A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 4 de 55

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A Viúva

Capítulo 3

 

Quarta-feira, 9 de junho de 2010

A REPÓRTER

Kate Waters se remexeu na cadeira. Ela não deveria ter tomado aquela xícara de café mais cedo — a combinação com o chá fez sua bexiga enviar sinais de emergência, e ela talvez tivesse que deixar Jean Taylor sozinha com os próprios pensamentos. Não era uma boa ideia àquela altura, especialmente porque Jean tinha ficado um tanto silenciosa, bebericando o chá com um olhar distante. Kate estava desesperada para não estragar a relação que estava construindo com ela. Ambas se encontravam em um estágio delicado. Uma perda de contato visual, e todo o clima poderia mudar.

Seu marido, Steve, uma vez comparara o trabalho dela a perseguir um animal. Ele já havia bebido taças demais de Rioja e estava se exibindo em um jantar.

“Ela chega cada vez mais perto, oferecendo pequenas porções de gentileza e humor, uma insinuação do dinheiro que receberiam, a oportunidade de contar o lado deles da história, até que eles comam na palma da sua mão. É uma verdadeira arte”, dissera aos convidados à mesa da sala de jantar.

Eram os colegas dele do departamento de oncologia, e Kate ficara sentada ali, usando seu sorriso profissional e murmurando: “Vamos lá, meu bem, você sabe que não sou assim.” Os convidados davam risadas nervosas e tomavam vinho. Mais tarde, enquanto lavava a louça, ela estava furiosa, espirrando água com sabão no chão ao arremessar as panelas na pia, mas Steve dera um abraço nela e a beijara para fazer as pazes.

“Você sabe quanto eu a admiro, Kate”, dissera ele. “Você é brilhante no que faz.”

Ela aceitara o beijo, mas ele estava certo. Às vezes era um jogo ou uma dança de sedução estabelecer uma ligação instantânea com um estranho desconfiado — e até mesmo hostil. Ela adorava isso. Adorava a descarga de adrenalina de chegar primeiro à porta, à frente do bando, tocar a campainha e ouvir os sons da vida dentro da casa, ver a luz mudar no vidro fosco à medida que a pessoa se aproximava, e depois, quando a porta se abria, começar a interpretar um papel.

Os repórteres tinham diferentes técnicas para usar na porta da casa dos outros; um colega com quem ela tinha se formado lançava mão do “último filhotinho no cesto”, que era como ele chamava seu olhar para conquistar simpatia. Outra sempre culpava o editor por obrigá-la a bater à porta novamente, enquanto uma enfiava um travesseiro embaixo do suéter para fingir que estava grávida e pedir para usar o banheiro de modo a conseguir entrar.

Esse não era o estilo de Kate. Ela tinha as próprias regras: sorrir sempre, nunca ficar perto demais da porta, não começar com um pedido de desculpas e tentar esquecer que está atrás de uma matéria. Ela já usara outras vezes a tática da garrafa de leite, mas os leiteiros eram uma espécie em extinção. Ficou muito contente consigo mesma por conseguir passar por aquela porta com, aparentemente, tamanha facilidade.

Na verdade, ela nem queria ir, para início de conversa. Precisava passar na redação e pedir o ressarcimento de suas despesas antes que a fatura do cartão de crédito chegasse e zerasse seu saldo na conta. Mas seu chefe de reportagem não aceitou.

— Vá até lá e bata na porta da viúva; fica no seu caminho — gritara Terry Deacon ao telefone; ao fundo, as manchetes retumbavam no rádio ligado ao seu lado. — Nunca se sabe. Hoje pode ser o seu dia de sorte.

Kate tinha suspirado. Soube imediatamente o que Terry queria dizer. Só havia uma viúva que todo mundo queria entrevistar naquela semana, mas ela também sabia que era uma estratégia já bem gasta. Três dos seus colegas do Post já haviam tentado, e ela estava quase certa de que devia ser a última repórter do país a bater àquela porta.

Quase.

Ao chegar ao acesso à rua de Jean Taylor, Kate automaticamente começou a procurar outros jornalistas e logo viu o cara do The Times ao lado de um carro. Gravata sem graça, reforços de couro nos cotovelos do paletó e cabelo repartido. Clássico. Ela avançou com o carro enquanto o trânsito se arrastava para a frente pela rua principal, mas ficou de olho no inimigo. Teria que dar a volta no quarteirão e torcer para que ele tivesse ido embora quando ela voltasse.

— Droga — murmurou, ligando o pisca-pisca e entrando à esquerda em uma rua secundária para estacionar.

Depois de quinze minutos e uma espiada nas notícias do dia, Kate recolocou o cinto de segurança e ligou o carro. Seu telefone tocou, e ela enfiou a mão no fundo da bolsa para encontrá-lo. Ao tirar, viu o nome de Bob Sparkes na tela e desligou de novo a ignição.

— Olá, Bob, como vai? O que está acontecendo?

O inspetor Bob Sparkes queria alguma coisa, isso era óbvio. Ele não era o tipo de sujeito que telefonava para bater papo, e ela apostou que a ligação iria durar menos de sessenta segundos.

— Oi, Kate. Bem, obrigado. Muito movimentado, você sabe como é. Tenho dois casos em andamento, mas nada interessante. Olhe, Kate, só fiquei aqui me perguntando se você ainda estaria trabalhando no caso Glen Taylor.

— Jesus Cristo, Bob, você está me vigiando pelas câmeras ou algo assim? Estou prestes a bater à porta de Jean Taylor.

Sparkes riu.

— Não se preocupe, você não está na lista da vigilância, pelo que sei.

— Tem alguma coisa que eu precise saber antes de ir vê-la? — perguntou Kate. — Alguma novidade desde a morte de Glen Taylor?

— Não, na verdade não — respondeu ele, e ela percebia a decepção em sua voz. — Estava me perguntando se você teria ouvido alguma coisa. De qualquer modo, agradeceria se me avisasse caso Jean fale algo.

— Ligo para você depois — prometeu. — Mas ela provavelmente vai bater a porta na minha cara. Foi o que fez com todos os outros repórteres.

— Certo, conversamos depois.

A ligação foi encerrada. Kate conferiu o telefone e sorriu. Quarenta e um segundos. Um novo recorde. Tinha que provocá-lo com isso na próxima vez que o encontrasse.

Cinco minutos depois, ela havia entrado na rua de Jean Taylor, agora livre da imprensa, e se aproximado da casa.

Agora precisava da matéria.

Ah, pelo amor de Deus, não consigo me concentrar, pensou, cravando as unhas na mão para se distrair. Não, não adiantou.

— Desculpe, Jean, mas haveria algum problema se eu usasse o toalete? — perguntou, sorrindo como se pedisse desculpas. — O chá passa direto pela gente, não? Eu faço outro para nós se você quiser.

Jean assentiu e se levantou da cadeira para mostrar o caminho.

— É por aqui — disse, colocando-se de lado para que a repórter pudesse se esgueirar para o lavabo encantador que ficava no primeiro andar.

Enquanto lavava as mãos com o sabonete perfumado das visitas, Kate olhou para a frente e flagrou sua expressão no espelho. Parecia um pouco cansada, pensou, ajeitando o cabelo desgrenhado e dando tapinhas nas olheiras com a ponta dos dedos, como orientou a garota que cuidava da sua pele de vez em quando.

Sozinha na cozinha, leu preguiçosamente as anotações e observou os ímãs na geladeira enquanto esperava a água na chaleira ferver. Listas de compras e lembranças de férias, nada muito interessante. Uma foto dos Taylor tirada em um restaurante na praia mostrava o casal sorrindo e erguendo as taças para a câmera. Glen Taylor, cabelo escuro desarrumado e sorriso de férias, e Jean, cabelo louro-escuro penteado para a ocasião e cuidadosamente preso atrás das orelhas, maquiagem ligeiramente borrada por causa do calor e aquele olhar de soslaio para o marido.

Adoração ou assombro?, perguntou-se Kate.

Os dois anos anteriores haviam provocado danos na mulher da foto, isso era claro. Jean estava sentada esperando por ela. Vestia calça cargo, camiseta larga e cardigã, o cabelo escorregando de um rabo de cavalo curto e espesso. Steve sempre a provocava sobre como ela conseguia perceber as pequenas coisas, mas aquilo fazia parte do trabalho. “Sou uma observadora treinada”, brincava ela, e se deliciava em destacar pequenos detalhes reveladores. Notara imediatamente as mãos ásperas e rachadas de Jean — mãos de cabeleireira, pensou consigo mesma — e a pele ao redor das unhas gastas de tanto serem roídas com nervosismo.

As rugas que emolduravam os olhos da viúva contavam sua própria história.

Kate pegou o celular e fotografou a imagem do casal durante as férias. Notou que tudo na cozinha era imaculado — de modo algum parecida com a sua, onde os filhos adolescentes sem dúvida haviam deixado uma trilha de detritos do café da manhã abandonado: canecas sujas de café, leite azedando, torradas comidas pela metade, um pote de geleia destampado com uma faca dentro. E o obrigatório uniforme de futebol imundo apodrecendo no chão.

A chaleira desligou, junto com as lembranças de casa. Ela preparou o chá e levou as xícaras em uma bandeja.

Jean estava olhando para o nada, enquanto roía o polegar.

— Melhor assim — disse Kate, acomodando-se. — Peço desculpas pela demora. Onde estávamos?

Ela precisava admitir que estava começando a se preocupar. Passara quase uma hora com Jean Taylor e tinha um bloco cheio de fragmentos de sua infância e o começo da vida de casada. Mas era só. Sempre que chegava um pouco mais perto da história, Jean mudava de assunto para algo mais seguro. Em algum momento elas haviam travado um longo debate sobre os desafios de criar filhos, depois houvera um breve intervalo, quando Kate finalmente atendera uma das insistentes ligações da redação.

Terry ficou extasiado quando soube onde sua repórter estava.

— Brilhante! — berrou ele ao telefone. — Bom trabalho. O que ela está dizendo? Quando você pode escrever?

— Espere um minuto, Terry. O sinal não está bom aqui — murmurou Kate, sob os olhos atentos de Jean Taylor.

Em seguida, saiu para o quintal, fazendo para Jean um gesto com a mão em uma irritação fingida.

— Pelo amor de Deus, Terry, eu estava sentada ao lado dela. Não posso falar agora — sibilou. — Está um pouco devagar, para ser honesta, mas acho que ela está começando a confiar em mim. Deixe-me continuar com isso.

— Você já fechou um contrato com ela? — perguntou Terry. — Feche um contrato e então teremos todo o tempo para arrancar tudo.

— Não quero assustá-la forçando a barra, Terry. Vou fazer o melhor possível. Depois nos falamos.

Kate desligou o telefone com convicção e pensou no próximo movimento. Talvez só precisasse ir direto ao ponto e mencionar o dinheiro. Ela já estava cansada de chá e simpatia, tinha que parar de enrolar.

Afinal, Jean podia estar em dificuldades agora que o marido havia morrido.

Ele não estava mais lá para sustentá-la. Ou para impedi-la de falar.