Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 7 de 21

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Amanhã

Capítulo VI · Chegado à rua, num instante o Mateus…

 

Chegado à rua, num instante o Mateus alcançou a praça da Alegria, onde o aguardava o Fagulha, inquieto e nervoso na sombra das palmeiras; e seguidamente os dois desceram à Avenida, a tomar um americano para Santo Amaro. Não trocavam palavra; mas no compenetrado respeito com que ao manso rosto espiritual do Mateus o seu dedicado companheiro erguia os olhos ávidos, adivinhava-se uma inteira e leal conformidade, a ardente prossecução de um ideal comum, a perfeita inteligência de planos previamente concertados.

Pelo bairro de Alcântara a jornada dos dois foi longa. Todo o tempo ferrenhamente votado a uma exasperada caça de adeptos, a afervorar dedicações, a estimular velhos conhecimentos. E como em novembro os dias são uma coisa de nada, sucedeu ser já noite feita quando o Mateus, tornado a Marvila, entrou na taberna do Zé Pequeno, com o Fagulha, a jantar.

Inquirido o dono da locanda sobre o incidente da véspera: — que não tinha havido novidade. Os secretas, se de alguma coisa tinham desconfiado, nada apuraram afinal ao certo. Foram-se muito sossegados... Um deles esteve até conversando muito à mão com o Silvério. — O Fagulha teve um esgar de contrariedade. — E o taberneiro completou:.

— E bebeu um cálix de genebra com ele.

— Hum! Desconfio desse gajo... — disse o Fagulha, todo caído a um lado, agitando com furor as mãos e procurando ler tios olhos do Mateus, que paresiara a expressão num mutismo inacessível.

Por fim, misteriosamente:

— Será o que eles quiserem!

Pagou a despesa, despediu-se num monossílabo e saiu, perante a passiva imobilidade do cocho, já por demais afeito a repentes desta ordem, que ele, embora os não percebesse, tinha por obrigação incondicionalmente respeitar. O Mateus mediu rapidamente a rua de Marvila, desceu a calçada do Grilo, e em baixo, na rua Direita de Xabregas, voltando à direita, breve atingia um extenso muro de alvenaria e ao cabo dele, cosida quase com um grande estabelecimento fabril, uma porta verde que abriu e, tendo entrado, logo voltou a fechar nas costas. Aqui era quase total a escuridão, e o grande silêncio apenas, muito raro e brando, interrompido poios madrigais cantantes da noite no arvoredo. Uma luxuriosa profusão de parque afogava e vestia, a perder de vista, a encosta, toda em colunatas sussurrantes como naves de catedrais, em asfixiadoras abobadas de oficina, em escabeladas figurações de pesadelo.

Uma pacificação de deserto, uma monstruosidade de sombra. Entretanto, pegando com o portão, destacava no escuro, atrigada e fria como uma banda de linho, a sinuosagem rastejante de um carreiro ensaibrado, o qual lá ia enastrando-se pela ladeira, entrevisto a retalhos, em curva solta e preguiçosa. A umas dezenas de metros acima, este carreiro, seguindo sempre, encostava a um escasso trecho de terra desmoutada; e no centro desta erguia-se uma pequenina casa térrea, de aparência modesta mas limpa, e de construção recente, via-se, — a porta ao lado com o seu singelo frontão de alvenaria, depois duas janelas mais, com ventiladores no subsolo o platibanda corrida à frente do telhado.

Tendo tomado pelo carreiro, o Mateus parou em frente dessa casita, meteu-lhe chave à porta também, entrou, voltou a fechar; atravessou com segurança, mesmo ás escuras, a casa de entrada, como quem manobrava em região muito sua familiar; e indo à parede em frente, aí abriu primeiro as portadas, depois a vidraça de uma janela de peitoril. Então uma furtada claridade entrou, um como lasseiro de agonia, e na mesma onda veio um fresco ar acariciador, como o hálito húmido da mulher amada, feito de todas as balsâmicas auras da noite e de todos os misteriosos esponsais da floresta. Uma aragem de veludo, a tépida macieza de um regaço. Poi como se, pressurosa e quente, do exterior avançasse uma invisível mão, a acarinha-lo. E deliciadamente, esquecidamente, o Mateus ficou-se ali assim, as conchas da mão apoiadas no peitoril, enleado, imovei, considerando meditativo o espaço, oferecendo numa plena volúpia o rosto aquele discreto ósculo perfumado. Parecia querer decifrar a treva, era como se alguma doce e indominável força lhe polarizasse de longe, contra o seu querer, a alma... E contudo, nada ali, encosta acima, se descortinava, na aparência capaz e digno de por aquela forma lhe ensilveirar a atenção. Por toda a parte alastrava invariável, indefinidamente, o mesmo borrão compacto e violento do arvoredo. Era só e sempre a mesma uniformidade negra e revolta, o mesmo caliginoso mar, o mesmo céu de tinta, a mesma monótona ausência de cor, a mesma afonia redundante da Natureza. — Apenas, justo na frente do Mateus, e umas dezenas de metros mais acima, dealbava vagamente, como um grande lençol farpado, um vasto e maciço quadrilongo branco, com a sua linha monumental, e que aquele emaranhamento negro de capricho recortava. Era o solar do Almargem, ali ciosa, altivamente flanqueado, como por um grave pelotão de alabardeiros, pela cerrada confusão dos caules seculares, e para o topo da colina toucado ainda pela toalha rumorosa e profunda de um grande pinheiral. Lá muito em baixo, à ilharga mesmo do parque e rente com a rua, ficara a fábrica; e a meia distância entre esta e o palácio, na pequenina clareira que a fita de saibro ladeava, havia Afonso Meireles mandado construir para o jardineiro aquela linda e casquilha habitação, destinada agora a alojamento do contramestre da fábrica; o qual ficava bem ali assim, a meio das duas antagónicas construções, sendo ele o intermediário também, o natural interprete e mediador entre a oligarquia arrogante dos patrões e a aflitiva jolda de miseráveis que em baixo marulhava, convertendo o seu sangue em oiro, cambiando em proveito alheio a própria vida, na sua desvalida condição vítimas ainda dos conspícuos desdéns do comendador e das birrentas esconjuras do padre Sebastião. Aí continuava pois enlevadamente o Mateus, em pé, preso à janela, regalado e atento, — e sem bem saber-se dizer porque motivo, — avançando o rosto e cravando os olhos no vago negrume, na plena quietação do exterior. E um momento houve então em que, na sensaboria marmórea do solar, um vivo ponto luminoso saltou, radiou primeiro, como uma estrela, e logo, crescendo, abriu um pequeno retângulo de oiro fosco na monotonia de cinza da fachada... Era exatamente a última sacada da esquerda, quase à esquina. Assim que tal viu, irreprimivelmente, o Mateus estremeceu. Os seus olhos negros faiscaram na sombra, como se a instilação daquele raio distante viesse, penetrando-o, quebrar-se-lhe na retina em mútuas coruscancias. Avançou de instinto na treva o busto, cerraram fileira os dedos, a boca abriu-se-lhe numa dispneia de ansiedade. E já os pés não tinham sossego, e a impassibilidade logo perdida! Agora, no loiro quadratim em frente, começou de esboçar-se difusamente uma sombra... breve ela era um vulto feminino, que indeciso e vago vinha crescendo, que depois, mais reduzido e mais nítido, por um momento se colou distraidamente à vidraça... e um airoso braço se definiu, erguendo a cortina, houve uma atitude de quem inquiria o céu; depois, num relâmpago, cortina e braço caíram... desapareceu a sombra, E o Mateus sempre a olhar!

Ficara-lhe tão fundamente impressa na alma a fascinativa aparição, que ele na reçaga lhe conservava íntegra a imagem, como se presente ela ainda fosse; e todo o seu empenho era agora alimentar viva, flagrante esta ilusão, té que, a prolonga-la nos domínios novamente da realidade, essa apetecida sombra voltasse. E voltaria?... Baldadamente, tempo esquecido, ele esperou... Não havia meio de recobrar a sua querida visão de um instante; na insipidez bisarmal do grande prédio adormecido mantinha-se invariavelmente lisa, nua, insensível a integridade do pequenino retângulo de oiro, e a querida, a cubicada sombra não vinha.

Por fim, num repelão da vontade, sacudindo os ombros:

— Tolice!

Ergueu a cabeça com império, num altivo arranque emancipador, e, arredando firme da janela, passou ao quarto contiguo, à esquerda, onde acendeu luz, — um candeeiro trivial de petróleo, através cujo para-luz branco froixamente se iluminou então aquele seu quarto, ao mesmo tempo de dormir e de trabalho. Modesto e simples: soalho nu de pinho, escaiola rosada nas paredes, teto de estuque com florão ao centro, duas estantes de vinhático com livros, algumas cadeiras de palhinha, uma prateleira vergada de jornais e estampas, mais duas ingénuas litografias na parede, — os retratos de Pedro Kropotkine e José Fontana — ; um cabide com roupa, uma comoda, sobre dois banquinhos de madeira uma grande mala negra, fechada a cadeado, ao canto da esquerda o lavatório, e no da direita, entre duas janelas sem cortinas, uma cama de ferro com varões doirados.

Tendo distraidamente rodado pelo aposento, Mateus aproximou-se da mesa, puxou a si a cadeira, ia a sentar-se, mas... mas na outra casa a janela tinha ficado aberta... e sob este pretexto ei-lo que aí deriva n um instante ao seu observatório primeiro, e de novo ali se fica maquinalmente, embevecido, colado na instintiva, hipnose de uma esperança a essa janela fatal! Mais feliz desta vez... Ou fosse mero efeito do acaso, ou inexplicado fenómeno de emotiva sugestão, o certo foi que, agora, ele a chegar e na iluminada janela cimeira a estremecida sombra a reaparecer também... logo prolongados os braços aos lados, como azas, depois o pequeno quadratim de oiro a estreitar... num momento é uma aresta, um fio, uma abstração, era sonho... apagou-se de todo.

O Mateus, desconcertado, teve frio na alma, como se o varasse um punhal de gelo. Tomou-o uma imobilidade absoluta, ia a protestar. Mas logo, dominando-se, aquela atormentada fascinação repeliu, num alto suspiro, simultaneamente lástima de saudade e expiração de alívio; fechou a sua janela também; e já no quarto imediato outra vez, junto, da mesa, caiu em peso na cadeira, puxando a si o livro que ali tinha aberto.

Era uma tradução portuguesa da Rússia Subterrânea, livro alucinado e terrível, estonteador. Compêndio de sacrílegas revelações, em que sob o pseudónimo de Stepniak, o celebre revolucionário Kravtchinski tão primorosa e empolgadoramente história a luta titânica do povo eslavo pela sua emancipação. Mateus dera por acaso, há dias, na escusa montra de um alfarrabista, com essa tentadora brochura, em cuja capa negra o titulo destacava sinistramente em grandes letras de fogo, torcidas como labaredas. Comprara-o logo e fora em irreprimível júbilo mostra-lo ao Azinhal, — que ficou bem admirado de que ele não conhecesse ainda semelhante obra. Agora tinha-o aberto nas páginas em que de um modo tão claro e impressivo é descrita a inverosímil evasão de Kropotkine do hospital presidio de Nicolau. O genial arrojo do estratagema fanatizava-o. E assim lia com obsessivo interesse, com um pique de entusiasmo afogueante, que lhe engrossava o sangue nas artérias e fazia dançar na retina luzitas congestivas, o paciente preparo, a formal decisão,, o miraculoso êxito da romanesca aventura. Tanto mais que o ligavam de instinto ao fogoso apostolo do libertarismo individualista afinidades de temperamento especiais. Antes de lhe assimilar as teorias, adivinhara-lhe o Mateus os sentimentos. Juntava-se ao simpatismo do seu ideal comum a analogia estrutural das suas almas.

Também, como o arrebatado sucessor de Bakounine na direção espiritual do partido, Mateus era um orador fogoso, um agitador sincero e ardente, todo coração, rudeza e vontade também, como o amigo de Reclus, o panegirista imprudente de Ananief, punha o contramestre da fábrica do Almargem uma fé absoluta nas suas convicções, sonhava em êxtase o sacrifício, na inflamada catequese dos seus ideais não hesitaria perante o holocausto da própria vida. Um e outro, porque eram inabaláveis nas suas crenças, eram intransigentes nos seus processos. O seu caminho era a linha reta. Desviar é transigir. Segundo eles, um obstáculo não se ladeia, arrasa-se. Por isso não admitiam as fórmulas deprimentes da evolução, a hipocrisia oportunista da meia-tinta. Toda a delegação de poderes era para eles uma abdicação da dignidade, o exercício do voto uma defeção moral. Espíritos de titânica envergadura, de amplo folego, não compreendiam senão a revolução em ponto grande, desdenhavam de toda a forma pacífica de protesto, repudiavam de nojo, como a gelatina purulenta de um escarro, essas torpes maravalhas da intriga política, tão indignas deles como prejudiciais aos povos. E a sua única volutuosidade era a luta. Não conheciam outro prazer, não os esteniava o amor. Exclusivos apóstolos do bem da humanidade, dentro desta era para eles a mulher um ente degradado e mesquinho, o animal de cabelos compridos e ideias curtas de Spencer; própria para lhe votarmos apenas o minuto indispensável à procriação, mas não devendo nunca merecer-nos os exageros de culto, as aviltantes demasias sentimentais que são o mais abjeto sintoma da discrasia moral do homem. Nada, não podia ser... Mero instrumento fisiológico, a mulher nunca deveria ser tirânico motivo de sujeição à nossa alma. Aí estava bem fulminante a condena-las a História, onde de ordinário as mulheres não têm sido, como Dalila, como Ônfale, mais do que daninhos agentes de retrocesso social.

E só muito raramente essa nociva jaca se transmuta em oiro, e a sua missão alcança voos de sublime, quando, a exemplo de Joana D’Arc, de Vera Zassulitch de Sofia Perowskaia, as mulheres abandonam num iluminado, impulso as vantagens da sua posição social, os confortos e regalos da vida, para se dedicarem até ao martírio, para se sacrificarem, até à morte, no santo empenho de melhorar a sorte e conquistar a alforria moral aos seus ínfimos irmãos na escala da fortuna.

Mateus era pois, como Kropotkine, fundamentalmente um apaixonado. Na mais insignificante ideia talhava arestas, a veemência chispava-lhe no mínimo desejo. Além disso era, a mais não poder, rasgado e franco, — e aí residia o segredo da sua irresistível fascinação nas massas. Não haveria no mundo poder capaz de lhe algemar o pensamento, de lhe ser dique à expressão daquilo que ele entendesse ser a verdade. Dizia sempre o que sentia, sem refolhos nem medo, límpido e certeiro como o gume de uma espada. Por isso podia dar-se-lhe inteiro crédito; por isso aqueles que, como o Zanaga e o Fagulha, melhor o conheciam, votavam uma cega, uma incondicional submissão aos ditames do seu verbo dominador.

Espirituoso e cáustico nas discussões de acaso, nas controvérsias particulares, havíeis de ver como, ao ter que orar em público, ele se transfigurava! Aqui era admirável de impetuosidade, de decisão, de audácia. A esse subversivo fogo interior, a timidez, a ingénua calma aparente evaporavam-se; todo aquele pequenino corpo nervoso e vibrátil parecia latejar, crepitar, crescer... Fazia-se mais pálido ainda; o tegumento do frontal encrespava-se-lhe com arrogância; enroscava-se-lhe na regularidade discreta das feições um escabelado sopro de insânia e de revolta. E rugia de império a sua voz, e as palavras fremiam deste acento de profunda convicção que não pode enganar, que se não escuta indiferente... assim como as catadupas de apóstrofes, que não eram um produto artificial dos lábios, mas lhe subiam das entranhas, fumegantes, determinavam essas instantâneas e persuasivas correntes que eletrizam pateticamente as multidões.

Mateus era filho de um grande proprietário do Alto Douro, generoso e forte; carater participando da mesma natureza atropelada e violenta, toda em ressaltos, bruscamente passando da amenidade à braveza, da desolação à abundancia, que convulsiva a paisagem daquela região privilegiada e rude na sua casa a mesa estava sempre posta, havia sempre nas camas dos hóspedes lisos lençóis de linho, cheirando a maçãs camoesas. E ao verem-se os tardos caminheiros perdidos nas entaliscadas margens do rio, por aqueles caminhos de cabras, inçados de ladrões, arrepiados de fraguedos, sempre ao alcança-los antes de tempo à noite, ao colhê-los de surpresa o temporal, convidativamente lhes sorria então, no vértice da encosta, a casa do morgado de Ventoselo, garrida e vermelha entre dois ciprestes.

A abolição dos vínculos e várias confiscações dos miguelistas tinham-no porém arruinado. Passado o primeiro quartel do seculo, a vida deste grande proprietário antigo desbaratava-se no atormentado empenho de iludir o vexame do cerceamento enorme dos seus bens, de procurar pôr um travão no ladeiramento inevitável da miséria. Para isso valeu o recurso das dívidas, primeiro; foi-se até ao último limite do crédito. Mas, mesmo assim, caminhavam sempre fatalmente as coisas de mal a pior... Então, tiveram que começar por abster-se de um certo número de confortos e regalias, tradicionais na casa. Deixaram de ir anualmente tomar banhos à Foz, depois de vindimas. Nunca mais para esse efeito voltou a ser posto aparatosamente a caminho, tirado por duas juntas de bois, o enorme carrejão doirado, forrado a damasco carmesim, improvisada arca de Noé que agora apodrecia a um canto da loja, servindo apenas para o Mateus e o irmão jogarem com os filhos do caseiro as escondidas. Até que um estrangeiro apareceu, que a levou por uma bagatela. E foram sucessivamente dispensados o procurador e os escudeiros, venderam-se os cavalos, despediu-se o padre capelão. Vieram as penhoras depois, as vendas forçadas, as vinhas a monte, as tulhas e os toneis vazios. A mina de água que alimentava os tanques, secou. Assim, quando o pequenino Mateus saltou ao mundo, a quinta era um panascal, a casa um pardieiro. E então que nem piorno, nem trovisco dava aquela terra maldita! Valia, a atamancar a grande precisão, que sempre iam rendendo alguma coisa o figo, os sabugueiros e as oliveiras.

Deste modo, sucedeu que o espirito impressivo e avido do Mateus se abriu à compreensão num envenenado ambiente de desenganos e tristezas. Nada que lhe sugerisse esses claros sonhos cor de rosa, exclusivo apanágio da infância; nada que lhe fizesse tomar em gosto a vida. Vinha fora, intimidava-o a grandiosidade alpestre da paisagem, — serras sobre serras escalando o céu, espadagões de xisto retalhando a terra, pelos córregos a prumo caudalosa a água a bravejar; entrava em casa, e não ouvia senão suspiros, lamentações, por vezes blasfémias, o pai a ralhar, a mãe chorando, — as amargas litanias do presente em confronto com as evocações saudosas do passado... Daí que, insensivelmente, de volta com a educação, com a assimilação física, instalou-se na substancia mesma do seu ser um arreigado gérmen pessimista, um instintivo odio mesclado de desprezo por todas as formulas e convenções sociais. Para mais, esta admirável criança, de uma inteligência prodigiosa e rara, de uma precocidade fenomenal, não havia nada que não perguntasse; aquilo que lhe encobriam, adivinhava-o; tudo inquiria, tudo notava, tudo queria saber. E foi assim como, inicialmente, o sentimento agudo da sua condição fez dele um revoltado.

Sendo o rapaz ainda criança, a mãe tinha morrido, guinada de desgosto, entrevadinha e idiota na sua cama, onde não fazia mais volume que um garavato seco. Do irmão mais velho, partido para o Brasil, nunca mais houve noticia. Por último, quando o pai faltou também, um seu antigo socio e amigo, do Porto, mandou ir o pequenino órfão, que ficara sem nada, sem ninguém no mundo, e arranjou-lhe admissão no colégio do padre Siks, a Cedofeita. — Aprendia tudo por artes raro ainda, no dizer dos professores, lhes fora dado depararem com um prodígio assim. Mas um pouco intratável de génio, arisco, altivo. Nem admitia repreensões, nem procurava amigos. Só amava a solidão. Nos dormitórios, nas salas de estudo conservava sistematicamente o silêncio; nas horas de recreio procurava o inalterável abrigo da sombra. Era isto efeito da dureza essencial do seu temperamento, e também do seu espirito de rebeldia, da sua irreprimível aversão ao regímen jesuitico da casa. Repugnavam aquele carater impetuoso e límpido os refolhos servis do pensamento; era refratário à tortuosa sujeição do farricoco a sua alma, toda direitura e sol. Nem a enérgica arrogância do futuro agitador poderia nunca pactuar com a cavilosa impostura das insinuações coadas pelo ralo dos confessionários, na penumbra hipócrita das sacristias.

De uma vez, já no terceiro ano de colégio, na aula de História, deram-lhe, como aos mais alunos, uma dissertação de importância a fazer, — nada menos que a história apologética da Companhia de Jesus. Pois o Mateus não pode esquivar-se à generosa cólera do seu coração, ás sugestivas fulminações do seu espirito. Com uma admirável coragem, com uma sinceridade absoluta, parecendo até que vivamente rejubilando de poder dar vasão por esta válvula, que tão a propósito lhe aparecia, à demolidora febre que o trabalhava, ele escreveu uma longa tese, fidelíssimo traslado do seu sentir, do seu estudo, na qual se propunha pouco mais ou menos demonstrar o seguinte: «Que a Companhia, obra de um místico sonho de Loiola, breve deturpara por completo os fins da sua instituição. Loiola imaginara os seus adeptos como os primitivos companheiros de Jesus, pobres, humildes, alheios ao interesse, tendo por único ideal e exclusivo estímulo a santa alegria de levaram a toda a parte a amorosa doutrina do Divino Mestre. Mas com o andar dos tempos todo esse adorável programa altruísta se adulterou, se corrompeu... Os que deviam ser evangelizadores do Bem converteram-se em apóstolos do Mal, e pela manha, pelo perjúrio e pela intriga foram conseguindo arrepanhar fortunas enormes, fundando dentro dos Estados constituídos verdadeiros estados de usurpação. E, para isto, o seu caminho era simples: suspender o progresso, imobilizar o espirito humano, estreitar o campo ás consciências e atenuar as luzes da ciência, refugando-a cuidadosamente para o vago, por forma que a humanidade intelectualmente se imobilizasse rastejando num cómodo crepúsculo invariável.»

É claro que, ousadamente lançadas naquele meio, semelhantes afirmações não só causaram indignação, fizeram escândalo. Para mais, avolumava-lhes o sabor sacrílego a vivacidade da forma, esta macabra audácia no dizer, simpático dom da juventude. Chamado o Mateus à presença do superior do colégio, taxou este de pernicioso amontoado de heresias o seu trabalho; queimou o impio caderno na presença do rapaz, não fosse a sua conservação atrair sobre aquela casa de religião a cólera celeste; e convidou-o a que, como reparação, escrevesse um novo tema, ortodoxo e sensato, sobre a origem e progressos da mesma Companhia de Jesus em Portugal.

— Imperturbavelmente, o Mateus, sem proferir palavra, com um riso estranho, retirou; e logo nessa mesma noite, aquecido numa afogueadora torrente de improvisação, com todas as vingadoras reações do seu instinto sacudindo-o de concerto, escreveu despachadamente, de um jato, um tremendo libelo no qual se demonstrava que em Portugal o jesuitismo arrastara a nação ao último grau de abjeção; moral e fizera muito de propósito estagnar as ciências, as letras e as artes, no mais esterilizante marasmo de que há noticia em toda a história pátria. Baldadamente por vezes a nação quis sacudir o ominoso jugo, essa opressiva canga de treva que lhes avassalava a consciência e caliginava o espirito. Assim, em 1652, as cortes chegaram a representar, contra o monopólio da instrução pelos jesuítas; também contra a instituição dos colégios dos mesmos padres, ali no Porto, protestaram no tempo dos Filipes, em 1638, a nobreza e o povo da cidade. Esta deletéria influencia fora tão radicalmente nociva e tão profunda, que ainda em 1804 a Diretoria geral dos estudos, por consulta de 24 de setembro, asseverava que os jesuítas tinham estabelecido no país «uma barbara e perniciosa ignorância, a qual ameaçava aviltar e entorpecer o génio e o carater português.» Mas a despeito de tudo isto, — continuava, com audácia verdadeiramente infantil o ardido colegial, — os jesuítas em Portugal tudo avassalaram, minaram, conseguiram tudo! Em nenhum outro país eles foram mais poderosos, nem mais funestos. Na sua odiosa oligarquia de dois séculos, deprimiram e arrastaram pelo lodo das ínfimas abjeções um povo dos mais ilustres. Entraram no Paço para manobrarem de intrigantes políticos; açambarcaram as escolas e fizeram com que o país se atrasasse de um século nas correntes do saber então dominantes na Europa; apossaram-se dos confessionários para ganharem pelo terror os espíritos simples, para oprimirem e dirigirem ao seu sabor a consciência da nação: Por último, dois deles bondaram a impelir D. Sebastião à decisiva catástrofe de Alcácer-Quibir!

Se a primeira dissertação causara escândalo, esta segunda deixou o superior e os lentes positivamente estupefatos. Não os assombrava só a audácia, o infantil despejo das proposições; mas tamanha soma de conhecimentos, em tão escassos anos assimilados. Como se obtivera aquele prodígio? Quem lhe arranjara tão maus livros? Porque sobrenatural poder alcançara semelhante fedelho tamanha soma de erudição? Aquelas lúcidas sínteses de critério, aquela lapidar segurança no dizer? Pareciam artes do diabo... Porque, para mais, ninguém, ao vê-lo, poderia nem de leve imaginar que um ente assim miudinho e tímido pudesse deflagrar em heréticos ímpetos, que naquele pautado e melindroso cérebro escachoasse um vulcão de blasfémias. — E sinceramente estas considerações desconcertavam-nos. Desde o começo que os ardilosos embaidores, em Mateus fariscando um espirito disciplinado e uma rara inteligência, dele tinham planeado fazer, moldando-o a preceito, mais um subtil e manso cooperador. Mas estas últimas manifestações do garotaço ameaçavam frustrar-lhes o intento. Pretendiam fazer dele um neófito, saía-lhes um demolidor.

Ainda assim, não tiveram o rapaz por absolutamente incorrigível: tomaram aquelas aberrações por demasias de temperamento, brotas de génio, que convinha com paciência e jeito esmoitar. Castigaram-no com prisão a pão e água, e ele fugiu, logo na tarde do dia em que o soltaram, à hora do recreio. Trazia consigo apenas uns doze mil réis de economias, intangível produto de sucessivas dádivas e convites do seu protetor. — Vagueando primeiro ao acaso, sem plano, pelas ruas da cidade, em breve teve que submeter-se ás famélicas exigências do seu juvenil estomago, tornado insaciável pela tortura de oito dias de jejum. Lembrou-se então de ter ouvido falar nuns pantagruélicos jantares do restaurante Cisne, a cinco tostões por cabeça, vinho incluso, e que ninguém levava ao fim. Foi, comeu a rebarbar de quanto lhe serviram, não poupando mesmo as sobremesas; depois seguiu a pé até ás Devesas, onde se meteu no comboio-correio para Lisboa. E aí começou então, para esta desvalida criança de 14 anos, precocemente emancipada, uma torturada vida de acaso, uma sombria e infernal odisseia de azares, de privações. Então, durante anos de seguida, o pequeno e débil Mateus foi o mais admirável exemplo de judiciosa conduta, de mansa conformidade com a sorte, de tenacidade, de luta pela independência, de rija afirmação individual. Austero e sóbrio, nunca teve juventude, fugia de instinto ao prazer. Em breve esgotado aquele magro pecúlio que trouxera, sem mais recursos de espécie alguma, sentiu-se inteiramente só no mundo; e a consciência desta situação, longe de o desalentar, estimulou-o fazendo-o da própria necessidade extrair os meios de atamancar a vida. Quantas vezes, na sua precisão sem fim, baixou m implacavelmente a noite um negro véu de incerteza sobre o dia seguinte. E ele então, resignadamente, nas atormentadas insónias da sua enxerga, levava horas a concertar com inquebrantável afinco a cadeia dos esforços a tentar para vencer. Todo o seu empenho era adiantar-se, ganhar, impor-se, «fazer-se homem.» A precisão fê-lo reflexivo; cedo as dificuldades materiais da vida o encarrilharam na linha do Dever. Foi a mesma dureza da sua condição que lhe temperou o carácter. Depois, o vivo sentimento das necessidades presentes, algumas irredutíveis, fecundou e engrossou os gérmenes de revolta colhidos na angustiosa lição da infância, nas lembranças deprimentes do passado. Assim cresceu e se formou, de reigota sempre contra o destino, como um titânico remador, e por cada novo triunfo mais e mais aziumado o coração de um grande travo de amargura. Assim empubesceu, sem desfalecias e sem risos, sem distrações sensuais, olhando sempre alto e na frente, na mais infantil e cândida despreocupação do amor. Fez-se à custa de muita dor represa, de muita chorada, a cristalização estoica da sua alma. E daí lhe veio essa atenção particular poios quadros de miséria, a sua grande curiosidade enternecida poios que sofriam, a sua fúria iconoclasta pelas iniquidades sociais.

Matriculara-se na Escola Politécnica e fizera-se anunciar domo lecionista. E, cumulativamente, estudava por conta própria e alheia. Muitas vezes, logo de manhã, com ansia febril ele ia à Biblioteca assimilar o tema da sua lição para a Escola, e ao m mesmo tempo a tese da preleção que havia de nessa tarde lazer aos seus raros discípulos. Datava desta época a sua hospedagem naquela boémia providencial da rua da Glória, a três tostões por dia, cama e comer. Aí travou conhecimento com um culmine-o núcleo de espíritos, claros e independentes, quais eram o Anacoreta, o Baleizão e o Gomes; aí rastilhou incendiários alentos nos ímpetos rubescentes do seu animo aquele curioso estudante crónico da Escola Medica, o Azinhal, — panfletário, agitador de fama e íntimo amigo do Carrilho Videira. Com eles aproveitou muito o novo hospede, nesse sugestivo aprendizado se firmou a sua iniciação doutrinal e se alargou a sua compreensão da vida. Ali as teorias, as audácias, as discussões por vezes paradoxais, pelo irrequieto cenáculo nutridas a título de mero passatempo, perante a sensibilidade virgem do Mateus assumiam foros de dogmas, feriam na sua melindrosa ingenuidade grandes sulcos luminosos, obrigavam-lhe o querer como mandamentos, gravavam-se-lhe no espirito como cunhas. E porque, naturalmente, eram todas também pela reivindicação dos direitos dos humildes as generosas utopias desses jovens corações anónimos, sucedia que a sua simpática influição vinha em larga medida reforçar a hiperemia espiritual do recém-vindo.

Aos domingos, nos dias feriados, todo o regalo dele era ir percorrer os bairros pobres, esmiuçar os antros de miséria, numa volutuosa piedade palpar e profundar as fontes autênticas da fome e da desgraça; e com esse pavoroso exame colher ao seu messiânico furor calorias novas, e nesse envenenado ambiente exasperar as justiceiras indignações da sua alma. Ás noites, também a sua devorante ansiedade o levava errante, sob a égide primeiro do Azinhal, depois sozinho, pelo sigiloso dédalo das sociedades secretas; era frequente vê-lo então, vivo e incansável, evangelizando, orando, pelas ruas do Bem formoso e Arsenal, largo da Páscoa, pátio do Fiúza e mais centros militantes de anárquica propaganda. E como do seu sonho o vôo não tinha limites, também o âmbito da sua ação não conhecia fronteiras. Não se limitando a adquirir noções, tão quanto possível completas, do movimento atertratico lá fora, — suas principais ramificações, tendências, importância, carater, a linha biográfica dos seus chefes, — procurou logo também enlear-se na engrenagem, pôr-se em comunicação direta com eles. Dentro em pouco, estava em correspondência ativa com os diretores dos jornais Combatiamo, Révolté Avantil e possuía, entre outras, algumas cartas de Cario Cafiero, o amigo de Bakounine, Tolstoi e Reclus. E então que, inflamado no sublime exemplo dos estudantes russos, quando estes iam, campos fora, vergados aos ínfimos místeres, a evangelizar o povo, também ele agora se submetia a todas as baixezas e recorria a toda a casta de sujeições e estratagemas que pudessem trazer-lhe luz ou aplanar-lhe caminho; que algum novo plano fossem capazes de acrescentar ao horizonte sem fim do seu desejo. Assim, foi algum tempo bufo para surpreender da autoridade o plano defensivo; e chegou a bufarinhar-se de frente para poder, ignorado e livre de suspeita, assistir a algumas raras conferências que a esse tempo, com dois delegados da Internacional, vultos como Saraiva de Carvalho e Oliveira Martins celebraram, para inutilizar a pista da polícia, em botes, no meio do Tejo.

Fizera o Mateus com distinção o primeiro ano da Escola, saindo premiado em todas as cadeiras. Depois, no segundo, na aula de economia prolífica, uma vez chamado à lição, como tivesse o cérebro fumegante ainda dessa estonteadora obra de Karl Marx, O Capital, que devorara na véspera, improvisou uma impetuosa e fulgurante diatribe contra as ferinas desigualdades e opressões do regímen social. Cheio de pasmo, várias investidas fez o lente para interrompe-lo; sempre debalde. Era uma bravia e incrustável torrente de furianas indignações, de sacrílegas audácias ricocheteando sobre a própria autoridade do_ professor. Chamou este paternalmente o fogoso recalcitrante à ordem; ele insubordinou-se. E com uma veemência de energúmeno apodou o bom do velho de «vendido também à burguesia»; terminando, com uma epitética virulência raiando pela loucura, — que, instrumento providencial como ele se estava sentindo ser das vinditas sagradas do povo, nada, absolutamente nada no mundo haveria capaz de amordaça-lo, nem o amor à liberdade, nem o apego à vida!

Trazido o caso a conselho, foi riscado por um ano. O anúncio brutal do castigo arrepiou-lhe irredutivelmente os brios. Desde esse momento, julgou incompatível com a sua dignidade a Escola, deixou definitivamente os estudos oficiais. E então, paracleto com a incerteza da sua condição, com a negra vacuidade do seu futuro, mais tirânico e veemente se lhe incrustou na alma o odio a todo o existente, bem como a crença na indispensabilidade de uma profunda e implacável remodelação social. Resolveu aproximar-se mais dos humildes, e, para depois os comocionar, identificar-se primeiro com eles. Às suas melhores horas eram agora passadas em Alcântara, pelos grémios, nas ruas, nas ilhas pelas tabernas, na veemente analise, na dolorosa auscultação do viver íntimo aos muitos milhares de proletários que lento agonizam nesse bairro insalubre e triste. Conseguiu ser admitido, como contramestre, numa fábrica de fundição. — E o seu convicto furor, o seu entusiasmo, o seu prazer quando tomou posse! Ali estava ele agora, de fato e de direito, em inteiro e perenal contato com a sua gente... Para os espertar, para inflamar-lhes o coração e polarizar-lhes, inflexíveis e altos ao direito caminho, os olhos, já não precisaria de andar caçando-os a espaços, em furtadas maquinações, como um facínora. Nada, agora tê-los-ia sempre ali assim prontos e unidos, tão obedientes ás suas ordens como ávidos dos seus conselhos. E nesta ordem de ideias logo tratou de lidar sem precaução, de tramar sem descanso. No sonho dominante da sua vida, — a propaganda libertaria, — consumia todo o exclusivismo ardente da sua alma, toda a desprevenida impulsão da sua idade. Sobrava-lhe em sinceridade e ardor o que lhe faltava em resguardo. Corolário: a breve trecho, a imprudente manobra transpirou, deu brado; começaram de espia-lo. Rondavam-lhe a casa, farejavam-lhe a correspondência, seguiam-lhe os passos. E breve contra o tredo proceder as provas se acumularam, fulminantes. As suas parlendas e familiaridades com o pessoal das oficinas eram por demais comprometedoras; do estrangeiro remetiam-lhe jornais subversivos e volumosas cartas, muito lacradas. Tido evidentemente por um homem perigoso, foi despedido; e ainda deveu ao ânimo suave e tolerante do patrão não o ter denunciado à polícia. Algumas semanas voltou a divagar então pelos meandros de uma vida de acaso, sem ocupação garantida, sem pão para o dia seguinte... E isto preocupava-o mediocremente. Perante o iluminado ardor da sua fé, era nulo o sentimento da desgraça própria, generosamente delido na piedade pela miséria alheia. Que lhe importava sofrer, se tantos desvalidos da Lei padeciam muito mais do que ele?... Havia de vingar-se, libertando-os. Cimentaria na alforria moral dos outros a sua mesma felicidade. — Assim, agora muito mais à solta, a sua propaganda anárquica continuou. E era o seu alimento essencial. De cada novo dia cifrava-se-lhe o cuidado dominante em atrair mais um adepto, embora não tivesse que comer. — Foi quando lhe disseram que em Xabregas, na fábrica do Almargem, precisavam de um contramestre. Apresentou-se. Jorge simpatizou com o seu modo rasgado, aberto; apreciou-lhe a solida cultura intelectual, tão rara em homens daquela condição. Admitiu-o logo, sem proceder a mais indagações, sem mesmo exigir-lhe precedentes abonatórios. E foi assim como pela segunda vez o Mateus se achou naturalmente e à vontade em meio da sua gente; e logo num alvoroço reconheceu que tinha ali assim para a santa cruzada do seu ideal cooperadores bem mais decididos e valorosos. Tinha-se ele agora, arredando o livro, erguido de ímpeto da mesa, e fora direito à mala negra, que abriu, tirando de dentro uma espécie de grosso caderno de apontamentos, encadernado. Com ele voltou à mesa, sentou-se e folheou-o nervosamente, até chegar à primeira página em branco. Então começou para o caderno trasladando várias passagens, datas, conceitos, sínteses do livro formidável que tinha diante de si. E à medida como prosseguia nesta obsidiante operação, a ambreada impassibilidade do seu rosto afogueava-se, e um querençoso e místico ardor inflamava o espiritual azeviche dos seus olhos.

Tendo terminado, arrojou longe a pena, pôs de parte caderno e livro, e forrando da algibeira a correspondência que o Azinhal lhe dera, começou desta o exame pelos jornais. Eram alguns exemplares, hoje raros, do Eguaglianza, e os últimos números do Combatiamo, La dinamite, e Avanti! E entre estes últimos, que o Mateus percorria com particular interesse, deparou-se-lhe um que trazia na última coluna da primeira página, ao alto, em grandes letras de evidência, um artigo titulado — II SOCIALISMO IN PORTOGALO. O Mateus cravou nele avidamente os olhos, teve um jubiloso sorriso envaidecido. Aquele artigo era obra sua! Nele se fazia primeiro o registo da atual desorganização e impotência do partido republicano português, passando-se depois à breve resenha apoteótica da grande coesão e solidariedade da vida, do pensamento operário entre nós, «um verdadeiro mundo em formação.» aí se aludia, justificando-o por números, ao extraordinário desenvolvimento da organização cooperativista do quarto estado, impositivo e florescente por via da solida rede das suas federações locais, com especialidade em Lisboa, Porto, tomar e mais alguns pequenos centros de indústria. Enaltecia-se também o papel dirigente e ponderador, a brida centrípeta que nesta organização sindical verdadeiramente admirável, afeiçoada pelos grandes modelos belgas, representa a Confederação Nacional das Associações de Classe, a qual, só na capital, alimenta e dirige cinquenta e quatro sindicatos de artes e ofícios, contando para mais de trinta mil sócios. Depois, consequentemente, e sempre com a prova irrefutável dos números, explanava-se e encarecia-se a significação, a importância, a força de agremiações como a Resistente, a Industria social, a Federação, a Lusitana com o seu largo passeio de capitães e os seus cinco mil sócios, a Libertadora, com a sua expressiva divisa — Unidos teremos o pão barato; e muito logicamente terminava o artigo por enaltecer a benemérita função social “Da Voz do Operário” sociedade de instrução e beneficência que subsidia e mantêm uma biblioteca, uma tipografia e escolas próprias, e cujo popularíssimo jornal, a um vintém de assinatura por semana, com a sua tiragem de trinta mil exemplares e o seu programa a um tempo sensato e enérgico, prudente e radical, constitui hoje em Portugal «uma espantosa força ignorada, o grande traço de união moral da simbiose operaria portuguesa.»

Num alado júbilo interior, o Mateus leu e releu este seu artigo, prestimosa obra de divulgação em que ele juntamente bem servia o país e o partido. Mercê de tão singela e explícita documentação, ficariam dora avante os seus irmãos de lá fora sabendo com o que na realidade poderiam contar aqui. E perante os seus correligionários, agora, que inesperado efeito, que acréscimo enorme de influencia e de prestigio ele não ia obter, quando lhes lesse aquele jornal! — Dobrou-o e guardou-o na algibeira, com os dedos trémulos, mordidos de um brilho de triunfo os olhos; e passou ao exame das cartas. Pois lá vinha também entre estas uma que o fez vibrar num sobressalto, crispando-lhe a nuca, varrendo-lhe por um momento a luz da vista... Finalmente! Era a carta de um mestre chapeleiro de Antuérpia, de nome Bazeleefts, o homem talvez de maior preponderância sobre todo o proletariado belga, o qual lhe prometia com certeza uma visita, para janeiro próximo, acompanhado por um outro delegado, italiano, da Internacional.

Quando tal leu, o Mateus aprumou-se de orgulho, arredando com violência a cadeira, que um momento oscilou, em desequilíbrio. Então, de pé, aproximou mais o papel dos olhos, voltou a ler, fixou em detido exame a data, a assinatura... não queria crer. A evidência da promessa, a transcendente importância que aos seus planos vinha trazer o simples anuncio daquele fato, insuflou novas energias na sua alma, rasgou largos horizontes de esperança no claro céu do seu desejo. Seria um meio aquele, seguro, infalível, de melhor se aproximarem todos, de no mútuo conhecimento mais solidamente escorarem o generoso impulso altruísta do seu ideal comum. E esta vinda dos dois estrangeiros a Lisboa era ainda obra dele; seria o magnífico epílogo do seus esforços, o prémio ao seu trabalho perseverante, a poder de muita tenacidade, diligencia e amor penosamente conseguido... O que o fez, quando tal considerou, e enquanto demorado dobrava e guardava a carta na mesma algibeira do jornal, passear pelo aposento um vitorioso olhar dominador, como de general que acaba de alcançar o seu objetivo decisivo. Depois tomou de cima da mesa o caderno, juntou as cartas e os jornais, e, quando novamente se dirigia à mala misteriosa, passando pela frente de uma das janelas que abriam ao poente, através da sua negra quadrícula fitou de relance o vago escorço ao longe, da cidade adormecida. Atirou com os jornais para cima da prateleira, e seguidamente aferrolhou no cofre o caderno e as cartas, enquanto agora os seus olhos, numa doentia febre invariavelmente acesos, passeavam de carinho, na maquinal atração filha do hábito, pelas duas estantes vergadas de livros preciosos, os mais deles a primor encadernados, e em cujas lombadas vermelhas e roxas os títulos centelhavam verticalmente em riscas na penumbra, uns apagados como sonhos, rútilos outros como ameaças. — Acumulava-se ali, sob o ponto de vista libertário, uma rica biblioteca profissional. Subsídios e livros de toda a ordem, quase todos clássicos. Uns teóricos, tais: O socialismo integral de Benoit Malon, A definição do Crime de Hamon, esse fascinativo breviário de revelações que é Os bastidores do Anarquismo, de Flor O’Squarr, de Cario Malato a Filosofia da Anarquia, Da Comuna à Anarquia; e entre eles alguns recentíssimos, como O Anarquismo, de António de Serpa, e a Psicologia do anarquista socialista, a derradeira obra, daquele mesmo ano, de Hamon. Outros falando de preferência à imaginação, ou de acentuado sabor prático, sugerindo resoluções, esboçando programas, como: as duas brochuras célebres de Kropotkine, A moral anarquista e Um sonho de ansiedade, de Jean Grave A sociedade futura, as Paginas rubras, de Sévérine, A conquista do pão, de Reclus. E mais se liam nessas duas terríficas estantes, vingadoramente enfileirados, entre outros, os nomes de Rudolf Meier, Liebknecht, Proudhon, Naquet, Max Stirner, Molinari, Léon Sai; e havia, soltas, coleções de processos de fama, os anais da Mão Negra, sanguinariamente garrotada pelo governo espanhol, programas impressos de várias associações secretas, proclamações, opúsculos; em suma, um curso perfeito de iniciação, o foral completo da doutrina comunista-anarquista, trazida desde a origem na sua evolução vertiginosa, — estremecido tesouro que o Mateus, durante anos, sistematicamente amontoara, com uma paciência, uma isenção e uma porfia inarráveis, tirando muitas vezes ao vestuário e ao sustento para poder acrescenta-lo.

Estava ali assim toda a sua alma exteriorizada. Nessa pequena enciclopédia se resumia o dinamismo do seu desejo e se fechava a razão da sua vida. Fora na leitura apaixonada e tenaz, na assimilação: exclusiva e ardente dessa fascinadora ideologia de piedade e rancor, de amores e ódios, de iconoclastas fúrias e utopias generosas, que se embrulhara a confusão ingenuamente caótica do seu espirito, que se forjara a dura têmpera do seu carater, misto singular de iluminismo desinteressado e violência cega e brutal. E, pelo aturado convívio espiritual com todos esses epitéticos sublimes obsesso ele agora também da mesma libertaria aspiração, reputava-se sinceramente investido de uma grande missão providencial, tinha de ser, queria ser, no seu país e no seu meio, o supremo evangelizador do Bem, o messiânico redentor dos fracos e oprimidos.

E então, em piedosa meditação junto à janela, baixou ele os seus olhos magoados de tristeza para a extensa e negra colina que à sua esquerda, e indefinidamente prolongada, como uma giba de ignomínia descia rastejando té à beira do rio. Ali arfava e gemia compactam ente, na promíscua podridão do montufo, amarfanhada na sombra, empilhada em deletérias tocas fundo cavando a terra, toda a imunda supuração da escória e da desdita humana. Eternamente a sua vida de fome e escravidão estava condenada a fermentar dentro desse circuito infernal, que escapou ao Dante, de tetos rasos de zinco, alfurjas de tijolo, pocilgas de palha e areia, abobadas de catacumba, ninhos de toupeira, covas de lobo incrustadas nos taludes, tudo ciosamente fechado pela linha das chaminés, de roda altas e inflexíveis como esculcas de gigantes. Aí a turbamulta dos rôtos, dos tristes, dos oprimidos tinha de arrastar as suas penas, as suas vigílias de prostração e o seu degredo aviltante; aí rugia os seus írritos arrancos de revolta; aí iam padecendo e engrossando. Aí tinham por fatal obrigação, ao mesmo tempo, sofrerem e amarem, estafarem-se e procriarem, consumir-se e viver... para que a germinação do mal seja contínua, para que umas ás outras as sucessivas gerações de humildes transmitam com o sentimento das privações passadas, o direito ás reivindicações futuras; e para que do seu misero sangue os vapores envenenados vão alimentar longe esse peneiramento luminoso que, como uma exsudação de prazer, ele via aureolando, redondo e alto pelo ar, as sete colinas da cidade.

Como este doce incêndio, esta coroa arrogante e jucunda dolorosamente contrastava com aquela jazida de treva, com a penúria eterna dessa legião de lázaros, almas amassadas no ínfimo barro, maldito rebanho de máquinas vivas, carne precita e impura, ao mais formal desprezo, ao mais completo oblívio votada na eterna noite da sua dor... tendo aos horrores do seu trabalho de extenuamento por lenitivo único o vício, tragicamente redouçando na alternativa entre a miséria e o crime! Quando havia de esta tremenda iniquidade acabar?... Fora a mesma batalha, ia para vinte séculos, de Jesus cristo. Mas este ao menos conseguira alguma coisa. Porque é que esperavam então, ele e os mais que como ele, por esse mundo fora, aquecidos na té pela mesma santa cruzada, polarizados à mesma generosa aspiração, Comum, tinham sobre os seus ombros o cargo e nas consciências ardendo a iluminada ansia de emanciparem totalmente o homem, conquistando-lhe pela liberdade a paz, assegurando-lhe com a igualdade a ventura?... O grande ideal seria que essa suprema, remodelação se fizesse pacifica, serenamente, toda por meio da concórdia e do amor, talhada na voluntaria abdicação de uns, nas moderadas reclamações dos outros. Que bom que o formidável cataclismo social iminente se operasse pela persuasão, numa espécie de suave e cândido apostolado, consoante ao do Evangelho; ou que o advento da nova era pudesse, segundo o voto de Tolstoi, preparar-se apenas por meio da «resistência passiva ao Mal...» Pois porque não tinham de as ideias, as revoluções: caminhar serena e irredutivelmente, como os astros no Espaço, com a majestade, a fatalidade e a energia de um plano divino?

Mas não... era uma irrealizável utopia esta; garrotava-a na origem o terino egoísmo humano; balizavam os dois extremos do campo antagonismos irredutíveis. E então, visto como era forçoso recorrer à violência, ele lá iria também, entre os primeiros, escravo da vontade e senhor do coração, incondicional executor da fatalidade das coisas; ele seria prometo a marchar, a precipitar-se na torrente, quando o terrível molosso negro, acordando, sacudida num estremeção de brio a poderosa gárgula de lama que envolve a cidade, resolvesse finalmente erguer-se e num vitorioso ímpeto seguir à conquista do pão e do descanso. — Do seu ignorado posto, agora mesmo, ele como que via já crescer, agitar-se e mover-se esse imenso bando implacável... Era primeiro, na sua grossa madorna de reptil, um impercetivel coleamento; depois ele aí caminha na sombra, torvo e inflexível, alastra, monta, avança... e logo adstringe numa invisível gargalheira de aço toda a cidade, esmaiada no gozo, adormecida na ignorância. O assalto é fulminante; sente-o ele de longe... aí! E breve depois sobre as sete colina já não paira o mesmo aurorai e manso lasseiro, antes a sua atenuada claridade, era que vingadoras sombras se projetam, adquire sinistros brilhos, em exasperados rodilhões escala as nuvens, tem estrebuchamentos de agonia, cruóricos laivos, alucinadas crepitações de labaredas. — É o sangue dos grandes e poderosos que agora ali espadana a jorros, e depois de haver com o seu morno plasma amolecido a raiz dos privilégios, lambe espavorida mente o céu em espiraladas estrias, fumegando...

Entretanto, enquanto a decisiva hora não chega... sim, é bom que todos esses milhares de proscritos da fortuna sofram... muito, cada vez mais... e que cada nova geração de miseráveis passe a outros, mais miseráveis ainda, a sua progressiva herança de ódios. O exacerbamento da dor é providencial. As iniquidades acumuladas, de cada novo coração de deserdado farão um acumulador também de insuperáveis energias para a obra vingadora e justa de amanhã!