A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 49 de 55

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A Viúva

Capítulo 48

 

Quinta-feira, 27 de maio de 2010

A VIÚVA

O funeral chegou tão rápido que tive que deixar Mary escolher os hinos e as leituras. Eu não conseguia pensar direito e não saberia o que escolher. Ela ficou com as escolhas seguras, “Amazing Grace” e “The Lord is My Shepherd”, porque todos conhecem a melodia — o que é sorte, já que há apenas quinze de nós cantando na capela do crematório.

Fomos ver Glen na câmara-ardente, todo elegante em seu terno de três peças do banco e a gravata azul-marinho e dourada de que gostava. Eu tinha lavado e passado sua melhor camisa, e ela parecia perfeita. Glen teria ficado satisfeito. Claro que não era realmente Glen no caixão. Ele não estava lá, se entende o que quero dizer. Ele parecia um Glen de cera. A mãe dele chorou e eu fiquei atrás, deixando que tivesse um momento com seu garotinho. Fiquei olhando para as mãos dele, com as unhas reluzentes e perfeitamente rosadas, mãos inocentes.

Mary e eu fomos da casa funerária à loja John Lewis para comprar chapéus.

— Vocês encontrarão todas as opções ali — disse a assistente, apontando, e ficamos paradas diante de trinta chapéus pretos, tentando nos imaginar no funeral de Glen.

Escolhi um tipo de chapéu redondo sem aba e com um pequeno véu para esconder meus olhos, e Mary pegou um com aba. Os dois chapéus custaram uma fortuna, mas nenhuma de nós tinha energia para dar importância a isso. Saímos com as sacolas e ficamos paradas na rua, perdidas por um instante.

— Venha, Jeanie, vamos para casa tomar uma xícara de chá — disse Mary. Então fizemos isso.

* * *

Hoje nós colocamos os chapéus novos em frente ao espelho do corredor antes de entrar no táxi rumo ao crematório. Mary e eu damos as mãos frouxamente, apenas um toque. O pai de Glen olha pela janela para a chuva fina.

— Sempre chove em funerais — diz ele. — Que maldito dia horroroso.

Coisas engraçadas, os enterros. Muito como casamentos, acho. Concentrações de pessoas que você nunca vê em nenhum outro momento, reunidas ao redor de um bufê, rindo e chorando. Até ali no funeral de Glen eu ouço um dos tios velhos rindo baixo com alguém. Quando chegamos, somos guiados até a área de espera, eu com meus pais, os pais de Glen e uma pequena multidão de Taylors. Sou grata de verdade por todos terem vindo.

Ninguém do banco nem do salão. Não somos mais parte daquele mundo.

Então Bob Sparkes aparece, todo respeitoso de terno preto e gravata, parecendo um agente funerário. Fica distante de nós, no limite do Jardim da Lembrança, fingindo ler o nome dos mortos nas placas. Ele não enviou flores, mas pedimos que as pessoas não mandassem. “Apenas flores da família”, recomendara o agente funerário, então há apenas a minha coroa de lírios e louros — “Clássico e elegante”, dissera a jovem florista, quase efusiva —, e Mary encomendara o nome de Glen em crisântemos brancos. Ele teria odiado isso. “Muito comum”, posso ouvi-lo dizer, mas Mary adora, e é isso o que importa.

Continuo olhando para ver onde Bob Sparkes está.

— Quem o convidou? — pergunta Mary, aborrecida.

— Não se preocupe com ele, amor — diz George, dando um tapinha em seu ombro. — Isso não é importante hoje.

O vigário da igreja de Mary realiza a cerimônia, falando sobre Glen como se fosse uma pessoa real, não o homem nos jornais. Fica me olhando, passando a impressão de que estivesse falando apenas comigo. Eu me escondo atrás do véu do chapéu conforme o vigário prossegue seu discurso sobre Glen, como se o conhecesse. Fala sobre a paixão de Glen pelo futebol, sua inteligência no colégio e sua esposa maravilhosamente solidária durante os momentos mais difíceis. Há um murmúrio entre os presentes. Apoio a cabeça no ombro do meu pai e fecho os olhos enquanto o caixão desliza para a frente e as cortinas se fecham atrás. Tudo terminado.

Lá fora, procuro Bob Sparkes, mas ele também sumiu. Todos querem me beijar e me abraçar, e dizer como fui fantástica. Consigo sorrir, abraço as pessoas e então está tudo terminado. Havíamos pensado em fazer um chá, mas não sabíamos se alguém apareceria, e se houvesse um chá teríamos que falar sobre Glen, e alguém poderia mencionar Bella.

Simplificamos as coisas. Nós cinco fomos para a minha casa, tomamos uma xícara de chá, comemos sanduíches de presunto que Mary fez e colocamos o que sobrou na geladeira. Embrulhei meu chapéu no papel de seda e na bolsa John Lewis, e a empurrei para o alto do armário. Mais tarde, com a casa quieta pela primeira vez desde a morte de Glen, vesti meu robe e vaguei por todos os aposentos. Não é uma casa grande, mas ele está em cada canto dela, e continuo esperando ouvi-lo gritar para mim: “Jeanie, onde você colocou o jornal?” ou “Indo para o trabalho, amor, vejo você mais tarde.”

No fim, preparo um drinque e o levo para a cama com o punhado de cartões e cartas da família. As cartas nojentas eu queimei no fogão.

A cama parece maior sem Glen. Ele nem sempre estava nela — às vezes dormia no sofá do primeiro andar quando estava inquieto. “Não quero atrapalhar seu sono, Jean”, dizia, e pegava seus travesseiros. Ele não queria mais ir para o outro quarto, então compramos um sofá-cama, e ele ia para lá no meio da noite. Mantínhamos uma colcha atrás dele durante o dia. Não sei se alguém notou.