A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 50 de 55

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A Viúva

Capítulo 49

 

Sábado, 12 de junho de 2010

O DETETIVE

Depois do funeral, Bob Sparkes tinha lido a cobertura da imprensa e olhado as fotos de Jean no crematório, inclusive um close da palavra “Glen” escrita com flores. “Como iremos encontrá-la agora, Bella?”, perguntaram os jornais, provocando-o.

Ele tentou se concentrar no trabalho, mas se via olhando para o nada, perdido e incapaz de avançar. Decidiu tirar uma folga e organizar as ideias.

— Vamos arrumar as coisas e ir de carro para Devon. Encontramos um lugar para ficar quando chegarmos lá — disse a Eileen na manhã de sábado.

Ela saiu para pedir à vizinha que alimentasse o gato, e ele se sentou à mesa com a correspondência.

Eileen entrou pela porta dos fundos, as mãos cheias de vagens.

— Colhi as vagens rapidamente, senão vão estar ruins quando voltarmos. É uma vergonha desperdiçá-las.

Eileen estava determinada a fazer a vida seguir em frente na casa deles, mesmo que estivesse estagnada na cabeça do marido. Ele sempre fora um pensador — era o que ela amava nele. Profundo, os amigos dela disseram. Ela gostava disso. Sua profundidade. Mas naquele momento era apenas escuridão.

— Vamos lá, Bob, acabe de soltar estas ervilhas enquanto arrumo a mala. Quanto tempo vamos ficar fora?

— Uma semana? O que você acha? Só preciso de um pouco de ar puro e algumas longas caminhadas.

— Parece ótimo.

Sparkes cumpriu sua tarefa mecanicamente, deslizando a unha ao longo de cada vagem e empurrando as ervilhas para um escorredor enquanto lutava com seus sentimentos. Ele sabia que tinha deixado aquilo se tornar pessoal. Nenhum outro caso o havia tocado como aquele, nenhum o havia reduzido a lágrimas nem ameaçado sua carreira. Será que deveria voltar à conselheira maluca? Ele riu, apenas uma risada rouca, mas Eileen ouviu e desceu correndo para ver o que havia acontecido.

A viagem foi indolor: um dia quente de verão antes das férias escolares, com pouco tráfego na estrada. Sparkes aproveitou para se distanciar do caso o mais rapidamente possível. Eileen estava sentada perto dele, volta e meia dando tapinhas em seu joelho ou apertando sua mão. Ambos se sentiam jovens e levemente imprudentes com sua espontaneidade.

Eileen ficou falando com ele sobre os filhos, atualizando-o sobre os assuntos de família, como se o marido estivesse emergindo de um coma.

— Sam disse que Pete e ela vão se casar no próximo verão. Ela quer fazer isso em uma praia.

— Uma praia? Imagino que não seja Margate. Bem, como ela quiser. Parece feliz com Pete, não?

— Muito feliz, Bob. É com James que estou preocupada. Está trabalhando demais.

— Fico imaginando a quem ele puxou — falou ele, espiando a mulher para ver sua reação.

Sorriram um para o outro, e o estômago de Sparkes começou a relaxar pela primeira vez em semanas. Na verdade, meses.

Era maravilhoso estar falando sobre a própria vida em vez da vida de outras pessoas.

Decidiram parar em Exmouth para comer sanduíches de caranguejo. Haviam levado as crianças ali nas férias de verão quando pequenas, e tinham boas lembranças. Tudo permanecia igual quando estacionaram — os pompons azuis das hortênsias, as bandeiras tremulando ao redor da torre do relógio do jubileu, as gaivotas guinchando, os tons pastel das cabanas na praia. Era como se tivessem retornado aos anos 1990, e eles caminharam ao longo do passeio para esticar as pernas e ver o mar.

— Vamos lá, amor. Vamos indo. Telefonei para o pub e reservei um quarto para hoje à noite — disse ele, puxando-a para perto e lhe dando um beijo.

Em mais uma hora, aproximadamente, eles estariam em Dartmouth, e depois em Slapton Sands para comer um peixe no jantar. Dirigiram com as janelas abertas, e o vento soprando dava formas loucas ao cabelo deles.

— Expulsando a maldade — disse Eileen, como ele sabia que faria.

Era o que sempre dizia. Isso o fez pensar em Glen, mas não disse nada.

No pub, eles se esticaram nos bancos do lado de fora, absorvendo o resto do calor do sol e planejando o mergulho matinal.

— Vamos acordar cedo e partir — sugeriu ele.

— Não vamos, não. Vamos dar a nós mesmos o direito de ficar na cama, depois andar por aí sem destino. Temos a semana inteira, Bob — disse Eileen, e riu com a ideia de uma semana inteira só para eles.

Subiram tarde para o quarto e, como de hábito, Sparkes ligou a televisão para ver o último telejornal enquanto Eileen tomava uma chuveirada rápida. O vídeo de Jean Taylor sentada em sua sala de estar, sendo entrevistada, fez seu estômago se contrair, um desconforto familiar, e ele voltou ao seu papel.

— Eileen, amor, eu tenho que voltar — disse ele. — É Jean Taylor. Ela disse que Glen pegou Bella.

Eileen saiu do banheiro enrolada em uma tolha, com outra envolvendo o cabelo molhado como um turbante.

— O quê? O que você disse? — perguntou ela, então viu os rostos na TV e afundou na cama. — Meu Deus, Bob. Isso não tem fim?

— Não, Eileen. Lamento muito, mas, até eu saber o que aconteceu com aquela garotinha, isso não vai ter fim. Jean sabe, e tenho que perguntar a ela novamente. Você consegue se arrumar para partir em quinze minutos?

Ela fez que sim, soltando a toalha da cabeça e secando o cabelo.

* * *

A viagem de volta foi silenciosa. Eileen dormiu enquanto Sparkes dirigia por estradas desertas, ligando o rádio a cada hora para ver se havia alguma novidade.

Ele teve que sacudir a esposa para acordá-la quando chegaram em casa. Caíram na cama mal tendo trocado uma palavra.