A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 32 de 55

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A Viúva

Capítulo 31

 

Quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A REPÓRTER

Kate Waters estava tomando o café da manhã na escrivaninha. Encontrava-se fora de si.

— Nós poderíamos ter publicado isto — disse a qualquer um que quisesse ouvir, enquanto virava as páginas do Herald.

Do outro lado da redação, Terry Deacon escutou, mas continuou digitando sua pauta. Kate largou sua torrada com mel e foi até lá.

— Nós poderíamos ter publicado isto — repetiu, de pé ao lado dele.

— Claro que poderíamos, Kate, mas Dawn queria dinheiro demais e já tínhamos feito três grandes entrevistas com ela.

Ele empurrou a cadeira para trás, parecendo incomodado.

— Sinceramente, onde está a novidade aqui? Eu não teria recusado a foto com a criança da casa ao lado, mas as vagabundas da internet e a pornografia infantil saíram em toda parte.

— Não é essa a questão, Terry. Agora o Herald é o jornal oficial de Bella Elliott. Se Taylor for novamente julgado e considerado culpado, eles poderão dizer que levaram o sequestrador de Bella à justiça. Onde nós estaremos? De pé nos degraus com uma mão na frente e outra atrás.

— Então encontre uma matéria melhor, Kate — retrucou o editor, aparecendo de repente atrás deles. — Não desperdice tempo com esse assunto requentado. Estou indo para uma reunião de marketing, conversamos mais tarde.

— Certo, Simon — disse ela às costas do editor, que se retirava.

— Droga, você foi mandada para a sala do diretor — brincou Terry, rindo, assim que o chefe já não podia mais ouvi-lo.

Kate retornou à sua cadeira e à sua torrada fria e começou a procurar a fugidia matéria melhor.

Em circunstâncias normais, ela simplesmente ligaria para Dawn Elliott ou Bob Sparkes, mas suas opções estavam sumindo rapidamente. Dawn abandonara o barco e Bob sumira do radar misteriosamente — não sabia dele há semanas. Ouvira do jornalista da editoria de Polícia que havia um problema de interferência na revisão do caso Bella, e o telefone de Sparkes parecia estar permanentemente desligado.

Ela tentou de novo e festejou silenciosamente quando tocou.

— Olá, Bob — disse depois que Sparkes enfim atendeu. — Tudo bem? Já voltou ao trabalho? Imagino que tenha visto o Herald.

— Oi, Kate. Vi, sim. Um passo ousado para eles, considerando o veredicto. Espero que tenham bons advogados. De qualquer modo, é bom falar com você. Estou bem. Tirei uma folga, mas já voltei ao trabalho. Estou na cidade, trabalhando com a polícia local. Ajeitando umas pontas soltas. Perto de você, na verdade.

— Bem, o que acha de almoçar hoje?

* * *

Ele estava sentado no pequeno e caro restaurante francês quando ela entrou, terninho escuro e um humor amargo, negro, em contraste com as toalhas de mesa brancas.

— Bob, você parece bem. — Ela mentiu. — Me desculpe, acho que estou atrasada. Trânsito.

Ele se levantou e estendeu a mão por cima da mesa.

— Acabei de chegar.

O papo furado parava e recomeçava, enquanto o garçom trazia cardápios, oferecia sugestões e água, aguardava os pedidos e servia o vinho. Mas finalmente, com pratos iguais de magret de canard à frente, ela começou de verdade.

— Eu quero ajudar, Bob — disse, pegando o garfo. — Deve haver alguma linha de investigação que possamos estudar novamente.

Ele não falou nada, só cortava a carne rosada no prato. Ela esperou.

— Olhe, Kate, cometemos um erro e não podemos desfazer isso. Vamos ver os desdobramentos da campanha do Herald. Acha que Glen vai processar o jornal?

— É um jogo perigoso processar por difamação — respondeu ela. — Já passei por essa situação. Se fizer isso, ele terá que se colocar no banco das testemunhas e depor. Será que realmente vai querer?

— Ele é um homem inteligente, Kate. Escorregadio — respondeu, fazendo bolinhas com o miolo do pão entre os dedos. — Não sei mais.

— Pelo amor de Deus, Bob. Você é um policial fantástico. Por que está desistindo?

Sparkes levantou a cabeça e a encarou.

— Me desculpe, não quis criticar. É que odeio ver você assim.

No breve intervalo da conversa, enquanto os dois tomavam seu vinho, Kate amaldiçoou sua precipitação. Deixe o pobre homem em paz, pensou.

Mas não conseguia. Não era da sua natureza.

— Então, o que estava fazendo com a polícia local hoje?

— Pontas soltas, como falei. Revisando coisas de duas investigações conjuntas; roubos de carro, esse tipo de coisa. Na verdade, também havia uns detalhes avulsos do caso Bella. Coisas do começo, quando pegamos Glen Taylor pela primeira vez.

— Algo interessante? — perguntou ela.

— Na verdade, não. A polícia local queria ter certeza de que o outro motorista da Qwik Delivery estava em casa quando chegássemos de Southampton.

— Que outro motorista?

— Havia dois motoristas em Hampshire naquele dia; você sabe disso.

Ela não sabia, ou não se lembrava.

— O outro era um cara chamado Mike Doonan. Foi com ele que falamos primeiro. Talvez o nome dele não tenha sido divulgado na época. Seja como for, ele é aleijado, a coluna está caindo aos pedaços; mal conseguia andar, e nunca encontramos nada a investigar.

— Vocês o interrogaram?

— Sim. Foi ele quem nos disse que Taylor também estava fazendo uma entrega na região naquele dia. Não sei se teríamos descoberto sem ele. Taylor fez a entrega como um favor, portanto não havia registro oficial. A equipe que está revisando o caso também foi vê-lo. Aparentemente, não acrescentou nada.

Kate pediu licença e foi ao toalete feminino, onde rabiscou o nome e deu um telefonema rápido, pedindo a um colega que descobrisse o endereço de Doonan. Para mais tarde.

Quando voltou à mesa, o detetive estava guardando o cartão de crédito na carteira.

— Bob, eu o convidei — disse ela.

Ele sorriu e fez um gesto com a mão para descartar o protesto de Kate.

— O prazer é todo meu. Foi bom ver você, Kate. Obrigado pelas palavras de incentivo.

Ela merecia aquilo, pensou Kate enquanto saíam em fila indiana. Na calçada, ele apertou a mão dela novamente e ambos retornaram ao trabalho.

Kate estava chamando um táxi quando seu celular começou a vibrar. Ela então dispensou o carro para atender.

— Há um Michael Doonan em Peckham, segundo os registros eleitorais. Vou mandar uma mensagem de texto com o endereço e o nome dos vizinhos — disse o jornalista da editoria de Polícia.

— Você é demais, obrigada — disse ela, erguendo a mão para chamar outro táxi.

O telefone tocou de novo, quase imediatamente.

— Kate, onde você está, meu Deus? Temos uma entrevista contratada com a ex-mulher daquele jogador de futebol. É perto de Leeds, então pegue o primeiro trem e eu lhe mando o histórico por e-mail. Ligue quando estiver na estação.