A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 19 de 55

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A Viúva

Capítulo 18

 

Domingo, 8 de abril de 2007

O DETETIVE

Glen Taylor vinha se revelando um homem com resposta para tudo. Tinha um cérebro ágil e, assim que anuviou o choque da sua prisão, pareceu quase gostar do desafio, contou Sparkes à esposa.

— Sujeitinho arrogante. Não sei se eu ficaria tão confiante se estivesse na posição dele.

Eileen apertou seu braço ao lhe passar sua taça noturna de vinho tinto.

— Não, você confessaria tudo imediatamente. Você é um péssimo criminoso. Costeleta ou peixe hoje?

Sparkes se empoleirou em um dos tamboretes altos que Eileen insistira em comprar quando balcões de café da manhã se tornaram itens indispensáveis, e se serviu de raspas de cenoura crua da panela. Ele sorriu para Eileen, desfrutando da entente cordiale na cozinha naquela noite. O casamento deles havia passado pelos altos e baixos habituais de uma vida em comum, mas, embora nenhum dos dois admitisse em voz alta, a saída dos filhos de casa os havia colocado sob um estresse inesperado. Eles haviam conversado sobre todas as coisas que poderiam fazer, os lugares que iriam conhecer, o dinheiro que poderiam gastar com eles mesmos. No entanto, quando aconteceu, descobriram que a nova liberdade os obrigou a olhar devidamente um para o outro pela primeira vez em anos. E Bob desconfiava que Eileen o considerava uma decepção.

Ela sentira ambição por ele quando começaram a sair e depois que se casaram. Estimulava-o a estudar para as provas para sargento e levava inúmeros copos de café e sanduíches para abastecer sua concentração.

E ele seguiu em frente, levando para casa seus triunfos e fracassos à medida que passavam pequenas promoções e aniversários. Mas Bob achava que Eileen enfim percebia o que realmente o marido conquistara à fria luz do fim da meia-idade, pensando: então é isso?

Eileen passou com as costeletas congeladas e mandou o marido deixar os legumes em paz.

— Dia difícil, amor? — perguntou ela.

Havia sido um dia exaustivo, esquadrinhando as declarações de Taylor em busca de lacunas e inconsistências.

As imagens de crianças sendo abusadas sexualmente encontradas em seu computador foram, segundo o suspeito, baixadas “por engano, por culpa da internet”, ou sem o seu conhecimento; a utilização de seu cartão de crédito para comprar pornografia foi obra de alguém que clonara o cartão. “Você não sabe como é comum a fraude com cartões de crédito?”, perguntara, com desprezo. “Jean relatou o roubo do nosso cartão de crédito no ano passado. Ela lhe dirá. Tem um boletim de ocorrência em algum lugar.” E havia.

Interessante que foi nessa época que os jornais começaram a escrever sobre a relação entre cartões de crédito e abuso sexual de crianças na internet, refletiu Sparkes, repassando a transcrição da entrevista mais tarde em sua escrivaninha. Mas aquilo era circunstancial.

Ele vê a luz do dia, pensou Sparkes durante uma pausa para o café. Ele acha que a história dele se sustenta, mas ainda não terminamos.

Nada pareceu afetá-lo até eles o entrevistarem novamente e mostrarem um álbum com fotos de crianças, recortadas de revistas e jornais, encontrado atrás da caixa-d’água na área de serviço.

Não houve encenação dessa vez. Era evidente que ele nunca tinha visto aquilo; ficou boquiaberto ao folhear as páginas com imagens de pequenos querubins em roupas bonitinhas e vestidos elegantes.

— O que é isto? — perguntou.

— Achamos que você poderia nos dizer, Glen.

Já o tratavam pelo nome. Glen não protestara. Mas chamava o detetive de “Sr. Sparkes”, para manter uma distância entre os dois.

— Isto não é meu — disse ele. — Têm certeza de que encontraram isto na minha casa?

Sparkes fez que sim com a cabeça.

— Deve pertencer aos antigos proprietários — disse Glen, e em seguida, cruzou os braços e bateu os pés enquanto Sparkes fechava o livro e o empurrava para o lado.

— Dificilmente, Glen. Vocês moram lá há quantos anos? Talvez pertença a você ou a Jean.

— Bem, isto não é meu.

— Então tem que ser de Jean. Por que ela teria um álbum como este?

— Não sei; pergunte a ela — retrucou Taylor. — Ela é obcecada por bebês. Você sabe que não conseguimos ter filhos, e ela costumava chorar o tempo todo por causa disso. Tive que pedir a ela para parar; estava acabando com a nossa vida. Além disso, tínhamos um ao outro. De certa forma temos sorte.

Sparkes assentiu, pensando na sorte de Jean Taylor por ter um marido como Glen.

Pobre mulher, pensou.

Um psicólogo forense que estava sendo consultado no caso já os alertara para o fato de que era muito improvável que o álbum de recortes pertencesse a um pedófilo.

— Não é o álbum de um predador — dissera ele. — Não há nada de sexual nas imagens; é uma coleção, mas não feita por alguém que objetifique crianças. É mais como uma lista de desejos; o tipo de coisa que uma adolescente faria.

Ou uma mulher sem filhos, pensara Sparkes.

A fantasiosa vida secreta que Jean levava tinha abalado Taylor. Isso era bastante claro. Ele estava mergulhado em pensamentos, talvez imaginando o que mais não sabia sobre a esposa. Depois Sparkes e Matthews concordaram que aquilo criara uma rachadura na certeza que ele tinha de tê-la sob controle. Segredos eram coisas perigosas.

Mas na reunião de revisão do caso com os chefes, à medida que o prazo de trinta e seis horas se aproximava, Sparkes se sentiu derrotado. Eles haviam revirado tudo. A van não revelara nada, e eles não tinham nenhuma acusação para fazer contra Taylor a não ser a coisa da internet, e isso não o manteria detido.

Duas horas depois, Glen Taylor pagou fiança e saiu da delegacia, já falando ao celular. De uma janela no corredor, Bob Sparkes o viu partir.

— Não fique tão tranquilo em casa. Nós voltaremos — disse para a figura que se afastava.

* * *

No dia seguinte, Taylor estava de volta ao trabalho, segundo informou a equipe encarregada de vigiá-lo em tempo integral.

Sparkes ficou pensando no que o chefe de Taylor estaria achando de tudo aquilo.

— Aposto que o mandam embora no fim do mês — disse a Matthews. — Bom. Isso dará a ele tempo de cometer alguns erros caso fique o dia todo em casa. Vai se meter em confusão.

Os detetives se entreolharam.

— Por que não ligamos para Alan Johnstone e perguntamos se podemos dar uma passada e olhar os registros dele novamente? Poderia ser um empurrãozinho na direção certa — sugeriu Matthews.

* * *

O Sr. Johnstone os recebeu em seu escritório, tirando a papelada de cima das cadeiras puídas.

— Olá, inspetor. De novo por aqui? Glen me informou que, no que diz respeito a ele, tudo foi esclarecido.

Os detetives examinaram as planilhas, registrando a quilometragem mais uma vez, enquanto Johnstone circulava, desconfortável.

— São seus? — perguntou Sparkes, pegando na escrivaninha uma foto de dois garotinhos com camisa de time de futebol. — Lindas crianças.

Johnstone pegou a foto de volta e o deixou sem resposta.

— Até mais — disse Matthews, animado.

* * *

Glen Taylor foi dispensado ainda naquela semana. Alan Johnstone telefonou para Sparkes a fim de informá-lo.

— Os outros motoristas estavam assustados. A maioria tem filhos. Ele não criou caso quando o dispensei; só deu de ombros e esvaziou o armário.

Matthews sorriu.

— Vamos ver o que ele faz agora.