A Viúva
Capítulo 34
Quinta-feira, 2 de outubro de 2008
A VIÚVA
Eu estava tremendo quando chegamos ao escritório do advogado. Não tinha certeza se era raiva ou nervosismo — um pouco de ambos, provavelmente, e até o Sr. Sereno passou o braço ao meu redor.
— Malditos vendedores de sensacionalismo — disse ele a Tom Payne. — Deveríamos colocar o Conselho de Imprensa em cima deles ou algo assim.
Continuo repassando aquilo na minha cabeça, desde o momento em que me dei conta de que era ela. Deveria tê-la reconhecido imediatamente, eu a vi um número suficiente de vezes na TV e no tribunal. Mas é diferente quando se vê alguém na rua, sem nenhum aviso. Acho que na verdade não olhamos o rosto das pessoas, apenas seus perfis. Claro que no momento em que olhei para ela de fato soube quem era. Dawn Elliott. A mãe. De pé ali com os idiotas do Herald, incitando-a e acusando o meu Glen, que foi considerado inocente. Isso não é certo. Não é justo.
Suponho que foi o choque que me fez gritar com ela daquele jeito.
Glen estava com raiva por eu ter dito o que pensava.
— Isso só vai manter todo mundo agitado, Jean. Ela vai achar que tem que se defender e continuar a dar entrevistas. Eu lhe pedi para ficar calada.
Eu disse que lamentava, mas não lamentava. Acreditava em todas as palavras. Eu iria telefonar para a rádio de noite e falar tudo de novo. Era bom dizer em voz alta, em público. As pessoas deviam saber que era tudo culpa dela. Ela era responsável por nossa garotinha, e permitiu que fosse levada.
Eles me conduziram até a sala dos oficiais de justiça com uma bebida quente enquanto prosseguiam com a reunião. Eu não estava mesmo no clima para questões legais, então fiquei sentada quieta em um canto, repassando na cabeça a briga na rua e meio que escutando o papo das secretárias. Novamente invisível.
A reunião demorou uma eternidade para terminar, e depois tivemos que discutir como sairíamos sem que a imprensa nos visse. No fim, escapamos pelos fundos, descemos um beco onde eles colocam latas de lixo e bicicletas.
— Eles não devem estar por aqui agora, mas não vale a pena correr riscos — disse Tom. — Já deve estar no site deles agora, e no jornal amanhã. Vou aumentar o pedido de indenização; pensem apenas no dinheiro.
Glen apertou a mão dele, e eu apenas dei um breve aceno. Eu não queria o dinheiro. Queria que aquilo acabasse.
Glen foi mais que gentil comigo quando entramos, pegando meu casaco e me fazendo sentar com os pés para cima enquanto ele colocava a chaleira no fogo.
Hoje é o aniversário. Eu havia marcado a data em meu diário com um ponto. Um pontinho que poderia ser um toque acidental da caneta, para que ninguém mais soubesse caso olhasse.
Dois anos desde que ela foi raptada. Nunca mais a encontrarão — as pessoas que a levaram já devem ter convencido a todos que a menina pertence a elas, e ela deve achar que essas pessoas são sua mãe e seu pai. Ela é pequena e provavelmente mal se lembra da mãe de verdade. Espero que seja feliz e que eles a amem tanto quanto eu amaria se estivesse aqui comigo.
Por um momento posso vê-la em nossas escadas, descendo sentada, degrau por degrau, e rindo. Me chamando para ir lá e assistir. Ela poderia estar ali se Glen a tivesse trazido para casa e para mim.
Ele não falou muito desde que voltamos. Está com o computador no joelho e o fecha rapidamente quando me sento ao lado dele.
— O que você está olhando, amor? — pergunto.
— Apenas passando por uns sites de esporte — diz, depois sai para abastecer o carro.
Pego o computador e abro. Diz que está bloqueado. Eu me sento e olho para a tela, para a minha foto que Glen colocou. Lá estou eu, bloqueada como o computador.
Quando ele volta para casa, tento conversar sobre o futuro.
— Por que não nos mudamos, Glen? Ter o recomeço de que tanto falamos? Não vamos escapar nunca se não fizermos isso.
— Nós não vamos nos mudar, Jean. — Ele me corta. — Esta é a nossa casa, e não serei expulso dela. Vamos suportar isso. Juntos. No fim, a imprensa vai se esquecer de nós e se dedicar a algum outro infeliz.
“Não vai”, quis dizer. Todo aniversário do desaparecimento de Bella, sempre que uma criança sumir, sempre que não houver muitas notícias, eles voltarão. E simplesmente estaremos sentados aqui, esperando.
— Há muitos lugares bons para morar, Glen. Um dia conversamos sobre morar perto do mar. Poderíamos fazer isso agora. Poderíamos até morar no exterior.
— No exterior? Que diabo você está falando? Não quero viver em um lugar onde não sei falar a língua. Vou ficar aqui.
Então ficamos. No fundo, poderíamos muito bem ter nos mudado para uma ilha deserta, já que estávamos totalmente isolados em nossa casinha. Apenas os tubarões circulando de vez em quando. Fazemos companhia um ao outro, resolvendo as palavras cruzadas juntos na cozinha — ele lendo as pistas e escrevendo as respostas enquanto eu ainda tento adivinhar —, vendo filmes juntos na sala de estar, eu aprendendo a tricotar, ele roendo as unhas. Como um velho casal aposentado. Eu ainda nem cheguei aos quarenta anos.
— Acho que o poodle dos Manning deve ter morrido. Há semanas que não encontro merda de cachorro na porta de casa — diz Glen, puxando conversa.
— Ele era muito velho.
As pichações continuam. Aquela tinta é terrível de tirar, e nenhum de nós quer ficar lá fora à vista de todos, esfregando, então elas permanecem. “ESCÓRIA” e “PEDOFILU” em grandes letras vermelhas na parede do jardim.
— Crianças — diz Glen. — Da escola pública, pela ortografia.
Há cartas da “brigada da esferográfica verde” quase toda semana, mas começamos a jogá-las direto na lata de lixo. É possível reconhecê-las a um quilômetro de distância. Nunca vi à venda aqueles envelopes pequenos ou as canetas verdes que eles usam — esse pessoal venenoso deve ter seu próprio fornecedor de canetas, assim como do papel pautado e tosco que preferem. Imagino que seja barato.
Eu costumava examinar a caligrafia para tentar descobrir que tipo de pessoa tinha enviado. Algumas eram cheias de voltas e rodopios — o tipo de letra habitual em convites de casamento — e acho que devem ser escritas por gente velha. Ninguém mais escreve assim.
Nem todas as cartas são anônimas. Alguns escrevem o endereço em uma letra fina e angulosa no alto — nomes adoráveis como “Cabana Rosa” ou “Os Salgueiros” — e depois vomitam bile abaixo. Fico muito tentada a escrever de volta e lhes dizer o que penso deles — dar-lhes uma dose de seu próprio veneno. Mentalizo as respostas enquanto finjo ver televisão, mas não vou além disso. Causaria problemas.
— Não passam de uns doentes, Jeanie — diz Glen cada vez que uma é cuspida pela caixa de correio. — Na verdade, deveríamos sentir pena deles.
Às vezes fico imaginando quem são, e então acho que devem ser pessoas como Glen e eu. Pessoas solitárias. Pessoas no limite das coisas. Prisioneiras em suas próprias casas.
Compro um grande quebra-cabeça na loja de caridade local. É a foto de uma praia com penhascos e gaivotas. Vou dar a mim mesma algo a fazer de tarde. Vai ser um longo inverno.