A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 12 de 55

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A Viúva

Capítulo 11

 

 

Quinta-feira, 2 de novembro de 2006

O DETETIVE

Matthews estava com o caderno de Stan Spencer na mão e parecia infeliz.

— Eu estava olhando isto novamente, chefe, e relendo as observações do Sr. Spencer. Muito detalhadas. Condições climáticas, número de veículos estacionados na rua e seus proprietários, quem entrou e saiu das casas. Inclusive Dawn.

Sparkes se animou.

— Registrou entradas e saídas das casas em quase todos os dias.

— Estava observando Dawn especificamente?

— Na verdade, não. Todos os vizinhos são mencionados. Mas há uma coisa em suas anotações sobre a qual precisamos perguntar a ele. Elas terminam no meio de uma frase no domingo, depois passam para segunda-feira, 2 de outubro, e a coisa sobre o homem de cabelo comprido. Parece haver uma página faltando. E ele escreveu a data completa no alto da página. Ele não faz isso normalmente.

Sparkes pegou o caderno e o examinou, sentindo um frio na barriga.

— Meu Deus, você acha que ele inventou isso?

Matthews fez uma careta.

— Não necessariamente. Ele pode ter sido interrompido ao fazer o diário de domingo e não retornado. Mas...

— O quê?

— A capa diz que o caderno tem trinta e duas páginas. Agora só tem trinta.

Sparkes passou as mãos pelo cabelo.

— Por que ele faria isso? Então é ele? Ele é o cara? O nosso Sr. Spencer tem se escondido à vista de todos?

* * *

Stan Spencer usava roupas de jardinagem ao atender a porta, com calças velhas, um gorro de lã e luvas.

— Bom dia, inspetor. Bom dia, sargento Matthews. Bom vê-los. Alguma novidade?

Ele os guiou pela casa até a estufa, onde Susan lia um jornal.

— Veja quem está aqui — falou ele, animado. — Pegue uma bebida para os policiais, querida.

— Sr. Spencer — disse Sparkes, tentando dar um tom oficial ao que estava se transformando em um café entre amigos. — Queremos falar sobre suas anotações.

— Claro. Vá em frente, por favor.

— Parece haver uma página faltando.

— Como assim? — perguntou ele, enrubescendo.

Matthews abriu as páginas que interessavam na mesa diante dele.

— O domingo termina aqui, no meio de suas observações sobre o lixo diante da casa de Dawn, Sr. Spencer. Na página seguinte é segunda-feira e contém as anotações sobre o homem que diz ter visto.

— Eu o vi — disse Spencer, apressado. — Arranquei a página por ter cometido um erro, apenas isso.

Houve um silêncio ao redor da mesa.

— Onde está a página que falta, Sr. Spencer? O senhor a guardou? — perguntou Sparkes delicadamente.

O rosto de Spencer se enrugou.

A esposa apareceu com uma bandeja de canecas com café e uma travessa de biscoitos caseiros.

— Fiquem à vontade — dizia alegremente, até notar o silêncio pesado ao redor da mesa. — Qual é o problema? — perguntou.

— Gostaríamos de conversar com seu marido por um momento, Sra. Spencer.

Ela parou, observando o rosto de Stan, e se virou, a bandeja ainda nas mãos.

Sparkes repetiu a pergunta.

— Coloquei na gaveta da escrivaninha, eu acho — respondeu Spencer, e entrou na casa para procurar.

Ele reapareceu com uma folha dobrada de papel pautado. O restante do diário de domingo estava ali, e na metade da página começava o diário original de segunda-feira.

— Clima agradável para a estação — Sparkes lia em voz alta. — Veículos legalizados na rua durante o dia. Manhã: Astra do n o o 44, carro da parteira no n 68. Tarde: Van de Peter. Veículos ilegais na rua. Manhã: sete carros habituais de empregados na cidade. Tarde: igualmente. Folhetos sobre o transtorno causado por estacionarem ali colocados sob os limpadores. Tudo tranquilo.

— O senhor viu o homem de cabelo comprido no dia em que Bella foi levada, Sr. Spencer?

— Eu... Eu não tenho certeza.

— Não tem certeza?

— Eu o vi, mas pode ter sido em outro dia, inspetor. Eu posso ter me confundido.

— E suas anotações originais, Sr. Spencer?

Ele teve a decência de enrubescer.

— Cometi um erro — disse em voz baixa. — Havia muita coisa acontecendo naquele dia. Eu só queria ajudar. Ser de alguma serventia para Bella.

Sparkes quis torcer o pescoço dele, mas manteve o tom seco e profissional do interrogatório.

— O senhor achou que estava ajudando Bella ao nos mandar na direção errada, Sr. Spencer?

O homem mais velho afundou na cadeira.

— Eu só queria ajudar — repetiu ele.

— A questão, Sr. Spencer, é que as pessoas que mentem, com frequência têm algo a esconder.

— Não tenho nada a esconder. Juro. Sou um homem decente. Passo meu tempo protegendo o bairro do crime. Impedi roubos de veículos nesta rua. Sozinho. Pergunte a Peter Tredwell. Ele dirá a vocês.

Spencer parou.

— Todos vão saber que eu errei? — perguntou, os olhos suplicantes voltados para os policiais.

— Essa realmente não é nossa principal preocupação no momento — cortou Sparkes. — Vamos precisar revistar sua casa.

Enquanto membros da sua equipe começavam a revirar a vida dos Spencer, Matthews e o detetive foram embora, deixando o casal contemplando o seu novo papel sob os holofotes.

Matthews esfregou o maxilar.

— Vou perguntar para os vizinhos a respeito dele, chefe.

* * *

Na casa dos Tredwell, eles eram só elogios para “Stan, o homem” e suas patrulhas.

— Ele afugentou uns baderneiros que arrombaram a minha van no ano passado. Impediu que minhas ferramentas fossem roubadas. Digno da parte dele — disse o Sr. Tredwell. — Agora paro em um estacionamento fechado. É mais seguro.

— Mas sua van estava estacionada na Manor Road no dia em que Bella Elliott foi levada. O Sr. Spencer a registrou.

— Não estava, não. Usei para trabalhar, depois coloquei no estacionamento fechado. Faço a mesma coisa todo dia.

Matthews anotou os detalhes rapidamente e se levantou para ir embora.

* * *

Sparkes ainda estava de pé do lado de fora do bangalô dos Spencer.

— Na rua tem uma van azul não identificada no horário em que tudo aconteceu, chefe. Não era do Sr. Tredwell.

— Ai, meu Deus. O que mais Spencer fez de errado? — reagiu Sparkes. — Ponha a equipe para repassar os depoimentos das testemunhas e as imagens de câmeras na área. E descubra qual dos nossos pervertidos tem uma van azul.

Nenhum dos dois voltou a falar. Não precisavam. Sabiam que estavam pensando a mesma coisa. Que tinham perdido um mês inteiro. Os jornais iriam crucificá-los.

Sparkes pegou o telefone e ligou para a assessoria de imprensa a fim de tentar reduzir os danos.

— Vamos dizer aos repórteres que temos novas provas — declarou. — E vamos afastá-los do homem de cabelo comprido. Deixem isso um pouco de lado e se concentrem na caçada à van azul. Certo?

A imprensa, faminta por qualquer detalhe novo, colocou isso nas primeiras páginas. Dessa vez não houve aspas da fonte preferida. O Sr. Spencer não estava mais atendendo à porta.