Amanhã
Capítulo XVIII · Com os primeiros rebates primaveris do seguinte…
Com os primeiros rebates primaveris do seguinte mês de março agravaram-se a miséria, o abandono e o desconforto naquele arrebentado palácio do Marquês de Vai de Madeiros, à Mouraria. A escabiosa ruina das suas paredes, o esbeiçamento pelintra das cantarias venerandas, davam a diagnose exata do ignominioso descalabro que lhe devastava o interior. Havia muito que o sostro e intonso Marquês, este puro escanzelo social, a mais grotesca e pungente ironia à altiva e isenta vaidade do fidalgo português antigo, deperecia irremediavelmente numa galopante ruma física, numa abominável defeção moral. Á medida como a sua grossa infeção podágrica avançava, e as diversas formas da litíase lhe oxidavam as articulações e empederniam os membros, também do entorpecido cérebro o funcionamento emperrecia e cada vez mais tardo, aberrativo e preguiçoso se tornava. A degeneração trófica do organismo refluíra-lhe para uma como que esclerose do pensamento; com a sua mórbida acidez embaciara-lhe a consciência e brutalizara-lhe o instinto.
Havia quinze dias que ele não saía do leito. Supinamente egoísta, como todo o bom artrítico, frialão e insensível a todas as imposições, tanto materiais como afetivas, do mundo exterior, tudo ele subordinava agora ao só instinto da conservação. Tornara-se um glutão insaciável. Quando não gemia com dores, e a implacável invasão da doença lhe concedia alguma generosa intercadência de repouso, toda a sua preocupação, todo o seu empenho era mentalmente renhir no modo de arranjar dinheiro com que mandar vir copinhos de cana branca e doce de compota. E neste quase exclusivo cuidado fazia agora consistir todo o seu viver inerte, todo o imperioso esforço da sua vontade, inútil e rebelde para tudo o mais. Como um velho madeiro, ressequido e podre, recusava-se duramente ao movimento o seu corpo salitrado de humores espessos. A mais insignificante deslocação alfinetava-o de guinadas súbitas, era como um chuveiro de agulhas a verminar-lhe agudamente as fibras. Como se então esse desmoronado arcaboiço, estalidando em lascas, se partisse... O que obrigava o velhusco e intratável Marquês aquela insofrida imobilidade, antecipação cruel do sono eterno, que com a sua fatalidade irremissível lhe ia numa vertiginosa progressão inviperando o sangue e tornando o trato irritante.
Nunca o grande portão armoriado do velho solar fora tão mal frequentado como agora. A cada momento vinham cocheiros, vinham credores, vinha toda a sorte de gandaeiros, tunos e ínfimos vibriões das ruas, como deletérios gusanos em volta de um cadáver, arrepanhar a sua parte no arrastado espólio de mais esta casa em bancarrota de interesses e em liquidação de glórias. Vinham, audazes e ávidos, ver se ainda haveria qualquer esquecido valor a fisgar, dentro desse enorme casarão sem mobília abrigando um entrevado sem juízo. Vinham e transpunham com insolência o aparatoso frontão dórico, evo quase de dois séculos, cujos leões rompantes antigamente estavam afeitos apenas a ver passar sob as suas garras senhoriais a linha arrogante dos senhores de prol e das donas de jerarquia; e de cuja missão o atual abastardamento como que ofendia a sua impassibilidade heráldica e lhes arrepiava a rigidez marmórea em indignados frémitos de revolta.
É de saber que o parasitário Marquês, forçadamente refugado para o isolamento enfermiço do seu quarto, e quase sem descanso a braços com a sua hemosuria dolorosa, não recebia ninguém também só muito raro saía dos seus aposentos uma achacosa tia do Marquês, septuagenária e idiota, que, alheia por inteiro ao mundo, sobre o inseparável vestido negro usando uma espécie de escapulário roxo, da sua invenção, passava os dias invariavelmente a sonolear e a rezar. Com os parentes nobres da casa tinha obstinadamente o Marquês as relações cortadas, e havia ordem expressa para sob pretexto nenhum se lhes dar quartel. De sorte que era um velho escudeiro da casa, — o Damião, — quem a todos os fregueses de agora falava e atendia, quem regulava as transações, concertava os vários expedientes trapaceiros e resistia à pilhagem, quanto possível. Agora, à falta de pessoa legalmente mais idónea, era este, pela forçada contingência das coisas, realmente ali o patrão e o arbitro, perante a inutilização formal do dono da casa, e a inutilidade por igual completa da sua ataroucada parenta, a qual levava a vida imobilizada numa apatia mansa de sáurio, os olhos e o entendimento mineralmente fechados a toda a comunicação do exterior, submissa e dócil a tudo quanto dela quisessem, contanto que a deixassem sossegadamente passar as contas do rosário e dormir.
Mas o pior era que as dificuldades, as precisões eram cada vez mais instantes. As despesas seguiam sempre e a perdularia fonte com que as cobrir, estancara. Não havia já que empenhar nem que vender. Esses trágicos salões estavam completamente nus e começava a retrair-se de cansaço a caritativa munificência dos amigos. — De todo o opulento recheio antigo do palácio restava apenas, intata, a chamada sala do dossel, onde, nas grandes festas do período áureo da casa, era recebida a família real. A esta sala o Marquês respeitara-a sempre, considerando o seu desmantelamento como uma profanação. Ali a dentro dela condensara e entronara ciosamente, como num relicário, os escassos restos do seu pundonor de fidalgo. Uns últimos rebates de pudor atávico, o religioso freio da tradição faziam quebrar-se diante da austera solenidade dessas paredes o frialão cinismo do seu dono, tornavam para o vandálico ataque a sua vontade impotente. Assim, nas suas mais angustiadas crises de penúria, se por acaso a tentação o assaltava de desfazer-se por último daquela redentora soma de valores, ele repelia-a, indignado e pronto, num instante. Nesse sentido resistiu sempre, inflexivelmente, ás tentadoras propostas de vários mercadores de antiguidades, ás mais fulgurantes seduções da ambição, do gozo e do dinheiro.
O palácio da Murtosa, apesar das suas enormes dimensões, não era facilmente percetível, entaliscado como se achava numa das imundas ravinas daquele bairro mesquinho e insalubre. Datava a sua fundação do século XIII, ordenada e paga pelo seu primeiro senhor, um dos do conselho privado d’el-rei D. Afonso m. Depois, o terremoto de 1755 aluíra-o quase por completo, e da sua posterior reconstrução resultara a incaracterística sensaboria da fachada atual. Era preciso transpor o grande portão heráldico dos leões para a avistar. Este portão, perdido e refugado na sombra bafienta de um recanto de duas vielas, rasgava-se, singelo e único, na pesada monotonia de uma grossa parede, toda de pedra e lisa, apenas com um renque de simulacros de janelas esboçadas no ressalto das padieiras. Mas, entrado o portão, avistava-se então um extenso pátio, ao longo do qual, pela esquerda, se desdobrava a linha monacal do palácio, e no termo a capela; vendo-se do lado oposto um troço de construções irregulares, que eram as abegoarias, armazéns, palheiros, cavalariças e cocheiras; e ao fundo um barracão que fora picadeiro, e um gradeamento abrindo para um trecho escasso de jardim.
Em cima, correndo a frente de todo o andar nobre, estendia-se a filada imponente dos salões, agora em osso, com a cama dos rodapés de azulejo a descoberto, do teto descendo, verticais, varões inúteis, grandes escapulas comidas de ferrugem pelas paredes, pregos com restos de tapeçarias, molduras com estilhas de espelhos. Totalmente desmantelados... Apenas, no topo do último, restava respeitada e perfeita a aludida sala do dossel, fazendo com tudo o mais um doloroso contraste. Fora-lhe religiosamente conservada a feição austera e principesca, a sua integridade de exceção, como se majestática ali pairasse ainda a sombra Augusta das pessoas reais, quando elas se dignavam vir honrar com a sua presença os serões magníficos do palácio. — Ela era uma deliciosa e rica peça histórica, puro espécimen desse estilo de fins do século XVIII, tão bera caracterizado pela transição do abastardamento estético da época Luís XVI para o neoclassicismo do primeiro Império. Tinha a forma retangular, com os quatro ângulos quebrados por arcos de elipse e vazados em portas, envernizadas a branco com filetes de oiro nas almofadas. O teto, convexamente erguido em baú, era de estuque branco, todo numa cercadura sóbria, em laçarias e singelas grinaldas pintadas a fresco, que amorinhos de gesso sanefavam. Este mesmo era o estilo do rodapé e das sobreportas. As paredes eram forradas de precioso damasco antigo, de seda fulva, expluindo flores. Sobre os finos tremós de acaju, com tampo de mármore e os pés linearmente afusados, não havia uma única bugiganga ou minúscula obra de arte, mas apenas ricas serpentinas de bronze cinzelado, análogas aos candelabros que poisavam aos cantos, sobre plintos de ébano, bem como aos que arrancavam a meio das paredes e faziam apurado circuito ao grande lustre de pingentes de cristal. Finalmente, na parede fronteira à sequencia imponente dos salões, avultava ao alto o chapitéu de um elegante dossel, de damasco carmesim, com fartas cortinas do mesmo estofo abrindo aos lados, o qual abrigava neste recinto de honra um aparatoso divã com almofadões de brocado; e à frente deste, completando o severo arranjo da sala, estendia-se um sumptuoso tapete oriental, todo em caprichosas sinuosagens polícromas saltando sobre um fundo carmesim também, e que adoçava com a sua macia mancha a fria tonalidade do mosaico encerado, de madeiras tropicais, do pavimento.
Era esta pequenina e inédita maravilha o único compartimento ainda íntegro e interessante do palácio. Sobre ele incidiam pois, e cada vez mais bastas e insistentes, as esperanças, os lanços e as pretensões dos vários mercadores do género. De algumas sabidas casas da rua de Santo Antão e Avenida choviam todos os dias ofertas, relativamente vantajosas. Havia também propostas de estrangeiros. — O mais tinha sido tudo impiedosamente disperso e bruta e levianamente cedido ao desbarato, por irrisórios preços de que uma quantiosa parte ainda ficava nas mãos dos intermediários. Tudo, desde as deslumbrantes decorações e estofos que vestiam os salões de receção, até à custosa mobília em carvalho entalhado que guarnecia a sala de jantar, e os aparadores ajoujados de profusão de pratas lavradas e translúcidas louças do Japão, Saxe, Sévres e Viena, algumas brasonadas; até uma afamada coleção de faianças, entre as quais algumas de Wedgood, todas elas de altos preços; até ás mesmas altaias e para mentos da capela. Assim, a delapidação não conhecia termo, porque a dissipadora voragem não tinha fundo. Apenas tinham sido poupados, além da sala do dossel, os aposentos particulares do Marquês e da tia, e as humildes acomodações dos criados.
O desmantelo afinal daquela última e tão apetecida peça estava naturalmente indicado, parecia inevitável e fatal. A cada momento assediavam nesse sentido o meticuloso espirito do escudeiro, com toda a ordem de pressões e instancias. — Era uma teima estúpida! Tinha ali o Marquês para o resto da sua vida... O valor de contos de réis! — Mas, inflexível, o cauto velho resistia sempre, fazendo um caso de consciência do acatamento formal aos sabidos sentimentos do Marquês, seu amo. — Nem a este ousaria falar em tão bárbaro sacrilégio, nem também ele pela sua parte teria a coragem de lhe tocar... Escondera até as chaves do compartimento cubicado, receoso de que a gananciosa ambição de algum mais atrevido o levasse a alcançar pela força aquilo que por jeito ele intransigentemente recusava.
Numa linda manhã em que o pobre e aflito Damião, sem cinco réis de portas a dentro, precisava de mandar com urgência à botica, apareceu-lhe, com o Cara linda e mais outro boleeiro, o Cavalinho-mosca, cuja boémia multiplicidade de funções o tinha feito, já de há muito, íntimo da casa. E então, como o valetudinário serviçal, desalentado e triste, se lastimasse, o Cavalinho-mosca teve uma ideia genial.
Aproximou-se do velho com iluminada intimativa, e algareiro e esperto, bolinando o busto, piscando malicioso os olhos:
— Ó amigo Damião, oiça lá! E se você?... — E todo na envaidecida fruição do próprio pensamento, interrompia-se, a esfregar as mãos e a rir, muito contente.
— Se eu o quê?... — interrogou o escudeiro com interesse.
Os outros dois, também com a curiosidade estimulada, aproximaram-se. E o irrequieto e pequenino tuno, num salto sugestivo:
— Vamos dar aqui um baile campestre?...
— Tu estás doido!?
— Ágora estou! É o tempo... cai aí gente em barda. Um resultadão!
O Cara linda e o companheiro acenavam aprobativamente. Mas, indignado, o Damião:
— Isso não pode ser... O Sr. Marquês consentia lá!
— Ele escusa de saber! — acudiu, de olho gázeo, o Cara linda.
— Está visto! — reforçou o amigo.
Entretanto o azougado propulsor da ideia, com um misterioso ar, o longo rosto de símio aquecido por uma sagacidade perversa, voltava a insistir:
— Eu ainda lhes não disse o meu pensamento todo... — Interessadamente os outros apertaram círculo; e ele, a impar de importância: — Aanh! Isto tem de ser um baile que dê brado... uma coisa de estalo, sensacional, catita... como nunca se viu!
— Mas qual baile nem qual diabo! — vociferava exasperado o velho.
— Homem, cala-te! — gritou o Cara linda, — deixa ouvir!
O do baile disse:
— Arma-se aí assim ao fundo do pátio um grande estrado, com degraus...
— Para a música?...
— Sim, a música, em baixo... — continuava a aclarar o tagarela, sempre num tom progressivo de importância, pausadamente, assentando uma das mãos em concha sobre a outra e baixando a voz. — Mas em cima fecha-se com ripas uma espécie de camarim... bem alto... forra-se com as sedas da sala rica... pespega-se-lhe em cima com o dossel, os coxins, as velas, as colunas...
— Bem digo eu que este homem está doido!
— E põe-se a fidalga velha a presidir!
Uma gargalhada retumbante dos dois cocheiros vitoriou a ideia, que o lascarinho atirara com calorosa audácia, alargando de roda do pescoço o cache-nez.
— Não pode ser! Isso não pode ser! — protestava o fiel serviçal, de mãos na cabeça.
— Ó meu tanso e porquê?...
— O fidalgo, lá ralado a curtir as suas dores, nem dá fé...
— Ora e o que ele quer é massa!
— Pois que rica massa que isto dava! — disse a sugestionar o Cavalinho-mosca. E acotovelando os cocheiros, persuasivo, com os olhos reluzentes:
— Hein?...
— E a velha estará pelos autos?
— Oh, essa é de gesso!
Perplexo e abatido, o Damião ruminava a ideia, e num começo de transigência objetou:
— Mas nem a gente pode mexer nas alfaias e mobília da sala.
— Então porquê?...
— Estão hipotecadas ao Banco ali debaixo, à Sé.
— Oral bem sabem disto os do Banco. Tu não os convidas...
— Nem a gente estraga coisa nenhuma.
— Pois já se deixa ver!
E tentador insistia o fura-vidas:
— Então, vá feito?... Que dizes, meu salsa?
Empolgados, os cocheiros batiam palmas.
— Valeu! Valeu!
O caso foi que o Damião teve que irresistivelmente submeter-se ao macabro plano dos outros dois. Ele era, na verdade, tentador; e por mais que o honrado servo na sua acomodatícia consciência esquadrinhasse, não encontrava embaraço de maior a invalida-lo. Nada se destruía, nada se arriscava de valor; as tapeçarias ricas voltavam depois ao seu lugar, e o cangalho velho da fidalga até havia de achar graça àquela sua improvisação patusca de rainha. Não havia nada perdido. Pelo contrário, havia imenso a ganhar, porque o inédito carater da diversão devia trazer àquela ardilosa armadilha uma concorrência doida. Quem não aproveitaria a ocasião para, à troco de uma bagatela, invadir e profanar aquele recinto defeso, irmanar-se por momentos, na fruição do mesmo privilegiado espaço, com os desdéns senhoris da fidalgaria, e meter olhos bisbilhoteiros nas vedadas magnificências, nas misteriosas lendas do palácio?... E o Marquês escusava de saber toda a verdade. Informava-se apenas do baile, mas sem os pormenores decorativos que eram todo o orgulho dos organizadores e em que residia todo o segredo do seu êxito. Mesmo porque, naturalmente, ainda que o exaurido fidalgo alguns melindres ou dúvidas manifestasse, saberiam eles muito a tempo cobrir-lhas com o argumento sonante do resultado.
— Era este um dos tais casos em que os fins justificavam os meios. Mãos pois à obra!
Uma bela manhã, veio um troço de carpinteiros e com meia dúzia de apodrecidos pranchões e velhas ripas, desencafuadas das abegoarias e cocheiras, armaram um grande estrado ao fundo do pátio, parte encostando ao picadeiro, parte à grade do jardim. Tinha um primeiro degrau à frente, alto de um metro sobre o solo, largo bastante que desse cabimento aos músicos; e depois, outro metro mais acima, um amplo o tablado com três faces fechadas e teto, formando camarim. Ao mesmo tempo, em cima, na sala do dossel, alguns antigos serviçais da casa, chamados sob promessa de espórtula, atacavam sem piedade o quietismo e a majestade secular das guarnições; e era para eles motivo de grossa galhefa a caça mortífera que iam fazendo na infinidade de baratas e ratazanas, pelo seu picar iconoclasta desaninhadas. Assim, com um grande e atropelado aparato de cordas, serrotes, martelos e escadas, foi o aristocrático dossel apeado, foram colhidos os preciosos panos de seda das paredes, que esgarçavam a trechos, onde havia manchas podridas da humidade, e que, quando não cediam facilmente, os assalariados vândalos arrancavam à força de rasgões. E um vivo e insalubre prazer os enardecia nesta faina irreverente. Ela era como que a sua vingança de humildes. Esta última enxadada de achincalho no poderio secular de um grande acendia-lhes na alma um clarão perverso.
Atormentado e nervoso, num vago desgosto, o Damião acompanhava da porta da sala com a vista aquela demolição sacrílega, batido de negras duvidas, tomado a instantes de um frio instintivo de remorso... e, sobre tudo, atento sempre a que não viesse o amo, por milagre e para cúmulo de azar, por aí assim aparecer! Por fim, dossel, panos, tapete, tremós, espelhos, candelabros, tudo foi trazido para o pátio, numa algareira confusão; e desde esse momento solene o portão dos leões passou a manter-se invariavelmente fechado a indiscretas vistas do exterior. Enquanto prosseguia, sob a direção esfervilha do Cavalinho-mosca, o revestimento e armação do camarim do estrado, cujo vértice, ao cabo de dois insanos dias de trabalho, se aprumava altivo no espaço, numa linha arrogante de trono principesco, muito acima da aresta do telhado do picadeiro. Contra este lhe aplicaram posteriormente algumas escoras. Galhardetearam-no de bandeiras. O Marquês, já anteriormente exasperado pela forçada imobilidade no leito, enfureceu-se com o desacostumado ruido, e ao notar a sua insistência, mandou entre obscenas pragas de arrelia chamar o escudeiro, que era quem lhe havia de explicar... quem havia de responder por aquela pouca vergonha. — Porém quando o Damião veio e meio engasgado, ensaiou uma explicação ao caso, gradualmente o Marquês, de principio surpreso, foi desanuviando, e já aplaudia enternecido a ideia, e num orgasmo de comoção, filho daquele seu esfacelamento de ruina, disse — que se pudesse sempre havia de ir ver... e chorava de gratidão.
Entretanto, correu logo boato da extraordinária festa em embrião, o que trazia em alvoroto todo o bairro. Os anúncios nos jornais fizeram o resto. De sorte que, logo ao anoitecer do sábado, 9 de março, — o dia aprazado para o primeiro baile, — muito antes de começarem a acender-se as luzes, já era assaltada por uma turbamulta, selvagem e implacável na sua avidez, o canzil em forma de chalet que, à boca do portão e assente sobre um cavalete, fora improvisado em bilheteira. Travavam-se ruidosos conflitos na impetuosa ansia deste assalto brutal, em que os pávidos gritos das mulheres sobressaíam. Chegou a haver atropelamentos, surdas escaramuças a soco, fatos rasgados, cabeças partidas. Teve que vir regularizar a venda a polícia. — Dentro, o vasto recinto encheu-se num instante. De espaço a espaço, marginando a esquadria pouco regular dos prédios, havia postes ligados por fio de arame com balões venezianos suspensos, e tendo no topo acesos grandes fachos de petróleo, cuja luz fumarenta arrastava alucinadamente pelo ar o vento áspero que fazia. Pela frente da linha dos postes corriam bancos. A uma das cocheiras encostava uma barraca de bebidas, iluminada por dois lampiões de caserna e forrada de chitas de feira trapejando ao vento. E em pouco tempo a multidão, impetuosa e compacta, tinha invadido tudo... uma sostra multidão tresandando a vicio, sórdidos exemplares dos mais ínfimos escalões da miséria, vadios, marujos, loureiras, faias, o escol da boémia patibular do sítio, em cuja promiscua confusão davam um tom de realce, punham uma nota que poderíamos dizer aristocrática, os militares, os estudantes e os caixeiros, os artífices sem préstimo e as costureiras sem fregueses. Tudo isto bravamente esfuriando e dançando, dando-se afáveis cotovelões, bebendo, pulando, conjugando nos seus termos mais triviais as várias formas da bestialidade humana: tudo na pleniposse desta barata saturnal deslocando-se em cabriolas, esgares, gestos e atitudes cujo grotesco horror em grande parte se perdia, delido no asfixiante fumaçar do pó, na fuliginosa pulverização do fumo.
E a tonta parenta do Marquês lá veio, muito do seu gosto, presidir. Foi trazida em amável charola, pelo Damião e o Cavalinho-mosca fazendo cadeirinha das mãos, para aquele deslumbramento de luzes e brocados, do estrado. A multidão deu-lhe palmas, saudou-a com vivas ao vê-la aparecer. Muda e impassível, a doce mentecapta subiu, e, sentada sobre o divã ao fundo do camarim, imobilizou-se numa rigidez hierática, num alheamento vago de sonho, enquanto lhe iluminava a expressão um místico ar de beatitude. Era uma santa num altar. Os pares amorosos, os satíricos ranchos do baile vinham a cada momento e paravam diante do estrado, a contempla-la, tomados de um religioso respeito, principalmente as mulheres. Penetrava-os de submissão e espanto o espiritual ascetismo daquela figura serena e imóvel, contrastando pelo seu brilho transcendente e frio, como de um astro, com a magnificência pagã em volta, as mordeduras fulvas das sedas e a quente irisação dos lumes resplendentes. Intimidava-os o alto e invariável desdém do seu rosto apático, cortado fundo dos anos, de uma alvura estranha de fantasma, a mover sempre impassível o rosário entre as mãos de cera... Mas, pela noite adiante, a permanência da estranha fidalga no seu posto familiarizou-os com ela. E da familiaridade breve descambaram na irreverencia. Agora os mais birbantes do vulgacho falavam-lhe de baixo, ao passar, tratavam-na por tu, punham-lhe alcunhas chulas, citavam-na como a um toiro, atiravam-lhe os chapéus, acenavam-lhe com as mãos. — O ídolo de há momentos tornado um bonifrate.
Porém, como o vento era muito, veio o momento em que as velas de um dos candelabros, obliquamente projetadas de encontro a uma das cortinas do dossel, a incendiaram. E daí o fogo alastrou e subiu num instante. Mal tinha ainda tido tempo apavorada a multidão de dar conta do desastre, que já as labaredas em grossos rolos lambiam e comiam por completo aquela improvisada armação de feira. Não se poupou uma tabua, não escapou um fio. Assim terminou bruscamente a festa. Os estúrdios grupos chocavam-se em todas as direções, como vagas batidas do vendaval, erguendo um alto e clamoroso alarido, demandando a saída numa grande debandada de pavor. Quando a primeira bomba de incêndio chegou, a decoração pelintra do camarim estava reduzida a cinzas.
Jorge Meireles, que, por ter visto o anúncio do baile nos jornais, correra à Murtosa na justiceira disposição de protestar indignado e fazer cessar, empregando a violência se tanto fosse preciso, aquela bambochata, chegou justo ao tempo de, escalando ousadamente o braseiro, salvar a espantalhada tia do Marquês. Não sem grande relutância por parte dela, que, ao sentir-se de perto envolvida pelos rodilhões das chamas, ria beatificamente e, longe de fugir, apegava-se em êxtase aos toros das ripas que estalavam, clamando — que queria ficar ali... que estava já no Purgatório.
Mortal e intraduzível desgosto foi, no resto da noite e dias seguintes, o do velho e fiel Damião.
— Que tremenda desgraça aquela! Quem havia de futurar?... Até parecia castigo do céu! Como havia de ele agora remediar o mal, restituir à sala a sua antiga riqueza, ali num instante estupidamente perdida?... E, se o Sr. Marquês melhorava, que contas lhe havia de ele dar de tão criminoso desacato? Que havia de fazer à sua vida?... — Estas e outras semelhantes considerações afogavam-no de remorsos, baralhavam-lhe as ideias num pavoroso dédalo para que não tinham capacidade de resistência bastante os acanhados limites da circuição do seu espirito. Então, no isolamento contrito da sua dor, desatava-se em raivosas imprecações contra os malignos sugestionadores do seu crime, chegava a aceitar como recurso único a solução do suicídio.
Mas permitiu a sorte que esta sua pungente atribulação se não prolongasse por muito tempo. A ruina patológica do Marquês, na sua progressiva assolação, caminhou rapidamente. Avançando no sentido lateral, pelo engrossamento degenerativo dos humores a hemiplegia foi-se generalizando, até empedernir-lhe também o coração e pôr-lhe termo à vida. O que constituiu para o desolado escudeiro, no meio de todo o seu saudoso afeto, um enorme alívio.
Concertado modestamente o enterro, por subscrição, alguns raros amigos do Marquês trouxeram de motu espontâneo à Murtosa, junto com o seu óbolo, o piedoso concurso da sua presença na fúnebre homenagem. Entre estes, virara naturalmente Afonso e Jorge Meireles, os quais bem admirados ficaram quando, contra a sua espectativa, começaram a notar nas proximidades do velho e desmantelado solar uma desusada afluência de trens, logo enchendo compacta, em baixo, o largo do Poço do Borratem e estendida ainda pela ladeira da calçada do Caldas. Os últimos chegados já não puderam passar do Rossio.
— Era pois positivo que o seu desditoso amigo ia ter afinal um acompanhamento imponente. A despeito de todo o rebaixamento do seu crapuloso viver, ainda tinha consideração, ainda tinha prestigio... Um desgraçado, coitado! — E esta observação calava na pesarosa alma dos dois senhores do Almargem como um balsamo, era um traço de reconhecido orgulho legitimando a sua camaradagem póstuma, atenuando o enternecido espinho da sua dor.
Mas ainda aqui nova surpresa esperava os dois... Do grande portão do pátio a dentro eles não viram quase ninguém. Subiram, estranhos do fato, ao andar nobre, e aí verificaram a mesma significativa e estranha solidão. Natural seria que todos quantos tinham ali afluído para incorporar-se no fúnebre saimento, subissem a inscrever o seu nome no registo lutuoso daquele ato, ou a deixarem o seu cartão… E todavia não se via o menor sinal deles... não aparecia, não se inscrevia ninguém. — Estariam de roda do ferreiro, na capela?... também não. Era singular!
Chocado pela estranha e incompreensível anomalia, disse Afonso Meireles para o filho:
— Mas onde diabo se meteu toda esta gente?...
— Isso pergunto eu! Não percebo nada.
— Só se estão já dentro dos trens.
— O quê!? Logo todos... — contestou Jorge. — Era lá possível!
E incertamente, interrogando-se a espaços com os olhos mudos, muito intrigados, pai e filho seguiram a tomar no cortejo o seu lugar.
Então, quando este se pôs em marcha, tiveram finalmente a chave do enigma. — O préstito era quase exclusivamente formado pelos mesmos cocheiros, — os mais assíduos e diletos amigos do Marquês, — os quais tinham vindo em massa e do alto da boleia comboiavam gravemente, nesse original e interminável séquito, as traquitanas vazias.