Amanhã
Capítulo XVII · Naquele ano passou quase despercebido o Entrudo…
Naquele ano passou quase despercebido o Entrudo para a gente da ilha do Grilo. Nem havia alegria nas almas nem sossego nas consciências. Um como véu de morte parecia que fora sobre a misera estancia corrido lugubremente. Nenhuma diversão local se organizou, nem tampouco qualquer dessas farrapentas chulas da exploração que o faminto bairro costumava naqueles dias destacar, ao seu gandaiar de acaso pela embriaguez munificente da cidade. Faltava o Adelino, o emérito ensaiador da tertúlia com sede na vila Dias, e faltava o Esticado organizador crónico de todas as cegadas, parodias e danças da redondeza. E faltaram por forma que ao esmorecimento, filho da ausência do seu comando e direção, se juntava no orfanado bairro a condoída saudade, a ferina indignação pelo imerecido rigor da sua sorte.
Com efeito, sabia-se que no mesmo sábado magro, mal rompia a madrugada, eles dois e o Romão tinham sido baldeados de improviso, em aviltante amalgama com uma jolda de malfeitores e farroupilhas, do Limoeiro para o couves de um paquete que imediatamente levantara ferro com destino à África. — Um rigor positivamente inquisitorial! Nivelava-se o mais nobre, o mais sagrado atributo do homem, a liberdade do seu pensamento, com as mais repugnantes aberrações da escória. Já a independência era um labéu e a sinceridade um crime! — Quando a triste e odiosíssima nova circulou por Marvila, uma grande comoção de rancor alvorotou todo o bairro, funda ao ponto de dar a ilusão que com o seu abalo tremera a terra. Alguns dos operários, contumazmente incrédulos, amparados no estímulo de uma generosa esperança, ainda correram pressurosos à cadeia, donde trouxeram o esmagador testemunho da verdade... Outros, impróvidos sebastianistas, dando costas ao trabalho, tomaram pelo Aterro fora e seguiram por terra e por mar, a pé e utilizando toda a casta de transportes, até à barra, doidos no alucinado empenho de verem ao menos uma vez os seus pobres irmãos proscritos, de os salvarem nalgum leonino rasgo de audácia, travarem a hélice do vapor e furtarem-nos aquele sequestro infamante. Mas nem já o vapor viram! E então a evidencia da irremediável desgraça, a estes e aos mais que gradativamente dela tiveram noticia, amortalhou-lhes a alma numa aflitiva tristeza. Á medida como, passada de boca em boca, a desoladora certeza daquela torpe expatriação alastrava pelo bairro, era como um grande pano de luto e dor que se fosse desdobrando também, correndo com ela... as cabeças dos miseráveis abatiam e os seus ombros vergavam, não ao desânimo porem ao odio, e uma torva caligem de ameaça, extravasando dos peitos, inundava-lhes os olhos de trevas. Como a cadela que, amorosa e desconfiada rodando em torno dos cachorritos, ladra e arremete indistintamente contra tudo e todos, contra perigos que mal presente, contra as pessoas que não conhece, assim bramia dorido e selvagem o coração de todos aqueles apavorados párias, indignados por tão despótica violência, por tão cobarde e vil atrocidade. Para mais, depois do subversivo assassinato do Silvério, cujos verdadeiros autores não houvera afinal meio de destrinçar, a irritante insistência das inquirições e a vigilância mais estreita da polícia exasperavam-nos. Passavam agora as escassas horas de descanso enjaulados na ominosa noite da sua dor, guardados e repudiados sempre, como feras, com o sangue grosso de humilhações e inviperada a alma de vingança. Os próprios velhos, na corrente avassaladora do odio, aqueciam. Era de odio a lição primeira das mães ás crianças, cada manhã. — E no seu lar solitário a pobre da Ana caíra de cama para não mais se erguer!
Na véspera à noite, havia a filha do Manaio predito o fato, diante do pai, da mãe, o Serafim e aquela esperta e ardente predestinada que era o Contrapeso, a quem instintivas afinidades de temperamento, a irmanação no abandono do Ventura e a mordente atração pelo fenomenal viver da sua amiga de infância, faziam agora muito da casa. Estavam os quatro ruminando tristemente a sua ceia de carapaus com azeitonas, sobre uma velha e gordurenta arca improvisada em mesa, quando a alucinada hipnopata, arrancando súbito, num acesso de histeria lucida, do seu grabato imundo, e tendo com ímpeto atirado ao lado a velha cortina de chita, que um rasgão de alto a baixo abateu, avançou direita ao grupo, atabalhoada e abstrata, com um ar sobrenatural e grandes olhos claros de vidente, prolongando, de braços ao ar, o mórbido adelgaçamento das formas sumidas, toda a esmaída anatomia do débil corpito negro patente a trechos, por entre os retraços, mais negros ainda, da camisa.
Tendo-a sentido, os quatro comensais voltaram-se; e seguiam com desgosto o fantasmático arrastar daquela como que sonâmbula, que agora, com o rosto de cera enrodilhado na mais aflitiva ansia, e apontando para um velho retrato de Vítor Hugo que na salitrosa parede amarelecia, pregado junto ao candeeiro, rompera a dizer:
— Ali! Ali!... vejo muito bem... Eles lá vão! Adeus! Coitadinhos...
— Que demónio está ela a bramar!? — exclamou, irritado e surpreso, o Manaio atirando longe o garfo e dando um murro na mesa.
Mas, sem o ouvir, a filha continuava, perante o silêncio pávido dos outros três, a avançar para o retrato numa pungente hipnose de terror, com o cabelo ruço voando em crispas de aflição, as mãos acolchetando o vácuo, os olhos brancos. E lastimava convictamente:
— São eles, são... E lá vão todos três... e nenhum deles volta!
— Mas eles quem?... — disse o pai com império.
— Ai a pobre da Ana, coitadinha!... — lamuriava ela, num profético alheamento. — O teu Esticado ficas sem ele! Lá vai...
— O quê!? Que raio diz ela?... — exclamou também, pondo-se de salto em pé, o Serafim, com a face e os grossos lábios lívidos de terror. — Querem ver que isto entende-se com os nossos irmãos presos!
— Santinha! — balbuciou a mãe, de piedade.
— Oh, longe vá o teu agoiro! — credulamente o Serafim tornava.
A mãe, des nos olhos, tinha ido carinhosamente deitar-lhe pelos ombros o tramposo xaile com que se cobria; enquanto, sem força para desarredar-se da mesa, a subjugada e viva figurinha do Contrapeso repetia em contraturas maquinais da expressão todos os gestos, momos e esgares da inculta pitonisa.
— Ora este estupor que me há de sempre estragar o comer! — rosnava entretanto o Manaio coçando ameaçador a gaforina.
— Deixa-a... que até é um pecado! — defendeu a mulher.
Mas o Manaio, com o olhar despedido rancorosamente à filha:
— Raios te partam!
— Dela tenha providencia Deus!
— Ou o diabo!
Agora a iluminada Chica, extaticamente, com as mãos juntas à frente do corpo retesando os braços longos, imobilizara-se, e de olhos sempre na tisnada gravara, como quem seguia de misteriosas peripécias o movimento, monologava um rosário de orações com os lábios enternecidos.
— Dá-me que cismar esta coisa! — murmurou abalado, de mão na testa, o Serafim.
— Parece que nos está a rezar os responsos... — acudiu o Manaio.
E numa religiosa compunção o Contrapeso:
— Está-me a ensinar o caminho...
A mãe chorava sempre, silenciosamente.
E no aterrado silêncio de todos quatro, daí a instantes, a Chica, sacudida num estremeção nevrótico, desandou a rodar, atabalhoada e abstrata outra vez, pelo acanhado recinto, agora a gritar e a correr, gemendo a espaços frases destacadas, numa voz que não era já deste mundo:
— Agarraram-nos e vocês deixaram-nos ir... tão cobardes uns comos outros! E os padres e os grandes ficam-se a rir... Ninguém sabe o que quer... Os bichos no mato são melhores!
— Até parece coisa do demo! Deus Nosso Senhor me perdoe... — dizia a mãe, estarrecida de pasmo, juntando as mãos.
O pai, muito pálido, num colérico arranco, ergueu-se a tomar o passo à filha; e num tom rude, apontando-lhe a enxerga, com os olhos chamejantes:
— Rapariga! Que me levas duas cervejas... Anda-me lá para dentro! Cala-te!
A Chica fitou-o com uma expressão idiota, e num rir de irreverencia, encolhendo os ombros, ladeou o molosso, continuou a correr. Foi quando, impetuosamente, cego de ira, o Manaio, indo-lhe na cola, breve a fisgou pela nuca, e projetando-a de arremesso para o canto:
— Ah, ele é isso?... Se eu já te disse aí!
Ao cair, a escanzelada criança rangeu oco, como um molho de ossos; e ao embate do esterno contra o soalho, um cavernar seco de tosse fê-la jorrar duas grossas lufadas de sangue.
Logo a mãe, logo o Contrapeso se abatiam lamuriantes sobre a vítima inconsciente daquela barbaridade intempestiva, — aquela em pragas de execração, esta em gemidos condoídos; e erguiam-lhe carinhosamente a cabeça, afagavam-na, limpavam o sangue da sua branca figura, hirta e imóvel que parecia uma defunta. O Serafim, dolorosamente embaçado, olhava as unhas, escorregando para a porta. E num violento acesso de dor o Manaio, tomado de um supersticioso receio, sinceramente arrependido, dobrava-se sobre o corpo inerte da filha também, aos murros na cabeça, vociferando:
— Raios parta minha vida!
E com o mais religioso respeito, delicadamente, tomou a Chica em peso e, a soluçar como uma criança, foi muito de manso acomoda-la na sua própria cama...
No domingo gordo, duas vezes fez o passeio lúgubre da ilha do Grilo ao alto de S. João, a singela carreta negra da Voz do Operário. Para levar, primeiro, a Chica da qual era voz corrente entre o povo que as brutalidades do pai tinham abreviado a existência; e depois, vitimada pela discrasia galopante do desgosto, a héctica e inconsolável Ana, com a filha mais nova, mortinha de inanição.
E quando se sumiu à quina do largo da Belavista o rapadinho caixão com este duplo despojo, então pode comovida a multidão ver sair da antiga habitação do Esticado, e movendo-se com esforço, tomar em direção oposta, a grossa mulher do Manaio, a desolada mãe da Chica, levando ao colo e beijocando, lavada em lágrimas, a Idazita, que engalhava dizendo-lhe com ternura:
— Anda comigo, anda comigo, filha! Foi um voto que eu fiz... Serás a minha companhia... Não chores, anjinho, eu serei tua mãe!
O Mateus seguiu escrupulosamente uma e outra ao cemitério, dizendo à beira das sepulturas sentidas palavras que de roda as mulheres sublinhavam com soluços; capitaneando doces ranchadas de crianças que foram juncar os dois humildes covais de flores. Depois, de ambas as vezes que um triste dever o obrigou a fazer o lúgubre caminho, também o Mateus aproveitou para ir cordialmente afervorando, na cruel evidenciação daqueles dois exemplos, as libertarias aspirações dos seus apaniguados; mostrando-lhes como, se eles se não resolvessem afinal a sacudir o jugo, era inevitável o aniquilamento exaustivo da sua raça, e sem esperança a sua servidão, o seu ladeiramento na miséria.
Mas no meio da triunfante progressão da sua obra, quebrando-lhe a iniciativa e invalidando-lhe o entusiasmo, a quando em quando um grave e profundo desgosto lhe pungia... Para esse empreendimento colossal não achava suficientemente batida a solidez estrutural da sua alma. Havia momentos em que a sensibilidade o atraiçoava. Insidioso o coração batia e abria brecha na fria impassibilidade do seu ânimo. Eram os nervos enleando-lhe o pensamento, enliçando-lhe a vontade. Mortificadamente a lembrança, o cuidado, o amor de Adriana assediavam-no com insistência, ao arrepio embora do seu desejo; vinham e travavam à generosa querença do seu ideal a limpidez rasante da trajetória. Temia pela sorte dela, Certo que a tenebrosa aventura em que tão empenhado andava, ele e os seus, constituía para essa divina e singular criatura, produto exceção de uma casta maldita, fatalmente um perigo... e este traço de piedade individual, amolecendo-o, chegava a alargar o seu pernicioso influxo até análogas considerações de ordem coletiva. Como se toda a sociedade fosse Adriana, nos seus momentos de volutuosa desfalencia já o rendido coração do Mateus queria poupar a sociedade! — e esta convicção trazia-o descontente.
Quantas vezes, de noite, ao chegar ele a casa em demanda de repouso, vindo da excitação enervante das associações secretas, todo vibrante ainda ao estimulo dos inflamados discursos que acabara de proferir, das homilias candentes que ouvira, do estrugir raivoso e insalubre da multidão, quantas vezes ele chegava e, mal fechava a porta sobre si e a sua alma se sentia isolada, que logo, como um vento de insânia, toda essa rebarbativa comoção se lhe varria para longe, e era agora de Adriana a grande figura branca que vinha carinhosa insinuar-se-lhe em todo o ser entronar-se-lhe no coração e num amavioso exclusivismo povoar o seu espirito! — Ele queria reagir... obstinava-se sinceramente em ver se conseguia afugentar esta dúlcida usurpação, este insidioso assalto, pela rememoração entusiasta e incessante, pela quente visionação material das suas mais recentes cenas e projetos de revolta. Mas sempre sem êxito... Essas suas tão conhecidas impressões obedeciam, sim, ao aflitivo apelo; vinham umas após outras, vagamente, recordações de datas, reconstruções de lugares, a bruta expressão dos cúmplices, a mímica patibular da comparsaria... mas tudo isto era frio, indeciso, efémero; desenhava-se um instante e logo se apagava, progressivamente reduzido, como, num final poeirento de batalha, o enovelamento instantâneo de um esquadrão que foge... E sobranceira e única, como uma imagem de altar, a dominadora figura de Adriana ficava sempre, a auspiciosa estrela do lugar, a imprescindível aza tutelar do solitário ninho, — firme e naturalmente desenhada com familiar império.
Mudava ele então, exasperado, de lugar, sacudia a cabeça, cerrava os olhos, agitava diante de si as mãos como a repelir qualquer objeto importuno; mas todos estes esforços saíam baldados contra um fenómeno cuja origem era toda interior... De sorte que, por fim, o Mateus resignava-se. Deixando a alma volutuosamente vogar ao delicioso embalo da emoção, procurava então, naquele religioso isolamento, no tabernáculo ideal do seu amor, avivar os traços da mulher singular que o prendera. E revia-os por trechos... ora o desesperava a irresistível expressão daqueles lábios enigmáticos, infixavelmente raros, intraduzivelmente lindos; ou voltava a sentir a ligeira pressão da mão dela no seu ombro, quando saltara a cavalo; ou era ainda a lembrança do toque nervoso do pé que tornava a acender-lhe uma impressão de calor nas pontas dos dedos... Depois, progressivamente renhindo na sua doce evocação, ainda o Mateus queria apreender melhor, fazer reviver ali, integra e completa diante de si, aquela figura prestigiosa. E porque o não conseguia, desesperava-se também... Não podia compreender como era que, revendo ele imediatamente, nas suas mais ínfimas particularidades, os traços fisionómicos, a figura inteira de qualquer conhecido, do primeiro indiferente que lhe lembrasse, — Jorge, o Azinhal, o Anacoreta, o João, o Serafim, — só não fosse capaz de reconstituir mentalmente, com a minúcia e nitidez que procurava, a única criatura que o interessava realmente, que humanamente ele amava! — Porque não se dava bem conta, quando afervorava nessa ardente evocação, da tímida perturbação da sua alma... A perda da serenidade empanava-lhe a limpidez da impressão. Não há meio de encarar fito o sol, ou de recortar no seu radioso deslumbramento a Divindade.
Entretanto, muito havia que o contramestre invariavelmente mantinha a linha de austera isenção, que a si mesmo se impusera, de não mais lhe falar, de a não tornar a ver. Penosa e arrastadamente, por vezes com toda a dolorosa aversão de um verdadeiro sacrifício, o certo é que continuara a furtar-se sempre a toda a fortuita aproximação com Adriana, sob qualquer pretexto que fosse; e desde essa vergonhosa cena do álbum que nunca mais a tornara a ver. Sentia-a vivendo ali perto tele, despreocupada, feliz, independente, — e isto lhe bastava... Porém, nesse fúnebre domingo gordo, ao entrar para a sua humilde casota, não teve mais mão em si, foi à janela do norte e abriu-a, no deliberado propósito de ensaiar se por um feliz acaso naquela marmórea sensaboria do Almargem não conseguiria avistar alguém... A vidraça da primeira sacada da esquerda estava, como quase sempre, fechada; mas na opulenta trepadeira que lhe fazia moldura e toldo, começava risonho a pintar o roxo aveludado e fresco das primeiras glicínias; e a caricia doirada do sol aquecia e alegrava as caliças seculares do palácio, como que beliscando-o de alentos novos. Então o Mateus sentiu-se também insensivelmente tomado desta comoção criadora, este ressurgimento primaveril que entrava de fazer palpitar num claro rejuvenescimento todo o mundo exterior. Uma epicúria beatitude, uma ansia de expansão deslaçava-lhe a alma... já dava razão à inércia extática do índio… e então, para se defender do perturbador veneno, cerrou num instante a janela e fugiu.
Foi ao tempo que começavam a demanda-lo os mais íntimos e graduados caudinhos da sua gente, conforme agora sempre aos dias de folga acontecia. Entre todos o primeiro, o arguto e incansável Fagulha, espécie de lugar-tenente improvisado ás suas múltiplas diligencias de conspirador e propagandista, o qual, à falta de melhor, centralizava todas as funções, desde simples ordenança e estafeta até ás de confidente, e por vezes de secretario; suprindo por uma grande perspicácia natural a sua carência infantil de ilustração, e a sua rudeza e canhestro feitio ingénito por uma ralé de dedicação inexcedível.
— Trazia-lhe a correspondência mais recente recebida na rua da Glória, cartas também das diretorias de alguns centros socialistas, e um recado urgente do Tranca-ruas para aparecer no dia seguinte em Alcântara, onde ele, á! Hora da noite, «havia de aproxima-lo das pessoas que sabia». Vieram ainda, o contramestre da Vidreira; com o Manoel António, e mais alguns considerados e temidos encarregados de várias oficinas, entre eles, pela primeira vez, o maior agitador de Alhandra, olheiro havia longos anos na Companhia Fabril. O Serafim trazia-lhe notícia de novas adesões. O Zanaga veio apresentar-lhe dois chefes de oficina de uma grande marcenaria, aos Olivais, que tinha fechado de repente, os quais, na aterradora previsão da fome, queriam não só oferecer ao Mateus os seus serviço, mas punham também à disposição de qualquer tentativa futura de movimento quantas garlopas, formões, machadinhas, serras, maços e mais ferramentas havia na fábrica.
Por fim, já sobre a tarde, veio também o João dos Unguentos, que, impaciente por dar vantajosa prova das suas habilidades, reclamava com intimativa a fórmula do explosivo. A sua inconsciência de charlatão era refrataria à consideração do dano. Nivelava pela mesma recreativa inocência dos seus elixires a odiosa preparação dessa grave droga homicida. A gostosa imposição do hábito e a envaidecida prosápia dos seus méritos furtavam-no ao criminoso e bárbaro alcance daquele desatino. Ficou pois sinceramente pesaroso quando o Mateus lhe disse que ainda não estava de posse do maravilhoso segredo. Instou muito com ele para que não largasse de mão o Gomes; depois, explicou com importância que até já tinha para as suas novas manipulações adaptado uma parte importante do laboratório. Betumara umas , das tinas, nivelara outras, pusera as torneiras a funcionar, e comprara e instalara junto à chaminé um maçarico. E, interrogado para quê? — não que ele tivera uma grande ideia! Ideia bem mais engenhosa e simples do que a complicação das latas do italiano... Para que era precisa tanta madureza?... Ele! Resolvi o problema muito melhor... Comprava-se uma porção de tinteiros, destes grandes, redondos, de zinco, atirava-se-lhes para dentro com a tal coisa, depois um pequeno taco, ligavam-se com arame soldado ao maçarico, e aí estava... Dava uma coisa superior!
E ali entreteve horas o João, esquecidamente, sempre que podia falando de si, entrando com picante interesse nas combinações, por momentos dementado também na assoladora vertigem de resoluções dos arruaceiros, de cujos tenebrosos planos aligeirava o peso trauteando em surdina as suas modinhas favoritas.
Quando chegou a casa, para jantar, era noite feita. E ali, mal subiu a escadaria e transpôs o alpendre da entrada, viu logo na primeira sala, arrumada de pachorra contra a secretária, a amasia, e junto delia a linha emaciada e esguia do Contrapesos amarfanhada esta sobre o banco, como adormecida, com os olhos mortais e pendentes num desalento os braços.
— Salve-as Deus! Boas noites! — disse afável o João, atirando com o chapéu para cima da mesa.
E logo, correndo a envolvê-lo, a virago, num sonoro beijo:
— Com efeito, juju! Cuidava que ficavas lá hoje...
— Vontadinha ao jantar, hein?... Pois também eu!
— Se te parece!
— Bem, pega então nesse candeeiro, vamos! — ordenou o trampolineiro, tomando já à esquerda, com rumo à cozinha; mas, atentando no Contrapeso: — E então esta pequena o que é que quer?
A amasia, benevolamente, sorriu; ele disse:
— Quer comer também?... Que venha!
— Agradecida... — balbuciou humildemente a arveloasita, erguendo-se, com as grandes pálpebras roxas em repregos de tristeza: — Não tenho vontade... eu saio já.
— Deixa-te de asneiras, rapariga! Graças a Deus, chega bem... Anda daí!
— Não vou, não, Sr. Joãozinho... — disse com delicada firmeza a predestinada criança; e numa inflexão singular acrescentou: — Eu já comi o que tinha a comer...
— Que quer ela dizer?... Esta agora! — perguntou para a amasia o João.
— Criancices! — explicou esta com maternal carinho.
— Bera, mas então, se não vens, despacha-te! Que o meu estomago não está para esperas.
Timorata e gravemente, o Contrapeso adiantou-se, estendeu ao João o braço direito, com um minúsculo retângulo de papel na mão.
— Isto que é?...
— O resto dos poses que fez favor de me dar.
— Ah, sim... e então? — disse com lascarinho interesse o João, colhendo o embrulho das mãos da rapariga.
— Não fizeram nada!
— Palavra?...
— Nem me aparece! Deixou-me!
— Vês?...
— É sorte minha, senhor!
— Ainda não é tarde... então?
— Isso lhe disse eu... — observou de inteligência a amasia do João.
Mas inflexivelmente a lograda amante do Ventura, afilando os grossos lábios, o que quer que fosse de doloroso e irrevogavelmente assente endurecendo-lhe a expressão:
— Ah, não, não... eu já devia esperar... isto são favas contadas! E a minha jura hei de cumpri-la!
— Ergueu ao alto os macerados olhos negros: — Minha querida Chica! Não esperarás muito por mim...
— Não estás boa de cabeça!
— Sabe? Eu ainda lhe misturei raspa das unhas dos pés... diz que é bom... mas foi o mesmo que nada! — E num desalento mortal, encolhendo os ombros: — Acabou-se!
— Acabou-se o quê?... Não me sejas idiota! — reprimendou com doçura a mulher do João, tomando o candeeiro de cima da mesa. — Homens há muitos.
— Com aquele nenhum! — murmurou num convicto ardor a rapariga.
— Então não querem ver?... Ora o fedelho!
— Tenho mais pensar que muita gente grande...
— Se todas as que ele enganou antes de ti fossem a fazer o mesmo...
— E então?...
— Não cabiam no céu!
— Podiam fazer parelha com as onze mil virgens... do outro lado! — disse o João lascarinamente.
Festejou a amasia por um grosso rir esta laracha equivoca, e com um maligno renovo de interesse, voltando a poisar o candeeiro, perguntou ao Contrapeso:
— Olha lá... e a Chica viste-a?
— Então não vi! Nem me quero lembrar... — disse logo a pequena, com uns olhos de espanto e um frio de palidez mortal a macerar-lhe a epiderme alva e translúcida.
— E tiveste animo?
— Eu nem sabia... Tinha lá estado a manhã toda e ninguém esperava aquela fatalidade tão cedo. Vai, à noite, na minha simplicidade, voltei... Nisto, entro, vejo-a morta de repente... a mãe a chorar para um lado, para o outro o pai a arrepelar-se... Ia-me dando uma coisa!
— Olha o milagre!
— Fugi logo e larguei por essa rua fora, a gritar... mas não sei o que é que eu tinha, que os pés escorregavam-me... parecia que me fugiam para ela. Era a pobre da Chica, era, coitadinha! A chamar-me... Eu bem na entendo... — E agora, entresilhando as mãos e erguendo ao alto numa supersticiosa fé os olhos amauróticos:
— Deixa estar!...
— Mau! Que tolice é essa?... Volta a asneira outra vez?
O Contrapeso com a melindrosa figurinha paresiada numa inflexibilidade de predestinada, num fatalismo de instinto, sorriu tristemente. O João considerava-a com respeito. A virago disse:
— Vê se pensas noutra coisa... Agora morrer por uma coisa tão trivial!
— Se eu não tenho gosto nenhum à vida!
— Uma rapariga nova!
— Também lhe garanto, — disse num ar de mistério o delicado pegulho. — Se o fizer deixo sinal... Sabem-no logo!
— Anda, meu pivete! Que te fecho à chave.
— Ou entrega-se à polícia! — confirmou o João, um pouco desconcertado.
— Bem me importava a mim isso! Queira eu... — disse obstinada a pequena. E com um estranho ar de decisão, tomando à porta, de braços pendentes e a oblonga cabeça desmanchada na sua habitual instabilidade: — Cada um é para o que nasceu!
— Mas então, se assim estás deixada do mundo, como é que andas em visitas? Que vieste aqui fazer?
— Era uma das obrigações do meu testamento, explicou singelamente, num sorriso crepuscular, a interpelada. — Vim trazer o que lhe devia.
O João trocou com a amasia um comiserativo olhar, enquanto no apreensivo ranilhar da testa lhe tremia pressagamente a gaforina.
— Bem e então agora, adeus!? — disse a pequena. — Muito boas noites... — Apertou a mão ao João, demoradamente, e depois, arrancando de ao pé dele, num mal contida suspiro e, com a falia ogre des, acrescentou afável, a derivar: — E então esse jantar, já passou a vontade?
— Vamos já a ele! — disse a amasia do João, tomando o candeeiro outra vez e seguindo atrás da rapariga.
— Mãezinha, adeus! — disse esta, pendurando-se-lhe amorável do pescoço.
— Espera, eu vou-te iluminar.
— Não! Não! Muito obrigada... — acudiu com estranha vivacidade o Contrapeso, sustando-lhe o passo. E nos grandes olhos faiscava-lhe uma aflitiva contrariedade. — Não é preciso!
— Ó filha, não me custa nada... podes cair.
— Não caio... Eu conheço bem a escada. Não quero! Já lhe disse, não é preciso.
— Que teima! Ao menos, só aqui da porta.
— Nem isso! Nada, não senhora... Olhe, com a sua licença... — E sempre com a mesma expressiva o inflexível firmeza, deitando mão â porta, que fechou na noite sobre si: — Adeus!
Mal a obstinada criança desapareceu, logo a amasia do João, distraída do incidente, voltava costas à porta e inquiria com interesse o homem:
— Então, trazes a coisa?
— Ainda não.
— Diabo! Para quando se guardam?...
— A culpa não é do Mateus, mas é que ainda lhe não deram a fórmula dos ingredientes.
— Vê lá no que te vais meter...
— Não é o que tu pensas, descansa.
— Pois sim, mas é que isto assim não tem jeito nenhum! — dizia a virago com dureza. — Há aí muito Sicativo para fazer, e por causa dessas lérias tomos tudo empatado.
— Tem paciência, mulher...
— A gente não pode star agora a perder tanto por causa das tintineiras de cada um!
— É para bem de todos, filha... deixa lá! — E com uns famintos olhos de piedade, direito à cozinha: — Se tu me desses de comer!
Tomaram então, mano a mano, os dois à calcinada porta da esquerda, enquanto ela ia interrogando:
— Que me dizes tu, hein? Ao desembaraço desta seresma?
— Na minha vida nunca assim vi...
— Estas raparigas de agora sempre são umas atordoadas!
— Desta tenho pena... — disse o João com sinceridade. E de repente, parando, assaltado por um funesto pressentimento: — Mas, espera! Tu sentiste-a sair?...
— Eu não.
— Eu também não dei fé... O portão não bateu!
— Isso é que a gente não fez reparo.
Mas apreensivo o João, parado sempre, já alheio ao jantar outra vez:
— Diabo! Não fosse ela fazer para aí alguma maluquice...
— Que maluquice querias tu que ela aqui fizesse?
— Ou deixasse o portão aberto...
— Isso sim!
— Homem... vai ver, vai ver!
— Tu não estás bom... a rapariga pegou-te a doença.
— Anda, mexe-te! Que senão vou eu! — com mandou o João com energia.
Intimidada pela imperativa atitude do amigo, resolveu-se ela afinal a tomar à porta; e em silêncio apalpou com o pé o lajedo e foi descendo com precaução a escada, levando cuidadosamente a mão esquerda em pala à frente do candeeiro. Sem bem saber-se dar fé porquê, também um vago receio agora a invadia. Recordava com inquietação as estranhas palavras da pequena, o seu ar triste e decidido, o seu obstinado empenho em sair só, e não achava para tamanha exaltação uma explicação plausível. E perante o seu ânimo suspeitoso e bronco a hipótese do suicídio adquiria foros de plausibilidade, formulava-se com terror... Chegada a baixo, ao pátio, tinha um caminhar incerto por entre os cacos e o lixo, em que a cada passo topava; e movia-se num supersticioso receio, como esperando ver de improviso surdir qualquer coisa sobrenatural, o espetro álgido da morte, da toalha lúgubre das sombras. Assim foi esquadrinhando timoratamente, a correr, ao longo dos muros, as portas de todas as lojas, até que, na outra extremidade, chegou junto ao portão que dava para a rua. — Tinha a tranqueta no seu lugar, estava muito bem fechado. Por ali não havia novidade... Mas que entretidos eles estavam, em cima, que o não tinham ouvido bater! — E agora já tranquila, retirava, quando, ao passar cerca do poço, ouviu ranger a cremalheira de ferro que corria na roldana. Teve um calafrio de susto, aproximou-se, e então viu, por um momento, a corrente sacudida num violento estremeção que vinha do interior, quem sabe se um sinistro estrebuchar de agonia... Aproximou-se mais, com os cabelos em pé, com as mãos de gelo, e mal se afirmou que rompia a gritar desapoderadamente:
— Ai, ó João! Meu João! Vem cá, depressa... acode! Que grande desgraça! Avia-te! Bem dizias tu... Traze uma corda, uma fateixa, uma escada… depressa! Valha-me Nossa Senhora!
Tinha ela visto os pequeninos chinelos do Contrapeso inexoravelmente alinhados na borda do poço.