A Viúva
Capítulo 25
Quinta-feira, 12 de julho de 2007
A VIÚVA
Claro que a polícia não desistiu. Eles se debruçaram sobre Glen com sua van, sua suposta pornografia infantil e seu “mau comportamento”. Eles nunca o deixarão em paz. O advogado dele disse que tentarão processá-lo no mínimo por aquelas fotografias.
As visitas e os telefonemas do inspetor Sparkes se tornaram parte da nossa vida. A polícia está montando um caso, e nós acompanhamos tudo do lado de fora.
Digo a Glen que deveria simplesmente contar à polícia sobre o “trabalho particular” e onde esteve naquele dia, mas ele insiste que isso pioraria as coisas.
— Vão dizer que mentimos a eles sobre tudo, Jeanie.
Estou com muito medo de fazer algo que piore as coisas, de cometer algum deslize. Mas, no fim das contas, foi Glen quem nos derrubou, não eu.
A polícia veio pegá-lo hoje para um novo interrogatório. Eles o levaram de volta a Southampton. Ao sair, ele me deu um beijo na bochecha e disse para não me preocupar.
— Você sabe que tudo ficará bem — garantiu, e eu assenti. E esperei.
A polícia levou mais coisas de Glen. Todas as roupas e todos os sapatos que não tinham levado antes. Pegaram coisas que ele acabara de comprar. Tentei explicar isso aos policiais, mas eles insistiram em levar tudo. Levaram até mesmo minha jaqueta por engano. Eu a tinha pendurado no espaço dele no armário porque o meu lado estava cheio.
* * *
No dia seguinte, Bob Sparkes apareceu e me convocou a ir com ele até Southampton para um interrogatório. Não me disse nada no carro, apenas que queria que eu ajudasse com a investigação.
No entanto, quando chegamos à delegacia, ele me colocou em uma sala de interrogatório e leu os meus direitos. Depois me perguntou se eu havia levado Bella. Eu tinha ajudado Glen a pegar Bella?
Não conseguia acreditar que Bob Sparkes estivesse me perguntando aquilo. Eu ficava repetindo: “Não, claro que não. E Glen não a levou”, mas ele não estava prestando atenção. Estava passando para o ponto seguinte.
Como se fosse um mágico, ele tirou um saco plástico, e de início não consegui ver nada dentro, mas no fundo havia um pedaço de papel vermelho.
— Encontramos isto no bolso do seu casaco, Sra. Taylor. É de uma embalagem de Skittles. A senhora come muito Skittles?
Por um momento eu não sabia do que ele estava falando, mas depois me lembrei. Devia ser o pedaço de embalagem de doce que estava sob o carpete na van e eu tinha pegado.
Ele deve ter visto meu rosto mudar e continuou me pressionando. Ficou repetindo o nome de Bella. Eu disse que não conseguia me lembrar, mas ele sabia que eu não estava dizendo a verdade.
No fim acabei contando a ele, para que parasse de me perguntar. Disse que poderia ser um pedaço de papel que eu tinha encontrado na van. Apenas um pedaço de lixo, poeirento e sujo. Eu havia colocado no bolso para jogar fora depois, mas acabei esquecendo.
Aleguei que era apenas uma embalagem de doce, mas o Sr. Sparkes disse que haviam encontrado um pelo de gato grudado no papel. Um pelo de gato cinza. Como o do gato no jardim de Bella. Eu disse que aquilo não provava nada. O pelo podia ter vindo de qualquer lugar. Mas tive que dar uma declaração.
Eu esperava que não dissessem nada a Glen antes que eu tivesse uma oportunidade de explicar. Quando estivéssemos em casa, eu lhe diria que os policiais haviam me forçado a contar. Que aquilo não importava. Mas não tive a chance. Glen não voltou para casa.
Aparentemente ele continuou vendo pornografia na internet. Não consegui acreditar que tivesse sido tão idiota quando Tom Payne, advogado de Glen, me contou. Ele sempre foi o inteligente da família.
A polícia tinha levado o computador dele, claro, mas Glen comprara um pequeno laptop barato e um roteador wi-fi — “para trabalhar, Jeanie” — e ficava no outro quarto quando entrava em salas de bate-papo sobre sexo, ou seja lá qual fosse o nome daquilo.
Foi tudo muito esperto — colocaram um policial fingindo ser uma jovem mulher na internet conversando com ele. Ela chamava a si mesma de Cachinhos Dourados. Quem cairia nessa? Glen, pelo visto.
Mas não se tratava apenas de bate-papo. Tom queria me preparar para o que poderia sair nos jornais, então me contou que, no fim das contas, Cachinhos Dourados fizera sexo virtual com Glen. Era sexo sem contato físico, disse Glen, tentando me explicar quando o visitei pela primeira vez.
— São apenas palavras, Jeanie. Palavras escritas. Nós não falamos pessoalmente um com o outro, nem mesmo nos vimos. Era como se estivesse acontecendo na minha cabeça. Apenas uma fantasia. Você entende, não é mesmo? Estou passando por muito estresse com todas essas acusações. Não consegui evitar.
Tento entender. Realmente tento. É um vício, fico me dizendo isso. Não é culpa dele. Eu me concentro nos verdadeiros vilões aqui. Glen e eu estamos com muita raiva do que a polícia fez.
Não consegui acreditar que alguém faria aquilo como parte do seu trabalho. Feito uma prostituta. Foi o que Glen disse também antes de descobrir que Cachinhos Dourados era um homem. Ele teve dificuldade em aceitar — achou que a polícia só estava dizendo isso para fazer parecer que ele era gay ou algo assim. Eu não falei nada — não conseguia entender essa coisa de sexo virtual, muito menos me preocupar sobre com quem ele estava fazendo aquilo. De qualquer forma, esse nem de longe era o seu maior problema.
Ele havia falado coisas demais a Cachinhos Dourados. Glen me disse que, para impressionar, contara a “ela” que sabia algo sobre um caso policial famoso. “Ela” praticamente o mandara dizer.
Dessa vez, Bob Sparkes acusou Glen do sequestro de Bella. Alegara que ele a sequestrara e matara. Mas não iam acusá-lo de assassinato. Tom Payne disse que esperariam até que tivessem um corpo. Odiei ouvir Tom se referir a Bella dessa maneira, mas não falei nada.
Fui para casa sozinha, e então a imprensa voltou.
* * *
Não sou uma grande leitora de jornais. Prefiro revistas. Gosto das histórias da vida real — você sabe, a mulher que adotou cem crianças, aquela que recusou um tratamento de câncer para salvar seu bebê, a outra que teve um bebê para a irmã. Os jornais sempre foram mais o departamento de Glen. Ele gosta do Mail — faz as palavras cruzadas na última página, e é o tipo de jornal que o antigo chefe no banco lia.
— Isso faz com que tenhamos alguma coisa em comum, Jeanie — disse ele certa vez.
Mas agora os jornais e a TV — e até mesmo o rádio — são sobre nós. Glen é notícia, e os repórteres voltaram a bater à porta. Descobri que eles chamam isso de “ficar de tocaia”, e que alguns deles de fato dormem no carro do lado de fora a noite inteira para tentar uma palavrinha comigo.
Eu me sento em nosso quarto de frente no andar de cima, espiando por trás da cortina, observando-os. Todos eles fazem a mesma coisa. É bem engraçado, na verdade. Primeiro passam de carro, verificando a casa e quem também já está de tocaia. Depois estacionam e voltam andando até o portão, empunhando um caderninho. Os outros saltam dos seus carros para interceptar antes que ele ou ela possa chegar à porta. Feito um bando de animais, farejando o recém-chegado.
Depois de alguns dias todos eles viraram amigos — destacam um deles para buscar café e sanduíches de bacon no café ao pé da colina. “Açúcar?” “Quem quer molho no sanduíche?” O estabelecimento deve estar ganhando uma fortuna. Percebo que os repórteres formam um grupo, e os fotógrafos, outro. Fico me perguntando por que não se misturam. É possível distingui-los porque os fotógrafos se vestem de modo diferente — mais de acordo com a moda, com paletós amassados e bonés de beisebol. A maioria deles parecia há dias sem fazer a barba — os homens, quer dizer. As fotógrafas também se vestem como os homens. Camisas largas de algodão. E os fotógrafos falam muito alto. No começo, senti um pouco de pena dos vizinhos, tendo que escutar aquelas pessoas rindo e fazendo escândalo. Mas depois os vizinhos começaram a levar bandejas com bebidas, a ficar ali batendo papo com eles, deixando os jornalistas usarem seus banheiros. É como uma festa de rua para eles.
Os repórteres são mais silenciosos. Passam a maior parte do tempo ao telefone ou escutando o noticiário no carro. Muitos são jovens, vestindo seus primeiros ternos.
Depois de alguns dias sem nenhuma declaração minha, a imprensa manda seus figurões. Grandes homens e mulheres cheirando a cerveja, com rostos concentrados e casacos elegantes. Eles chegam em seus carros caros e reluzentes e saltam feito nobres. Até mesmo os fotógrafos param de criar tumulto com alguns deles. Um homem que parece ter saído de uma vitrine abre a multidão e se aproxima da casa. Bate com força na porta e chama.
— Sra. Taylor, como é ter um assassino de crianças como marido?
Fico sentada ali na cama, ardendo de vergonha. É como se todos pudessem me ver, embora não pudessem. Exposta.
De qualquer modo, ele não é o primeiro a me perguntar isso. Um repórter gritou isso para mim depois que Glen foi novamente preso, enquanto eu fazia compras. Simplesmente apareceu, devia ter se desvencilhado dos outros jornalistas e me seguido. Estava tentando me deixar com raiva, me fazer dizer alguma coisa, qualquer coisa, para que tivesse “uma entrevista” com a esposa, mas eu não ia cair naquela. Glen e eu havíamos discutido sobre aquilo.
— Jeanie, simplesmente fique calada — disse ele quando me telefonou da delegacia. — Não deixe que a provoquem. Não revele nada. Você não precisa falar com eles. Eles são a escória da sociedade. Não podem escrever sobre nada.
Mas claro que podiam. As coisas publicadas foram medonhas.
Outras mulheres disseram ter feito sexo virtual com ele na internet e estavam formando fila para vender suas histórias. Eu não conseguia acreditar que nada daquilo fosse verdade. Aparentemente ele era chamado de Ursão e de outros nomes ridículos nas salas de bate-papo. Eu olhava para ele nas minhas visitas de rotina e tentava me imaginar o chamando de Ursão. Isso me deixava nauseada.
E havia mais coisa sobre o seu “passatempo” — as imagens que ele comprara na internet. Segundo “fontes bem informadas” em um dos jornais, ele usara um cartão de crédito para comprá-las, e quando a polícia fez uma grande operação contra pedófilos, rastreando-os por intermédio de seus dados de cartão, ele entrou em pânico. Deve ter sido por isso que ele me fez registrar o desaparecimento do cartão dele, mas como os jornais conseguem informações como essas? Pensei em perguntar a um dos repórteres, mas não posso, pois acabaria falando mais do que deveria.
Quando perguntei a Glen sobre isso na visita seguinte, ele negou tudo.
— Estão simplesmente inventando isso, amor. A imprensa inventa tudo. Você sabe que é assim — afirmou, segurando minha mão. — Eu te amo.
Não respondi nada.
Também não falei nada à imprensa. Fui a supermercados diferentes, para que não pudessem me encontrar, e passei a usar chapéus que escondiam um pouco o meu rosto, para que os outros não me reconhecessem. Como faz a Madonna, teria dito Lisa se ainda fosse minha amiga. Mas ela não era. Ninguém queria saber de nós. Eles só queriam saber sobre nós.