Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 18 de 21

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Amanhã

Capítulo XIX · Já por esse abril em fora, numa…

 

Já por esse abril em fora, numa linda manhã, clara e cantante, erguera-se o Mateus um pouco tarde, num amnesiamento animal, rendido de fadiga. Abatia-o um grande peso inerte, sentia-se cansado. Durante as últimas semanas a sua atividade atingira um desdobramento inverosímil. Ainda na véspera, quase toda a noite levara em claro, primeiro discursando e ouvindo, dando instruções e distribuindo conselhos, no conhecido centro da rua do Bem formoso; depois finque e esperto ali assim, à sua banca de trabalho, amadurando resoluções e espertando energias novas. De sorte que, ao deitar-se, tomara-o uma prostração mortal, que era a logica reivindicação do seu organismo extenuado. E agora o seu despertar fora arrastado e lento, como se, falto ainda de repouso, o corpo lhe quisesse naquela madorna de réptil furtar-se indefinidamente à vida. — Para mais, era domingo, não tinha que fazer na fábrica. Isolar-se-ia... e bem o precisava, que tinha tanto que concertar e prevenir! Ergueu-se devagar, com o cérebro toldado ainda e confuso, sujo dessa como que saburra espiritual que se segue ás noites mal dormidas; e, tendo notado a amenidade do dia, depois de fazer as suas elementares abluções matinais, foi à janela do norte, junto aos pés da cama, e abriu-lhe de par em par a vidraça. Atraía-o epicureamente o estimulado brilho que ele via fora vivificando a Natureza, queria entregar-se também à embriagante irradiação do exterior. Não era agora só a sua carne quê reclamava a volutuosidade do remanso, mas também a sua alma anceiando pela beatitude do prazer... E, fora, o espetáculo era realmente soberbo, desafiava pela sua maravilhosa e ridente harmonia uma contemplação enternecida. — O sol ia alto e chocava sob a sua aza de oiro o palpitante renascer das coisas. Pelo suave ladeirar da encosta que se erguia na frente do Mateus, jorrava abundantemente a seiva, espolinhava-se a vida alegremente, num luxuriamento pagão, em plena orgia de tons e de perfumes; exuberante sinfonia em todas as imaginadas gamas do verde, ora cavada em bucólicos ninhos de sombra, ora clara e vibrante nos arredondamentos tenros do arvoredo, que o sol toucava docemente. Pelo sopé das árvores os tabuleiros, verdes também e lançados ao acaso, alfombrando de capricho a terra, tufavam com arrogância, arterializados de cicas e begónias, debruados de hera, fetos, catos, violetas e hortênsias. E a cambiante harmonia deste mar de esperança, que vestia totalmente aquele espaço imenso, — desde a orla crepuscular da fábrica, em baixo, até ao antigo moinho, improvisado em mirante ameiado, que coroava a colina, com as suas bandas escarlates a rir por entre os pinheiros, — toda era nitidamente polvilhada por uma grande variedade de cores, em pinceladas leves, cores delicadas e saltantes, cores que davam frescura. Predominava o branco, riscado primeiro pelos troncos das árvores, bastos e afusados como tubos de órgão, — os troncos brancos, bandados de manchas de cetim, das ginjeiras, o branco seco das faias, o branco sujo dos plátanos, de muitas variedades de ficas, das magnólias e das tílias; depois, o branco marmóreo ainda de algumas camélias (plena alba), as radiolas minúsculas dos pitósporos mitecus, o recortado deslumbramento dos malmequeres, e a ténue e efémera inflorescência, branca também, das macieiras, pereiras e nespereiras, embebedando estas o ambiente com o seu perfume pecaminoso e ardente. Mas havia também a macieza aurorai das roseiras, o sangue das azáleas, o luto dos goivos, o oiro petulante dos amores-perfeitos, o esmaiado verde das faias e ulmeiros, e a carnuda flor magenta dos pessegueiros e das olaias, que com uma parcimónia de japonismo galante apenas peneiravam ao de leve, aqui, ali, em finos matizes, a alva bordadura daquele amplo brocado verde.

Deliciadamente, o Mateus enristava a alma e deslaçava os nervos no saborido exame deste trecho de paisagem encantadora. Havia estalidos genésicos pelo bosque; como que se via, instante a instante, crescer e definir-se no azul o emaranhado recorte das folhas. O cantado trinar das águas confundia-se com o fluido gargantear dos passarinhos. E a extenuada, a visionária alma do Mateus, triste e abatida de tanto considerar em misérias, farta de lutas, endurecida ao perseverante e condoído atrito dos problemas sociais, sentia agora, um santo e balsâmico prazer em abandonar-se ao acariciador amplexo desse iluminado poema de paz e de harmonia. Um como que espreguiçamento languido amolecia-a. E, momentaneamente arredado da sua habitual preocupação, todo o seu empenho era agora aligeirar o ânimo, alhear-se da terra e dos homens, emancipar-se, esquecer... e numa promiscuidade feliz consubstanciar-se com a suavidade esplendorosa e cantante dá Natureza que o rodeava, — à semelhança desses rútilos insetos que ziguezagueando via na folhagem, como numa tapeçaria verde alfinetes de oiro rolando, encabeçados de pedras finas.

Nesta sua panteísta adoração, os olhos extáticos do Mateus foram por fim poisar sobre a opulenta trepadeira, toda em fartos recamos de glicínias, pendentes e roxas como cachos, que fazia moldura e toldo, à esquerda, sobre a última sacada do solar. E logo, daí a instantes, como que obedecendo ao sugestivo império do seu desejo, a longa figura branca de Adriana apareceu, — com um nobre corte clássico sob aquele magnifico toucado de corimbos de veludo, — baixando-lhe a cabeça afetuosamente, mandando-lhe um aceno familiar com a mão.

O Mateus fez-se pálido. Acobardou-se e desviou com humildade os olhos, como se tivesse cometido uma indiscrição, um ato censurável. E tendo correspondido maquinalmente ao comprimento, largou a janela, deu algumas voltas ambíguas pelo quarto... até que por último, dócil porventura ele também à vontade alheia, tomou o chapéu de relance, foi direito à porta e saiu.

Cá fora, na orla da pequena clareira, vagueava já a patrícia figura de Adriana, risonha e complacente, dando indicações ao jardineiro que lhe andava colhendo flores. Vinha singela e despretenciosamente vestida, toda em fustão branco, — bolero, saia e Colete afogado, — em cabelo; e o ígneo reflexo do forro da sombrinha de seda aquecia a austeridade esfíngica do seu rosto, fazendo-o mais comunicativo, mais humano.

Mal o contramestre apareceu, foi ela desta vez a primeira a falar.

— Bom dia, Sr. Mateus... Ora até que enfim!

— Apertou-lhe a mão com afabilidade e continuou:

— Alguma vez havia de dar mostras de que é um homem de juízo.

— Obrigado, minha senhora! — balbuciou desconcertado o Mateus. — Mas não percebo realmente... sim, não posso atingir...

— Pois olhe, é bem fácil!

— Perante o seu espirito.

Adriana aproximou-se e de busto à frente, arrastando amimadamente a falia:

— Quero eu dizer que fez muito bem em resolver-se a deixar por algum tempo os seus cuidados, essa atormentada vida que leva de meditação e estudo constante, para vir fora gozar a excecional amenidade deste dia encantador.

— É que gozos destes, minha senhora, apesar da sua simplicidade e inocência, são-me por via de regra defesos.

— Porque os não aprecia... já sei.

— Porque os não posso ter! É outra a minha missão.

Adriana teve um movimento incrédulo. E insistindo o Mateus, mas com disfarce:

— É a verdade, minha senhora... A direção da fábrica dá-me muito que fazer.

— Só a fábrica?... — disse Adriana, num risinho inteligente.

— Pois que mais há de ser?...

— Deixe-se de ocupar tanto o seu coração com o mal dos outros, viva um pouco também para si... Nem eles lhe merecem tanta canseira!

— Pois Vossa Excelência sabe!? — rompeu de salto o contramestre, aterrado, num espanto súbito.

E Adriana, sempre a rir, com dissimulado garridismo:

— Eu não sei nada... Apenas suponho, imagino... — Depois, muito significativamente, com um lampejo casto no olhar e o seio inquieto: — É uma suspeição de instinto... esta faculdade de adivinhar que nos trazem as coisas que nos dão interesse...

Houve uma pausa de enleio. Sem confiança em si próprio, sinceramente o Mateus desejaria ver-se a cem léguas dali. Em frente dele Adriana, que, agora ao recato das árvores, fechara a sombrinha, garatujava distraída no saibro acamado do carreiro. Veio então o jardineiro adonde a ela, com uma molhada de flores na mão. Adriana disse-lhe:

— Olhe, leve-mas para casa... que as ponham no meu quarto... assim mesmo em molho. Eu depois as disporei. — E num gesto breve: — Vá andando!

Dobrado numa grande reverência, o jardineiro partiu; o que fez aumentar no contramestre a contrariedade, o receio, o molesto pressentimento não sabia bem dizer-se de quê... Mas, implacavelmente insinuante, tomando ao lado dele, Adriana continuou:

— Precisamos convencer-nos disto, meu caro amigo : a vida é já de si coisa bem triste, não nos fica mal tentar aligeira-la, indo discretamente em cata do prazer... Uma distração honesta que se procura, é como um vaso de flores que se traz para cima de um movei. Nada mais natural!

— Para quem tem tempo de pensar nisso.

— Todos têm! Até os mais degradados e ínfimos seres... até os doentes nos catres dos hospitais e os aleijados à torreira do sol na orla dos caminhos.

— E então as nossas obrigações?

— Obrigações... — contestou ligeiramente Adriana, encolhendo os ombros. — Cada um tem as que quer! Olhe, meu caro, uma obrigação bem grave tinha eu para hoje, e mais deitei-a provisoriamente para traz das costas. E não estou arrependida… Sabe o que foi?

Sem responder, o Mateus abriu os olhos com interesse. Adriana explicou:

— Não fui à missa! A boa da minha mãezinha lá foi, ela só com o padre Sebastião, a resmungar... mas logo perdoa-me, há de me dar razão... No seu claro espirito bem calcula que a assoalhada e quente limpidez deste dia valem mais que o arrastado Cantochão das Comendadeiras, naquela igreja escura e húmida como uma enxovia, — não é assim?

— Mas não terá o mesmo valor teológico... — arriscou irónico o Mateus.

— Ora essa! Então não é tudo obra do mesmo Deus?... Eu creio que o adoro tanto, admirando este deslumbrante alento criador que aqui nos rodeia, como fanaticamente imobilizada sobre o degrau bafiento de um altar.

Encantado e surpreso por esta insistência carinhosa de Adriana, o Mateus mantinha-se cautamente silencioso, com os olhos semicerrados e os lábios numa contração beatífica de prazer. Extasiava-o e apavorava-o ao mesmo tempo a benévola atitude para com ele daquela criatura superior. O temor da sua rendição pela sensibilidade, o ignominioso espetro da sua defeção moral, punham-no de atalaia e faziam-lhe acolher com um frio de desconfiança e de receio a espontânea solicitude daquela alma demandando em demasias de fraternal atenção a sua.

Mas Adriana, adivinhando e saboreando essa luta interior, continuou docemente:

— O Sr. Mateus, segundo eu imagino, é um temperamento excessivo... o que não depõe senão no seu favor. Mas prejudica-o! O seu generoso ideal atraiçoa-o. Dá-se todo ao bem dos outros, em vez de viver para si.

— Cada um é para o que nasceu!

— Ora não me faça rir... Isso é um transparente sofisma a pretender justificar a sua simpática mania altruísta. Sinceramente, não vale a pena. Seja prudente, modere-se. Tem coração de mais... Poupe-o, aplique-o melhor.

— Posso afiançar-lhe, minha senhora, que, boa ou má, a minha norma de vida é o fruto da experiencia e da meditação de longos anos.

— Muitos é que não podem ser... — contestou Adriana, num lisonjeiro sorriso, com doçura.

— E porquê, minha senhora?

— Diz-mo a sua juventude...

Colhido de improviso pelo galanteio, o Mateus corou como um colegial, abatendo a cabeça, fechando os olhos. Enquanto, envaidecida e risonha no seu implacável plano de sedução, Adriana continuava :

— Olhe, eu estou a ver... irresistivelmente o Sr. Mateus afeiçoa-se àqueles que vê moirejando e sofrendo abaixo de si, quer fazer deles seus irmãos...

— Não sei realmente que razões tenha V. exa para teimar assim em me investir dessas messiânicas funções de paladino da miséria.

— Ah, sei-as eu e é quanto basta! Sei e tenho a garantia da exatidão das minhas informações. Talvez não seja verdade?... — E, como o contramestre vergasse perante a evidência a cabeça resignada:

— Queria vê-los a todos pelo menos iguais a si, não é assim?... honestos, felizes, contentes... Para isso tenta ergue-los, embora lançando mão da violência, embora recorrendo ao crime.

— Ó D. Adriana! — murmurou, estremecendo, o contramestre.

— Ao crime, sim! Sei o que digo... Paz, a benefício deles, da vontade uma alavanca, do coração um escudo... Pois é tudo isto que eu lhe digo que não merece a pena. Nem lho agradeceriam, nem seriam capazes de se manter na nova altura sem vertigens. Deixe-os lá!

Num momento de impaciência, o Mateus aprumou a cabeça com altivez, e julgando haver achado um bom argumento no seu favor, acudiu, num ligeiro azedume:

— Contudo eu creio não laborar em erro, supondo que não sou único no piedoso e comovido interesse que os escravos do Capital me inspiram.

— Não será, não... isso conforme.

— Vossa Excelência mesma...

— Bem sei... — atalhou Adriana, indo-lhe ao encontro do pensamento, numa inflexão inteligente. — Refere-se á, minha tentativa de creche, lá em baixo, na fábrica, e que eles tão prematura e gentilmente me agradeceram. Aí tem! Eu interessei-me, interesso-me por eles, é certo... tenho muito dó das mulheres... apenas este meu cuidado tem uma esfera de ação muito limitada. Porque o único sentimento que essa bruta casta de gente deve inspirar-nos é a caridade. Estendamos-lhes, sim, a mão... não para os erguer até nós, mas para lhes deixar tuna esmola.

— Mas isso é humilha-los ainda mais! É abater pelo desprezo aqueles que sujeitaram pela fome!

— É o mais que pode ser! Merecem-nos dó pela inferioridade da sua condição, mas por modo nenhum o absurdo sacrifício de tentar iguala-la à nossa.

— E não me dirá porquê, minha senhora?

— Porque seria impossível!

— Quanto podem os preconceitos de educação e de raça, — exclamou o Mateus, erguendo ao alto com indignação os braços, — que até as mais puras organizações estragam e corrompem!... Assim!

Impassivelmente, Adriana disse:

— Para que semelhante gentinha tenha jus ás suas reivindicações, falta-lhe a perfeição moral. Veja bem... o Sr. Mateus, que é um espirito esclarecido e reto, deve compreender-me. Bem sabe que as relações entre a vida pública e a vida particular são infalíveis, não enganam. Dão a fisionomia exata do carater tanto dos indivíduos, como das raças. Sempre foi assim... Ora como quer então o meu amigo que tenham direito a queixar-se, a revoltar-se contra supostas iniquidades sociais e a estigmatizarem os pretendidos vícios das outras classes, esses homens sem brio, essas crianças sem inocência, essas mulheres sem honra, — uns desgraçados mostrengos todos eles! — que se embrutecem e inutilizam na embriaguez, na sensualidade porfiada e constante, que não têm dinheiro para a renda da casa mas a quem nunca falta o amor e o vinho que atraiçoam os amigos, roubam os patrões e vendem as filhas?...

— Todos esses aberrativos desvarios são filhos das miseras condições do seu viver.

— Ou antes do fatalismo perverso da sua essência.

— No dia em que recuperarem a igualdade, a independência, a alegria, renascerão também para a bondade, para a confraternidade, a paz e a virtude.

— Foi coisa que nunca tiveram!

— Vossa Excelência desculpe-me, mas labora em erro...

— Então?...

A beleza, a perfeição moral não é uma coisa contingente e variável, por outra, não é uma criação dos homens. Ela vêm da Eternidade, como o erro, que deu origem à matéria. Gerou-se na mesma essência do pecado, e dele tem sido, através todos os acidentes da existência humana, a sua inseparável companheira e irmã... A perfeição moral não é deste ou daquele, não é de hoje nem de ontem; vêm da queda de Deus, que foi a origem da dor. Já iluminava a terra, quando o primeiro ser acordou do nada para o sofrimento... A perfeição moral tem fulgurado invariável em todas as civilizações, por esses séculos fora. E é, ainda hoje, a sua luz e pureza ideal que aquece e aviventa na caliginosa alma de todos esses miseráveis o bem-dito clarão da esperança!

E, adiantando-se em convicta expressão para Adriana, que o escutava deliciada, o Mateus rematou:

— Quando triunfarem, eles serão bons! Vossa Excelência não os conhece bem...

Após uma pausa de enleio, Adriana aventurou:

— Conheço-os o bastante para ter como segura esta minha opinião.

— Pelo que ouve, pelo que lhe insinuam nessa sociedade convencional em que vive.

— Engana-se... Pela minha observação direta, acentuou Adriana com singular expressão, cravando no contramestre profundamente os olhos. — O senhor é que me não conhece a mim!

E, dizendo, alçou os ombros com desdém e avançou alguns passos, internando-se mais na sombra mansa do arvoredo.

Como um dócil podengo, instintivamente, o Mateus seguiu-a, e de novo plantado diante dela, inquiria com humildade, meigamente:

— Mas como sabe V. Exa que eu me irmano e confraternizo com a turbamulta dos rôtos, os meus irmãos na desgraça... com esse ínfimo rebanho de máquinas vivas?

— Se fosse só confraternizar... O senhor faz pior: incita-os, inflama-os, conspira abertamente com eles!

— Não conspiro, abro-lhes os olhos! — disse rasgadamente o Mateus. E logo, dominando-se, untuoso e meigo outra vez, com sincero espanto: — Mas como é que a Sra. D. Adriana conseguiu sabe-lo?... É singular! Vive tão longe, paira lá tão alto, tão acima de nós! Quem a informou tão bem?... Que íntimo e ignorado móbil, que generoso interesse poderá tê-la levado a aproximar da noite do nosso infortúnio a redentora luz da sua alma?

Adriana manteve silêncio um momento, e depois, de mãos apoiadas na sombrinha e descaído com graça à frente o busto, enconchou os lábios no seu sorriso esfíngico, murmurando:

— É o meu segredo!

— Não! Não! — insistia o Mateus com calor. — Seja franca como eu... Porque é que não há de dizer?

— Porque não posso... — dizia, irresistivelmente, aquela criatura de eleição, quebrando em insinuantes velaturas de carinho o alinhamento austero dos seus olhos. — Apenas posso, como sua amiga sincera, insistir no meu conselho: deixe-se de aventuras arriscadas, de tenebrosas empresas que não podem trazer-lhe nem honra, nem proveito... Isso mesmo é contrafazer-se horrivelmente! Porque não pode em consciência pregar e praticar o odio uma organização que eu vejo, eu sinto, foi de preferência fadada para amar...

— Já uma vez disse a Vossa Excelência: não amo senão a humanidade.

— E quer destrui-la?

— Pelo contrário, trabalho para a sua reabilitação, quero, e quer muita gente comigo, firmar em solidas bases a felicidade de todos nós!

— Que doido! — insistia carinhosamente Adriana, sempre com os mesmos olhos circunflexos, sempre com o mesmo enigmático sorriso. — Pois o senhor não vê, não presente quê semelhantes desvarios,, em vez do acarinhado ideal, em vez da sonhada glória a que aspira, não farão mais que enche-lo de ignominia?

— Bera se me dá a mim disso! O vitupério de uns? Será a bênção dos outros!

— Eu não vou denuncia-lo, calcula bem... mas tudo se sabe! Pode ser despedido da fábrica...

— Estão no seu direito.

— Ter de deixar estes lugares...

Ao doloroso choque desta última ameaça, o Mateus fez-se pálido, estremeceu; mas num instante readquiria o domínio de si mesmo, e agora era ele que sacudia altivo os ombros para dizer com rudeza:

— Paciência!

Na azeitona translúcida das pupilas de Adriana faiscou um relâmpago de contrariedade. Girou sobre os calcanhares, no meticuloso disfarce da emoção; e daí a instantes, recobrando-se, voltava a atacar docemente:

— Ora diga-me cá... Que prazer acha o senhor, que é bom, que é amorável, em aparentar de rude?

— Rudes foram os apóstolos do Senhor... e consolidaram a obra do Mestre! As multidões seguiam-nos arrebatadamente, fixavam-lhes as máximas como dogmas, obedeciam-lhes como a oráculos. Eram rudes e legaram-nos uma religião, uma moral nova, uma compreensão da vida mais sã e mais perfeita. Os contemporâneos adoravam-nos, a tradição santificou-os!

— Aí está o que me faltava saber... — comentou ironicamente Adriana. — Que o meu amigo aspirava a figurar, de cruzinha ao lado, no Calendário!

Resvalou ineficaz o gracejo pelo prevenido anima do Mateus, que continuou:

— Nem eu sou rude, sou apenas sincero. Digo o que sinto, desafogadamente, sem restrições, sem peias! — E progressivamente inflamado, com ardente convicção, num pleno arranque de todo o seu querer cujo sugestivo domínio Adriana suportava com delícia: — E a que maior fortuna podemos nós aspirar?... Oh, decididamente não há nada melhor! Nada que mais regale a nossa ambição, cumule a nossa vaidade e engrandeça perante nós mesmos o nosso espirito! Acaso já pensou bem nisto Vossa Excelência?... A sinceridade é a grande ambição das almas puras e nobres... como a sua. A franqueza é a emancipação. Quanto não vale gritar a gente, bem alto, a todas essas mascaras de impostura que nos rodeiam, tudo quanto pensamos e tudo quanto queremos! O segredo dos grandes dominadores é este. Parece que se nos alarga o peito... e que perante essa imperiosa dilatação da nossa vontade tudo o mais, homens, feras brutas e frias coisas inanimadas, tudo passivamente se humilha e se amesquinha!

— E nada haveria então capaz de o dissuadir dessa abominável loucura?

— Não, minha senhora, não! — jurou com energia convicta o Mateus. — Atualmente, coisa nenhuma no mundo teria força para me arredar do meu caminho!

— Veja bem o que diz... — arriscou Adriana com intenção.

Porém o Mateus, que percebeu a cilada, disse inflexivelmente:

— Ninguém!

Na irreprimível carfologia que correu os despeitados nervos de Adriana, escapou-se-lhe das mãos a sombrinha, que muito gentilmente o Mateus aparou na queda, antes que tocasse o chão, restituindo-lha com respeito.

— Que lastima me faz ver essa sua pertinácia em perseverar no erro! — dizia ela, muito de manso, voltando ao amavioso assalto mais uma vez. — Pois terá alguma graça deixar um nome execrável... andar toda a vida preparando o seu descredito póstumo... ter na morte por séquito um coro jubiloso e feroz de maldições, de cóleras?...

Mas, desesperadamente estimulado na áspera insistência daquele duelo moral, o Mateus exclamou:

— Que grande fortuna que isso seria também! Quem me dera! Ser num dado momento o alvo da cólera de todo o mundo... Mas é esse o triste apanágio, em vida, de todos os grandes reformadores. Nem Jesus escapou a ele... Quem me dera! Então é que eu me sentia maior!

— Vai sacrificar centenas de vidas... — para salvar milhares!

— Arrisca-me a mim...

Mateus olhou Adriana com infinita doçura, e subitamente acobardado, com frio no coração, perante esta hipótese horrorosa, exclamou com ar aflitivo, agitando as mãos diante da cabeça em fogo:

— Não sei! Não sei!

E rodava inquieto em torno de Adriana, mortificado por uma dolorosa e grande perplexidade, sem ânimo para firmar inabalavelmente a sua ideia, sem força ao mesmo tempo para arredar pé dali.

Entretanto Adriana, que continuava a ler-lhe na alma, deu largas a que esse condoído exaspero passasse, e aproximando-se mais do contramestre, com a sua aparente humildade traída pelo lume de triunfo que lhe radiava da expressão, murmurou com calculada pausa, numa leve sublinha de carinho:

— No entanto, venha cá... peço desculpa. Eu não sou tão falta de compreensão que não avalie toda a generosa nobreza do seu pensar, nem tão cegamente imbuída de preconceitos que tenha de tornar-me sua declarada inimiga... Não era possível!

Mateus fitou-a com desconfiança; mas logo baixou rendidamente a cabeça, vergado ao domínio daquela figura imperiosa e doce, que continuava:

— Os senhores vão ter breve a sua grande festa, não é verdade?...

— Sim, minha senhora.

— O primeiro de maio! É de um simbolismo bem simpático esta data, já agora consagrada pela comoção unanime dos revoltados.

— Pela cruzada do Infortúnio!

— Olhe e é verdade! Diz bem... Porque é com efeito uma luta toda pacífica essa, sem ferocidades, sem sangue... luta mansa e serena, sem precedente igual na história. Irresistivelmente os adversários têm de olha-la com tolerância e considera-la com respeito. É uma forma de protesto que se impõe à atenção...

— E hão de atendê-la!

— Parece-lhe?

— Indubitavelmente!

— E não quer o senhor que eu lhe chame doido! — contestou Adriana com superioridade, voltando ao seu rir incrédulo. — Não será isso já nos nossos dias... Por esse lado pode estar tranquilo.

— Engana-se... Está para mais breve do que Vossa Excelência pensa o grande dia!

— Mau! Lá íamos nós insensivelmente voltar a discutir, quando apenas o que eu pretendo é provar-lhe, neste assunto, a inteira conformidade da minha alma com a sua.

— Obrigado, minha senhora!

— É que eu quero este ano, embora por uma forma indireta, colaborar com os senhores, contribuir para o brilho da sua festa! — Elevadamente, os olhos do Mateus iluminaram-se. — Os senhores, repito, escolheram para esse grande passeio simbólico uma época admiravelmente bem ajustada. Fazem coincidir a revista aparatosa da sua força, a sua marcha de emancipação e de esperança, com o rejuvenescimento primaveril da Natureza. As suas libertárias aspirações desabrocham simultâneas com as flores. Pois bem! Este ano, Sr. Mateus, as flores hei de forneceras eu...

— Oh, minha senhora!

— Tudo quanto de melhor por aí vir, em todo esse parque fora, mandar-lho-ei cortar de véspera... vai ali assim para sua casa. Se é que a intransigência feroz das suas crenças lhe não proíbe aceitar... — acrescentou, a sorrir.

— Todos os elementos de êxito para a nossa propaganda são bem-vindos... mormente aqueles que inspira a instintiva subtileza do espirito feminino.

— Muito obrigada! Digo agora eu... — murmurou afavelmente Adriana, com encantadora ironia. — E diga-me uma outra coisa: Quem era esse ignorado apóstolo do Bem, cuja memória os senhores tão religiosamente veneram e cultivam, indo por ele anualmente em piedosa romagem ao cemitério?

— Era um incorrigível idealista, um visionário, um lunático... um doido como eu!

— Há doidos felizes!

— Era um santo, um almo e límpido coração, que prematuramente se esgotou por demasiado aquecer e pulsar pelos outros! Dava-lhe que pensar que das três palavras desta trilogia sublime que o grito da emancipação humana consagrou, uma haja que, apesar de todas as conquistas do progresso, ainda nem teve aplicação nem as honras do triunfo. Essa palavra é a Fraternidade.

— É a mais bela de todas! — confirmou Adriana, numa seriedade convicta.

— E por isso mesmo a mais sistematicamente repudiada, a combatida com mais odienta intolerância pelos nossos inimigos sociais! Pois José Fontana, recém-vindo da Suíça, — o país singular onde a Natureza e a obra humana se aliaram intimamente para o tornarem privilegiado berço de todas as aspirações, de todos os ideais justos e generosos, — viu o espetáculo doloroso da miserável inércia do nosso povo e tremeu de indignação, consumiu-se de piedade, quase simultaneamente, o estrondear do canhão nas ruas de Paris, os paroxismos iconoclastas da Internacional, anunciavam ao proletariado de todo o mundo que havia soado a hora de ele impor a sua vontade, de fazer ouvir dominadoramente a sua voz. E então José Fontana foi o arrojado clarim da Ideia nova em Portugal. Veio soletrar-nos o novo Verbo. Reanimou pela miragem de largos e inéditos horizontes o entusiasmo de todos aqueles que o desalento e a dor tinham entorpecido.

— E que conseguiu ele afinal com tudo isso?

— Preparou a nossa união, abriu-nos os olhos, leu-nos o diagnóstico redentor do futuro... remodelou-nos a alma e bateu-lhe de luz o caminho. Transformou uma horda numa classe. Legou-nos as tabuas da Lei do nosso credo político, deixou-nos como norte, como lema é incitamento, como signa eterna de redenção, a memória do seu nome imaculado! — E impetuosa e energicamente o Mateus, tendo recobrado, na quente sucessão das próprias palavras, o frio domínio de si mesmo: — Aqui tem, minha senhora, porque veneramos e adoramos desse extraordinário homem a lembrança querida. Trouxe-nos um mundo novo... foi como um Deus!

— Pois bem, já lhe disse, — disse afetuosamente Adriana. — Para lhe engrinaldar este ano o túmulo pode contar com as minhas flores.

— O que será da mais alta e comovente significação! Agradeço por todos...

— Ah, mas minha mãe decerto já veio da missa; são horas de almoço. Vou-me embora... Adeus, grande revolucionário! — Estendeu num gesto complacente a mão ao Mateus, que ele beijou com ternura. — Só lhe peço uma coisa... quando esse terrível dia da destruição chegar, vejam lá... façam essa sangueira o menos melodramática que puder ser! Uma meia dose de revolução, hein?... Para condizer com a meia dose de miséria do nosso proletariado será bastante. — E Adriana, tendo já avançado dois passos na ladeira, graciosamente, rematou: — E, por último, veja também... tenho muito medo... lembre-se de mim!

Dizendo, e enquanto o Mateus se alheava num aturdimento envaidecido, Adriana ia subindo a encosta, lentamente, de sombrinha aberta outra vez, com a jubilosa claridade que lhe vinha da alma casando-se na mesma ígnea tinta em que o sol, coado pelo forro de seda, lhe acendia a austeridade virginal do rosto oblongo.

Havia muito que ela seguia com carinhoso interesse os complicados meandros da vida do Mateus, sem que este de tal suspeitasse. Á alma suspicaz e ardente de Adriana não escaparam as insistentes e duvidosas visitas que a cada momento demandavam o contramestre, bem como a sua inquietação, o seu turbado ar de conspirador constante, a sua altivez, a sua vida solitária. Procurou então, sigilosamente, profundar o mistério. Pela Bandeirinha, a quem ela dava roupa usada e pequenas gratificações por acidentais serviços domésticos, veio a saber, pouco a pouco, a verdade. A ladina urdideira conhecia bem, e de longa data vinha seguindo, a íntima trama dos planos emancipadores do bairro. Assim, astuciosamente, foi industriando Adriana no segredo, apenas em termos genéricos, vagos, sem nada arriscar que podasse comprometer este ou aquele; mas adiantando em todo o caso o bastante para deixar entrever em toda a sua ameaçadora largueza a vasta e decisiva conspiração que o proletariado andava minando na sombra, ao favor da desprevenida inércia dos patrões e da cegueira negligente da policia.

E Adriana, atolambada e incrédula, fazia repetir as sacrílegas coisas que ouvia; achava, a poder de extraordinário, inverosímil; não podia, não queria crer... De princípio um revoltado espanto, depois um agudo e compenetrado interesse a tomava, perante a imprevista, a abominável e colossal audácia do atentado. — Como era que tantos milhares de miseráveis podiam comodamente e em comum manobrar e concertarem-se, nessa execranda obra de rancores, sem a comprometedora delação de um traidor, sem qualquer indiscreto alarme que espertasse a defensiva reação das vítimas prováveis do seus ódios? Como era que aquele homem singular ousava atentar assim contra o existente, querer baralhar a cidade num mar de horrores, converter-se num implacável executor, num bárbaro assassino coletivo; e, mais, pôr-se em declarada e pérfida rebelião contra aqueles mesmos de quem confiada mente recebera agasalho, proteção, estima; que não tinham só contratado os seus serviços, mas lhe estavam dispensando a mais franca e generosa amizade?... Era o cúmulo da deslealdade e da torpeza. Se o caso se desse com um homem vulgar, não poderia atribuir-se-lhe maior infâmia. Mas tratando-se de Mateus, convinha refletir... Ele lá sabia! Certamente que esse tenebroso plano de destruição, essa teia imensa e formidável de extermínio e dor, havia de ter atenuantes, havia de achar a sua logica explicação quando encarada pelo prisma do Absoluto e medida nos indeferíveis moldes de verdade que o alto espirito do contramestre aplicava aos homens e ás coisas. — Então, quando Adriana assim pensava, invadia-lhe traiçoeiramente a alma, junto com esse antigo apetite de sujeição, que as alarmantes revelações exacerbavam, o que quer que fosse de compadecido pasmo, uma comovida ansia, ao mesmo tempo, de domínio e de perdão... este começo de admirativo êxtase que nas almas nobres e cândidas prepara, não raro, o insensível resvalo ao amor.

E começou de manda-lo espiar, desvelada, contínua, incessantemente. A cada momento recolhia pormenores, particularizava fatos, amontoava cuidados, estremecia a surpresas. Daí a intensidade perene do sobressalto, que trazia ao seu temperamento forte um ácido estímulo. Por cada nova descoberta feita, aquele seu áspero interesse multiplicava-se! Era o atormentado receio pela sorte, pela vida das pessoas suas queridas e as suas iguais, da casta e da família; e era pela enigmática e arisca figura do Mateus um desvelo inquieto e carinhoso. Resolvera aqui aproximar-se dele quanto possível... para o conhecer melhor... a ver se conseguiria com alguma parcela de bom senso interferir ainda, a poder de amigos e prudenciais avisos, na alucinada perversão da sua vida. Esta ideia ousada, extravagante, talvez pouco decorosa, desenhara-se primeiro com receio no seu espirito. — E se ela o tentasse?... — começou a interrogar-se a medo, num vago pique de desejo. Mas, progressivamente, à força de nele renhir, este pensamento empolgador fazia-lhe febre, criou raízes, corporalizou-se, por assim dizer... por fim deu-lhe foros de vida definitivos o imperioso lume da sua alma. — Incapaz ela entretanto de bem medir todo o pavoroso alcance da conjura a que o Mateus andava assoprando q_ temerário incêndio. Desprevenidamente dançando sobre aquela tenebroso urdidura de justiceiras cóleras, o comovido interesse de Adriana era como um jogo infantil sobre a boca latente de um vulcão. Á própria confiança no seu império sobre a alma indefesa do Mateus juntava a tranquila inconsciência no exato valor do perigo.

O certo foi que a austera e ardente filha dos Meireles não faltou à promessa. Na véspera do dia 1.° de maio, — uma quarta-feira, — sobre a tarde, um estouvado rancho de raparigas, entre as quais a doidelas da Bandeirinha, todas sob a rigorosa vigilância do jardineiro, puseram positivamente o vasto recinto a saque. Foi uma devastação completa. Ordem expressa para manobrarem com precaução, por forma que, em cima, nem os pais de Adriana nem Jorge dessem tino do atentado. Para isso havia até algumas aprendizas da fábrica a postos, afim de avisarem ao menor sinal de perigo. Mas tudo se fez sem incidente desagradável. Com o deslumbrante avental colhido à frente e de tesoura em punho, perpetraram elas de abalada, por entre o seu grazinar travesso, aquele grande assalto tolerado, mandado por quem podia... Onde quer que o colorido fresco de uma florita as desafiasse, por mais insignificante que esta fosse, por muito em botão que estivesse ainda, as graciosas Parcas acercavam-se dela num pronto e abatiana, mergulhando-a na perfumada fartura do regaço. E num instante elas aí estavam à porta da casa do Mateus, afogueadas e contentes, carregando braçados de flores que em torno do contramestre desparziam, a chalrar e a rir, formando adoráveis grupos mitológicos no assoalhado tempo que fazia, e voltando logo a partir. E o Mateus recebia-as com alvoroço, recolhia comovidamente a delicada profusão da oferenda, cuja afetuosa origem conhecia. E, de envolta com o balsamo capitoso das flores, a perturbadora evocação de Adriana embriagava-lhe a termos a alma, que ele certamente naquele momento no que menos pensava era na revolução...

O dia seguinte amanheceu um encanto. Nem iluminado e aquecido pelo bom Deus de propósito, se apresentaria melhor o introito a esse doce mês de glória, de luz e de perfumes. Era como se aparatosamente a Natureza viesse também comungar na festa. Amaciava o ar e brunia as coisas uma plenitude de paz e de harmonia. Do cristalino azul do céu descia, como bênção ampla e fecunda, uma alegria infinita, que cá em baixo o cântico das aves, o ar endomingado da multidão brincadamente continuavam, e que através a umbela polícroma das árvores a resplendente hóstia do sol santificava. — E neste ano o cortejo do 1.° de maio ia ter um desenvolvimento inusitado, um brilho nunca visto; porque também a sua significação assumia um alcance excecional. Era como que a guarda-avançada das reclamações do proletariado, agora desdobradas sob aquele aspeto loução e pacífico, para dentro em breve estalarem triunfantes em toda a sinistra epilepsiação do seu exaspero, em toda a assoladora e formidável evidenciação do seu poder.

Ás 7 da manhã, já era enorme a multidão que esfervilhando se acumulava de roda do obelisco, no extremo sul da Avenida. A partir daí tomavam escalonadamente lugar, pela ampla artéria acima, os peões que deviam servir de pontos de reunião ás diversas associações e grupos, segundo o programa publicado nos jornais e procurando o seu número de ordem nas pequeninas tabuletas suspensas das árvores, desde a praça dos Restauradores à rua das Pretas. O Mateus viera muito cedo presidir à concentração, — todo de negro, gravata branca, e na botoeira do jaquetão flamulando um grande ramo de perpetuas. E a cada momento em volta dele o bulício, o pitoresco, a animação cresciam. Um surdo, um vago murmúrio marulhava primeiro no recinto, que foi depois engrossando e subindo até alagar, arrogante e vitorioso, o espaço, numa cintilação mordente de metais, e feito do dissonante algarar das vozes, do concertante estrídulo das vaias, das aclamações, dos vivas, e do ronquido petulante das filarmónicas que chegavam incessantes, arranhando aquela serenidade de oiro de barbaras melodias.

O Mateus conseguira que desta vez os operários, orgulhosos da sua profissão, vestissem todos blusa. Ranchos e ranchos chegavam, instante a instante, interminavelmente, envergando todos com brio o seu emblema humilde de trabalho, o que tornava imponente e expressiva deveras aquela aglomeração imensa. Longe do sujo mesclamento, da confusão pelintra dos anos anteriores, a sua concentração em massa tinha agora um solido carater de uniformidade que lhe emprestava grandeza e a enobrecia. Assim, uns, como os tanoeiros do Beato, o Serafim à frente, vestiam todos blusas novas de paninho negro; apresentara-se outros de amarelo, de verde, a maior parte de azul; os padeiros vinham de branco; e foi acolhida com uma vibrante salva de palmas a galharda representação da Companhia União Fabril, a Alcântara, a qual estreava neste dia solene, as suas boinas brancas e fartas blusas de riscado, cortadas num molde elegante e inédito com cabeção à maruja e biscoitos de nastro cor de laranja a agaloar os punhos e guarnecer as costuras.

Mas nem só no vitorioso recinto da Avenida se concentrava naquele momento a emancipadora afirmação das classes de sujeição e de miséria. A sua reivindicadora expansão abrangia toda a cidade por toda a parte aqueles mesmos que não podiam vir incorporar-se à comovente demonstração da Baixa, sabiam dar mostras de que estavam de posse do seu dia; todos, obedecendo à mesma libertaria senha, por toda a parte agitavam em triunfo a sua ideia, todos vestiam esse grande protesto coletivo de qualquer sinal exterior que o consagrasse. — Era como os condutores de carroças traziam as alimárias enfeitadas. Os cestos dos jovens de padeiro tinham flores de papel espetadas, baloiçavam grosseiros crochets de alvas toalhas pendentes, com datas simbólicas marcadas a linha vermelha. As parelhas dos trens de aluguer traziam guizeiras. Os carros da Lusitana lá se arrastavam claudicando, embandeirados, pelas ruas. Embandeirado tinham também quase todas as tascas e locandas, entre os Olivais e Xabregas. E até os pequenos vendedores de jornais, os varinos, os cauteleiros, os catraeiros no rio, ás esquinas os jovens de recados, todos tinham camisa lavada e blusas, barretes novos, com laços cor de sangue nos ombros ou penachinhos de perpétuas.

Entretanto, ao longo da rua central da Avenida enfileirava-se, basta e ruidosa também, uma outra sorte de multidão, o mesclado e insofrido montão dos curiosos. Predominava a baixa burguesia, o mundo pelintra dos serventuários do Estado, o parasitário bando de quantos trazem uma vida estéril, e entre todos eles doidas e impacientes, as mulheres. Grossos matulões disputavam os primeiros lugares a murro, outros insinuavam-se de gatas pelos grupos, outros traziam bancos a que trepavam para ver melhor. Das travessas a cada momento lufavam cordas de gente, inundando as ruas laterais, por onde os últimos americanos avançavam devagar. De espaço a espaço intervalados, os polícias retesavam os dedos dentro das luvas brancas, faziam ressacar a onda para o beton dos passeios. Circulavam pregões de água fresca. E em toda a assoalhada extensão do festivo alinhamento prolongavam-se à frente turbulentas as cabeças, polarizadas avidamente na direção por onde havia de começar o desfile do cortejo; enquanto, ao centro, sobre o pastoso remoinhar da turba, apontavam já numerosos e lindos os carros alegóricos, como ainda em ano nenhum tinham aparecido, amplos e atrevidos uns, outros de uma fatura tosca e ingénua; quase todos trazendo este traço de carater comum, — medíocres litografias emolduradas, figurando o retrato de José Fontana; todos eles filhos, sentia-se bem, desta unidade estrutural e desta espontânea e fácil fantasia que só um pensamento superior é capaz de suscitar, ou a viva sinceridade de uma crença.

Num dado momento, quando se verificou que tudo estava a postos, quando o Mateus, que tinha organizado o serviço militarmente, recebeu aviso de que todos os pontos de concentração estavam convenientemente guarnecidos, uma girandola de foguetes subiu ao ar, junto ao obelisco, e começou trabalhosamente a desdobrar-se, como algum pré-histórico réptil deslaçando os membros, o sinuoso rabejar daquele cortejo enorme. — Marchava na testa gravemente o Mateus, altivo e sereno, com o inquieto lume dos seus olhos negros ardendo dominador na frialdade marmórea do rosto impassível. Rodeavam-no os principais chefes socialistas, compenetrados e graves também, evidentemente sob a sua influência e comando, cortando nervosos a cada passo em pequeninos torcicolos a rua; e havia um, de barba grisalha e obeso, que acavalava na base do nariz os óculos azuis, com os dedos trémulos. Seguia-se a filarmónica Aluirmos de Minerva, — de bonés agaloados de oiro, jaquetão azul e calça branca, — timbaleando com brio o hino do dia, essa melodia dolorida e singela em que se arrasta um carpir de queixume, aquecido por clarões de esperança. Depois, processionalmente, desenvaginando-se com esforço do promiscuo empilhamento para ir dar em baixo a volta ao obelisco, vinha a bicha interminável das associações, cada uma com o respetivo pendão à frente, os presidentes de faixa a tiracolo e coroa de flores no braço, os mais marchando disciplinadamente em massa, muitos de ramos na mão; e a reduzidas distâncias as carangueiras músicas sucediam-se, todas toando o mesmo estribilho, repercutindo ao infinito na claridade mansa do ar o mesmo carpir dorido e insistente, batido de clarões de revolta e, próximos e abundantes também, lá iam derivando com lentidão os baldaquins de flores dos carros, sobranceiros aquele confuso e grosso mar, sacudidos em reverências aos embates eventuais da multidão e parando a miúde.

Alguns eram lindos. Destacava entre os primeiros o Carro internacional do Trabalho, — uma carreta do serviço de incêndios, tirada por duas pare-lhas de muares montadas por sotas-bombeiros, as dianteiras, varais e rodas vestidas literalmente por um viçoso brocado de flores. Sobre o leito do carro erguia-se uma elegante tarima, a vermelho e oiro, profusamente festoada e guarnecida de toda a espécie de ferramentas, as quais, entressachadas com bandeiras, lhe rodeavam ainda à guisa de trofeus o vértice, donde rompia para o azul um braço com um facho, e ao lado um estandarte vermelho com esta legenda a branco: PROGRESSO E TRABALHO. Na frente do carro, entre cestos vindimos, pás e encinhos, lia-se em grandes letras de fogo: QUEREMOS 8 HORAS DE TRABALHO; e na cauda: A JOSÉ FONTANA, o povo, FARTO DE SOFRER. Aos lados baloiçavam-se escudetes com os dísticos: PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNAMO-NOS! E BREVE CHEGA A NOSSA HORA! — O carro dos Catraeiros vinha soberbo; arrancava na passagem clamorosos aplausos à multidão. Era, sobre uma carroça, um grande catraio em lona, com mastro e vela armados, tripulado por crianças trajando à moda do mar. No tope do mastro flutuava a bandeira verde da associação, à popa ia a bandeira portuguesa. Nos flancos os retratos de João de Deus e Antero, à frente José Fontana, todos em molduras de flores e algas marinhas. A carroça da base vinha disfarçada por uma espécie de túnica, formando rodapé, de redes pendentes. Completavam a ornamentação o competente jack os remos, cordas, ferramentas, roupas de oleado, lambazes, batedores e salva-vidas. — Passava depois o carro dos Operários de tecidos de seda, com um belo corte artístico. Era uma fina carreta vermelha, toda em ferro, poisando alto nas rodas, ricamente almofadada de verdura e flores, e sobrepujada ao centro por uma grande pirâmide cónica, panejada de sedas berrantes, sobre as quais se distribui e repousa com arte, era esmaltados lavores e matizes, uma pintalgada abundancia de laçadeiras, aviadoras, canelas, debuxos e carros de dobar. No vértice do carro vai uma dobadoira. Aos quatro ângulos, erguem-se linearmente quatro prumos verticais, com fartos laços de seda batendo ao vento, ligados no alto por um fio com passamanerias formando franja, e terminados depois na mesma linha por umas graciosas rodelas de fio cujos raios eram carreteis de seda multicores. — Mas eram por igual interessantes todos os mais carros que na estatuída ordem iam seguindo, ás dezenas, infindavelmente, desde as carretas dos pedreiros, dos serralheiros, dos curtidores e dos tipógrafos, até à fábrica em miniatura dos saboneiros, o tonel monstro dos tanoeiros e o chalet dos ceramistas, até à grande máquina Singer com a legenda : MATA SEM RUÍDO, levada num grupo de costureiras.

Na altura da rua Barata Salgueiro o Mateus, em vista do extraordinário desenvolvimento do cortejo, não tomou por ela, como era uso, mas seguiu direitamente, Avenida acima, até à rotunda, onde enfiou à esquerda por Vai do Pereiro. Então, ao dar a volta, parou um momento a olhar, eletrizado por um legítimo e indizível orgulho, positivamente desvairado de prazer. Valera-lhe bem aquele intraduzível instante toda a penúria, incerteza e desordem anterior da sua vida. — Trazia ali assim na mão um povo inteiro. Eram os escravos da sua vontade, faria deles o que quisesse! — Olhava e media deliciadamente do alto, como um general no seu mamelão estratégico, o desdobramento infindável da pacífica e esmagadora avalancha, que na fatalidade brutal da sua força vinha subindo. Evidentemente, vinha ali humanizada e viva toda a generosa ansia do seu ideal, a libertária síntese do seu sonho. Não era só o platónico protesto de uma classe, a aspiração mansamente eloquente de uma cidade que se afirmava nesse extraordinário e luzido juntamento; sentia-se alguma coisa mais... eram de todo um século de iniquidade e opressão as palpitantes reivindicações acumuladas. Evidentemente, o violento abalo, o sinistro e inevitável esbravejar da próxima remodelação social fermentava latente no cândido remanso desta revolta feita ordeiramente, por entre flores e por entre túmulos.

Os vários grupos de manifestantes avançavam arrogantes com efeito, julgando-se antecipados senhores da situação. Retesavam a cabeça com orgulho e cravavam olhos de petulante achincalho nos altos prédios, empapuçados de sombrinhas caras. E pelo caminho iam jogando chocarreiros motes à pasmaceira alvar da multidão.

— Olha estas tolas, de quico não vês?... Para aquilo não comem senão carapaus!

— E aquela... tão pintada! É mesmo um prédio em obras.

— E esta bruxa desta beata que raio de olhos que nos deita!

— Figas!

Já a frente do cortejo alcançava ao Rato e ainda a sua complicada cauda se não desembrulhara completamente do roda do obelisco, ao fundo da Avenida. Serpenteamento colossal de muitos milhares de homens, bastos, disciplinados, limpos e unidos como os outros muitos milhares de testemunhas do surpreendente espetáculo sinceramente confessavam que ainda não tinham visto em ano nenhum! O comendador Sulpício, cuja calva solene bretoejava num primeiro andar, junto à rua dos Condes, segredou a uma obesa matrona, ao lado, «que receava pelas instituições». Agora a imponente manifestação faiscava em brilhos de esmalte, tinha um relevo impetuoso e quente a sua carapaça imensa, assim desdobrada nesta manhã vitoriosa de sol, tocada do fino aroma das flores, e acalentada na luminosidade pagã do Espaço, que um encanto imaterial subtilizava... encanto pleno vibrando, ressoando em tudo, e que só as almas são capazes de saber sentir. Quando o seu traço triunfante tomou de alto a baixo toda a ampla artéria, um comovido e admirativo enlevo imobilizava a multidão que fazia alas nos passeios também os passaritos nas árvores, como que para aprenderem o ritornelo sofredor das músicas, tinham emudecido. E o cortejo magnifico seguia sempre, interminavelmente, desdobrando ladeira acima a sua bela linha sinuosa, acesa em raios súbitos, sonora de cadenciadas plangências, eriçada de signas de ameaça, por entre os renques das acácias e das olaias, que corridas pela aragem num como frémito de entusiasmo, espargiam sobre essa grande voluta simbólica uma chuva de pétalas soltas.