A Viúva
Capítulo 11
Quinta-feira, 2 de novembro de 2006
O DETETIVE
Matthews estava com o caderno de Stan Spencer na mão e parecia infeliz.
— Eu estava olhando isto novamente, chefe, e relendo as observações do Sr. Spencer. Muito detalhadas. Condições climáticas, número de veículos estacionados na rua e seus proprietários, quem entrou e saiu das casas. Inclusive Dawn.
Sparkes se animou.
— Registrou entradas e saídas das casas em quase todos os dias.
— Estava observando Dawn especificamente?
— Na verdade, não. Todos os vizinhos são mencionados. Mas há uma coisa em suas anotações sobre a qual precisamos perguntar a ele. Elas terminam no meio de uma frase no domingo, depois passam para segunda-feira, 2 de outubro, e a coisa sobre o homem de cabelo comprido. Parece haver uma página faltando. E ele escreveu a data completa no alto da página. Ele não faz isso normalmente.
Sparkes pegou o caderno e o examinou, sentindo um frio na barriga.
— Meu Deus, você acha que ele inventou isso?
Matthews fez uma careta.
— Não necessariamente. Ele pode ter sido interrompido ao fazer o diário de domingo e não retornado. Mas...
— O quê?
— A capa diz que o caderno tem trinta e duas páginas. Agora só tem trinta.
Sparkes passou as mãos pelo cabelo.
— Por que ele faria isso? Então é ele? Ele é o cara? O nosso Sr. Spencer tem se escondido à vista de todos?
* * *
Stan Spencer usava roupas de jardinagem ao atender a porta, com calças velhas, um gorro de lã e luvas.
— Bom dia, inspetor. Bom dia, sargento Matthews. Bom vê-los. Alguma novidade?
Ele os guiou pela casa até a estufa, onde Susan lia um jornal.
— Veja quem está aqui — falou ele, animado. — Pegue uma bebida para os policiais, querida.
— Sr. Spencer — disse Sparkes, tentando dar um tom oficial ao que estava se transformando em um café entre amigos. — Queremos falar sobre suas anotações.
— Claro. Vá em frente, por favor.
— Parece haver uma página faltando.
— Como assim? — perguntou ele, enrubescendo.
Matthews abriu as páginas que interessavam na mesa diante dele.
— O domingo termina aqui, no meio de suas observações sobre o lixo diante da casa de Dawn, Sr. Spencer. Na página seguinte é segunda-feira e contém as anotações sobre o homem que diz ter visto.
— Eu o vi — disse Spencer, apressado. — Arranquei a página por ter cometido um erro, apenas isso.
Houve um silêncio ao redor da mesa.
— Onde está a página que falta, Sr. Spencer? O senhor a guardou? — perguntou Sparkes delicadamente.
O rosto de Spencer se enrugou.
A esposa apareceu com uma bandeja de canecas com café e uma travessa de biscoitos caseiros.
— Fiquem à vontade — dizia alegremente, até notar o silêncio pesado ao redor da mesa. — Qual é o problema? — perguntou.
— Gostaríamos de conversar com seu marido por um momento, Sra. Spencer.
Ela parou, observando o rosto de Stan, e se virou, a bandeja ainda nas mãos.
Sparkes repetiu a pergunta.
— Coloquei na gaveta da escrivaninha, eu acho — respondeu Spencer, e entrou na casa para procurar.
Ele reapareceu com uma folha dobrada de papel pautado. O restante do diário de domingo estava ali, e na metade da página começava o diário original de segunda-feira.
— Clima agradável para a estação — Sparkes lia em voz alta. — Veículos legalizados na rua durante o dia. Manhã: Astra do n o o 44, carro da parteira no n 68. Tarde: Van de Peter. Veículos ilegais na rua. Manhã: sete carros habituais de empregados na cidade. Tarde: igualmente. Folhetos sobre o transtorno causado por estacionarem ali colocados sob os limpadores. Tudo tranquilo.
— O senhor viu o homem de cabelo comprido no dia em que Bella foi levada, Sr. Spencer?
— Eu... Eu não tenho certeza.
— Não tem certeza?
— Eu o vi, mas pode ter sido em outro dia, inspetor. Eu posso ter me confundido.
— E suas anotações originais, Sr. Spencer?
Ele teve a decência de enrubescer.
— Cometi um erro — disse em voz baixa. — Havia muita coisa acontecendo naquele dia. Eu só queria ajudar. Ser de alguma serventia para Bella.
Sparkes quis torcer o pescoço dele, mas manteve o tom seco e profissional do interrogatório.
— O senhor achou que estava ajudando Bella ao nos mandar na direção errada, Sr. Spencer?
O homem mais velho afundou na cadeira.
— Eu só queria ajudar — repetiu ele.
— A questão, Sr. Spencer, é que as pessoas que mentem, com frequência têm algo a esconder.
— Não tenho nada a esconder. Juro. Sou um homem decente. Passo meu tempo protegendo o bairro do crime. Impedi roubos de veículos nesta rua. Sozinho. Pergunte a Peter Tredwell. Ele dirá a vocês.
Spencer parou.
— Todos vão saber que eu errei? — perguntou, os olhos suplicantes voltados para os policiais.
— Essa realmente não é nossa principal preocupação no momento — cortou Sparkes. — Vamos precisar revistar sua casa.
Enquanto membros da sua equipe começavam a revirar a vida dos Spencer, Matthews e o detetive foram embora, deixando o casal contemplando o seu novo papel sob os holofotes.
Matthews esfregou o maxilar.
— Vou perguntar para os vizinhos a respeito dele, chefe.
* * *
Na casa dos Tredwell, eles eram só elogios para “Stan, o homem” e suas patrulhas.
— Ele afugentou uns baderneiros que arrombaram a minha van no ano passado. Impediu que minhas ferramentas fossem roubadas. Digno da parte dele — disse o Sr. Tredwell. — Agora paro em um estacionamento fechado. É mais seguro.
— Mas sua van estava estacionada na Manor Road no dia em que Bella Elliott foi levada. O Sr. Spencer a registrou.
— Não estava, não. Usei para trabalhar, depois coloquei no estacionamento fechado. Faço a mesma coisa todo dia.
Matthews anotou os detalhes rapidamente e se levantou para ir embora.
* * *
Sparkes ainda estava de pé do lado de fora do bangalô dos Spencer.
— Na rua tem uma van azul não identificada no horário em que tudo aconteceu, chefe. Não era do Sr. Tredwell.
— Ai, meu Deus. O que mais Spencer fez de errado? — reagiu Sparkes. — Ponha a equipe para repassar os depoimentos das testemunhas e as imagens de câmeras na área. E descubra qual dos nossos pervertidos tem uma van azul.
Nenhum dos dois voltou a falar. Não precisavam. Sabiam que estavam pensando a mesma coisa. Que tinham perdido um mês inteiro. Os jornais iriam crucificá-los.
Sparkes pegou o telefone e ligou para a assessoria de imprensa a fim de tentar reduzir os danos.
— Vamos dizer aos repórteres que temos novas provas — declarou. — E vamos afastá-los do homem de cabelo comprido. Deixem isso um pouco de lado e se concentrem na caçada à van azul. Certo?
A imprensa, faminta por qualquer detalhe novo, colocou isso nas primeiras páginas. Dessa vez não houve aspas da fonte preferida. O Sr. Spencer não estava mais atendendo à porta.