Amanhã
Capítulo II · Havia primeiro uma sorte de pequeno pátio…
Havia primeiro uma sorte de pequeno pátio interior, ladrilhado a tijolo, com portas abrindo sobre imundas cafuas em esconso, que promiscuamente serviam de depósito de géneros e quartos de dormir. Uma outra porta, em frente da entrada, dava serventia para uma grande sala em osso, assimétrica e oblonga, o teto sem forro, nua ainda na sua provisoria aspereza a taipa escura das paredes, e onde a intensa absorção da luz, por efeito da ausência quase completa do branco, junta com um espesso véu de fumo sobrenadando, apagava as arestas, comia os contornos, emprestava aquele vasto cenário um ar fantástico, impedindo a nítida visionação das coisas.
Entretanto, via-se logo porção de gente abancada contra as duas compridas mesas paralelas, que longitudinalmente tomavam toda a quadra. Difusas, vivas, em todos os sentidos cruzavam-se as conversas; um estrupidante rumor de interesse reboava alto no recinto, por entre o alegre tilintar dos copos e o lento espiralar dos rolos de fumo dos cigarros. Da asna central do teto, — cuja ossatura pelintra, a descoberto, acusava a grade irregular das vigas e permitia contar as telhas, — pendia um varão de ferro, tendo nos extremos dois grandes candeeiros de petróleo com para-luz de folha pintado a verde. De roda, numa caótica confusão, vestindo as traves, pejando os cantos, em rima junto ás paredes, por toda a parte riscando cabalísticas sombras, apontavam vagos perfis de arados, ancinhos, foices, aduelas, arcos de pipas, talhas para azeite, rosários de cebolas, pilhas de lenha, um promontório enorme de batatas. Cheirava a feno e a peixe frito; respirava-se um ar morno e penetrante, cumulativo a tasca e a curral, a abegoaria e a caserna.
Além dos sócios do Serafim, estariam agora ao todo ali umas quinze pessoas, que os recém-chegados cumprimentavam em alvoroço, à medida como, aproximando-se, iam descortinando os conhecidos. — Lá estavam assim, entre outros, o Queimadela, o Adelino, o Manuel António, da Vidreira, o Zanaga, dos Fósforos, o Romão, do Campo-Grande. — A bela sociedade! — E de roda de todos eles, irrequieto, de pé, furando, pulando, insinuando-se rápido pelos grupos, completando os conhecimentos, arranjando lugar a um, trazendo vinho a outro, desorbitado e feliz numa vertiginosa, uma estonteante e loquaz ubiquidade, incansavelmente lidava um homem coxo e pequenino, a pupila inflamada, a face devorada de febre, a cabeça grisalha ventoinhando sem repouso, e os lábios de cera vibrando abertos num risinho triunfante.
— Olha lá, ó Fagulha, — disse-lhe, baixo, o Manaio. — o tal Mateus já aí está?
— Não o conheces?
— Qual é?...
— Aí o tens... chutt que ele vai falar!
E indicava um simpático vulto de homem, miudito, delicado, que vagaroso e solene se erguera do seu banco, quase ao centro da sala. — Á primeira vista, encantava... Tinha o ar, a um tempo, humilde e dominador, imperioso e tímido. O seu longo perfil semita, energicamente vincado da coroa do frontal ao mento, acusava a tenacidade, dava bem eloquente o síndroma desta forma absorvente do querer, capaz ela só de arrastar ás extremas soluções, no paroxismo de um sentimento ou no aferro a uma ideia. Cabelo castanho, olhos negros, e na base das narinas fumegantes a branda caricia de um bigode algodoado e fino, impercetível quase. Atrigada e sem brilho, tinha a sua pele essa inalterável cor de marfim velho, que nos países do sol caracteriza os temperamentos fortes. A regularidade de linhas do rosto, a expressão ingénua e simples, o gesto comedido, rebuçavam de concerto o fogoso agitador, a um exame superficial mostravam Mateus como sendo a mais pacífica e angelical das criaturas; mas o que quer que era de voluntarioso e arrogante chispava a espaços nos seus olhos, e impercetíveis carfologias de impaciência corriam-lhe de relance nos dedos trémulos. Aquela mesma docilidade aparente não era senão o meio, tão suave como eficaz, de ele solidamente cimentar a sua vontade, à custa do mínimo atrito sobre a vontade alheia.
— Vivam, rapazes! — saudou ele, a meia voz. E logo, como por encanto, tendo-o mais adivinhado do que ouvido, todos se voltaram com interesse, imobilizando-se em atitudes expetantes; logo instantaneamente se abriu na tumultuária multidão um largo e ávido silêncio. — Estão então decididos a fazer alguma coisa?... Vejam bem! Eu de discursos estou farto... de os fazer e de os ouvir! Venho, mais uma vez, aqui ter com os meus queridos irmãos, para lhes bradar bem alto que é tempo demais de mostrarem quanto podem e quanto, valem. — Reboou pela sala um longo murmúrio envaidecido. — Ação! Ação meus amigos... É o vosso dever; é o meu desejo. Se achais cedo, dizei-o já... e eu vou-me embora!
— Cedo?... — Não! Não! — Estamos prontos, decididos a tudo! — Vamos a dar cabo dessa corja! — É para já!... — tais foram as vozes que o apropositado reto do Mateus fez chispar na multidão.
E então ele, sentindo-se senhor da situação e do auditório, com uma voz de catequista, suasiva e potente, de que ninguém suporia capaz o seu corpo franzino e repousado, continuou:
— Devo começar por lhes dizer que não me traz a este lugar nenhuma sorte de ambição... Nem viso a que falem de mim nos jornais, nem pretendo engrandecer-me.
— É a cantiga de todos! — rosnou baixo para o Serafim o Manaio, num dar de ombros incrédulo.
— Ouve! — limitou-se a retrucar, a meia voz, o tanoeiro, cujo derreado arcaboiço todo inflamadamente se erguia agora, dir-se-ia que suspenso dos lábios do orador.
— Traz-me aqui... mal parece eu dize-lo, mas é a verdade! — e ao dizer, o Mateus, dobrando o braço, arrancava do peito a murro inflexões convictas, — traz-me aqui o cuidado, o amor pelo vosso bem-estar... esta febre, esta ralé, esta ansia constante por libertar os eternamente explorados, por galvanizar os fracos, por erguer os oprimidos... febre, cuidado e ansia que tanto dissabor me têm causado... horas negras, noites de pavor, dias de fome! Ao mesmo tempo o tormento e a esperança, o mais fundo espinho e a preocupação essencial da minha vida!
— Pois já se vê! Ora não há!... — volveu o ceticismo contumaz do Manaio a escarninhar.
E indignado o Serafim, acotovelando-o:
— Tu não te calarás?... — Depois, todo estendido, bancada fora, ao Fagulha: — Ó coisa! Dá para aqui uma droga.
— Que nós nesta campanha, vocês já sabem, não estamos sós... — prosseguia Mateus no seu ardiloso exordio, cavando a voz e arrastando em sibilinas intenções as silabas. — A luta pela verdade abarca o mundo! Aquilo que nós hoje aqui resolvermos terá logo, para bem de todos nós, sua imediata repercussão lá fora. Em todas as principais sociedades operárias da Europa e da América eu conto com amigos dedicados. Quer dizer: são outros tantos irmãos, cujo coração bate igual com o nosso, que aguardam com avidez as nossas deliberações, prontos a fornecerem-nos toda a qualidade de auxílio, toda... em conselho, em experiencia e em dinheiro!
— Ah!... — Então que dúvida temos?...
— Posso-vos provar. Não me faltam felizmente os documentos... Eu vos trarei! E por eles podereis então bem na evidência certificar-vos de que as sagradas reivindicações do povo estão hoje indestrutivelmente ligadas, por todo esse mundo em fora, poios laços da solidariedade universal! Para onde quer que volteis, no vosso anseio libertador, os olhos, aí vereis o aceno animador de irmãos... e irmãos tanto mais para admirar e amar, para gravar no coração e seguir no exemplo, que eles há muito servem com alma a nossa causa comum... e enquanto vós aqui, moles e indecisos, palavrosamente esperdiçais o tempo, lutam eles com fé e ardor, lutam deveras... arriscando tranquilidade, haveres, posição, família, jogando a reputação, perdendo a vida... mártires no sacrifício e heróis no desespero com que à conquista se votam cegamente desse grande principio igualitário, — o Sol do dia de amanhã. — que deve ser o lema, a bandeira, o norte, o ideai de todos nós!
Á medida como seguia no seu crescendo natural a inflamada eloquência do tribuno, paralelamente também no bronco auditório o interesse, o entusiasmo e a fascinação cresciam. Arrastavam-se bancos, apertavam-se os grupos, havia copos entornados pela impaciência de cotovelos correndo de repelão as mesas, e a mesma expetante uniformidade orientava direitos à dominadora figura do orador todos aqueles perfis ávidos e sombrios. Somente, isolada e impassível, no extremo de uma das mesas se ficara a flácida obesidade do Silvério, ingerindo genebra a saborosos tragos, os dedos em tresilha amparando o ventre, e inquisitorialmente apontados ao Mateus os seus pequeninos olhos de camaleão, redondos e lascivos. O Zanaga, dos Fósforos, tinha vindo, em pé, plantar-se cerce na frente do orador, as mãos nos bolsos, as pernas em compasso, e o seu inseparável cachimbo, entalado nos lábios negros, comovido tremulava sob a magnética influição daquela voz potente e sugestiva. Enquanto, desorbitada e feliz, a pequenina figura grisalha do Fagulha de um para outro grupo incansavelmente saltitava, claudicando, erguida a face flamante à extática adoração do «seu homem», e num lume triunfador ardendo-lhe os olhos fascinados.
Como, depois da última tirada, entendesse por bem o Mateus fazer uma pequena pausa de importância, com a sua irritante voz de falsete o Adelino interrogou:
— Mas o que vai então a gente fazer?...
— O que vamos fazer?... — aclarou logo Mateus, com decisão. — Vamos pôr as coisas no seu devido sítio! Reivindicar os nossos direitos... os direitos naturais do homem... Não tolerar da sociedade restrições nem peias, senão aquelas que nós muito livremente quisermos aceitar! Vamos, em suma, pugnar pela nossa alforria moral, pela definitiva abolição dos abusivos limites que o Estado impõe à liberdade de cada um!
— Apoiado! Pois isso é que é!...
E vigorosos brados de adesão, decididos golpes de punhos sobre as mesas, em uníssono vibraram no recinto. A grossa face oleosa do taberneiro, o Zé Pequeno, jubilosamente assomou à porta, a espreitar.
Quando, firme e sereno na frisante evidenciação do seu triunfo, o Mateus prosseguiu:
— Eu já outro dia vos disse, o Estado é uma pura excrescência que vive à custa de todos nós. Dispensa-se... Ele nada nos faz, nada nos traz de bom...
— É uma sanguessuga a pólvora e bala! — Abaixo com ele!
— É uma organização artificial, violenta, contraria ás leis naturais... a qual não aproveita senão a um limitadíssimo numero de indivíduos, com prejuízo de todos os outros... que não tem outro fim senão explorar o misero trabalhador!
— Muito bem! Muito bem! — Fora com os gulosos! — Abaixo a autoridade!
— Vá de chinfrim! Menos parodia! Rapaziada... — prudencialmente aconselhou, da porta, o locandeiro, num cauto receio enviesando o olhar ao corredor.
E logo, de salto ao pé dele, o Fagulha:
— Não te agonies, homem! Deixa... Isto não se ouve lá fora... Roda-me mas é tu, anda! Lá para o balcão... Toma conta com a rusga.
Convencido, o Zé Pequeno voltou para a taberna; ao tempo que já o ubíquo Fagulha, dando-lhe costas e esfregando as mãos num radioso enlevo:
— Que bem que isto vai!
E voltava extático a encandear-se do Mateus no verbo fascinativo e quente.
— Porque há aqui uma coisa que eu preciso explicar-vos, — continuou este. — Reparai bem... Até agora tem-se pensado que o governo, o Estado são coisas indispensáveis na vida das nações. Acredita-se na sua origem divina, na sua ação sobrenatural. E eu rio-me... eu revolto-me contra semelhante absurdo! Lá porque, nos primitivos tempos da sociedade, foi necessária a intervenção de um governo espiritual e temporal para regular as coisas, inferiu-se daí que ela o há de ser sempre. Ora não há nada mais tolo. Se os que uma tal heresia proclamam e defendem são uns miseráveis especuladores, aqueles que a aceitam, que a ela se submetem e lhe dão crédito, não passam, — tende paciência!~ de uns lastimáveis palermas.
— Essa agora!... — remoeu alto, coçando a cabeça, o Esticado.
— É assim mesmo! O homem antigo, que, cheio de superstição e ignorância, pensava que o sol e a lua tinham sido projetados e postos a dançar no Espaço por uma invisível mão toda poderosa, e que a espécie humana fora modelada em barro pela suprema influição de um artista sobrenatural, imaginava também que a sociedade a que pertencia fora por igual modelada e enquadrada de antemão em moldes imutáveis, ou diretamente pela Providencia, ou indiretamente pela sabedoria transcendente do tal sobre-humano legislador. E como a corrente da tradição tem muita força, e cada um foge de ordinário a pensar por si, este pernicioso ponto de vista radicou-se, perpetuou-se, ficou... fazendo ainda hoje atribuir ás instituições caducas do passado um carater sacrossanto e augusto, que as torna intangíveis ao exame e as ergue acima de toda a crítica. E aí está o erro... Parece incrível! Mas ainda agora a grande maioria das pessoas pensa e crê que o estado social de uma nação é o resultado da obra dos seus governantes, a aplicação feliz, vejam vocês! — e frisava a ironia, — das lucubrações dos génios políticos que essa nação há tido a felicidade de possuir.
— Fora com a política! — Todos para o guano! — Hemos de pendura-los dos candeeiros!
— Pois eu não estarei na razão? Não é certo isto que eu digo?... Governar, legislar... Mas governar quem, a quem e como?... Legislar, mas porque forma, com que autoridade, saber, com que direito?... Vós já pensastes acaso nisto: na surpreendente facilidade com que a presunção humana faz supor-se cada qual investido e iluminado, sem maior escrúpulo nem preparo, na complicada faculdade de legislar?... Nos atos mais insignificantes, mais individuais, mais íntimos da sua vida, a cada passo o homem cinca, recua, hesita, a todo o momento se afunda na dúvida, tropeça em dificuldades. Um renúncia à ideia de governar a mulher e deixa-se dominar por ela; outro não atina com o meio de salutarmente educar os filhos; outro reconhece-se finalmente incapaz de administrar a casa, de dirigir os seus negócios domésticos, de disciplinar os criados. Pois não obstante estes desastres parciais, apesar das contrariedades em que tão frequente o homem esbarra, nas suas relações miúdas com a humanidade, falai-lhe em relações coletivas e vereis como ele logo se julga um onipotente, um sábio... como esse mesmo ente inconsequente e fraco, que uma conta de deve e haver ataranta, pronto sempre a capitular perante um capricho feminino, se reconhece e declara ato e forte para regular os negócios dos homens formando o conjunto-nação!
— Eles conhecem-nos lá! — objetou aqui, num cambeteio impaciente, o Fagulha. E agora de salto, vergado ao ombro do Queimadela: — Nem nós sabemos nunca quem eles são... Que os leve o diabo!
— Dizes bem, Fagulhai — apoiou rápido Mateus.
— Incapazes de governarem a sua casa, mas querem mandar na casa dos outros! Viram já um absurdo, um desaforo assim?... Que maior competência, poder, valor têm eles para o caso, do que qualquer de nós?... Leis! Agora leis... Não são leis, são lérias!
— Apoiado! Roda com eles!
— A Lei é uma coisa feita à vontade deles. Pois seja-o agora à nossa!
— Muito bem! Muito bem! — Abaixo esses ladrões! — É tempo de vingar o povo!
A violenta apóstrofe do Mateus, como um rastilho, tivera o condão de acender naquela tumultuaria jolda de famintos uma rabida explosão de vaias, uivos, imprecações, insultos, cóleras. Interminavelmente e sem trégua, em epilepsias de dor, em exasperados lamentos, em paroxísmicas febres de revolta, de lado a lado estrugiram brados vingadores, cruzaram-se torturadas vozes de deserdados. Era a virulenta reação que estoirava contra cinco gerações seguidas de desenganos, de burla, de abandono e de fome. E toda essa inflamada fúria apreendia-a, absorvia-a o Mateus embriagantemente. A cada nova estralada de impropérios os seus olhos, irrequietos, ávidos, beatificamente fuzilavam. Dir-se-ia ali que ele, sôfrego, ardente, recolhia a alma, bebia a vida do estrepitoso referver da onda... Uma boa parte da assembleia, agora compacta e de pé, tinha vindo irresistivelmente agrupar-se-lhe em roda. Apenas junto à mesma quina de mesa, frente à sua querida genebra, o obeso e mole Silvério permanecia, a tudo atento mas tranquilo, dessa veemência afogueante da multidão cada vez mais antinómico e mais distante. O cachimbo homérico do Zanaga, apagado, riscava no espaço, ao sabor das nervosas deslocações daqueles beiços de cafre, cabalísticas ameaças. A saltitante inquietação do Fagulha preza na hirta solenidade do momento, imobilizara-se. E por sobre o insofrido e vago remoinhar da multidão, radiosa superando essa rembrandtesca aglomeração de cabeças sórdidas e terríveis, apagadas no fumo, carvoadas na sombra, somente iluminada e serena, na rutila evidenciação do triunfo, trepada a um banco, perorando sempre, do Mateus a cândida e voluntariosa figura destacava.
— Ora digam-me vocês uma coisa: todos vós, sim, tendes um ofício... e esse ofício, por mais simples que ele seja, custou-vos um certo tempo de aprendizagem, não é verdade?... Muito tempo trabalhastes, sem ganhar, amparados à lição de um mestre, gradual e progressivamente assimilando o vosso noviciado técnico, os segredos da vossa profissão. E isto é indispensável, não é assim?... Ninguém faz milagres, ninguém nasce ensinado. Pois bem! Toda a sorte de ocupação, todo o género de trabalho, ainda o mais elementar, carece então, para se poder exercer capazmente, de um tirocínio prévio, e só não há de exigir aprendizagem o que há de mais difícil, — o oficio de fazer leis para uma nação!... para isto, está-se a ver! é só os protegidos, os meninos bonitos quererem: num pronto se tornam infalíveis!
— Raios os partam!
— Eles não conhecem a milésima parte dos seus concidadãos, nunca lhes falaram, nunca os viram, nada se interessam, nem podem interessar, por eles... não têm senão ligeiríssimas noções, quantas vezes falsas! Do modo de pensar, dos hábitos, costumes, reclamações, necessidades das classes a que pertence a grande massa dos oprimidos... a que pertencemos todos nós! E não obstante creem firmemente que poderão tudo abarcar nos seus planos legislativos... que todos lhes obedeceremos, e caminharemos para o mesmo lado, e ficaremos contentes! — Que me dizem a isto?... — E cruzava sobre o peito indignadamente os braços. — Querem prova mais frisante de que as tais leis são boas só para eles? Que são uma coisa arbitrária, violenta, injusta... puramente artificial?
— Pois já se deixa ver que são! — Cambada! — Isto é que é uma cabeça!
— Nós não precisamos das tais leis para nada! — reforçava agora imperioso o Mateus, descruzando os braços e em fulvas crispações das mãos anavalhando ameaçador o espaço. — Um chefe é um tirano. Vamos suprimi-los! Valeu?... Não devemos ter ninguém por senhor, nem também sermos os senhores de ninguém! A sociedade, tal como as leis naturais a traçaram, tal como deve ser, — como nós vamos fazê-la! — não é o escandaloso logradoiro, monopólio insolente de meia dúzia de malandrins com sorte... É um produto orgânico vivo, como outro qualquer, dentro do qual os homens são assim outras tantas células, espontânea e solidariamente concorrendo, — mas todos! Todos por igual... tanto uns como outros... — para o desenvolvimento, para a vida, para a harmonia e o bem comum!
— Mas como há de ser então essa coisa?... — voltou a voz em falsete do Adelino a interrogar:
— Alguém nos há de dirigir... — Eu cá não entendo! — Oiçam!
— Não é novidade nenhuma isto que vos proponho, — aclarou o Mateus, sorrindo da ingénua dificuldade que aquelas dúvidas acusavam. — Nem no mundo há novidades! Vede lá... quantas vezes, de dia, o sol brilha claro, o céu está limpo, e brusco forma-se uma nuvem. Esta nuvem foi acaso uma substancia nova que se formou? Uma nova coisa que apareceu?... Não! Mas simplesmente a transformação de uma outra substancia, a qual, — a humidade por condensar, — sob uma forma difusa e transparente já anteriormente existia. Analogamente, o cometa que de repente se desdobra airoso pelo Espaço, amedrontando os ignorantes, dando origem a toda a sorte de patranhas, também não é um corpo novo, que criado fosse naquele instante. Já anteriormente existia, mas a uma tão grande distância, que andava fora do alcance da nossa vista... Pois também a sociedade, o modo de viver que nós tomos a organizar, com o inteiro e completo exercício dos nossos direitos, a distribuição equitativa e perfeita dos gozos e bens da terra, a definitiva abolição de todos os limites à liberdade de cada um, não é uma coisa nova, abstrusa, imprevista, que de improviso surgisse agora do Nada... não é o produto de uma imaginação escandecida, sem origem nem preparo nos misteriosos domínios do equilíbrio universal. Essa organização será, pelo contrário, a consequência lógica, natural dos titânicos esforços em que há dezenas de séculos se debate e consome a humanidade. Até agora não a podíamos ver nem atingir, porque a traziam fora do alcance da nossa ação toda a casta de pressões exteriores. Porém os ominosos tempos da tirania, do obscurantismo, da superstição passaram. Hoje os homens sabem perfeitamente que não são máquinas: são consciências! E, como tais, têm sentimentos, aspirações, desejos... irresistivelmente reclamam o pleno uso e expansão das suas forças interiores... Não queremos portanto mais leis, senão as leis naturais! Nem batinas, nem becas, nem patrões, nem reis! Queremos que o domínio da nossa vontade seja finalmente um fato; e que a sociedade não imponha à nossa esfera de ação mais limites do que aqueles que nós consentirmos em aceitar livremente! É isto, ou não é?...
— Sim! Sim! — Mãos à obra... vamos!
— Mas isso é uma coisa sem rei nem roque! — objetou então, com pasmo geral, em voz pausada mas forte, o Silvério, do extremo do seu isolamento.
E alongava a insípida face num desdém.
— É que você não percebeu nada... — exclamou o Romão, furioso.
— Enganas-te! — veio, muito solícito, dizer-lhe ao ouvido o Fagulha.
— Cala a boca, bruto! — gritou-lhe de longe, numa visga olhada de rancor, o Serafim.
— Pelo contrário, meus amigos… — acudiu o Mateus, sempre com o mesmo sorriso inteligente. — A revolução que nós vamos fazer, o ideal a que aspiramos, é o que há de mais prático, de mais compreensível, mais justo! — E juntando teatralmente os braços e apoiando na concha da mão o queixo reflexivo: — Mas como vos hei de eu explicar...?
Neste momento, rasgou áspero o ar o silvo estridente do tramway que perto passava, na linha de cintura. Tão perto, que demorado ressoou pelo recinto o seu estalido tremulante, o som ferrolhado e cheio do seu rápido rodar. — E no mesmo instante o Mateus, como iluminado de uma ideia súbita, erguendo de ímpeto a cabeça e deslaçando os braços:
— Ah! Aí têm vocês. . . Ouvem?. . . Passou agora o tramway uma das mais prodigiosas e fecundas aplicações da inventiva humana. — Os caminhos de ferro rasgaram, galgaram as entranhas da terra por toda a parte; como uma teia de aranha colossal, a sua rede de aço liga e abarca o mundo. De continente para continente, de país para país, o sistema ferroviário forma atualmente a mais sabia e bem ordenada engrenagem, com uma correspondência perfeita de horários, analogias de material e as convenientes especializações de serviços. Pois essa vastíssima organização, típica como modelo, de um rigor e de uma harmonia tão perfeita apesar da sua extensão imensa, do seu domínio internacional, funciona e exerce-se, — vede bem! — sobranceira e independente ás chamadas fórmulas políticas; não obedece a nenhum poder central; não tem parlamentos, nem reis, nem padres, nem fidalgos, nem guarda municipal. Governa-se por si... individualmente nas questões regionais, coletivamente nos assuntos de universal interesse. E assim tudo vai perfeitamente! Não obstante faltar-lhe a consagrada tutelação do antigo, semelhante organismo mantem-se, regulai e progride de um modo admirável. É espontâneo e é útil. O seu mecanismo é completo, porque a sua solidariedade é perfeita!
Este paralelo fisgado a tempo, esta tão oportuna aclaração eterizou num grave silêncio entusiasta a assembleia, que em adorativo êxtase à tribunícia figura do Mateus erguia os olhos pasmados. E agora a crassa fisionomia, emoldurada em negros matacões, do Zê Pequeno, tendo de novo desertado o balcão, voltara a colar-se, bisbilhoteira e sorridente, à porta do recinto.
O Mateus continuou:
— E aqui tendes vós, neste curioso caso dos caminhos de ferro, prodigiosa aglomeração de valores e interesses vários, funcionando perfeitamente bem, só por livre e mutuo acordo, aqui tendes o mais triunfante exemplo de como a sociedade pode otimamente governar-se sem a intervenção de Estados, nem mandões, nem chefes... Essa organização, como tantas outras semelhantes, hoje derramadas por esse mundo fora, — a Cruz Vermelha, as Associações de beneficência, as grandes Sociedades suíças e alemãs de tiro, — e que, aqui há cinquenta anos atrás, pareceriam aos nossos avós uma utopia, um sonho, mostram bem como no funcionamento da sociedade e da vida humana a tirânica imposição do poder central é, no fim de contas, inútil... e pode e deve com vantagem ser substituída, ou pela cooperação de sociedades entendendo-se livremente, ou pela simples atividade de cada um!
— Isso! Isso! — Vamos a arranjar uma coisa assim!
— É esse o meu ideal! Deve ser por igual o sonho, o supremo desejo, a preocupação constante do todos vós... Para vos tornar livres trabalho eu incansavelmente, desde que me entendo; nessa obstinada lida vou de toda a alma e todo o coração consumindo a vida! E porquê?... Porque vejo que o mundo é ainda quase que exclusivamente povoado, e arroteada a terra, e fomentada a abundancia, e criada a riqueza, por bandos inconscientes de escravos; porque são ainda profundamente iníquas as desigualdades da civilização atual... E, assim, não há hoje mais nobre, mais instante, mais sagrada missão para o homem, do que lutar por emancipar-se, a si e aos outros, da infame exploração, do odioso jugo do privilégio e do capital... tornar-se cada um para esse fim como que o cristo de si mesmo... arcar com os poderosos, sofrer, profanar, destruir, morrer... até que consiga tornar o indivíduo livre, completamente livre! Em todas as manifestações naturais da sua atividade. Rapazes! Vamos a isto?...
— Sim! Sim! — Toca a marchar! — É já! Para onde quiser...
O Romão do Campo Grande, — homem dos seus 40 anos, pequeno e redondo, quase absolutamente calvo, bronco mas tagarela, a quem a solene e ampla nudez do crânio luzidio e um portentoso instinto assimilador davam entre a classe operaria prestigiosa autoridade, — não se pode aqui ter sem exclamar:
— Eu sempre lhes disse a vocês que o homem por si, quando quiser, pode tudo!
— Isso é velho!
— É... mas vocês não se mexem!
— Não tínhamos com quem... quem nos guiasse! — Talvez você?...
— Vamos agora a ver, — atalhou conciliador o Mateus, — se com boa vontade, inteligência e coragem, unimos o nosso esforço ao dos nossos irmãos do estrangeiro, para conseguirmos enfim, apeando os ladrões, arrasando as fronteiras, constituir, em suma, a espécie humana, amorosa e unida, numa família única, numa santa comunidade universal!
— O dinheiro devia ser universal também... — irrompeu o Romão, na sua impulsiva loquacidade. — Por toda parte o mesmo... E ter sempre o mesmo valor.
— Isso pode lá ser! — retrucou-lhe de longe o Esticado.
— E porque não?...
— Tu não vês as diferenças que há nos interesses de nação para nação?
— Diferenças?... Mas que me importava a mim ser francês, espanhol, russo ou china, contanto que me pagassem e eu tivesse, para onde quer que fosse, livre o direito de escolha e a posse dos frutos do meu trabalho, e a minha liberdade de ação assegurada?
— Não, pois eu cá isso é que não! Antes de tudo sou português! — para que é isso bom, ô coisa?... — assobiou trocista a irritante voz do Adelino.
Mas numa obstinação o Esticado a insistir:
— Português, sim... Nem quero ser outra coisa!
— Pois olha, então… — vibrou-lhe em ar de mofa o Romão, alongando de desprezo os lábios, — não percebes nada do que a gente queremos fazer, nem estás aqui bem! Vai-te embora!
O Esticado fez-se lívido; e crescendo para o Romão, de punhos fechados:
— Que é que você diz, seu gato pelado?...
Logo os mais próximos intervieram, contendo o importuno esbravejar dos dois bárbaros polemistas. perante a perturbadora iminência do conflito, os pequeninos olhos de camaleão do Silvério tiveram um relâmpago de júbilo. E valeu que imediatamente o Mateus, interpondo à torrente do disparate o provado dique da sua autoridade, prudencialmente aconselhou:
— Então! Rapazes... juízo! Guardem esses furores para mais tarde. Não lhes faltará ocasião... — E vendo que, novamente polarizados na prestigiosa influência do seu verbo, todos voltavam a premir-se-lhe em volta, por completo desfeito aquele agoirento prelúdio de desordem, suasivo smorzando a sua forte voz abaritonada, prosseguiu: — O Romão no fundo tem razão... disse bem. É exato... Esta consideração, hoje tradicional, do patriotismo, não passa de uma invenção egoísta do regímen burguês! Não tem pés nem cabeça! — Abriu o imprevisto arrojo do paradoxo um pasmo de incredulidade, de como que latente revolta, na assembleia; e, estimulado e contente do efeito, os grandes olhos negros brilhando da esperta antecipação do triunfo, então o Mateus aclarou: — O patriotismo é uma das muitas e habilidosas formas de opressão que, para impunemente nos esmagarem, têm inventado os ricos e poderosos. Durante séculos, vocês sabem, o seu meio de dominação foi outro: foi a religião. Quanto tempo as classes privilegiadas não exploraram e cavalgaram ao seu bel-prazer o povo, ameaçando-o, fanatizado e embrutecido, com o temor de um Deus de açougue, vingativo, cruel... com os tétricos horrores das penas do inferno! E depois, quando essa formidável criação de hipocrisia e de embuste caiu, quando o espetro religioso se esvaiu na sombra e o poder de Roma se afundou no ridículo, substituíram-no então pela ideia de pátria. Aí têm o que é!... De sorte que, hoje, semelhante modo de ver só aos nossos odiosos dominadores aproveita! Só eles podem ter empenho e interesse no manter. Nós não... As gentes de massa e privilegio, essas sim!... Por exemplo, surge aí uma grande questão de interesse, há uma companhia poderosa, um sindicato qualquer, patrocinado pelo Estado, de cujos corpos dirigentes fazem muitas vezes parte altos personagens, o qual quer violentamente apossar-se do território, dos haveres, da riqueza, da independência de um outro Estado. — Como há de ser?... Declarando-lhe guerra. E esta guerra de que modo coonesta-la? Qual o meio de interessar nela, até ao heroísmo, até ao sacrifício, até à morte, a nação inteira?... Invocando o patriotismo, está bem de ver! E então, estupidamente arrebanhados pelo estatuto militar, mais estupidamente ainda dementados por uma noção sentimental, absurda e iniqua, aí marcham dezenas e dezenas de milhares de homens , para a famulenta chacina dos campos de batalha, vítimas de uma falsa compreensão do dever, a benefício de uma sórdida e infame exploração dando de barato a vida... aí se despovoa um país, se sopra e derrama pela sagrada, a inviolável paz de lares sem conto o luto, a miséria, a desolação, a desonra, a fome... tudo para acabar de encher, para trazer algumas libras mais aos cofres de meia dúzia de insolentes e arbitrários mandões! Cada desgraçado a menos, cada um dos nossos que o chumbo vareja, que a metralha estripa, será um adorno a mais para os seus salões, um regalo mais para as suas mesas!
— ... Que os pariu!
— Achais bonito isto?... Valerá a pena, para semelhante efeito e por tal preço, conservar a terra dividida em tanta agremiação diferente?... Que importa ao pobre, se ele em toda a parte e de toda a forma é invariavelmente roubado, que lhe importa receber o salario de um patrão português, inglês, americano ou turco? Que mais lhe faz pagar impostos, visto como de todo o modo lhe levam sempre a pele, ao Senhor D. Carlos, ao doutor Floriano Peixoto ou à rainha Vitoria?
— Isso é que é! — Rua com todos!
— Estou achatado... Ó Romão... desculpa! — balbuciou, cabisbaixo, vergado à evidência, o Esticado.
E cortando o grosso do grupo, foi num efusivo ímpeto apertar entre as suas a escoriada mão do serralheiro, em cujos olhos bailavam.
— Pois vocês não veem?... — prosseguiu com rubra intimativa o Mateus. — O alargamento da ideia de pátria, a internacionalização de todas as manifestações da vida social, revelam-se hoje numa triunfante evidência, com uma intensidade cada vez mais forte, em todas as principais descobertas do génio humano. Caminhos de ferro, telégrafos, telefones, comércio, indústria, livros, jornais, congressos, — aí tendes outros tantos elementos do igualitarismo universal, todos tendentes a alargar o âmbito emancipador da Espécie... aí tendes o imenso laboratório em cuja complicada química se está generosamente elaborando a união dos povos e o amor dos homens. Irresistivelmente a Humanidade caminha para uma homogeneização cada vez maior; e só quando essa titânica obra se houver conseguido, quando a completa igualdade coletiva e a absoluta independência individual forem finalmente um fato, — e quanto tempo não levará ainda esta sedutora utopia a realizar! — só então poderá o homem descansar certo e feliz de haver para as futuras gerações enfim assegurado o gozo e a posse da maior soma possível de perfeição e de felicidade... de ter preparado para seus filhos uma organização social tão harmónica é tão perfeita, que dentro dela não mais haverá revoluções, porque não haverá desigualdades; nem usurpações, porque todas as manifestações da atividade serão legítimas; nem portanto o rico se prostituirá pela ociosidade, nem o trabalhador pela miséria!
O Fagulha recolhia numa delicia irrequieta os patentes sinais de mudo aplauso em que fascinativamente se paresiavam todas aquelas cabeças ansiosas. Mas ao mesmo tempo, desandando, num receio, até junto ao dono da locanda:
— Ó Zé Pequeno, vê lá!...
E com um grande ar de segurança, sempre colado à porta, o taberneiro:
— Não há novidade... tenho patrulhas.
Agora o Mateus, tenebroso, solene, ranilhado e erguido o amplo frontal numa torva caligem de ameaça, descera do banco, amalgamara-se, fundira-se no grupo... e exprimia-se em vozes cavas, de funda raiz na alma, por vezes quase em segredo, jogando o pensamento todo em termos incisivos, sacudidos, breves, que, agudos como punhais, rútilos como uma descarga elétrica, ele familiarmente despedia ao ouvido de cada um.
— Ora é claro, — ia insinuando, — que tudo isto se não poderá alcançar senão por meios violentos: abatendo e destruindo implacavelmente, sem dó, sem medo, tudo quanto tenha o arrojo de cortar a nossa resolução, de empecer-nos o caminho! Diga-se a verdade toda, rapazes... temos que ir à revolução! — Arrepiou-se a onda num calefrio de enleada surpresa. — E não vos espanteis: que nem o expediente é novo, nem nos fica mal... Não há nada mais justo. Eu não quero fazer de vós abomináveis carniceiros, mas os íntegros executores das leis naturais. Ser-se revolucionário, entendei-me bem, não é ter o coração repleto de ódios, nem o espirito fechado à compreensão desses lindos ideais que até aos astros exalçam o ser humano, pelo contrário, é ser-se desinteressadamente o amigo e o defensor dos nossos irmãos! Eu bem sei que os livros clássicos não dizem isto... pintam os demolidores da tradição, os vingadores do Mal, como uns excomungados e uns carrascos. Mas é porque esses livros são inspirados e mandados fazer por aqueles que exatamente com o atual estado de coisas aproveitam... Oh, a Verdade paira muito longe e acima deles! Nem precisa de canhões, nem de roupetas... A obra do revoltado é uma obra de amor. Tudo pelo Bera! — é a nossa divisa. Reparai que armar-se, sublevar-se, impor-se a gente é preparar a felicidade dos nossos filhos, combater pelo restabelecimento das prescrições da Natureza, é lutar pelo que de mais nobre existe no cérebro e no coração do homem, — a integridade do seu pensamento e a liberdade da sua ação!
Vergados à decisiva gravidade do momento, dobravam-se os bustos dos circunstantes.
— Hesitais?... Falece-vos a coragem, desarma-vos a compaixão?... Não estareis ainda fartos de sofrer, de ter complacências com os ricos e poderosos?... Pois não será já o tempo de nos constituirmos, seja porque modo for! Naquilo que devemos, que temos o direito e a obrigação de ser?... Já lá vão doze séculos sobre aquele em que o glorioso poeta romano deplorava a sorte dos míseros «que cavam a terra e não têm pão... que tecem o linho, o veludo, a seda e vestem burel... doze séculos, doze! E o nosso estado ainda hoje é pior... Pior, sim! Mais duro, mais aviltante; porque hoje os nossos arrogantes dominadores, mais timoratos ou mais hipócritas, mascaram a sua tirania de escárnio, a sua opressão com a caridade... Pois nós não estamos a ver como eles nos amam? Como velam por nós?... É aí por toda a parte, para nosso uso e engodo, albergues, asilos, creches, sopas económicas... Fingem interessar-se pelo nosso bem-estar e não pensam senão em nos acorreiar mais a canga. Concedem-nos por esmola o que nos pertence de direito. E não será isto uma troça agravando a humilhação?...
As últimas palavras do orador, numa significativa ressonância, prolongaram-se pela assembleia em vagos rugidos de ameaça. Banzeiramente o Serafim, que estava borracho e com a navalha embrulhava um cigarro, ficou-se volutuoso e pertinaz passando a folha da naifa pela palma da mão, como quem a afiava. Houve instintivos movimentos de braços, direitos aos refegos das cintas, ao cós das blusas, ás algibeiras. Nervoso o Manaio soprava ás mãos, numa tremura. O Zé Pequeno, na sua consciência acobardado perante os lances fortes, desandara vagaroso para o balcão. E entretanto o Silvério, pacifico e longe no seu invariável isolamento, frente à botija de genebra vazia, em pausada peristáltica o abdómen, caída e amarfanhada no peito a glabra insipidez da face, parecia ter adormecido.
Não descansava o Mateus:
— Aproxima-se o Natal, meus amigos... a época mais santa é doce do ano! A carinhosa quadra votada ao culto da religião da família, a páscoa dos bons, o jubileu das almas, o Eldorado das crianças... Família! E qual de vós é que a pode ter?... Vem próximo o tempo em que todo o homem com coração se esforça por ver luminosamente pairando, em torno a si e aos seus, a paz, a abundancia, a alegria, o afeto. Nisto consiste o seu maior empenho, por isto recebe da sua consciência o mais salutar aplauso, daí extrai e assimila novas forças que o amparem, novas energias que o aguentem na faina ímproba da vida... Pois bem! O que é que vai agora suceder, mais uma vez?... É que os ricos terão tudo, e nós não teremos nada! Se as coisas estivessem repartidas como devia ser, a todos caberia seu equitativo quinhão no uso, beneficio e posse dos gozos e bens da terra; mas assim, não! Não pode ser! — dizem eles... E a sistemática, a odiosa exploração continua! Eles, sim... os nossos intoleráveis dominadores, fortes no seu impudente egoísmo, que milhares de privilégios cercam, que milhares de baionetas defendem, esses hão de banquetear-se rijo... terão toda a casta de felicidades, diversões, prazeres, orgias... o comércio jorrando no seu proveito sedas, veludos, pedrarias, oiro, guloseimas, toda a sorte de maravilhas... esses terão concertos, bailes, teatros, criados prontos como eunucos, ávidos do seu soldo, mulheres agachadas e submissas como gatas, regalado cevo à sua luxuria! Tudo! Terão tudo... desde os supremos requintes da arte e da opulência, até esses pobres bandos de perus que já coalham as ruas, lugubremente piando de antemão o seu destino... E nós?... Nós, — aqueles a quem a saúde estrompada o permitir, — teremos por muito favor o recurso pelintra das hortas, alguma caldeirada barata em Cabo Ruivo, envenenadas zurrapas aí pelas tabernas, ou alguma escassa merenda comida de levante na sombra anémica dos olivais, por uma aberta de chuva, sem que o álgido açoite do vento nos deixe aquecer... desagasalhados, rôtos, nus sobre a terra encharcada... Se nos excedermos, lá está a cadeia... É o mais a que podemos aspirar, e louvar a Deus! Que mesmo assim, se o quisermos, ainda havemos de pagar depois tamanha prodigalidade, passando o resto da semana a sardinha, ou indo entregar ao prego o último cobertor, o último farrapo!
— Somos umas bestas!
— Assim, como a iniquidade social é enorme, como são imensas as diferenças, mais irritante e doloroso se torna, pelo contraste, o confronto do arrogante bem-estar dos grandes com as incomportáveis penas da miséria... Nessa época abençoada e linda em que vamos entrar, não há pequeno episódio íntimo que não dê aso a uma celebração festiva; reconciliam-se famílias, esquecem-se agravos, perdoam-se ofensas, erros, crimes; sobre o mundo passa do Amor a aza acariciadora e branca... E só nós não podemos amar! Só os nossos implacáveis verdugos nos não perdoam, nem deixam respirar nem viver!
— É demais, isso é!
— Tudo isto porquê?... Porque o vosso salario não é o que deve ser! Porque não vos pagam equitativamente o trabalho. O salario fixo, arbitrado ao sabor dos caprichos e conveniências do patrão, é uma ladroeira! Se o vosso trabalho rende, se a indústria próspera, tendes todo o direito a participar dos lucros. O vosso capital e o dos grandes industriais equivalem-se; não digo bem... vale mais o vosso... porque, se eles adiantam o dinheiro, vós consumis a vida! Que sejam portanto proporcionais, equivalentes, mutuas as vantagens e interesses conferidos a cada um! O lucro líquido tem de ser repartido por todos: por obreiros e patrões, pelos que dirigem e pelos que executam. Mais: a diuturnidade no trabalho, a permanência de colaboração ativa, deve dar o direito de relativa posse, é um título legítimo para alcançar sociedade na empresa. — É isto o que nós queremos, o que deve ser! O que implacavelmente vamos tratar de conseguir... Pois não representa o regímen atual uma iniquidade que brada aos céus?... Pois, quando uma qualquer fonte de riqueza industrial aí se expande e progride, não teremos nós melhor direito a colher-lhe os benefícios... nós, que para esse resultado contribuímos rudemente, esperdiçando as forças, esgotando a saúdo, sacrificando a vida, do que essa emproada choldra de acionistas, muitos dos quais nasceram ricos, não conheceram nunca privações, outros vivem, sem intervenção direta, sem estímulo imediato no negócio, disseminados e ausentes por toda a parte do mundo... que por vezes não conhecem senão de nome a industria que lhes engrossa a burra, e que para escandalosamente engordarem os seus haveres não precisam ter mais trabalho do que abrir a carteira e estender a mão?...
— Mas para onde vai a gente?...
— O que é que querem de nós?...
— Vamos fazer uma greve geral? — perguntou incrédulo, coçando a nuca, o Manaio.
O Mateus abanou negativamente a cabeça. E logo o Zanaga a protestar:
— O que é que isso dava?...
— Agradava-lhe talvez ir passar, comos padeiros, uns dias de frescata à serra de Monsanto... — rompeu sarcasticamente o Romão, em ar de reprimenda.
— E se nós fizéssemos um manguito a estes gajos todos, — propôs o Adelino, — e fôssemos fundar para África uma sociedade nova!
Tornou o Mateus a desaprovar, num sorriso complacente.
— Só o tempo que isso levava! — o Manaio objetou.
— E o dinheiro?... — acrescentou o Esticado.
— Ora o pedaço de burro! — tartameleou com dificuldade o Serafim.
— A única coisa a fazer, meus amigos, — acentuou o Mateus com energia, — já vos disse... é a revolução!
E perante a pávida hesitação da assembleia, transfigurado e ardente, o fogoso agitador continuou:
— É incrível, é adorável isto! Sois tão cegos, tão ingénuos, tão bons, tão simples, que passivamente vos submeteis ao jugo, tendo a sorte do mundo nas mãos!... Aqui, por exemplo, em Lisboa, reparai! Sois para cima de vinte mil operários: se estreitamente vos unirdes, no mesmo pensamento e na mesma decisão, a vossa força é incalculável. O reconhecimento, a reivindicação em massa do vosso direito, é como se vos multiplicassem. Centuplica-vos o número o desespero... para diante, pois! Que é que podeis recear?... O sabre, as patas dos pretorianos? As balas das tropas da guarnição?... Mas isso, aqui de portas a dentro, não tem valor nenhum! A tática do combate nas ruas está por fazer... não a aprendem eles, não está definida, nem pode estar, nos regulamentos... é uma coisa tumultuária, escabelada, internai, absolutamente imprevista, como uma congestão de vingança, como o Génio da revolta! E mesmo, — que dúvida tem? — vós sois homens como eles. Eles trazem as suas carabinas e espadas, vós tendes as vossas ferramentas; e na luta corpo a corpo estas valem bem mais! Vamos, para diante!... As bocas das ruas num momento se tapam com barricadas, uma carroça voltada inutiliza um esquadrão, um fio de arame detêm uma bateria. — Para diante! Rapazes... para além do mais, o perigo é insignificante: de uma mesa, de um saco, dura colchão, de um travesseiro fazem-se magníficos abrigos. Vamos! De fraca monta é o que se arrisca, comparado com o que se pode obter!
Inflamada e atropeladamente, sem coesão, sem ordem, mas como que iluminado por uma generosa fatalidade iniludível, por uma grande luz sobrenatural, assim este empolgador Mateus falava, falava sempre... De roda dele, o grupo apertara-se e arfava sinistramente, convulsivo, doido... numa aflitiva impaciência, num resfolgar de ansiedade. A escassa luz dos dois únicos candeeiros, exaustos quase de petróleo, e acabada de comer pelo verde dos anteparos, abandonava progressivamente aquele grande recinto à mortalha da escuridão, a um vago esfumaçamento de coisas em que dançavam espectralmente as sombras. Agora, no igualitário borrão da penumbra, na crescente invasão da noite, orador e ouvintes confundiam-se, deliam-se na mesma compacta mancha, eram solidários. Cada uma das impetuosas apóstrofes «Para diante» numa comoção galvânica sacudia os nervos daquela exasperada jolda de derreados e famintos. Toldava-lhes o encéfalo a vertigem do odio, a embriaguez do crime. E assim na confusa espessidão do grupo, naquele negro alastramento humano, tumultuário, incerto, que uma torva unanimidade de sentir arrepelava, só vingadores e ardentes, aqui, ali, a dois e dois fuzilavam os olhos como brasas.
O Mateus não os deixava.
— E não ter medo! Repito... O processo é seguro, o resultado é certo! Se manobrarmos todos de acordo, unidos, fortes, orientados no mesmo pensamento vingador, em breve também, espertos à simpática impulsão do movimento, tocados da legitimidade inauferível do nosso direito e do insuperável furor da nossa força, virão agregar-se a nós todos os que sofrem... os enjeitados da sorte, os que não têm que perder, os desarrumados, os infamados, os tristes, as infinitas vítimas da iniquidade social, os desordeiros e os tímidos, que a engrenagem centralista do sistema cautelosamente repele de qualquer ativa intervenção ou lucrativa ingerência, virão todos! Incluindo esses escravos diretos do Estado, o enxame faminto e imenso do proletariado oficiai, dos amanuenses e burocratas de ínfima espécie, classe que sob o enganoso verniz de uma discreta mediania dolorosamente padece e rebuça toda a sorte de privações, mais espezinhados, mais necessitados, mais miseráveis talvez ainda do que nós... Como vedes, é mais de meia cidade! Mas teremos mais ainda! Acentue-se, afirme-se, rompa bem imperativo e veemente o nosso reto de emancipação, o nosso exasperado grito de alforria moral, que até os próprios soldados, que são uns oprimidos, uns deserdados como vós, algemados, chumbados à sua dura condição pela veniaga, pelo oiro e a influencia dos ricos, esses mesmos, esses virão formar ao nosso lado, valentes, irmãos, amigos, prontos a apontarem as espingardas, não contra nós, mas contra o inimigo comum, nosso e deles! — E que mais nos é preciso para vencer?... para diante! Vamos... que em breve seremos nós os senhores, isto não falha... e o domínio da situação é nosso!
— Para diante... Mas a quê? Com que plano?... — extraiu finalmente da sua manhosa placidez o João dos Unguentos até então silencioso.
— O meu plano?... — acentuou sorridente, frisando de importância as palavras, o Mateus. — O meu plano é o meu segredo! Vamos devagar... Antes que viesse aqui arengar convosco, abrir-vos os olhos, estimular os vossos brios e reclamar o vosso auxílio, sabeis lá!... no mesmo sentido incansavelmente lidei, durante cinco longos meses de seguida, junto dos vossos irmãos em Alcântara. Sem grande resultado, infelizmente! Que diferença enorme eles fazem de vocês!... A proximidade da corte agorenta-lhes a coragem, dessora-lhes as energias... Eles sentem bem a miséria da sua condição, têm a consciência do vilipêndio em que apodrecem e a noção da própria força... não há dúvida de que os consome um delírio latente de revolta. Eles ardem, — vê-se, — por arremeter, por sacudir o jugo; mas contanto que levem alguém na sua frente, que os garanta das primeiras balas... que lhes ampare as costelas e lhes ensine o caminho! Ora eis a missão que eu confiadamente vos destino, amigos... Vós sim! Vós sois bem dignos dela, — não me resta dúvida... Sois todos homens de capacidade e influencia; conto convosco! Mandei-vos reunir aqui, para duas coisas essenciais: primeira, para que empenheis agora, perante mim, a vossa palavra de homens de bem em como guardareis sobre o assunto a mais absoluta reserva. — Um decisivo gesto, de assentimento unanime, alongou todas as mãos, aprumou todos os peitos. — Bem! Em segundo lugar, pretendo e quero que, desde este momento, todos vocês de alma, vida e coração se entreguem a uma propaganda insistente e enérgica entre os seus subordinados, os seus colegas, os seus amigos, não lhes desvendando, é claro, a parte secreta das nossas combinações, mas enristando-lhes a vontade e inflamando-lhes a imaginação por forma que depois, no momento oportuno, nós possamos com inteira segurança ter em cada um deles um partidário incondicional, um fogoso e implacável lutador!
— Bem! Bem! — Tomaram eles já!... — para isto vamos trabalhar todos! — insuflou ainda o Mateus; e, voltado ao João dos Unguentos:
— Também hei de precisar de ti, João...
— Para o que as minhas químicas servirem, — disse num risinho cínico o fármaco, — estou ás ordens...
— E agora, meus amigos, a primeira coisa a fazer…
Não pode continuar, porque neste momento, angustiada, lívida, à porta do pátio mais uma vez rompia a enxundiosa figura do Zé Pequeno, sibilando numa voz estrangulada de pavor:
— Rapazes! A rusga... Passem-se! Passem-se!
E, dado o alarme, ele mesmo numa pressa desandou para o balcão. Também, o seu terrífico aviso num relance desmanchou, transformou por completo a efémera coesão do grupo. Tudo de esfuziada abalou, houve uma indominável debandada geral... em roda ao Mateus irresistivelmente se abriu uma larga clareira de abandono e de terror. — Era tudo atoadamente a correr à porta, tudo a pelidar por uma saída, tudo a furar para um refúgio. Na embrulhada confusão do lance, naquele imprevisto horror de uma colhida em flagrante, galgavam uns pelos outros, desconheciam-se, esmurravam-se, pisavam-se, caíam... Em breve, no cómodo favor da noite tinham-se todos eliminado, disseminados uns pela vaga amplidão das terras, outros nas imundas cafuas acoitados do pátio do Picadeiro, outros de tropel invadindo, apesar da cancela fechada, a via-férrea, prestes a serem colhidos por um comboio rápido que passava.
De sorte que, ao tempo que os dois agentes da policia secreta entraram, com suspeitosa atenção considerando a desordem patente do recinto, — garrafas, copos tombados, guardanapos de rojo pelo chão, escabelos de pernas ao alto, um fartum estranho rebalsando o ambiente, o ar grosso de fumo, — com o Mateus e o Fagulha toparam apenas, tranquilos, um frente ao outro, tomando cerveja... enquanto do seu escaninho o Silvério, erguendo uma das pálpebras, trocava com os recém-vindos um furtivo olhar de inteligência, e o cachimbo do Zanaga indiscreto luzia por traz da ruma das batatas.