Amanhã
Capítulo V · Neste mesmo domingo o Mateus tomara, logo…
Neste mesmo domingo o Mateus tomara, logo de manhã, lugar num carro da Lusitana, ao largo do Assucar, e viera apeirar-se no Terreiro do Paço. Tendo seguido depois ao longo de toda a rua do Oiro, de passeios desertos e lojas entaipadas como túmulos, costeou pelo lado oriental o Rossio e entrou na Avenida. Ia alheado e pensativo, por completo cego e indiferente à mesclada onda de grotescos que cruzavam com ele, — famílias graves recolhendo da missa de S. Domingos, burguesas aparatosas que iam ouvir a banda da municipal. Um nimbo de iluminada fé o encaminhava. A mesma nobre e querençosa altivez lhe firmava com arrogância os passos, lhe clareava o rosto num sorriso perenal de esperança.
Subiu a travessa da Glória e tomou logo, à direita, pela rua do mesmo nome, quase ao termo da qual enfiou rápido por um pátio de velho prédio, bafiento e imundo, com um sapateiro patibular ao lado. Atacou ligeiro a escura escada, muito sua familiar, parando só junto da cancela que na volta do terceiro para o último andar a interrompia. Aí bateu; alguém puxou de cima a corda da aldraba; ele subiu mais dois pequenos lanços; e estava agora numa pequenina sala de teto esmadrigado e paredes encardidas, com uma sacada abrindo para quintais. — Ressaltava bem pelintra a feição de desnuda república académica, providente refúgio aberto a boémios sem rumo e estudantes sem dinheiro. Completa ausência de ordem, de asseio, de conforto. O soalho, gosmento e negro, era inverosimilmente ortografado de grandes cabeças de pregos, altas e luzentes, e mosqueado por bastos eczemas de escarros, alternando com efidroses nojentas de nódoas; entre as tabuas ressequidas do teto rasgavam-se fendas amostrando trechos lineares do céu; e as paredes, os móveis, os alizares, as portas tinham uma cor pegajosa e triste, esta monótona cor inclassificável denotando a pátina ignóbil de longos anos acumulados de miséria, imundície e desmazelo. No que toca a mobília, apenas um canapé com uma tabua atravessada, desfavorável hipótese suprindo a total ausência da palhinha, um velho baú de coiro, e encostada à parede, ao lado da sacada, uma tosca mesa de pinho, de pranchas empenadas, tendo em cima um esbeiçado vaso de barro, servindo de peanha a um candeeiro de folha.
— Vivam, rapazes! — saudou familiarmente o Mateus, entrando.
— Olá, seu Mateus! — disse distraído, erguendo a cabeça de cima do livro que tinha sobre os joelhos, um rapazote esgrouvinhado e ruivacento, de luneta, que estava acocorado num dos extremos do canapé.
— Que diabo estás tu a ler?
— O Duchartre... É um sensaborão! Não me dá nada do que eu quero.
— Continuas então a ter grandes ideias?
— Imaginas lá!
— Á custa dos outros?...
— Ah, filho! Não... — repeliu com persuasiva intimativa o interpelado, erguendo-se, na pedantesca ameaça de alguma didática massada iminente.
Mas sem lhe dar maior atenção e adiantando-se trocista à janela, para um galhofeiro e airoso militar, loiro, de calças de lista encarnada e jaquetão de cheviote, que acenava com a mão para em frente, exclamava agora o Mateus:
— E este então a namorar?...
— Pudera! Vale mais namorar na realidade, que esquentar o cérebro com alucinações de hipotéticas revoltas... — contestou com sobranceria o aspirante, sem se voltar.
O Mateus adiantou-se mais, piscando o olho para o escanzelado míope, que avançara também, encostando-se à mesa, e retorquiu para o outro:
— Sim... com a diferença de que essa tua baboseira é tão ridícula, quanto a prossecução do meu ideal pode ser útil!
— Útil a quem e a quê?... — disse o militar. — Com a gente que frequentas?... Neste país?...
— Ó Valentim...
— Com apóstolos do teu jaez! Não é verdade, Baleizão?
No regalado desfrute deste prenúncio de rezinga, o censor imberbe do Duchartre atirara com o livro, e juntava de interesse as mãos, com um pique de calor no rosto macilento.
O Mateus disse com achincalhante piedade ao militar:
— Bem se vê que estás ajuramentado...
— Não tem nada pro caso!
— Ou tu não vestisses a libré de El-rei Nosso Senhor!
Desprevenidamente colhido pela afronta, o Valentim voltou-se de ímpeto, muito pálido, ameaçando :
— Vê como falas...
Sem se intimidar, o Mateus fitava firme o contendor, com o seu inflexível olhar sarcástico. Mas o Baleizão apressou-se a intervir:
— Não faças caso, rapaz... — aconselhou ele, muito suasivo, afagando as espaduas do Valentim com doçura. — Aquilo foi força de expressão... — E como a faces de nenhum dos adversários desenublasse: — Que diabo! Não vês que estava a brincar?
— Bem sei... — murmurou, um pouco aplacado, o militar. — Mas é que há coisas com que se não brinca! Tu compreendes... — E depois de uma pausa, voltando a encarar o Mateus, agora já, ao seu pesar, com um leve sorrisinho amorável. — O que tu precisavas...
O Mateus, de prometo serenado também, castigava comicamente o peito:
— Poenitet!
— Uns asnos afinal! é o que vocês são... — disse o garboso aspirante, de novo voltado à janela, com as costas para os dois e o olhar meigamente despedido longe. — Não sabem senão estragar a vida. Avassalados por esta corrosiva obsessão da ciência, desaproveitam o que aquela tem de bom, de belo... nascidos por condição num oásis e teimam estupidamente em se mirrar no deserto!
— Sempre assim foi... Assim é preciso. — para que tanto pensar, seus tansos?... Sentir, sentir primeiro... É o coração que alimenta o cérebro: cuidemos primeiro dele, amando... O mundo é um coração, — já lá disse o filósofo.
E num extenuante júbilo interior rompeu a recitar, inflamado, alegre, de mãos nos quadris e um galhardo sapatear sobre a soleira de pedra da sacada:
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa...
— Bom! Bom! Bom! — fez, rindo, o Mateus. — Estás cada vez mais incorrigivelmente lírico.
— Para não dizer: mais deploravelmente lamecha... — no mesmo tom emendou o Baleizão; e em voz baixa para o Mateus, de braço estendido janela fora: — Olha, olha...
No encardido terreiro de um pequeno quintal, em frente, vedado por alta grade de madeira, podrida caindo a trechos, deslocava-se em desencabrestadas correrias, pinchando, uivando, um exótico vulto de microcéfalo, rapaz dos seus vinte anos, desaprumado e grotesco, estiolada a face, a pequenina cabeça piramidal, e miseramente marcado todo o arcaboiço dos atróficos estigmas de um degenerado. Cabriolava à toa, num espinoteio infantil, nama atabalhoada fúria, respondendo-lhe os ecos familiares. Isto ao tempo em que das traseiras do prédio, por uma limosa escada de madeira, esfarpada, pingando escorrências verdes, ao mesmo quintal descia uma encantadora figurita de mulher, apenas núbil, em cabelo, saia escura, casaco claro cintado, derivando fácil pelos quadris impercetíveis, no rosto uma destas epidermes que dão claridade, avançando com melindre o sapatito branco. Caía-lhe o sedoso cabelo castanho, palhetado de oiro, ao longo do sulco dorsal numa trança opulenta, frisada na ponta e cingida por um grande laço negro. Baixava virginalmente as pálpebras, trazia nas mãos um livro aberto. Desceu docemente e veio com saboroso vagar roçando o seu fino perfil por junto à grade; trocando então furtivas miradas de ternura com o Valentim, a quem a arrebatadora aparição imobilizara, galvanizado e feliz, numa atitude de extática adoração, inflexos gravemente os cílios, as ardentes narinas rufiando, e numa instintiva ansia apreensora ao peitoril da varanda as mãos cingidas.
Prometia esta empolgadora atração eternizar-se, quando ao deliciado enleio o arrancou súbito um tamborinado e bárbaro ruido, que o fez estremecer... Fora um desalmado padeiro que, no saguão ao lado, chamava poios pombos, agitando com força no extremo do braço uma quarta cheia de milho. Era o sabido sinal. Ao impulso daquele convidativo sacolejar, desparzia-se uma chuva de contas de oiro, os loiros grãos saltavam, redopiavam, erguiam-se em repuxo, caíam; e de toda a parte em roda, — das claraboias, beirais, chaminés, das árvores, dos telhados, — crescia um sussurro quente, rompiam e fechavam-se macias revoadas, um trémulo bater de azas vinha e abatia-se palpitante sobre a fulva toalha de bagos dançando.
O Mateus e o Baleizão, também chocados do incidente, riam entretanto de troça perante o irritado confrangimento do Valentim. Muito mais porque agora, no quintal em frente, o patetinha, solicitado pelo ruido, viera colar à grade a face inexpressiva, com os olhos brancos pregados no militar gaguejava numa insistência idiota:
— Senhor, senhor... oh, senhor! Os dias agora são mais pequenos.
Mas no mesmo instante o Mateus tomava por uma pequena porta que fazia angulo com a janela, o com afetuosa familiaridade inquiria para dentro:
— O Gomes como está?
— Adeus, meu safado! — respondeu-lhe dali, voltando-se, de toalha nas mãos e com o busto nu à frente, um pequeno homem grisalho, de calças de linho cru, que acabara de regaladamente chapinhar numa bacia com água, banhando o seu belo torso de bronze, musculoso e refeito.
— Sempre ralaço você... — disse-lhe o Mateus. — A lavar-se a estas horas!
— Para o que tenho que fazer... — arrastou epicureamente o Gomes, enquanto passava com volúpia a toalha pela epiderme fumegante.
Ele tinha acabado de enxugar o rosto, de carvoadas feições de índio, enérgico e subtil. Pelo acobreado amojo do tórax, nos bíceps grossos e redondos, nas fartas regueifas de bistre da cintura, a água tremulava, apontava em pérolas, escorria em facetadas camarinhas miniaturando as coisas. Era grata de ver a tónica frescura daquele solido arcaboiço, rociado e forte. Parecia prospera garantia de saúde o tom cálido da sua tinta, a firme opulência do seu modelado; mas já o cabelo, a barba eram grisalhos, e em volta da íris uma aréola de nevoa, um círculo senil precoce, acusavam a acelerada ruina interior de uma existência minada de provações, incerteza e de fome. Com afetuosa simpatia, o Mateus mirava-o em silêncio. E ele, esfregando os braços:
— Meu rico, não tenho ambições parvas.
— Um modo cómodo esse de iludir a falta de coragem, de decisão.
— Deus nobis hcec otia fecit...
— Nós aqui estudamos, curamos de coisas sérias! — interveio, entrando também no quarto, o Baleizão.
E o Mateus para os dois, exasperado:
— Pois é! Por os homens de inteligência serena todos hoje uns indolentões como vocês, é que nada se faz, que a sociedade não avança um passo!
— E os decididos como tu o que é que fazem?
— Ora essa! Então tu não sabes? Ainda o queres mais claro?...
— Algum assassinato estúpido, algum atentado brutal...
— Que intimida sem melhorar, que destrói sem nada criar de novo...
— Lutamos, arriscamo-nos, damos tudo para os tornar felizes, a vocês e aos mais!
— O quê? Felizes?... Ah! Ah! Deixa-me rir... — disse o Gomes, de achincalho. — Ninguém trava o Desuno. Se a humanidade tivesse que esperar, para ver melhorada a sua condição, pela vossa ingénua terapêutica, estávamos aviados!
E, tendo vestido a camisa, o manso fatalista alisava agora com uns restos de velho pente o cabelo, em frente a um pequeno espelho pendurado na parede.
— Não dês corda a estes tipos, homem! — veio bradar então, muito exaltado, para o Mateus, um epilado homem verde que surdira da alcova ao fundo, rebarbativo e magro, de olhos chamejantes, rala a barba e o bigode na face glabra e iracunda. Tinha um chapéu mole muito enterrado na cabeça, descaindo à nuca, um xaile-manta pelos ombros, e esfregava nas mãos, grumosas de sabão, um trapo branco.
— Adeus, Azinhal! — saudou o Mateus.
— Destes maricas não fazes nada, desengana-te! — disse o recém-vindo. — Têm capilé nas veias. Acomodatícios, manhosos, nada há que os aqueça... nem as vergastadas insolentes com que a todo o momento lhes sarjam as faces e algemam o livre arbítrio esses despóticos mandões da terra. São mais refratários ao brio do que a argila ao fogo. Verdadeiras almas de batráquios, envergonham a incorrigível sinceridade, a pureza contumaz de crenças dos velhos como eu!
— Bom, aí vêm agora o outro maduro buzinar-nos os ouvidos e azedar-nos o almoço! — observou cético o Gomes, enquanto cofiava diante do espelho a barba messiânica.
Mas o Azinhal ripostou, de olhos sinistramente revoltos, com envenenada fúria:
— Pois não é isto?... Não anda aí todo o mundo a queixar-se? Pois vocês não sofrem, não padecemos, não protestamos todos contra este flagício causticante, enorme das iniquidades sociais?
— Muito bem! Muito bem! — apoiou regalado o Mateus; enquanto o Baleizão dava desdenhoso aos ombros e não largava o índio de sorrir.
— Pois não estão aí assim cada dia a ressaltar, bem reais, bem fumegantes, deste cadoz de ignomínias que é a sociedade humana, motivos que farte para absolver a redentora invenção de Orsini, para divinizar o ferro providencial de Ravailac?
— Ó Azinhal... Felizmente o governo civil é longe.
— Bem, não temos remédio senão entoar em coro o Ça ira... — disse em tom escarniqueiro o Gomes, que abotoara o colete, encostando depois, de braços cruzados, os rins contra e peitoril da janela, na complacente disposição de ouvir.
Mas implacavelmente o Azinhal, na sua libertaria raiva continuava sempre:
— Vocês veem... enquanto medra para aí tanto malandro com fortuna, enquanto as luxuosas equipagens dos sicofantas sem consciência, dos proxenetas sem vergonha impudicamente nos afrontam na Avenida, eu que sou sincero, eu que sou honesto, se quero aparecer na Escola com os colarinhos limpos, é isto… — estendia à frente a pequena tira de linho nas mãos molhadas, — tenho que os lavar!
E vingadoramente, perante o incrustável rir dos companheiros, estregava na concha dos dedos nodosos o amarfanhado retalho branco, irisado de espuma.
— Pois eu cá também, meus caros, — observou, apontando com o mavórcio buço à porta do quarto, o Valentim, — eu se quero andar na rua de modo a não dar nas vistas, tenho que usar luvas... na cama.
— O quê!? O que é que ele diz?...
— Tu na cama dás bailes?
— Palavra de honra! — insistiu, corando ligeiramente, o militar. — Até faz vergonha dize-lo... mas é que ali naquela minha pocilga as pulgas são tantas, que para eu poder ir receber o pret com as mãos limpas e sem levar o pescoço indecentemente picado de chupões roxos, já lhes disse... tenho todo o cuidadinho, à noite, quando me deito, em cingir um lenço bem apertado ao pescoço e calçar luvas de cinco botões! E assim durmo... e agora no inverno até dá muito a conta!
Todos riram, menos o Mateus, que, muito inflamado:
— Porque não te revoltas então? Porque não fazes coro connosco?
— Não fazemos nada! Não vale a pena, — murmurou o militar.
E resignado, desenvolto sapateando, voltou para a sacada.
— Que gentinha estai — exclamou, gázeo de raiva, o Azinhal. — Ah, mas também, deixa! Que no grande dia, quando essa suprema aurora, que a. A minha província, que já vos deu o alor do Desconhecido, vos há de também acender... quando a hora solene da desforra soar, eu serei o primeiro a aponta-los a vocês à irrisão, ao desprezo público!
— Não, não, menino! Isso não... — de troça o Baleizão acudiu. — Dá-me ao menos um lugar de contínuo.
— Ou varredor de ruas, vê lá... — acrescentou o Gomes.
Não se podendo agora ter que não risse, voltou para a sua atrabiliária alcova o Azinhal, torcendo a preceito o colarinho, que estendeu depois num barbante posto em bambinela a um canto, a enxugar. E para o Mateus, que entrara atrás dele:
— Tens aí correspondência, jornais...
— Já venho, — disse o Mateus.
E atravessou a todo o comprimento a mesma alcova, e assim penetrou num outro quarto em esconso, ainda mais interior.
Tinha o mais fantástico e extravagante aspeto. — Ali o teto, lezardento e rasteiro, com as cancerosas traves a nu, por um lado resvalava em forte declive a entestar com o sobrado, atapulhado o angulo de junção por enormes sarcomas de lixo; e do lado oposto apoiava num salitroso desvão de parede, rasgada por uma esguia fresta, quase linear, e tendo ao fundo encostado um raso enxergão sobre uma esteira. Depois, ao centro da exígua quadra, e do soalho ao teto complicadamente erguida, havia uma inextricável carpinteria, uma como que subtil missanga mecânica, estranha e inverosímil, composta de toda a sorte de feitios, linhas, espessuras, cores, tecida ao infinito de roldanas, alavancas, chumaços, cremalheiras, puas, fuzis, minúsculas anastomoses, ranhuras, carreteis, fios de seda... geringonça ideal a poder de tenuidade e capricho, de transcendentes combinações dinâmicas, eriçada de arestas como um monstro, como um abismo valeirada de mistérios, simultaneamente relógio e carrilhão, cavername de prédio e pré-histórico esqueleto, emaranhada fantasia japonista e esotérica evocação de pesadelo. Nos flancos palpitavam-lhe escamosos brilhos de metais, a parcimónia de luz do recinto dava uma fantasmática amplidão a toda a carapaça, multiplicava-lhe vagamente as formas. E tudo aquilo ao tempo se movia, tranquila, silenciosamente, numa solidariedade impecável, numa harmonia perfeita... as serrilhas engrenavam morosas, os dentes ajustavam leves, despegavam fáceis, passavam maciezas lúbricas, osculavam-se volutuosamente as curvas... e toda aquela estonteante profusão de melindrosas peças manobravam de manso e à socancra, num automatismo inteligente, sob a proteção discreta da penumbra, como os órgãos vivos de alguma submarina aparição, como se de indústria tocadas fossem por espertas mãos invisíveis; enquanto junto à bisarmal construção um homem esguio e pequenino, cingido estreito com ela, a vida toda nos olhos, seguia numa absorção total de todo o seu ser o movimento, empoleirado sobre uma escada portátil, abertos os dedos como tentáculos nos braços longos, apreensivo e grave, meditando.
— Olha o meu antigo quarto como está! — exclamou o Mateus, numa comoção de espanto.
E de cima da escada, voltando-se, o engenhoca:
— Ah, ó Mateus! és tu?...
— Adeus, Anacoreta!
— Tenho o problema quase resolvido, sabes?... — disse com iluminada fé o ignorado Pigmalião, poisando no alto do seu cavalete-escada o longo estilete de aço que empunhava, e logo descendo.
O Mateus sorria incrédulo.
— Palavra! Agora é que é certo, — disse o Anacoreta, avançando. E como abanasse a cabeça o Mateus em ar de dúvida. — Homem! Porque diabo é que não há de ser assim? Porque motivo a solução a esse arreliador problema do movimento contínuo se não há de alcançar um dia?
— Deixa-te de malucar em absurdos, emprega melhor o teu tempo. Isso é impossível!
— Não é tal! — exclamou, progressivamente enardecido, o engenhoso visionário. — Pois que razão há para que esta assombrosa invenção que é a mecânica, a qual teve o condão transcendente, o sumo poder sintético, único na ciência, de numa simples formula integrar toda a doutrina que lhe é própria, de resumir em três breves as leis gerais de todo o movimento cósmico, porque não há de ela também agora, caminhando um pouco finais, subtilizar-se até ao ponto de substituir parcialmente a Natureza?
Silencioso, o Mateus cravava impassivelmente no interlocutor os mansos olhos penetrantes, e o algodoado buço erguia-se-lhe num liso ar de piedade. Mas renitente o outro:
— A dificuldade, o segredo da coisa não consiste senão em anular por completo o efeito dos momentos de inércia. É a questão do Emc², sabes?... É mais um corolário a derivar do teorema de Alembert. Feito isto, tudo o mais, gravidade, reações latentes, variações térmicas, gasto molecular, o atrito do ambiente, não faz mal, anula-se, vence-se… não vale nada! Tudo isso se disciplina, conjuga e invariavelmente submete a um movimento uniforme, por uma adequada série de altas combinações dinâmicas... Olha! — E transportadamente, com a longa face inflamada e o pequenino busto reteso de formidando orgulho, apontava a bisarma piramidal, alucinada parturição do seu engenho. — Vês como esse maravilhoso organismo se regula, escorrega e manobra já por si, limpa e serenamente, como se tivesse também nervos, músculos, sangue, alma... como dotado de vida própria?... — Agora num indominável júbilo, rompendo de salto a espalmar com decidida convicção a concha da mão sobre o ombro contumazmente incrédulo do Mateus: — Ah, meu rico! O ponto está em conseguir acumular no mínimo da massa o máximo da energia potencial. Reduz-se um a zero se se eleva o outro ao infinito: isto é infalível! E eis o que eu estou no trilho de definitivamente conseguir, de triunfalmente apregoar ao mundo!... Vê tu que resultadão, que espanto, que fama, que glória!
Na desnorteadora antevisão do seu triunfo, como se fora já o consagrado alvo a algum delírio divinizador de apoteose, desandou ele então, grande, feliz, a saltar, a dançar, a rir, batendo palmas e com os olhos húmidos, de roda da sua mirabolante construção, que silenciosa e deslise no seu macio automatismo ia seguindo, com discretos brilhos de metais e gordos contatos.
Depois, num dado momento, outra vez triste diante do Mateus, e com a face estirada apreensivamente e bambo o busto de desânimo:
— Falta-me apenas uma coisa.,, tenho ali o desenho... Não é fácil! — E todo intimativo, batendo com as costas de uma das mãos na outra, muito chegado ao peito do amigo: — Tem de ser uma peça muito especial, percebes?... ao mesmo tempo balestilha e pião, meio roldana, meio alavanca... — Aqui gaguejava, a nebulosidade do pensamento travando-lhe a limpidez da expressão. — Uma coisa excessivamente ténue e absolutamente forte... Sim, eu sei bem como há de ser... Mas imaginas lá! São umas carruagens estes nossos artistas... Tenho corrido seca e meca, ninguém me entende, não tenho quem ma execute!
E embaraçado mexia ao acaso em várias peças de ferramenta que tinha numa pequena mesa, contra a parede.
— Ora espera... — disse-lhe naturalmente o Mateus. — Eu tenho lá no Almargem, na oficina de torneiro, um artífice bem hábil. Talvez esse...
— Parece-te?...
— Sim...
— Será capaz!?
— Explicando-lhe tu bem...
— Oh, isso seria ideal! — exclamou o Anacoreta, radiante, crescendo de esperança, para o Mateus. E tomava-lhe os pulsos com alma. — Vê tu, anda lá, ajuda-mo!
— Sim, filho, sim... já te disse... da melhor vontade.
— Faz-me isto, por quem és!
O Mateus furtou-se o melhor que pode à exoração, e ponderadamente:
— Mas espera, vamos por partes... — Depois acentuou: — também tenho que te pedir... São serviços mútuos.
— Então?...
Olhando cautelosamente de roda, o contramestre baixou de instinto a voz:
— Eu também pretendo de ti um alto, um singularíssimo favor! Nem vim cá para outra coisa!
— Homem! Diz lá... desembucha, — acudiu o outro, generoso. — Não peças tu dinheiro, que no mais estou ao teu dispor.
Cavido e solene, olhando a porta, como se usa era teatro, o ingénuo conspirador disse:
— Ouve lá... isto é segredo... tu és capaz de me fabricar um modelo de pequeno instrumento explosivo, assim como que uma bomba?...
— O quê!?
— Mas com tempos marcados, de sorte que se lhe possa com segurança regular o momento da explosão?
— Tu não estás em ti!
— Mau! És ou não és? — insistiu irritado o Mateus.
— Talvez… Isso é fácil.
— Vai então pensando na coisa...
— És doido! Mas para que serve isso?...
— Não é da tua conta!
— Queres-te desgraçar...
— E ele a dar-lhe!
— Bem, bem, — condescendeu afinal, vencido por aquela teimosia de aço, o lunático ideador. — Um dia destes por lá apareço. Estou ao teu dispor!
O Mateus, contente com a promessa, retorquiu:
— Olha, lá pelo meu homem respondo eu. É um portento, verás! Agora o que se quer é que me cor — respondas pela mesma forma.
— Não há duvida!
Ia efusivo o Mateus a agradecer-lhe, quando notando que o extravagante aparelho cessara de trabalhar, observou então, rindo de troça:
— Mas vê lá... toma sentido! Olha que eu quero obra mais perfeita que esta tua sublime engenhoca, hein?
— Porquê?... — exclamou indignado o Anacoreta.
Mas ao ver a imobilidade da sua obra, num solavanco de terror:
— Parado outra vez! — Correu perdido para o estrado, que escalou num relâmpago, e aos murros na cabeça, arrancando cabelo aos punhados, aflitivamente: — Eu endoideço! Isto dá-me cabo da vida!
Neste momento, assomou à porta única da baiuca a jacobina cabeça do Azinhal.
— Ouve lá, ó Mateus... quando estiveres farto desse maduro... eu tenho que te falar!
— Que é que temos? — acudiu prometo o franzino agitador, passando à alcova do iconoclasta e tomando-lhe com avidez o braço.
E misteriosamente o Azinhal:
— Então, quando vens à coisa?...
— Quando quiseres! — o Mateus logo aquiesceu. E com a voz cava de emoção, num recalcado jubilo: — Oh, filho, sabes lá! Estou contentíssimo... Parece-me que dei com a minha gente!
— Sim!? — fez o Azinhal, com os olhos em brasa.
— Aquilo agora em Marvila é outra loiça! Fazendo-lhes luz no caco, aquecendo-os bem...
— Conta connosco! A gente entra pela rua do Arsenal e sai pela travessa do Cotovelo... vais ver também a qualidade de tipos que ali se reúne. Magníficos auxiliares em todas as camadas, em todas as classes... até generais!
— Bem! Bem! — balbuciava o Mateus, esfregando as mãos.
— Toca a manobrar, hein? — vertia-lhe com veemência ao ouvido o outro. E tirando da gaveta da mesa um pequeno maço de cartas e jornais: — Toma!
— Ah, eu não descanso... Agora vou eu a Alcântara ver se convenço um sujeito...
Guardara a correspondência na algibeira interior do jaquetão e tinha passado, sempre com o Azinhal à ilharga, da alcova ao quarto da frente, na clara disposição de tomar à sala e partir. Porém, mal que o viu atravessar os seus domínios, disse-lhe convidativamente o Gomes, numa inflexão arrastada e meiga:
— Olha aqui, meu rapaz!
Ele estava molemente dobrado no chão, a um canto, entre a parede e a janela, vestido um casaco de linho, longo como uma túnica, de pernas traçadas, os cotovelos nas cochas, as mãos nas barbas; tinha na frente uma cadeira, com papéis garatujados de claves, ementas, cruzetas, fórmulas e um livro aberto; e do epicúrio lábio pendia-lhe o grosso rolo de um cachimbo enorme, o qual desdobrado, coleante e negro, em amplas roscas de reptil pelo soalho, ia por fim sumir-se longe na base do grande deposito piramidal, negro também, tarjado ainda de farpados restos de arabescos de prata e cobre, e sobre o qual estalava o tabaco entre carvões, dentro de um púcaro de barro capado.
Levemente contrariado, o Mateus parou. E manso o índio a insistir:
— Olha aqui, ouve!
— Querem ver que temos outra invenção?
— Tal qual! — confirmou o índio, erguendo ao interlocutor os olhos sonhadores, numa grande bonomia sorridente.
Então, vagamente interessados, tinham ido o Azinhal e o Mateus apoiar-se ao dorso da cadeira. E, muito fito para os dois, o Gomes, de lápis na mão sobre as notas soltas:
— Olha, lembrou-me isto ontem... e calha! — E após breve pausa, num sorriso envaidecido: — Estou a ver que é facílimo explicar aproximadamente pelas leis da química a derivação racional das línguas!
O Mateus e o Azinhal trocaram um escarninho olhar de dúvida. E suasivo o Gomes:
— Já vos disse!
Reavivou numa volutuosa inspiração as brasas do narguilé; um claro gorgolejo citolou na água do depósito; e logo ele, com as narinas e os lábios fumarando num regalo, de espaço continuava:
— Não há dúvida de que tanto num como noutro fenómeno temos a mesma ordem de afinidades, as mesmas leis íntimas de atração, a mesma seriação fatal e progressiva... Oiçam... O segredo da estrutura e derivação dos corpos orgânicos reside na atomicidade, não é assim?... pois também a morfologia secular da linguística procede na essência de uma como que atomicidade psicológica dos seus elementos naturais. Digo-vos eu!
— Não percebo nada! — exclamou o Mateus.
— És levado do diabo! — corroborou admirativo o Azinhal.
Mas bonacheiramente o Gomes, na antecipada radiação do seu triunfo:
— Ora vai-te bugiar... Queres ver?... — E traçava no papel chavetas complicadas. — Vocês sabem muito bem que hoje em dia as teorias linguísticas, dominantes ainda aqui há dez anos atrás, estão inteiramente postas de parte, por absurdas e pueris. Sim... nem o francês deriva do romano, nem o português do moçárabe, nem o latim do grego, nem o grego do sânscrito, pelo contrário, sânscrito, grego e latim procedem, paralela e simultaneamente, da mesma língua-mãe comum que deu igualmente origem aos idiomas iraniano, eslavo, germano, celta, hindu, etc... Isto não sou eu só que o digo... está assente, está escrito; é uma verdade definitivamente conquistada para a ciência. E como é que isto foi?... Aqui têm vocês, olhem... Entre a língua mãe indo-europeia e os grupos dela derivados foram sucessivamente operando-se, pela ação das migrações e dos climas, desdobramentos de outras céu! Tem então aqui assim a pátria, neste ignorado terceiro andar, um alfobre de génios?
— Ora essa! E porque não?...
— Capazes de transformar, de refundir, de criar de novo o mundo!
— Têm-se visto coisas mais extraordinárias.
— Que adorável prisma que é o dos 20 anos!
— E tu, não andas também com a tineta de salvar a humanidade?... Ora tem paciência, escuta cá... e diz-me depois se isto não é de razão? — Resignado, num vago interesse, o Mateus atirara-se, deslaçando os braços, para cima do álgido catre de ferro, no canto da janela oposto aquele onde pacífico o Gomes recaíra na sua beata imobilidade de faquir; e incansável o botânico, muito persuade-te, em cima dele: — Sabes que eu parto do princípio da unidade de substancia, formando ela só, total e universalmente, o mundo. De que natureza essa substancia seja é que eu não pretendo, não posso mesmo saber...
— Ou há de ser matéria ou espirito, — interveio o Azinhal, sentencioso.
O Baleizão riu de troça; e o furioso homem do xaile-manta, já com o olhar avinagrado:
— Tu ris?... Bem sabes que, segundo a filosofia, nenhuma outra substancia existe!
— O que eu sei, — contestou, segurando a luneta, o Baleizão, — é que, com licença tua e da tal senhora filosofia, isso é uma tremendíssima asneira!
— Ora o pedante!
— Já te disse! O tempo das abusões, das mistificações pueris da metafisica passou.
— Vais bem, rapaz! — aplaudiu lá do canto a Gomes, fazendo rouquenhar o fumo no cachimbo.
— Ora essa! Então no homem, por exemplo?... — obtemperou sereno o Mateus. — Vocês não admitem ao menos em nós essa dualidade de matéria e espirito?
— É verdade, no homem?-disse também o Azinhal, contumazmente incrédulo.
— Sim?... ides ver o absurdo! — contestou logo o Baleizão, num inabalável convencimento, sacudindo os braços. — Essas duas pretendidas substâncias são ou não são diametralmente heterogéneas?
— São...
— Portanto hão de fundamentalmente repelir-se! Não podem conservar-se unidas. Precisam para este efeito de uma outra substancia, intermedia. E qual há de ela ser?... Segundo a tal filosofia, essa argamassa essencial não pode deixar de ser matéria ou espirito, visto como, afora estas duas substâncias, nenhuma outra existe...
— Bem! Muito bem! — apoiava subtilmente o Gomes.
— Mas, neste caso, ser matéria e espirito ao mesmo tempo seria um absurdo; ser parte matéria e parte espirito não resolveria a dificuldade, porque ao seu turno precisaríamos, para unir essas duas partes, de um novo mediador.
— Mas então tu não distingues, por exemplo, a inteligência do instinto?
— Ora adeus! O instinto foi uma palavra inventada pela nossa vaidade para iludir a nossa ignorância. Temos conversado!
Ao estímulo espiritual do debate, viera o Gomes juntar-se ao grupo, tendo-se mansamente erguido também da sua dilucular toca surdira radioso o Anacoreta, com o esguio tronco a prumo sobre as pernas microscópicas; e já junto da cama, passando pela curva do braço do Azinhal a face estirada e rúbida, procurava fisgar a atenção do Mateus numa insistente mimica de triunfo. O Baleizão, vaidoso do auditório, continuava:
— Bem! Pois a rainha grande teoria é a seguinte: essa substância primária, única, essencial em tudo o que há criado, é que, pela manifestação gradual de um certo número de propriedades, a princípio latentes, vai dando origem à formação dos três chamados reinos da Natureza.
— Vamos a ver... — arrastou numa dúvida o Mateus.
— Em primeiro lugar, não esqueçam vocês que só pelas propriedades é que nós podemos conhecer um objeto qualquer. Mas, em rigor, essas tais propriedades vulgares, só por si, nada distinguem... Que me importa a mim que o chumbo pese mais do que o estanho, se todos os corpos são pesados? E que o metal seja melhor condutor elétrico que a madeira, se todos os corpos são elétricos?... Propriedades características são só aquelas que pertencem à matéria em geral, e que no princípio eu suponho existem, no estado latente, todas juntas nela, neutralizadas, ligadas por um certo número de forças em equilíbrio. — Depois, o desaparecimento de uma dessas forças irá sucessivamente dando origem ao desdobramento de uma propriedade. Eu me explico...
Uma laranja é pesada; contudo, enquanto ligada ao extremo do pedúnculo, ela não manifesta essa propriedade; apenas porém as células terminais do pedúnculo perdem com a vida, a força para reter a laranja, esta cai, manifestando então uma nova propriedade que vêm juntar-se ás de solida, rugosa, esférica, etc., que nós já lhe conhecíamos também um líquido, quando se evapora, passa a manifestar propriedades diferentes, ao dilatarem-se-lhe as moléculas pela ação do calor.
— Como diabo imaginaste tu?... — Tem a faísca o ladrão!
— Bem! Pois o que eu nestes dois exemplos vos mostrei de um modo grosseiro, é o que, ao meu ver, se passa na constituição íntima da primitiva substancia universal. Esta, tendo as suas moléculas agregadas de um certo modo para formarem o mineral, apresenta assim primeiro à nossa observação apenas as propriedades caraterísticas dos minerais, conservando as dos vegetais e animais latentes, depois esses minerais são absorvidos pelas raízes das plantas... as suas moléculas deslocam-se e como que se desdobram para deixarem a descoberto maiores porções de superfície... daí vêm um maior jogo de forças, que cessam, que se anulam, e, como consequência, novas propriedades rompem, formando-se o vegetal. Mais tarde, este é apreendido, deglutido, assimilado pelos animais; e aí temos nós então a mesma elementar e primária substância dando os fenómenos, já mais elevados, da sensibilidade, da inteligência e da vontade! Nada mais simples, creio eu.
— Bravo! Bravo! Muito bem! — aplaudiu com alma o Anacoreta, agitando o pequenino rosto herpético, flamante de entusiasmo.
— E já agora diz tudo, homem! — acudiu com intimativa o Gomes, avançando um passo. — Anda! Mostra que sabes tirar da tua bela teoria as últimas consequências...
Todos se voltaram de relance, num picante interesse, sem perceber. O Baleizão in ter rogava-o, num mudo espanto. Veio o Valentim espreitar à porta, mas logo fugiu... E solenemente o índio, cruzando as fartas abas da túnica sobre o peito, e um iluminado olhar de fé no rosto acobreado:
— Essa substancia única, sim! Irá por uma sério de evoluções progressivas desdobrando cada vez mais numerosas e mais nobres propriedades... aperfeiçoar-se-á indefinida, eternamente, por esses mundos fora... a Terra é um dos seus estádios. Porque as ideias de princípio e fim, de tempo e espaço são mesquinhas conceções, artificiais e contingentes, da nossa mera invenção; com o homem nasceram, com o homem hão de morrer! Enquanto que a perenal transformação, o indefinido afinamento da substancia primitiva, oh! Esse seguirá por todos os séculos dos séculos, ininterrupta, invariavelmente, em demanda da absoluta perfeição... — E aqui, espiritualmente, como que transfigurado, alando para o céu os grandes olhos transcendentes: — Neste globo que habitamos, o mineral, o vegetal e o animal são os efémeros laboratórios dessa misteriosa evolução essencial; ela vêm já anteriormente de um qualquer mundo, inferior ao nosso; e daqui a porção de substância, suscetível de aperfeiçoar-se, passa, no estado a que nós chamamos alma, a continuar a sua transformação incessante num mundo mais perfeito; peio contrário, a porção que ainda se não achou ata para atingir esse afinamento, é novamente por meio da Morte devolvida à terra.
Cavaram um admirativo silêncio estas sibilinas palavras, vertidas devagar. Mas, despeitado, o Baleizão:
— É muito bonito isso, mas não vêm nada pro caso!
— Sim... — disse também o Mateus, — não fujamos do assunto.
— Ora a minha questão é esta, — volveu o outro: — não existe ainda hoje em botânica, vergonha é dize-lo! Uma classificação verdadeiramente digna do nome de natural. E isto por um motivo muito simples... porque para origem de um trabalho dessa ordem ainda se não tomou a única base verdadeira, logica, — a sensibilidade.
— Então para ti os vegetais sentem?
— Evidentemente! Menos que os animais, mas sentem.
— Porquê?... Lá vêm o exemplo da sensitiva, querem ver?
— Não é só esse!
— Tudo meros fenómenos de irritabilidade mecânica... Que valor tem isso?
— Não há tal!... Lê o Fechner, lê os trabalhos do Dr. Hooker sobre as plantas carnívoras... Ora esta! Que sensibilidade queres tu mais evidente, mais viva, mais bem definida do que os movimentos das sarracénias, das nepentes... e essa admirável função, que Rot observou, da drósera rotundifólia a qual apreende, digere, escolhe os insetos, e sabe muito bem repelir as substâncias minerais que lhe vertermos na corola?
— Conhece-as, hein?
— Ninguém a enganai — confirmou o Baleizão. — E as clematis, as cefalotos, a oxalis sensitiva e algumas solâneas?... E a dionwa muscipula, que tem contrações exatamente análogas ás dos músculos dos animais?
— Apre! Que sabe muito, — disse esfregando as mãos, o Azinhal.
— Tenho estudado, tenho... Ora, dado então que os vegetais são capazes de fenómenos sensoriais, onde localiza-los?... Naturalmente, e procedendo por simetria com o que se dá no reino animal, a sua sede é a medula!-Abriram-se nos ouvintes esgares de dúvida. — A medula, sim! Formando sistema com os raios medulares e esses tenuissimos filamentos celulares que, no interior dos feixes fibrovasculares, se espalham por toda a planta, transmitindo à periferia as sensações.
— O que aí vai! Isto é que é inventar!
— Precisas, para provar essa coisa, de proceder primeiro a largos estudos de anatomia comparada...
— Bem sei... não me dão novidade nenhuma! Ainda assim, olhai lá: Dutrochet provou há pouco que a irritabilidade se transmite ás folhas por meio dos feixes fibrovasculares que formam o interior do pecíolo, percebem vocês?... e também, segundo os estudos microscópicos de Meien, Brucke e J. Sachs, está averiguado que os pequenos inchaços celulares, próximos da base das folhas, os transmissores, repito, da função de irritabilidade, têm uma disposição em cordões centrais e células alongadas, perfeitamente comparável aos gânglios do sistema nervoso animal!
— Com efeito! — era agora o Anacoreta que ingénuo exclamava.
— Que mais quero eu?... Além disso, notem bem! Uma incisão feita no caule de uma planta, se profundou até à medula, causa-lhe fatalmente a morte.
— Também não sabia...
— É isto! Não há dúvida... As modificações do sistema nervoso são as melhores bases de classificação, tanto para os animais como para os vegetais. E então que é admirável, flagrantíssima, completa a correspondência das principais alterações na forma e aspeto da medula, não só com as três grandes divisões do reino vegetal, mas também com as correspondentes na escala zoológica! E senão, vejam... A medula, tão bem localizada, das dicotiledóneas aproxima-se perfeitamente da espinal-medula dos vertebrados; já nas monocotileas a mesma medula, um pouco mais difusa, se aparenta com o sistema nervoso, um pouco menos distinto também, dos articulados; analogamente as plantas de colmo são, na escala descendente da organização, comparáveis aos moluscos; e, finalmente, as acotiledónea têm como naturais afins os radiários.
— Exato! Mas é admirável... é perfeito!
— Aqui têm pois vocês, em resumo, as bases de uma classificação bem mais logica e natural do que quantas aí há conhecidas, de Lineu a De Candole... e tendo a vantagem de se fundar em cara-teres análogos aos das magníficas ideias, ainda hoje em pé, de Cuvier! É isto... Reino vegetal, quatro grupos: plantas de caule, plantas de estipe, plantas de colmo, plantas amorfas; e no reino animal, correspondentes: animais vertebrados, articulados, moluscos e radiários... Tenho dito!
— Bravo! Bravo! Eureka! Muito bem!
— Acabou a massada... bravo! — rompeu também, mesmo da varanda, o Valentim.
Uma entusiástica salva de palmas troou; e logo no mesmo instante, ao fulgurante exemplo do Mateus, todos os mais disputavam aquele glorioso génio in herbis ao carinhoso furor dos seus amplexos. Isto no meio de um tão descomposto e forte ingranzéu, que até no quintal em frente o assaralhopado idiota, vibrando em uníssono com a berrata, desandou a cabriolar também e a ganir com fúria.
Mas uma doce voz feminina veio à porta do quarto dizer:
— Meninos! Venham jantar.
E logo, muito terna, ao descortinar a visita:
— Ai, o senhor Mateus por cá!
Com o que a doce velhinha, de olhos tão claros como a sua vida, de cabelos tão alvos como a sua alma, acarinhava familiarmente, num sincero júbilo, os ombros suaves do rapaz, convidando:
— Jante também!
— Não, vou-me embora... Obrigado!
— Janta connosco, homem! — insistiu o Anacoreta.
— Sopinha, carne de porco, uns carapaus... é o que há, — explicou a dona da casa, afetuosa. — Mas dado de vontade!
— Não, não...
— Anda... e pagas o vinho... — disse o Gomes, de malicia.
— Vou-me embora, tenho que fazer... E levo a cabeça doida, de tanta ciência!
Então, rapidamente, o Mateus desembaraçou-se e cortou rápido a sala, direito à escada; enquanto, de um lado, o Baleizão e o Gomes chegavam o canapé à mesa, para terem em que se sentar; do outro, o Azinhal e o Anacoreta faziam o mesmo ao baú; e, arredando finalmente da varanda, o militar se dobrava para em frente num gesto de quem oferecia de comer; o que fez com que o pobre tarouco do quintal voltasse, estimulado, ao estribilho daquele dia:
— Oh, senhor, senhor... os dias agora são mais pequenos.