Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 9 de 21

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Amanhã

Capítulo VIII · Neste momento, o apitar insistente de um…

 

Neste momento, o apitar insistente de um americano, que num dificultoso tropear de ferraduras vinha subindo a rua, chamou a atenção do Mateus, fazendo-lhe baixar maquinal mente a vista. Ao tempo que em baixo, rompendo de sob o tejadilho, um pequeno rosto familiar se alongava, fitando nele alegremente os olhos.

Era a miudita figura, era a face estirada e rúbida do Anacoreta, que desde longe, numa ardente inquirição, o vinha demandando; e que agora, mal o reconheceu, saltou logo em terra, mesmo sem o carro parar, e em jubilosa impaciência tomou ao terraço, enfiando pela escada que, meio surpreendido, o Mateus lhe indicara de cima.

— Ó Anacoreta!

— Afinal dei contigo! Apre, custou!

— Tu por aqui... a esta hora?

— Já devias calcular... Sabes o meu feitio, a minha genial preocupação...

— A tua formidável telha.

— Não penso noutra coisa, meu filho... Nem há ideia grande sem esta continuidade de aplicação, esta sujeição, espontânea e total, de todo o nosso ser posto ao seu serviço — disse com intimativa o Anacoreta, com uns olhos de febre ardendo no rosto afogueado.

E, sinceramente deslembrado, o Mateus:

— Mas então?...

— Ó meu traste, pois já te não lembras?

— Ah, sim, o torneiro...

— Meu rico, não ignoras o ditado: a pobre não prometas... — O Mateus sorriu afavelmente. E com impaciência o outro, tomando-lhe do braço:

— Vamos, mexe-te! Apresenta-me a esse fenómeno... o meu derradeiro recurso, o meu homem-Providencia!

Morosamente, sem uma palavra de aquiescência, o contramestre tomou em direção à fábrica, como que arrastado num peganho de contrariedade. E então o insofrido companheiro, empenhado em vencer por completo essa implicativa resistência, guindou quanto pode o busto, esticando as pernas microscópicas, e todo descaído ao ombro do amigo, segredou-lhe com persuasiva manha:

— Sabes? Já pensei na tua coisa...

— Sim!? — exclamou, sacudido de interesse, o Mateus, como desperto de um sonho.

— Arranjo-te uma coisa tubular, de pequeno diâmetro, graduada em volta... e com uma espécie de chapeleta girando sobre ela. — E com os longos dedos irrequietos diante do Mateus, imobilizado de atenção, exemplificava. — Assim com as espoletas da tropa. Nunca viste?...

— Não.

— É oca, enche-se com o que se quiser... e tem na extremidade uma rosca para aparafusar onde convenha.

— Sim, sim... estou a ver! É ótimo! — balbuciou transportado o Mateus, esfregando as mãos, cravando no outro visionário com grata efusão os olhos.

E sempre de industria, aquecendo-o, o Anacoreta:

— É simples, infalível e até elegante... verás! E é cá o teu homem também que há de fazê-lo! Mas então que é dele?... Vamos!

Agora o Mateus não hesitou mais um instante, e encarreirou rápido pelo portão da fábrica, levando colado ao lado o amigo, que ia no seu invariável passinho miúdo, roendo as unhas. Mal transpuseram o portão, voltaram à esquerda, atravessaram alguns armazéns banais, e entraram finalmente, ao tundo, num grande casarão irregular, pejado de heteróclitos objetos numa estonteadora desordem baralhados, de teto em esconso e com duas amplas janelas projetando a sua poeirenta esquadria no talude lívido das terras. — No vão de cada janela havia uma longa e tosca banca de pinho, com um torno no rebordo, e atramochada cada qual de toda a sorte de ferramentas: puas, goivas, formões, plainas, limas, grampos, lupas, maços e torqueses. Pelas paredes garatujavam pendurados toda a espécie de utensílios, uma infinidade de linhas extravagantes. Eram esboços de plantas, modelos em cartão, serrotes, rodelas, esquadros, prumos, rodas dentadas. Um como caos profissional, uma profusa desordem, fecunda, inteligente. E avançava-se com dificuldade pelo estalado piso do asfalto, pejado a capricho de montes de ripas, esqueletos de máquinas, inclassificáveis destroços, bobinas lascadas, tubuladuras, limalhas de metal, aparas, pregos.

Junto a uma das bancas mal se descortinava, e só mesmo junto ao pé, o alcachinado busto de um velho, todo curvo e confundido com ela, a enriçada barba branca, em mangas de camisa, limando muito atento, e quase pegada com os óculos, uma pequena peça de ferro.

O Mateus apresentou-o ao amigo, com encarecimentos lisonjeadores do seu agrado. E enquanto o franzino ancião se descolava com dificuldade da posição, desbarretando-se, dizia-lhe alto o contramestre, indicando o Anacoreta:

— Este meu amigo é um engenheiro, um grande inventor, uma celebridade! Pretende de si um alto serviço, ouviu?... — Desconfiado, o velho apurou o ouvido, arregalou os olhos. — A fatura de uma pequena peça, que eu, sinceramente, não sei de outro que seja capaz de lha executar.

— Se eu souber...

— Ah, isso é que você sabe, amigo Simões! Como ninguém! — Agora o derrancado torneiro sorriu, desvanecido.--E isto, é claro, é um trabalho que depois se lhe remunerará extraordinariamente. É um serviço, note bem... além de favor. Mas serviço muito especial!

O torneiro escancarou numa aquiescência as gengivas desguarnecidas.

— Estou ás ordens!

— O ponto é que se entendam...

Mas já intrometidamente o Anacoreta, que, tendo arrastado um mocho, trepado a ele se instalara junto à banca, traçando as pernas:

— Ah, não há de haver duvida. Deixa-nos cá...

E sacava da algibeira interior do jaquetão um monte de papéis, cheios de apontamentos, canto a canto hieróglifos de combinações geométricas, que ele espalmava todo contente, arredando as miuçalhas, sobre a mesa; e que o Simões, ainda em pé, olhava de alto, num respeito, por cima dos óculos, vagamente.

Quando um aprendizito, a correr, entrou na oficina.

— Sr. Mateus! ó Sr. Mateus!

— O que é?...

— O menino Jorge que o procura mais a senhora sua irmã.

O Mateus, sacudido o busto, empalideceu; e muito despachado, para o amigo:

— Bem, até logo, rapaz... Explica-lhe bem, a ver se ele entende.

— Onde vais?... — inquiriu pesaroso o Anacoreta, erguendo os olhos ardentes de cima da papelada.

— Tenho que fazer lá em cima. Depois volto...

— Espera, ouve!

— Vou em serviço, deixa-me! — rematou o Mateus, impaciente.

E desapareceu na fiada banal dos armazéns, com o rapazito na sua frente, aos saltos.

Cá fora, no corredor, encontrou com efeito Jorge, no mesmo traje ainda de algumas horas antes; e ao lado dele a figura patrícia e ondeante de Adriana, em cabelo, vestindo uma simples blusa de seda lilás com estrias brancas e largo cabeção de guipura creme, sobre uma saia de lã em funil de um cinzento de aço, sem folho.

Correspondeu num leve meneio de cabeça à profunda reverência do Mateus, estudando-o com interesse. E familiarmente Jorge, voltado à irmã, de braço estendido:

— Apresento-te, Adriana, o nosso mestre Mateus... a providência desta casa, o nosso grande amigo!

— Muito prazer, murmurou Adriana, num sorriso esfíngico, docemente.

O Mateus, sem proferir palavra, voltou a curvar-se, com as pálpebras humildes.

— Sei que tem a estima de todo o pessoal... — disse Adriana, encrespando os lábios num sorriso amável, demorando atenta no contramestre os olhos.

Jorge ampliou:

— E a nossa confiança!

Visivelmente embaraçado, de braços estendidos, o Mateus alongava as costas das mãos, num enleio lorpa, mirando as unhas.

— Aqui a trago, conforme há pouco lhe disse... — continuou Jorge Meireles. E para a irmã: — Agora explica-lhe tu melhor...

Adriana adiantou-se com desembaraço.

— É muito simples, meu caro contramestre! Vegetam e consomem-se aqui assim, fatalmente chumbadas pela necessidade a este novo género de escravidão, alguns centos de mulheres... muitas delas são mães... e eu queria que as pobrezitas não se vissem obrigadas pelas duras exigências a passar tão longas horas afastadas desses pequenos pedacitos da sua alma.

— Elas importam-se lá! — observou Jorge Meireles, num risinho cético.

— Não digas isso, Jorge! — atalhou com sincera indignação a irmã. — Então não importam?... Vocês os homens não percebem disto... Oh, mas eu, coitaditas! Eu estou a ver...

— Pieguices!

— Enganas-te! Não há nada mais grave, mais justo, mais humano... — continuou Adriana, sob o olhar enlevado do Mateus, e progressivamente estimulada. — Semelhante separação forçada é para essas tristes criaturas uma fonte perene de inquietação e uma causa certa de ruina. Pois não se está a ver?... Eu por mim imagino... Nem se resignam à adversidade, nem trabalham com descanso.

— Vossa Excelência tem razão... — não se pode o Mateus ter que não dissesse.

— Enquanto que, tendo as crianças aqui assim perto de si, mais a recato, já a vida lhes pareceria outra... tomariam esta sujeição infernal por uma tutela salutar, tinham de vir procurar-nos por instinto...

— E até o trabalho renderia mais! — corroborou o contramestre.

— Não é verdade?... — exclamou Adriana, com um obstinado calor na face, cambiando com Mateus um olhar de simpatismo inteligente. E avançou direita ao perturbado contramestre, com os longos cílios numa linha imperiosa, e prolongado com decisão o mento altivo. — Arranje-nos então aí assim uma sala um pouco à parte, com bem luz, bem ar...

— Isso lhe disse eu... — acudiu com espontaneidade Jorge, tomado agora também, generoso e complacente, pelo altruísmo sentimental da irmã.

— Cada uma traz o seu berço... nomeia-se cada dia por escala, entre todas as que forem mães, uma encarregada...

— A ideia é soberba, minha senhora! — apoiou Mateus.

— Merece o seu aplauso?

— Não precisa do meu aplauso para nada... Eu não tenho mais senão cumprir as ordens que me dão... Mas sinceramente devo confirmar que esse pensamento é tudo quanto pode haver de mais nobre e de mais santo... é verdadeiro socialismo prático, é a pura religião do Amor.

— Bem, mas nós queremos então saber... o que é que nos arranja? — atalhou Adriana com graciosa intimativa, o antebraço à frente numa súplica eloquente e arqueando airosamente os lábios menineiros.

— Só se for, além ao fundo, conforme já há pouco disse ao Sr. Jorge, o depósito de material, — explicou, depois de uma hesitação, Mateus. E adiantando, como guia, um passo no corredor: — Vossa Excelência quer ver?

— Deus me livrei — protestou logo Adriana, com uma piedosa repugnância.

Jorge, porém, a desafiar:

— Anda! E de caminho dás uma vista de olhos à fábrica. — E como a irmã, pregada no mesmo lugar, movesse a cabeça negativamente: — Para quando te guardas?...

— Sabes que sempre fugi de ver coisas desagradáveis. Nem no teatro as quero! Bem basta quando elas venham inevitavelmente ter connosco... Depois, depois...

— É lindo ver como tudo isto trabalha!

— Á custa da saúde, do bem estar, da vida de milhares de predestinados, sim... — Adriana suspirou, enquanto empapuçava a curva discreta do tórax numa opressiva ansia. — Tomara-me eu já daqui para fora!

— Vamos quando quiseres, — aquiesceu Jorge com doçura.

— Credo! Que opressão... É como se se tivessem alojado dentro de mim os males de toda esta gente... Falta-me o ar!

— Mas é que assim, — disse o irmão, — no ar fica também toda esta ideia. Nem ele sabe com exatidão o que é que a gente quer... por onde há de começar.

— Ora essa! A primeira coisa é desobstruir, limpar, sanear essa tal casa. E depois eu venho então...

— E alguma coisa há de achar mais, garanto-lhe! — disse Mateus.

— Vejo que me compreendeu... Agradecida!

— Apertou-lhe a mão. — E então é começar quanto antes. Sabe de mais o quedem a fazer.

— Vou tratar de cumprir, o melhor que puder e souber, as ordens de Vossa Excelência.

— Por essa estou eu!

— A casa começará a ser desimpedida já amanhã.

— Muito bem! Muito bem! Eu não sei se a minha ideia é com efeito a sublimidade que os Srs. dizem, — disse Adriana, já direita à porta. — Agora do que vou convencida é de que ela terá no Sr. Mateus o mais prestimoso e sincero cooperador! — Fitou-o de novo com familiar interesse. — De si antecipadamente confio todo o bom êxito dela, não?... — Ao mudo gesto de aquiescência do Mateus, voltou de todo costas e ia a afastar-se; quando, torcendo o airoso busto, muito cortesmente: — Adeus!

E num vôo de meteoro, rapidamente, tomou então à porta com Jorge e saiu pelo terraço; seguidos a distancia os dois por Mateus, que veio à frente, té junto à platibanda, a que se apoiou esteirando com os olhos o breve percurso deles na rua, entre a fábrica e o portão verde do parque; e aí se ficou depois, tão distraído e insensível que nem deu pelo Anacoreta, o qual lhe batia nervoso no ombro, explicando «que sim... que agora tinha homem! Uma maravilha... e que retirava por Marvila, ia tomar o comboio.

Até sucedeu que, tendo este subido a rua na mesma direção de Adriana e Jorge, e vendo em baixo, sempre pregado no mesmo lugar, o Mateus, se voltava repetidas vezes, julgando-o ali pela sua causa, a acenar-lhe adeus com a mão.