Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 10 de 21

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Amanhã

Capítulo IX · Nessa mesma noite o Mateus, depois de…

 

Nessa mesma noite o Mateus, depois de recolhido ao seu quarto, passou uma noite singular. Nunca mais, durante a longa sequência do dia se lhe desarreigara do espirito a perturbadora impressão do seu primeiro encontro com Adriana, naquela memorável manhã. A labuta ordinária da fábrica, o exame da correspondência, expedição de contas e aviamento de encomendas, tudo ele fizera maquinalmente, num alheamento, num desdém, num tédio, perdido num como alto nimbo de sonho, embalado por inebriantes carícias perfumadas... Ainda depois, à noite, na sua ronda ardente de conspirador, enquanto o seu propagandista furor o arrastava, acolitado pelo ubíquo Fagulha, a essa fervida cadeia de conciliábulos, de antemão cuidadosamente aprazados, lá lhe ia sempre sobranceira, suspensa como uma lâmpada de sacrário sobre a alma, a mesma luminosa e doce impressão, como o lume discreto do farol que, soldado à popa do navio, resiste imperturbável e sereno ás titânicas convulsões da tempestade. E agora, ali a sós com o seu coração, por completo à mercê da comovida obstinação dos seus pensamentos, tomava-o com mais avassalador império, abria-lhe horizontes novos de gozo, nas suas roscas volutuosas, a divina recordação desse instante, a quente evocação dessa imagem bem dita.

O seu primeiro movimento, mal que acendeu o candeeiro, foi tomar de cima da mesa um lápis e ir pressuroso fixar na escaiola rosada da parede, junto à cabeceira do leito, mesmo ao canto, a data daquele dia, que ele instintivamente sentia teria de exercer grave e decisiva influencia no seu destino. Feito o quê, sentou-se à mesa, e de cotovelos à frente e com a cabeça comprimida nas mãos, embevecidamente, tudo era entregar-se agora à absorvente reconstrução da cena, eterizando-a, procurando reter desse instante a memória saudosa, tornando a reviver desses fugidios minutos a delicia infinita... E então, imediatamente quase, queria logo reagir contra essa miragem dissolvente. A suave religiosidade do seu êxtase aziumava-se de um travor amargo, embraveciam-no fugazes ímpetos de revolta. Sim, porque evidentemente a maquiavélica ideia de Adriana era o mais inoportuna e absurda, a pura antítese do seu sonho... vinha rasgar como um relâmpago de sarcasmo o querido mistério da sua obra. Lembrara-se ele ainda, na ocasião, de a contrariar, mas a verdade é que se acobardara, titubeara e calara-se... sem saber porquê. E esta humilhante consideração desconcertava-o, sacudia-lhe a alma num misto de exaspero e prazer, de volúpia e de raiva. — Pois não viria aquela maldita ideia da creche ou o que quer que era, por geral intempestivo e hipócrita, armada ali dentro da oficina, formular-se na pior ocasião, amaciando velhos atritos de castas, mostrando a lendária fereza dos patrões por um prisma favorável?... Era o meio infalível de catar a gratidão das mães, faria capitular, por essa brecha aberta no coração, o elemento feminino... e, conquistado este, alcançada era também, pela sua incombatível influencia, a paciente sujeição dos homens. Seria a destruição, pelo amor, de tudo quanto ele andava preparando pelo odio. Uma desgraça! Tudo perdido! Porque se não tinha ele oposto, franca, formalmente? Sobrar-lhe-iam argumentos, era o seu dever. Vamos! Tinha que fazê-lo, sob pena de entregar-se indecorosamente, posto ao serviço e à discrição do inimigo. Triste coisa! Afinal, estava vendo, era também um fraco, um escravo estúpido do sentimento e, como em todo o bom português, o seu grande e tumultuário coração governava-lhe de capricho a exiguidade funcional do cérebro! — E assim adormeceu com a ideia fixa de baldar, — não sabia ainda bem como, porém havia de consegui-lo, — baldar um plano que seria fatalmente a prematura, a fatal anulação do seu esforço messiânico.

No dia seguinte, mandou Mateus com efeito proceder à desobstrução do grande espaço, asfaltado e coberto de zinco, que no extremo da ala norte da fábrica servia de depósito de material. Mas sem avançar uma única palavra acerca da nova função a que o destinava. A operação era morosa e difícil.

Havia ali um pejamento compacto e enorme, feito em muitos meses seguidos, de refugos de fazenda, sobejos de material, pilhas de sucata, destroços de ferramentas, óleos, farinhas, máquinas deterioradas.

A sua remoção e consequente distribuição pelas outras dependências da fábrica, deu naturalmente origem a uma labuta fora do comum: a toda a hora, pelos corredores, grupos de homens, descalços, carregando fardos, cabos gemendo nos guindastes, o esmagado raspar das zorras. E claro que tudo isto veio complicar o matraqueado arquejar da fábrica de ruídos novos, a cuja tremula vibração vinham a cada momento pinhas de cabeças curiosas grupar-se ás portas das oficinas.

E uns aos outros interrogavam-se com maligno interesse. Com especialidade as mulheres, que sem conta no trabalho se partiam tagarelando em grupos, e com pródiga inventiva iam em progressivo exagero passando os comentários. Alguma que, mais confiada, interrogava sobre o caso o Mateus, não obtinha dele mais que um breve encolher de ombros, sublinhado por um sorrir esperto. A mesma coisa aos homens, que lhe ficavam a morder nas costas, desconfiados. O Fagulha, interpelado igualmente, protestava que nada sábia, e dizia a verdade.

O madraceiro Lourenço, das mules homem bisbilhoteiro e ruim de condição, e dada a relativa privança do Serafim com o contramestre, dele se aproximou ao levantar do trabalho, uma tarde, — para que lhe explicasse que raio de “magicadela” iria agora sair dali?

— Olha, eu cá ao certo não sei... — disse-lhe de pausa o Serafim, enquanto embrulhava um cigarro, parado no passeio. — Mas, por umas palavras que ouvi ao gajo, imagino que vão fazer uma oficina nova... querem meter mais gente.

— O quê?... — objetou o outro, incrédulo, arregaçando a pálpebra.

— Ele disse-me que era... por causa do aumento da população.

— Nada, não me entra cá... Aqui anda grossa tramoia! E se não, veremos...

— Que tramoia há de haver? És doido.

— Veremos...

— Arre, que és teimoso comum jumento!

— Meu rico, nasceram-me os dentes a aprender as manhas desta gente.

— Mas o Mateus...

— Será tão bom como eles! — epilogou com rancorosa decisão o Lourenço. E, levando o indicador à testa: — Olha que eu, entendes? Eu para beber não preciso que me assobiem.

Entretanto, em cima, no velho solar dos Meireles, também continuava o caso a ser falado. Na primeira noite em que em sessão plenária se tratou do assunto, dividiram-se as opiniões. Combatia renitente a ideia a D. Mafalda, que ia tendo uma síncope de indignado horror quando pouco antes, ao jantar, lho tinham comunicado expansivamente os olhos. Que não sabia o que a juventude de agora fazia ao juízo. Era positivamente deitar pérolas a porcos... Já não havia dignidade, já ninguém conhecia o seu lugar... Nem pareciam seus filhos! Por forma que bom trabalho teve o marido em aplaca-la, só conseguindo abrandar-lhe os rigores a poder de toda a sua bonacheirona eloquência.

Mas, à noite, exposto perante o reduzido conclave o plano, o primeiro a manifestar, com boçal impertinencia, o seu espanto, foi o padre Sebastião.

— Era uma heresia! Era desvirtuar por completo o sublime princípio da Caridade, aplicando-o tão mal.

Adriana protestava, — que a ideia até como especulação era excelente, porque prenderia pela gratidão todas essas desgraçadas.

— Qual gratidão! — objetou logo o padre, num frouxo de rir sarcástico, sarilhando simiescamente os braços.

— Também acho que sim... — disse Afonso Meireles.

— Ora! — disse o padre. — Veja Vossa Excelência as sopas económicas... uma providência! Vale lá a pena! Dizem mal delas e continuam a preferir a taberna. — Jorge ergueu-se e derivou pela sala, impaciente. — Agora gratidão! Essa canalha é como a víbora: morde quem lhe faz bem.

Bernardo Gonzaga, muito complacente, com as mãos entre os joelhos, vendo que a fidalga o provocava com o olhar a manifestar-se; num bamboleio indolente do busto arrastou:

— Pois eu, com o devido respeito, minha senhora, sinceramente... não vejo no caso esses perigos. Acho até interessante. — Dentro das suas flácidas pálpebras em saco, os olhitos da mãe de Jorge fuzilaram; e logo o Gonzaga, a compor: — Contanto que se não ponha na coisa um grande interesse, está entendido... ao ponto de fazer de uma diversão um apostolado. Sim, pode ser um sport como outro qualquer.

Jorge voltou a afastar-se, mordido de uma aguda contrariedade; enquanto os minúsculos olhos da mãe, agora momentaneamente aplacados, demandavam a opinião do comendador Sulpício.

— Tem seus quês, tem seus quês o problema, meu caro Gonzaga, — sibilou ele de importância, por entre as gengivas desguarnecidas. — A espontânea impulsão da Sra. D. Adriana e o seu simpático mano é linda! Seria mais uma encantadora versão da doutrina sublime do Crucificado. Mas da teoria à pratica, meus filhos...

E meneava desconfiadamente a um e outro lado a cabeça pomposa e sorna.

Forte com tão assinalado conselho, D. Mafalda comandou:

— Ouviu, padre Sebastião?... Amanhã, logo de manhã, muito cedo, a primeira coisa que tem a fazer é ir-me lá abaixo à fábrica... — O tonsurado símio teve um movimento de contrariedade; ao que logo a fidalga, com irritada impaciência: — O quê! Não lhe agrada?... Pois não tem outro remédio!

— Sim, minha senhora... — arrastou o padre a custo, sobre os braços da poltrona dobrado à frente, numa mesura.

D. Mafalda continuou:

— Vai lá abaixo, vê-me a casa destinada a essa... loucura, e verifica, em primeiro lugar se ela fica bem longe das mais oficinas.

— Ó mãe, pois não fica! — disse meigamente Jorge, temperando a observação num sorriso.

— É no extremo de uma das alas, — apoiou Adriana.

— Deixem-me cá! — disse a mãe com obstinação.

— Quero-a bem isolada do resto, note bem... Em sítio onde não chegue o contágio diabólico da canalha.

— Sim, minha senhora...

— Depois havemos de benzer o recinto... — Adriana e Jorge, sorrindo, entreolhavam-se de piedade; Afonso Meireles parecia nada ouvir. — Será o único meio da nossa Senhora nos perdoar a parvoeira. E leva-se para lá o grande crucifixo de pau-santo que temos aí, sem se ver, no corredor à entrada da capela... peço ao capelão das Comendadeiras que venha fazer umas catequeses... e o padre Sebastião é quem dirige a casa.

— O quê!? — exclamou Jorge de salto, abrindo com espanto os braços.

— É o responsável por tudo!

— Então a ideia é nossa e esse patetinha é que a vai utilizar! — disse Jorge.

— Olhe que ele estraga tudo, mamã! — disse também Adriana. — É uma usurpação em forma! O comendador acha bem?

O comendador Sulpício, em silêncio, baixava e erguia de pausa, numa regalada aprovação, o crânio luzidio. O que vendo, a fidalga:

— Ou há de ser assim, ou então não consinto... Não quero cá saber!

— Bem, está dito! — epilogou então Afonso Meireles, aos filhos com significativos olhares impondo aquiescência.

Por isso no dia seguinte o padre Sebastião, de ouvido alerta, mal que a máquina da fábrica apitou a chamada matinal para o trabalho, desceu logo, mesmo por dentro do parque, ás oficinas, de chapéu mole de feltro e ensacado na sua invariável batina, verde de velha. A sua presença foi muito notada, porque aquela hora ele vinha naturalmente cruzar-se, no seu aborrecido constrangimento, com os grupos que entravam devagar. Não menos surpreso ficou o Mateus, quando a grotesca figura lhe apareceu e disse ao que ia. O seu primeiro movimento foi de desdenhosa repulsa, de altiva estranheza. Recebeu-o mal. Porém logo, reconsiderando, num relance modificou a sua atitude. — Naquela altura, o padre Sebastião caía do céu... A intervenção dele no assunto era a enxadada mais a propósito no generoso plano de Adriana. Nada mais seria preciso para o tornar antipático, para o invalidar à nascença. Bastava que a sua gente pressentisse naquela impertinente intervenção uma cilada... que se preparava algum tenebroso trama clerical, alguma artimanha infame do bando negro! Era insinuar-lho... e deixar correr.

Tratou pois, logo que tal percebeu, com cativante afabilidade o padre. Levou-o à sala norte da fábrica pelo caminho mais longo, parando com ele a miúde, para que todos o vissem bem. E à saída a mesma coisa: tudo lhe era pretexto para o demorar, para o fazer poisar inconsciente perante a instintiva osga da multidão. Guiou-o depois pelos teares, pelas cardas e urdideiras, passeando-o assim quanto pode, e sem que o bronco sotaina o suspeitasse, por diante da receosa inquietação dos seus.

Na hora do descanso, ao meio dia, quase não ruminaram outro assunto as intrigadas gentes da fábrica. A visita do padre era o tema de todas as interrogações: nas oficinas, nas tabernas em torno, nos degraus dos portais onde pares esquálidos se acocoravam, de roda dos tachos de barro com comida. E formulavam-se hipóteses, choviam toda a casta de conjeturas. Então a imaginativa inzoneira das mulheres não conhecia termo, chegando a raiar pelo absurdo das suas invenções o vôo extravagante.

No dia seguinte, logo ao entrar para o trabalho, um grupo delas, mais confiadas, aí vai direito ao Mateus, no propósito firme de aclarar o mistério. Compunham amimadamente os lábios rôtos, coçavam atrás dos lenços. E então, mais destemida à frente delas, a Clara:

— Ó Sr. Mateus, faz favor... desculpe, mas a gente queríamos saber... para que é afinal a casa nova?

— Temos negócio de padres? — acudia outra.

— Algum novo coio?

— Vamos ter aqui Irmãs da Caridade?

— A coisa não cheira bem!

— Não, raparigas, sosseguem... — aclarou o Mateus, no íntimo radiante. — Não se trata de vocês.

— E que tratasse! — exclamou com desempeno viril a Clara, arregaçando as mangas, — Vinham bem!

— Trata-se mas é da proteção, da educação dos vossos filhos.

— O quê!? — rosnou uma, do fundo.

— Educação, virgula! — comentou de arreganho a do Manaio, de mãos na ilharga.

— Não, não é em filha minha que eles põem o gadanho! — veio também a Ana dizer, erguendo numa fúria o peito entabuado. — Essa lhes juro eu!

Os olhos negros do Mateus faiscaram de entranhado júbilo.

— A coisa e bem natural, — disse ele de manso, — os pequenos em casa não aprendem nada, pegam o fogo, perdem-se... Vocês trazem-nos para aqui...

— Quem? Quem cai daí abaixo?... — rugiu o mulherio em coro. — E para quê!

— Ensinam-nos a rezar... — aqueceu o contramestre.

— E isso dá pão? é coisa que se coma?... Ora a léria!

— A nós é que nos querem comer, mulheres!... Olho alerta!

— Já não lhes basta a chuchadeira dos ricos, querem também a única riqueza de uma pessoa! A eles papam-lhes as heranças, a nós querem-nos engazupar os filhos!

— Olha! — comentou rijamente, de olhos apopléticos, a do Manaio, cruzando num gesto obsceno os braços.

— -Tiram-lhes a amizade a nós, é já sabido... para levarem as inocentes pros seus serralhos!

— Para fazerem óleo humano!

— Será mais fácil deitar a gente o fogo a toda esta trampa!

— Ai, os almas do diabo!

E passivamente no meio do sedicioso bando, o Mateus, silencioso agora, deixava alastrar e alentava o irritado frémito com um risinho misterioso.

Logo o boato assustador cresceu. A originária corrente de desconfiança avolumou rapidamente, breve era a mais decidida e odienta lição de hostilidade. E o contramestre, que manobrava de contínuo, ao palpar, ao sentir o efeito empolgador do estratagema, rejubilava. Sem se abrir claro com qualquer, em todos entretanto, mulheres e homens, ia ardilosamente, por meias palavras, confirmando as suspeições e assoprando o incêndio.

Assim decorreram dias, até que, desobstruída de todo a casa, limpa, caiada de novo, e com aplicação de caixilhos moveis nas janelas, assim o comunicou Mateus a Jorge Meireles, que nem quis ver. Não tão desinteressada a D. Mafalda, que segunda vez mandou o padre Sebastião, como delegado seu com poderes plenos, a conferir pelos seus próprios olhos o trabalho feito. E nem ele foi só. Conseguira a fidalga que por especial atenção e deferência o acompanhasse ao piedoso exame o indigitado capelão das Comendadeiras de Santos, tipo de ultramontano estreme, desnalgado e adunco, sempre também de cabeção e roupeta negra, grande chapéu de abas com borlas sobre a nuca.

Mas aqui foi Troia... Agora, dado o astuto preparo anterior, a aparição do agoureiro par na fábrica determinaria naturalmente algum violento alarme, uma destas irreprimíveis convulsões de revolta que na antagónica prevenção de um meios individual ou coletivo, produz sempre a intervenção de seres estranhos. Com efeito, sem que os dois de tal se apercebessem, a passagem das suas abominadas figuras pelos corredores e armazéns ia concitando e erguendo prontas cóleras, colando cingidas com os seus passos as mais insofridas impaciências. Largando de reigota o trabalho, muitos seguiram-nos, na distância conveniente, para verem e observarem, sofreando tentações ruins... Daí a pouco, estavam os dois placidamente concertando onde melhor conviria colocar o grande crucifixo e o altar, — se ao centre do muro da direita, no sentido do comprimento da casa, se na parede norte, ao fundo, entre as duas janelas, — quando um assobio escarninho cortou o ar, no corredor, ali bem próximo, com um agudo timbre metálico, numa evidente intenção de troça.

Não fizeram caso. Inocente ousadia de algum dos inúmeros marmitões que circulavam na fábrica. Nem sequer se voltaram. Mas, daí a segundos, um outro silvo se prolongou e veio feri-los, mais próximo este, mais ameaçador, mais sarcástico e estridente. — A coisa era com eles... e mais do que uma gaiatice isolada, não havia duvida. Despediram grandes olhos de medo ao corredor e logo tiveram a aterradora confirmação da sua suspeita: pois lá viram ao longe, no vago delimento da distancia, a espia-los com rancor um núcleo de cabeças hostis e decididas. Então, sinceramente intimidados, entreolharam-se, muito pálidos:

— Que quer esta canalha de nós!?

— Corja! Mas que é isto?...

E o Mateus não aparecia... Que imprudência! Estavam perdidos... Instintiva e simultaneamente, dando-se os braços, deixaram a sala e arrastando-se nas pernas trémulas tomaram à direita, com o objetivo de se escapulirem pela porta do parque. Más encontraram-na tomada. Uma multidão compacta e enorme havia-se já interposto entre eles e esse ansiado e providencial refugio. Arrojavam-lhes vaias, pulhas, insultos, impropérios, numa fúria crescente, numa arranhada dissonância de vozes de extermínio, com os punhos cerrados e floreteando ao alto vingadoramente os braços. Toda a sorte de imundície, toda a ordem de represálias, ódios e misérias se chocavam e baralhavam nas convulsas dobras dessa onda desordenada e esquálida, com lívidas faces estortegadas de iras ao rubro, fétidas bocas escancarando abismos, torvas pupilas disparando lampejos rancorosos. Abundavam as mulheres; e nestas as mais andrajosas eram as mais ferozes; do meio dos seus farrapos atiravam o busto à frente, rugindo, como leoas.

Num pávido atabalhoamento, afásicos, perplexos, quiseram ainda os dois avançar, alongando para o grupo em frente as mãos, com império primeiro, depois em posturas suplicantes. A cada passo porém que feles arriscavam, logo no mesmo sentido avançava também a multidão; de sorte que assim momento a momento mais se reduzia o fugidio espaço intermedio. Uns minutos mais e ficariam irremissivelmente à mercê do inimigo! E o alarme, a sanha, a raiva cresciam incessantes. Era na direção do cerco feito aos dois padres uma tropeada que reboando ali convergia e engrossava, comocionando em colunas de odio toda a fábrica. E a assuada também crescendo. Começara por um assobio e era agora um alarido estrangulado e forte, que a áspera moenda do volante e o potente resfolgar das máquinas reforçavam, prolongando-lhe selvaticamente o horror.

Ante a iminência fatal do perigo o padre Sebastião e o colega, num desesperado arranque de coragem, recuaram então de salto, mudando de plano, até ao corredor central, e por ele desataram a correr, direitos ao terraço, avergados de pavor, voltando a cada momento para traz num cavido receio as cabeças, frias de suor. E em cima deles, praguejando, rugindo, uivando, tomou logo também pelo novo caminho a multidão, cada vez mais grossa, cada vez mais próxima. Um martelo, despedido não se sabe donde, raspou a aba do chapéu do capelão e caiu-lhes em peso, adiante, no asfalto; o que foi sinal para que a sacrílega vozearia redobrasse, sacudida num concertante de sinistras ameaças.

Inevitavelmente, antes mesmo de conseguirem sair da fábrica, iam os dois fugitivos ser atingidos pela turba, quando súbito assomou à porta da primeira oficina a figura imperiosa e séria do Mateus, atalhando-lhes, de braço estendido, a carreira louca, por um brado enérgico impondo-lhes alto e comandando silêncio. Foi o bastante; pois como por encanto, instantaneamente, toda aquela furibunda jolda estacou, emudeceu. E os dois foragidos puderam seguir então até ao ar livre, açodados e brancos, fazendo pelo acelerado mover das tíbias trapejar as abas dos hábitos, como corvos.

Mas ainda a mesma apupada os perseguiu na rua, até onde inexplicavelmente havia alastrado a tumultuosa agitação de cima.