A Viúva

Fiona Barton · Capítulo 17 de 55

Páginas do PDF

A Viúva

Capítulo 16

 

Quinta-feira, 10 de junho de 2010

A VIÚVA

Eu adorava os almoços de domingo. Sempre frango grelhado e todos os acompanhamentos. Parecia uma coisa de família, e quando éramos recém-casados os meus pais e os pais dele apareciam para partilhar isso conosco. Sentados ao redor da mesa na cozinha, eles ouviam o fim do programa Desert Island Discs no rádio e ao mesmo tempo liam os jornais de domingo, enquanto eu colocava as batatas para assar no forno e servia xícaras de chá.

Era muito agradável fazer parte daquele mundo adulto em que podíamos convidar nossos pais para almoçar. Algumas pessoas dizem que se sentem assim quando conseguem o primeiro emprego ou se mudam para a primeira casa, mas apenas durante aqueles domingos eu me senti uma adulta de verdade.

Adorávamos nossa casa. Tínhamos pintado a sala de estar de cor de magnólia — Glen disse que era “chique” — e compramos um conjunto estofado verde de três peças a prestação. No fim das contas, devemos ter pagado uma fortuna pelo conjunto, mas parecia perfeito, portanto Glen precisava tê-lo. Demorou mais tempo para juntar dinheiro para uma cozinha nova, mas no fim conseguimos e escolhemos uma com portas brancas. Circulamos durante uma eternidade pela loja, de mãos dadas como os outros casais. Gostei dos armários de pinho, mas Glen queria algo “despojado”. Então ficamos com a branca. Para ser sincera, parecia um pouco uma sala de cirurgia quando montamos, mas compramos puxadores vermelhos, jarras chamativas e outras coisas para dar vida. Eu adorava a minha cozinha — “meu departamento”, como Glen a chamava. Ele nunca cozinhava nada — “Eu só faria bagunça”, dizia, e ríamos. Então eu cozinhava tudo.

Glen arrumava a mesa, fingindo brigar com meu pai para que ele tirasse os cotovelos e fazendo piadas sobre o hábito da mãe de ler o horóscopo. “Algum moreno alto e bonitão previsto para esta semana, mamãe?”

O pai dele, George, não falava muito, mas comparecia. Na verdade, futebol era o único interesse que eles tinham em comum. Só que nem nisso eles conseguiam concordar. Glen gostava de ver futebol na televisão. O pai ia ao jogo. Glen não gostava de todos aqueles corpos imprensados, todo aquele suor e os xingamentos. “Eu sou mais um purista, Jean. Gosto do esporte, não da vida social.” O pai dizia que ele era um “fresco”.

George não entendia Glen, nem um pouco, e achávamos que ele provavelmente se sentia ameaçado pela educação do filho. Glen se saiu bem na escola — estando quase sempre entre os melhores da turma —, e trabalhava duro, determinado a não terminar como taxista, a exemplo do pai. Engraçado que ele tenha acabado na mesma profissão. Uma vez falei isso de brincadeira, mas Glen me disse que havia um mundo de diferença entre ser taxista e motorista.

Eu não sabia o que queria ser. Talvez uma daquelas garotas bonitas que não precisavam se esforçar. De qualquer forma, não me esforcei, e Glen sempre disse que eu era bonita, então meio que virou verdade. Eu queria ficar bonita para ele, mas sem muita maquiagem. Ele não gostava disso: “É muito vulgar, Jeanie.”

Nos nossos encontros de domingo, Mary costumava levar uma torta de maçã, e minha mãe levava um buquê de flores. Ela não cozinhava. Preferia legumes e grãos enlatados aos de verdade. Era engraçado, mas papai dizia que era assim que havia sido criada, e ele se habituara.

Quando fiz economia doméstica na escola, levava para casa os pratos que preparávamos. Eles não eram ruins, mas se tivéssemos feito alguma coisa “estrangeira”, como lasanha ou chili com carne, mamãe ficava brincando com a comida no prato.

Então, frango grelhado era bom para todo mundo, e eu sempre fazia ervilhas enlatadas para ela.

Havia muito riso, eu me lembro disso. Sem nenhum motivo. Coisas engraçadas que tinham acontecido no salão ou no banco, fofocas sobre vizinhos e a novela. A cozinha ficava tomada pelo vapor quando eu escorria as cenouras e o repolho, e Glen desenhava nas janelas com o dedo. Às vezes fazia corações, e Mary sorria para mim. Ela estava desesperada por netos, e sussurrava comigo quando lavávamos a louça, pedindo novidades. De início eu dizia: “Ainda temos muito tempo para bebês, Mary. Acabamos de nos casar.” Depois comecei a fingir que não tinha ouvido enquanto enchia o lava-louça, e ela parou de perguntar. Deve ter achado que o problema era Glen. Na época eu era mais próxima dela que de mamãe, e ela sabia que lhe diria se fosse eu. Nunca disse a ela a razão, mas imagino que tenha adivinhado, e Glen me culpou. “Isso não é da conta de ninguém, só nossa, Jeanie.”

A frequência dos almoços de domingo foi diminuindo até parar porque Glen e o pai não conseguiam ficar juntos na mesma sala.

O pai dele descobriu nosso problema de infertilidade e fez uma piada no primeiro Natal após termos recebido a notícia do especialista. “Vejam isso”, disse ele, pegando uma tangerina sem caroço na tigela de frutas. “É como você, Glen. Sem sementes.”

George era um homem nojento, mas até ele percebeu que tinha ido longe demais. Ninguém disse nada. O silêncio foi medonho. Ninguém sabia o que dizer, então ficamos todos olhando para a TV e comendo balas. Fingindo que nada havia acontecido. Glen ficou branco como papel. Simplesmente ficou sentado lá, e não consegui me forçar a tocá-lo. Sem sementes.

No carro, de volta para casa, ele disse que nunca perdoaria o pai. E não perdoou. Não tocamos mais nesse assunto.

Eu queria muito ter um bebê, mas ele não conversava sobre o “nosso problema”, como eu tinha que chamar aquilo, nem sobre adoção. Ele desapareceu dentro dele mesmo, e eu me guardei. Dois estranhos na casa por algum tempo.

Nos almoços de domingo, Glen parou de desenhar na janela e abria a porta dos fundos para deixar o vapor sair. Todos nós começamos a ir embora cada vez mais cedo, e depois passamos a inventar desculpas. “Estamos muito ocupados neste fim de semana, Mary. Você se importaria de deixar para o domingo que vem?” E então “mês que vem”, e gradualmente os almoços de família só ocorriam em aniversários e no Natal.

Se tivéssemos tido filhos, nossos pais teriam sido avós. Teria sido diferente, mas a pressão de desempenhar o papel de nossos pais se tornou grande demais. Não havia distrações. Apenas nós. E o escrutínio da nossa vida era intenso demais para Glen. “Eles querem interferir em tudo”, disse depois de um almoço em que Mary e minha mãe haviam decidido onde eu deveria comprar um novo fogão. “Eles só querem ajudar, amor”, respondi com delicadeza, mas podia ver as nuvens escuras se formando ao seu redor. Glen ficou calado e ocupado com os próprios pensamentos pelo resto do dia.

Ele nem sempre fora assim. Mas começou a se ofender com tudo. Coisas pequenas — algo que o homem da papelaria falou sobre uma derrota do Arsenal, ou o desaforo de um garoto no ônibus — o aborreciam por dias. Eu tentava fazê-lo rir para animá-lo, mas fiquei esgotada com o esforço, então parei e deixei que resolvesse a questão sozinho.

Comecei a me perguntar se ele não estaria procurando razões para se aborrecer. As pessoas com quem sempre gostara de trabalhar no banco começaram a incomodá-lo, e Glen chegava em casa resmungando e se queixando delas. Eu sabia que estava cada vez mais perto de alguma coisa — uma briga, provavelmente — e tentei fazer com que seu humor melhorasse. Houve uma época em que eu poderia ter conseguido — quando éramos mais jovens —, mas as coisas haviam mudado.

Uma das senhoras no salão disse que todos os casamentos “se acomodam depois da ‘fase apaixonada’”. Mas aquilo era acomodação? Seria isso?

Suponho que tenha sido nessa época que ele começou a ir mais para o computador no andar de cima. A se isolar de mim. Escolher os seus absurdos em vez de mim.