Amanhã
Capítulo VIII · Neste momento, o apitar insistente de um…
Neste momento, o apitar insistente de um americano, que num dificultoso tropear de ferraduras vinha subindo a rua, chamou a atenção do Mateus, fazendo-lhe baixar maquinal mente a vista. Ao tempo que em baixo, rompendo de sob o tejadilho, um pequeno rosto familiar se alongava, fitando nele alegremente os olhos.
Era a miudita figura, era a face estirada e rúbida do Anacoreta, que desde longe, numa ardente inquirição, o vinha demandando; e que agora, mal o reconheceu, saltou logo em terra, mesmo sem o carro parar, e em jubilosa impaciência tomou ao terraço, enfiando pela escada que, meio surpreendido, o Mateus lhe indicara de cima.
— Ó Anacoreta!
— Afinal dei contigo! Apre, custou!
— Tu por aqui... a esta hora?
— Já devias calcular... Sabes o meu feitio, a minha genial preocupação...
— A tua formidável telha.
— Não penso noutra coisa, meu filho... Nem há ideia grande sem esta continuidade de aplicação, esta sujeição, espontânea e total, de todo o nosso ser posto ao seu serviço — disse com intimativa o Anacoreta, com uns olhos de febre ardendo no rosto afogueado.
E, sinceramente deslembrado, o Mateus:
— Mas então?...
— Ó meu traste, pois já te não lembras?
— Ah, sim, o torneiro...
— Meu rico, não ignoras o ditado: a pobre não prometas... — O Mateus sorriu afavelmente. E com impaciência o outro, tomando-lhe do braço:
— Vamos, mexe-te! Apresenta-me a esse fenómeno... o meu derradeiro recurso, o meu homem-Providencia!
Morosamente, sem uma palavra de aquiescência, o contramestre tomou em direção à fábrica, como que arrastado num peganho de contrariedade. E então o insofrido companheiro, empenhado em vencer por completo essa implicativa resistência, guindou quanto pode o busto, esticando as pernas microscópicas, e todo descaído ao ombro do amigo, segredou-lhe com persuasiva manha:
— Sabes? Já pensei na tua coisa...
— Sim!? — exclamou, sacudido de interesse, o Mateus, como desperto de um sonho.
— Arranjo-te uma coisa tubular, de pequeno diâmetro, graduada em volta... e com uma espécie de chapeleta girando sobre ela. — E com os longos dedos irrequietos diante do Mateus, imobilizado de atenção, exemplificava. — Assim com as espoletas da tropa. Nunca viste?...
— Não.
— É oca, enche-se com o que se quiser... e tem na extremidade uma rosca para aparafusar onde convenha.
— Sim, sim... estou a ver! É ótimo! — balbuciou transportado o Mateus, esfregando as mãos, cravando no outro visionário com grata efusão os olhos.
E sempre de industria, aquecendo-o, o Anacoreta:
— É simples, infalível e até elegante... verás! E é cá o teu homem também que há de fazê-lo! Mas então que é dele?... Vamos!
Agora o Mateus não hesitou mais um instante, e encarreirou rápido pelo portão da fábrica, levando colado ao lado o amigo, que ia no seu invariável passinho miúdo, roendo as unhas. Mal transpuseram o portão, voltaram à esquerda, atravessaram alguns armazéns banais, e entraram finalmente, ao tundo, num grande casarão irregular, pejado de heteróclitos objetos numa estonteadora desordem baralhados, de teto em esconso e com duas amplas janelas projetando a sua poeirenta esquadria no talude lívido das terras. — No vão de cada janela havia uma longa e tosca banca de pinho, com um torno no rebordo, e atramochada cada qual de toda a sorte de ferramentas: puas, goivas, formões, plainas, limas, grampos, lupas, maços e torqueses. Pelas paredes garatujavam pendurados toda a espécie de utensílios, uma infinidade de linhas extravagantes. Eram esboços de plantas, modelos em cartão, serrotes, rodelas, esquadros, prumos, rodas dentadas. Um como caos profissional, uma profusa desordem, fecunda, inteligente. E avançava-se com dificuldade pelo estalado piso do asfalto, pejado a capricho de montes de ripas, esqueletos de máquinas, inclassificáveis destroços, bobinas lascadas, tubuladuras, limalhas de metal, aparas, pregos.
Junto a uma das bancas mal se descortinava, e só mesmo junto ao pé, o alcachinado busto de um velho, todo curvo e confundido com ela, a enriçada barba branca, em mangas de camisa, limando muito atento, e quase pegada com os óculos, uma pequena peça de ferro.
O Mateus apresentou-o ao amigo, com encarecimentos lisonjeadores do seu agrado. E enquanto o franzino ancião se descolava com dificuldade da posição, desbarretando-se, dizia-lhe alto o contramestre, indicando o Anacoreta:
— Este meu amigo é um engenheiro, um grande inventor, uma celebridade! Pretende de si um alto serviço, ouviu?... — Desconfiado, o velho apurou o ouvido, arregalou os olhos. — A fatura de uma pequena peça, que eu, sinceramente, não sei de outro que seja capaz de lha executar.
— Se eu souber...
— Ah, isso é que você sabe, amigo Simões! Como ninguém! — Agora o derrancado torneiro sorriu, desvanecido.--E isto, é claro, é um trabalho que depois se lhe remunerará extraordinariamente. É um serviço, note bem... além de favor. Mas serviço muito especial!
O torneiro escancarou numa aquiescência as gengivas desguarnecidas.
— Estou ás ordens!
— O ponto é que se entendam...
Mas já intrometidamente o Anacoreta, que, tendo arrastado um mocho, trepado a ele se instalara junto à banca, traçando as pernas:
— Ah, não há de haver duvida. Deixa-nos cá...
E sacava da algibeira interior do jaquetão um monte de papéis, cheios de apontamentos, canto a canto hieróglifos de combinações geométricas, que ele espalmava todo contente, arredando as miuçalhas, sobre a mesa; e que o Simões, ainda em pé, olhava de alto, num respeito, por cima dos óculos, vagamente.
Quando um aprendizito, a correr, entrou na oficina.
— Sr. Mateus! ó Sr. Mateus!
— O que é?...
— O menino Jorge que o procura mais a senhora sua irmã.
O Mateus, sacudido o busto, empalideceu; e muito despachado, para o amigo:
— Bem, até logo, rapaz... Explica-lhe bem, a ver se ele entende.
— Onde vais?... — inquiriu pesaroso o Anacoreta, erguendo os olhos ardentes de cima da papelada.
— Tenho que fazer lá em cima. Depois volto...
— Espera, ouve!
— Vou em serviço, deixa-me! — rematou o Mateus, impaciente.
E desapareceu na fiada banal dos armazéns, com o rapazito na sua frente, aos saltos.
Cá fora, no corredor, encontrou com efeito Jorge, no mesmo traje ainda de algumas horas antes; e ao lado dele a figura patrícia e ondeante de Adriana, em cabelo, vestindo uma simples blusa de seda lilás com estrias brancas e largo cabeção de guipura creme, sobre uma saia de lã em funil de um cinzento de aço, sem folho.
Correspondeu num leve meneio de cabeça à profunda reverência do Mateus, estudando-o com interesse. E familiarmente Jorge, voltado à irmã, de braço estendido:
— Apresento-te, Adriana, o nosso mestre Mateus... a providência desta casa, o nosso grande amigo!
— Muito prazer, murmurou Adriana, num sorriso esfíngico, docemente.
O Mateus, sem proferir palavra, voltou a curvar-se, com as pálpebras humildes.
— Sei que tem a estima de todo o pessoal... — disse Adriana, encrespando os lábios num sorriso amável, demorando atenta no contramestre os olhos.
Jorge ampliou:
— E a nossa confiança!
Visivelmente embaraçado, de braços estendidos, o Mateus alongava as costas das mãos, num enleio lorpa, mirando as unhas.
— Aqui a trago, conforme há pouco lhe disse... — continuou Jorge Meireles. E para a irmã: — Agora explica-lhe tu melhor...
Adriana adiantou-se com desembaraço.
— É muito simples, meu caro contramestre! Vegetam e consomem-se aqui assim, fatalmente chumbadas pela necessidade a este novo género de escravidão, alguns centos de mulheres... muitas delas são mães... e eu queria que as pobrezitas não se vissem obrigadas pelas duras exigências a passar tão longas horas afastadas desses pequenos pedacitos da sua alma.
— Elas importam-se lá! — observou Jorge Meireles, num risinho cético.
— Não digas isso, Jorge! — atalhou com sincera indignação a irmã. — Então não importam?... Vocês os homens não percebem disto... Oh, mas eu, coitaditas! Eu estou a ver...
— Pieguices!
— Enganas-te! Não há nada mais grave, mais justo, mais humano... — continuou Adriana, sob o olhar enlevado do Mateus, e progressivamente estimulada. — Semelhante separação forçada é para essas tristes criaturas uma fonte perene de inquietação e uma causa certa de ruina. Pois não se está a ver?... Eu por mim imagino... Nem se resignam à adversidade, nem trabalham com descanso.
— Vossa Excelência tem razão... — não se pode o Mateus ter que não dissesse.
— Enquanto que, tendo as crianças aqui assim perto de si, mais a recato, já a vida lhes pareceria outra... tomariam esta sujeição infernal por uma tutela salutar, tinham de vir procurar-nos por instinto...
— E até o trabalho renderia mais! — corroborou o contramestre.
— Não é verdade?... — exclamou Adriana, com um obstinado calor na face, cambiando com Mateus um olhar de simpatismo inteligente. E avançou direita ao perturbado contramestre, com os longos cílios numa linha imperiosa, e prolongado com decisão o mento altivo. — Arranje-nos então aí assim uma sala um pouco à parte, com bem luz, bem ar...
— Isso lhe disse eu... — acudiu com espontaneidade Jorge, tomado agora também, generoso e complacente, pelo altruísmo sentimental da irmã.
— Cada uma traz o seu berço... nomeia-se cada dia por escala, entre todas as que forem mães, uma encarregada...
— A ideia é soberba, minha senhora! — apoiou Mateus.
— Merece o seu aplauso?
— Não precisa do meu aplauso para nada... Eu não tenho mais senão cumprir as ordens que me dão... Mas sinceramente devo confirmar que esse pensamento é tudo quanto pode haver de mais nobre e de mais santo... é verdadeiro socialismo prático, é a pura religião do Amor.
— Bem, mas nós queremos então saber... o que é que nos arranja? — atalhou Adriana com graciosa intimativa, o antebraço à frente numa súplica eloquente e arqueando airosamente os lábios menineiros.
— Só se for, além ao fundo, conforme já há pouco disse ao Sr. Jorge, o depósito de material, — explicou, depois de uma hesitação, Mateus. E adiantando, como guia, um passo no corredor: — Vossa Excelência quer ver?
— Deus me livrei — protestou logo Adriana, com uma piedosa repugnância.
Jorge, porém, a desafiar:
— Anda! E de caminho dás uma vista de olhos à fábrica. — E como a irmã, pregada no mesmo lugar, movesse a cabeça negativamente: — Para quando te guardas?...
— Sabes que sempre fugi de ver coisas desagradáveis. Nem no teatro as quero! Bem basta quando elas venham inevitavelmente ter connosco... Depois, depois...
— É lindo ver como tudo isto trabalha!
— Á custa da saúde, do bem estar, da vida de milhares de predestinados, sim... — Adriana suspirou, enquanto empapuçava a curva discreta do tórax numa opressiva ansia. — Tomara-me eu já daqui para fora!
— Vamos quando quiseres, — aquiesceu Jorge com doçura.
— Credo! Que opressão... É como se se tivessem alojado dentro de mim os males de toda esta gente... Falta-me o ar!
— Mas é que assim, — disse o irmão, — no ar fica também toda esta ideia. Nem ele sabe com exatidão o que é que a gente quer... por onde há de começar.
— Ora essa! A primeira coisa é desobstruir, limpar, sanear essa tal casa. E depois eu venho então...
— E alguma coisa há de achar mais, garanto-lhe! — disse Mateus.
— Vejo que me compreendeu... Agradecida!
— Apertou-lhe a mão. — E então é começar quanto antes. Sabe de mais o quedem a fazer.
— Vou tratar de cumprir, o melhor que puder e souber, as ordens de Vossa Excelência.
— Por essa estou eu!
— A casa começará a ser desimpedida já amanhã.
— Muito bem! Muito bem! Eu não sei se a minha ideia é com efeito a sublimidade que os Srs. dizem, — disse Adriana, já direita à porta. — Agora do que vou convencida é de que ela terá no Sr. Mateus o mais prestimoso e sincero cooperador! — Fitou-o de novo com familiar interesse. — De si antecipadamente confio todo o bom êxito dela, não?... — Ao mudo gesto de aquiescência do Mateus, voltou de todo costas e ia a afastar-se; quando, torcendo o airoso busto, muito cortesmente: — Adeus!
E num vôo de meteoro, rapidamente, tomou então à porta com Jorge e saiu pelo terraço; seguidos a distancia os dois por Mateus, que veio à frente, té junto à platibanda, a que se apoiou esteirando com os olhos o breve percurso deles na rua, entre a fábrica e o portão verde do parque; e aí se ficou depois, tão distraído e insensível que nem deu pelo Anacoreta, o qual lhe batia nervoso no ombro, explicando «que sim... que agora tinha homem! Uma maravilha... e que retirava por Marvila, ia tomar o comboio.
Até sucedeu que, tendo este subido a rua na mesma direção de Adriana e Jorge, e vendo em baixo, sempre pregado no mesmo lugar, o Mateus, se voltava repetidas vezes, julgando-o ali pela sua causa, a acenar-lhe adeus com a mão.