Amanhã
Capítulo XX · Aproximava-se entretanto a celebração do centenário de…
Aproximava-se entretanto a celebração do centenário de Santo António, o qual, nas condições especiais em que ia ser realizado, representava um desafio irritante ao sentimento público; tanto mais insolente e ousado quanto se sentia forte com a cumplicidade tacita do poder. Averiguava-se com efeito que o governo, por cobardia, por imposição superior, ou por um mal compreendido interesse, dera carta branca à reação para desdobrar a aparatosa afirmação da sua força. E isto inquietava progressivamente os ânimos; cada um receosamente pressentia a aproximação do que quer que fosse de funesto e inevitável. Ninguém se sentia bem, ninguém se julgava seguro. Numa crescente exacerbação também, os jornais continuavam a tocar a rebate; e agora não já só os mais avançados, como os moderados e os, independentes, aqueles mesmos que dentro da sua ortodoxia monárquica não podiam furtar-se ao exame severo, e à convicta reprovação portanto, deste vento de insânia, desta nuvem de ameaça tão imprudentemente amontoada entre o paço de S. Vicente e a rua do Quelhas.
Daqui um mal-estar montante, uma sobrexcitação dos espíritos, um secreto alarme nas consciências, cujo alastrador incêndio poderia bem logicamente resolver-se numa deflagração geral. Porque por toda essa cidade fora, mas com especialidade nos bairros centrais, o povo estava assistindo, numa latente comoção de revolta, ao caprichoso adulterar das coisas, a pejamentos e demasias de ornamentação, por vezes grotescas, a um como que delírio de peralvilhismo canónico, a uma fúria decorativa que sem ordem, sem gosto e sem medida ia deturpando e estragando ao seu bel-prazer praças, fontes, jardins, templos, palácios e monumentos. Era por toda a parte, como não havia memória, uma sem-cerimónia pedante, um acatitamento beato obstruindo passagens, rebuçando estátuas, carregando fachadas e desfigurando com apostólicos aleijões as principais linhas arquitetónicas da cidade. A Praça do Comercio estava convertida num arraial. Em promíscua confusão uma partida de operários da camara andava-lhe esburacando o piso, para o crivar de prumos pelintras, de pinho em esquadria, improvisado esqueleto a barraquinhas e bazares de corte de feira, cujos balcões hipócritas serviriam de montra e chamariz ao beatério elegante, em três noites seguidas de função também, ao centro, tinham amesquinhado a estatua equestre, como que afundando-a numa escarpa de lenha verde, rodeando-a por um circulo perfeito de sem-sabores e enormes barracões, elevados a tal altura que pudessem mascarar por completo o medalhão odiado do Marquês de Pombal. As graciosas colunas, o soberbo grupo terminal do Arco de triunfo, estavam sendo estrangulados por abomináveis espiras de chumbo, com furos. E dos vãos das arcarias em volta pendiam profusamente tigelinhas e lampiões de importação, lanternas nostálgicas, exóticos poliedros, alguns descomunais, de um feitio extravagante e aqui deslocado, refrangendo policromias complicadas que com a desproporção das suas formas e o seu patente ar industrial ainda mais ajudavam a perturbar a euritmia impecável e a clássica nobreza do recinto.
No roais, em toda a Baixa, era por toda a parte a mesma fúria desorganizadora, a mesma tonsurada ausência de critério. A cada esquina havia um coreto, a cada passo se esbarrava com um tapume. Tuneis banais, também de chumbo, começavam de arredondar-se sobre as ruas principais, entremeadas as respetivas colunas pelos sabidos plintos de lona suportando, em mastros cambos, tramposos farrapos bicolores e escudetes de papelão. Nas fontes do Rossio, postas a seco e atravancadas de estranhas maquinetas, iam ser ensaiados inéditos efeitos luminosos. No teatro de D. Maria o camartelo dos armadores fazia em lascas os mármores, que caíam na rua como neve. E em tudo o mais assim: uma inestética desordem, uma assolação completa. Era como que uma cidade de fancaria improvisada sobre a outra. Não se viam por toda a parte senão andaimes e destroços. As correntes do movimento, os ruídos habituais das ruas perdiam-se, totalmente dominados pelo estrugido daquele caboucar insano, a ressonância do pregar das madeiras e o frio golpe das picaretas. E a sujeição pelo chumbo, a imposição do entusiasmo canalisado, era avassaladora e completa. Para onde quer que a multidão desviasse, numa sincera ansia de repouso, a vista, lá deparava sempre implacavelmente com a mesma curva inquisitorial, crescendo e desdobrando sobre a lisa alvura dos mármores a sua teia negra, ora eriçada de pontas como a gargalheira de um molosso, ora abrindo direita aos lados como uma estola. Graças à sumaria intervenção da autoridade militar, apenas o obelisco da praça dos Restauradores escapou à aplicação vandálica do aparelho.
O Mateus seguia de perto o delírio arrogante dos ultramontanos e rejubilava. Bem conhecia ele que todas essas manobras de estúpida regressão ao passado vinham de molde a estimular o libertário fermento da sua ideia. Nem ele contara com esta providencial colaboração. Tão providencial e tão valente que ia até faze-lo antecipar a formidável execução do seu plano.
Este era muito simples. Deixara-lhe dele o gérmen no cérebro a incendiária visita do belga Bazeleerts. Tinha de ser um assalto em massa à cidade, empreendido com alma por todos aqueles a quem fazia o sangue negro esta odiosa organização social, a desigualdade intolerável das castas e as abusões tirânicas do poder. A Bazeleerts continuara o Mateus a comunicar periodicamente o andamento das suas resoluções, a solidez e o progresso da sua propaganda, a disciplinada coragem e submissão da sua gente; e tele paralelamente recebia, não só constante lição, conselho e estimulo, como também algumas quantiosas subvenções em dinheiro, religiosamente aplicadas pelo contramestre à sua obra messiânica de redenção e de igualdade.
Para mais, o elemento obrigado de cooperação nesta espécie de revoltas, — o indispensável e misterioso explosivo, — estava achado. Andava-o fabricando alegremente o João dos Unguentos mala amasia, naquela sua recreativa inconsciência de charlatão de fama. Porque o alquimista Gomes cumpriu enfim a sua promessa. Aconselhara ao seu amigo Mateus, como devendo sair formidável para os requeridos efeitos destruidores do seu plano, o picrato de amónio, tratado pela nitromanite. E explicara: — que seria mais corriqueiro e mais fácil de obter o picrato de potássio; andava a fórmula e a preparação dele nos livros; mas este, em virtude de um excesso de carbonato de potássio que ficava por decompor, tinha um poder de expansão relativamente fraco; e além disso era muito sensível ao choque, perigoso portanto de manusear. O picrato de amónio, não; tinha uma composição mais estável, não detonava tão facilmente. Subsistia com este também a mesma deficiência relativa de força explosiva, a qual era, ainda assim, muito superior à da dinamite; mas, oxigenando-o por meio da nitromanite, não se imaginava! Devia obter-se um produto de energia explosiva enorme... Por cada molécula de picrato, nada menos que uma molécula mais de oxigénio; enquanto os outros compostos análogos não davam senão meia molécula. Devia ser uma coisa terrível! — Foi o que o Mateus escolheu.
Depois, juntas com estas explicações teóricas, o Gomes forneceu também ao amigo as mais minuciosas instruções sobre a escolha dos reagentes a empregar, o modo de os pôr em contato, de os combinar e unir; mais os indispensáveis pormenores sobre os aparelhos, as reações, as lavagens, a secagem, a pressão, a temperatura. E tudo isto se estava agora secretamente manipulando, naquele casarão extravagante do alto de Marvila, com um grande esmero de execução, e um confiado e ardente afinco ao trabalho.
Sucedeu também que, por esta ocasião, a Bandeirinha , que, por sugestão do Mateus, havia em tempo solicitado admissão na fábrica de cartuchame, em Braço de Prata, recebia aviso para se apresentar ali. Agora, na fábrica, passara a ser desempenhado por mulheres o serviço tanto da pesagem das cargas, como do carregamento das capsulas e cartuchos. Por isso, maquiavelicamente, o Mateus pensara em fazer lá admitir uma criatura que lhe fosse bem dedicada e se prestasse a uma traição. Um assalto com êxito, no momento oportuno, àquela casa, fá-los-ia senhores de uma porção considerável de magníficas munições.
Veio pois a Bandeirinha, uma tarde, ao escritório mesmo do Almargem, agradecer-lhe; e muito viva, entrando de rompante:
— Ó Sr. Mateus, sabe?... Muito “agardecida”... Até que era fim!
— Então?...
— Lá estou admitida em Braço de Prata.
— Sim l? — exclamou de salto o Mateus, com um calor de alvoroço a afoguear-lhe a face, arregalando os olhos.
— É verdade... Desde ontem.
— E então?... — voltou com interesse o contramestre.
— Ai, aquilo é muito bom! é um serviço reinadio... Eu gosto muito!
— Ainda bem!
— Trabalha a gente com balancinhas. Já me lembra as casas de prego...
Na inflamada antevisão do seu triunfo, o Mateus nem a ouvia.
— E depois, — continuava ela, — “intés” que o salario é fraco, mas trabalhando por empreitada, posso fazer os meus seis tostões por dia. Estou que nem uma fidalga!
E batia palmas, de contente.
— Eu não te dizia?...
— O Sr. Mateus é o meu anjo da guarda! — continuava a toleta, muito mocanqueira e doce, aproximando-se. — Bem mo dizia uma voz cá dentro... aqui! — Espalmava a mão sobre o peito, com os olhos húmidos; e depois, com ternura e decisão, avançando o busto: — Deixe-me lhe beijar as mãos!
— Estás doida! — repeliu Mateus com frieza. — Acomoda-te...
Depois, quando a viu arredada e humilde, os braços longos, nas pálpebras paradas um peso de tristeza:
— És-me então muito grata?
— Não lho disse já?...
— Muito dedicada? — para vida e para morte, Sr. Mateus!
— E queres-me dar uma prova?
— É só mandar!
— Pois bem... Ouve! — E compenetradamente, tendo-se levantado, e muito próximo da ouvido da rapariga, que abria uns grandes olhos curiosos, quase de susto, continuou, baixando a voz: — Escuta... A fábrica naturalmente tem um portão... bem solido, tal vez chapeado?
— Ele muito forte não é... Mas tem lá sempre um guarda.
Os músculos faciais do contramestre traíram uma contrariedade. Ela aclarou:
— Agora pelas traseiras é que há outra porta, sem ninguém, e um cercado grande, uma espécie de quintal... com um muro.
— Muito alto?....
— Isso sim! — disse a Bandeirinha com intimativa. — Salva-se bem., e é uma casquinha de noz.
— Muito bem! — exclamou o contramestre, num intenso júbilo; e com grave entonação outra vez, olhando cauto em roda: — Ora sabes o que eu quero, o que eu exijo de ti... com o maior segredo?... Que me tragas o molde em cera da fechadura dessa porta.
— Só isso?...
— Já não é pouco! Fazes-me isto?
— Ó Sr. Mateus, que duvida! Está servido.
— Mas toma conta como fazes isso... Que ninguém suspeite, nem por sombras!
— Ah, esteja descansado, meu rico. Então quem sou eu?... — E com um acento inteligente, em admirativa atitude diante do contramestre: — Mas que grande ideia! Sim senhor... Sempre se me saiu um espertalhão!
— Muita cautela com a língua, toma conta!
— Isso é dos livros.
— Bem e então, adeus! Fazes-me isto, sim?...
— Ai, pelo meu rico menino, o que é que eu não faria por ele!
E cravando no contramestre os pequeninos olhos impudentes, a Bandeirinha num suspiro guloso, voltou costas e afastou-se a correr.
Conheceu então o Mateus que o tempo apertava, e incansavelmente prosseguiu na execução do seu grande e generoso ideal. Os quinze dias da celebração do centenário vinham próximos, o proletariado estava disposto a tudo, um terror latente abalava as consciências e cavava insónias na perturbada pacatez da população da cidade; de sorte que era este por excelência o momento asado para procurar subjuga-la, levando rápido de vencida qualquer timorata resistência, e subvertendo assim de improviso a organização social e refundindo cerce a ordem das coisas. Para mais, o Diretório republicano, deixando toda a liberdade de ação aos correligionários, abstivera-se também os principais chefes socialistas, avessos a soluções violentas, se tinham retraído, recomendando entretanto aos seus numerosos e bem organizados centros que secundassem, quanto em si coubesse, o movimento acrata. Portanto o Mateus via agora, por último, inesperada o providencialmente, o fio de todo o poder de resistência e revolta do país, inteiramente na sua mão; ele ia ser, de tudo quanto viesse a empreender-se, o mandante absoluto, o supremo e essencial inspirador. E este íntimo convencimento, a nítida noção da tremenda responsabilidade, longe de o acobardar, temperava a sua alma de aço de energias novas, iluminava-lhe o espirito de uma alegria infinita.
O seu favorito centro de operações passara a ser certa drogaria do Pote das Almas, com a pequenina porta, lambuzada a cores relumbrantes, afrontando, mesmo em frente, a Boa Hora. Pois nas traseiras dessa anonima lojita todas as noites se conspirava; aí vinha o contramestre, por escala, passar as suas instruções ao negro e imenso bando que comandava; convocando-os fragmentariamente, expondo a cada grupo, a cada classe apenas o papel que no grande dia lhes incumbiria; mas da síntese e carater geral do seu plano guardando ciosamente o segredo.
Ele tinha com efeito concebido, de colaboração com o Azinhal, um vasto e hábil plano estratégico.
— O assalto, é claro, seria dado alta noite, e tinha de ser simultâneo, cingindo e afogando no mesmo decisivo instante, dentro da sua gargalheira implacável, a desprevenida inação de toda a cidade. Caminharia o ataque, ao mesmo tempo, por cinco zonas ou setores. O primeiro, mais oriental, ao longo do rio, teria por guarnição o formigueiro enorme de operários que labutavam entre Braço de Prata e o Beato, e a sua missão consistiria era apoderarem-se de todos os estabelecimentos oficias que por ali marginam o Tejo, o quartel de artilheria, o Arsenal, a Alfândega, o Terreiro do Paço. O segundo setor teria a sua concentração em Chelas, para marchar daí, pelo alto de S. João, a tomar o castelo de S. Jorge. O terceiro setor, reunindo os revoltosos do Areeiro para o sul, por Sete Castelos, até ao alto do Pina, entraria simultaneamente pelas portas do Poço dos Mouros e da Penha, ocupando esta altura, o Monte, a Graça e toda a linha de contrafortes que limitam por este lado a cidade. Uma quarta zona conglobaria, junto do Arco do Cego, toda a população fabril do Campo Grande, para marchar sobre Vai do Pereiro e a Baixa. Finalmente, a quinta zona, abrangendo Campolide, terras do Seabra e Fonte Santa, estava a cargo dos revoltosos de Alcântara, e incumbia-lhe, entre outras coisas, arrasar o colégio de Campolide e opor uma barreira aos socorros que tentassem vir de Belém e da Ajuda.
E tinha o Mateus matematicamente contados e marcados sobre a carta, não só os pontos de concentração para as diferentes frações, e os caminhos que tinham de seguir, como as suas horas de partida, para entrarem depois todas em ação ao mesmo tempo. Nessa grande noite do assalto, — que ainda estava por fixar, — ele postar-se-ia no mirante ameiado que coroava o parque do Almargem, onde receberia comunicação da chegada dos diferentes grupos aos pontos designados. Os que vinham de mais longe eram os do primeiro e quarto setor, que tinham de concentrar-se, respetivamente, a 2 e a 3 quilómetros da estrada da circunvalação. Esperaria pois pela participação destes; mas também, apenas a recebesse, quarenta minutos depois eles estavam ás portas. Podia dar o sinal para o assalto.
Este sinal seria provavelmente uma girandola de foguetes, de cor convencional, deitada pelo mesmo Mateus, do mirante do Almargem. Era, para de noite, o sinal mais aparente; e era o que, naquela quadra de festas, despertaria menos suspeitas. Do Almargem, o sinal seria bem visto do alto da Bela Vista, que o transmitiria por meio de nova girandola, para oeste, ao alto de S. João. Daqui, do terreiro ao lado do cemitério, nova girandola subiria logo, que seria aviso bastante de avanço, não só para a quinta do Armador, ao norte de Chelas, na secunda zona, mas também, já na terceira, para a Penha, quinta do Manique e alto do Pina, aliás todos pontos visíveis dali. Finalmente, a estação da Penha repetiria o sinal para as Picoas e Campolide; e Campolide para Estrangeira de Cima, já ao norte de Alcântara. — Por esta forma, e não havendo indecisões nem falhas, o formidável assalto a todos os pontos da cidade devia ser simultâneo, o que era a sua principal condição de êxito. Convinha desorientar, desorganizar a defesa, obrigando-a a dispersar-se, numa apavorada incerteza, por aquela área imensa. E depois era deixar correr!
O certo é que o Mateus contava realmente com um poderoso concurso de elementos, não só morais como materiais, para confiar na temeraria execução do seu plano. A esfaimada turbamulta em que se apoiava todo o seu poder, ia procurando espontaneamente armar-se, e conseguia-o. Só à sua parte o Zé Pequeno arranjara a pouco e pouco, pedindo a um, comprando a outro, converter o conhecido barracão das traseiras da taberna num profuso e extravagante deposito de material de guerra, cuja guarda e segredo lhe custava mil cuidados, quase tudo espingardas de caça, algumas remotíssimas. Mas tudo servia. E então que, dos pequenos casais e quintas suburbanas, começaram a trazer-lhe velhos exemplares arqueológicos, de existência ignorada, cuja representação viva se julgava já por completo desaparecida entre nos, constituindo alguns deles preciosíssimas peças para um arsenal. Tais foram: algumas grossas carabinas raiunas, de pederneira, bacamartes de metal, trabucos grandes e pequenos, mosquetes biscainhos, arcabuzes flamengos e até velhos petardos de ferro e bronze, chuços, adagas, alabardas. — Um positivo tesouro, uma riqueza. O Mateus vinha periodicamente ao exame daquela extraordinária, daquela valiosíssima coleção, e não queria crer!
Mas, ao mesmo tempo, iam-se também em segredo munindo de toda a sorte de armas e petrechos de morte Os dois grandes bairros sediciosos que flanqueiam a cidade. Em Marvila, os tanoeiros e curtidores afiavam cuidadosamente os seus melhores cutelos, arranjando-lhes bainhas de coiro, a modo de alfanges; os homens das forjas encabeçavam as cunhas, martelos e marretas em longas hastes de madeira, improvisando armas temíveis de brandir, de um grande aspeto primitivo; os tecelões roubavam os pequenos eixos metálicos das rodas das cardas, dos torsos e dos carretes, e aguçando-os faziam deles punhais também, em Alcântara, os operários das fábricas de serração se passaram palavra para furtarem quanta lâmina de serra pudessem, e assim as sonegavam, apertadamente enroladas, metidas na algibeira, para depois as aplicarem longitudinalmente em hastes e toros de madeira, formando alabardas de nova espécie. E o mesmo os ferreiros, os serralheiros, os fundidores, os tanoeiros, os carpinteiros de carros, os destiladores, os marceneiros. As grandes campânulas de refinação de assucar e produtos esteáricos, subtraídas das fábricas e manejadas de feição, seriam formidandos aparelhos de asfixia. Toda a ferramenta se aproveitava, de todo o instrumento contundente se improvisava uma arma _homicida. Até os canteiros afeiçoavam ao seu novo destino vingador os cinzéis e as picaretas. Os mesmos calceteiros prometiam trazer à terrível deflagração do conflito o argumento esmagador dos maços de bater as ruas. Havia que contar com a resistência das tropas, com a intervenção repressiva de todos os elementos defensores das instituições. Mas isto mesmo não atemorizava o Mateus. Pesara-lhe bem o valor, receitava-os pouco... Em primeiro lugar, a Municipal. Essa toda seria pouca para o Centenário; andaria suficientemente entretida com a manutenção da ordem, durante os festejos, para poder pensar na revolta. Com um alarme a propósito, levantado no centro da cidade, distrair-se-ia até a cavalaria, evitando que ela pudesse fornecer as habituais patrulhas suburbanas, o que permitiria se efetuasse à vontade, no segredo e na sombra, a formidável concentração dos revoltosos. Com as tropas da guarnição mudava o caso de figura: estas estavam nos quartéis, prontas a acudirem à primeira voz. Mas nem por isso o problema era insolúvel; também haveria meio de lhes neutralizar a intervenção, pelo menos durante as primeiras horas; e, depois, certamente os soldados, emancipando-se, viriam fraternizar com o povo. — E o processo mais pronto e eficaz de intimidar as casernas, estava-se a ver... seria a detonação de algumas bombas de picrato. Por exemplo, uma em caçadores 5, na pequena cisterna que existe sob o terraço superior, mesmo junto ao alojamento de duas companhias. Uma explosão a tempo, naquele lugar, derramaria logo a indecisão e o pânico, se é que não custaria também algumas vidas... Em caçadores 2 era facílimo fazer coisa análoga, ainda melhor, mesmo em cima do paiol. O 2 de infanteria fazia-se ir pelos ares, mesmo da rua. Todos os mais assim. O 46 estava com eles... E quanto à guarnição de Belém, uma rede forte de fio de arame e meia dúzia de carroças voltadas, desde o Tejo à estação de Alcântara-terra, e as eminencias da margem esquerda da ribeira bem ocupadas, partindo da ponte à Fonte Santa, seriam obstáculo mais que bastante para que não passasse nem um cavalo, nem um só homem.
— Os meios de contraminar a defesa abundavam portanto. Sem contar que havia guarnições militares insignificantes, que à onda dos revoltosos levaria facilmente de vencida. Como os diferentes postos fiscais, sem tempo de serem socorridos; como a guarda da Fundição de Baixo, uns doze homens, cuja inevitável rendição poria era mãos dos vencedores toda a enorme quantidade de armamento e equipamento armazenado ali.
Que sairia depois de tudo isto?... Uma vez derribado o poder, baralhada pelo terror a ordem social, arrasada toda a iniqua engrenagem do regímen burguês, que nova e ideal construção iam os fanáticos da libertária ideia erguer-lhe nos escombros?... Não o sabia o Mateus muito bem, nem isso lhe importava. Entregava tudo ao sugestivo impulso da ocasião. Na alucinada febre, roçando pela inconsciência deste seu sonho de redenção e de justiça, nada o preocupava, nada o deslumbrava e atraía mais do que a execução de um implacável plano de vingança. A fórmula construtiva deixava-a à inspiração do acaso... ela viria depois. — E que era assim como sempre, afinal, tem sucedido por ocasião das grandes comoções sociais.
A esses decisivos abalos, primeiro o mundo estremece e sacode-se, como um leão ferido; e as soluções de reparação só mais tarde irrompem, depois da derrocada, instantâneas e cegas como relâmpagos. Pois também agora seria, mais uma vez, assim. Derrubar primeiro, e seguidamente um toque providencial os ensinaria a implantar a nova Lei sobre as odiosas ruinas fumegantes. Por enquanto, todo o louco e pertinaz empenho do Mateus se resumia em conseguir que esta como que atmosfera de repousada felicidade que envolvia Lisboa, — atmosfera tão cheia de recordações e iluminada ainda por uma como claridade sobrenatural que se levanta de glórias idas, — se convertesse, para esse supremo instante vingador, num sinistro clarão de incêndio, numa torva e inflexível crepitação de extermínio.
E se ele tal conseguisse, — esta última consideração eterizava-o! — teria feito com que Portugal, retomando o seu lugar à frente da civilização, merecesse pela segunda vez o grato espanto do mundo. Iniciaríamos agora, pela emancipação universal, uma era social inteiramente nova, assim como já o fizéramos também com a descoberta de um hemisfério! E depois chamassem-lhe doido...