Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 15 de 21

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Amanhã

Capítulo XVI · Com a inexorável evidência das coisas necessárias…

 

Com a inexorável evidência das coisas necessárias e fatais, começava agora a sentir o Mateus que lhe não seria decoroso nem fácil recuar. O primeiro impulso estava dado; e decisivo e certo fora ele, estava-se a ver. Despedido em tão promissoras condições de êxito, que era corolário forçado a sua renovação. Bastaria só dora avante imprimir direção e alento à emancipadora violência da velocidade adquirida, para que toda essa imensa multidão de párias e de humildes lhe garantisse o triunfo ao seu ideal, a vitoriosa evangelização do seu plano. O ímpeto de reação contra a tirania for malista do Estado era mais que evidente. A cada momento ele colhia, da intensa unanimidade da corrente revolucionária que eletrizava os seus sequazes, as mais iniludíveis provas. Agora a justiceira imolação do Silvério fora o testemunho convincente da sua sinceridade. Tinha-os prontos e unidos, faria deles o que quisesse. — Não havia pois tempo a perder.

Intimidar, desnortear, abater o burguês pelo terror, — tinha comandado com insistência Bazeleerts. Por aí ia ele começar. Para o efeito contava com a famosa máquina infernal, prometida invenção do Anacoreta, e bem assim com as manipulações empiristas do João dos Unguentos. Mas a matéria prima para elas? Mas a base teórica, a conjugação científica dos elementos a empregar, quem havia de fornecer-lha, com a indispensável segurança e com o sigilo requerido?... — De repente o Mateus lembrou-se dos largos conhecimentos químicos do velho Gomes. E então, forte com esta descoberta verdadeiramente providencial, assim que anoiteceu tomou um carro em direção à Baixa, e sabidamente enfiou logo para a saudosa república da rua da Glória.

Subiu de esfuziote, mesmo ás escuras, a escada, tão sua conhecida; e, tendo batido, num momento defrontava em cima com a velha e boa Maria, no último patamar. Tinha esta conhecido o Mateus pelo andar e saudou-o com afetuosa familiaridade, abraçando-o; a sua pequenina figura espetral toda na sombra, e só ao alto fosforando a austeridade das lisas farripas brancas, a que arrancava clarões de fogo-fátuo a luarenta luz coada pela claraboia do teto.

— Adeus, tia Maria! — correspondeu carinhoso o Mateus, conchegando ao peito aquele feixe estoico de farrapos. — Quem está por cá?

— Olhe, está o menino aspirante, mailo o nosso Gomes... — E arrastando piedosamente os lábios:

— Coitado!

— Então?

Á comovida patroa chegou-se mais ao contramestre, e baixando discretamente a voz, numa compunção generosa:

— Não tem agora lição nenhuma... E vai, como já me deve seis meses de casa e tem um génio muito independente, não há quem o arranque do quarto, não quer comer!

— Sempre teve uns feitios...

— Ah, mas é que isto assim, meu amor, não tem jeito nenhum! Com tudo empenhado! Os rapazes vão lá, chamam-no, batalham com ele, mas não há meio... Já o quiseram trazer para mesa em charola, e nem assim! O diabo do homem!

— Isso é mesmo dele, — disse o Mateus, no íntimo contente.

— E é que me estica para aí assim, se continua a teimar! Veja o menino Mateus que lindo passo... Eu nem sei como ele vive! Faz hoje três dias que aquela alminha não prova não que nem uma sede de água. Valha-me Nossa Senhora!

— Ora vamos lá a ver!

Dizendo, o contramestre tomou à sala de jantar, onde logo viu, à esquerda, o retângulo iluminado da porta da alcova do Valentim. E direito a ela, enquadrando-se no limiar:

— Boa noite, Valentim!

— Olé! — exclamou, num pequeno salto de surpresa, o militar, estremecendo e dobrando-se todo, como a querer ocultar alguma coisa, sobre a camba mesa de velho vinhático a que abancava.

— Então, estudar, hein? — disse, naturalmente, o outro.

Mas o Valentim, com a expressão meio vexada, sem responder, dobrava mais o busto e despedia um sorriso singular ao amigo, um sorriso misterioso e envaidecido; enquanto procurava encobrir com as mãos um pequeno papel dobrado.

— Que é Isso, que tamanho segredo demanda?... — fez então o Mateus, num curioso estímulo, adiantando-se. — Estás a fazer versos?

— Não, filho... — corrigiu amigavelmente o outro, sempre com o mesmo esfíngico sorriso. — Coisa muito mais séria...

— Desembucha!

Então finalmente, depois de uma pausa, perante a imperiosa insistência do olhar do Mateus, o militar puxou-o a si, num gesto que era como que a antecipada catação da sua complacência, e aclarou:

— Ouve lá... Isto que tu aqui vês, é o meu maior tesouro... não o dava por dinheiro nenhum! É a primeira carta, ali, da minha amada!

— Boa vai ela! — exclamou trocista o contramestre.

— Não te rias, homem... não brinques com o que é grave! Sabe Deus à custa de que trabalhos, penas e receios ela conseguiu escrevê-la... Não vês que foi mesmo a lápis? — E agora, no progressivo calor da confidência, estendia alto a carta, junto aos olhos do amigo. — Passou-ma com custo, sabes? Insinuando-ma no forro do barrete. É a demonstração primacial do seu amor, como se fosse o seu primeiro beijo... adoro-a!

— Por alguma coisa havia dela começar…

— A carta é que começa a estar um pouco sumida, com especialidade nas dobras... e eu estou-lhe a avivar cuidadosamente os traços.

— Ó filho, isso é um sacrilégio! — disse o Mateus, na mesma sublinha irónica.

— Não é! Que eu apuro-me em conservar escrupulosamente a forma da letra. Só uns ligeiros retoques... Quero-a aqui bem nítida, inalteravelmente viva... o que aliás era supérfluo, porque o texto desta mensagem preciosa sei-o eu de cor, tenho-o gravado aqui!

E tendo esmurrado com enfática convicção o peito, já o amavioso militar voltava à sua lucubração piegas, aplicando em amorosos toques o lápis sobre o papel, com os olhos ardendo numa preocupação lamecha.

Quando tal viu, o Mateus deu-lhe costas, vituperando com desprezo:

— Meu rico, olha, sabes que mais?... Em vez de espada, deves por à cinta uma roca!

Mas, ao sair, lembrava-lhe agora, e num vago desgosto contrariava-o, a sua cena também com o leque de Adriana...

Na sala de jantar outra vez, entrou, mesmo ás escuras, pela porta do quarto do Gomes, onde a escassa toalha de luar que entrava pela janela, apenas deixava, muito indecisamente, aperceber um longo e arredondado vulto, moldado imóvel sobre a cama.

— Ó seu Gomes! Que diabo faz você aí? — disse o Mateus afetuosamente.

— Quem é o maçador?... — arrastou, num enfadado ar, uma voz fatigada e áspera, molemente saída da escuridão.

— Sou eu... o revolucionário, o terrível Mateus! — disse numa sorridente ironia o contramestre.

E logo com viva familiaridade o índio:

— Ah, areia... entra, entra!

Antecipando-se ao convite, já o Mateus tinha avançado; e plantado firme perante o vago escorço de homem que mal distinguia avolumando sobre o leito, continuava.

— Sou eu que venho verificar pelos meus próprios olhos as inverosímeis coisas que me disseram de você...

— De mim?... Essa agora!

— Que demónio quer isto dizer? — dizia, cada vez toais junto à cama, o Mateus, cruzando repreensivo os braços. — Temos um rival do Suci? Deste-te agora a ensaiar habilidades de faquir?

— Estou a fazer uma experiencia...

— Dura experiencia, pelos modos.

— Quero ver quantos dias é capaz um homem de estar sem comer.

O Mateus não pode suster um froixo de riso; e piruetando de troça pelo quarto:

— Mas o pior... vê lá se te acontece como ao burro da anedota.

— Olha que o caso não é para rir... — acudiu o Gomes, formalizado.

— Ah, isso é que ele é! Pelo menos, enquanto não chegamos ao lúgubre epílogo que pela ordem fatal das coisas lhe estaria preparado... e que eu de modo nenhum quero que suceda!

— Obrigado, rapaz...

— Ah, não me agradeças... Isto não é amizade, é egoísmo. É que eu preciso muito de você!

— Ó filho, estou ás ordens.

— Mas primeiro hás de comer... hás de me dar sinceras provas de que estás disposto a continuar a ser contado no mundo dos vivos.

Agora o Gomes, momentaneamente distraído, sentara-se na cama, e de joelhos ao alto, com as mãos à frente enlaçadas, tornara, com jovial interesse:

— Está bem... viverei o tempo preciso para bem te servir. Que mais queres?... diz lá!

— Sabe você o que eu quero? — aclarou o Mateus com intimativa, caindo em peso sobre o leito e todo dobrado para o amigo. — Quero a fórmula química para um explosivo!

— Deste agora em pirotécnico? — interrompeu o Gomes de chacota, a derivar.

— Não chalaceies...

— Olha que não é fácil jogar competências com o fogueteiro de Gaia... vens tarde.

— E tu a dar-lhe! Você bem me entende... Não se trata de fogo de vistas. Quero um explosivo que se preze... bem sério e bem eficaz... que me dê garantias de desempenhar honestamente a sua missão terrorista e homicida!

— Endoideceste!?

— Pelo contrário, nunca estive tanto no meu juízo como agora!

— Sucia de lunáticos! — murmurou filosoficamente o índio, afagando as barbas.

E ardidamente o Mateus, a convencê-lo, com o gesto copioso e a pupila felina a chispar na sombra:

— É que vocês não sabem, não fazem a mínima ideia do avanço em que as coisas estão... do odio vingador da canalha, da sua crescente, da sua implacável sede de extermínio!

— Faço ideia, faço... — disse o Gomes, abanando a cabeça em ar de mofa.

— Tenho-os todos aqui! — E, dizendo, fechava o Mateus a mão com arreganho. — Vão comigo para onde eu quiser! Pergunta ao Azinhal...

— Não queres então que eu morra, mas empandeiras-me para Timor... Olhem que amigo!

— A responsabilidade é toda minha... Indica-me um explosivo, anda! E não só a fórmula química, os elementos, mas o modo de os combinar. Quer-se a sua génese orgânica e a sua preparação. Coisa expedita e simples, que sem grande risco qualquer fármaco para aí me possa manipular. — E como o sábio não despegava do seu silêncio altivo: — Então?...

Por fim o Gomes, vagamente alheado, numa piedade generosa:

— Sim, meu rapaz... visto que isso te dá gosto, deixa estar... não tenho dúvida nenhuma. Arranjo-te talvez um picrato qualquer... Amanhã penso nisso.

— Arranjas, sério!?

— Já te disse que sim... — confirmou o Gomes com pachorra.

— Dás-me a tua palavra de honra?

— Dou-te quantas palavras tu quiseres.

— Ó Gomes da minha alma, obrigado! Mil vezes obrigado, meu grande amigo! Que bela inspiração eu tive... — E na quente impulsão do entusiasmo, novamente de pé, o contramestre erguia em peso de sobre o leito, estreitando-o com reconhecida efusão, o acobreado busto do amigo. — Obrigado! Obrigado por mim e por todos esses milhares de desherdades que na miséria e no opróbrio suportam iniquamente o estrago das calamidades sociais... Bem, amanhã não te largo!

— Então larga-me ao menos hoje... — disse bonacheiro o Gomes, desembaraçando-se com dificuldade do estrangulamento grato do amigo. E depois de uma pausa, tendo tomado fôlego, com singular expressão: — E agora deixa-me perguntar-te: para que é isso bom?...

— Ainda o perguntas?... — disse Mateus com sincero espanto.

Languidamente, o Gomes descaíra sobre o travesseiro o torso curto e redondo, e com a face apoiada no braço em angulo, fitando o Mateus com espiritual desdém, explicou de pausa, os dentes brilhando, muito brancos e iguais, num sorriso inteligente:

— Diabo! Eu no assunto sou leigo... Nunca fui ás vossas reuniões...

— Porque não tens querido!

— Apenas sei o pouco que de fugida posso forragear nos livros, ou no exame rápido à papelada do Azinhal... Mas por isso mesmo, porque estou de fora, é que disponho de condições de visão exata, de exame sereno e imparcial ao carater, à orientação, ao plano, ao alcance da vossa obra.

— E então?...

— E então o que vejo é que vocês dois, tanto tu como o Azinhal, são hoje uns ingénuos, uns rotineiros... são dois cegos e transviados caturras, perdidos pelas regiões lunares da sociologia... ridiculamente fora, — mais do que eu! — dos sentimentos e das ideias do seu tempo!

Aprumado num sobressalto de estranheza, o Mateus exclamou:

— Mas que demónio está você para aí a dizer!?

— É isto mesmo! — disse o outro com firmeza. — Digo-te que sois dois confessos retrógrados... nas opiniões e nos processos. Benza-vos Deus!

— Lá vêm você com esquisitices!

— Não há tal! Ó filho, repara bem... A era metafisica e heroica do socialismo passou. E o mesmo podemos dizer do anarquismo, que não é senão a sua expressão paroxísmica, a mais requintada e violenta integração do seu ideal revolucionário. Vê lá se eu digo asneira... mas quer-me parecer que esse atropelado período romântico da pandestruição, que vos fascina, que vos atraiçoa ainda, está sendo substituído, nos países mais francamente progressivos, por um período que eu chamarei crítico, mais manso e mais fecundo, todo de remodelação, de reorganização interior. Uma espécie de exame de consciência, um tudo-nada sacrílego, ás ideias consagradas pela catequização abstrata de Karl Marx e Engels. Não é isto?... Sim, há alguns anos já que essa velha crença, terrorista e mística, de um grande crack em que toda a sociedade devia ruir de uma assentada, podrida e rôta pela própria decomposição, deixou de ser do vosso partido um dogma, um credo vivo e militante, para se converter numa anotação arqueológica, uma respeitável curiosidade de museu.-

— O que aí vai!

— Ah, não tem dúvida nenhuma! Atualmente, essa formidável utopia da demolição geral não goza de melhores créditos perante a mentalidade humana, do que a conceção do desabamento teatral do mundo ao som das trombetas do Juízo Final!

— Mas onde diabo viu você isso? — atalhou, um pouco desconcertado, o Mateus.

— No que dizem, no que fazem, no que apregoam os teus mais afamados correligionários.

— Ora! — E o contramestre sacudia contrariado os ombros.

— Eu estou vendo os mais deles agora, sim... emanciparem-se do dogmatismo teológico, do formalismo tradicional do velho culto socialista, para procederem analiticamente, segundo a lição da experiencia, de acordo com a eloquência real dos factos.

— É um ou outro...

— É, entre outros, o teu grande, o teu adorado Bernstein. Sabes a história dele... Depois de ter enchido muito papel e de ter atordoado muito ouvido crédulo com a sua revolucionária propaganda, em tão perigosa evidencia se pôs que o condenaram a uns anos de desterro. O que tu precisavas... para abrires os olhos!

— Tomara eu! — suspirou o Mateus com olhos de mártir, olhando o teto.

— Vai o nosso homem teve de deixar a Alemanha, e a sua boa estrela encaminhou-o para a Inglaterra, país, pelos modos, cujo clima é fatal à cultura do haciltus das formulas doutrinarias e das puras especulações teóricas, as quais em sociologia são um perigo. Por lá andou, e o que viu?... É ele quem o diz... naquele seu livro... como demónio se chama?

— As Hipóteses do socialismo, bem sei...

— Exato! Sabes pois muito bem o que esse livro vale... e que ele estoirou nos arraiais marxistas que nem um obus carregado a dinamite! Foi uma razia completa! Lá se foram, entre outras, a teoria do valor, e a doutrina da concentração capitalista, que ainda de bem recente data tinha foros de axioma no socialismo internacional.

— Tem coisas muito discutíveis, — arriscou o Mateus, desdenhoso. E batido numa súbita impaciência, topando inquieto os móveis pela escuridão do quarto. — Mas com quem imagina você que fala! Puseste na tua ideia dissuadir-me?

— Ora vamos lá... — continuou mascando deliciadamente o índio, na consciência da própria superioridade de momento e tendo deixado sossegar o contramestre. — E afinal Bernstein veio simplesmente, como bom espirito pratica, relatar as singelas conclusões do que viu!

— É um cérebro paradoxal!

— E disse: que em vez da tal ferina luta de classes, esse clássico antagonismo entre o milhão e a fome, — de um lado o monopolismo da concentração capitalista, cada vez maior, e do outro por consequência a exaustiva exploração do proletário, — ele presenciara exatamente a evolução de uma tendência para o fenómeno contrário, quer dizer, a disseminação crescente da propriedade, tanto movei como imóvel, o formigueiro das iniciativas, a multiplicação das empresas, a vulgarização do capital. Ele diz que verificou, tomado a principio da mais ingénua surpresa, que por toda a parte o solo se desmembra... e que, assim como se estava fragmentando espontaneamente a posse e a exploração da terra, também a grande industria, longe de esmagar as pequenas oficinas, pelo contrário, até lhes favorecia e estimulava o desenvolvimento, criando nelas outros tantos auxiliares. De sorte que também aqui, em vez da concentração, da absorção, é exatamente o fenómeno contrário que se observa. De roda de cada grande estabelecimento fabril pululam e crescem constantemente, chocadas ao seu alento criador, as oficinas rudimentares, as pequenas indústrias subsidiarias. São os primeiros passos para a sua disseminação... E com o dinheiro, finalmente?... Quererás negar que por igual este tende a democratizar-se, dia a dia, pelo barateamento do juro e pela pulverização associativa do capital? — E como o Mateus, numa mordente perplexidade, permanecesse mudo, com uma impagável intenção irónica o índio acrescentou: — Que, isto é, tu afinal sabes melhor desta coisa do que eu... Se tenho vomitado heresias, perdoarás!

— Mas que heresias! — exclamou com superior desdém o visionário.

Provarás...

— Estávamos arranjados, se nós íamos agora a regular-nos e a fazer obra pelas superfetações cerebrais de meia dúzia de lunáticos, — estes é que o são — como esse tal Bernstein, como o belga Vandervelde, que não quer ouvir falar em questões de salários, ou como o inglês Hindman, que acha as greves prejudiciais, ou como o italiano Turati, que se pronuncia com furor contra a propaganda pelo fato e todas as correlativas demasias terroristas... São uns reles oportunistas, são uns tímidos. O nosso credo é outro!

— Mas o critério certo é o deles!

— Quer talvez você negar que sem a violência e o terror, sem o individualismo mais feroz erigido em dogma, a sociedade é suscetível de avançar uro passo?

Soerguendo manso o busto, o índio encolheu incredulamente os ombros.

— É uma calamidade, é um mal, bem sei... — prosseguiu com veemência o Mateus, — mas era mal inevitável, fatal, necessário!

— Já ninguém que se preze pensa hoje assim... e acredita nisto, meu velho, — disse dogmaticamente o provecto Gomes, que agora se sentara, atirando a custo as pernas para fora da cama, e carregando a mão em peso do ombro do amigo. — Tu sabes... hoje a observação direta do que dá prova, não é do alastramento do proletariado, mas, pelo contrário, da extensão e da difusão progressiva da propriedade. A lição científica dos fatos traz bem à evidencia que essa tão apregoada e tão mal compreendida luta das classes, a vossa fobia predileta, repito.

é apenas a alucinada ficção de um mau sonho, a envenenada secreção de espíritos doentios... uma pura figura de retórica.

— Não digas isso!

— Ah, isso é que é... e a mais ingénua, a mais falsa, a mais ridícula de todas!

E, dizendo, à beira da cama o índio, de tíbias pendentes e raspando com as pontas dos pés o sobrado, procurava alcançar as chinelas sob a cama. Depois, na quente impulsão do diálogo, erguendo-se:

— Cá o que a minha razão me diz é que, pelo menos no campo económico, que é afinal, socialmente, o que mais interessa, esse revoltante e odioso antagonismo não existe.

— É uma contumaz cegueira essa! — exclamou, sinceramente irritado, o contramestre, cruzando os braços com violência e demandando num agastamento o vão da janela.

— Será... Mas o certo é que eu não consigo enxergar a tal tão radical e tão infamada antinomia entre a mão calosa do operário e a arrogância egoísta do pequeno burguês, estúpido e avaro. São tudo coisas para rir, à força de estafadas e gastas no epitético zabumbar da vossa propaganda!

— Só a minha paciência...

— Que eu não sei nada disto... é o teu Bernstein quem mo diz! — insistia com espiritual ironia o Gomes, que tinha vindo ao vão da janela também, apoiados os rins contra o parapeito, e a sua bela cabeça grisalha acesa pela carinhosa toalha do luar em doces cintilações de prata. — Mas não há, não... nem há diferenças de essência ou carater, nem anomalias profundas de condição, na passagem de um para outro desses dois degraus na escada social. Repara que a transição está-se fazendo gradativa e suavemente, dia a dia, sem um sobressalto, sem um atrito sério.

O proletário, o pária, o miserável de hoje, se acerta em viver com parcimónia e trabalha com industria e tino, em pouco tempo junta um pequeno pecúlio, valoriza em bens imoveis o rendimento do seu coeficiente individual, e ei-lo feito um burguês… Subiu um furo na escala, sem abalos nem cruezas... sem precisar de matar nem de roubar, melhorou de situação. E, assim, como queres tu que os que vivem do salario invejem e odeiem uma condição que eles sentem tão próxima da sua? Cuja relativa prosperidade é ao seu esforço tão fácil de alcançar?

— Tão fácil que se torna preciso fazer correr ondas de sangue para o conseguir!

— Mas onde vês tu isso?

— Em toda a parte!

— Não digas asneiras! A tendência hoje das sociedades vivas é toda, não para a eliminação da classe média, mas era o seu engrossamento progressivo à custa da incorporação cada vez maior do elemento popular. Todo o mundo burguês! — eis a fórmula redentora do futuro.

— Meu Deus, que heresia!

— Abre os olhos, pateta! O carater dogmático, sanguinário e feroz do teu querido anarquismo deu em droga... é hoje uma coisa sem proveito e sem sentido. Pertence ao período teológico da seita e por isso, como o Jeová dos católicos, liquidou!

— Eu nem te contradigo... — murmurou o Mateus com doçura. E como visse a grossa boca do Gomes desfrisar-se num sorrir de desdém: — Não porque não tivesse argumentos de sobra...

— Bem sei...

— Mas, em suma, quero-o poupar a você, que não come há três dias...

E, bem contra o seu querer, o Mateus ficou-se a contemplar esquecidamente, numa admirativa hipnose de respeito, a encanecida cabeça do contraditor, que o cansaço fizera languida descair contra a vidraça. E por algum tempo assim permaneceram os dois, reflexivos e mudos frente a frente, cada um alheado na tirania obsidiante da sua ideia, contidos ambos no mútuo acatamento pela sinceridade e o fervor do pensamento alheio.

Por fim o índio aprumou a cabeça, devagar, e forcejando reanimar-se:

— Mas, seja que não seja... dado mesmo que sem esses providenciais esticões, sem essas trágicas violências não possa haver renovação possível nas fases sociais, diz-me lá — quê ganham vocês com isso?

— Pomos as coisas no são! Damos a cada um o quinhão de felicidade a que tem direito, melhoramos finalmente as deploráveis condições atuais do viver coletivo.

— Deixa-me rir...

— O quê! Você duvida?...

— Não duvido... tenho a plena certeza da ineficácia do vosso plano, o qual seria ridículo se não fosse sanguinário.

— Ao menos sempre fazemos mais do que os que se anulam na inércia de um imobilismo impassível e cético, como este seu!

— Como tu te enganas!

— Esse indiferentismo, essa filosófica passividade perante os conflitos materiais da existência, será uma coisa muito comoda, mas de vantagem nula até mesmo para vocês!

O Gomes, com intimativa, voltou a poisar a mão no ombro do amigo, e, pausadamente sempre:

— Ouve... Olha que quando o homem menos mostras exteriores dá de atividade, é exatamente quando a sua ação é mais intensa e a sua atividade mais fecundai O pensamento é o primeiro estalão do nosso poder, o propulsor essencial da vida; e todavia não tem órgãos exteriores, ninguém é capaz de lhe ver do maquinismo as molas delicadas... Sentes tu por acaso, ou alguém dá conta do fenómeno íntimo da elaboração das células? Pelo contrário. E até mesmo, passando das células aos órgãos, sabes muito bem... órgão que se não sente é um órgão perfeito. — Pois para que o espirito do homem avoeje ás mais altas regiões até onde é capaz de erguer-se, torna-se preciso que pelo repouso se deslacem as suas prisões materiais. A inação é a felicidade... porque por efeito dela as nossas células orgânicas, aliviadas do trabalho propriamente material e contingente, podem então, espiritualizando-se, exercitar a porção imaterial da sua labuta transcendente e misteriosa. E só assim nos tornamos grandes, só assim progredimos; porque só também é este o modo de libertarmos e erguermos a nossa compreensão da relatividade dos fenómenos à sua origem, ás suas causas... da colisão efémera dos fatos à eterna harmonia das leis!

— Ou você não tivesse costela árabe!

— Eu por mim falo, neste momento... Não imaginas, meu rapaz! Anteontem, ontem mesmo, sofri muito... As solicitações da materialidade orgânica do meu ser torturavam-me por uma forma horrível. Tinha em cada molécula um estomago; e este era como uma grande ventosa interior. Mas, depois, não... Á medida como vão passando as horas, a carne como que se afeiçoa e resigna à nova situação... apura-se, subtiliza-se, já me não apoquenta com as suas reclamações grosseiras... e ao mesmo tempo o cérebro afina-se também, faz-se no meu espirito uma claridade de oráculo, as ideias saltam e rompem em arestas de evidência, em proféticos lampejos. Já nem tenho debilidade, nem fome... e vejo muito melhor!

Agora, no inspirado alor da sua prédica, toda a figura da estranha personagem vibrava persuasivamente. Alongado e hirto como um acobreado muezzim, envolvia-se todo, friorentamente, cingido o gesto, na coberta de ramagens que trouxera da cama, e apenas os olhos de fogo dardejavam inquietos sobre o bárbaro aparelho desta antecipada mortalha.

A termos que o Mateus, que o contemplava deliciado, exclamou:

— Por pouco não me está você a invejar a sorte dos seus patrícios fakira...

— E tomara eu! — acudiu logo o Gomes, muito convicto, cingindo-se mais na colcha, e agora imóvel como uma múmia, cerrando beatificamente os olhos. — Tomara eu poder atingir essa acuidade estranha de visão, esse incompreendido e hipnótico poder, que lhes dá a chave do universo e o segredo da sucessão secular das coisas! É um fato averiguado que os fenómenos chamados sobrenaturais só se nos tornam acessíveis pela emancipação, quanto possível completa, ao despotismo nocivo da matéria. O adormecimento fisiológico dos sentidos dá-nos os sonhos, a sua narcotização psíquica faz-nos videntes. Se a pudéssemos tornar absoluta, seriamos iguais a Deus! — E carinhosa, suasivamente, soltando a coberta e afagando uma das mãos do Mateus, que não cessava de o admirar, o fanático e extenuado Gomes continuou: — Agora me estou eu a lembrar... era bem pequenino: tinha ido a Pendjab com o meu avô, quando ao chegarmos, de tarde, vimos na calcinada planura que circunda a cidade, uma grande multidão rodeando cheia de interesse um escasso conto negro. Aproximámo-nos. Era um faquir que momentos antes ali viera estabelecer um dos seus postos errantes de meditação, e, de cabeça mergulhada na terra, erguia a pino no espaço o tisnado tronco, nu e imóvel como um arbusto seco, com os pés no ar. Apenas uma ligeira faixa de linho lhe cingia os rins. A perna direita, dobrada em angulo de joelho contra o solo, servia como que de escora à outra, que se mantinha tesamente alongada e firme, projetada numa inalterável tensão muscular. E de rojo sobre a terra, como duas cobras repletas, dobravam-se também imovelmente os braços, cheios de rosários, manilhas e pulseiras.

— Viu você isso?...

— Eu mesmo! Meu avô já dali não arredou pé... Tomado do mesmo supersticioso interesse da multidão, cruzou as pernas e sentou-se, mandou-me com várias incumbências à cidade. Depois, quando eu regressei, foi então ele; mas deixando-me a mim de atalaia ao fenómeno. E desta sorte nos fomos invariavelmente revezando; desta sorte eu tive ocasião de pessoalmente verificar, a ponto de arredar as últimas dúvidas do meu espirito, a absoluta sinceridade, a correção, a obstinação e a fé naquele sobre-humano sacrifício... Passei muitas horas ali assim, entre as gentes de toda a casta, em torno do padecente convocadas, por um sentimento que era um misto de desconfiança e adoração, de precaução fiscal e de fascinação religiosa; pois nunca vi, nunca surpreendi o mais insignificante movimento, a mais subtil tentativa de burla ou a mais ligeira contração de dor na rígida insensibilidade daquele corpo petrifeito, daqueles nervos anestesiados e inteiriços pelo esforço da vontade. De roda ouvia-se o compenetrado marmotar das orações, choviam a quando e quando as esmolas, improvisavam-se pequenas merendas barbaras, verdadeiros picnics do sertão... mas a tudo era absolutamente alheio aquele morto aparente, imóvel e hirto sempre, sem tomar alimento, sem se desconcertar, sem se queixar, na serena celebração do sacrifício que voluntariamente se impusera!

— E depois?...

— Depois, finalmente, ao cabo de cinco semanas, a perna estendida estremeceu, começou a dobrar-se lentamente... a outra distendeu-se debaixo dela, as mãos apoiaram-se, com os braços em abobada, sobre a terra, houve como que um espreguiçamento... e a estranha cabeça do faquir apareceu, sacudindo a humidade dos cabelos corredios, abrindo uns vagos olhos-pávidos de estremunhado... E vai ele então, enquanto recolhia as esmolas, predisse dois anos de fome, predisse a morte de um rajá, não me lembra donde, predisse mais a futura sorte de um ou outro dos presentes... e tudo saiu certo!

— É curioso, é... Não se me dava de ver também.

— Mas isto não é nada! São realmente de assombrar os resultados a que por vezes chegam estes iluminados apóstolos do ascetismo e do sofrimento físico, sectários ardentes de Buddha, que comungam de gala na miséria e acham um volutuoso prazer no sacrifício há djorghis que aguentam indefinidamente violentas aposturas como essa que eu presenciei; que são capazes de se manter inalteravelmente em pé, dobrados e torcidos, mergulhados na terra, ou de braços para o ar, não durante semanas, mas durante anos... a ponto de se lhes atrofiarem então os membros, de se lhes anquilosarem às articulações, e elefantisarem-lhes o corpo anémico toda a casta de deformidades. Pois não morrem, não embrutecem! Antes desta sua formal abdicação do mundo físico parece que mais iluminados e rijos emergem para a perfeição moral... Por isso te digo: o nosso mais perfeito estado é o repouso extático, porque faculta o livre exercício da porção mais nobre e santa do nosso ser... porque prepara a transição para a outra vida, restitui ao seu trono espiritual a alma e aproxima o homem do Infinito.

— Se todos nós fôssemos a pensar assim, — acudiu trocista o Mateus, — estava o mundo bem aviado!

— O que é que lhe faltava?...

— Faltava-lhe tudo! Ora vamos nós todos a pôr-nos aí assim, de pernas torcidas como saca-rolhas e braços especados para o ar, à espera de que as unhas nos furem a palma das mãos, e eu sempre quero saber quem há de estudar, lutar, fazer caminhar na sua natural progressão as coisas!

— Quer não, que o vosso progresso vale de muito! — atalhou o Gomes com vivacidade. — Com todos os vossos inventos e perfeições vocês arranjaram isto: o homem nunca chega a morrer da morte fisiológica, mas muitíssimo mais cedo! Dá prematuramente cabo dele a civilização. A maior parte das nossas doenças são verdadeiros suicídios a que nos impele o excesso das comodidades, a multiplicidade e intemperança, dos gozos, a tirania dos vícios. Sob este ponto de vista, que é o essencial, o homem primitivo era-nos infinitamente superior... O exemplo de Matusalém não é só um fato tradicional, é um símbolo; é a condenação mais fulminante ás condições do viver atual. Repare você: todos os animais vivem, termo médio, um período aproximadamente equivalente a oito ou dez vezes o ciclo da sua formação completa. Ora, aplicando ao homem esta lei, como o nosso inteiro desenvolvimento não se atinge antes dos 25 anos, segue-se que, segundo as leis da Natureza, cada um de nós devia viver, pelo menos, 200 anos... Estamos reduzidos à quarta parte! Vê lá tu que linda coisa! É no que deram as vossas eletricidades, as vossas indústrias e artes, as vossas filosofias: abreviaram-nos estupidamente a vida... E cada vez hão de abrevia-la mais!

— Estás então apologista da inação nirvânica?

— Completamente!

— Já sei... tudo isso é escusa para me não servires.

— Não te entendo...

— Não me queres dar a fórmula do explosivo.

— Ah, dou... Que me faz a mim isso?

— Falas verdade?...

— Já te disse que sim... No meu ponto de vista, é-me absolutamente indiferente que dês cabo de um homem, ou de dez, ou de duzentos!

— Para salvar todos os mais, note você bem! — completou o Mateus com sinceridade. E depois de uma pausa, com grande intimativa, muito chegado ao índio, que não deixara ainda a janela: — Mas que quer você afinal dizer com esse filosófico desdém, com todo esse pessimismo?

— Quero dizer que da verdadeira civilização os estádios quem vos tem dado, quem vos tem ensinado a marcar por esses séculos fora, ao longo do tedioso e agro caminho da vida, tem sido o Oriente, tem sido o país clássico do sonho, têm sido os meus! — E agora aprumado e solene na indecisa penumbra do quarto, o Gomes transfigurara-se. Tendo deixado cair a frágil colcha que o envolvia, já sem frio e sem resguardo, deslocava num convicto furor, todo em largos gestos, os braços grossos e negros, a voz saía-lhe impetuosa e quente da mais persuasiva convicção, e um grande orgulho de casta lhe sacudia a cabeça num arreganho altivo e palpitava na ansia ardente dos olhos em chispas de triunfo. — Vocês sem nós não valem nada... foi a minha raça que os educou, que lhes abriu os olhos, que lhes deu a mão! A vossa tão apregoada civilização é uma obra toda de empréstimo, é um pálido plágio da nossa. O vosso progresso, a vossa vertiginosa atividade são filhos do imobilismo transcendente e fecundo dos meus irmãos... Oh, como esta nobilitante evidencia me consola! Tudo quanto o Ocidente possui e conserva de fundamental, de perdurável, de útil, de bom e necessário, a verdade é que lhes veio de nós. Vê lá tu: a religião, a moral, as línguas, até o feitio poético das lendas, o modo como cultivais os erros da superstição, tudo nos devem... tudo generosamente lhes viemos nós trazer!

— Isso dito assim em absoluto é uma afirmação um pouco ousada... não pode ser! Eu aceito o fato da vossa hegemonia moral e mental, mas só até um certo ponto. Tutelaram-nos a infância, é certo; mas depois que a emancipação social do Ocidente se afirmou, que de brilhantes e formidáveis conquistas não temos nós feito em todos os ramos da atividade humana! Que progressivo e largo afinamento, que avanço colossal!

— Venha um exemplo!

— Como deploravelmente vos deixámos já ficar para traz!

— Prova o que dizes!

— Ó homem! Então a reconstituição politica, jurídica e moral da sociedade no período mediévico, por efeito do cristianismo?

— Não fizestes mais que repetir os antigos ciclos épicos, já descritos nos Vedas; assim como também o nosso Buddha foi o verdadeiro, o inédito inspirador da doutrina do vosso Jesus.

— E então o período das descobertas?

— Foi um fenómeno grosseiro e subalterno, sem ideal, sem causa subjetiva... uma simples questão de mercantilismo, pelo seu carater material muito longe e muito abaixo da natureza essencial das coisas. Passou então a sociedade a gozar mais, a conhecer-se melhor... mas continuou a falar, a julgar, a amar, a orar da mesma forma.

— E a revolução francesa?

— A mesma coisa. Mudastes a direção, o ponto de aplicação das vossas forças, mas o seu centro gerador, a sua causa, a sua origem subsistem as mesmas... E subsistirão sempre, meu filho, enquanto nós quisermos... — continuou profeticamente o Gomes, agora ralentando a frase e emitindo as palavras com esforço, dobrado ao jugo indominável do cansaço. — Vós aqui sois como os clarões de agonia do sol no ocaso. Sois uns tristes filhos da matéria e da sombra... não tendes o gosto, a compreensão espiritual da vida, e por isso vos falta o alento criador! Enquanto que, lá longe...

Mas, por completo vencido da fadiga, o extraordinário índio, de repente, emudeceu; vergaram-lhe as pernas, a cabeça pendeu para o peito num delíquio; e teria caído desamparado se não acudisse solicito o Mateus a segura-lo, reconduzindo-o com carinho ao leito e aconselhando:

— Ora vamos, caladinho, agora!

— Pois sim... mas hei de primeiro repetir e deixar bem assente que vocês aqui só conseguirão melhorar de condição, não a poder de greves e explosões de estúpidos petardos, mas quando nós quisermos! — E, já deitado outra vez, sorria de vaidade.

— Quando o novo verbo redentor chegar desse meu país estremecido... o maravilhoso berço do sol e da virtude, onde solitárias as almas podem sonhar tranquilas, e onde a vida não tem segredos para nós porque o nosso amor por ela é todo impregnado de religiosa ternura, é feito exclusivamente de curiosidade e de esperança... Mas que demónio tenho eu?... Foge-me a vista, arde-me como uma brasa, aqui...

— E apertava com as mãos o estomago. — Diabo! Vieste-me tirar do meu sossego e o caso é que agora tenho fome... para que me fizeste falar?...