Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 20 de 21

Páginas do PDF

Amanhã

Capítulo XXI · Numa das últimas noites de junho, via-se…

 

Numa das últimas noites de junho, via-se que tinha uma solenidade e um brilho desusados o serão habitual dos Meireles, do Almargem. Dos pontos altos de Xabregas distinguia-se o centelhar vitorioso do magnífico renque de sacadas do palácio, profusamente repassadas de movimento, de luz e de alegria. E, no interior, era o vestíbulo iluminado também, e o farto reposteiro granate do alto da escadaria estava colhido a um lado, deixando franca e patente a aparatosa antessala de rodapé de azulejos e negro teto apainelado, e logo depois, no mesmo alinhamento a seguir, o grande salão das receções, um pequeno gabinete banal, todo em vinhático, e a monástica sala de jantar, couraçada de pratas reluzentes.

Tinha-se realizado naquele dia a terceira sessão do Congresso Católico. Saíra esta a mais significativa, a mais impressiva e eloquente das reuniões desse atrevido conclave internacional, que entre nós, a pretexto do Centenário e com a manifesta aprovação do Papa, o partido ultramontano imaginara e estava impudentemente levando a efeito, burlando as leis do país e afrontando a letra expressa da Concordata. Neste dia acabara de dissipar-se a calculada reserva, o comedimento hipócrita dos oradores. A indiferença sem condições, por parte do governo, assoprara gradualmente a sua rebelião sem limites. Tinham-se dito as mais censuráveis e subversivas coisas. E a multidão preciosa dos assistentes aplaudira, vendo-se entre eles muitas senhoras.

Os clericais estavam radiantes. As afirmações reacionárias desse terceiro dia, sob aquela nave marmórea do templo de S. Vicente, que marcava para Portugal um ominoso período de opressão, tinham assumido também um largo e ameaçador alcance no sentido da intolerância, da odiosa regressão ao regímen funesto do fanatismo e da impostura. Fizera-se a exaltada apologia do poder temporal da Igreja; proclamara-se a indefetivel justiça das pretensões de Roma ao domínio supremo, não somente nas coisas religiosas, como também nas civis. Sustentara-se com um desplante que chegara a ser ofensivo das leis do Estado, o absoluto poder da teocracia estreme; o direito que, pelo seu carater de infalível, pertence ao Sumo Pontífice, de muito ao seu bel-prazer e sem nenhuma ordem de dependência, poder ordenar que as suas soberanas determinações se cumpram em todo o orbe católico, sem a mínima contemporização com o poder civil. Fora em todos os seus capítulos um rasgado e audacioso programa de emancipação clerical, vibrante nos discursos dos oradores, fortalecido nos aplausos do auditório. Conjugada mente, reclamara-se também a liberdade de fundação e exercício das congregações religiosas, fizera-se a apologia da ingerência suprema do clero no ensino. — Uma perfeita revolução pela palavra, tanto mais grave e criminosa que a sintetizavam as mais altas sumidades da Igreja, escudando-se e movendo-se na impunidade que lhes derivava da consagração e da tolerância oficial.

Por isso Afonso Meireles, com as suas predileções atávicas vivamente estimuladas pelo entusiasmo beato da mulher, condescendera em oferecer um jantar, seguido de uma grande receção de homenagem, aos prelados estrangeiros que tinham vindo honrar o Congresso com a sua presença; e cumulativamente punha-os em contato com os mais valiosos e altamente cotados elementos da reação entre nós. Seria um bem aproveitado momento para aproximação de inteligências, para troca de impressões e consolidação da obra do bando negro. Aproveitava ao partido e enaltecia-o a ele: não havia que hesitar.

Ás 10 horas da noite, naquela vasta e majestosa sucessão de salas, era tão ruidosa e intensa a animação, como o pejamento era completo. A luz jorrava abundante de numerosos bicos de gaz, metidos à última hora, espolinhando-se em toda a sorte de arestas e contrastes pela numerosa profusão das sedas, das fardas, casacas e grã-cruzes, pelas faixas dos vereadores e as bandas dos deputados. Os loiros mocinhos da Juventude Católica circulavam com o mesmo trajo cerimonioso e austero com que em S. Vicente, no Congresso, faziam as honras da casa, — todos de preto, calção e meia, a medalhinha simbólica na lapela. Cortava a espaços este confuso bariolamento, este faustuoso turbilhão de cores vivas e saltantes, a severidade agoureira das batinas. Mas no grande salão Luís XV, todo forrado a púrpura, com tremós doirados, e onde em volta do Núncio estavam agrupadas as altas sumidades da Igreja, aí era que a reunião ostentava todo o seu pomposo carater sagrado, e revestia toda a sua togada imponência a cerimónia; porque, casando-se e fundindo-se na mesma autocrática mancha as purpuras prelatícias com o rubro canónico das paredes, somente num destaque antigo realçavam as cabeças das suas eminencias, tosquiadas e lambidas como as dos vultos históricos, suspensos de roda em telas denegridas, — conjugados assim cenário e figuras para darem naquele simbólico conclave a mais sugestiva, a mais intensa e flagrante evocação do passado.

Sentado ao fundo, num grande canapé baroco, todo cetins e oiros, o Núncio engatilhara espertamente no pequenino rosto, rosado e macio, a sua untuosa expressão habitual, e desatava-se em amoráveis aplausos aos prelados, dignitários, ministros e várias gentes de prol que o rodeavam:

— Felicito-os sinceramente, meus amigos, pela obra imponente que empreenderam, e de um modo tão vitorioso e cabal conseguiram executar! Nunca imaginei! Merece ficar na história.

— Obrigado, eminencia! — cantaram em coro, curvando-se reverentes, os circunstantes.

— Bem se vê que os tocou Deus da divina chama do seu espirito!

— A sociedade sem Deus seria um cadáver, — disse sentenciosamente um obeso bispo, de beiço belfo e o queixo sensualmente afogado numa grande barbela adiposa. — Havemos de salva-la!

— E vingar a dignidade, a supremacia da Igreja! — apoiou um outro, esguio, pequenino, de crânio teutónico e olhos de toupeira.

— Sim! Apesar de toda a diabólica sanha dos nossos inimigos! — exclamou também um jovem leigo, de rosto enérgico e pálpebras inquietas, cofiando nervoso as barbichas loiras.

— É verdade! Pois não ousaram eles até... isto é um cúmulo! — dizia o grave prelado da papeira, erguendo com indignação ao alto as mãos redondas, — não ousaram improvisar aí assim um chamado Congresso socialista... ignóbil vazadoiro de farroupilhas, de mentecaptos, vadios e impios da ínfima espécie, onde têm sido vomitadas em plena licença toda a sorte de baboseiras, impropérios e blasfémias!

— Oh, mas as resoluções do nosso esmagaram-nos!

O Núncio sem nada dizer, encolhia os ombros, tolerante.

— Ainda assim, têm-nos feito todo o mal que têm podido... — volvia outro do grupo. — Ainda ontem...

— Exato! Exato! Aquele lindo cortejo histórico...

— Um pensamento tão patriótico, tão largo!

— Em que todos os grandes ciclos, todas as glórias de Portugal vinham representadas.

— Acolhido assim à gargalhada!

— Pouco faltou para o correrem à pedrada!

— É uma canalha! — murmurou num irreprimível impulso o nervoso barbichas, deixando o grupo.

— Tudo isto, meus senhores, vejam! é devido à crescente invasão da impiedade. Não me farto de o pregar... — disse com enfâse o bispo pequenino. — A falta de fé é a principal causa da ruina moral deste nosso pobre povo... ruina que se manifesta hoje, pior do que tudo, infelizmente, na dissolução das famílias. Não há disciplina, não há respeito, não há laços de coração. E vão por isso alargando-se progressivamente o livre pensamento, o protestantismo, o socialismo e todas essas falsas crenças perniciosas... Bem-dito seja Deus!

— Tem Vossa Excelência razão... — apoiou convicto o Núncio, cerrando beatificamente os olhos.

Neste momento o beato círculo alargava-se, a pedido de Afonso Meireles, que vinha apresentar ao Núncio os congressistas estrangeiros. Alguns deles, homens de fama universal, como: o deputado alemão Lieber; o padre Pascal, da universidade de Lile, celebre pela torrentosa virulência e a impetuosidade intolerante do seu verbo; o superior do colégio de S. Clemente, em Roma, padre Hickei, que se apresentou com as suas claras vestes de dominicano; mais os cardeais Sancha e Gibons, e o carlista arcebispo de Valência.

O Núncio, invariavelmente sorridente, tinha para cada um sua frase amável, dita na própria língua do apresentado; e parecia contente, tocado de religiosa emoção pelo significativo carater deste sacro desfile, que diante da sua fina e dulcerosa figurinha perpassava devagar, enquanto, na casa de jantai ao lado, um sexteto de corda executava uma sinfonia de Perosi, e, curiosas de assistir à grave cerimonia, as damas, em pontas de pés e alongando os colos, se erguiam das cadeiras.

Jorge e Adriana andavam quanto possível arredios da festa. Ele, a pretexto de receber os convidados, primeiro, depois propositalmente embebido no empenho de organizar algumas mesas de jogo, quase não desarredara ainda da antessala dos azulejos. Adriana, que tivera que acompanhar a mãe na afetuosa acolhida feita ás senhoras que iam chegando, à primeira favorável refugiou-se com um estúrdio rancho de amigas junto do piano, onde todas agora em chalreio bando se conservavam, aflorando todos os assuntos, tratando minúsculas coisas inocentes, rindo deste ou daquele, e na sua despreocupação infantil votando ao desdém o aparatoso cerimonial do salão vermelho.

Adriana vestia toda de branco, sem um enfeite, sem uma joia. Apenas, em leves ondas de sonho, uma ligeira pluma branca, pedunculada de pérolas, se lhe baloiçava sobre as breves fissuras naturais do cabelo castanho. As amigas achavam-na magra, mais pálida que de hábito. A linha reta que lhe alongava com severidade as sobrancelhas, a contração linear dos lábios, denotavam que qualquer perturbador cuidado laborava apreensivo o seu espirito... Visivelmente distraída, respondia ás perguntas por monossílabos, por vezes acudia com observações excêntricas e risadinhas fora de propósito. E a cada instante que se sentisse mais isolada, nos caprichos de travamento da conversa, logo ela deixava o piano e corria a alguma das sacadas do sul, onde marruava numa imobilidade de estatua, de costas ao movimento, alheada e atraída pelo vago mistério da noite, pregada numa meditação enternecida, indefinidamente a olhar...

De uma das vezes veio adonde a ela o irmão que, naturalmente:

— Então deixaste as tuas amigas?... Que fazes aqui?

— Uma noite linda, não achas? — acudiu Adriana,, de disfarce.

— E nós a aturarmos estes reverendos maduros!

— Ai, Jorge, que penitencia!

Jorge Meireles teve um sorriso aborrecido; & ao mesmo tempo, vendo que o pai, com um grave personagem, de grã-cruz da Torre e Espada, se aproximava da janela:

— Oh, com a breca, Adriana! Temos massada no horizonte... Toca a safar!

Adriana logo rodou veleira para o interior da sala; mas já não teve tempo de a acompanhar o irmão, a quem o pai comandara de longe:

— Ó Jorge, espera... anda cá. — E quando os dois estavam próximos dele: — Quero apresentar-te ao Sr. presidente do conselho.

Trocado o aperto de mãos do estilo, já o chefe do governo, com o seu ar protetor:

— Simpático rapaz! Estimo sinceramente...

— Ó Sr. conselheiro...

— É insinuante deveras... sem favor. Um digno continuador das tradições da casa... — Parava complacente a observa-lo: — Há de ser inteligente! — Depois, dobrado à orelha do pai desvanecido: — Se quiser para ele alguma das candidataras que reservo ao partido católico, tem a eleição segura.

— Infinitamente agradecido!

— É de justiça.

Chegavam agora ao vão da sacada, através de cuja vidraça se distinguia, vigoroso e próximo, o confuso borrão do parque, mais o grande retângulo negro da chaminé da fábrica, cortando transversalmente a placa fosca do rio.

— São estes então os seus domínios? — dizia atencioso o ministro, olhando fora.

— É verdade, graças ao Senhor! — explicava com bonomia Afonso Meireles, de mão em pala diante dos olhos. — Por toda essa ladeira abaixo, e a um e outro lado, até onde daqui se alcança com a vista, tudo é nosso.

— É importante... Lá em baixo é a sua fábrica, não é assim?

— Toda aquela bisarma, sim senhor. — E encolhendo os ombros, numa desculpa: — Modernices... ideias do meu filho.

Mas agora o grave interlocutor do Meireles, após uma pausa de circunstância, interrogou com intencional expressão:

— E, diga-me, tem confiança na gente que lá traz empregada?

— Eles cumprem...

— Conhece-os bem? — disse com intimativa o conselheiro da coroa, de mãos cruzadas sobre o ventre, sacudindo a perna.

— A falar a verdade, — balbuciou, embaraçado, o Meireles, — eu nem os vejo... O Jorge é quem lida com eles. Lá os fiscaliza, lá os admite e despede… faz o que muito bera quer.

— É que as minhas informações, pesa-me dizer-lho, meu caro Meireles, mas brigam deploravelmente com esse seu otimismo... não têm nada de tranquilizadoras.

Vexado e confuso, o velho Meireles fizera-se excessivamente pálido, sem atinar com uma resposta. E muito afavelmente, a meia voz, o outro:

— Todo este bairro é demasiado turbulento, sabe? Composto de gente suspeita... Aqui conspira-se abertamente contra as instituições, há temíveis focos de rebelião, infelizmente por enquanto incoercíveis. A cada momento rebentam distúrbios, motins... cometem-se assassinatos que ficam impunes. Lembra-se Vossa Excelência daquela rusga ao pátio do Fiúza? Pois os capturados eram quase tudo gente daqui!

— Gente perdida!

— Ah, mas eu agora, tão depressa acabem os festejos, vou mandar policiar este sítio com todo o rigor!

— Faz Vossa Excelência muito bem!

— O pior, meu bom Meireles, repito, é que o mais perigoso centro de propaganda dissolvente passa por ser exatamente... a fábrica do Almargem.

— Que me diz!? — rompeu de salto o Meireles, muito trémulo, com os lábios brancos.

— São as informações que tenho. Tudo ali trama e conspira, incluindo as mulheres! E com especialidade então creio que o contramestre, um tal...

— O Mateus?... Isso não é possível! — protestava, sinceramente aflito, o velho.

— É positivo... — confirmava o ministro, num piedoso sorriso, com doçura.

— Não me faltava mais nada! — barafustou com veemência o Meireles, todo vibrando em gestos indignados. — Dar eu alento à canalha, abriga-los dentro de prédios meus, mante-los com o meu dinheiro! Eu bem não queria... parece que adivinhava. Mas este meu filho, tanto teimou... — E alongava a vista pela sala, procurando Jorge. — Afinal não tivemos remédio, a irmã era por ele, e lá se fez essa asneira da fábrica!

— Asneira, em absoluto, não...

— Por vontade da minha mulher já ela estava fechada! — acrescentou em tom sacudido o Meireles, cravando olhos de rancor na vaga escuridão da noite.

— Não digo tanto... Mas chame Vossa Excelência a atenção do seu filho para o assunto. Bem vê, ele é jovem e generoso... falta-lhe a prática dos homens; porém com um pouco de penetração e cuidado, feita uma prudente escolha, tudo se remedeia.

— Onde estará ele?...

— Aliás, a segurança do Estado prevalece a tudo… Terão que sofrer algum desgosto. — E logo, a minorar no timorato espirito do velho o efeito da ameaça, olhando as paredes: — Belas fotografias tem ali assim... sim senhor!

— São reproduções de desenhos do nosso Sequeira. Os entendidos atribuem-lhes grande valor.

— E aquele grande quadro a óleo?

— É cópia de um Rubens.

— Rubens, bem sei. Uma das mais retumbantes glórias da Itália.

E tendo soltado empafiamente esta blasfémia, o grave ministro, que parara um momento sob a porta a contemplar com ar superior o grande retábulo, reentrou no salão vermelho com o velho Meireles, que o admirava sempre.

Tinha-se aqui formado, tendo por centro a D. Mafalda Meireles, uma curiosa roda de conversa. O pequenino e irrequieto bispo deixara o Núncio para vir cumprimenta-la; e então a sua proverbial loquacidade, posta à prova no tiroteio picante das interrogações das senhoras, ia-se desatando numa pretensiosa torrente de máximas e conceitos que a cada momento faziam crescer, curioso de o ouvir, o auditório. Lá estavam agora, entre outros, o comendador Sulpício, o padre Sebastião. Versava-se também naturalmente a audácia e despejo dos socialistas, com a celebração do seu Congresso; estranhava-se que o governo tivesse consentido. E logo, de mão erguida numa náusea, o bispo:

— Oh, os socialistas! Não me fálera nessa praga, minhas senhoras... A só enunciação do seu nome constitui um pecado!

O feminino círculo confrangeu-se, numa simultânea mutuação de olhares pávidos e arrependidos. O prelado continuou:

— Eu considero os socialistas piores, mais perigosos ainda e mais odientos que mesmo os ateus. Estes ao menos compreendem-se, são uma nova incarnação do Espirito das trevas... dentro da sua doutrina são coerentes. Negam tudo, porque negam a Divindade. Agora os socialistas, não! Estes pretendem substituir à nossa religião sublime a fórmula hipócrita e egoísta dos seus ideais, o materialismo dos seus processos. O seu fim é arrastar a sociedade a adorar-se a si própria, como ainda na sessão desta manhã disse ali o reverendo Pascal, e é verdade... Vejam se pode haver mais perniciosa, mais imoral e dissolvente doutrina!

— São a peste da sociedade. Apoiado! — exclamou, num ímpeto irreprimível, o padre Sebastião.

— São os filisteus do seculo. Idólatras e cruéis... Abrenúncio!

— Eu também assim o entendo, — interveio com gravidade o comendador, sorvendo uma pitada.

— No meu fraco modo de ver, foram eles, com o dementado exagero das suas prédicas, que estragaram a liberdade. — Baixou o bispo numa aprovação a cabeça. — Pois isto não é evidente?... Estava o mundo tranquilo, cada um se ia resignando com a sua sorte, quando esses doidos maus desataram a gritar aos pobres: «Sofreis? Tendes desejos?... Pois revoltai-vos; que os vossos direitos são iguais aos dos ricos». E o povo, com efeito, revoltou-se, pondo confiadamente em ação a inveja e o crime. Porém o pior foi então., quando reconheceu que por cada desejo satisfeito, um outro desejo mais forte lhe nascia! Sonhara saciar os seus apetites e não conseguia senão multiplica-los.

— Muito bem, comendador! Muito bem! — apoiou o bispo. — É isso mesmo...

— Vê, senhora D. Mafalda?... — aproveitou o padre Sebastião para insinuar.

— Ah, eu é gente que detesto! — disse a Meireles com calor.

— E contudo admite-os por cá... bem perto de casa!

— Isso vai acabar!

— Hoje os pobres, — disse, com importante gravidade, o comendador, — que mais adivinham do que conhecem os requintes da opulência, julgam-nos realidades de perfeita bem-aventurança e procuram desvairadamente afogar a sede do luxo no vinho. E, assim, encontrara a morte pelo alcoolismo, em vez da vida de felicidade que tinham sonhado...

— Agora já não é vinho, mas sangue, que querem beber!

— Que horror! — gritou o coro feminino.

— Vinham em demanda de uma absurda emancipação e ficaram chumbados à tirania de um vício! Suicídio e escravidão, — diz bem, comendador, — é a triste síntese da liberdade de hoje... Façamos ato de contrição e mudemos de assunto.

Depois de uma pausa de respeito, D. Mafalda disse:

— E a respeito de conventos, que me dizem vossas eminencias? Consegue-se que voltem?

— Ah, pois que duvida! Havemos de consegui-lo, minha senhora. É negócio assente.

— Ainda bem!

As senhoras apertaram mais o círculo, com uns grandes olhos estimulados.

— Pois há nada mais natural, mais logico, mais humano? — continuou o bispo. — há nada mais conforme mesmo com a história?... A ociosidade é a grande escola! Dá todas as largas ao pensamento, emancipa-nos do despotismo nocivo da matéria. Todos os grandes progressos dimanam do recolhimento. A vida é a oração!

E, beatificamente, o ladino prelado erguia ao alto a sua testa teutónica, arregalando os olhos; enquanto mudas expressões de admirativo aplauso se cruzavam no auditório.

— Entretanto, — objetou a medo uma grande matrona grisalha, de buço e ametistas, — há de ser difícil... Os frades deixaram tão má fama!

— Infames calúnias dos pedreiros-livres! — exclamou o padre Sebastião, num trejeito impaciente.

— Creia que foram uns beneméritos, minha senhora, — disse o bispo. — Apesar de todas essas caluniosas invenções, os frades têm sido os maiores, os mais profundos e intensos propugnadores do trabalho.

— Tal qual! — apoiou convicto o comendador.-

— Aqui no nosso querido Portugal, dessa tão verberada e combatida ociosidade brotaram, nas ciências, nas artes e nas letras, quantas glórias!

— E por toda a parte! — reforçou o prelado com calor. — Vejam como o regímen claustral foi o propulsor do século de Luís XVI em França, e, na Itália, do século de Leão X.

— Isso! Isso!

— Tudo o mais assim!

— Eu cá por mim, meus caros senhores, — disse desenfastiadamente Bernardo Gonzaga, que acabava de chegar, — com respeito a frades, só conheço as histórias que em pequenino a minha boa ama me contava à lareira, lá na província... e essas, verdade, verdade, são bem pouco edificantes.

— Oral ora! — protestaram as senhoras em coro, enquanto riam. — Já ele tardava!

— No entanto, se o restabelecimento das ordens religiosas vier, — disse o Gonzaga, — desde já o declaro... vou logo para lá! Não quero outra vida.

— Se lá o quiserem... — reprimendou a Meireles com doçura.

— E porque não?... — acudiu logo o bispo, a compor. — Nem há modo de vida, creiam, mais propicio à salvação da nossa alma. É indispensável readquirir o direito a abraça-lo, a refugiar-se nele todo aquele que muito bem quiser... Pois não é um absurdo, por exemplo, que o homem, num momento de desespero, possa cometer o crime do suicídio, que é o cúmulo da cobardia, que é o maior atentado contra a vontade de Deus, e não possa antes encerrar-se num claustro e ajoelhar aos pés de Cristo, para lhe pedir lenitivo e consolação a suas mágoas e dores? Não salvava isto tanta alma, evitando tanto pecado? Não poupava tanta vida?... O recolhimento contemplativo dos espíritos é indispensável à criatura humana, tanto individual como coletivamente considerada. Se para muitos é um refúgio, para outros é uma necessidade.

— Quem me dera! — suspirou irreprimivelmente uma jovem loira, presumível milionária, de pele diáfana e longo colo medieval.

— Para lá vamos, minha filha... Em breve poderá satisfazer o seu desejo. Pela porta taciturna e mansa do claustro poderá entrar na vida eterna. E faz muito bem! Que vale o mundo terreno?... Desgraçadamente, está-se a ver! Nada, a uma existência digna, pura, e verdadeiramente própria de uma alma virginal e santa, como a sua, não é outra, minha senhora, senão essa incomunicabilidade austera do claustro, entre o mundo que se fechou e o céu que ainda se não abriu…

Dizendo, o prelado cravava a pupila imperiosa na esguia e melindrosa loira, que em mística volúpia, e corando, baixara com recato os olhos de noviça.

Vinham agora da casa de jantar, e dispersavam solícitos pela multidão, criados de libré com grandes bandejas, servindo a ceia volante. Mas, quase ao mesmo tempo, avançava também com vivacidade, do lado oposto, Jorge Meireles, em demanda do Núncio, com um papel amarelo na mão. Arredava todos com importância, pedia alto que o deixassem passar. Por fim, chegado junto ao canapé doirado:

— Um telegrama para Sua Eminência!

O Núncio tomou o telegrama, abriu e desdobrou devagar; depois, apenas leu, teve nos olhos um rápido brilho envaidecido e ergueu-se, acabando de solicitar por este movimento as atenções de toda a sala, que já o incidente do telegrama interessara.

— Meus senhores! — proferiu ele, alto e pausado, num comovido jubilo. — Acabo de receber, de Roma, um telegrama do cardeal Rampola, no qual se me transmite a bênção apostólica, e se manifesta o desejo, espontaneamente expresso pelo Súnio Pontífice, — e passava a ler: — «de que os trabalhos do nosso Congresso revertam em bem da nação portuguesa e da religião cristã».

— Louvado seja o Senhor! — exclamou com religiosa unção, ao lado do Núncio, o bispo belfo, enquanto um lisonjeiro e grosso murmúrio corria significativamente toda a sala.

— Viva Sua Santidade Leão XIII! — bradou o irrequieto barbicas com arrogância.

Quando o eco atroador dos aplausos passou, o Núncio ergueu com solenidade a mão direita, alongou o braço, de farta manga pendente, sobre a bariolada confusão das cabeças abatidas, e traçando largo uma cruz:

— In nomine Patris, et Fili et Spiritus santis! Enquanto os criados se imobilizavam alvarmente, com as bandejas altas, semeados ao acaso pela sala; e dentro o sexteto rompia arrastada mente com o hino do Papa.