Amanhã
Capítulo XIII · No último sábado de janeiro desse ano…
No último sábado de janeiro desse ano de 1896, por volta das 9 da noite, o coxear nervoso do Fagulha media irrequietamente, indo e vindo, a miúde olhando para o relógio da estação, o asfalto do apeadeiro de Braço de Prata. aguardava-se a chegada do expresso de Madrid, no qual deviam vir, segundo comunicação telegráfica, o belga Bazeleerts e o seu companheiro italiano da Internacional. Para desviar suspeitas, delegara o Mateus no seu azevieiro lugar-tenente a missão de os esperar. Viriam ambos de boina branca, com pala de tartaruga e correia de entrançado de linho, — era o sinal para o seu reconhecimento convencionado. Na estação demorariam apenas o tempo indispensável para libertar a bagagem, e seguiriam logo para casa do João dos Unguentos onde os esperava o Mateus. E aí se hospedariam também, visto como o contramestre os não podia levar para casa, e afinal de contas nenhum outro local fora, para o efeito, reputado mais adequado nem mais seguro.
Assim que o silvo arrastado do comboio se ouviu, anunciando a sua chegada, logo o Fagulha com os olhos desorbitando de ansiedade, saltou a postar-se no extremo norte da gares donde então, numa impaciência febril, crescendo e avançando o busto sobre a instabilidade funciorial das pernas, passou a cravar a vista na linha arrogante das carruagens que em revista pela frente lhe iam rojando, num desfilar estridente e majestoso, gradualmente amortecido. De repente, um sobressalto de júbilo o sacudiu. Logo na primeira carruagem de segunda classe julgou distinguir dentro, bem evidenciadoramente destacando por entre nuvens de fumo, as duas anunciadas boinas, frente a frente, mesmo junto da portinhola. E com efeito, num instante estavam em terra os dois estrangeiros, que mediram com prudencial desconfiança, dando aos ombros e arredando-se, a pressurosa e exótica figura que os abordava. O Fagulha porém, sem se intimidar, tomou-lhes ao lado, e de afogadilho ejaculou, num francês pegadiço e bárbaro, as frases de combinada senha que para aquele melindroso momento o contramestre lhe ensinara. De sorte que, tido agora por garantia de apresentação bastante este sinal, daí a instantes já os três entravam, mano a mano, na estação, seguros no reconhecimento das respetivas identidades.
Bazeleerts era um achaparrado e refeito tipo de homem, de pescoço taurino e pés plantados solidamente, passante dos quarenta anos, em volta do rosto opado e rubro a barbicha loira já grisalhando, os lábios negros do cachimbo, e na base do frontal amplo e liso, projetados muito à frente, os pequeninos olhos azuis, de um azul vago e translúcido. Vestia, singelamente, calça, colete e jaquetão de bombazina cinzenta, e ao pescoço, desalinhavadamente pendida e baralhada com as rugas de acaso de uma grossa camisa de Oxford, uma estripalhada gravata negra. O italiano era muito alto, ladeiro e esguio, macilento, de um prognatismo característico, quase imberbe, com a torva expressão malignamente enublada por uns olhos de extermínio. Avançava derreado, com as mãos enterradas nos bolsos de um longo e farto sobretudo, desta desbotada e crassosa cor das coisas velhas, desabotoado à frente, a gola levantada; e via-se assim que não trazia gravata, e apenas sobre a áspera camisola, listrada de negro, faziam grandes refegos as calças, cingidas por uma correia.
Além de uns pequenos volumes de mão, traziam bagagem a despacho; e bagagem que o belga quis pessoalmente receber ao balcão, abrir à obrigada fiscalização dos guardas e atentamente vigiar depois, quando confiada a sua condução a dois rapaz, por forma que estes marchassem sempre bem junto dele.
Assim se puseram a caminho, e em poucos minutos alcançavam finalmente a casa do João. Mal a campainha do portão soou, logo um dos postigos se abriu com estrondo, e a radiosa figura do contramestre se ofereceu, vibrante de envaidecido alvoroço; enquanto a amasia do João se debruçava curiosa da cozinha, e ele, sob o alpendre do patamar, de barretinho de seda na cabeça e a palma da mão protegendo a vela, iluminava. O Mateus abraçou efusivamente os recém vindos; e tão cega e confiante foi a sua expansão, tão impressivo e sincero o seu prazer, tão persuasivamente amparadas de nobre e fulgurante eloquência lhe saíram as primeiras saudações, as primeiras frases, que logo de escalada aqueceu o coração e ganhou o ânimo dos dois terríveis estrangeiros. Um fulmíneo triunfo. Pela admiração e pelo agrado ele conquistava de improviso a sensibilidade e a inteligência de dois homens que o simpatismo do mesmo ideal comum já antecipadamente lhe emanara na vontade.
Foram instalados no grande repartimento da frente, a chamada sala das curiosidades do complicado e imundo casarão. As suas grotescas bancas tinham sido arrimadas contra as paredes, mas sobrepujadas sempre pelo mesmo macabro aparato de cadinhos, pipetas, retortas e campânulas. Duas delas, postas topo a topo ao centro da casa, tinham por cima estendida uma toalha, com cinco talheres e um candeeiro de petróleo aceso. E, de novo, havia apenas dois catres tarimbais de ferro, cada um num dos extremos longitudinais da casa, de travesseirinhos de croquet e colchas brancas.
O tarraco e rubicundo Bazeleerts, que foi o primeiro a entrar na reçaga do João, apreendeu com olho de lince o aspeto do conjunto, e logo, com maliciosa expressão:
— Oh, quel joli désordre! — Depois, num ar entre bionómico e trocista, para o alveitar: — Savez-vous que c’est égaiant, ca?...
E mastigando o cachimbo e olhando ao alto, ria de vontade.
Convidado para se sentar, com o companheiro, à mesa, — a tomarem alguma coisa, — não se fez muito rogado. Tomaram então lugar, aos dois lados do João, e à ilharga deles o Mateus e o Fagulha. Veio a amasia, muito corada, servir primeiro a canja, com os dedos fulgurantes de anéis e arlequinescamente frisada a gaforina. O João pedia desculpa por não lhes poder dar hospedagem melhor — que aquela humilde choupana. Como ele falava em português, o Mateus fazia de intérprete; e assim o busto redondo do belga não cessava de oscilar amavelmente entre os dois, enquanto, em frente dele, os olhos de porco do italiano, ainda em suspeitoso exame, não tinham descanso, e o Fagulha se fartava alarvemente de pão com azeitonas.
Depois da canja veio a cabidela e o João fez espumejar nos copos um Colares muito sofrível. Regalados e tranquilos como bons burgueses, os dois ferozes agitadores iam saboreando. O italiano ainda era o mais refratário ás reles seduções da mesa; porém, de certa altura em diante, quando uma pantagruélica perna de carneiro assado apareceu, o faceiro Bazeleerts positivamente — a perdu contenance, — conforme ele mesmo confessou; e com familiar ousadia, por momentos reconciliado com o mundo, dando na mesa galhofeiros murros, denunciadores da sua interina despreocupação dos graves problemas sociais, perguntava rindo ao dono da casa se era alquimista, e edulcorava em amaviosas projeções os olhos para a virago que o servia.
Inquirido pelo Mateus acerca das suas impressões sobre Portugal, desatou-se, estralidando contra o céu da boca a língua, numa enternecida girandola de bucólicas expansões; que lhe parecia o jardim do Ocidente, de uma amenidade sem par, de um encanto paradisíaco; e concluiu dizendo que suspeitava — que um povo criado num tão doce e acariciador clima, não poderia ser um povo revolucionário. Erguendo a deixa, o Mateus contestou, travou-se espiritual e viva a discussão. O Fagulha e o João, que não os percebiam e se sentiam, ao peso animai da digestão, timpanicamente obtusos, retiraram muito humildes. — E então, pela noite adiante os outros três ficaram, esquecidos do tempo e do repouso, interminavelmente, no travamento mútuo de ideias estreitando relações e aproximando interesses; perdido o Mateus em alucinadas fugas pelos fantasiosos meandros do seu otimismo; o belga desdobrando da sua prática da vida, e muito regados em cerveja, os filosóficos desenganos; e o italiano mudo sempre, inalteravelmente fechado na sua expressão sinistra, incessantemente a ingerir copinhos de licor.
A premeditada conferencia com os delegados portugueses tinha de ser no dia seguinte, domingo, à noite, por isso que os dois retirariam fatalmente na tarde de segunda-feira. Assim, a manhã desse dia grave e decisivo foi para o Mateus, como para o Fagulha, o Esticado e o Serafim, uma correria doida. Era preciso levar o concertado aviso a cada um dos confederados, e tão melindrosa incumbência tinha de ser verbal, direta; nem podia confiar-se do correio, nem de quaisquer intermediários de ocasião. Valeu que nessa mesma manhã apareceu providencialmente o Ventura, o qual, num abandonado minuto de gozo convencido pela Bandeirinha. Vinha agora ao serviço da revolução por incondicionalmente os seus serviços. Este, como era rapaz e o mais moderno naquela clandestina conscrição, foi destacado para longe: para Alcântara e os confins ocidentais da cidade. E todos cinco o dia inteiro andaram, dividida estrategicamente a cidade por zonas, no pressuroso arrebanhamento de sequazes para essa tremebunda sessão da noite.
Por indicação também do Mateus, nesse dia o João não deu consulta; e teve igualmente ordem terminante para não entrar em privanças comprometedoras com os estrangeiros. De sorte que a sua hospedeira obsequiosidade houve de cingir-se a várias manipulações opíparas de cozinha. — Bazeleerts, durante o dia, saiu. Sozinho. Sacando da ampla algibeira, com uma previdência de ulano em território francês, uma planta da cidade, fez compreender ao João, espantado de tanto saber, que tinha ali assim o melhor guia. Nenhum outro mais dócil, nem mais seguro. Nada como andar só, para espertar o instinto e aprender. Apenas quis que lhe ensinassem onde ficava, afora aquele onde se achavam, algum outro grande bairro operário na cidade. O João indicou-lhe Alcântara. E para lá seguiu, sempre a pé, o frio e arguto Bazeleerts, no seu prático iluminismo já ruminando a conveniência de atrair e ligar na espontaneidade solidaria da mesma obra aqueles dois pólos de miséria da cidade por lá andou quase todo o dia, tornejando fábricas, fariscando pelos cais, abancando nas tabernas; e a sumula do seu exame não o lisonjeava, — porque não encontrava em parte alguma, bem dilacerante, bem autêntica, a nota da servidão e da fome. Todo esse mundo ínfimo com que ele ia cruzando tinha um ar conformado e tranquilo, uma expressão de relativa mediania que o desconcertava. Comparados com a aparência devastada e feroz, com as trágicas mascaras e a lívida ruina dos mineiros e ferreiros do seu país, estes portugueses concertadinhos e mansos eram quase felizes. E como não viam o céu da vida negro, não havia a esperar deles vingadoras convulsões. — Entretanto, não deixou de perguntar onde era, e de ir piedosamente contemplar, o pátio e palácio do Fiúza, cuja revolucionária tradição lhe ora conhecida também, ao ver no alto da Ajuda a esmagadora mole do palácio real, quis saber o que era «aquela pedreira» e, quando lho disseram, indagou então ainda, com os olhos fosforando ódios, «que caminho seguia para ali o rei»; e foi, calçada da Tapada acima, percorrê-lo, num incendido jacobinismo, com exterminadora intenção, demoradamente, de preferência parando na pequenina ponte de alvenaria sobre o rio Seco, que examinou e mediu em todos os seus aspetos, marcando-a na planta com uma cruz negra.
Pelo contrário, o italiano em todo o dia não saiu. Depois de almoçar, sempre mudo e intratável, vinha e debruçava-se das janelas que davam sobre o pátio, a cabeça revolta amarfanhada entre as mãos, olhando o solo vagamente. Pusera familiarmente de parte o sobretudo, e a sua gorja pelangosa e estéril como o poste fúnebre de uma forca, rompia, magra a ponto de parecer negra, despegada e cosida por edematosas cicatrizes, do envoltório farpado da camisola, através do qual apontavam também esqueleticamente as clavículas. — Nessas atitudes de alheada concentração se imobilizava, teimosa, indefinidamente, como se por muito longe lhe vagueasse a alma, numa interina suspensão da vida. Quando num dado momento os seus olhos de rancor se poisaram em baixo, entre os profusos destroços do pátio, numa velha lata de sardinha de conserva, que namoravam com delícia. E logo foi, pedindo licença ao João, apanha-la; entregando-se depois; sobre a improvisada mesa de jantar, a uma operação absorvente e misteriosa.
Arredou primeiro a toalha, poisou a lata, extraiu da algibeira das calças um canivete; foi-se depois à sua mala, donde trouxe um tubo de vidro com um pequeno estrangulamento ao centro, uma lima com diamante, rolhas de cortiça, pregos e limalha de ferro, algodão em rama. E, tendo puxado cadeira, ei-lo agora empolgadamente votado ao seu trabalho. Confrontou primeiro o tubo com a pequena caixa de folha, por forma que dentro desta ele podasse caber, posto em diagonal. Era comprido; serrotou com a lima, simetricamente, de um e de outro lado; voltou a medir... quase. Serrilhou mais. Agora o vidro, com uma ligeira pressão, já entrava e ficava entalado, firme. Bem! Tornou a tira-lo, introduziu-lhe delicadamente, até ao ponto em que o seu diâmetro era mais estreito, uma lamina de algodão em rama; afeiçoou e aplicou-lhe duas rolhas nos extremos; e logo a entala-lo dentro da caixa outra vez. Levantou-a, sacudiu... nenhuma das peças do sistema se deslocava. Perfeito! Lançou-lhe então porção de limalha nos dois pequenos compartimentos triangulares que o tubo em diagonal definia, acabou de atochar com pregos, fechou, calcando a tampa; fez a menção de ligar aquele imprevisto modelo de máquina infernal com muitas voltas de fio, bem retesas; e finalmente, de pé, fundibulando largo o braço, traçou o gesto de quem a arremessava longe, enquanto se lhe cosiam num atrabiliário rancor os lábios e os olhos torvos lampejavam sinistramente...
Á noite, mal tinham soado Trindades e já o Mateus estava junto deles. Não sem que primeiro tivesse tomado de roda daquele improvisado blockaus as indispensáveis medidas de segurança. A um e outro lado havia postados homens de confiança, de vinte em vinte passos, até grande distância pelas ruas fora. Uma outra vedeta estava postada também, perpendicularmente a esta direção, junto à cancela do apeadeiro de Marvila. E num ponto intermedio, entre a tenda do Zê Pequeno e o chafariz, aí onde era o cruzamento das duas cerradas linhas de esculcas, o Fagulha e o Ventura estavam também a postos, girando incessantes, prontos para, ao primeiro anúncio de perigo, irem dar o imediato alarme.
A hora já adiantada, quando mal notado o seu passo podia ser na pacificação de deserto daquele dia de folga, os broncos iniciados vinham chegando, batiam de manso com os nós dos dedos no portão, de dentro o Zanaga abria; e por esta forma, sem ruido e sem escândalo, foram todos entrando, discreta e sucessivamente. Nem tudo eram pacóvios e analfabetos nesta demolidora ronda de conspiradores. Contava-se entre eles a figura epilada e verde do Azinhal, havia alguns dos mais conceituados chefes maçons e socialistas. E de todos o mais inflamado e mordaz, o mais tipicamente anotável era decerto o Cavalinho mosca, esse afamado agitador de Alfama e Mouraria. O populacho adorava-o. Nunca andava ossinho, porque na sua insalubre orbita de atracão vinham os gandaeiros, os pilhos, os moinas e os tunos invariavelmente gravitando. Era o deus da ralé, o Moisés da escória de uma loquacidade incorrigível, a sua improvisação por acaso dispunha a primor de um certo número de frases de cliché, de sonoras apostrofes, de blasfémias com lantejoulas, cujo gafo ouropel refrangia deslumbrantes brilhos de oiro na alma fácil do povo, em cuja lama estrutural abria sulcos corrosivos. Uma tempestuosa e amarga experiencia da vida aziumara-lhe o sangue, impaludara-lhe o instinto. Fora sucessivamente marçano, jovem de fretes, corretor de hotel, sapateiro de trança, cobrador, cocheiro, bufo, e agora era cauteleiro e distribuidor de jornais. Sempre esperto e ágil, contra a idade e os desenganos reagindo sempre. A canalha bebia vento por ele; e no Rossio, na Avenida, de manhã, os vadios desertavam dos bancos e iam algareiros fazer-lhe roda, mal viam, pequenina e viva, aquela figura apontar ao longe, um rosto longo de símio, barba grisalha cortada à máquina, o bigode talhado marcialmente, sem guias, uns olhitos claros e saltitantes, crespos de malicia, um estripalhado barrete mal conseguindo disfarçar a calvície precoce do crânio oblongo, em volta do escorchado pescoço invariavelmente um grosso cache-nez, e o resto do miado corpo tiritando sob um fatinho de velha ganga azul, muito leve, imundo e esfarrapado. E ele então, ao ver-se rodeado dos seus, rejubilava, atirava-lhes de relance coisas incendiárias, transmitia-lhes as descomposturas inéditas da Vanguarda e da Pátria daquele dia. E sempre ligeiro e contente, sem parar, lardeando o ritornelo alto do seu pregão de pragas e conselhos, ele lá ia e sumia-se no dédalo das ruas bafientas, a falaçar e a correr entre a jolda dos rotos, batendo na surrampa nua do calcanhar com o chinelo de ourelo.
Quando entrou em casa do João, era de ver a pronta familiaridade com que ele falava a todos quase não havia para ele um desconhecido ali. Tudo, desde a Povoa, por Sacavém ao pátio do Salema e ao Campo Grande, tudo sabidos cúmplices na mesma libertária ideia.
A improvisada mesa de jantar fora arredada do centro da casa e achegada à parede que dava para o pátio interior, formando presidência. Na frente e aos lados tinham-lhe colocado ordenadamente os bancos da casa de consulta, fechando duplo colchete, três por fileiça. Sobre a mesa havia o mesmo candeeiro de petróleo; mas, considerada para a solenidade do ato a sua luz insuficiente, semeara ainda o João, ao acaso, pelas prateleiras, uma dezena de velas aplicadas sobre gargalos de garrafas, e cuja chama translucidamente se multiplicava e escorria, em polícromas reverberações, em fluidas estalactites de luz, pela diáfana abundancia de frascos que as ladeavam.
Á medida como chegavam, os convidados iam de capricho e sem ordem tomando Jogar nas bancadas. Os últimos, como já aí não coubessem, arredavam as retortas, cavalgavam as mesas. E todos travados progressivamente num dialogar de interesse, num bravo e tumultuário rezingar, sob esse ambiente gordo da imperfeita combustão das velas e da fumarada acre dos cigarros. De vez em quando, imperativamente, algum psiut prudente esvoaçava por sobre o turbulento chalrar da multidão. E então, no momentâneo silêncio, aqueles olhos ardentes de insaciados iam cravar-se gulosamente nas facetadas dendrites, na cristalina flamula dos licores. — Quando, a um dado momento, os dois estrangeiros, precedidos do Mateus, à porta da esquerda surdiram teatralmente, todos se ergueram, e uma simultânea e unanime faísca de avido simpatismo orientou ao prestigioso grupo aquelas cabeças curiosas. O João, que vinha na cauda, fez-lhes sinal para se sentarem. Em breve, cada um havia retomado o seu lugar, mas adiantando numa ansiedade o busto e com os grandes olhos sofregamente abertos.
Entretanto, os três avançaram, de respeito, com vagar, e abancaram à mesa, silenciosamente, sem fitar, sem cortejar ninguém, num alheamento altivo.
— Têm mau focinho! — rosnou logo o Manaio.
— Nem para gente olham!
— Espera... — disse-lhe o Serafim.
— Ora os penetras!
Decorrido um instante, o Mateus ergueu-se, comandou silêncio, e com os lábios trémulos de emoção, incendido, vibrante de vaidade, fez em encarecidas frases de entusiasmo a apresentação dos recém vindos, a quem agradeceu, por si e pelos presentes, em nome de todo o proletariado português, o incomparável favor da sua presença. Depois, aos seus compatriotas, numa veemente exoração, com as mais persuasivas artes do seu génio, rogou que saíssem dali, para a grande obra da redenção comum, indissoluvelmente unidos; que fossem agora, em tudo e para tudo quanto deles exigissem, verdadeiramente homens; que de alma, vida e coração se entregassem, desdenhando perigos, afrontando a morte, à violenta, à exasperada solução do primeiro dos problemas modernos. E que esse problema era afinal muito simples, estava na logica dos fatos, era um dos corolários fatais da História. — Tinham que libertar por completo o indivíduo do Estado; e este soberano empreendimento, esta missão heroica e sublime, à primeira vista tão subversiva, que taxavam de infernal e sacrílega os sacripantas que os , exploravam, era afinal a conclusão forçosa e necessária do mesmo determinismo dos fenómenos sociais. Ele ia dizer-lho mais uma vez; que vissem bem... O Estado, nascido da divisão da sociedade em castas, atingiu o seu período áureo, quando? Com a centralização monárquica absoluta. Depois, pela adoção do sistema representativo e a consequente democratização social, começou do Estado, como instituição, a inevitável decadência. Pois tinham de força-lo à total ruina, à bancarrota! Hoje já não havia, em todo o mundo, mais que duas representações completas do Estado, na sua antiga fórmula absorvente e tutelar. Eram: na esfera religiosa, a igreja católica; na ordem politica, o império russo. Tudo o mais era provisório, convencional, efémero, estava fatalmente condenado a desaparecer. O sistema representativo, que começou por ser uma transigência comoda da realeza com as classes, era agora um torpe arranjo, era o lema de defesa comum, contra a democracia libertaria, das diferentes classes entre si. Morreria fatalmente! No momento em que o principio democrático, bem cônscio do seu direito e bem senhor da sua força, se imponha e avance, embora sobre destroços, o bastante para indestrutivelmente firmar a sua dominação inteira e completa. É o que é!
E progressivamente inflamado, num silêncio de convincente sujeição que lhe permitia desvanecido escutar o eco das próprias palavras, conclamava:
— Vocês percebem-me bem?... Somos uns escravos; não temos liberdade, nem vontade, nem portanto consciência, A Lei atrela-nos desprezivelmente à desalmada exploração dos grandes. É um beco sem sabida. E esta estúpida sujeição só terá fim quando a divisão do trabalho no organismo social for tão longe que cada um de nós possa manobrar por si, com a perfeita autonomia de um órgão independente. E desde este momento o Estado, a Lei, todo o ardiloso e odiento sistema da opressão atual, terão fechado a sua missão histórica, terão os seus dias contados, acabarão miseravelmente ás nossas mãos, no pelourinho da sua própria infâmia!
Durante esta incendiária parlenda o maciço Bazeleerts, a princípio impassível, começou de mover-se impaciente na cadeira, coçava a cabeça, pôs de lado o cachimbo, crispava as sapudas mãos em visíveis gestos de enfado; por fim não teve mais mão em si e puxava com intimativa ao Mateus a aba do casaco. Este percebeu, e docilmente, sorrindo, perorou:
— Ora é neste sentido, rapazes! Que nós vamos, ardida, heroicamente, batalhar, não é assim?... Valeu?
Como o rugido ameaçador do mar, um aprobativo murmúrio da multidão cresceu, que sacudiu no seu torvo imobilismo o italiano, e que as fogosas narinas do Mateus aspiraram com delícia.
— Pois bem! — terminou com império o contramestre. — A ordem de combate, a forma pratica e eficaz de irmos direitos ao fim, vai-no-la ensinar este nosso irmão, que generoso e complacente se arriscou à vir de tão longe. — E indicava com amorável deferência o belga. — Vamos ouvi-lo... e em seguida jurar que à nossa devoção fervente em lhe escutar as ordens, será absolutamente igual a nossa pronta, a nossa intrépida decisão em executa-las!
Uma salva de palmas estridente coroou, como uma rutila esfuziada de estrelas, as últimas palavras do Mateus. Mal porém ele se sentou, que já o atrabiliário Azinhal, a quem a empolgante manifestação galvanizara, se levantava também e abruptamente, com as primeiras palavras surdas ainda na estralada quente dos aplausos:
— Muito bem! Muito bem! Meus irmãos... Agora, sim, começais a ter juízo. Vamos! Mãos à obra, sem compaixão, sem medo. Temos de ser implacáveis para quem tão implacável é também contra nós. Emancipemo-nos finalmente, mas a valer! Mas como homens que somos... Vamos! Para a carroça do lixo os legisladores e as leis! Enterremos esse guano a apodrecer nesse monturo!
E atrabiliária, apopleticamente, com o macilento frontal regrado em sulcos caliginosos, e bretoejando em rubros ódios a epilada desolação do crânio luzidio, dispunha-se este intempestivo orador a jorrar o torrentoso frenesi da sua eloquência, quando, num claro, cobrador de alentos, em tamanha indignação, o Bazeleerts disse alto para o Mateus, visivelmente contrariado:
— Paroles, paroles... rien que des paroles. Et ainsi, mes amis la chose ne peut pas marcher!
Mas sem o atender, sem o ouvir, todo na tirânica obsessão da sua impulsiva arenga, o Azinhal continuava sempre:
— Disse muito bem há pouco o nosso amigo Mateus: as leis desaparecerão, uma a uma, à medida como o individuo se tornar capaz de se governar por si mesmo. Completa emancipação do Capital e do Poder: eis a sociedade futura, eis o nosso ideal, eis o nosso plano!
Aqui, um dos chefes cooperativistas presentes, que era socialista moderado, presidente da Liga das Artes Gráficas, homem de algodão em rama nos ouvidos, óculos fumados e gesto comedido, prudencialmente interveio, erguendo-se:
— É então isso que nós vamos trabalhar para conseguir?
— Pois já se vê que sim! — acudiu, impetuoso e iracundo, saltando também em pé, o Cavalinho-mosca E logo em tom sarcástico o homem dos óculos, erguendo e abatendo a mão estendida diante do lábio desdenhoso:
— Haveis de fazê-la asseada!
— Ora essa! Então porquê?... — exclamou, cruzando em ar de desafio os braços, o Azinhal: — Que quer você dizer?
— Que tudo isto é uma tolice!
— Eu logo vi... Lá veem vocês com a agremiação coletivista do seu Lassale!
— Está entendido! E que dúvida tem?...
— Esse pé-de-cantiga cá não gruda! — disse o Cavalinho-mosca.
— Cala a boca, abelhudo! — retorquiu desprezivelmente o ortodoxo socialista; e voltando-lhe costas:
— Percebeste alguma coisa?... Isto não é com você!
O insolente cauteleiro, ferido na sua prosápia de agitador de pé-fresco, de libertário bandarra, maravilha para os vibriões da rua, tolerado pela policia, teve um novo salto de indignação e avançou de ameaça, cortando em cunha pelos grupos, salvando os bancos de tropel.
Também agora, gradualmente enliçados no travamento sugestivo do diálogo, todos murmuravam, todos, baralhando-se, numa desordem assaltavam novos lugares; alguns mais, de punhos à frente, se ergueram; outros, os mais distantes, descavalgavam as mesas e vinham adiante mosquear o sobrado com as suas figuras enardecidas. Do seu posto de honra, o Mateus seguia jubiloso a cena, irrequieto também, vibrando em nervosas desarticulações que contrastavam vivamente com a sinistra passividade de máquina do italiano, ao lado. Precavidamente o João ia escutar ás janelas. E bem lampeiro, bem na frente, mais que todos exibitivo e flamante destacava o Zanaga, que pela sua camaradagem eventual de cachimbeiro com o belga se sentia na sua consciência engrandecido.
Entretanto, sabatinando sem trégua com o outro, o Azinhal:
— Pois como querem vocês... sim... casar estas duas anomalias, ligar liberdade com autoridade? Puro absurdo! O vosso socialismo afinal, com a tutelação coletiva, oficial, do Estado, seria uma variante ao atual regímen de servidão, não valia a pena. Então antes deixar estar o que está!
— Apoiado! — Anda-me com ele!
— Num regímen de absoluta igualdade, como o que nós queremos, em que não mais haverá grandes nem pequenos, em que nivelará as classes uma implacável rasoura...
— Assim! Assim!
— Numa tal organização como pretendem vocês, seus palermas, que possa haver a regular-nos os atos um poder central?... Sociedade livre só uma sociedade sem leis. Delegar é abdicar. A socialização do poder é a coartação da liberdade. Não precisamos dela, não a queremos! Cada um é absoluto senhor seu!
— E que seja já amanhã! — Que ganas que eu tenho!
— Cada vez mais a sociedade moderna se mostra capaz de poder prescindir de centros de coordenação legal. A nossa vida tem de ser individualmente espontânea. A descentralização da atividade humana é cada vez maior.
— E representa isso um progresso? — disse irónico o cooperativista.
— Indubitavelmente! Salta aos olhos... Os principais centros de produção são hoje autónomos; há organizações livres em quase todos os ramos da atividade. É ver o comércio, a beneficência, a indústria... E o seu funcionamento é tanto mais perfeito, quanto menor é a ingerência neles do Estado. — E rematou desabridamente, no aplauso doido da multidão: — Aqui não pode haver duas opiniões! Quem pensar de outro modo, rua! Não nos faz cá falta, não tem lugar aqui!
— Ele está como os de Braga: viva a liberdade e chova lenha!
— Era o ideal do avô!
— Era uma grande cobardia!
— Almas de unto não se querem aqui!
— Carroça!
E o caso foi que, perante a berrata selvática e as disposições hostis da multidão, o imprudente interrutor entendeu que o melhor que tinha a fazer, apara não desmanchar prazeres, conforme declarou, era voltar a sentar-se, muito encolhidamente, outra vez.
Agora, no auge da impaciência, o belga erguera-se, e com os olhos chamejantes, agitando colérico os ombros, dando um murro na mesa:
— Encore du bavardage! Je perds patience, parbleu!
E solidamente plantado, de pé, com o gesto imperioso e o rosto enérgico, mais dilatado e quadrada ainda, dir-se-ia que pelo ímpeto da indignação, o seu torso refeito, ele passeava dominadoramente pela assembleia a vista, nesta dura expressão de quem está habituado a ser obedecido; enquanto, acolitando-o pressuroso, o Mateus corria, indignado e imperioso também, a impor silêncio, os grupos. Mas breve o sossego e a ordem recaíram; e uma unanimidade de agudo interesse norteava finalmente todas essas alucinadas mascaras à interrogativa contemplação do estrangeiro.
Então, sentindo-se senhor da situação, no requerido foco de evidência que aguardava, Bazeleerts estendeu em mal desenhada saudação o braço, e foi dizendo, cortado a intervalos pela indispensável interpretação do Mateus: — Que se deixassem de rezingas sem proveito, de estéreis especulações que nada adiantavam. No terreno pratico, terre à terre dando caça implacável ao inimigo comum, de trincheira em trincheira, de antro em antro, é que convinha manobrar. Que nem falassem, nem lessem tanto, fiem se via que eram os descendentes desses ingénuos que tinham passado séculos, prostrados diante dos púlpitos, a adorar baboseiras... Para continuarem assim, mais valia o suicídio! E que o problema era bem simples: tinham de um lado o privilégio, do outro a escravatura; em cima a impudência, em baixo a humilhação; de lá a fartura, de cá a fome. Tratava-se de igualar os dois termos da equação... pôr pelo extermínio e peio terror um travão a esse rodizio colossal de iniquidades, nas quais bastaria que eles pensassem a sério um instante, para que todas, ainda as mais ténues, radiculas dos seus nervos, todas vingadoramente vibrassem, até aos últimos excessos, até aos grandes heroísmos inverosímeis!... Pois eles não viam, não sentiam bem que, se para os grandes viver era sinonimo de gozar, para eles, os pequenos, essa palavra infernal não queria dizer senão pagar, e só pagar, e pagar sempre?.... Em virtude do estúpido regímen da propriedade, tinham que pagar renda de casa, depois pagavam décima porque pagavam renda, e pagavam adicionais porque pagavam décima, e porque pagavam tudo isto ainda pagavam selos... Uma verdadeira rede de arrastar! Todo o dinheiro canalisado para os mandões, para os ricaços. O que os patrões enjeitam, arrepanha-o o fisco. Os mais espontâneos, os mais naturais atos da vida, que estão na logica fatal das coisas, que derivam da pura harmonia cósmica e são por essência anteriores a governos e sindicatos, — como o nascimento, a educação, o casamento, a legitimação dos filhos, o trabalho, as profissões, até a morte, — tudo nos fazem pagar! Se quisermos morrer em paz, à moda burguesa, havemos de comprar a cova e pagar ao padre para nos abençoar... — Tal vez se pague para entrar no céu! — disse escarninho o Cavalinho-mosca.
E os circunstantes, ligeiramente, riram, mas em silêncio, mas sem desmancharem atitudes, sem desfitarem a figura iluminada e potente do orador, que empolgadoramente os tinha a todos agora sujeitos, na cálida torrente do seu verbo.
Ele entretanto continuava:
— Que o mal ainda não era só esse! Piorava-o a rede iniquíssima de preconceitos, imposturas e mentiras que cada vez mais espessa e acerada, como uma jaula de ignomínia, partia e asfixiava o mundo... Ninguém valia por si, mas pelo que tinha. Tanto tens, tanto vales, — era a nova taboa da Lei. O amor era uma avaliação, a amizade era um inventário. E que, assim, numa organização social em que só o oiro dá honra, esmagava os proletários uma dupla desgraça. A Sociedade não os faz só infelizes, fá-los réprobos também! Roubam-nos e infamam-nos... Porque as classes dominantes tinham pegado da palavra «miserável», que vêm de «miséria» e quer dizer «vítima», e torceram-lhe a significação para um termo equivalente a «bandido» e portanto a «criminoso». Daí que o pobre é também um leproso moral. São dois males... E em vez de lhe dispensar o balsamo da compaixão, a Sociedade fulmina-o com o seu odio! Explora-o e despreza-o. Arma-se contra nós de todo o poder das instituições, — krups e tribunais, becas e baionetas, — e sacode-nos com asco, quando não nos condena à morte, depois de nos haver esvaziado a algibeira!
Estrugiram atroadores os uivos de aplauso da multidão; e ele crescendo, ele aquecendo sempre:
— Algozes e ladrões! Já vedes. São eles os criminosos! Temos que os castigar... e reabilitar-nos. É só isto! — E, feita uma pausa, cruzando apreensivo os braços: — Como o havemos de conseguir?... Por um modo também bem simples: concentrando-nos e unindo-nos, formando pela nossa inteligência e a nossa vontade uma formidável barreira contra esses vampiros constitucionais, contra essa oligarquia infame que nos cavalga e nos suga. Mais do que barreira... uma inexorável, uma justiceira e cega avalancha, que os embrulhe e os arraste, que na mesma vingadora mortalha sepulte para sempre toda essa choldra impenitente!
Cingindo a mesa cada vez mais de perto, e sofregamente unidos na fascinadora impulsão do mesmo sentimento, ocupavam agora os ouvintes já bem metade só do espaço primitivo. A unanimidade no aplauso, a hipnose de inédito do discurso, a conformidade de ideais, uma comunicativa e ardente impaciência, como que lhes tinham adelgaçado e fundido, numa solidariedade de aço, as figuras palpitantes, suprimindo intervalos, anulando as distancias. Para mais, cada uma das inflamadas proposições do tribuno triplicava de valor, ao transitar do Mateus pelo lábio eloquente. De sorte que, agora, essa compacta massa de cabeças alternava os seus olhos de ansiedade, dos olhos profundos do Mateus aos olhos transcendentes de Bazeleerts, que, baixando a cavas intonações a voz e projetando à frente confidencialmente o busto, insinuava:
— Ah, queiramo-lo nós bem decididamente, bem à tesa, que o mundo é nosso! O capital há de vir a morrer da pletora da abundancia, creiam isto! Como um bêbado afogado em vinho. Já para lá caminha... Mais dia menos dia, a bancarrota dos grandes centros monopolistas da produção é certa. Lá no meu país, as indústrias de fundição e altos fornos já não sabem como hão de equilibrar a criação com a derivação dos seus produtos; na Inglaterra, os fabricantes de tecidos de Manchester, Leeds e Bradford debatem-se na mesma dificuldade também, anteveem o mesmo perigo... Juntai a isto a crise geral das minas; e dizei-me depois se não é próximo, certo, inevitável um pavoroso naufrágio industrial... que nós aproveitaremos para moldar então a sociedade em bases novas! Trabalhando para que cada um goze e possua segundo as suas necessidades e não; como hoje, segundo as suas obras.
E obstinada, imperativamente, passara, sem deixar de falar, à frente da mesa, e misturava agora, numa persuasiva intimidade, com a massa esquálida do grupo a sua grande figura prestigiosa.
Acotovelando de manha o Zanaga, o Manaio aventurou:
— Mas que tem então a gente a fazer?...
— Dar caça sem tréguas, caça de morte ao burguês! — exclamou o belga. — Enquanto não podemos submetê-lo socialmente, abatê-lo pelo terror, desnorteá-lo pela desordem, semear de roda dele a assolação, perturbando-lhe as digestões, espatifando-lhe interesses, afeições, família... alcançando-o no coração e retalhando-lhe a alma! — E outra vez em voz baixa, dobrado ao ouvido de cada um, sinistramente: — O que tendes a fazer?... O mesmo que fez Ravachol em Paris! Tendes que repetir, que renovar aqui essa campanha fecunda e benemérita!
A esta intimação formal, a este concludente programa de extermínio, uma boa parte da assembleia, intimidada; deslaçava novamente intervalos, desviava timoratamente os olhos. Porém ele sem os deixar, perentório e duro, apostrofou:
— É um pouco desagradável, arriscado, sanguinário, isso é... mas é o caminho!
— E começar quanto antes! — reforçou imperioso o Mateus.
— Mas vamos a ver primeiro, — disse o belga, — se estais preparados? Quais são os vossos meios de ação?... — Como ninguém lhe respondesse: — Estou a ver... nenhuns!
Baixara o Mateus a cabeça, embaraçado. Bazeleerts perguntou-lhe:
— Estais organizados em grupos secretos?
— Ainda não...
— Tendes centros permanentes de reunião, de propaganda?
O Mateus, cada vez mais confuso, abanou negativamente a cabeça; e com douta vivacidade o outro, cambiando um sorriso de desdém com o italiano:.
— Pois haveis de começar por aí... aliás todo o mais trabalho é perdido! Que nós devemos ser contra todo o sistema de agrupamento, contra toda e qualquer organização em comum. Tudo individual, tudo espontâneo, bem se sabe, é o nosso ideal, é a nossa divisa. Mas agora, na transição, para manobrar, não temos remédio senão socorrer-nos ás fórmulas em uso. — E batendo no ombro do Mateus, com suasivo conselho: — Ande-me! É dividir a cidade por zonas, organizar centros sistemáticos de propaganda, com gente de decisão e fé, rigorosamente escolhida... depois ligar os proletários daqui com os de oeste e alongar a rede... em suma, tecer na profundidade e na sombra, prestes a colher toda essa sociedade de insignes pusilânimes, uma teia tão solida e miudamente urdida que por ela não escape nem um!
— E por il resto qua sono io! — exclamou agora finalmente, com espanto geral, o italiano, incendido o seu rosto patibular por um relâmpago de prazer maligno.
— Pro resto, — reforçou com expressão singular Bazeleerts, — esperem um momento... Eu já lhes vou dar que fazer!
Num pronto foi até junto da sua cama, direito a uma das malas, toda protegida por um revestimento zincado e largamente chapeada, da qual abriu um fundo falso e extraiu dele seis pequenos cilindros, também metálicos, que veio misteriosamente plantar sobre a mesa.
— Pro resto aqui tendes! — aclarava ele perversamente, com intimativa ruim, cravando nos circunstantes, um a um, os pequeninos olhos fosforando ameaças. — Estão cheios com dinamite, já têm a mecha no seu lugar... Põem-se onde se quiser e depois é largar-lhes fogo. A mecha dá mais que tempo para gente se safar...
De roda da mesa agora o grupo, interessado e ardente, apertara ainda mais. Atropeladamente avançavam e emergiam de ímpeto umas sobre as outras, emaranhadas e lívidas como as copas de uma grande floresta, pela noite, aquelas dezenas de cabeças tresvariadas. E simultâneos todos os olhos se fixavam, hiperémicos e pávidos, nesses pequeninos cilindros lambuzados de negro, com a mecha branca de algodão radicando do eixo e pendente, como uma torcida. Neste grave e inesperado momento todos consideravam com sofreguidão, mesclada de terror, num sentimento que era um misto de fascinação e repulsa, de querença e de medo, esses convidativos instrumentos de morte que a providencial alucinação de um homem lhes oferecia, e a cuja decisiva manobra eles se tinham afinal comprometido... O Serafim, que estava sentado à mesa, avançou a mão hesitante e tomou num vago receio um dos cilindros, que logo largou, desconfiado.
O que fez com que o belga com violência lhe exprobrasse:
— Tenes ferme, coquin!
— Vê se te escaldas, ó coisa! — assobiou-lhe também o Cavalinho-mosca. E escarninho para a malta: — Quem quer passaporte barato para o outro mundo!
Mas já, forte e incansável sempre na sua catequese de aniquilação ao transe, tornava o contumaz anarquista a insistir no seu plano: — que tinham aqui em Lisboa todas as condições para uma completa e segura réussite; era desnortearem, apavorarem bem primeiro a cidade, e depois atacarem-na em massa, que disporiam dela ao seu bel-prazer... seriam os senhores, teriam o que quisessem!
— E por el resto io! — disse ferozmente o italiano.
Mas descoroçoada a roda dos conjurados, timoratamente, enviesando os olhos, acuava.
— Se a dinamite vos intimida por nunca haverdes trabalhado com ela, — voltava, a contraminar-lhes a indecisão, o belga implacável, — se estes simples aparelhos, cujo interior não conheceis, não vos merecem confiança, o remédio é fácil! Arranjais vós mesmos outros por vossas próprias mãos. Assim...
£ no mesmo instante o italiano sacava de entre a camisola e o peito a sua caixa de sardinha, e projetando-a ruidosamente, num sanguinário regalo, sobre a mesa, passava a abri-la e a explicar, sempre mediante a interpretação do Mateus, o funcionamento dela, o modo de a construir e carregar, a sua estrutura e o seu uso. — Dois líquidos, ou um solido e um líquido, cuja mistura na ocasião do choque deflagrasse, alojavam-se nas duas metades do tubo; depois este tornava ao seu lugar, atochava-se à volta com pregos; em seguida a tampa... tudo bem ligado com arame, por cima barbante alcatroado, ou pês e enxofre... e não tinha mais, — era só largar!
A sessão havia tomado assim uma feição carniceira e odienta que repugnava a uma parte da assembleia. Cheirava-lhes a sangueira e a carne derretida... já não estavam bem ali! perante os seus alarmados corações, perante as suas sensitivas almas, formadas na serenidade e na obediência, o grosso e imperioso belga revestia o aspeto de um carrasco, o italiano era positivamente um demónio. Por forma que, enquanto este viperinamente se comprazia na sua letal explicação, uns coçavam, num embaraço, a cabeça, outros foram à formiga demandando a porta, e entre estes o primeiro, o comedido contraditor do Azinhal. E foi como gradualmente começou a definir-se a debandada. O João, plantado junto da saída, regalava cada um com o seu copito de aguardente, e nos intervalos da dadivosa oferenda despedia compassivos olhares de lástima para os belos rótulos da sua bateria de garrafas multicores, cujos oiros ia azebrando a péssima estearina a escorrer abundante dos gargalos.
Quando finalmente, num começo já de cansaço, se viram sós os dois estrangeiros, Bazeleerts abriu, para renovar o ar, amplas as duas janelas que davam sobre a rua; seguiu ainda um momento, vagamente, os vultos dos últimos conspiradores a sumirem-se na linha sinuosa e mortal dos prédios adormecidos, e patinhando apressados sob a chuva miudinha que caía; depois, passando a guardar de novo na mala os cilindros de dinamite, que tinham ficado completos e intatos sobre a mesa, disse num complacente desdém para o companheiro:
— Oh, les portugais! Assurêment ils ne sont pas... pratiques.
E, desprezivelmente também, enfiando na cama, o italiano:
— Io non ritorneró qui!
CAPÍTULO XIV
As inéditas impressões daquela noite acenderam na hipertonia cerebral do Mateus uma excitação estranha. Voluntariamente cego na obstinação afogueante do seu desejo, tomava à letra as instruções de extermínio de Bazeleerts, como se já tivesse a sua implacável execução assegurada; como se a mais que duvidosa decisão e coragem dos seus cúmplices não fora antes ao cabal cumprimento do programa uma bom medíocre garantia... Vibrando ao calor obsidiante do cuidado, em toda a noite não dormiu. Debatia apreensivo em todos os seus variados aspetos o problema; e primeiro agitando-se, de pé, depois sentado junto à mesa, depois, finalmente, deitado, traçava um alucinado dédalo de combinações, que agora na solidão e na sombra, tomando vida, cabritando em convulsas espirais, fustigavam a treva com os seus cancans de pesadelo; concertava, pertinaz e afinque, os meios de vir a conglobar e a comandar no mesmo libertário plano toda a população proletária da cidade.
No dia seguinte, a mesma insistente e fundamentai preocupação. Tomado o ponto na fábrica, foi almoçar com os dois estrangeiros. E então, na mais absoluta intimidade e confiança, conversaram longamente ; então a cada momento, indignado e contumazmente crédulo, o Mateus respondia ás restrições pessimistas do belga com entusiásticos penhores de firme esperança na sua gente, que faziam ao italiano encolher farcistamente os ombros. Por fim, chegaram a apostar. No que do arrebatamento, o Mateus comprometeu-se a que alguma coisa havia de fazer, ele e os seus... coisa que desse brado no mundo! — e com veemência jurou que nessa empresa sacrossanta empenharia a vida.
Quando à tardinha, de volta da estação, onde fora despedi-los, regressava ao Almargem pela estrada enterrada de Marvila, pareceu-lhe de repente distinguir, na penumbra crepuscular dos altos muros, e postado, como uma suspeitosa vedeta, mesmo à esquina da azinhaga da Bruxa, um indeciso vulto negro. — Movido por uma natural estranheza, mas tranquilo e sem o menor sobressalto, afirmou-se. Não havia duvida... e era um homem. — Quando mais próximo, reconheceu nele o Lourenço, fiandeiro, que ele há dias despedira da fábrica; o que o fez pôr-se instintivamente em guarda.
O Lourenço, no momento em que o contramestre lhe passava à ilharga, rosnou com altivez, sem se descobrir:
— Boa noite.
— Ah, és tu?... — respondeu o Mateus, que tinha feito alto, mirando com fixidez o interlocutor, de mão em pala diante dos olhos. E reatando logo a andar, num despejado ar de desprezo: — Adeus!
Porém o Lourenço correu, com modo gingão, a tomar-lhe o passo:
— Ó Sr. Mateus, faz favor... — E como inflexivelmente o contramestre fizesse menção de afastar-se: — Não, o senhor há de me dar atenção!
— O que é que tu queres? — volveu com sobranceria, tornando a parar, o interpelado.
Então o Lourenço arrastou, de olhos à terra e bolinando o busto, num vago regougo de ameaça:
— Eu queria saber quando é que o senhor me emprega?...
— Tu estás doido!
— Quando me admite outra vez?
— Nunca mais, já sabes... Devias-me conhecer.
— Faz-me diferença...
— Também ao rendimento da fábrica faz diferença manter madraços como tu! — As mãos do fiandeiro encolheram-se numa crispação de raiva; o Mateus rematou com decisão: — Não penses mais em tal! Nem lá tinhas lugar.
— É uma coisa muito mal determinada.
— A outra porta!
— Ó Sr. Mateus, veja bem...
— E ainda eu te não dei o castigo completo... A tua mulher, tua mãe continuam lá. Essas não têm culpa...
E sem mais atenção ao importuno demandante, já de novo o Mateus retomava o caminho. Mas num importuno ímpeto o Lourenço saltou-lhe à frente; e desta vez com intenção hostil manifesta, metendo a mão ao bolso:
— O senhor tem obrigação de me empregar!
— Obrigação! O que é lá isso?... — exclamou com energia o contramestre. E tirando também do bolso um pequeno revólver, apontou-o num relance ao Lourenço, eloquente argumento de reforço a esta sumaria intimação: — Roda-me já daí! Se não queres que te faça saltar os miolos. — Depois, quando viu o atrevido afastar-se, furtando e dobrando o corpo, os braços pendentes e a orelha cobarde, como um podengo: — Ora o traste!
E perante a pávida imobilidade do outro, o Mateus, forrando a arma, continuou então, no mesmo passo resoluto e firme, o seu caminho.
Mas também, um quarto de hora depois, quando o velho Tobias das mules passava, em demanda de casa, no mesmo sítio, foi súbito prostrado por uma cacetada que lhe ia custando a vida.
Dois moinas que por acaso, horas depois, passavam pelo local, topando à esquina da azinhaga com aquele obstáculo mole e inerte, agacharam-se logo, muito interessados, fariscando sensacionalmente um crime. E reconhecendo então com espanto o inanimado velho, ergueram-no e levaram-no em braços para o pátio do Picadeiro, a casa. Divulgado o caso no dia seguinte, ninguém para ele achava bastante explicação; e instintivamente caíam sobre o Lourenço unanimes as suspeitas. Suspeitas que com intimativa o Mateus confirmou, mesmo sem contar o episódio passado com ele.
Mas nem mais o contramestre pensou em tal. Em breve este incidente mínimo se perdeu no apreensivo caos de graves preocupações que lhe baralhavam o espirito. Todo o seu empenho era agora promover uma grande reunião operária, espécie de plebiscitário congresso que na mesma acorde resolução confederasse, bravos até ao heroísmo, até a morte, os proletários de Alcântara com os de Xabregas. Eram os dois pólos extremos da corrente, os dois grandes braços de alavanca. Entre eles seria fácil depois comocionar e envolver nó mesmo amplexo de fogo toda a cidade. E estava no propósito de alargar desta vez os convites. Teria toda a latitude compatível com a importância excecional da causa este magno concílio de burlados da sorte, de cismáticos da fortuna. E para isso ia trabalhar, quase sem precaução, sem rebuço. Á impetuosidade natural do seu animo juntava-se agora a impunidade, o êxito da conferencia com os dois estrangeiros, a fazer-lhe acreditar que dispunha de uma relativa segurança em manobrar, como se qualquer providencial proteção invisivelmente favoniasse a sua obra.
O local naturalmente indicado para a celebração dessa grande liga libertaria era o palácio do Piuza. Estava para o efeito talhado, por tradição e por conveniência; pela sua prestigiosa lenda revolucionaria, passante de meio seculo, e pela vantagem da sua situação topográfica, na aresta terminal de um bairro, posto um pouco a recato.
Ora o proprietário do velho casarão e quinta anexa era ao tempo o dono também de uma grande fábrica de fundição, sita ao longo do boqueirão dos Ferreiros, ao Aterro. — Vá de ir falar com ele. — Tomou logo de manhã o americano, apeou ao Conde Barão e enfiou pela ruela em frente, direito a uma extensa e maciça construção cinzenta, espécie de caserna alternamente vazada em portas e frestas gradeadas, deixando ver o seu opressivo interior de negra nave sussurrante, roncando em estalidos secos de metais, sopros ciclópicos de forjas, arranhões de engrenagens e atagantados silvos de correias.
O Mateus entrou, saudado afavelmente, desde a porta, pelos operários, todos seus velhos conhecidos; e com estranheza viu logo, próximo da entrada, a figurinha miúda e ardente do seu amigo Anacoreta, todo dobrado sobre uma banca onde um operário, calvo e de óculos, lhe limava com carinho um pequena peça reluzente.
— Ô Anacoreta! Que fazes tu aqui?... — disse logo alto o Mateus, aproximando-se e batendo-lhe no ombro, com um sorriso de piedosa ironia.
Na surpresa da colhida, o herpetismo espirrante do Anacoreta ganhou uma congestiva cor violácea, enquanto ele, desconcertado e gago, titubeava:
— Sabes?... A ver se me arranjam uma espécie de grampo de ferro doce, cá com certo feitio... olha... coisa muito especial.
— Então lá o meu homem não te serve?
— Esse tem ao seu cargo outra coisa. É ótimo! Deixa-me cá...
E novamente todo curvo, de pernas penduradas, junto à mesa, voltava o homem do moto-contínuo à absorvente objetivação da sua ideia.
Implacavelmente porém, o Mateus disse:
— Olha lá... e então a espoleta que me prometeste?
— Diabo! — arrastou o Anacoreta, coçando a cabeça, contrariado. — Já lá tenho uma coisa... ainda não pensei bem...
— É que eu tenho pressa, vê lá!
— Pois sim, filho... Agora não, bem vês... Vamos a, ver!
Daí a instantes o Mateus, tendo galgado os degraus metálicos de uma escadita em hélice, que enroscava entre dois colunelos, a meio da casa, defrontava-se no piso superior com o homem que procurava. Era este, por exceção, uma alma justiceira e ardente como a sua. Por isso, muito bem recebido, informou-se miudamente do plano do contramestre, indagou dos seus projetos futuros, enumerou e tomou nota dos elementos com que contava; por fim, eletrizado pela narrativa da conferência com os da Internacional, agastou-se por não o terem convidado nem que desconfiassem dele! E, por completo subjugado, perguntou-lhe então — a que é que vinha? O que queria?... Alguma recomendação, colocação ali, trabalho extraordinário do pessoal, casa, dinheiro?... Quando soube do que se tratava, anuiu logo, muito pronto — que sim! Era só avisa-lo de antemão, para dispor as coisas. Que ele podia-lhes arranjar um magnífico ponto de reunião, na grande cava abobadada que a casa tinha, lá mesmo ao fundo, deitando para o jardim. Mas precisava saber a tempo o dia... para mandar fazer limpeza, pôr bancos e cadeiras, dispor a iluminação, coisa que lá não havia... e mais, estava entendido, algumas bebidas. Conspiração sem vinho era o mesmo que um corpo sem alma. — E com prazenteira vivacidade, gesticulando e rindo muito, acompanhava até ao topo da escada o Mateus, cingido em repetidos abraços, acarinhando-o incessante com o convicto epiteto de «benemérito». Saiu pois o contramestre dali, doido de contente, leve da mais promissora alegria, como que erguido nas azas do mais seguro entusiasmo. — A vitória era certa... tudo ás mil maravilhas! — E tomou à rua com uma arrogância de triunfador, liberalizando olhos protetores à multidão, firme o altivo como um tirano pisando país conquistado. E, na disposição de ir logo pessoalmente reconhecer o local, tomou pela calçada do Marquês de Abrantes e Santos, em direção a Alcântara. — Foi quando, próximo ao quartel dos marinheiros, ouviu de repente estentorinar, fioriturado e largo pelo espaço, um pregão muito seu conhecido. Era, com efeito, o Tranca-ruas que avançava do lado da ponte, — esse valente e indomável agitador, o mais popular, o mais querido revolucionário e filosofo da redondeza. F vinha pensando vagamente o Mateus em falar-lhe... pelo visto, estava com sorte: ali o tinha!
Fez logo próximo o passo do vendilhão, que galhardo seguia ao lado do seu burrito rosilho, sacudindo os seirões da hortaliça com donaire, um farfalhudo cravo de papel na testeira, alternamente arrebitadas as orelhas buliçosas, e arregaçando as patitas com orgulho, como que na jatanciosa demonstração de pertencer a pessoa de tão reconhecida importância quase que a saloia renovação do asinino milagre de Balaan... E a cada momento o dono, empavesado e cómico, parava, e com a mão em repouso na aba de um dos seirões respondia ao questionário coscuvilheiro das pessoas de acaso que o assediavam. — De altura menos que meã, sardento e ruivo, matacões, a maxila contumaz, olhos piscos de tunante, as pernas zambras, usava um grande chapéu de feltro breado em sebo, a aba posterior em mochila sobre a nuca, e na sua invariável jaqueta de fustão azul alforjavam descomunalmente as algibeiras, atafulhadas sempre de jornais. Lia-os todos, por entre a atroadora mimica do pregão, cantando e andando. Lia e comentava dogmaticamente, como um catequista, à sua inúmera clientela de adeptos, à corte adventícia de fiéis que onde quer que fosse lhe faziam roda. Ele tinha mesmo passagens certas, invariáveis pontos de convocação para esta espécie de freguesia. Nem o mais abundoso curandeiro de praça. Um dos seus prediletos centros de prédica era na Junqueira, em frente à Cordoaria. Aí estacionava o grosso Mirabeau, basto tempo, cada manhã; aí à embaralhada turba dos rôtos vinham misturar-se alarvemente as praças do depósito do Ultramar, os calafates e os marítimos; chegavam a apeirar-se dos cavalos as ordenanças.
Tinha o Tranca-ruas um filho, hortaliceiro também, que se ocupava por igual em arrastar o negócio regulando o chouto do seu jumento. Pois em dias de ocorrência de sensação, quando o hiperbólico desfiar de algum crime alastrava ao desafio pelas colunas dos jornais, vinham então os dois, juntos, para a rua. Para que o pai podasse parlendar mais à vontade, ia o filho adiante com os animais. Um tocava os burros, o outro burlava os tolos. Diferençava-se apenas no número dos pés esta especialização de funções, no fundo idênticas. Uma simples questão anatómica de quebrados, de que os dois eram o denominador comum.
Quando chegou junto dele, o contramestre exclamou :
— Adeus, Tranca-ruas!
— Viva o mestre Mateus! Então por cá?...
— Ainda bem que te encontro!
— Então?... — fez com interesse o homúnculo, arregalando os olhos; e logo para o burro, num imperioso puxão da arreata: — Xó aí, Galante!
O Mateus aclarou convidativamente:
— Temos assunto importante em que falar...
— Sim?...
— Coisa de costa acima, olé!
— Mas o que vêm a ser?...
— Aquelas nossas antigas conversas, lembraste?
— O quê!? A coisa agora vai?... — atacou com avidez o rúbido filósofo.
— Vai, homem! Ouve... — E o Mateus chegava-se, muito cingido, ao hortaliceiro, a segredar : — Vamos reunir aqui assim todos os da seita, sabes?
— Bom! Bom!
— Os de cá com os de lá... Alcântara e Xabregas, Esperança e Mouraria!
— Ah, por isso... — observou o Tranca-ruas, com olhos de entusiasmo. E numa sublinha misteriosa, tirando um jornal da algibeira: — Diz hoje aqui o Seculo, quer ver?... «Há dias que se nota uma certa atividade e febre de reunião na nossa população operaria, mormente na parte oriental da cidade.»
— Diabo, isso é uma inconveniência! — exclamou de salto, num repelão de contrariedade, o Mateus.
— Ainda traz mais... — aclarou o vendilhão; e seguiu a ler: — «A polícia parece andar alarmada com o caso; mas a verdade é que os proletários estão no seu direito de se reunirem, desde o momento em que não ofendam a ordem. Nada tem com isso a polícia.»
— Essa coisa faz-nos mal... — disse o Mateus, apreensivo.
— É o que cá está!
— Veem com tudo pros jornais!
— Se calhar foi algum Judas... — comentou numa osga de rancor e guardando o jornal, o Tranca-ruas.
— Em suma, — disse o Mateus com decisão, como quem acorda de um sonho, — seja o que for... toma sentido! Reunimos muito breve, aqui ao pé, no Piuza.
— Mas quando, quando?
— Logo que eu tenha as coisas convenientemente preparadas.
— Ande-me ligeiro, mestre!
— Agora o que eu quero é que, entretanto, tu vás espalhando a ideia... bem sabes por quem e como... — Aprumado de importância, o vendilhão abanava a cabeça jubilosa. — Corre a nossa roda antiga, faz-lhes bem compreender a indispensabilidade, a decisiva importância desta reunião, esperta os amigos, atira-os cá pro movimento, anda!
— Não há de haver duvida!
— E aparece-me lá por Marvila.
— Está direito, mestre! Está entendido. Adeus! — Deu a mão ao contramestre, e prazenteiro, para o burro: — Vá a ver, Galante!
O burrito, encabritando com graça, alçou a garupa e partiu; enquanto atrás dele o dono, familiarmente, atirava aos quintos andares o seu pregão, rasgada a boca até aos côndilos e apoiada a mão em concha junto à orelha…
Tendo reconhecido astutamente o terreno, o Mateus voltou a Marvila, onde começou logo pela sua gente afervorando adesões e distribuindo convites. Cerca da noite, ao retirar, calçada do Grilo abaixo, direito a casa, sentiu que alguém lhe vinha, em passo difícil mas progressivamente acelerado, procurando alcançar a peugada. Voltou-se e viu então, já muito perto, a rotundidade descomunal do Silvério, como um grande rochedo errático, rolando em peso pela ladeira.
— Ó Silvério! Você quer-me alguma coisa?
— É verdade que sim, Sr. Mateus, desculpará... — balbuciou o gordo, adiantando-se, muito humilde, todo calcado em zumbaias repetidas.
— Estou ás ordens, — aquiesceu afável o Mateus; e vendo que o outro não se animava a falar: — Então, homem, diga lá!
Adiantou o Silvério mais um passo, e hipocritamente, movendo os olhitos de camaleão numa indecisão cobarde:
— É que eu... sim... tenho ouvido para aí umas coisas... diz que a gente agora pro Santo António vamos espatifar esta caranguejola, ajustar contas com os grandes...
— E é verdade!
— E vai todos estão no segredo da manobra, todos têm papel distribuído...
— Todos, não.
— Só de mim ainda ninguém se lembrou! E eu, com a breca! Sim... eu mereço bem... creio que o tenho mostrado... não esperava semelhante ofensa. Sou caraçudo, leal... e então, Sr. Mateus, queria também... Sou tanto comos mais!
— Vale mais que muitos.
— Obrigado! São favores...
— Pois isso, para o aproveitar ainda não é tarde, — disse o Mateus, com tão patente sinceridade que pelo pérfido lábio do Silvério correu um sorriso indefinível. — Daqui a dias vamos entrar num período de implacável, de rasgada e decisiva atividade. — Uma insalubre avidez pregava agora, muito fitos no contramestre do insidioso Silvério os olhos. — E então veremos... na grande reunião que havemos de ter, no pátio do Piuza.
— E como hei de eu ir?
— A entrada há de ser por senhas. Conte você com uma, pois então! Adeus!
E, rapidamente, o Mateus tomou calçada abaixo; ao passo que o Silvério, com a expressão radiante, estacado uns minutos no mesmo lugar por um jubilo perverso, era súbito assaltado por uma impetuosa vara de cevados, que ao retirarem, enxurdeiros e grunhões, do mercado pela rua acima, com as recurvas presas brutamente aproando sob a faceira pendente, trombejavam com furor, indistintamente, a um e outro lado, a termos quase de derrubarem, esporeando-lhe os artelhos, erguendo-o pelo abdómen, o solitário, e tredo conspirador.
O velho palácio, pátio e quinta do Fiúza já não apresentava, ao tempo, mais que uns ténues vestígios da feição e traça primitiva. Ninguém agora, ao divisar, passada a rua do Livramento, à direita, aquele prédio banal e formidável, com o uniforme tom granada da sua frente monotonamente regrado, em cinco fiadas, por comedidos retângulos de cantaria lavrada, ninguém seria capaz de suspeitar quanto fora singularmente expressiva e diversa a sua fisionomia anterior; ninguém imaginaria que intensas crises de luta, que agitados períodos de revolucionário alento aquele discreto e inexpressivo reboco mascarava. Apenas no extremo da extensa fachada lateral pelo lado norte, e prolongando-lhe posteriormente a base, cambava para o exterior um escasso trecho, desaprumado e bolorento, de velha muralha entaliscada em alvenarias recentes, com a sua remota origem pitorescamente atestada na uniforme cor de sépia, no terroso aglomerado de concreções que eram como que a patine do abandono, os herpes da ruina. E, continuando-a ainda no mesmo sentido, seguia um grande espaço retangular, vazio de construções, cingido, como um cemitério, em muros brancos, o qual participava de um carater hibrido, simultaneamente horta e vergel, parte alqueivado e regado com esmero, parte guardando o seu talhe hierático de jardim, moldado em grossos paredões de buxo, maciçamente esquadrados segundo o classicismo frio e simétrico da arte do primeiro Império, circunscrevendo cascatas, fontes sem água, e náiades sem cabeça. E esta sua gélida imobilidade intimidava, entanguia os espíritos, derramando de roda desse fúnebre perímetro o retraimento e a solidão. Uma aura misteriosa de desconfiança e terror envolvia aquela abominada estancia. Instintivamente a multidão evitava o lúgubre recinto, a que andavam ligadas funestas e azarentas tradições.
Certo é que o palácio do Fiúza tinha sobejos foros para arrogar-se a glória de haver sido por excelência o solar do moderno movimento revolucionário em Portugal. Ali se fundara e instalara, e ali funcionou, desde 1858, durante muitos anos de seguida, a ASSOCIAÇÃO FRATERNAL DOS FABRICANTES DE TECIDOS E ARTES CORRELATIVAS, uma das primeiras cooperativas nacionais, ao depois convertida num centro de agitação dos mais ousados e mais fecundos. Ali celebravam as suas clandestinas sessões várias lojas maçónicas. Ali passaram de preferência a reunir, a contar de 1876, todos os conciliábulos de conspiradores, todas as fenianas ligas de resistência contra os poderes constituídos, presididas e insufladas as mais delas por Carrilho Videira. E de bem sérios e rijos conflitos rezava a lenda, valentemente batidos na sigilosa impunidade daquelas paredes misteriosas. Corria até que não se tinham limitado a meras controvérsias verbais, mais ou menos violentas mas no fundo inofensivas, esses surdos e rígidos combates. Pelo contrário, o travamento homérico das opiniões algumas vezes ali tivera por epílogo o beijo trágico da morte.
Quando este revolucionário e ingénuo industrial, amigo e confidente do Mateus, entrou na posse do palácio, a antecipada sugestão desses boatos novelescos fê-lo atentar n um corte que havia, feito no buxo, a poucos passos do caramanchão, quase ao fundo do jardim. Não era, evidentemente, uma falha devida a qualquer estiolamento eventual na vegetação, mas uma incisão traumática e artificial, feita muito deliberadamente. Valia a pena investigar... E foi quando, tendo mandado cavar no suspeitoso espaço, donde o raizame do buxo havia totalmente desaparecido, foram descobertas, logo a pequena profundidade, duas ossadas humanas. Corria boato entre o proletariado de Alcântara serem esses talvez os restos das duas incautas vítimas que em tempo tinham sido assassinadas no caramanchão e sumariamente enterradas ali. Que casta de homens?... Boquejava o povo — que dois esbirros do governo, aquele laço de morte atraídos por vingança. O Tranca-ruas porém teimava que tinha sido castigo imposto a dois traidores. — E o caso foi que a macabra descoberta, a qual teria sem dúvida feito avergar de apreensivo terror um homem mais envolvido no travamento burguês dos negócios, mais prático e mais prudente, a este não serviu senão para estimula-lo, para soprar o seu libertário furor de energias novas. Porque tomou o funéreo achado, não como um agoiro, mas como um providencial e incitador aviso, como o símbolo, que o acaso imperiosamente lhe fornecia, do carater da sua missão e do batismo cruento do seu destino.
Por isso, foi com o mais bravo e confiante entusiasmo que ele acolheu a proposta do Mateus, pondo-se incondicionalmente ao seu dispor.
Em a noite aprazada para essa magna conjura, logo ao acender dos candeeiros nas ruas tudo estava a postos. O dono do prédio passara nele incansavelmente todo o dia, a dispor e a regular as coisas. Dirigiram o Ventura e o Fagulha a organização do serviço de segurança. Um cordão de escolhidos esculcas se desdobrava desde a ponte de Alcântara até ao pátio, a intervalos cerrados; e uma outra linha análoga vinha convergir no mesmo lugar, trazida desde a Junqueira. Depois, no cómodo favor da noite, por várias ruas e travessas ao mesmo tempo, os convidados vinham chegando; mostravam a senha de admissão a quantas vedetas lho exigiam; e lá seguiam sem obstáculo ao longo do vigilante escalão e entravam. — Para mais, nem um só polícia nas imediações. Mesmo a propósito... tudo ajudava.
Assim sucedeu que, não obstante ser excecionalmente concorrida a reunião, e não se conhecerem nem de vista uma grande parte dos sócios neste secreto conciliábulo, todos se mostravam no entanto seguros de si, expansivos, contentes. Corria pelos grupos um ar de simpática confiança que facilitou as resoluções, aproximando as vontades. Viam-se ali, numa cordial promiscuidade indistintamente baralhados, os mais prestigiosos chefes socialistas, e representantes das classes dos torneiros, serralheiros, fundidores, tipógrafos, litógrafos, canteiros, jardineiros, tanoeiros, mecânicos em madeira, calceteiros, marceneiros, sapateiros, tecelões, condutores de carroças, cocheiros, cigarreiros, manipuladores de farinha, refinadores de assucar, corticeiros, oleiros, carpinteiros de carros, pintores, carregadores, fabricantes de carruagens, latoeiros, varinos e outros mais. Eram todos os baixos misteres e profissões. Toda a miuçalha, toda a escória. Todos, menos o Silvério, cujo vulto molangueiro não houve meio de distinguir entre os grupos, apesar do seu empenho em obter senha, — conforme notou o Serafim.
Ora a sessão foi, como bera poucas no género, movimentada e fecunda. Expuseram calorosamente os seus fins o Mateus e o Azinhal, cuja afogueante eloquência também o Zanaga, o Esticado, o Romão, o Tranca-ruas e o Cavalinho-mosca, na vasta sala ao acaso dispersos, pelos grupos parcialmente reforçavam. Em breve, soldava todos esses áridos corações o mesmo anseio irreprimível. Libertários, maçons e socialistas fundiram-se intimamente. Estes puseram à inteira discrição dos primeiros as vantagens da sua acautelada organização, da sua engrenagem estrutural, ao tempo tão disciplinada e tão metódica, com chefes de missão eleitos e comissões paroquiais era toda a cidade, funcionando ativamente. Era assim, quase de improviso, a grande rede subversiva que se lançava, garantindo um formidável poder de propaganda.
Mas, nesta altura, notou também o Serafim que um individuo crassoso e dúbio, a quem ninguém ali conhecia, um pouco prematuramente, saiu... Mal que o vira na assembleia, tocado por um instintivo rebate de desconfiança, nunca mais o seu olho de porco o tinha largado. Perguntava, mostrava-o a uno, mostrava a outro... ninguém lhe sabia dizer... Agora, quando o viu tomar à porta, foi-lhe inquieto na peugada. Recomendaria fora aos vigias que seguissem, que tomassem de olho o sujeito. — Porém, chegado ao largo, verificou com indignado espanto o tanoeiro que as imprevidentes sentinelas tinham todas desertado! A certa altura da sessão, julgando ainda a menor contingência de perigo por completo arredada, e atraídos ao pique natural do interesse, vieram deixando os seus postos e aproximando-se; por fim tinham entrado também na sala. Os primeiros arrastaram os outros; de sorte que, agora, aquele arriscado empreendimento estava por completo à mercê de uma surpresa. Um aviso a tempo, um golpe de mão ousado por parte da autoridade, e estavam perdidos!
Deste modo pensava, acobardado, o Serafim, com as mãos frias e o coração a galopar-lhe nas fontes, quando ouviu o indivíduo suspeito, parado a meio do largo, soltar um silvo especial. E logo, com uma presteza de magica, surdindo da sombra e avançando em circulo, ameaçadores o cautos crescendo da imobilidade sepulcral dos prédios, muitos vultos negros.
Num instante, o tanoeiro arrancou para dentro, e tresvariado, doido, começou a gritar:
— Rapazes! Num pronto, já... safem-se! Safem-se! Estamos cercados!
E com efeito. Antes que, na embaralhada precipitação do alarme, tivessem tempo os pávidos confederados, ruindo de tropel, de jorrar para a rua, viram na frente um grosso cordão de polícias, firmes e perfilado o sabre, tapando-lhes as saídas, barricando as esquinas. Num instintivo refluxo de terror, voltam atrás, espalham-se pelo horto, escalam os muros... também aí havia a mesma implacável matilha a cortar-lhes a retirada. A situação era portanto desesperada. Só chocando-se, lutando corpo a corpo, poderiam escapar. O Mateus dá o exemplo. Travam-se braço a braço. Freme na treva e raivoso alastra, arrefecendo o ar, um bravo bater de ferros, um encarniçado e fumante resfolgar que alvorota todo o bairro, que cava súbito um rasto de pânico pela cidade. As blasfémias, as pragas estoiram como bombas, ouvem-se apitos longe. Dois agentes da segurança caem, soltando ais de lástima, segurando as tripas. Um operário que marinhara por uma coluna de candeeiro, atraiçoado pela fragilidade deste supremo refúgio, viera balhar na calçada, horrorosamente queimado.
Por fim, a tumultuária onda conseguiu quase totalmente sumir-se na infiltração da fuga; e daí a minutos, quando a cavalaria da municipal chegou, apenas havia uma dezena de confederados retidos em mãos da polícia.