Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 21 de 21

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Amanhã

Capítulo XXII · No sábado, 29 de junho, logo de…

 

No sábado, 29 de junho, logo de manhã, o Mateus saía cedo do Almargem e dirigiu-se logo à tenda do Zé Pequeno, para onde tinha aprazado uma conferência com todos os principais chefes do seu grande movimento revolucionário. Ali naquele casarão esmadrigado e deserto, onde tivera a sua primeira aproximação séria com os explorados e os humildes, era que ele queria também transmitir, para o seu libertamento comum, a ordem definitiva de batalha. Uma secreta intuição, uma como que fé supersticiosa, fazia-o ver dependente da aproximação destes dois extremos o êxito da sua aventura. Dali, onde apontara a génese colossal do movimento, é que tinham de partir agora, formidavelmente aprestados para a luta, os míseros e mesquinhos servos de ontem, transformados nos homens imperantes e livres de amanhã!

Na tarde deste dia realizava-se em Lisboa a grande procissão, o mais aparatoso número do programa reacionário dos festejos, aquele em cuja imponente e impressiva celebração o partido clerical punha o mais essencial empenho e a mais acalorada esperança. Pois seria ele também o ponto de partida para as classes de emancipação entrarem no caminho da violência. Aproveitariam a oportunidade para baralharem pelo pânico e a desordem o irrequieto alvoroço das massas, fossem quais fossem as consequências... custasse o abalo embora alguma efusão de sangue, ou a antecipada anulação de várias vidas. E depois, na noite seguinte, a última da arrogante bambochata, dar-se-ia, a horas mortas, o grande assalto decisivo. — A população da cidade achava-se nas mais favoráveis condições recetivas para tão larga e arrojada empresa. Demonstrara-o bem eloquentemente, ainda nas vésperas, a atitude ameaçadora e impaciente da multidão perante o cortejo alegórico, prestes a investir a cada momento com essa mascarada torpíssima. O estado dos espíritos era anormal; cada um sentia desconfiadamente em torno a si um fermento latente de mistério. Os que não eram revolucionários, eram descontentes. E todos, todos sem exceção, ainda os vadios na sua inconsciência, ainda as mulheres na sua leveza, todos ansiavam por libertar-se deste mal-estar e sair desta aterrada e negra incerteza, fosse ele à custa de uma grande hecatombe, fosse pelo preço do maior dos cataclismos. Portanto a oportunidade era excecionalmente favorável; tudo ajudava. Era cerrar implacavelmente o coração à piedade e andar! Raro viria uma outra ocasião assim.

Nesta conformidade, à tenda do Zé Pequeno vieram, logo de manhã, receber a ordem os chefes e colaboradores mais importantes do movimento, os comandantes das zonas e os capatazes das secções de todas as fábricas. Mais de cem homens, representando cinquenta mil. Pois, além das instruções verbais mais minuciosas, dadas na ocasião, para cada um deles havia o Mateus pacientemente elaborado, e escrito pelo seu próprio punho, claras e precisas instruções especiais, em sóbrio estilo militar com marchas, estações e horas marcadas. Um modelo de harmonia, largueza e concisão, todo aquele plano. Á foiça de bem concebido e pratico, chegava a parecer a sua execução facílima, o que era um novo estímulo aos broncos conspiradores. Assim, depois de duas horas seguidas de conferência, cada um deles dobrava agora e guardava o seu papel, com os ademanes olímpicos de um César. E confiadamente o Mateus, ao despedi-los, aprazou-lhes ainda nova reunião para a manhã seguinte. — Teriam de vir receber as últimas, instruções, em harmonia com o que sucedesse logo, de tarde, com o alarme da procissão; e acertar pelo dele os relógios.

Tinha por igual o Mateus militarmente organizado o seu serviço de transmissão de ordens, para essa noite decisiva. Um verdadeiro piquete de prontos e hábeis correios, destinados a fazer-lhe chegar sucessivamente à residência do Almargem os avisos da concentração e marcha das diferentes frações do ataque. Era um bando de rapazes valentes e decididos, todos bem armados, e capitaneados pelo Ventura, que lhes arranjara para montadas algumas das mais suportáveis alimárias das carroças. O Fagulha manobraria nas imediações do Almargem. O Tranca-ruas mais o filho, tinham adestrado os dois burritos em doidas correrias. O Cavalinho-mosca arranjara um velocípede. E ainda este havia sido investido de missão sobre todas honrosa e difícil, pois era o encarregado de semear a perturbação e o terror por ocasião da passagem da procissão.

Da clandestina baiuca saiu por fim o Mateus, com um estranho ar de iluminado, todo vibrante de entusiasmo e de fé; e tomou logo para casa do João dos Unguentos onde se estava também a toda a pressa ultimando mais um dos artigos do seu plano, uma das escandecentes invenções do seu engenho. — Era a manipulação e decoração das bandeiras, estandartes e mais simbólicas signas de guerra que ele queria que os diferentes grupos levassem ao combate. Isto imprimia-lhes união; seria a sua consagração, a sua força. Tinha ali assim nessa obra dezenas de mulheres empregadas. Era a extensa galeria da direita, toda cheia. Passava-se com dificuldade neste esguio e atravancado recinto, onde reçumava o nauseante azedume de muita gente acumulada, com o ar espesso cortado pelo chocarreiro canto das mulheres, trabalhando e chalrando alegres, como que aquecidas na feliz antevisão de uma existência nova. Das velhas cordas do teto, cruzadas entre as traves combalidas, pendiam lugubremente, como sanefas de luto, grandes panos negros, comendo a luz e escondendo as baterias dos frascos, arrastando larga ainda pelo chão a sua pressaga tristeza. E nesses fúnebres lençóis iam ameaçadoramente destacando, em grandes letras brancas, toda a casta de fórmulas sediciosas. Letras que umas mulheres talhavam no pano, pelos moldes, e outras aplicavam a correr. Todo um programa implacável de morte se condensava nessas amplas tiras de treva e de ameaça, francamente enunciado, em grossas letras de evidência.

Quase tudo conceitos e máximas dos grandes mestres espirituais do Mateus, amorosamente colhidas e apontadas dos seus livros. — Tais como estas:

A terra é de todos. — BOSSUET.

Faze o que quiseres. — RABELAIS.

O céu é cá na terra. — BUCHNÈR.

Deus é um fantasma. — BAKOUNINE.

O Estado vive da violência. — L. TOLSTOI.

Ou o Estado ou Eu! — MAX STIRNER.

Havia ali de todas as épocas, de todas as raças, de todas as civilizações, de todas as escolas. Eram máximas tendo todas de comum o seu intelectível traço de verdade, eram a inauferível cristalização do mesmo pensamento através da História. Assim, havia-as de Lafontaine, Rousseau, Diderot, E. Reclus, H. Spencer, Kropotine, Proudhon. Outras remontavam aos primitivos tempos da humanidade, como as bebidas nas profundas oitenta páginas de sociologia, que se conhecem, do pensador mongólico Lao-Tseu.

Por último, até ao sermonário admirável do santo agora consagrado, — Santo António, — o incansável revolucionário fora beber argumento e esteio para a sua obra. Era dele a seguinte fórmula sintética da antinomia entre o Capital e o Trabalho:

Não pôde haver acordo entre cristo e Baal — SANTO ANTÓNIO.

O Mateus ia percorrendo, afável e alegre, os grupos, encarando numa expressão ao mesmo tempo imperiosa e grata as mulheres, que o fitavam com carinhoso interesse ao passar. Ia verificando as legendas já prontas, insinuava rapidez onde via atraso, depois mandava dobrar e acamar em fardos, que tinham de ir à noite para sua casa. E para todas entretanto tinha um sinal de agrado, um hábil dito a tempo, uma frase lisonjeira. Elias ao sentirem-no ao pé, sensualmente estimuladas, pegavam-se com mais ardor ao trabalho, tranquilizavam-no :

— Ficava tudo pronto, — dizia-lhe uma. — Estivesse descansado!

— Nem que tivessem de suar sangue, aquilo acabava-se num rufo!

— Para irem depois ver a parodia da procissão!

Quando saiu de casa do João e tomou, rua abaixo, direito a Xabregas, notou o Mateus que as ruas, os cais, os prédios estavam, por assim dizer, desertos. Fora já tudo para Lisboa, nomeadamente para a Baixa, levado no sensacional empenho de assistir ao desfile dessa grande parada religiosa, que se anunciava com um luzimento excecional.

Devia ser, no coração da cidade, uma imensidade de gente... Que esplendida ocasião para manobrar! — Por isso o Zanaga tinha desesperadamente insistido para que se lançassem então algumas bombas de explosivo sobre essa canalha, sem campo para se defender, sem tempo para fugir... Mas o piedoso coração do Mateus opôs-se tenazmente. — Não era preciso; seria demais... — O Fagulha esperava-o impaciente, junto ao portão do parque. Estavam sendo horas, era tempo de irem andando. Assim ficou deveras surpreendido quando o Mateus lhe disse que não ia. Teve este que repetir categoricamente a afirmativa, para que o seu dedicado satélite o acreditasse. — Futurava aproximadamente o que ia suceder, não precisava lá ir para isso; nem mesmo os chefes dos grandes movimentos deviam nunca abandonar os seus centros de comando, para se irem misturar à confusão das primeiras escaramuças. No entanto, ele, Fagulha, que fosse. Até convinha... para lhe contar depois.

E logo que aquela pequenina figura grisalha se afastou rua abaixo, claudicando, a correr, o Mateus, na aparência tranquilo, entrou para casa.

Era quase ao tempo em que, lá longe, o filipino pórtico da igreja de S. Vicente de fora começava bolsando os primeiros anéis, as primeiras dobras dessa serpe imensa, na gloriosa reverberação do sol, por entre a irrequieta avidez da multidão e o festivo bimbalhar da sinarada. Dentro da igreja ia entretanto um grosso empilhamento e confusão de gente. Sob a curva luminosa da nave principal, as irmãs da Caridade, as freiras e as fidalgas formavam e dispunham, num passivo automatismo de bonecos, os milhares de crianças dos diferentes institutos de caridade; pelas naves laterais enfileiravam-se os ricos estandartes, os andores, os ciriais e cruzes das irmandades; na sacristia acabavam de paramentar-se à pressa os sacerdotes. Cá fora, à direita, vinte praças de cavalaria municipal aguardavam ordem para pôr-se em marcha, a abrir o cortejo; e à sua esquerda formavam ainda as várias bandas regimentais, que deviam escalonadamente incorporar-se no desfile, segundo o seu número de ordem no programa. Depois, pela rua de S. Vicente até ao Arco de Santo André, formava em linha o 16, de guarda de honra, e seguidamente toda a infanteria municipal. O resto da cavalaria distribuía-se em patrulhas pelas ruas.

Foi moroso e difícil o desdobrar das primeiras figuras. Tornava-se trabalhoso o desembricar individual, para a evidência e para a luz, de cada símbolo, de entre aquele amontoamento colossal de lhamas, oiros, cetins, azas, bandeiras, alvas, sobrepelizes, opas e grã-cruzes. Por fim, pausada e majestosamente, o incomensurável monstro, esse desafio arrogante do fanatismo, lá foi desenhando o seu luzido e arrastado perfil, cheirando a novo, escamoso de sagrados brilhos, na serenidade triunfal do céu, pelo dédalo tortuoso das vielas de Alfama. — Na frente do préstito, as patas dos cavalos punham em respeito a multidão. Vinha a seguir o velho pendão, de damasco roxo, da cidade, com os oiros denegridos, e que teve de abater-se para sair do templo; e logo depois uma curiosa figura de Anjo anunciador, com estandarte branco, de largas franjas doiradas, tendo as armas de Lisboa a matiz, em relevo. Vestia este anacrónico anjo à romana, túnica branca, manto vermelho e capacete de crista. Ladeavam-no seis anjos pequeninos, paramentado cada um também pela sua forma, no mais solto e grotesco capricho. Aparecia seguidamente, em passitos minúsculos, em torcicolos infantis, uma fieira infindável de adultos e crianças: primeiro os alunos da Casa Pia, por pelotões, equipados e armados marcialmente; depois as criancitas das várias creches e asilos, também todas uniformizadas, umas de crépon azul com chapéus de palha escura, outras de cor de castanha com enfeites de tule branco, ou de preto com cabeção à maruja, ou de boné escocês e bibes e chambrinhos de riscado. Havia ainda os rapazitos das catequeses de Santa Engrácia e Coração de Jesus, com os rostitos engoiados e anémicos muito sumidos sob a pala negra dos bonés. Fechava esta vanguarda pueril do cortejo o grupo dos jovens rebentões da Juventude Católica, de casaca e medalha na lapela. Depois um grande pendão de cetim branco, suspenso de hastes doiradas, articulando em cruz, com um lindo painel ao centro, figurando Santo António idealizado entre nuvens. Era o primeiro dos onze que tinham sido mandados fazer em Antuérpia, elegantes e aparatosos, cortados todos em cetins, coruscantes de cores diversas, sobrepujados por largas sanefas com franja, cortados inferiormente em largas tiras flutuantes, e com a biografia milagreira do Santo pintada a fresco, em cada um seu episódio. Iam eles alternando, a longos espaços, com o estirado desfilar das irmandades, vitoriosamente desfraldados sobre essa policromia alada de opas caras, palpitando ao vento. A partir do primeiro pendão, a infanteria municipal começou a incorporar-se também no cortejo, ladeando por meio de patrulhas, de vinte em vinte passos, a procissão. E as caricatas miniaturas de anjos salpicando-a sempre, alguns ajaezados muito comicamente, com trapos de guarda-roupa, das mais disparates combinações, de alegorias absurdas. Intervalados por entre as irmandades vinham igualmente os andores; entre eles, na sua peanha gongórica, o pequenino Santo António da Sé, e o Santo António guerreiro, de Cascais. Depois, em dupla fila, a crua mancha, branca e negra, dos seminaristas; a seguir os priores, os desembargadores, os cónegos, os cantores da Sé, os sacristães com a cruz e o cirial, e as almofadas com as mitras; o cabido, de pluvial, alçada à frente a cruz patriarcal; e sob o palio, de mitra e dalmática, o Patriarca, acolitado pelo deão e o chantre, levando as relíquias do Santo. Pegava ao palio gente do cabido, nos flancos balanceavam-se os dois leques de penas. Finalmente, na cauda, os prelados das outras dioceses, deputações das duas casas do parlamento, as primeiras autoridades civis e militares do distrito, a representação pitoresca das camaras municipais de todo o reino. E, a fechar, em ruidosa desordem, o costumado tropel de povo.

Era deveras imponente e majestoso. Impunha-se pela grandiosidade, pela diversidade, pela riqueza, pela sua extensão descomunal. Levou duas horas a desfilar. Já o primeiro pendão chegava ao Limoeiro, e ainda o portão enfeitado de S. Vicente estava golfando corporações. Jatancioso e enternecido, numa patente emoção piedosa, o Núncio assistia à cerimónia, da varanda, estilo rústico, de uma casa senhorial, frente ao arco de Santo André, ladeado por grandes damas com lágrimas nos olhos. Á passagem de cada andor, de cada benta imagem, ajoelhava; e diante do palio imobilizou-se por segundos em fervorosa oração.

Quando chegava ás alturas da Sé a colegiada, saíram de dentro os cones joaninhos das basílicas, a incorporarem-se também na procissão, cujo interminável dorso refulgente já a esse tempo tomara toda a Magdalena e rua dos Capelistas, tendo voltado à direita, rua do Oiro acima, por entre as janelas e os telhados acogulados de cabeças, ombro a ombro com a efervescência sempre crescente da multidão. O Cavalinho-mosca postara-se em observação, próximo do Rossio, a meio das escadinhas de Santa Justa, improvisado palanque onde a pressão do povo era esmagadora e a acumulação insofrível, de roda a um tosco altar com uma grande cruz simbólica, que com ripas e lonas de entremês os festeiros tinham fantochado ali. O inflamado agitador estava pálido, nervoso, inquieto; os seus olhos de lince tinham duras reverberações metálicas; sobraçava um grosso maço de papéis, que a intervalos procurava solicito com a mão, como que a afaga-los, a certificar-se da sua presença. — Parecera-lhe ser aquele talvez o melhor centro de operações para a sua manobra. Dali, daquele ponto central e dominante, qualquer pequeno sinal de alarme irradiaria fácil em todas as direções, tomando rápido volume e incremento, achando logo ama repercussão formidável no marulhante mar de gente que, ali a dois passos, refervia impetuoso e compacto em toda a vastidão do Rossio.

Vinham agora passando na frente dele as emaciadas crianças da catequese, com a espinha amolgada e o ar embrutecido, acompanhadas por senhoras de negro, com o peito constelado de emblemas religiosos. A excitação nos espetadores era manifesta; o desagrado, a rebelião, a troça cada vez maiores. Havia gestos claros de achincalho, atitudes de provocação, frases injuriosas, que faziam corar algumas das grandes damas de preto, e os municipais franzirem para o lado os olhos de ameaça, distribuindo algumas coronhadas. — Era o momento... O Cavalinho-mosca fez sinal a um pequeno moina que estava em baixo, marinhado num candeeiro, e que soltou um escarninho assobio; e ao mesmo tempo ele arrancou do sovaco e mandou para a frente num arremesso os papeluchos, que voaram rufiando, como pombas, pelo ar. E gritava:

— Abaixo a reação! Viva a anarquia!

Os mais próximos dele, naturalmente, voltaram-se primeiro com espanto, depois agitaram-se, acotovelando-se, pretendendo correr, no estimulado empenho de apanhar os papéis. Isto determinou uma oscilação violenta, que de camada em camada, transmitida à rua, levou adiante de si a onda do povo, penetrando, estripalhando a procissão e atropelando as crianças. Então romperam angustiados para o ar os primeiros gritos, quase simultaneamente, o embate inconsiderado da multidão, na sua atabalhoada ansia, pregou com o altar em terra, ferindo os destroços muita gente, produzindo um fragor medonho; e foi como, por entre imprecações e por entre clamores e choros, esta primeira ondulação de terror, alastrando, cresceu assoladora e instantânea pelo espaço, tanto mais dominadora quanto mais caminhava, produzindo, súbita, indomavelmente, uma apavorada e grande debandada.

Então o pânico, o alarido, a confusão, o tropel foram uma coisa indescritível. Rompendo, cortando alucinado o povo por toda a parte, envolvida numa como ressaca humana a luzida serenidade do cortejo, fragmentada sacrilegamente a procissão, não se ouviam nas ruas senão gritos de: — Fujam! Fujam! — ; e das varandas dos prédios também figuras aterradas, debruçando-se, indagavam: — O que é, meu Deus!? Mas o que é?... — E ninguém sabia, ninguém queria, ninguém era capaz de responder... Esses subversivos papeis soltados pelo Cavalinho-mosca eram umas inofensivas folhas volantes de jornal, em oitavo, — SUPLEMENTO AO N.º 61 DA «PROPAGANDA», — lia-se ao alto de cada um deles, com a subepígrafe: Os anarquistas ao povo trabalhador. Mas no momento ninguém tinha tempo nem serenidade para os ler. A ordem era cada um fugir, salvar-se como pudesse. O primeiro grito soltado foi um rastilho. Ninguém se entendia agora, ninguém se conhecia. Conquistavam espaço adiante de si, implacáveis e cegos como feras. Em instantes tudo estava deploravelmente baralhado e introvertido: um turbilhão de tochas, cruzes, hastes de pendões, trapos, bengalas, rendas, imagens, alvas de clérigos e chapéus de senhoras rodopiavam pelo ar. Padres e leigos, velhos, mulheres e crianças, polícia e povo, tudo tomava atabalhoadamente a fuga, no horror a um misterioso e imaginário perigo, tanto mais empolgante que ninguém sabia ao certo o que ele fosse... e as suas proporções assumiam assim uma ampliação enorme no interior desses espíritos cavados de incerteza. A titânica abalada era geral, em definidas linhas para as embocaduras das ruas, pelidando em desespero pelas sabidas, e nesta grande fuga ao estricote levando tudo de rojo diante de si, como se arrastados fossem na tromba gigante de um ciclone, ou se renovasse a lendária catástrofe do terremoto. Chegava a determinar estranhas aberrações visuais este louco remoinho, esta precipitada corrida em massa, sem ordem e sem medida. Parecia que tinha escurecido o ar; esperava-se a todo o momento ver aparecer esses anjos terríveis de que falia a Escritura, voando entre nuvens de chumbo e soprando o Dies illes! Dies irae! Nas suas brônzeas tubas de extermínio; e naquela atropelada extensão do Rossio, literalmente varrido pela toalha imensa da multidão, chegava a estranhar a gente que a coluna do monumento ficasse no seu lugar, que não fugissem também ou não aluíssem os prédios.

Por parte dos clericais, de toda a beata multidão que por qualquer forma ia colaborando no grande préstito religioso, a confusão e o terror não conheciam limites. Alijavam os andores, largando-os de alto e deixando-os de repente ao abandono, com os santos esmurrados e os varais partidos; atiravam fora os brandões, os bentinhos, as relíquias, os ciriais as cruzes, rasgavam as opas, tapavam furtivamente as coroas sofraldando as batinas. Os seminaristas atacavam os portais abertos e acoitavam-se nos vãos de escadas, despindo as alvas, a rezar alto e a tremer, com os olhos enresinados. As mulheres, descompostas e com as saias em frangalhos, tombavam desmaiadas. Prelados de todas as categorias foram vistos a fugir também perdidamente, arregaçando as fraldas, sem recato nem vergonha. Houve lojas arrombadas pelo choque homérico da multidão. E no meio de toda aquela algarada cobarde, alguns raros traços de animosidade destacaram, como: valentes varinas que, com o ar decidido, carregavam ao colo os filhinhos que iam de anjos na procissão; como um padre que atravessou rápido a grande praça, duro e enérgico, de revólver apontado ao povo e berrando:

— Povo indigno! Estás a pedir Inquisição! — Não faltavam igualmente as notas cómicas: homens graves escalando as árvores, com o fato rasgado; outros com o chapéu sem abas; brigando outros com os soldaditos da Casa Pia, a tirarem-lhes as armas para se defenderem; e uma senhora em cabelo, com o olhar desvairado, a correr, descalça, já com os pés em sangue e com três sapatos numa das mãos.

Ficou assim, num momento, completamente desbaratado o incomensurável monstro da procissão. Os pendões tinham abatido todos como por encanto. Os símbolos religiosos, ou tinham desaparecido, ou jaziam desacatados, estrompados e soltos pelo chão. Quando o pânico se deu, a testa da procissão, a meio da Avenida, voltava já para o largo da Anunciada, e o palio vinha ao fundo da rua do Oiro. Pois em poucos minutos esta ficou quase completamente deserta. A evacuação foi quase subitânea e total, naquela grande rajada de terror. Houve virgens, anjos, filarmónicos e seminaristas que chegaram a atingir esbaforidos, numa doida carreira seguida, a praça de Luís de Camões, parando só aí. Alguns soldados da municipal chegaram a carregar as armas. Um tiro perdido e haveria uma hecatombe, seria o Dia do Juízo! De roda do palio tudo também desatou na mesma pusilânime debandada, incluindo o alto clero. Ficaram apenas, com as autoridades militares, o conde de Bretiandos e o bispo de Coimbra. Do mais, somente os portadores do palio, por dever do cargo, se mantiveram, com o olhar atolarabado e as varas a tremer-lhes nas mãos; e sob a sacra umbela, entre o deão e o chantre, a figura lívida e imovei do Patriarca, na sua bronca ingenuidade porventura sonhando já com as palmas do martírio... Isto enquanto na grande extensão da rua, quase deserta, se via o pavimento todo salpicado de destroços: sapatos, saias, báculos, medalhas, lacinhos, chapéus, mamarrachos e ídolos de toda a sorte; enquanto, a perder de vista, a multidão continuava desaurida a correr para as travessas; e em cima, na balaustrada do teatro de D. Maria, apontava a linha esbelta da Rainha, para numa piedade aflitiva fazer sinal de alto! Ao esquadrão que avançava da rua do Príncipe.

Por fim, laboriosa e cansadamente, a ordem foi-se restabelecendo. Passados os primeiros minutos de pânico, foi entrando cada um em si e tranquilizando-se, por não ver justificação consequente ao seu terror. Assim, uns sossegaram, outros voltaram a tomar serenos o seu lugar à beira dos passeios. Os estropeados e os feridos, que eram muitos, enchiam as farmácias. E a procissão, desmantelada e num receio, lá procurou mesmo assim recompor-se e retomou o seu itinerário; mas agora descosida e já sem imponência nem grandeza, com deploráveis soluções de continuidade, lembrando a retalhada cauda de um grande réptil, já morto, mas debatendo-se ainda e chicoteando a terra na epilepsiação da agonia. E, tendo recebido ordem para apressar o andamento, lá logrou a esfarrapada milícia terminar, já com as primeiras sombras da noite, o seu falhado passeio triunfal pela cidade, entrando finalmente na Sé, onde ia celebrar-se o Te-Deum do programa.

CAPÍTULO XXIII

 

Este borrascoso e terrível fim de tarde Dão fez senão, corroborando as previsões do Mateus, afervora-lo mais na completa e integral execução do seu plano. — Não havia duvida... estava definitivamente estabelecida a desordem, a confusão e o terror em toda a cidade; ela ficava assim à mercê de um golpe de mão ousado. A coisa não podia falhar! — Por isso ele no dia seguinte confirmou as suas ordens: dar-se-ia naquela madrugada o grande assalto armado à cidade. Era a noite escolhida pelos festeiros para o desfile do cortejo iluminado a fogachos e balões de cores, — corrida de gente fina, — o qual devia ir do Terreiro do Paço até à Avenida. Bela ocasião, magnifica oportunidade para tentar frustrar mais essa pândega pela violência, repetindo o processo do dia anterior! Manter-se-ia assim a perturbação nos ânimos; e, o que era essencial, distrair-se-ia a municipal e a polícia de sorte que não fosse a ronda habitual das patrulhas impedir em volta da cidade a concentração dos revoltosos.

Pois este efeito conseguiu-se com uma exatidão, uma bravura e um êxito que nada deixaram a desejar. Cerca das 8 da noite, começou a engrossar e a crescer no Terreiro do Paço e imediações, mormente à esquina para o Arsenal, uma multidão turbulenta e compacta, emporcalhada a espaços pela mancha patibular dos tunos e malandrins da ínfima espécie, falados e assoldadados expressamente para intervirem na ocasião. Sabia-se que devia partir dali o cortejo, e a senha era fazê-lo abortar ab initio, dissolvendo-o pela desordem, aniquilando-o pelo ridículo. Aberta a escancaras, centelhava convidativa na escuridão a porta de um grande ripado provisório, improvisado armazém onde em caótica profusão se amontoavam muitas dezenas de caixotes com velas, e milhares de balões polícromos de papel, tigelinhas, escudos, rolos de canos de chumbo, lonas, archotes, bandeiras e quejandos ornamentos obrigados da festança.

A um sinal dado, saíram de dentro cinquenta condutores-bombeiros, empunhando altas e grossas hastes de madeira que tinham no topo um reservatório com torcida e petróleo, formando fogacho. Estenderam alas sobre os dois flancos da porta e acenderam os fachos, ao tempo exato em que as primeiras carruagens se aproximavam, no seu romper moroso e difícil através a grossa pinha do povo. Tudo carruagens descobertas, num rodilhão alegre de cabeças, transportando famílias inteiras, os cavalos enfeitados de guizos, algumas vestidas também de flores. Assim a primeira carruagem avançou, até vir recortar-se no retângulo iluminado da porta, donde surdiram outros bombeiros que vieram oferecer aos que iam dentro, a cada um sua haste com um balão aceso; até o garotito sentado na almofada, ao lado do cocheiro, foi brindado com uma; e já o chicote fustigava os cavalos e a carruagem dispunha-se cedendo o lugar a outro, a dar a volta e partir. Mas, quase no mesmo instante, um grande alarido de assobios, vaias, apupos, morras! Estrugiu e alastrou, numa dura ressonância de ameaça, por sobre o amontoamento anonimo do recinto. E, simultaneamente, a desprevenida carruagem era assaltada, as hastes dos balões arrancadas das mãos dos pávidos festeiros e partidas em estilhas, e logo os balões rasgados ou calcados a pés na rua. Veio segunda carruagem, aconteceu-lhe o mesmo. Igualmente ao terceiro e ao quarto e a outro e outro. E numa progressiva ansia o borborinho, a algazarra, um estrupidante ferver de revolta cresciam na multidão. Cabriolava em toda a sorte de excessos o vulgacho, contando com a impunidade. A polícia, longe, não ousava intervir. Os trens eram escalados com impetuosidade, com uma sanha barbara, travando-se dentro de muitos deles surdas lutas a murro. As crianças e as mulheres com os seus gritos exacerbavam os conflitos, complicavam o alarido. Agora os distribuidores dos balões já nem os acendiam; defendiam-se com as hastes, à paulada. Silvavam pedras pelo ar.

Muitos cocheiros, prudentemente, desertaram. Outros aconselhavam os fregueses a que recebessem os balões apagados, e partindo rápidos, iam acendê-los longe, procurando organizar o cortejo na rua da Prata. Mas foi debalde. Aqui também os seguiu como por encanto aquela bruta jolda irreverente. Atacavam-nos e desarmavam-nos da mesma forma, faziam-nos atabalhoadamente destroçar. E como a esto tempo esses apavorados farrapos de cortejo eram já uma coisa truanesca e lúgubre no seu crepuscular desmantelamento, ainda em cima vozes de troça lhe cobriam vergonhosamente a debandada:

— Miserere! — Ó medo, larga essa carruagem! — para a onde vai o enterro?...

Entretanto, umas carroças de lavadeiras que passavam, tiveram uma ruidosa ovação.

Outra corda de trens ainda procurou, dando volta pelo arco da rua Augusta e Alfandega, ir reformar-se junto ao cais das Colunas. Não foram mais felizes. Aí lhes burlou também a tentativa a mesma implacável e barbara multidão. Mas se a audácia do populacho não conhecia termos, também a teimosia e perseverança dos organizadores daquela festa não tinha limites. A proximidade do rio sugeriu-lhes a ideia de recorrerem aos catraeiros, que eles fariam desfilar numa imponente e pitoresca marcha, levando, não já balões, mas archotes acessos. Porém os cautos e frios homens do mar escusaram-se. Havia ainda a lançar mão dos garotos; prometeu-se-lhes uma gratificação de três tostões por cada coto de archote que trouxessem. E a promessa deu logo como efeito um grande recrutamento, buliçoso e alegre. Tomavam então galhofeiramente, numa pressa, os archotes, tombando uns por cima dos outros, e acendiam-nos cantando. Alguns levavam um archote em cada mão. Mas davam poucos passos e eram subjugados... O povo apagava-lhes os fogaréus, fazia-os despedir a correr.

E durou horas seguidas, sem tréguas, sem repouso, esta agitação estúrdia. Por fim, a ca vali ar ia entrou em manobra. A municipal pela rua do Oiro, e da banda do Arsenal os lanceiros, carregaram com brandura sobre o povo, que começou a dispersar, ululando, em tropel, por entre uma espessa fumarada resinosa, catado pela polícia que agora desatara num furor de prisões, logo desfeitas.

Entretanto o Mateus, impaciente no seu centro de operações do Almargem, aguardava pormenores do conflito, que devia ser como que a escaramuça preparatória da grande batalha. Confrangido e excitado, agitando nervoso as mãos, despedidos à terra em meditativa inquietação os olhos, média com passo breve e incerto, a todo o comprimento, a casita da sua residência, desde a saleta de entrada, completamente ás escuras, até ao extremo oposto, junto à mesa, no seu quarto de dormir e gabinete de trabalho. Aqui ardia apenas, atenuada ainda pelo para-luz, a chama avermelhada do candeeiro de petróleo. Tudo estava no conhecido arranjo habitual; mas viam-se mais… — algumas bandeiras que tinham sobrado em negro monte ao lado da porta, esparsas sobre a mala várias das bombas fabricadas pelo João, e uma barrica de picrato no chão, aos pés da cama.

Um leviatanesco turbilhão de ideias lhe tumultuava no cérebro. Sentia-se esmagado de apreensões e terrores nesta hora tormentosa. Assoberbava-o, desta medonha crise que ia ferir-se, a magnitude colossal, o enigmático mistério. A termos que, por momentos, arrependia-se... e na sua angustiada febre, na sua dolorosa impaciência, chegava a perder a noção do tempo, parecendo-lhe, ora que este parara, ora que já não era ocasião do ataque porque ia amanhecer.

Por fim, chegou esbofado e radiante o Fagulha, a contar-lhe o que tinha sucedido: a impetuosidade e decisão do povo, o cortejo apagado e desfeito numa onda de troça, o travamento geral da população com a força pública; e que tudo andava armado, tinha a municipal durante horas com que se entreter! — Assim a coisa de cá não falhasse!

O Mateus ouviu-o numa imobilidade de êxtase, volutuosamente, com as narinas palpitantes; e ao cabo disse-lhe apenas, despedindo-o:

— Bem! Vai para o teu posto.

Também ele saiu, logo atrás do Fagulha, e tendo fechado a porta, guardando a chave, encaminhou-se ao lindo mirante zebrado que encimava o parque, no seu recorte marcial, sobranceiro à esfumada renda dos pinheiros. E agora aqui, chamando a si toda a sua coragem, transfigurara-se. Já não era o mesmo hesitante e atribulado homem de há minutos antes. Perante a inevitável fatalidade do lance fizera-se-lhe frio na alma, tomara-o uma grande e absoluta serenidade. Parecia desprevenido, indiferente, e nunca a sua preocupação fora tão forte. Dominador e atento naquele ponto sobranceiro a todas essas colinas de miséria, cuja felicidade e libertação ele se propusera alcançar, agora a sua tranquilidade era como que a suprema integração, a cristalização ao máximo, de toda a sua mortificada inquietação naquele instante definitivo. — Já não havia que hesitar! — E numa histeria lucida, num orgulho triunfante, o Mateus, firme e de cabeça descoberta, erguia para o céu os seus claros olhos de confiança, faiscando promessas na opaca mansidão da noite, na cumplicidade amiga das estrelas.

Daquele vértice desafogado e alto podia ele abranger uma vastíssima área em torno, desde as grossas artérias marginais do Beato, por todo esse resfolgante vale de Chelas, até depois ao Arco do Cego, e ainda aos valeiramentos negros que acusavam o formigueiro fabril de Alcântara e Campolide. Pois em toda essa enorme e problemática extensão cravava o inflamado agitador ansiadamente a vista, no empenho absorvente de surpreender os primeiros sinais de começo de execução ao seu plano. E galopava-lhe o coração apressadamente. Não por qualquer tibieza ou receio; não por falta de fé na cooperação decidida e unanime da sua gente. Nada! A estes experimentara-os bem, sopesara-os no exato valor durante os últimos dias, para que podasse a este respeito alimentar a mínima desconfiança. Estava seguro de que nem um faltaria. Contava com eles. Mas laborava-o a apreensiva suspeita de que qualquer incidente casual viesse fazer falhar a completa execução da sua ideia. O traçado geral do plano era tão complicado, dependia de tantos e tão dispersos fatores... Nada mais fácil! Qualquer involuntário azar, uma ordem mal compreendida, um avanço fora de tempo, podiam fazer naufragar o seu trabalho de tantos anos, a sua propaganda homérica de todos os instantes, a sua desfibrinante meditação de tantas vigílias. — E é que, então, a causa, comprometida agora, ficava talvez comprometida para sempre! Tarde apareceria aqui um segundo Mateus. E ele é que, se esta excecional ocasião se perdia, não teria vida nem animo bastante para recomeçar.

E ele aí se obstinava afincadamente a olhar, a um e outro lado, sempre na mesma atormentada ansia, interrogando o impenetrável borrão da noite. E sem conseguir lobrigar o que desejava, o que esperava, o que devia dar-se, o que o retinha ali... Porque, indefinida e monotonamente, no confuso carvoamento daquela hora de repouso, na ampliação sem limites que a escuridão lhe emprestava, esbatia-se e alastrava para toda a parte, sem uma vibração, sem uma luz, sem um movimento, sempre a mesma negra solidão implacável, de campos e campos sem fim, em que as árvores eram como espetros e os casais apagados tinham linhas de sepulcros. Pior que um deserto... porque sob aquela lutuosa toalha adivinhavam-se almas, sob aquela inércia lúgubre escabujava o sofrimento! E já o Mateus, cansado de olhar em vão, quebrava num começo de desalento, quando finalmente, — agora! — lhe pareceu começar a distinguir, arrastando-se vagamente, aqui, ali, por aquela extensão de léguas, primeiro um indeciso rolar de sombras, sinuosas cordas de treva na transparente escuridão dos vales; depois, progressivamente, à medida como estas esfumadas fitas iam crescendo, finas arestas saltavam, coroando-as, no suave reflexo da luz sideral, picando-as de cadenciados brilhos. — Era como uma floresta de pequeninas pontas de aço que viessem pregadas nesse cortado e flutuante dorso escamoso, brunido a trechos em fosforescências metálicas, em instantâneas palpitações de fogos-fátuos... que aparecia agora e logo fugia, para reaparecer depois... a cada momento interrompido no enfiamento dos cabeços, por vezes recortado em negro no alto das colinas, e com a sua morosa ondulação, com o seu bracejar lento e espontâneo povoando numa arrogância a solidão. Agora, sim! Ele via o que quer que fosse de disciplinado e contumaz a afirmar-se naquela incerta agitação, naquela densa anastomose de sombras pelo espaço. Eram os seus! Não se tratava de qualquer ilusória visionação do seu espirito, não era a escandecida objetivação do seu desejo, mas a ansiada e flagrante realidade; pois que a caprichosa fluidez dessas cordas fantásticas esboçava-se e rompia ao acaso, de todos os lados, imprevista, atoadamente, na total independência do seu querer, mesmo antes que ele para lá olhasse. Finalmente! Aí vinha o inexorável circuito, essa temerosa gargalheira de aço que ele havia sonhado e ultimado; aí vinha ela crescendo e estreitando nas suas malhas de ameaça, prestes a afogar num círculo de morte o manso lasseiro distante da cidade desprevenida... Eles aí vinham, sim, não havia duvida! Certos e numerosos como se o campo estivesse coalhado de pirilampos, como um atropelado bando de faúlas a correrem num papel queimado.

— E agora elevadamente o Mateus, debruçado sobre as ameias do mirante, não se fartava de olhar... colhendo, numa alegria doida, a triunfante verificação desse grande movimento decisivo, incendido numa tão intensa e trasbordante vibração de felicidade que estremeceu, no sincero receio de perder naquele mesmo instante a vida!

Eram então horas de tornar para baixo, entrando em casa, para onde havia ordem de lhe levarem as primeiras participações do movimento. — Até que fosse o momento de ele dar o sinal para o assalto e partir! — Verificou, tateando a sombra, que a girandola estava pronta; depois desceu, fechou cuidadosamente a porta do mirante e voltou a casa. Aí, junto à mesa, consultou o relógio, — meia noite. Como implacavelmente o tempo estava andando depressa! Num rebate novo de impaciência, voltou-se, já de ouvido à escuta, direito à porta; e então pareceu-lhe que uma forma vaga, que um estranho vulto branco vinha avançando para ele da indecisa penumbra da saleta... Num incrédulo espanto, adiantou um passo, afirmou-se. Não havia duvida! Tinha agora ali assim, súbita e inesperadamente, diante do seu espirito acobardado, ao seu coração desprevenido, a figura imperiosa e séria de Adriana, recortando-se, clara e suave como uma alvorada, no retângulo negro da porta.

Tomado de um grande e timorato assombro, julgando-se vítima de alguma alucinação visual, de qualquer traiçoeira aberta de fraqueza na inflexibilidade estoica da sua alma, o contramestre afirmou-se mais, correndo com a mão os olhos. E perante a inexorável evidência exclamou:

— A Sra. D. Adriana aqui!?

— Eu mesma! — disse ela com firmeza.

— Mas como? Com que fim, porque motivo?...

— Já o vai saber!

E decidida e pronta ela entrou pela sala, fazendo do mesmo passo recuar diante do seu nobre vulto austero o Mateus, dulcidamente subjugado.

Mas breve, recobrando-se, uma áspera contrariedade o impacientava, fazendo-o balbuciar:

— Pesa-me bem ter de lho dizer, minha senhora... mas Vossa Excelência veio na pior das ocasiões!

— Eu penso exatamente o contrário... — disse com significativa intenção Adriana, cravando nele um olhar inteligente.

— É singular! — murmurou desnorteado o Mateus.

E agora Adriana, avançando mais, ameigando intencionalmente a expressão, com as pálpebras doces, com o lábio irónico:

— Dir-se-á que o contrário com esta minha amável visita...

— Talvez...

— É um caso único em situações como esta!

— Porque é única também neste momento a minha condição!

Adriana fez-se outra vez séria, e com viril intimativa, sacudindo a cabeça com altivez, unidas à frente as mãos nos braços longos:

— Basta de comédia, Mateus!

— Comedia em quê?... — disso ele sinceramente, com uns grandes olhos espantados.

— Oiça-me... Sei tudo! Estou na inteira posse do seu segredo.

— Ó roeu Deus!... — exclamou o Mateus com terror, aflitivamente perplexo, apertando o crânio nas mãos.

— Mas descanse que não venho para o prender... — dizia, com afetada serenidade, Adriana. — Nem o denunciei, nem trago a policia comigo.

— É supérfluo afirma-lo, minha senhora...

— Venho simplesmente, — entenda-me bem! — venho restitui-lo a si próprio... venho chama-lo à razão, à benignidade, à justiça, ao dever. Venho salva-lo! Intervindo a tempo de lhe deter essa mão, prestes a ser milhares de vezes homicida.

— Homicida, não! Adriana... Protesto! Modifique o seu juízo.

— Venho aqui para conseguir, — pela persuasão ou pela violência, se tanto for preciso! — que no seu alto espirito volte a fazer-se a repousada luz do bom senso, que o embate das mais abomináveis paixões lhe apagou... Venho para lhe fazer ver claro dentro de si mesmo e mostrar-lhe que, assim como a vaidade vulgar é a geradora do erro, também essa sua generosa ambição podia ser o prólogo sanguinolento do crime!

Com um sorriso amargo, o Mateus cruzou os braços, e um pouco perversamente, com o olhar metálico, bamboando a perna:

— E não mediu o grave risco deste seu passo,., o desaire, a inconveniência, o descredito, para o seu nome e dos seus, desta sua entrevista, a sós comigo, aqui, a esta hora... se acaso viesse a saber-se?

— Eu saberia defender-me! — contestou com dignidade Adriana.

— Veja bem como é grave... Seria o naufrágio irremediável da sua reputação! — E perante a desdenhosa inflexibilidade dela — Vamos! Peço-lhe... retire-se, deixe-me... salve-se enquanto é tempo!

Adriana, impassível, manteve a sua atitude altiva; e depois de uma pausa de desafio deblaterou demoradamente esta frase heroica:

— Se me perder, a santidade e a grandeza do fim que aqui me trouxe vale bem esse sacrifício!

— Eu por mim não lho agradeço!

— Nem eu preciso!

O Mateus estava positivamente desconcertado. Nunca imaginara em mulher uma coragem assim! Não sabia como tirar-se desta dificuldade e remover sem desprimor o amavioso obstáculo que tão fora de propósito ameaçava baldar-lhe a mais exclusiva e ardente preocupação de toda a sua vida. Depois de um silêncio, disse:

— Adriana! Então?... peço-lhe... Quer que eu endoideça?

— Quero que recobre o juízo.

— Não ponha por mais tempo a minha paciência à prova! Saía, deixe-me... É o que eu neste momento lhe imploro, com todas as forças da minha alma! Por muito que saiba, não imagina a gravidade e a importância excecional da minha missão neste momento!

— Imagino muito bem!

— Não posso perder um momento agora! — dizia ele, imperiosamente, agitando-se com furor ao longo da sala. — É-me impossível... Saía! Saía não tenho tempo para a atender.

Mas Adriana, muito serena, com expressão ao mesmo tempo grave e carinhosa:

— Que remédio terá o senhor!

Neste instante rufaram do lado de fora pancadas violentas na janela, que tinha os batentes cerrados. E logo com febril intimativa a voz do Fagulha:

— Senhor Mateus! ó senhor Mateus!

— O que é!?

— Abra-me a porta!

O Mateus trocou um olhar de admiração com Adriana, que sorria. E, percebendo que fora dela o estratagema, disse para fora:

— Ah, és tu, Fagulha?... Fala mesmo daí.

— A gente de Chelas vêm toda! — disse o Fagulha com entusiasmo.

— Ouve?... — disse a meia voz o Mateus para Adriana, com os olhos muito brilhantes.

E quase ao mesmo tempo, de fora, o outro:

— Já passaram a quinta da Conceição, e estão ás ordens, em baixo, entre o Carrascal e a linha férrea.

— Bem! Está entendido, — disse alto, rapidamente, o Mateus; e de novo para Adriana, num tom de voz que ele procurava tornar enérgico, mas sem ousar encara-la, rodando tímido em volta dela: — Então, Adriana! Porque espera?... Quantas vezes quer que lhe repita a minha intimação?... É forçoso que se retire! Que me deixe o campo livre. Eu daqui a minutos tenho que sair!

Ela porém, inexoravelmente plantada sempre no mesmo lugar, disse com infinita doçura, cravando nele repreensivamente os olhos:

— Mas que inacreditável cegueira, que loucura! Que perversão dos mais sagrados sentimentos! Que pavorosa e colossal monstruosidade!

— Não importa... O essencial é que me deixe!

— O essencial é que eu fique!

— E pode ficar, sim... é até o mais conveniente. Contanto que eu passe, fique à vontade!

E o Mateus ensaiou com presteza ladear a posição de Adriana, para tomar direito à porta. Ela porém, adivinhando-o, recuou e interpôs-se num relance, dizendo com império:

— Ficaremos os dois!

De novo o contramestre estacou, assombrado, doido, com o espirito oprimido e indeciso perante a tenacidade inverosímil deste obstáculo, na aparência tão frágil, que assim zombava da sua vontade, em riscos de comprometer toda a sua obra. Para mais, neste momento, a comunicação do Fagulha acabara de escandecer-lhe o cérebro, onde galopava a alucinativa visão de todos esses milhares de homens rastejando na sombra, atentos ao seu sinal, espertos ao sou mandado. E palpada assim a iminência, pressentido o êxito mais do que provável do seu gigante empreendimento, a turbadora presença de Adriana fazia-o deslocar-se em gestos de atropelada incerteza, acendia-lhe clarões de desespero dentro da noite das pupilas. E tornava com aflição:

— Ó Adriana! Mas diga-me... por amor de Deus! Que significa tudo isto?... Que duro e implacável coração é o seu? A que sinistro, a que odioso e infernal plano obedece esta sua intervenção maldita!?

— Já lho disse.

— Que mal lhe fiz eu para me odiar tanto, para me crucificar assim?...

— Pelo contrário, estou-lhe até dando a mais elevada prova de estima.

— E quer fazer de mim um bandalho, um vil traidor? Vêm aqui no propósito manifesto de me aniquilar, pondo em jogo a minha honra?...

— E não ponho também em jogo a minha?...

O Mateus, subjugado, hesitante, baixou a cabeça e voltou a medir em rodeios ávidos o quarto, como uma fera numa jaula; mas de repente, tendo encarado a barrica de picrato, parou e aprumou-se, e os olhos faiscaram-lhe em antecipados relâmpagos de triunfo.

— Adriana! Tome bem conta no que lhe vou dizer... O pó acinzentado que enche esta barrica é um explosivo terrível Ouviu bem?...

— Já suspeitava isso, — disse Adriana singelamente, sem trair o menor receio. — tem um poder de destruição incalculável!

— Bem, já sei... e depois?

— E depois... eu sou doido... posso num arrebatamento atirar-lhe para dentro, por exemplo, este candeeiro — E avançava resoluto com o candeeiro para junto da barrica, num grande gesto de ameaça. — Já vê... será a morte inevitável! Deixe-me o campo livre, senão...

Adriana, pálida e inteiriça como um bloco de mármore, sem pestanejar, sem tremor, disse com arrogância:

— Senão o quê?...

— Sai ou não sai?... — intimou ele novamente, com o braço esquerdo estendido à porta.

— Não!

— Adriana! Que eu faço ir tudo isto pelos ares... — rugiu ainda o contramestre.

E ela impassível, cruzando os braços, olhando-o com firmeza:

— Sempre quero ver!

Quebrado de ânimo, o Mateus cerrou as pálpebras inquietas, colheu o braço suspenso sobre o perigo e voltou à mesa, onde poisou de repelão o candeeiro. Então, quase simultaneamente, novas pancadas de alarme soaram, primeiro na porta da rua, depois na mesma janela ao lado. E o contramestre estremeceu num salto de exaspero, com áscuas de lume nas pontas dos dedos.

— Quem é!?

— Sou eu! — clamou com força a abaritonada voz do Tranca-ruas. — Sr. Mateus! Apronte-se... vai tudo ás mil maravilhas!

— Que informações trazes?

— O alto do Pina está ocupado! Temos ali gente em barda, desde o caminho para o Poço dos Mouros até à Curraleira, pronta a avançar!

— Está bem, fico ciente... Volta para lá!

E novamente o Mateus encarou numa ansiada suplica Adriana, que se mantinha imóvel, envolvendo-o no mesmo olhar repreensivo e triste. Ele insistiu.

— Bem, Adriana! Quando tem então fim esta sua comédia?... — E como ela perseverasse no silêncio:

— Ah, espera... também não tem duvida... vou por aqui!

E dispunha-se, num relâmpago, a saltar pela janela. Porém, mais ligeira, Adriana tomou-lhe o passo. Ele despediu então numa corrida à porta; mas ainda ela conseguiu embargar-lhe o intento mais uma vez. A termos que por fim o contramestre, no que do desespero, lívido de morte, com a voz estertorada e o olhar torvo e perverso, ameaçou:

— Ó Adriana, tome sentido! Não abuse mais da minha sensibilidade... não me obrigue a começar as violências por si! Vamos! Para traz... — E perante a ineficácia ridícula da sua ordem: — Bem, tenho então que recorrer à força, já que me não faço obedecer por outra forma! Compreendo... isto não é uma luta entre homem e mulher, é o conflito implacável entre duas castas! Raça contra raça, não é assim?... Pois vamos a ver quem vence!

Alucinado, perdido, o Mateus ia a crescer para Adriana, resolvido a maltrata-la para a fazer arredar da sua frente, de punhos erguidos, com os lábios brancos e rolando-lhe em istras de sangue as órbitas rancorosas. Mas de repente outra vez, ao encarar com aquela delicada e austera figura, ali assim mansa e indefesa diante da sua bravia cólera, uma onda de ternura ensopou-lhe o coração, as pernas vergaram, os braços caíram impotentes.

E agora, de joelhos primeiro, depois de rojo pelo chão, impacientava-se, debatia-se humildemente, arrastava-se como um escravo, como um condenado á pena última, lamuriando uma atropelada torrente de vozes de compaixão, de suplicas inflamadas: — que de todos esses milhares de miseráveis, naquela hora tão deploravelmente comprometidos, fora ele o oráculo, o mestre, o grande iniciador... abandona-los agora, na última extremidade, faltar-lhes com a direção e o exemplo neste instante supremo da sua ansiada libertação, era a maior das cobardias!... E que, assim, retê-lo ali naquele momento era aniquila-lo moralmente! Cem vidas que ele tivesse esbarrondariam todas vergonhosamente naquele abismo de ignomínia! — E sem trégua nem descanso, estrebuchando, arfando, procurava envolver os joelhos de Adriana, afagava-lhe os pés em rasteiras caricias de lebréu, mordia o chão, arrancava os cabelos... numa tão violenta crispação de dor, num destempero tão completo de todo o seu ser, que do alto da sua impassibilidade Adriana fazia grandes esforços por dominar-se, envolvendo-o num húmido olhar de piedade.

Novo alarme voltou a tamborinar com ímpeto na janela. Era o Ventura. Trazia notícias da concentração entre o Campo Grande e as Picoas. E quase ao mesmo tempo tornava também o Fagulha, e impacientava-se, gritando para dentro ao Mateus — que se estava perdendo a ocasião! Que queria dizer aquele segredo? Que demora ora aquela!?

Porém o Mateus, de novo em pé, mas extenuada e vencido, nom animo tinha para ensaiar uma palavra de desculpa... Somente balbuciou, baixando os olhos mortais para Adriana, que, a segura-lo melhor, lhe tinha passado em volta do pescoço os braços.

— Diga-me finalmente, Adriana! Porque é que veio talhar aqui a minha infâmia? Porque me prende assim?...

E ela, docemente, pendurada, descaída num delíquio:

— Porque o amo!

— E quer-me ver desonrado, odioso, inútil para o mundo?...

— Não o será para mim!

Ia ainda o Mateus a formular nova objeção; mas ela, fazendo peso e dobrando-lhe a nuca, trouxe o rosto do contramestre mais perto do dela e cerrou-lhe a boca ardente com os seus lábios frios. Enquanto, num carinhoso abandono, murmurava:

— O mundo! Que lhe importa o mundo, se me tem a mim?... Veja o caso que eu faço! A felicidade é o isolamento. Dora avante, para as nossas almas irmãs e unidas, o único, o verdadeiro mundo seremos nós dois... Teremos com que povoar e alegrar sobramente a existência, no inteiro gozo da nossa ventura, na plenitude do nosso amor!

Num alheamento de sonho, numa volúpia indizível, o Mateus deixava-se mansamente conduzir... Amarfanhado agora sobre a mesa, ficou-se indefinidamente, ansiado, inerte, com a cabeça entre os braços, soluçando devagar. Enquanto, fora, passos inquietos se atropelavam no saibro do parque, cortados de indignadas vozes de surpresa; e Adriana lhe acariciava maternalmente os cabelos, continuando a embala-lo na sua melopeia divina...

Passados tempos, ela aplicou o ouvido, certificou-se de que estava restabelecido o silêncio no parque deserto; e, olhando a janela, verificou que lhe debruava já exteriormente os alizares, um vitorioso clarão matinal. — Finalmente! Estava conjurado o perigo! — Numa violenta expiração de alívio, ergueu gratos olhos ao céu; depois afastou-se, pé ante pé, subtilmente, e atravessando rápida o parque, já desperto nos primeiros alvores da manhã, entrou em casa.

Chegando ao seu quarto, ia a fechar a janela do sul, que deixara aberta, quando súbito, mesmo ali na sua frente, um grande e alucinado clarão ensanguentou o espaço, e um pavoroso estremecimento sacudiu a terra, seguido por formidável estampido, enquanto uma temerosa sarabanda de pedras, caliças, terras, árvores e vidros partidos arremetia numa impetuosa girandola de morte pelo ar.

Vivamente assustada, Adriana recuou um passo, com os joelhos trémulos, pondo as mãos erguidas. Mas no mesmo instante um grosso projétil, despedido do exterior com violência, veio rolar-lhe aos pés... Ela abaixou-se, e viu que era a despegada cabeça do Mateus, numa pasta informe, fitando nela amargamente os olhos gelatinosos... Então, compreendendo, sucumbida de dor e de remorso, deu toda a alma num arranco de suprema angustia e tombou aniquilada de pavor sobre aquele crânio fumegante.

 

Outubro 1895 a novembro 1896.

Você terminou Amanhã

Abel Botelho

Livros como este