A Viúva
Capítulo 22
Terça-feira, 12 de junho de 2007
A VIÚVA
Os aniversários são coisas engraçadas. Todos parecem adorar, mas morro de medo deles — a aproximação, a pressão para ser feliz, se divertir, a decepção quando não consigo. Faço trinta e sete anos hoje, e Glen está lá embaixo preparando uma bandeja de café da manhã. Ainda é cedo e não estou com fome, de modo que a comida será como serragem em minha boca, mas vou ter que dizer que amei. Que o amo. E amo. Mesmo. Ele é o meu mundo, mas em todo aniversário me pergunto se esse ano haverá um milagre e teremos um bebê.
Tento não pensar nisso, mas nos aniversários é difícil. É aquele momento em que você se dá conta de que outro ano se passou, não é? Sei que há muito mais acontecendo, mas não consigo evitar.
Poderíamos adotar uma criança estrangeira. Li todas aquelas matérias sobre bebês chineses, mas não consigo dizer nada a Glen sem aborrecê-lo.
Aí vem ele. Ouço as xícaras e os pratos chacoalhando na bandeja. Ele é só sorrisos, e há uma rosa vermelha em um vaso ao lado do ovo cozido. Ele canta “Parabéns pra você” enquanto se aproxima do meu lado da cama, com uma voz engraçada para me fazer rir. “Muitas felicidades, muitos anos de vida, querida Jeanie”, ele canta suavemente, e beija minha testa, meu nariz e minha boca.
Isso me faz chorar, então ele tira a bandeja do meu colo e se senta para poder passar os braços ao meu redor.
— Desculpe, querido. Não sei o que há de errado comigo — digo, tentando sorrir.
Ele faz “shhh” para que eu fique em silêncio e vai pegar o cartão e o presente no armário.
É uma camisola. Renda broderie anglaise branca com laços rosa. Como a de uma garotinha.
— É linda — digo, dando-lhe um beijo. — Obrigada, querido.
— Experimente — pede ele.
— Mais tarde. Preciso ir ao banheiro.
Não quero vestir. Vou ao banheiro e tomo um “comprimido da Jeanie”. Odeio aniversários.
Pouco antes do aniversário de Bella, em abril, o primeiro desde o seu desaparecimento, fui a uma loja Smith’s comprar um cartão para ela. Passei séculos olhando para as imagens e as mensagens, e escolhi um com os Teletubbies e um broche dizendo “Eu tenho três anos”, porque li nos jornais que ela gostava muito deles.
Eu não sabia o que escrever, então me sentei em um banco do parque para pensar nela. Não estou triste, porque sei que ela está viva. A mãe dela e eu acreditamos que ela está viva. Glen também acha. Acreditamos que algum casal cuja filha morreu pegou Bella e fugiu para o exterior. Fico imaginando se a polícia considerou essa hipótese. Espero que Glen tenha apresentado a eles essa teoria.
Então escrevo “Querida Bella. Feliz aniversário. Espero que volte logo para casa”, e ponho alguns beijos. Eu a coloco como destinatária, Srta. Bella Elliott. Não sei o número da casa, mas espero que o carteiro saiba. A mãe diz que recebe dezenas de cartas todos os dias. Disse no programa Woman’s Hour que algumas cartas são nojentas, de pessoas “loucas” lhe dizendo que ela mereceu perder Bella. Uma dessas deve ser minha.
Escrevi no começo, período em que estava com muita raiva dela por ter deixado Bella sozinha quando eu nem ao menos podia ter um bebê. Queria que soubesse como tinha errado. Também não assinei aquela.
Coloquei um selo no cartão de aniversário, que estava volumoso por causa do broche, e voltei para casa passando pela agência dos correios.
No dia do aniversário, 28 de abril, Dawn estava em um programa matutino na TV com um bolinho e três velas. Usava o broche de aniversário que eu tinha mandado junto a outro, com os dizeres “Encontrem Bella”. Ela agradeceu a todos pelos cartões e presentes adoráveis e disse que não iria desembrulhá-los até que Bella voltasse para casa. A mulher que fazia a entrevista ficou sem fala, emocionada.
Desembrulhei o presente que havia comprado para ela — um bebê de brinquedo com cabelo dourado e um vestido branco e rosa — e o coloquei em minha cama.
Pude fazer isso porque Glen não estava em casa. Tinha saído para dar uma volta de carro. Não retornaria tão cedo, e até então eu poderia passar um tempo com Bella.
Tenho fotos dela publicadas em jornais, além de algumas coloridas de revistas, muito boas. Decidi não colocar essas fotos nos meus álbuns de recortes porque ela é real e especial, e espero conhecê-la um dia. Quando voltar para casa.
Faz parte dos meus planos: como iremos nos encontrar em um parque. Ela saberá que sou eu e chegará correndo, rindo e quase tropeçando de tão rápido que corre. Seus bracinhos agarrarão minhas pernas, eu me curvarei, a pegarei no colo e girarei com ela.
É o meu devaneio preferido, mas está começando a tomar conta do meu dia. Às vezes me flagro sentada à mesa da cozinha e o relógio me diz que passei mais de uma hora ali, e não me lembro de sentir o tempo transcorrer. Às vezes me flagro chorando, mas não sei exatamente por quê. Fui conversar com o médico. Não mencionei Bella, mas ele sabe tudo sobre as “circunstâncias” de Glen, como ele diz, e saí de lá com uma nova receita.
— A senhora precisa de alguma paz de espírito, Sra. Taylor — disse ele, tirando essa paz do receituário. — Já pensou em dar uma pausa de tudo o que está acontecendo?
Ele tem boas intenções, mas não há pausa a ser dada. Não posso deter os pensamentos pegando um avião para algum lugar. Não os controlo mais — nem a qualquer outra coisa. Sou uma passageira, não a motorista, quero dizer a ele. De qualquer maneira, os comprimidos iriam me levar a ser Jeanie quando fosse preciso.
A mãe de Bella está na TV o tempo todo. É entrevistada em todos os programas, dizendo as mesmas coisas sobre o “seu anjo” e como toda noite chora até dormir. Ela nunca perde uma oportunidade. Fico imaginando se estará sendo paga.
Levanto essa questão tarde da noite em um programa de rádio aberto aos ouvintes. Chris, de Catford, telefona imediatamente para me apoiar.
— Que tipo de mãe ela é? — guincha ele.
Fico contente que outras pessoas também consigam ver a sua verdadeira natureza.
Desde que me “aposentei”, como Glen chama, passo os dias vendo TV, fazendo caça-palavras em livros de passatempos e participando de programas de rádio pelo telefone. Engraçado, eu achava que rádio era para pessoas inteligentes — toda aquela falação. Mas comecei a sintonizar em uma rádio comercial local para ter alguma companhia e fui fisgada. Há meio que um bando de gente que telefona — as mesmas vozes, semana após semana. O velho que deseja que todos os imigrantes sejam expulsos, a mulher que não consegue pronunciar a letra “r” e acha que os políticos deveriam ser jogados na plisão, o jovem que culpa as mulheres pelo aumento do número de crimes sexuais. Eles começam com raiva e as vozes ficam mais agudas e mais altas à medida que se animam. Não importa qual seja o tema, estão sempre ultrajados, e acabei me viciando.
Finalmente peguei o telefone um dia, quando estavam discutindo se os pedófilos podiam ser curados. Falei que meu nome era Joy e afirmei ao apresentador que os pedófilos deveriam ser enforcados. Isso caiu bem, pois houve uma avalanche de telefonemas concordando. E foi assim. Eu me tornei um deles. Mudava meu nome praticamente toda semana. Ann, Kerry, Sue, Joy, Jenny, Liz. Era maravilhoso ser outra pessoa, mesmo que por noventa segundos, e ter alguém me escutando sem saber com quem eu era casada nem me julgando.
Descobri que tinha muitas opiniões. Eu podia ser a Sra. Raivosa ou uma “liberal de coração partido”, como diz Glen. Podia ser quem quisesse.
E isso me impediu de ficar solitária. Claro, Lisa havia sumido, junto com o resto da minha vida. De início continuou a aparecer e a me convidar para ir à casa dela. Queria saber tudo o que estava acontecendo e foi muito gentil comigo. Disse que não acreditava em uma palavra daquilo. Mas as crianças não vinham mais. Sempre havia uma desculpa: Kane estava resfriado, Daisy estava praticando balé para uma prova, a irmã de Lisa ia passar um tempo na casa deles. Depois ela fechou o portão com um prego. Apenas um, no alto.
— Eu estava preocupada com invasões — disse ela. — Você entende, Jeanie?
E eu tentei entender.