia me livrado de seus absurdos.