Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 4 de 21

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Amanhã

Capítulo III · Simultaneamente com esta clandestina conspirata nos promíscuos…

 

Simultaneamente com esta clandestina conspirata nos promíscuos desvãos da locanda do Zé Pequeno, ali a não muitos metros dela, em casa de Afonso de Carvalho Meireles, o arrogante senhor da fábrica do Almargem, se retinira também a pequena sociedade habitual. Numa aparatosa antessala, austera e fria, — té meia altura vestida do seu rodapé de azulejos, para cima um carcomido forro de preciosos gobelins, em capelas, paveias, listrões de flores, mal amparados erguendo-se a entestar com a bisarma piramidal do negro teto apainelado, — abancavam, como de habito, a uma quina, em volta ao grande bufete de ébano torcido: o velho Meireles e a mulher, o comendador Sulpício, o Bernardo Gonzaga, o padre Sebastião. E um pouco a distancia, no outro extremo da diagonal, Adriana, a patrícia filha dos donos da casa, distraída bedelhava ao piano, em vagos acordes, em fugazes e cérulas melodias.

Toda a quadra de escasso iluminavam apenas as, duas velas do piano, e, alto erguido sobre a mesa monumental que condensava o grupo, um esbelta candeeiro cónico, em porcelana antiga do Japão e bronze, de cremalheira para azeite e globo fosco. Com ser, porém, assim, esta mesma parcimónia de luz mais sugestiva amplidão emprestava à solenidade hierática do recinto. — Era todo o palácio uma grossa e maciça construção, de fins do século XVII, o qual em Lisboa contava entre os raros que logrado tinham resistir ao terremoto. Nesta vasta antessala quadrangular tudo era hirto, nu e triste como a época vazia e contrafeita que simbolizava. Pela alta espessidão dos muros, nas destintas e comidas grinaldas do forro, na profundeza dos escalavrados caixotões do teto, havia grupos de nódoas senis, vagas manchas da ruina, fazia ninho a solidão, bailavam seu caprichoso sabat as sombras. Nem alegria, nem conforto. Dava frio aquela grandeza, tão despida solidez esmagava. A mobília, dura e solene, era toda em carvalho, castanho e coiro lavrado tauxiado a amarelo tirando um pequenino fauteuil de juta alaranjada com flores a seda fulva, indispensável ao reumatismo crasso e à flatulenta obesidade da dona da casa. Sobre o bufete havia os últimos números da Palavra, uma edição de luxo, em dois volumes grandes, do Génio do cristianismo, álbuns piedosos, um crucifixo de ébano e madrepérola, trazido, bento, de Roma, quando foi da remessa da capela de S. João batista ao nosso magnificente D. João V, e os três volumes em 8.° da História Eclesiástica do padre Rivaux. Junto a uma das paredes da sala, no sentido do seu maior comprimento, entre as duas grandes janelas, abrindo ao sul, poisava um refolhudo contador português de pau-santo, com o supedâneo lavrado, ladeado de duas peanhas rendadas de pau sisão, que sustentavam enormes jarrões dessa preciosa cor de chocolate, rofa, recortada em esmaltes de folhagem branca, cujo segredo se perdeu e faz hoje o desespero dos vários japonistas e contrafatores da Europa. Ao de cima do contador, pendente do friso rendado do teto por um grosso fio vermelho em triângulo, e resguardada com amor em rica moldura de talha doirada, gloriosamente resplandecia, como um lírio ensopado em sangue, a emaciada e espiritual figura, artificialmente sorridente, do célebre retrato, pintado por Chartran, do papa Leão XIII. Mais arredados, aos cantos, amparavam-se esguios e cambos dois obsoletos tocheiros de ferro, tão sugestivos na sua fatura ingénua, no seu recorte rudimentar, com o fino tripé em ansa, com as sanefas de fuzis quase de rastos, e superados, em vez do clássico brandão de cera, por dois candeeiros banais de petróleo, agora apagados, com resguardos de cretone e renda, fantasiados por Adriana. Nas outras paredes, tinham seu vantajoso destaque também reproduções fotográficas de alguns dos mais iluminados cartões de Sequeira, — A Ressurreição, O Calvário, O Presépio; e um grande quadro a óleo, muito suportável cópia desse assombroso Rubens, O descendimento da Cruz, coroava a porta que dava para o interior da casa, através de cujas umbreiras escassamente se apreendia, no alongamento da perspetiva e no esfumaçamento incerto da penumbra, a decoração, toda em purpura mordida a oiro, do grande salão das receções. No mais, por toda a quadra solidamente se impunha o cavername refeito das paredes, bem patente no profundo envasado das portas, desnudamente riscadas nas suas lisas vergas e umbrais de mármore sanguíneo de Pero Pinheiro. Somente, por diante do boqueirão da entrada, caía um farto reposteiro de veludilho granate, liso, com o escudo da casa ao centro, — em campo azul uma estrela de oiro de oito raios, no centro de uma quaderna de crescentes de prata, cuja orla a quando e quando oscilava ao golpe do sopro que gelado rompia assobiando pela marmórea amplidão da escadaria também resguardavam as duas grandes janelas umas simples cortinas de cassa bordada, ténues bastante que permitissem entrever a rumorosa confusão do parque, vigoroso e próximo como um borrão, o retângulo negro da chaminé da fábrica, e mais longe, lá muito em baixo, adormecido, fosco luzindo, como uma placa oxidada, o manso esteiro das águas do rio.

O comendador Sulpício, que entrara naquele instante, terminava os seus comprimentos, e caindo de peso sobre um amplo tamborete, à D. Mafalda Meireles perguntava, todo afável, mostrando o descalabro patibular dos dentes:

— Como se sente Vossa Excelência hoje, minha senhora?

— Graças a Deus, melhor... — arrastadamente peganhou a valetudinária, aninhando-se com regalo no fauteuil e encostando à mão, forrada na inseparável mitene, a mandibula preguiçosa.

Desfranziu-se num esgar de beatitude banal o rosto untuoso do comendador; enquanto da sua banda o Gonzaga, todo curvo, acentuava com desvelo:

— Tem sido muito notada... e muito sentida! Em S. Carlos a sua ausência.

— Não é pela minha vontade... — suspirou D. Mafalda.

— Tem saído? — disse o comendador.

— Tenho, sim... Ainda hoje, um instantinho. É ordem do médico... Estive aqui em baixo, nas Comendadeiras. Já me faziam saudade!

— E então?....

— Sempre arranjaram dinheiro para as obras.

— Ah, eu logo vi! — frisou de importância o Gonzaga. — O primo Arneiro, que é íntimo do ministro, havia-mo prometido.

— Aquilo está lindo! A capela-mor então... Só vendo-se... E o claustro, que fresco, que limpo, que asseado! Tem muita água, flores... Paz gosto!

— Ainda bem! Ainda bem!

— Este ano as festividades do Natal e Ano Bom vão ser feitas ali com um brilho e uma pompa fora do costume. Só a condessa de Montalto deu quinhentos mil réis... há de haver, feita ao vivo e com toda a figuração apropriada, a adoração do Redentor, o Presépio, o Menino Jesus no templo, — imaginem!

— Com efeito! — disse, muito atencioso, o Gonzaga, sempre curvo à frente, com as mãos entaladas nos joelhos.

O padre Sebastião piscava de contentamento os olhos pequeninos, e com as suas símias desarticulações fazia ranger a poltrona que ocupava.

— E tudo isso continuará a ser feito, já se vê, à porta fechada? — insinuou o comendador, com segurança. — Não se admite lá homem nenhum?

— Já se deixa ver que não! — rompeu com gesto inquisitorial o padre.

— Fazem bem mal! — não se pode aqui ter Adriana que não censurasse, numa irreprimível sublinha de desdém, lá do outro extremo da sala.

Ao ouvi-la assim dizer, interrompeu de salto o pai a leitura do jornal, num repelão de desgosto; enquanto, em doce reprimenda, a mãe:

— Cabecinha de vento!

— Homens, além de nós, os capelães, — insistiu, irritante, o padre, — para quê?...

— Eu gostava bem de ver! — disse Bernardo Gonzaga.

— Desculpe... Não são lá precisos para nada! Não fazem falta nenhuma!

— Por isso dizem o que dizem... — disse Adriana.

E logo a mãe, aprumando-se com dureza no fauteuil:

— Menina!

Afonso Meireles, com a Palavra abandonada sobre os joelhos, pendulava, num desgosto, resignadamente a cabeça.

— Eu cá, não obstante respeitar muito as opiniões em contrário... — enfático interveio aqui o comendador, — também acho que é bom assim!

— Pois não é! — disse o padre na sua atrabiliária faria. — Aquilo é regalo só para as almas eleitas do Senhor... Homens! Homens só se fosse para profanarem a casa... Nada! Nada! Não se querem lá pedreiros livres... que é agora o que mais há!

Adriana ergueu-se, a dominar a quezília dos nervos, e foi, no vão de uma das janelas, pelo vago negrume exterior apaziguar a alma, alongando a vista.

— Meu Deus! Meu Deus! Aquele génio... — a meia voz lastimou a mãe, observando-a.

— Deixa-a lá... — acudiu logo o marido.

— E tão boa menina! — arrastou compassivo o comendador.

— Mal empregada! — disse ainda o padre Sebastião, num saltinho provocante.

Percebendo bem que se ocupavam dela, Adriana então, arreliada, impaciente, voltou ao piano, e no instintivo propósito de abafar aquelas humilhadoras vozes de piedade, largou a executar o tremolo de Gotschalk com acalorado brio.

Entretanto, carinhosamente perguntava ao Afonso o comendador:

— E o nosso Jorge, que é dele?...

— Não tarda... Jantou e saiu logo.

— Já lhe passou mais a mania da fábrica?

— Isso sim! Cada vez pior!

— A culpa é tua... Dás-lhe-todas as largas... Quantas facilidades, quanto dinheiro ele quer!

— Falas bem... — com paciente bonomia o Meireles retorquiu, encolhendo os ombros. — Ele é sincero, é leal, tem um modo irresistível de pedir... é meu filho... O que é que eu hei de fazer?

— Ora, o quê?... Devias ter feito como eu: manda-lo educar fora... longe das inevitáveis fraquezas do teu coração e das funestas influencias desta terra perdida!

— Bem lhe preguei eu! — exclamou D. Mafalda, desolada.

— Coimbra! Coimbra! Era o que devia ter sido... — gritou o padre Sebastião.

— E você porque não foi para lá?... — acudiu, estimulado, o Meireles.

A esta agridoce interpelação, desprevenido, o padre, que era bronco e pusilânime, embatucou. — Ele era uma espécie de bobo familiar, alvissareiro e prestadio, inofensivo e tagarela, chocarreiro factótum de longa data acumulando ali o trabalho humilde de um como que serviçal para voltas, com a grotesca função de desopilador à eutrófica rabuge da D. Mafalda. Por isso, mal que o surpreendeu naquele cómico embaraço, logo, muito trocista, o Gonzaga:

— O nosso querido padre Sebastião longe de nós… podia lá ser! O braço direito da Sra. D. Mafalda... a providência, o timão, a alegria desta casa!

E todos riram de vontade, perante a escarniqueira confusão do padre, que abanava de raiva o busto,, fincando nos braços da poltrona os cotovelos.

Mas já, teimoso na sua terapêutica impertinente, continuava o caturra do comendador:

— Tem paciência, Afonso... mas mal avisado andaste com a educação do teu filho... Vê lá tu o meu... Por lá anda sozinho, e governa-se, e dá boa conta de si! Não há como o isolamento para fortalecer um homem. Longe do bafo desmoralizador dos pais, os rapazes inçaram mais de frente a vida, consideram e defendem-se... Ele lá vive, com os seus dezasseis mil reis por mês. Menos não podia ser; é a taxa mínima da casa... mas chega-lhe. Que eu também ainda que quisesse, não lhe poderia dar muito mais... E assim é bom: não há pretexto a extravagancias, e ele vai de pequeno aprendendo a dar valor ao dinheiro.

— Ele não vêm agora a férias?

— Virá ou não... conforme o que dele me disserem os lentes. Isto, meu rico, hoje em dia é preciso assim! Está muito bem ali no Seminário... E ainda eu não descanso, que não lhe esteja sempre dando a constante lição do meu conselho. Ainda há dois dias... deixa ver... — acrescentou com interesse o conspícuo velho, forrando na algibeira interior da sobrecasaca a mão cerdosa, boguda de anéis. — Eu devo ter aqui... guardo sempre os rascunhos.

Na saborida antevisão de mais um grave espécimen epistolar, todos se aproximaram.

— Venha de lá isso! — animou, num sorriso complacente, o Meireles, achegando-se e repondo o jornal sobre a mesa.

— São dignas de uns lugares Seletos! — confirmou o padre Sebastião.

E, muito desvanecido, o comendador, baixando a ampla calva ao reflexo mordaz do candeeiro:

— Obrigado! Muito obrigado... Não exagerem, meus amigos... Eu não tenho pretensões a continuador de Elmano ou de Filinto; eu não sou escritor. Curo simplesmente de aplicar o que aprendi, e dizer as coisas consoante essa modelar perfeição dos nossos clássicos, a que infelizmente tão alheias andam os bárbaros de agora! — E extraindo do bolso um pequeno papel dobrado, que estendeu alto, na extremidade cio braço glorioso: — Ah, aqui está!

Mais se estreitou em roda ao desgarrado quinhentista o pequeno circulo curioso. O padre Sebastião, em saltitos bruscos de antropoide, arrastara consigo a cadeira. Interrompera Bernardo Gonzaga o consciencioso relato, que estava fazendo à D. Mafalda, dos assinantes das récitas pares, aquele inverno, em S. Carlos. A mesma esquiva Adriana veio negligente debruçar-se da espalda da alta poltrona a que abancava o comendador.

E agora nesta graciosa atitude de abandono, colhida em cheio na luz do grande Carcel de porcelana e bronze, saltava num maravilhoso destaque, vivia do mais fascinante encanto, a sua ondeante e patrícia figura, por excelência o tipo da mulher soberanamente espiritual, o mais garboso e completo exemplar da elegância. — Caberia exata num triângulo a linha severa do seu belo rosto egípcio. Testa ampla, lisa, esquadrada, cujos mortificados tons de papiros velho aqueciam aos cantos, entre as breves fissuras naturais do cabelo castanho. A seguir, sob uma arcaria ciliar a um tempo vigorosa e doce, arrebitada e triste, rasgavam-se uns grandes olhos cor de azeitona, imperiosos, sérios, tracejados com largueza numa linha reta que impunha respeito, e quando, raro, de acaso crespos num sorriso, penetrando-nos a alma de doçura. Uma finíssima pele, tostada levemente, amaciava dos malares o contorno sóbrio e forte. No prolongamento da testa, o nariz, fino, direito, denotando na pureza do seu recorte etrusco uma seleção de raça e uma vida sem mácula. Depois, a boca, pequenina, breve, airosa erguendo no vértice das comissuras... boca que era positivamente infixável, desnorteadora, única, prometendo o mais almo convívio espiritual e realizando a mais sedutora combinação estética, na sua intensiva rubrica de expressão, na graça menineira do plexo central dos lábios... boca amparada, nobilitada por um destes mentos que imprimem carácter, longo, querençoso, altivo, mas que a Sensibilidade tocara entretanto de uma doce dedada impercetível. — Esta formosa cabeça ligava, numa euritmia perfeita, e por via de um pescoço alto e redondo, com os ombros apolíneos, com o carinhoso busto, triangular também, quebrando excessivamente nos rins, firme, elástico, bojando numa discreta convexidade o tórax, a linha zigomática e dorsal direita. Quando concentrava, nalgum absorvente e largo sonho, o pensamento, os olhos semicerravam e tomava também então a boca a linha reta. Era a mascara de uma esfinge com velaturas de Madona Tinha o segredo das toiletes frescas, um desempeno viril nos movimentos, um ritmo despachado e amplo no andar. As suas duas grandes predileções eram: rijas caminhadas a cavalo, e, pelo vago, a música. Ausência absoluta de garridismo e uma bondade inestancável. Nada, em suma, possível imaginar-se de tão desataviado e tão nobre, tão sublimado e tão simples... nada tão vigorosa e lealmente acusando a castidade, a saúde, a singeleza, a inocência... nada que melhor objetivar pudesse a potente eucrasia daquela maravilhosa organização, apurada e forte.

— Vamos, comendador... sou toda ouvidos, — disse ela, em tom brincado, quando, ao aproximar-se do grupo, se encostou ás costas da poltrona.

E beatificamente o velhorro, que tinha acabado de segurar a luneta nas azas moles do nariz:

— Lá vai, lá vai, minha menina... Ora oiçam!

— Desdobrou, estendeu a todo o comprimento dos braços a carta, e, sacudindo-a com as costas da mão direita, passou a ler:

«Filho,

 

Recebi a tua carta com prazer, porque tenho interesse em que vivas, e com saúde, tomando os documentos de moralidade que se devem respirar nessa casa.

Disse e torno a repetir que não exijo trabalho superior ás tuas forças, mas o plano que te destino é por experiencia o melhor que acho. Quero que bem aprendas a língua latina, porque é a dos sábios, e para nós em especial é o fundamento da nossa própria língua, que sô bem castigão os que daquela têm perfeito conhecimento. Esta língua latina, que já devias saber, é mais impertinente do que parece, pela colocação dos termos, e hipérbatos, que a cada passo se encontrão nos mesmos clássicos; porém se tu considerares a oração regular, e fores traduzindo como no francês, isto é, pela ordem direita das palavras, dando logo tradução a cada uma delas, — evo adverbio, à preposição, ao nome no seu caso, ao verbo no seu tempo, — virás na inteligência da oração, que ao depois de entender porás em ordem e forma natural e regular. Isto é um dos segredos, que te explico, para te poupar inquietações e tempo.»

— Sabe da poda, sim senhor! — disse sacudidamente, abanando a cabeça de aplauso, o padre Sebastião.

Desvanecido, o comendador teve um risinho de importância, continuando sempre a ler:

 

«Quando mais senhor estiveres do latim, desejo que te apliques à geometria, substituindo por ela o francês, que, por mais fácil, para mais tarde podes guardar. Se tu venceres até Junho as duas coisas e quiseres seguir o que eu te designar então, conclui em dois anos os preparatórios, para depois entrares nas ciências exatas ou positivas, à tua escolha. Não tenhas receio quando faças diligencia por aprender, porque a aplicação vence o talento do inerte e preguiçoso, e nisto deves fazer capricho e timbre, agradando assim aos Mestres, com proveito para ti, considerando que o teu património é muito pequeno. E, ainda que este fosse largo, não poderia comparar-se com o legado, que quero deixar-te, da educação.»

— É encantador! — interrompeu Adriana, abanando graciosamente, no vértice do espaldar, o busto, e enconchando a boca num sorriso.

— Se todos os pais assim fizessem... não víamos o que se está vendo! — obtemperou a D. Mafalda com decisão.

— Não iam os tempos como vão! — reforçou hipocritamente o padre.

Mas o comendador, muito melífluo:

— Oiçam... oiçam... — E continuava de importância a ler:

 

«Quando entrares profundamente no rigor das demonstrações geométricas, então provarás o desenvolvimento das faculdades intelectuais, e a facilidade nos mais estudos será pronta; porém, tomo a repetir, nada além das tuas forças, porque é minha vontade que aquilo que aprenderes seja para ficar perpetuamente, e o que te recomendo em particular é que não desperdices o tempo que voa.

Primeiro que tudo, lembra-te sempre que és criatura, e como tal deves adoração ao criador, ao qual um dos sacrifícios mais gratos é o sacrossanto que se oferece no nossos altares; portanto não faltes â Missa, e Deus te ajudará, e de ti haverá providência, inspirando-te, e dando-te vigor nos teus trabalhos. E nada comeces sem invocar o Espirito Santo.»

 

— Ó senhores, mas isto é que é! — rompeu de novo o padre, entusiasmado, sarilhando com simiesca vivacidade os braços.

— É admirável... — apoiou o Gonzaga. — Depois da lição ao espirito, o banho lustral à alma.

— Muito bem! Muito bem! — cabeceou Afonso Meireles, numa passiva sonolência.

— Ainda não é tudo... — anunciou risonho o bom Sulpício, com o liso crânio rubro de glória e na mais ruinosa evidenciação os malares desguarnecidos. E voltando a ler: — Aí vai o resto.

 

«Convêm que te ensine a ser económico, para que no futuro encontres o que poupares. Nós não precisamos de papéis bonitos não gastes nisso o dinheiro; inscreve-se bem a nossa letra em papel vulgar. Basta que escrevas uma carta por semana ; e quando queiras escrever a tua Mãe ou tia, falo em meia folha de papel, introduzindo a carta dentro da minha para evitar a despesa de uma estampilha. E não dês ouvidos a quem queira desviar-te da obediência aos superiores e ás regras da casa, porque um jovem sem regra é como o poldro indómito, que sem tino vai lançar-se no precipício para onde corre desacordado.

A tua mãe, tia e irmão gozam saúde e saudosos se recomendam. Deus te conserve na sua graça e santifique a bênção que te lança

O teu pai amigo — António.»

 

Tendo terminado, dobrava agora o comendador com pomposo vagar a carta, perante a sincera admiração e o reverente aplauso incondicional dos circunstantes.

— Que lindas cartas! — exclamou, em adorativo extais, a D. Mafalda, com as sapudas mãos à frente do ventre erguidas.

— Eu cá não me farto! — sublinhou no mesmo tom o padre.

— Na verdade, isto é padre Bernardes puro! — julgou-se também o Gonzaga obrigado a dizer. — Não digo bem... É Bernardes, debruado de Frei Luís ou de Vieira. Que vernaculismo, que unção, que estilo! Um encanto... um encanto, palavra de honra!

— E como ele tem tempo para estas coisas! — preguiçoso observou Afonso Meireles.

— Pudera! — logo com calor retrucou a esposa.

— Faz o Sr. comendador muito bem! Ah, que bem encaminhado que esse menino vai... — E despedindo um grosso olhar de censura ao marido, que baixou discretamente as pálpebras: — Não lhe há de dar a mania para fábricas, não!

Adriana, em cujo rosto espiritual se esboçava um vago sorriso complacente, mal ouviu este áspero remoque da mãe, visando o irmão, que ela adorava, tremeu num instantâneo frio de arrelia, e tudo era dobrar-se agora, num jeito entre interessado e implicante, sobre a espalda e os braços da poltrona, prestes a roçar com o cabelo e a orvalhar com o cálido perfume dos seus lábios o depilado e oleoso frontal do comendador. Este, naturalmente, voltou-se, um pouco intrigado, medindo-a inquisitivamente com o olhar. E logo Adriana, com um maliceiro risinho, explicando:

— Olhe, sabe, comendador?... é que... eu queria ver... Com todo esse arqueológico ressaibo de austeridade e purismo, fazem-me as suas cartas o efeito de haverem sido escritas há uns bons cinquenta anos... Palavra!... de sorte que eu estava a ver... e não sei explicar, e admiro-me... como é que esse papel não está amarelecido, e não cheira a bolor...

E como a ironia patente da explicação molestasse n um constrangimento à pequena sociedade, logo ela, a compor:

— No entanto, já lhe disse, eu gosto!

Ao que, largando de junto ao grupo, vagueava agora pela sala num desdém, enquanto movia a mãe piedosamente os ombros.

Mas já, carinhosa e solícita, a mesma D. Mafalda voltava:

— Olhe lá, ó comendador... Não há por aí mais?

Modestamente, o comendador piscava os olhos e franzia a testa num misterioso sorriso, ogre de promessas.

— Vá lá! Vá lá! — insistiu, animador, o padre Sebastião.

— Tenha paciência! — disse, em uníssono, a dona da casa. — Quem possui desses mimos, não tem o direito de os sonegar.

— Bem... uma vez que tanto apertam... — condescendeu afinal, com bem composta humildade, o precioso velho.

E num momento sacava do bolso o borrão de nova missiva; enquanto a face languida de Afonso Meireles se estirava num bocejo resignado, retomava Adriana o seu lugar ao piano, e Bernardo Gonzaga, ao seu pesar impotente para furtar-se à demonstração do seu enfado, passava a folhear distraidamente um álbum, colhido de cima da mesa.

O comendador explicava:

— Esta é anterior... Foi de uma vez em que o maganão, tendo-se demorado em me escrever, se desculpava depois... que não tinha que me dizer Mas eu ensinei-o! E dei-lhe no vinte... Vão ver! Vão ver!

E de seguida leu, deletreando gulosamente as palavras, numa radiação, crescente de vaidade:

 

«Filho,

Tens pouco que, relatar, e eu, vê, sempre tenho que dizer... porque já trilhei o mesmo caminho, e com muito menos recursos pecuniários, e até de livros destituído; mas, atento e curioso deploro ainda assim muito tempo perdido.

Por ventura contigo murmurarás irreverente que as minhas cartas são testamentos: — concedo-te que tal lhes chames, contanto que advirtas que são eles, entre outros, os títulos pelos quais se transmitem os legados, e em perpétua memória conserves a# que vou escrevendo para ti, e são do maior alcance.

Essa tua inércia em escrever é pecadilho natural da juventude. Tem cautela... A perceção das coisas sensíveis, com a grave comoção do suco nérveo e do sangue, produz os afetos e paixões, que são por isso próprias e da essência da natureza humana. Se esses afetos são regulados pela reta razão, em beneficio do seu morigerado culto nos trazem bens de valor incalculável. Se, pelo contrário, nos deixamos arrastar das paixões violentas, caímos no torpor do corpo e do espirito. Destas provêm a volutuosidade, ou antes, é um desses vícios que hoje campeiam impunes, e em tom de gala, do qual deves afastar-te; porque afinal nos tornam raquíticos e estólidos. Quantos homens estamos vendo, pela sua sensualidade com a saúde perdida para sempre? Quantas embrutecidos? Quantos esquecidos dos seus deveres, abandonando as famílias e sacrificando-as com os seus escândalos?... Passa ligeira vista pela lua terra, entra em ti, e observarás esta verdade.»

Aqui interrompeu, cheio de si, a leitura, para dizer:

— Não é isto?...

E amparado no tácito aplauso dos ouvintes, continuou:

 

«Já tens idade para pensar, medita por isso na definição dos afetos. Se eles veem da comoção dos espíritos vitais, quanto mais forte e frequente aquela for, tanto mais se debilitam e gastão as forças desses espíritos, tão necessários para a conservação do corpo, o qual sem eles não pôde existir. A nossa alma, ocupada da dor ou do prazer dessas sensações violentas, não pôde desenvolver suas nobres funções de perceber, cogitar, julgar e raciocinar. Depois, como muito bem disse o nosso Vieira, os vidos, ainda, que se juntem no mesmo sujeito e para o mesmo fim, sempre são atados ao revés, como as raposas de Sansão, sempre desencontrados e inimigos. Não assim as virtudes... Entregue aos prazeres sensuais, não poderás adiantar um passo nas letras, serás desprezado por aqueles que as cultivam; ignorante e vicioso, sofrerás o repúdio dos homens honestos, que não permitirão tua entrada no seio das suas famílias, porque temem delas o desdouro; e sobre tudo pecas mortalmente contra Deus, em cujo amor e graça é melhor morrer prematuramente, do que viver no seu desagrado, como diz Santo Agostinho.»

 

O mágico efeito produzido agora por este pretensioso aranzel no piedoso ânimo da pequenina assembleia, traduzia-se por um ávido e extático silêncio. Todas as vistas e atenções estavam saboridamente polarizadas no copioso verbo do comendador... presas e absortas por tal forma, que nem repararam da entrada de Jorge, o qual, tendo primeiro parado junto do piano, agora subtilmente avançava, com Adriana, direito ao grupo, conjugada a fresca expressão dos dois na mesma sublinha amável de troça, — a escutarem também.

Conspicuamente, sem dar por eles, o comendador continuava:

 

«Sê, pois, casto, porque o corpo imundo infeciona o espirito. Um vaso corruto estraga o conteúdo mais puro; e quando aquele se quebra, este se não aproveita...

Se não te atinei com a moléstia, esquece tudo quanto aqui fica como se nunca o viras, sujeita os afetos â razão sã, e acharás logo em ti a emulação, esse nobre sentimento que nos estimula a igualar, se não a exceder, os outros; porém não o confundas com o pecado da inveja, porque esta é o desejo de sermos superiores, sem igual e sem trabalho da nossa parte; aquela é o desejo de conseguir pelo nosso esforço o mesmo que os outros conseguem, sem que eles deixem de possuir e avançar no que é seu, e sem que por isso lhes tenhamos aversão, antes os estimemos e respeitemos.

Toma estes conselhos, que são necessários e uteis, como filhos do amor que te consagro; e agora, que tens um Dicionário português, não mais me escrevas palavras duvidosas, e usa da letra S com cautela, não me tornes a escrever com ela o verbo ACERTAR.

Também convém que te corrija de uma coisa que praticas por ignorância, e vem a ser — pôr a data no alto da carta, quando deve ser no final dela, Aquele modo sô se usa no comércio, ou de superior para inferior.

Ora a Deus e juntamente lhe interpõe a proteção da lua Madrinha, Nossa Senhora, para que te faca digno dela e te dê luzes para conheceres as suas maravilhas. Aceita recados de todos e a bênção do

Teu pai amigo — António.»

— Ámen, Jesus! — epilogou Jorge picaram ente, afetuoso dando a mão ao comendador.

— Ah, o menino Jorge! — exclamou, um pouco desconcertado, o velho. — Estava aí?... Não sabia!

— Por onde demónio entraste tu?... — fez com interesse, já esperto, o pai.

E ao mesmo tempo a mãe numa expressão fundente de ternura:

— Tem artes este meu filho!

O Gonzaga e Adriana olhavam-se de inteligência e riam com vontade.

— Ó senhores, mas que espantos! — entretanto acudia o simpático e vivo Jorge, com a brincada mimalheira de quem se sentia feliz por aquela incidência amiga de cuidados. — Eu entrei muito singelamente pela porta, como qualquer simples mortal... E não é minha a culpa, nem eu por isso me estimulo, se a reverenciosa atenção devida à pessoa ilustre do nosso estimado comendador absorveu por tal e tão exclusiva forma as atenções de Vossas Excelências, que a minha entrada lhes foi completamente despercebida... Era natural!

— Não sei, não sei como isto foi... — disse, alegre, a mãe.

— Que, isto é, — insinuou com desenvoltura Jorge, — se os amigos insistem em que nesta minha aparição interveio qualquer magico alçapão ou arte de bruxedo, peço já aqui ao padre Sebastião que me esconjure...

— Do que Deus Nosso Senhor o livrará! — acudiu logo o padre, muito arisco.

— E porquê?... — interrogou Adriana.

— Ora, porquê?... Ele bem se conhece… Sendo o padre Sebastião a peste que nós sabemos, bem sabe também que o Auto exorcismo não é coisa praticável. Nem vêm nos rituais, nem tem jurisdição sobre o Inferno.

— Jorge! Então?... — atalhou D. Mafalda.

— Sempre a mangar, este menino! — murmurava o padre, benzendo-se, num atabalhoamento de despeito, enquanto os mais, mirando-o de troça, riam sem medida.

— Senta-te... — disse de manso então Afonso Meireles ao filho, na generosa intenção de desviar conversa. E como Jorge viesse logo, muito solícito, tomar uma cadeira ao lado da sua: — Foste lá abaixo?

— Fui, sim, meu pai... verificar se tudo estava bem fechado e encerrar umas contas.

— E então?

— Não há novidade... Está tudo bem.

— Tu escusavas bem destes cuidados!

— Teria outros...

— Não tinhas precisão nenhuma de andar metido com gente ruim! — aproveitou a oportunidade para dizer a mãe, procurando com o olhar o apoio do padre Sebastião.

— Ruins porquê?... Coitados! — observou Jorge.

— Só se ruindade é sinonimo de miséria... — reforçou Adriana com doçura.

E apoplética a mãe, fazendo gemer o fauteuil ao irritado embate da sua crassa obesidade:

— Olhai, sabeis que mais?... Não vos posso aturar!

— Ó minha rica mãezinha, por amor de Deus! Sejamos justos... — acudiu Jorge com vivacidade, erguendo-se, à beijocar a D. Mafalda. Deixe lá essa pobre gente. Bem lhes basta o seu mal... Neles a percentagem dos aleijões morais é enorme, de acordo; mas a mãe está farta de saber que eu, na fábrica, gente suspeita não a consinto lá! É uma coisa era que eu sou intransigente... E, depois, a ruindade é por acaso apanágio da pobreza?... velhacos, impostores, ladrões não os há em todas as classes, em todas as camadas sociais?... Cá mesmo na nossa roda, esgaravunhando bem?... A mamã conhece-os…

— Cala-te! — interrompeu a fidalga, contrariada.

Mas, cego na instintiva veemência do seu ímpeto, o filho disse:

— É assim, ou não é?...

— Tens razão, rapaz... — a meia voz apoiou o pai.

— E mesmo, pensando bem, — continuou Jorge, já de novo sentado junto do pai, — aqui está a nossa comendador que não me deixa mentir... mas não há neste mundo desgraça nem miséria tão indigna,, a que não estejamos todos sujeitos... todos quantos nasceram homens.

— Isso é que é uma grande, uma triste verdade! — num solene cabeceamento apoiou o comendador.

— Eu mesmo, — voltou Jorge, — eu sei lá a asneira, a vergonha, o crime que posso cair em ir cometer amanhã!

E, dizendo, ergue-se, a atenuar na derivação salutar do movimento o começo de exaltação que a aguilhoava. Depois, como ninguém se manifestasse continuou, voltado aos pais:

— Eu bem sei que os contrariei enormemente, levando-os a acederem à montagem desta fábrica. Mas digam-me: têm perdido alguma coisa com isso? Eu não lhes tenho dado lucros razoáveis, logo desde o primeiro ano? Não anda assim mais bem gerido um capital que para aí jazia, pouco menos que improdutivo?

— Devemos-te muito nesse ponto, filho... — disse o Meireles. — Não há duvida.

— Ora, mas andas metido com a canalha... — obtemperou com severidade a mãe.

— A canalha formiga e moireja e vegeta lá muita em baixo, bem longe das venerandas paredes deste solar... não pode alcançar até nós o seu hálito empestado... nem a sua tumultuária agitação perturbar esta paz de séculos, ou macular-nos o surro das suas mãos os pergaminhos... E assim bem vê, minha mãe, dar-lhes trabalho, industria, pão é até uma obra de caridade.

— Não me parece… — contestou rijo, movendo negativamente a cabeça, o padre Sebastião.

— Segundo o estreito critério dos parasitários evangelizadores da sua laia, — disse Jorge, — não será... mas é-o em face da essência mesma do cristianismo, que o amigo pelos modos achou cómodo esquecer... Assim como era realmente também um destes pecados que bradam aos céus, teimar em deixar entregue à judiaria imoral dos Bancos tamanha soma de capital sem aplicação.

Implicativamente, não cessava o padre de abanar, em patente demonstração de desagrado, a cabeça grisalha e pequenina. Ao que, exasperado, agitando-se de novo, Jorge Meireles:

— Ó meu Deus! Mas que está ali assim aquele homem a provocar-me com a sua mímica de arrelia! — E plantava-se franco e de frente, braços cruzados, no raio visual do contendor. — Se tem que me contestar, com a breca! Fale, desembeste, ande... diga!

— E digo, sim! — rompeu agora com decisão, sinceramente estimulado, o padre, que abria muito os olhos e retesava o tronco sobre as mãos, finques nos braços da poltrona. — Digo que isto de estar a dar que fazer a certa qualidade de gente, o mesmo é que contribuir para a expansão dos seus baixos instintos, engrossar a população do Inferno! — Pelo corpo vibrátil de Jorge correu um relâmpago de impaciência. — Eles não merecem nada disso... é tudo uma corja! Uma raça a pedir extermínio... mas pronto, formal, completo! Pudesse eu!

— O que aí vai! — exclamou Jorge, de capricho, destacando os braços. E ia com arrogância a voltar costas ao adversário; mas impediu-lho a irmã, que veio carinhosa pendurar-se-lhe dos ombros, fitando lambem de frente piedosamente o padre.

Ao mesmo tempo, intervinha conciliador o Gonzaga:

— Sim, senhor! Era o que me faltava ver... O nosso padre Sebastião a comprazer-se no paradoxo.

— Não há tal! Creiam que lhes digo a verdade... falo sério! Então eu não os conheço?... Positivamente uma cambada! Preguiçosos, moralões, indecentes, insuscetíveis de regeneração... refratários, em suma, a toda a espécie de autoridade!

— A mim respeitam-me... — contrariou Jorge com ufania.

— Fingem, fingem...

— Vejam lá em que ficam... — atalhou Afonso Meireles — Quando acaba a sabatina?

— Pois então os senhores não veem?... — continuava entretanto, agora em pé, no indominável furor da sua convicção o padre. — Em todas as manifestações públicas da sua vida?... que a particular, essa então, é uma vergonha! Eles não querem saber de nós para a nada, eles não concorrem à igreja, não conservam as mulheres, não legitimam os filhos... nem sequer os mortos respeitam, porque os levam civilmente ao cemitério! E então que, malignamente e por sistema, hão de sempre enxovalhar as coisas mais santas... E tudo lhes serve de pretexto... Olhem, aqui perto, o que acontece com o edifício das Senhoras Comendadeiras... Ainda bem as paredes não são rebocadas de novo e logo reaparecem garatujadas de indecências!

— É uma pouca vergonha, isso é... — apoiou a fidalga, agitando a mão espalmada à altura do nariz. — Tem a gente de fechar os olhos!

— Deviam requisitar para ali uma sentinela da municipal, — lembrou o comendador.

— Isso não significa nada! — atenuou Jorge, com rasgada tolerância. — É uma questão de educação.

— E, depois, essas manias revolucionarias com que eles andam... Pode lá ser!... Os tais socialismos, ou anarquismos, ou o que é... essas infernais manigâncias de agora, que visam a destruir tudo o existente... pilhar, enxovalhar, roubar, matar à vontade... para se governarem depois por si!

— Não temos nada com isso... É um inofensivo ideal como outro qualquer.

— Não está má essa!

— Uma espécie de só-li-dó político, sim... Entre nós não tem perigo... Deixa-los lá!

— São doentios exageros, são... — fez o Gonzaga, complacente. — Não sei, não sei... — arriscou, a favor do padre, o comendador.

— O que eu sei é que semelhante sistema, além de um pecado, de uma absurda e monstruosa irreverencia, é uma grandessíssima tolice.

— Apoiado! Apoiado! — disse o comendador com enfâse. — E a propósito me lembra aquela famosa parábola de Menénio Agripa ao povo romano, sabem?... quando este se recusou a sustentar os seus magistrados. Muito lucidamente lhes mostrou ele que, no corpo humano, todas as partes convergem com relações mútuas para o mesmo fim, e há perfeita conjugação e subserviência entre uns e outros membros, para a sustentação e conservação do todo. — Pois assim há de suceder no corpo social, seja qual for a forma de governo... é-los, todos nós da grande cadeia, não podemos desprender-nos sem interromper e frustrar a harmonia comum.

— Ora eis aí está! — exclamou, radioso do frisante argumento, o padre Sebastião. — Ah, aquilo é gente daninha... São como a víbora: mordem quem os afaga. Livrar deles! Livrar...

— Diz muito bem... — disse a apoiar, batendo o pé na alcatifa, a D. Mafalda, comovida.

— Perdão! Também eu imaginava isso... — observou, já um pouco aplacado, Jorge, agora sentado, com a irmã, junto da mãe, cujas mãos os dois procuravam com meiguice. — Mas agora, que lido com eles, que os conheço melhor, vejo que não passam de uns pobres diabos... O que eles querem é importância, bom modo... e, acima de tudo, os meios de irem penosamente atamancando a vida!

— Pois sim, menino... — volveu contumaz o padre. — Fie-se neles e verá o pago que lhe dão!

— Depois de uma confiada pausa de acalmação, perguntou o Meireles ao filho:

— É verdade, Jorge... que me dizes do tal Mateus?

— Cada vez gosto mais dele! Acho-o muito zeloso, muito inteligente, ativo, disciplinador... e tem a estima de todo o pessoal.

— Pois é o pior que ele tem! — insinuou o padre.

— Não sei porquê!

— Ó fidalgos! Lembrem-se de que ele veio corrido de Alcântara por ter o pensar muito livre.

— Quem sabe lá?...

— Posso-o provar a V. exa.

— É um homem singular! — murmurou Adriana, erguendo ao alto, nalguma vaga meditação, a esclerótica branca nas pálpebras semicerradas.

— Seja o que for... — disse Jorge para o padre. — É um grande descanso para mim. Enquanto me não der motivo para isso, não o despeço.

Começavam dois criados a servir o chá. Em grandes bandejas de charão, com flores inverosímeis e pavões doirados, um trazia alinhadas preciosas xicaras de velha porcelana, com o ambreado licor fumegando; o outro um prato com guardanapos, e as torradas em pilha dentro de cestas de trança de prata. E entrara com eles, familiarmente, um descadeirado e intonso velho, avançando as pernas com precaução, grande e recurvo, num bambaleio de ruina o tronco, a face caparrosada, variolosa a sebácea nudez do crânio, olhos piscantes de míope, azuis com estrias de vénulas roxas, a larga ossatura aflorando desguarnecida como um cabide sem uso, perros os dedos nas grossas mãos de podágrico, e circunscrita aos malares pendentes a barba mal cuidada. — Era o marquês de Vai de Madeiros, parasitário resíduo ainda dessa casta bruta e forte que no século anterior em absoluto empolgara a bronca ingenuidade nacional, pelo abuso do cacete, a boa tempera dos rins e o horror à letra redonda. Agora, perdulário, sestro; indolentão, com a bolsa vazia e o solar em ruinas, verdadeiro paranoico moral tendo descido, pela dissipação e a incúria, ao ínfimo degrau do aviltamento e da miséria, frandunamente arrastava uma existência de acaso, um ignominioso viver de incerteza e de fome. Porém sempre alegre, sempre mordaz, invariavelmente cínico e frialão, numa arrogante disestesia do pudor, do brio atávico, na beatifica inconsciência do seu destino, desbaratando o tempo pela crapulosa boémia de cocheiras e tabernas, quando não vinha aos sobejos da mesa dos amigos.

Ele avançara com precaução, na cauda dos dois criados. Trazia na mão um chapéu mole, de abas enormes, com capa de oleado, que atirou para um canto. Vestia uma velhusca sobrecasaca de briche, esfiampada e luzente, polvilhada a gola de caspa, os cotovelos e os canhões farpados; a camisa era sem goma, o colete não tinha botões; nas calças estiradas e amplas, de uma cor inclassificável, havia ao longo das pregas uns claros verdoengos; e do seu pegajoso rasto ia ficando ortografada a impressão em altos losangos de barro, no macio e uniforme tom sanguíneo da alcatifa.

— Ó marquês! — exclamou D. Mafalda, assim que o viu, erguendo juntas as mãos em sinal de alegria.

— Isto são horas?... — reforçou afetuoso o Meireles; enquanto o Gonzaga voltava num patente desgosto a face e Adriana e Jorge de simpatia trocavam o mesmo comiserativo olhar.

— Há que tempos que eu estou aí! — disse na sua voz enferrujada o marquês, enquanto beijava a mão da dona da casa. — Mas é que primeiro tratei de fazer bem ao estomago... Vim lá pela cozinha.

— Porque não há de vir antes, acima, à nossa mesa?

— Ora... a prima bem sabe,., não tenho horas para nada.

— Enfim, ao menos ainda vêm a tempo de rezar o terço connosco, quando saírem estes senhores.

Mas logo, muito maliceiro, o marquês, na sua intonação grossa e áspera:

— Ah, não! D. Mafalda, isso não... Bem sabe que a minha gota não me deixa ajoelhar.

E, sorrindo; esfarelava com as unhas a acnosa devastação da testa. O padre Sebastião, entretanto, no gostoso desempenho das suas truanescas funções, tudo era rodar agora muito cingido à cadeira onde o marquês ao acaso enrodilhara o seu torpe desmazelo; e pequenino, aos saltos, num propósito evidente de motejo, mirava-lhe com insolência o círculo gorduroso da gola do casaco, junto à nuca, o fundo das calças roído, argamassado a surrampa, as grandes botas encoscoradas. Por fim, quando conseguiu que o marquês fizesse reparo na sua impertinente inquirição, perguntou de modo que todos ouvissem :

— Ó Sr. marquês, faz-me um favor?... Vende-me um bocadinho de lama?

Mas também o marquês, sem se desconcertar, estendendo ao padre a perna:

— Veja lá... de que ano a quer?

E depois que todos fartamente riram, num inalterável descaro, explicou:

— Pus-me neste bonito preparo há bocado ali, no alto de S. João. E mais não passei da porta do cemitério... mas estava tudo encharcado! Fui ao enterro do Mendonça. Deixei os cangalheiros e os padres fazerem a sua obrigação, e fiquei-me cá fora, a caturrar com o Cara linda. Tem uma parelha de estalo! De graça, a bem dizer... — Sacudia de entre as unhas as pequeninas escamas brancas que não despegava de, coçando, fazer chover da epiderme, e continuou: — Mas que tempo que aquelas coisas levam, santo Deus! Por isso também eu já lá tenho no testamento... quando morrer, nada de luxos nem cerimoniais... quero ir de corpo à terra.

E piedosamente a D. Mafalda a protestar:

— O primo! Não diga isso...

— Quererá penitenciar-se, — disse para Jorge o Gonzaga, — com esta coerência perante a morte, da permanente desordem da sua vida.

Agora o comendador, que dava o cavaquinho por política, aproximara-se docemente o marquês, encavalara de novo a luneta, condimento indispensável ao seu pensar nas ocasiões de circunstância, e mirando de longe, numa atitude de presbita e num aprumo de importância, o fidalgo, que era par do reino, inquiria da sua opinião sobre as novas medidas de fazenda. O marquês nem o ouvia; respondia por breves monossílabos complacentes. E, ao lado dos dois, Adriana e Jorge interpelavam com carinho o pai, ambos jogando de harmonia, — via-se, — no mesmo empenho, na mesma solicitação ardente.

— Então, papá, veja lá... — balbuciava a filha, afagando-lhe o cabelo com mimo.

— Eu já outro dia lhe expliquei... — atacou Jorge. — Precisamos de dar um certo número de salutares diversões à nossa gente, para que eles trabalhem mais de vontade. — Uma ligeira contrariedade ensombrou o rosto de Afonso Meireles; mas o filho prosseguiu: — Para os homens estamos nós bem... já temos a charanga, os jogos da malha e da pela. Veja o pai o resultado! Mas as mulheres? As que têm filhitos pequenos?...

— Não têm onde os deixar! — insistiu Adriana com doçura.

— E então, que culpa temos nós? — objetou o pai com dureza.

— Temos obrigação de pensar nisso! — disse com piedosa decisão a filha. — Deixando esses anjinhos em casa, sabendo os perigos, as inclemências a que ficam expostos... todos os dias se ouve falar em desastres desses... as pobres mulheres é como se não estivessem na fábrica. Deixaram a alma longe, não fazem trabalho que preste.

— E era tão fácil, ali numa sala qualquer, — acudiu Jorge, — arranjar-lhes uma espécie de creche um depósito em comum para as crianças!

— Estás doido!

— Pois que dúvida tem?... Elias mesmas traziam para ali os seus berços, nomeava-se cada dia uma encarregada...

— Era lindo!

— E bom para todos...

— Ó filhos, isso não tem jeito nenhum!

— Então porquê?...

— Desmoraliza-as. — pelo contrário!

Agora ladeavam os dois filhos o pai, no mesmo comovido interesse, — Adriana pendendo-lhe dos ombros, Jorge quase ajoelhado, — acariciando-lhe ambos irresistivelmente as mãos. Adriana disse, com uma voz de veludo:

— Então?... Era uma obra de caridade e um bom ato de administração... Sim, rapazinho? Deixa...

Por fim o bom velho, rendido:

— Está bem, está bem... andem lá... Combinem lá isso os dois!

E teve as últimas palavras comidas por uma girandola de enternecidos beijos.

A este tempo, já a imobilidade pontifical de D. Mafalda, de olhos cerrados e colada a nuca à espalda do fauteuil, dera para findar o serão o sinal convencionado. Quando tal viram, o comendador e Bernardo Gonzaga tinham-se levantado e tomado os chapéus, na impositiva disposição de partir. Então, simultaneamente, como por uma destra maquinaria de teatro, o grande reposteiro granate da escada franziu a um lado, deixando ver fora um escudeiro, já aprumado no patamar, iluminando a escada. E no mesmo instante, cosida com a manobra, abria a dona da casa os olhos.

Seguiu o arrastado cerimonial das despedidas. Adriana e Jorge tinham desaparecido. Afonso Meireles, de pé, fechava os punhos e distendia ao longo do busto os braços, num disfarçado espreguiçar de alívio. E enquanto o Gonzaga, o marquês e o comendador tomavam rumo à porta, acercava-se da D. Mafalda o padre Sebastião, de papel e lápis prontos a anotarem o rol das incumbências para o dia seguinte.

— Já sabe... — recomendava ela, debruçada sobre a mesa e defendendo com a mão, do ar cortante que vinha da escada, a obesa face, cuja barbela de paquiderme desaparecia no amojo colossal dos seios. — Primeiro tem que ir ver em que altura vai a minha encomenda, ao santeiro da rua augusta. E veja-me em Santa Justa se há lausperene, ou não. Depois, as flanelas para amostra... e por fim compre-me a tintura na mulher do Rossio.

O comendador, já no patamar, dizia para o marquês, ferindo ainda o mesmo estribilho:

— Eu cá acho muito bem assim! Se os rendimentos são progressivos, porque o não há de ser o imposto também?

E ia solicito a tomar o braço do marquês, que, ligeiramente irritado, num tom sacudido:

— Ah, obrigado, eu enxergo bem...

— Verá, verá, meu caro marquês! Eu sempre tive grande confiança neste homem... nunca andou em cafés! Este seu novo projeto é um plano a valer, é o que se chama um verdadeiro ato de homem de Estado.

— De estrada, de estrada... é que você queria dizer!

E, sorrindo, o besuntão sacudia o cotovelo do interlocutor, e apalpava cauteloso, de perna à frente, a aresta do primeiro degrau da escada.