A Viúva
Capítulo 36
Sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
O DETETIVE
Sparkes escutou em silêncio Kate contar sua história, anotando discretamente o endereço e os nomes, mas impossibilitado de comentar ou questionar qualquer coisa. Ao lado, seu novo chefe trabalhava, dividindo registros de assaltos de rua por gênero, idade e etnia.
— Certo — disse ele quando Kate fez uma pausa. — Estou um pouco ocupado no momento. Pode mandar o documento que mencionou? Talvez possamos nos encontrar amanhã?
Kate entendeu o código profissional.
— Dez horas, na frente do pub no fim da rua, Bob. Estou mandando a foto agora por e-mail.
Ele voltou à tela do computador, fazendo para o colega um gesto de desculpas pela interrupção, e esperou até que tivessem terminado o trabalho para olhar o telefone.
Sparkes ficou nauseado ao ver o cartão de filiação. A última visita de Taylor fazia apenas três semanas.
Ele ligou para Zara Salmond a caminho da estação do metrô.
— Senhor? Como vai?
— Bem, Salmond. Precisamos voltar ao caso — falou, sem precisar esclarecer qual. — Temos que examinar todos os detalhes novamente para descobrir um modo de pegá-lo.
— Certo. Tudo bem. Pode me dizer por quê?
Ele podia imaginar a expressão no rosto da sua sargento.
— É difícil no momento, Salmond, mas tenho informações de que ele está de volta à trilha da pornografia. Não posso dizer mais que isso, mas entro em contato quando tiver outras informações.
Salmond suspirou. Sparkes podia ouvir os pensamentos dela borbulhando: De novo, não. Não podia culpá-la.
— Estou fora para o Natal, senhor. De folga. Mas volto no dia 2 de janeiro. Isso pode esperar até lá?
— Sim. Me desculpe por telefonar assim do nada, Salmond. E Feliz Natal.
Ele colocou o telefone no bolso do sobretudo e desceu os degraus, com um nó no estômago.
A força policial tinha colocado o caso Bella Elliott na geladeira depois que a longa revisão de Downing não revelara novas pistas, nenhuma van nem outros suspeitos. A detetive Jude Downing arrumara sua escrivaninha e retornara ao trabalho de verdade, e a Força Policial de Hampshire soltou um comunicado à imprensa informando que a investigação iria prosseguir. Na verdade, isso queria dizer que o processo se arrastaria com uma equipe de duas pessoas para conferir eventuais telefonemas sobre possíveis vislumbres de Bella e repassá-los. Ninguém dizia isso em público, mas eles haviam chegado a um beco sem saída.
Até mesmo o apetite pela campanha emocional de Dawn Elliott estava começando a murchar. Não havia muitas formas diferentes de dizer “Quero minha filha de volta”, imaginava Sparkes. E o Herald ficara bem quieto sobre o tema depois de sua tempestade publicitária inicial.
E quando Sparkes foi suspenso, o ímpeto diário pela caçada foi eliminado. O inspetor-chefe Wellington também se assegurou de que Salmond estivesse ocupada demais com outros trabalhos para se encarregar disso por iniciativa própria. Ela tomara conhecimento de que Sparkes voltara da licença médica, mas ele ainda não tinha posto os pés no escritório. Seu telefonema antes do Natal despertara muitos sentimentos diferentes.
Salmond não admitia aos colegas, mas sentia falta do humor seco e da determinação de Sparkes. “Não posso ser sentimental se quiser chegar a algum lugar na polícia”, dissera a ele.
No dia em que voltou ao trabalho, ela pegou o próprio arquivo do caso Bella, com todas as pontas soltas, e fez uma lista enquanto esperava a ligação dele.
Enquanto folheava o arquivo, encontrou a averiguação sobre Matt White. Algo não concluído. No começo, ela havia colocado na categoria “Prioridades”, mas isso fora deixado de lado devido à última ideia de Sparkes. Mas não dessa vez. Salmond iria correr atrás daquilo. Entrou na internet para buscar os registros eleitorais para aquele nome. Dezenas de Matthews Whites, mas nenhum correspondendo às informações de Dawn sobre idade, estado civil e região.
Ela precisava descobrir a verdadeira identidade do Sr. White, então retornou às informações básicas sobre o relacionamento de Dawn com ele. Tudo aconteceu basicamente na boate Tropicana e, uma vez, em um quarto de hotel.
— Onde ele teria precisado usar o nome verdadeiro, Zara? — perguntou para si mesma em voz alta. — Quando usou o cartão de crédito — finalmente respondeu. — Aposto que ele pagou com cartão o hotel para onde levou Dawn.
O hotel fazia parte de uma rede, e Salmond cruzou os dedos mentalmente enquanto discava o número para saber se eles ainda mantinham registros das datas em que Dawn se encontrou com Matt White.
Cinco dias depois, Salmond tinha outra lista. A gerente do hotel era uma mulher do mesmo tipo eficiente que a detetive, e mandara para ela por e-mail os dados relevantes.
— Matt White está aqui, senhor — disse ela com confiança em um rápido telefonema a Sparkes, e não falou com mais ninguém pelo resto do dia.
O detetive baixou o telefone e se permitiu um momento para estudar as possibilidades. Seu novo chefe era um homem impaciente, e ele tinha que terminar um artigo sobre o impacto da etnia e do gênero na eficiência do policiamento comunitário. O que quer que isso significasse.
Os cinco meses anteriores haviam sido surreais.
Como orientado por seu superior e aconselhado por seu representante do sindicato, ele entrara em contato com um dos conselheiros listados e passara sessenta minutos sofridos com uma mulher com excesso de peso e falta de qualificações que só falava sobre lidar com os demônios. “Eles estão sentados no seu ombro, Bob. Consegue senti-los?”, dizia sinceramente, soando mais feito uma médium charlatã do que uma profissional. Ele a escutou educadamente, mas concluiu que a mulher tinha mais demônios do que ele, e nunca mais voltou. Eileen teria que bastar.
Sua licença foi estendida paulatinamente, e enquanto ele esperava ser chamado de volta, flertou com a ideia de fazer um curso de psicologia em uma universidade à distância. Imprimiu a bibliografia exigida e começou seus estudos silenciosamente na sala de jantar.
Quando a convocação finalmente veio, foi mandado para um zigue-zague de missões de curto prazo com outras forças, cobrindo lacunas e escrevendo relatórios, enquanto Hampshire descobria o que fazer com ele. Ainda estava com a reputação manchada no que dizia respeito à Unidade de Investigação de Homicídios, mas não estava pronto para se aposentar, como eles haviam esperado. Ainda não podia sair. Ainda havia coisas a fazer.
Salmond demorou uma semana para repassar datas e nomes, listando de novo e de novo enquanto verificava registro eleitoral, registros digitais da polícia e mídias sociais para rastrear os hóspedes. Ela adorava aquele tipo de trabalho — caçar por meio de dados, sabendo que, se a informação estivesse ali, iria descobrir e viver o momento de triunfo quando o nome surgisse.
Foi em uma tarde de quinta-feira que ela o encontrou. O Sr. Matthew Evans, um homem casado que morava com a esposa, Shan, em Walsall, e que estivera em Southampton nas datas fornecidas por Dawn. Idade certa, emprego certo.
Sem perder tempo, ela procurou de novo a solícita gerente do hotel e lhe pediu que verificasse o nome em seu sistema. Queria saber se ele estivera na cidade no dia em que Bella desaparecera.
— Não, nenhum Matthew Evans desde julho de 2003. Ele passou uma noite em um quarto duplo de luxo e solicitou serviço de quarto — relatou a gerente.
— Perfeito, obrigada — disse ela, já mandando uma mensagem de texto para Sparkes com a novidade.
Respirou fundo e subiu as escadas até o escritório da investigadora-chefe Wellington para lhe contar sobre a nova pista. Ela mal tinha tomado conhecimento de Zara, a não ser como parte do problema Bob Sparkes, mas isso estava prestes a mudar. Zara Salmond entraria no mapa.
Entretanto, se esperava um desfile com papel picado, estava enganada. Wellington escutou com atenção e murmurou:
— Bom trabalho, sargento. Escreva seu relatório e me envie imediatamente. Vamos mandar West Midlands dar uma olhada nesse Evans.
Decepcionada, Salmond voltou para sua sala.