A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 51 de 55

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A Viúva

Capítulo 50

 

Domingo, 13 de junho de 2010

A REPÓRTER

— Aqui está ela, nossa repórter estrela! — gritou o editor na redação quando Kate entrou na manhã seguinte. — Brilhante exclusiva, Kate. Muito bem!

Houve aplausos dos colegas e gritos de “Grande matéria, Kate!”. Ela se sentiu corando, e tentou sorrir sem parecer arrogante.

— Obrigada, Simon — disse após finalmente chegar à sua escrivaninha e conseguir se livrar da bolsa e do paletó.

O chefe de reportagem, Terry Deacon, já havia se aproximado para desfrutar de qualquer glória distribuída pelo chefe.

— Então, o que temos para o Dia Dois, Kate? Outro furo? — perguntou o editor, dentes amarelos exibidos em triunfo.

Kate sabia que ele sabia, pois tinha enviado a matéria à noite, mas Simon Pearson queria fazer um showzinho na frente do seu pessoal. Não tivera muita chance nos últimos tempos — “Maldita política chata. Onde estão as exclusivas?” era o seu mantra —, e naquele dia ele ia aproveitar o máximo.

— Temos a matéria do casamento sem filhos — contou Terry. — “Foi isso o que transformou o Sr. Normal em um monstro?”

Simon deu um largo sorriso. Kate se encolheu. A manchete era grosseira, transformando sua matéria bem apurada e sensível em um cartaz de cinema escandaloso, mas ela deveria estar acostumada com isso. “Vender a matéria” era outro dos mantras de Simon. Ele era um homem de mantras. Força bruta e condicionamento pela repetição era o seu modus operandi preferido com seus executivos, descartando frescuras como pensamento criativo e questionamento.

O editor identificava uma boa manchete quando escrevia uma, e acreditava que sempre valia a pena usá-la mais de uma vez. Em algumas épocas, toda semana, quando o agradava especialmente, para ser logo descartada quando ele se dava conta de que estava sendo motivo de deboche nos bares frequentados por jornalistas. A pergunta na manchete — “Será este o homem mais malévolo da Grã-Bretanha?” — era um clássico e protegia a aposta. Apenas perguntando, não afirmando.

— Tenho algumas declarações boas da viúva — disse Kate, ligando o computador.

— Declarações de matar — acrescentou Terry, aumentando a aposta. — Todos saíram correndo para tentar nos alcançar ontem à noite, e as revistas e a imprensa estrangeira faziam fila pelas imagens. Só se fala nisso nas ruas.

— Você está traindo sua idade, Terry — disse Simon. — Não existe mais rua. Estamos agora em uma aldeia global.

O chefe de reportagem sorriu para a repreensão do chefe, determinado a ver aquilo como um gracejo. Nada estragaria o dia; ele conseguira a matéria do ano, receberia o aumento que tanto merecia e depois levaria a esposa — ou talvez a amante — para jantar no Ritz.

Kate já estava lendo seus e-mails, deixando os homens debaterem quem tinha o pau maior.

— Como ela é, Kate? Jean Taylor?

Kate olhou para o editor e viu a verdadeira curiosidade por trás da bravata. Ele tinha um dos cargos mais poderosos na imprensa, mas o que realmente queria era ser repórter de novo, enfiado até o fundo na matéria, fazendo as perguntas, parado junto à porta da personagem e transmitindo suas palavras brilhantes para o redator, e não apenas ouvir sobre isso depois.

— Ela é mais inteligente do que finge ser. Faz aquela encenação de dona de casa, você sabe, apoiando seu homem, mas há muita coisa passando por sua cabeça. É difícil para ela, porque acho que em certo momento acreditou que ele era inocente, mas alguma coisa aconteceu. Alguma coisa mudou no relacionamento deles.

Kate sabia que deveria ter conseguido tirar mais informações dela, deveria ter conseguido tudo. Culpou Mick por interromper, mas já tinha visto a cortina se fechar nos olhos de Jean. O controle da entrevista havia trocado de mãos entre as duas mulheres, mas não havia dúvida de quem estivera no comando no fim das contas. Kate não estava disposta a admitir isso para aquela plateia.

Os outros repórteres estavam prestando atenção, afastando suas cadeiras para escutar a conversa.

— Ele fez aquilo, Kate? E ela sabia? — perguntou o jornalista da editoria de Polícia. — É o que todo mundo quer saber.

— Sim e sim — respondeu. — A questão é quando ela soube. Na época ou depois? Acho que o problema foi que ela esteve presa entre o que sabe e aquilo em que quer acreditar.

Todos olharam para ela esperando mais, e, como se aproveitando a deixa, o telefone de Kate tocou, mostrando o nome de Bob Sparkes.

— Me desculpe, mas tenho que atender este, Simon. É o policial encarregado do caso. Pode ser um Dia Três.

— Mantenha-me informado, Kate — disse ele enquanto voltava para a sua sala, e ela passava pelas portas em direção aos elevadores para ter alguma privacidade.

— Alô, Bob. Achei que teria notícias suas esta manhã — disse ela.

Sparkes já estava à espera em frente à sede do jornal, protegendo-se de uma chuva de verão no grandioso pórtico do prédio.

— Venha tomar um café comigo, Kate. Precisamos conversar.

* * *

O café italiano perto da esquina em uma rua transversal suja estava lotado, e as vitrines, cobertas de vapor da máquina de café. Eles se sentaram a uma mesa distante do balcão e se entreolharam por um minuto.

— Parabéns, Kate. Você conseguiu fazer com que ela dissesse mais do que eu jamais teria conseguido.

A repórter manteve o olhar. A generosidade dele a desarmara, a fizera querer contar a verdade. Precisava admitir que ele era bom.

— Eu deveria ter conseguido mais, Bob. Havia mais a conseguir, mas ela parou quando quis. Um autocontrole inacreditável. Na verdade, assustador. Em um momento, ela segurava a minha mão e literalmente chorava no meu ombro por causa do monstro com quem havia se casado. No minuto seguinte, estava de volta ao controle. Ela se fechou, e não cedeu — contou, mexendo o café. — Ela sabe o que aconteceu, não sabe?

Sparkes assentiu.

— Acho que sim. Mas ela não conta, não sei por quê. Afinal, ele está morto. O que tem a perder?

Kate balançou a cabeça com simpatia.

— Alguma coisa tem, é óbvio.

— Muitas vezes fiquei me perguntando se ela estaria envolvida no crime — disse Sparkes, principalmente para si mesmo. — Talvez no planejamento? Será que tudo isso tenha sido para conseguir uma criança para os dois, e algo acabou dando errado? Talvez ela o tenha convencido a fazer isso?

Os olhos de Kate brilhavam com as possibilidades.

— Que droga, Bob. Como você vai fazer com que ela confesse?

De fato, como?, pensou ele.

— Qual é o ponto fraco dela? — perguntou Kate, brincando com a colher.

— Glen — respondeu. — Mas ele não está mais aqui.

— Crianças, Bob. Esse é o ponto fraco dela. É obcecada por elas. Quando estávamos conversando, tudo sempre retornava a crianças. Ela quis saber tudo sobre os meus filhos.

— Eu sei. Você deveria ver o álbum de recortes cheio de bebês.

— Álbum de recortes?

— Isso é em off, Kate.

Ela guardou a informação para depois e automaticamente colocou a cabeça de lado. Submissão. Você pode confiar em mim.

Ele não se deixou enganar.

— Estou falando sério. Isso poderia ser parte de uma futura investigação.

— Certo, certo. — Ela aceitou, irritada. — O que você acha que ela vai fazer agora?

— Se ela sabia de algo, pode voltar até a criança — disse Sparkes.

— Voltar a Bella — ecoou Kate. — Onde quer que esteja.

Naquele momento, Jean não tinha mais no que pensar. Ela faria um movimento, ele tinha certeza.

— Você vai me ligar se souber de alguma coisa? — perguntou ele.

— Vou pensar — respondeu ela, automaticamente provocando.

Ele corou e, mesmo que tenha sido sem querer, ela ficou contente por vê-lo reagir ao seu tom de flerte. Sparkes subiu das profundezas de repente.

— Kate, não estamos fazendo joguinhos — disse, tentando voltar a uma postura profissional. — Vamos manter contato.

Eles se separaram na rua, e ele tentou apertar sua mão, mas ela se inclinou para beijá-lo no rosto.