A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 27 de 55

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A Viúva

Capítulo 26

 

Segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O DETETIVE

A sala de investigações fora esvaziada quatro meses antes do julgamento; paredes e quadros brancos foram limpos, mosaico de fotos e mapas, desmontados e colocados em caixas de arquivo para a promotoria.

Depois que levaram a última caixa, Sparkes ficou olhando para as tênues marcas retangulares deixadas em algumas das paredes.

Quase nenhum sinal de que a investigação tinha acontecido, pensou ele.

Uma vez, dissera a Eileen que aquele momento era um pouco como depressão pós-coito. “Pós o quê?”, perguntara ela. “Você sabe, aquela tristeza depois do sexo, quando tudo acaba”, explicara ele, acrescentando, tímido. “Li sobre isso em uma revista.”

“Deve ser coisa de homem”, retrucara ela.

Os últimos interrogatórios de Taylor haviam sido longos e frustrantes. Ele questionara a prova da embalagem de doce, alegando ser só uma coincidência.

— Como você sabe que Jean não se equivocou? Ela poderia ter pegado isso na rua ou em um café.

— Ela disse que a encontrou em sua van, Glen. Por que ela diria isso se não fosse verdade?

A boca de Taylor endurecera.

— Ela está sob muita pressão.

— E o pelo de gato no papel? Um pelo exatamente do mesmo tipo de gato com o qual Bella estava brincando naquele dia?

— Pelo amor de Deus. Quantos gatos cinza há neste país? Isso é ridículo.

Taylor se virou para o advogado.

— Esse pelo poderia ter flutuado de qualquer lugar... Não é mesmo, Tom?

Sparkes fez uma pausa, saboreando o raro toque de pânico na voz do suspeito. Depois passou para o que imaginara que seria o golpe de misericórdia. O momento em que Taylor se daria conta de que havia sido visto e manipulado pela polícia.

— E quanto ao Ursão, Sr. Taylor? — perguntou Sparkes.

A boca do homem ficara aberta, depois fechara de repente.

— Não sei do que está falando.

— Você tem ido ao bosque procurar amigas. Encontrando amigas, não é mesmo? Mas nós também conhecemos Cachinhos Dourados.

Taylor começou a bater os pés, e olhou para o colo. Sua posição-padrão.

Ao lado dele, Tom Payne pareceu confuso com a reviravolta nas perguntas e interrompeu o interrogatório.

— Eu gostaria de um momento a sós com o meu cliente, por favor.

Cinco minutos depois, a dupla tinha combinado a história.

— Foi uma fantasia particular entre dois adultos conscientes — disse Glen Taylor. — Eu estava passando por uma grande carga de estresse.

— Quem era a garotinha começando com B, Glen?

— Foi uma fantasia particular entre dois adultos conscientes.

— Era Bella?

— Foi uma fantasia particular...

— O que você fez com Bella?

— Foi uma fantasia particular...

Quando o acusaram, ele parou de murmurar sobre sua fantasia particular e encarou fixamente o detetive.

— Está cometendo um terrível engano, Sr. Sparkes.

Foi a última coisa que Taylor disse antes de ser trancafiado para aguardar o julgamento.

* * *

Passar um inverno detido não o persuadiu a cooperar e, em 11 de fevereiro de 2008, Glen Taylor compareceu ao tribunal Old Bailey para se declarar inocente das acusações de sequestro em uma voz alta e firme.

Ele se sentou, mal reconhecendo a existência dos carcereiros ao lado, enquanto fixava o olhar no detetive, que seguia para o banco das testemunhas.

Sparkes sentiu a força do olhar de Taylor queimando a sua nuca e tentou se recompor antes de fazer o juramento. Havia um leve tremor em sua voz enquanto lia as palavras no cartão, mas ele prosseguiu, apresentando as evidências de modo competente, dando respostas curtas, claras e com humildade.

Os meses arrastando os pés, perseguindo, levantando peso, conferindo, interrogando e acumulando evidências foram condensados em uma apresentação breve diante de uma plateia pequena e seleta e uma bateria de críticos.

O principal deles era o defensor de Glen Taylor, um aristocrata veterano que usava toga e uma antiga peruca gasta, e que se ergueu para interrogá-lo.

O júri de oito homens e quatro mulheres, selecionado pela defesa de modo a garantir que sensibilidades e simpatias masculinas fossem maioria, virou como um buquê de girassóis para se concentrar nele.

O defensor, Charles Sanderson, Conselheiro Real, ficou de pé com uma das mãos no bolso, a outra segurando suas anotações. Transpirando confiança, começou sua tentativa de abalar algumas das evidências e plantar dúvidas na consciência coletiva do júri.

— Quando a testemunha, o Sr. Spencer, fez uma anotação sobre a van azul? Foi antes de inventar ter visto o homem de cabelo comprido?

— O Sr. Spencer estava equivocado sobre o que tinha visto. Ele admitiu isso — disse Sparkes, mantendo a voz firme.

— Sim, entendo.

— Seu testemunho será de que escreveu ter visto o que achou ser a van azul de Peter Tredwell ao fazer suas anotações na tarde de 2 de outubro.

— E ele tem certeza de que não inventou, perdão, cometeu um equívoco sobre ter visto uma van azul?

— Sim, ele tem certeza. Ele lhe dirá pessoalmente quando testemunhar.

— Entendo.

— A que distância a testemunha estava quando viu a van azul?

— E o Sr. Spencer usa óculos?

— Entendo.

— E quantas vans azuis circulam pelas ruas do Reino Unido, inspetor?

— Entendo.

Era o “entendo” que causava o dano: cada “entendo” significava um “Ora, ora, mais um ponto para nós”.

Bam-bam-bam. Sparkes desviou os golpes pacientemente. Ele já havia lidado com diversos Sandersons ao longo dos anos, exibicionistas da “velha escola”, e sabia que esse tipo de superioridade nem sempre caía bem com um júri.

Eles então abordaram a descoberta da embalagem do doce, e Sanderson tomou o caminho esperado, que era sobre as possibilidades de contaminação da prova.

— Detetive-inspetor, por quanto tempo a embalagem de doce ficou no bolso do casaco de Jean Taylor?

Sparkes manteve uma voz firme, preocupando-se em olhar para todos os jurados de modo a enfatizar o que dizia.

— Acreditamos que sete meses. Ela afirmou em sua declaração que a encontrara na van em 17 de dezembro. Foi a única vez que pôde acompanhar o marido em uma entrega, é por isso que se lembra bem.

— Sete meses? É muito tempo para juntar outras partículas e pelos, não é?

— Pelo de um birmanês mestiço cinza, a exemplo do gato da família Elliott? Traremos depoimentos de especialistas dizendo que é muitíssimo improvável estatisticamente. E a probabilidade de uma coincidência diminui ainda mais quando a prova de pelo de gato é encontrada em uma embalagem de Skittles. Um gato birmanês mestiço e um doce Skittles estavam presentes no local quando Bella Elliott foi sequestrada.

Sparkes viu que os jurados estavam fazendo anotações, e Sanderson agiu rapidamente. Sparkes tomou um gole de água. Sabia que o adversário estava construindo as bases para o seu grand finale: as conversas com Cachinhos Dourados.

O detetive havia se preparado com os advogados para se assegurar de que estava pronto. Ele conhecia cada nuance da Lei de Regulação de Poderes Investigativos de 2000, cada passo do procedimento de autorização, a preparação cuidadosa da Fonte de Informações Humana Disfarçada e a preservação e a custódia de evidências.

A equipe investiu um volume significativo de tempo preparando-o para destacar o uso de salas de bate-papo por Taylor e seu hábito de consumir pornografia.

“O júri não estará interessado na cláusula 101 nem em quem deu permissão para o quê; precisamos contar a eles sobre o risco de Taylor alimentar seu apetite por menininhas”, conclamara o líder da equipe da Procuradoria Real, e Sparkes sabia que ele estava certo.

O detetive se sentia pronto quando o defensor marchou no campo minado do vício em pornografia, questionando os atos da polícia a cada passo. O objetivo de Sanderson era forçá-lo a admitir que Taylor poderia ter inadvertidamente baixado algumas das imagens “mais extremas” encontradas no seu computador.

— Aquelas imagens de crianças sendo abusadas sexualmente? — começara Sparkes. — Acreditamos que ele as baixou de forma deliberada; que não poderia ter feito isso acidentalmente, e especialistas vão testemunhar a favor disso.

— Também temos especialistas que vão dizer que isso poderia ter sido acidental, inspetor.

Sparkes sabia que a defesa era ajudada pelo fato de que Taylor não se parecia em nada com os pervertidos que em geral se sentavam no banco dos réus. A equipe da promotoria lhe dissera que Sanderson mostrara uma foto de seu cliente aos advogados mais jovens e consultores no escritório e que a palavra mais usada para descrevê-lo nesses grupos de pesquisa informais tinha sido “elegante”.

Com as imagens deixadas de lado, Sanderson bateu de frente com o detetive sobre o desaparecimento de Bella Elliott.

— Detetive-inspetor Sparkes, não é verdade que Bella Elliott nunca foi encontrada?

— Sim, isso é correto.

— E que sua equipe não conseguiu encontrar nenhuma pista do paradeiro da menina?

— Não, isso não é correto. Nossa investigação nos levou ao acusado.

— Seu caso é baseado em suspeitas, suposições e evidências circunstanciais, não em fatos, inspetor, não é mesmo?

— Temos provas claras ligando o acusado ao desaparecimento de Bella Elliott.

— Ah, as provas. Palpites forenses e testemunhas sem credibilidade. Tudo muito frágil, porque, suponho, vocês sempre estiveram atrás do homem errado. Vocês estavam tão desesperados que recorreram a uma armadilha para atrair o meu cliente para um relacionamento ficcional e fraudulento.

Os jurados pareciam não saber o que era um relacionamento ficcional e fraudulento, mas estavam interessados no espetáculo. Quatro estrelas e “atuações cativantes” seria como o The Telegraph resenharia aquilo no dia seguinte, pensou Sparkes quando finalmente desceu do banco das testemunhas na hora do almoço e voltou ao seu lugar na plateia.

Mas a hora da estrela chegou naquela tarde. Entediados após um almoço institucional, os jurados voltaram e se jogaram em suas cadeiras. Não ficaram assim muito tempo.

A mãe se sentou no banco das testemunhas usando um vestido preto e simples. No peito, um broche vermelho de “Encontrem Bella”.

Sparkes lançou um sorriso encorajador, mas lamentou o fato de ela ter escolhido colocar o broche e ficou preocupado com as questões que isso poderia levantar.

A promotora, que parecia um fiapo ao lado da imensa silhueta de seu adversário, conduziu Dawn Elliott por seu depoimento, deixando que a jovem contasse sua história de forma simples e eficaz.

Quando Dawn perdeu o controle ao descrever o momento em que se dera conta de que a filha havia sumido, os jurados ficaram fascinados, e alguns pareceram prestes a chorar. O juiz perguntou se ela gostaria de um copo de água, e o oficial de justiça lhe entregou, enquanto os advogados mexiam em seus papéis, prontos para recomeçar.

Foi a vez de Sanderson.

— Srta. Elliott, Bella costumava brincar do lado de fora? Na frente da casa, onde não podia vê-la?

— Às vezes, mas só por alguns minutos.

— Minutos passam muito rápido, não acha? Com tantas coisas a fazer sendo mãe?

Dawn sorriu com esse toque de simpatia.

— Posso ficar ocupada, mas sei que ela só ficou fora de vista por alguns minutos.

— Como sabe disso?

— Eu só estava fazendo macarrão, como já disse. Isso não demora muito.

— Algo mais?

— Bem, também lavei a louça. E dobrei algumas das roupas de Bella que estavam na secadora, para não precisar passar.

— Parece ter sido uma tarde ocupada, a sua. E também houve dois telefonemas para o seu celular. É fácil esquecer que Bella estava do lado de fora.

Dawn começou a soluçar novamente, mas Sanderson não titubeou.

— Sei que isso é difícil, mas só quero estabelecer a cronologia do desaparecimento de Bella. Você entende como isso é importante, não entende?

Ela fez que sim com a cabeça e assoou o nariz.

— E dependemos de você para detalharmos isso, porque a última vez que mais alguém viu Bella foi na loja de jornais e revistas, às 11h35. Não foi, Srta. Elliott?

— Compramos doces.

— Sim, Smarties, segundo o recibo. Mas isso significa que a margem para o desaparecimento de Bella na verdade é entre 11h35 e 15h30. Isso dá quase quatro horas. Porque mais ninguém colocou os olhos nela durante esse tempo.

Com a voz falhando, Dawn agarrou o gradil do banco das testemunhas.

— Não, não saímos novamente. Mas minha mãe ouviu Bella quando ligou de tarde. Ela me disse para mandar um beijo para ela.

— Srta. Elliott, por favor fale mais alto para que o meritíssimo juiz e o júri possam ouvir seu testemunho.

Dawn pigarreou e falou um “Desculpe”, sem emitir som, para o juiz.

— Sua mãe ouviu a voz de uma criança ao fundo, mas poderia ter sido na televisão, não poderia, Srta. Elliott? Sua mãe disse à polícia que não falou com Bella.

— Bella não foi até o telefone, saiu correndo para pegar alguma coisa.

— Entendo. E depois foi para fora mais ou menos uma hora depois.

— Ela só ficou fora de vista por alguns minutos.

— Sim, obrigado, Srta. Elliott.

Dawn estava pronta para deixar o banco das testemunhas, mas Sanderson a deteve.

— Ainda não terminou, Srta. Elliott. Vejo que está usando um broche com os dizeres “Encontrem Bella”.

Dawn tocou no broche instintivamente.

— Você acredita que Bella ainda está viva, não é mesmo? — perguntou o defensor.

Dawn Elliott assentiu, sem saber aonde ele queria chegar.

— De fato, você tem vendido entrevistas para jornais e revistas dizendo exatamente isso.

A acusação de que ela estava ganhando dinheiro com a criança desaparecida fez vibrar os assentos da imprensa e as canetas pararam à espera da resposta.

Dawn ficou na defensiva, de repente falando mais alto.

— Sim, espero que ela esteja viva. Mas ela foi levada, e aquele homem a levou.

Ela apontou para Taylor, que olhou para baixo e começou a escrever em seu bloco.

— E o dinheiro é para o fundo Encontrem Bella — acrescentou calmamente.

— Entendo — disse o defensor, e então se sentou.

* * *

Outra semana se passou com vizinhos, especialistas da polícia, jurados doentes e discussões legais até que o policial Dan Fry subisse ao banco das testemunhas para dar seu depoimento.

Era o grande momento de Fry, e ele estava com as pernas trêmulas, apesar dos frequentes ensaios com seus chefes.

A promotora pintou o retrato de um policial jovem e dedicado, com o apoio de seus superiores e do processo legal, determinado a impedir que outra criança fosse raptada. Ela se deteve nas palavras usadas por Glen Taylor, encarando os jurados para sublinhar a importância das evidências, e eles começaram a olhar em direção ao acusado. Aquilo estava indo bem.

Quando Sanderson se levantou para sua vez, não havia mãos nos bolsos, nada de falas arrastadas; aquele era o seu momento. O jovem policial foi conduzido pelas conversas que mantivera como Cachinhos Dourados, uma frase chocante após a outra. Ele havia sido preparado pela promotoria para a pressão que iria sofrer, mas aquilo foi muito pior do que qualquer um poderia prever.

Foi pedido a Fry que lesse em voz alta suas respostas aos gracejos obscenos de Ursão, e sob a luz fria do tribunal as palavras ganharam um tom surreal e indecoroso.

— O que está vestindo esta noite? — perguntou o defensor, o rosto manchado de bebida e os ombros salpicados de caspa. Fry, um metro e oitenta e oito, leu mantendo o semblante sério.

— Baby-doll. O azul com rendas.

Houve uma risada contida na área da imprensa, mas Fry manteve o controle e continuou:

— Estou com um pouco de calor. Talvez eu tenha que tirar.

— Sim, tire — entoou o defensor, com uma voz entediada. — Depois se toque. É tudo meio adolescente, não é? — acrescentou. — Suponho que não estivesse usando baby-doll azul, policial Fry.

O riso vindo da galeria aberta ao público o feriu, mas ele respirou fundo e respondeu.

— Não.

A ordem foi logo restabelecida, mas o dano havia sido feito. O depoimento crucial de Fry corria o risco de ser reduzido a uma piada suja.

O defensor saboreou o momento antes de entrar na área mais perigosa do seu interrogatório: a última conversa por e-mail com Glen Taylor. Ele foi direto.

— Policial Fry, Glen Taylor, também conhecido como Ursão, disse ter sequestrado Bella Elliott?

— Ele disse que já tinha estado com uma garotinha real.

— Não foi o que eu perguntei. E isso aconteceu depois de você, como Cachinhos Dourados, ter lhe pedido para dizer isso?

— Não, senhor.

— Ele lhe perguntou: “Você gostaria disso, Cachinhos?” E você disse que gostaria muito. Disse que era excitante.

— Ele poderia ter dito não a qualquer momento — retrucou Fry. — Mas não fez isso. Ele disse que tinha encontrado uma garotinha uma vez e que o nome dela começava com B.

— Ele em algum momento usou o nome Bella nas conversas entre vocês?

— Não.

— Trata-se de uma conversa fantasiosa entre dois adultos conscientes, policial Fry. Isso não foi uma confissão.

— Ele disse ter encontrado uma garotinha. E que o nome dela começava com B — insistiu Fry, a emoção começando a brotar. — Quantas garotinhas com nomes começando por B foram raptadas recentemente?

O defensor ignorou a pergunta e examinou suas anotações.

Bob Sparkes olhou para Jean Taylor, sentada na beirada de um banco, abaixo do marido fantasista e adulto consciente, e percebeu o torpor da mulher. Devia ser a primeira vez que ela ouvia a história inteira, pensou.

Ficou imaginando quem se sentia pior — ele, diante do caso desmoronando, ou ela, diante do caso sendo construído.

Naquele momento, Fry começava a gaguejar, e Sparkes o estimulou silenciosamente a tentar se controlar. Mas Sanderson prosseguiu no ataque.

— Você coagiu Glen Taylor a fazer essas observações, não foi, policial Fry? Você atuou como um agente provocador fingindo ser uma mulher que desejava fazer sexo com ele. Estava determinado a levá-lo a fazer declarações prejudiciais. Você faria qualquer coisa. Até mesmo sexo virtual com ele. Isso é realmente trabalho policial? Onde estava a cautela ou o direito a um advogado?

Sanderson, que tinha ganhado confiança, pareceu quase triste quando sua vítima finalmente deixou o banco das testemunhas, diminuída e exausta.

A defesa imediatamente pediu uma pausa e, com os jurados transferidos em segurança para a sala do júri, defendeu a suspensão do julgamento.

— O caso inteiro está baseado em evidências circunstanciais e uma armadilha. Não pode prosseguir assim — disse Sanderson. — A evidência de Cachinhos Dourados deve ser considerada inadmissível.

A juíza tamborilava impacientemente com o lápis enquanto escutava a resposta da promotoria.

— A polícia agiu com toda a correção em todos os sentidos e seguiu os procedimentos ao pé da letra. Eles acreditavam que tinham um bom motivo. Que essa era a única forma de conseguir a evidência final — disse a promotora, sentando-se em seguida.

A juíza pousou o lápis e examinou suas anotações em silêncio.

— Eu vou me retirar — disse finalmente, e o tribunal se levantou enquanto ela voltava para o seu gabinete.

* * *

Vinte minutos depois, o oficial de justiça mandou que todos se levantassem e a juíza deu o seu veredicto. Ela excluiu a evidência de Cachinhos Dourados, criticando o estímulo e a provocação de Fry, além da exposição de um policial tão jovem.

— A evidência não é segura nem confiável — alegou.

Sparkes sabia que era só uma questão de formalidade a promotoria jogar a toalha e não apresentar mais evidências, então começou a juntar suas coisas.

No banco dos réus, Glen escutava com atenção a juíza. A realidade de que estava prestes a ser libertado se descortinava lentamente. Abaixo, Jean Taylor parecia chocada.

— Fico imaginando o que ela está pensando — murmurou Sparkes para Matthews. — Ela tem que ir para casa com um viciado em pornografia que faz sexo virtual com estranhos usando roupas infantis. E um assassino de crianças.

De repente, tinha terminado. A juíza ordenou que o júri desse um veredicto formal de inocente, e Taylor foi levado a fim de se preparar para a libertação. No tribunal, começou um vale-tudo entre os representantes da imprensa, com Jean Taylor como prêmio principal.

Cercada pelos repórteres, ela tentou se levantar em silêncio e com o rosto lívido, enquanto Tom Payne lutava para libertá-la do assento na plateia. Finalmente a imprensa abriu espaço e ela passou de lado feito um caranguejo em fuga, as pernas batendo no banco em frente e a alça da bolsa prendendo nas beiradas.