Amanhã
Capítulo IV · No dia seguinte, — domingo, — logo…
No dia seguinte, — domingo, — logo de manhã, um bulício e animação fora do habito galvanizavam o penitenciário corredor da ilha do Grilo. Não parecia a mesma estercoral catacumba a céu aberto, de ordinário jorrando, nas cinzas albentes da manhã, filamentos de farrapos vivos; marasmada depois num silêncio manante de tristeza, pelo contrário, o que quer que era de leve e estúrdio remoçava a sua lazeirenta escuridão. Corriam no ar delgado e fresco invocações patuscas, galremos crespos de alegria. Das portas entreabertas saía um bafo de podridão que repousa; e fora, cochiladas no degrau da soleira, de avental branco à frente, o nariz e o queixo no regaço, as mulheres alisavam com volúpia o cabelo, passando-lhe o pente desde a raiz da nuca. Algumas, nesta inércia crepuscular dos anestésicos, sonoleavam. Outras catavam-se. Ás janelas dos primeiros andares apontavam, e fariscavam de regalo o céu, vultos barbeados de homens, esticando a camisola, abotoando o colarinho e os punhos sem goma, da camisa lavada. De dentro, um toque instantâneo, de vidros chocando-se nos farnéis, vinha e cortava em límpidas estrilncias o afinar banzeiro das guitarras. E, em solta camaradagem com as galinhas, os garotitos, impacientes, esgaratujavam na terra húmida, sem ouvidos aos ralhos das mães, que colhiam à pressa a roupa suspensa das cordas.
O dia amanhecera realmente um encanto, de uma pacificação dominical, acariciadora e cantante. Verdadeiro dia de outono, a sua doce e perenal tranquilidade deslaçava beatificamente os músculos, aquecia os corações, clareava em alentos de confiança o espirito. Um poético bucolismo invadia a Natureza. Balsâmicas emanações vinham das árvores, ainda policromadas de frutos, a terra cheirava a fresco, as aves passavam devagar, eram imoveis os penachos de gramíneas secas na beira dos telhados. Não chegava a atingir os outeiros das margens, o seu fraco poder de expansão antes perdido na serenidade diáfana do ar, a ténue brisa que em baixo, como um grande manto riço de prata, frisava as águas do Tejo. E, parcamente filtrada por uma esgarçada trama de nuvens de opala, debruadas de cobre, a luz do sol era repousada e discreta como convêm que seja a vida do homem, passante dos quarenta anos.
O primeiro a sair de casa em demanda ao campo foi o Manaio, levando à ilharga a mulher e a filha. Ele estreava uma blusa nova, de ganga azul, grandes algibeiras e botões de osso, e do lustro seboso da boina tufavam com arrogância os anéis do seu cabelo grisalho. A mulher, em corpo, toda cachaço e abdómen, levava as mãos tomadas por um pequeno cabaz e uma saca de retalhos de chita, com comida. O rosto de cera da filha, esse quase totalmente desaparecia embiocado num grosso lenço de malha de lã, da mesma deslavada cor do seu esguio nariz gretado; ao passo que também lhe envolvia e empapava as formas sumidas um amplo chale, russo e mortiço como a fria cinza dos seus olhos.
A rapariga, nos primeiros segundos de transição brusca da voluntaria penumbra, a que em casa se votava, para a franca luz do exterior, teve uma contratilidade hostil por todo o corpo e avançou numa hesitação, com as pálpebras franzidas. Ao que logo, áspero, o Pai:
— Que é isso?... Abre os olhos, rainha pitosca!
Ela porém vibrou novamente, como que num arrepio friorento, retraída a expressão num esgar de desgosto, e coseu-se com a mãe, sem responder.
E o pai outra vez:
— Torces-me o focinho, minha lesma?... Pois olha, se te não agrada, volta para traz!
Mas a rezinga não prosseguiu, porque vinham aderindo ao grupo os conhecidos.
Mal chegavam estes ao extremo da ilha, quando no extremo oposto já assomava também com o seu folgaceiro bando o João dos Unguentos e uma chula sociedade de rascoeiros em férias, espertos matulões e gandaeiras baratas do amor. Entre estas a Bandeirinha. — Pinchavam de tropel à frente os garotos, guerreando, coucinhando ás portas; marchava depois ao centro, no lugar de importância, o João, feliz, dominador, de jaqueta e cinta, dedilhando com arreganho o cavaquinho, rolando ao alto os olhos lascivos, a emaranhada gaforina ao vento. Trazia, inseparável, ao lado a amiga, mais alta do que ele, tomando-lhe com império o braço, grandalhona virago de feições duras e olhos felinos, farta grenha frisada e mantilha, acolchetada sobre esta a capa, muitos anéis cigarro na boca. E fechava o estrídulo rancho a malta de mariolas derrengues o calejados proletários, em promiscua sucia com as marioilas. Tudo isto folgazava e cantava, na mais solta impudência, mas numa como que jubilação à sobreposse, em forçados arrancos de prazer, em epilepsias de salto esfuziando num fundo imanente de tristeza. A sua petulante estropeada ressaltava nos pardieiros encardidos da ilha em ingratas ressonâncias, acordando-lhe os ecos preguiçosos; de banda a banda, grossa gente afluía a incorporar-se; e das janelas debruçavam-se bustos complacentes de velhinas, anediando o dorso aos gatos amesendrados nos parapeitos.
Foi quando, entre os que no atasqueiro betuminoso da rua paravam, cruzando o palreiro bando, viu a Bandeirinha o desempeno ardente do Ventura; e logo num enternecido alvoroço, afogueada, fez por passar junto dele, acotovelou-o e premiu-lhe o braço, fazendo-lhe praça ao lado, numa incendida mirada suplicante. Ao que o rapaz, num sacudido desdém:
— Larga!
E arredou-se. Mas, ao contato daquela criatura de pecado, os lábios mascaram-lhe de instinto, e, sem que ela visse, ficaram-lhe os grandes carbúnculos dos seus olhos seguindo o balanceio das ancas roliças, numa saudade concupiscente.
Também, ao passarem à porta do Silvério, logo uma das mulheres deste, na sugestiva impulsão do reboliço, saltou zorata à porta, pondo atabalhoadamente a capa. De repente, mirando-se:
— Está bom... tenho hoje algum presente! Pus a capa do avesso.
E, rindo muito, corrigia o disparate, enquanto comandava para dentro:
— Aviem-se!
Porque a varava familiarmente um dos do rancho com a sua imperiosa visagem de ternura.
Agora, na volta para a vila Dias, alcançava a gente do João o dianteiro grupo do Manaio. Ia então o farrancho engrossado por uma nova estratificação de pobretanas, pelo surramposo escumalho da oficina e da viela, pela farragem miúda de todo o lixo social. Uns e outros pararam, houve larga cópia de saudações, — alcunhas cruzando-se no ar, pernas gingando, braços ao alto; interrompeu seu brejeiro fandango o João, para apertar as mãos ao Adelino, e ao Lourenço da fábrica das Varandas, que acorreram ao som da estúrdia; e entretanto de todos os lados figuras curiosas vinham e abriam olhos de púcaro para o grupo estabareda, entre eles os filarmónicos molhados à porta da sede do cirio civil, e um rústico de cara meio ensaboada à porta do barbeiro.
Postos de novo em marcha, atravessaram a linha férrea, desceram a ingreme ladeira ao norte, de tropel, uns pela curva cega do atalho, outros fazendo gemer sob a brocha dos sapatos, para evitarem o lamaçal, o gordo balsamo dos taludes; depois serpearam um instante, num colear desordenado, ao longo do vale de Chelas, flanqueando alvenarias sujas, sumindo-se na desmantelada bisarma do convento, reaparecendo mais além, linearmente, pelo escaqueado recorte dos quintais, hortas, pomares enquadrados em silvedos; e ei-los que finalmente escalam, atacando a direito as terras, a encosta em frente, e estendem agora pelo absconso declive uma esfarrapada e morosa toalha humana, a que fica fazendo rodapé a folhagem amarelenta dos vinhedos. E eles aí lentamente se dispersam, em improvisados bivaques, em soltos grupos de ocasião, buscando velhos abrigos conhecidos; eles aí rolam em tosca peanha as pedras, formam círculo nos socalcos naturais, ou estão de posse dás clareiras onde os marnes aflorando, fazem o piso mais enxuto.
Por toda a redondeza do sítio, àquela hora, se desenhava este pelintra êxodo domingueiro e ia a mesma tropeada cantante pelos caminhos. De toda a parte ranchadas rompiam de gente mesclada e fruste, devastados arcaboiços, cadavéricas faces em ruina, numa avidez insalubre erguidas a qualquer problemática hipótese de prazer. Iam ao desgarre, ao acaso, nesta alucinada ansia travando o chouto ás carroças, batendo os pardais das moitas, de esfuziada cortando o silêncio tumular das casitas isoladas. Os pequenos fugiam com medo, os cães ladravam-lhes. Era a caça ao gozo, jorrando ás lufadas. Era o legítimo apelo sensual, aflitivo como o trágico aferro de um moribundo à vida, dessas muitas centenas de miseráveis, ali inexoravelmente consumidos, agrilhoadas vítimas em holocausto ao Moloch industrial, amaldiçoada carne alimentando a multidão de fábricas que num resfolgar opressivo e triste estrangulam este arrabalde da cidade. De forma que por volta do meio dia, na extensão de uma boa dezena de quilómetros, do Areeiro por Marvila a Cabo Ruivo, não havia atalho que à epicúria invasão não estremecesse, não havia azinhaga cujos valeirados flancos não sacudisse a mesma embriaguez doentia e famulenta. — Mas, também, como o aguado riso de todos eles tristemente se casava com a atonia crepuscular do céu, com a desbotada sépia dos outeiros, com a mediocridade anémica da paisagem! Se esta não tinha grandeza, também não vibrava aquele do espontâneo alor da juventude. Nem panorâmicas audácias, nem cores garridas. A banal amenidade do cenário ia bem de harmonia com a farrapagem pelintra das figuras. Destas todo o aparato exterior era mesquinho como a sucessão raquítica das colinas. Vestiam de negro os homens, as mulheres de castanho, azul ou roxo. Predominava a cor viscosa do andrajo, a crassa e mole confusão das coisas enxovalhadas. Raro nessa parda sensaboria apontava um lenço claro, uma cinta vermelha, uma calça ou blusa branca. A remendada lastima dos trajes era irmã da noite patibular das suas almas. Assim, apreendidas de longe, em globo formigando nessa tela amplíssima que-era o chavascos livor da terra, as filaças negras dos seus lilipocinos perfis pareciam obra do mesmo génio merencório e rude que dera o tom ao chorar banzo das noras e riscara a carvão os troncos ferrugentos das oliveiras.
E enquanto, até longe de roda irradiando, esta pitangueira animação se espolinhava nos valados e rebolava pelos outeiros, no ínvio corredor da ilha do Grilo, agora silenciosa e deserta, somente à porta do Silvério se via a mais novita das suas três mulheres, sentada de costas contra a umbreira, as mãos cruzadas à frente das tíbias dobradas em angulo e deitada a face nos joelhos, amalhoada e com o ar sofredor, numa resignação idiota, olhando vagamente o céu elétrico e sombrio...
Aquela áspera encosta onde fizeram alto, com a sua gente, o João e o Manaio, era a todo o comprimento coroada por um alto muro branco, tendo no topo um caramanchão. As mulheres agora, em desordem semeadas, depunham os cestos e embrulhos, e, atirando para traz com os chales e os lenços, sorviam a pulmão regalado, num cansaço, o ar, passeando longa e amorosamente a vista pela comedida e pacifica vastidão em frente: primeiro, aos seus pés, a esconsa fuga da ladeira; depois, de através, o risonho vale em baixo, esmeraldino, pautado de hortas, e a seguir, indefinidamente, até ao rio, a mesma suave ondulação de discretas gibas numerosas, encapeladas de arvoredo, tons de abundancia a definir os córregos, pelas faldas cintas brancas de macadam; e por fim, desamparado e hirto no espaço barrando sinistro o horizonte, o encastelamento sepulcral do alto de S. João, todo riscado a arestas de mármore e agulhas de cipreste.
Os homens esses, maquinalmente, punham a recado as mulheres e desandavam fazendo sua querida sarabanda pelas tabernas. De todos eles o mais lesto e contumaz visitador era o Serafim, que, emancipado por momentos da Clara, em passadas de metro corria, num volutuoso fadário, a sabida ronda das chafaricas. E aí, depois de beber com o primeiro proletário que encontrasse, batendo-lhe com intimativa no ombro, insinuava:
— Alegra-te, homem!
— Então...
— Se tu soubesses!
E vertia-lhes no ouvido coisas que os faziam arregalar numa vingadora esperança os olhos.
A Bandeirinha, — um arrebite, alta e esperta, na epiderme a tostada marca dos temperamentos excessivos, com uns olhitos de azeviche que falavam ao coração, — tinha à sua parte um interessante auditório feminino. Nada menos que a Joaninha Perdigota, sua inseparável sócia na boémia galante; a Intruja, batida sopeira em disponibilidade, misto repelente e inclassificável da alcaiota e da ladra; a mulher do Manaio com a filha; e a Ana e a Clara, que chegavam agora, — esta muito encalmada, em corpinho de chita, o lenço para traz e uns grandes olhos inquietos; aquela ajeitando com esforço sob o esfiampado xaile cor de cinza o enganido esqueleto da filhita de peito.
A mulher do Manaio, como mais abonada, passando até por ter muito sofrível pé de meia sacara do cesto um grande guardanapo, mal passado por água, que estendeu sobre o ingrato rastolho do campo, e dispôs-lhe em cima farta ração de pastéis de bacalhau, embrulhados num jornal, e uma perna de carneiro. A filha completou, pegando no saco de chita, de onde tirou pão e maçãs. A Ana trazia peixe espada, a Clara duas garrafas de vinho. A Joaninha e a Intruja, de mãos vazias, miravam numa faminta, numa jubilosa avidez o convidativo estadeio da pitança; e estouvadamente a Bandeirinha semeou, mesmo de pé, pelo guardanapo encardido um punhado de amêndoas torradas, que juntas com o lenço tramposo e verde extraiu da algibeira da saia, muito curta, de casimira cor de vinho.
Tinham-se as outras sentado em círculo, sobre os calcanhares, como escravas, frescatonas e mansas na meia-tinta melancólica do céu. Porém, mal que se tinha agachado, a filha do Manaio teve por todo o corpo uma nova retração friorenta. E exclamou:
— Credo! Passou agora a Morte por mira!
Evidentemente raolestada, levantou-se:
— Não estou aqui nada bem... Vêm muito ar. Adeus! Adeus!
Foi e procurou abrigo, a uma dezena de metros, no tépido refolhamento de uma figueira. Sem nada contestar, limitou-se a mãe a segui-la com um olhar comiserativo e triste. E logo a seguir, derivando, incitava as outras a comerem.
— Que demónio tens tu, mulher? — disse ela para a Bandeirinha, espertalhotonamente, levando um pastel à boca.
— Sei lá... — murmurou esquiva a rapariga, num saracoteio ladino em torno ao grupo, encolhendo os ombros.
— Não sejas tola... Homens há muitos!
— Quero cá saber!
— Tontinha! Então não queres?... Pensas que eu há bocado que não vi, mesmo de longe?
— Ora! Passei por ele, mais nada...
— E os olhos derramados que lhe deitaste?
— E o atracão que tu lhe deste? — atacou maligna a Intruja.
— Mentira! — protestou a Bandeirinha com decisão, batendo o pé e as mãos na anca.
Mas acabou de a desarmar a Perdigota, na mais desavergonhada sublinha suspirando, com os olhos cheios de quebranto:
— Ai! Filha... se ele é tão bom, sempre que é dado com alma.
Ao que a Clara e a Intruja muito riram; ao passo que a mulher do Manaio, num grosso gaudio, com o cachaço rubicundo, espalmava forte nas coxas as mãos sapudas; e a Ana, vincando de censura a testa, achegava ao seio murcho com carinho a filha.
Com um ar superior, a mulher do Manaio sentenciou :
— E bom, sim... mas não dado a garotos e malandretes, que é no que vocês hoje se perdem... A tudo arreganham a taxa, tudo lhes serve... — Baixaram as três raparigas os olhos, de vergonha. — Por causa desse traste é que a minha Chica emparveceu! Tinham de vocês ver, no meu tempo, que opinião que a gente tínhamos! Ah, bô! — Dobrou de regalo, num grosso estalido, sobre o primeiro copo de vinho, a língua; depois alongou cautelosa o olhar, a certificar-se de que continuava a distância a filha, e, baixando a voz, numa intimativa complacente: —
Vou-lhes contar... Eu quando fui rapariga também tive o meu namoro...
— Só um?
— Dúzias! — disse a Intruja.
— Perdeu-lhe a conta! — escarnicou, a tirar a desforra, a Bandeirinha.
— Também não... mas não fui santa, para que hei de eu agora estar a dizer?... Fiz a minha obrigação menos mal: tudo obra de pegar e largar... A bem dizer, em nenhum fazia finca-pé. Mas houve um raio de um gargajola, aprendiz de marceneiro, por quem eu era perdida! Nem vocês fazem ideia, raparigas! Ainda agora me dão tonturas... — A Bandeirinha, estimulada, veio sentar-se-lhe ao lado, e as demais apertaram círculo. — Lindo que ele era! Com o seu bigodito que nem uma estriga, com os seus olhos como a flor do linho... Tão bonito como malandro, o alma do diabo! E que doida que eu andava com este amor! Eu não comia, eu finava-me... O meu gosto era conta-lo ás paredes e ás esquinas... Quando tinha o rapaz à minha beira, era que nem uma rainha... quando ele se ia embora, parece que se me ia a vida!
— E ele? E ele?...
— Também bebia vento por mim, não havia dúvida... No que não fazia favor nenhum! Porque eu não era peste, sem desfazer...
— Bem o mostra...
— Podia-se-me escrever na cara, — explanou com desvanecimento a matronaça. — A cintura era isto... — Fechava com o polegar o indicador. — O artelho cabia num anel; e cá isto então, — voltava a percutir com eloquente arreganho o quadril e a coxa, — já era a boa obra de torno que vocês veem! Apalpem... vamos!
— Olha lá...
No impulsivo calor da narrativa, o enxundioso monstro atacava agora com valentia a perna de carneiro; e dadivosa, para as outras: — Comam! — Depois, ruminando devagar: — vai eu não tinha pai nem mãe... vivia com uns tios meus, numa loja, em Alcântara. Nós, as mulheres, trabalhávamos no Daupiás, meu tio na fábrica Sol. Ás noites, vinha o rapaz para ali assim... e eu derretida! Mas não passava de falácia. Guardavam-me que eu sei lá!
O rosto miudito e moreno da Bandeirinha estava numa ardente atenção suspenso dos lábios careais da narradora. A Joaninha também, numa avidez patente, adiantara-se, estendida de bruços com os cotovelos finques na terra húmida, a garupa alta, o queixo nas mãos e ao longo da cova dorsal o chambre todo em refegos. A Clara abanava-se com o avental. E, num guloso furor de esfomeada, aproveitava a Intruja a interessada distração das outras para ás mãos ambas atafulhar a boca.
— Quantas vezes minha tia me disse, — continuou a mulher do Manaio, — quando o marau se ia embora, ao ver-me os olhos gázeos: «Toma tento, rapariga... defende-te! Olha que ele o que quer é calcar sete palmos de trigo contigo, e depois dá-te dois pontapés!»
— Isso é sabido! — para além do mais, era um perigo; ou ainda tinha o melhor...
— Pois é... aí está o que nos atrasa, o que nos perde! — rompeu de ímpeto a Bandeirinha saltando em pé, num irreprimível fogo de revolta.
— O quê!?
— Que dizes tu?...
— Já se deixa ver que sim!... Pois de que nos serve a nós estarmos a guardar tanto esse trambolho; senão para afugentar os homens, para nos tolher a nossa liberdade?
— Ó mulher, tu estás doida!
— É o contrário...
— Sempre és muito descarada!
— Palavra! Que se eu sei que a coisa era daí há mais tempo, logo que deixei os fatos curtos, tinha pedido ao primeiro homem que encontrasse: «Olá! Ó seu coisa, por quem é... desentale-me, livre-me desta sujeição.»
— É admirada!
— Acabada seja eu, se o não fazia! — confirmou a toleta, rodando nos calcanhares e avançando com decisão a cabecita.
— Deus te não dê filhas... — reprimendou Ana docemente.
— Bem... — reatou, passado o espanto pelo desabusado paradoxo, a pachorrenta criatura, — mas uma vez fomos nós lá de casa ao arraial a Benfica. Lembra-me como se fosse hoje... Resolveu-se aquilo na véspera, já tarde da noite, o rapaz não sabia. E abalámos logo de manhã. Mas o alma do diabo, que era muito andejo, adivinhou a coisa por artes... lá apareceu. Passou o dia de paródia connosco, comemos juntos; e eu não sei o que lia, o que achava nos seus olhos! Depois, à tardinha, não sei bera como aquilo foi... eu fiquei-me para traz, com duas colegas... pára aqui, bebe acolá... Os meus tios desapareceram; e quando mal me precato, íamos três mulheres sós pela estrada, já noite feita, e todo o mundo a contender connosco. Mas logo nos deixavam... Só aquele raio é que não! Ferrou-se como uma carraça ao meu lado, zoina que zoina... veio-me todo o caminho a jogar chicanas. E eu, moita! Mas o calor que aquela rezinga de fogo me fazia!
— Ai! Não... Pudera! — apoiou, voltando a sentar-se, a Bandeirinha.
— Depois, na azinhaga da Fonte, as outras duas porcas somem-se nas moitas com os namorados, e o malandro agarra-me, mete a perna, traça-me os braços... quer fazer pouco de mim!
— Ah!... — fizeram em coro as ouvintes, abrindo muito, num indignado espanto, os olhos.
— Ah, pai! Aqui é que foram elas... a coragem que eu tive! — prosseguiu com honesto orgulho a narradora, rubescente, o braço no colo em descanso com mais um copo cheio. — O sobressalto, a raiva, o medo multiplicaram-me as forças. Ágora me acobardei eu... tinha Nossa Senhora por mim! Briguei com o tipo, num salto furtei-me, ferrei-lhe os dentes no cachaço... nisto, ele tropeça, cai para a valeta... e eu, pés para que te quero! Estava escuro como um prego, mas eu voava... parece que via uma luz adiante, de mim! Sem descansar trotei por ali fora, atravessei a Luz, Sete Rios, as Laranjeiras, direita ás portas... não parei senão em casa. — Despejou o vinho de um trago, num regalado instante, e depois de uma pausa de importância: — Qual de vocês era capaz?...
As outras mulheres, num confortado silêncio de alívio, admiravam-na. A Ana chamava com a mão a lida, que no alto da ladeira apontara, junto ao muro, descendo para o grupo.
— E ainda em cima depois a minha tia, ao contar-lhe: a Bem feito! Não te dizia eu?...
— E o gajo?... — perguntou com interesse a Intruja.
— Tomei-lhe uma raiva de morte! Nunca mais lhe falei. Na missa, roguei-lhe uma praga entre a hóstia e o cálix... E praga foi ela, que o desgraçado pegou a aganar, a aganar... veio-lhe uma héctica e morreu... Um ano depois, casava eu com o Manaio. — Nisto, vendo que a filha, com a Ilda pela mão, se aproximava: — Psiu! Não se falia mais no rapaz!
A Perdigota, porém, ainda de bruços, na sugestiva influência da conversa, não se pode ter que não epilogasse:
— Isto os homens são uns tiranos, o que querem é ver uma pessoa bem em baixo. Por isso bem faço eu, que não me sujeito a nenhum! Tó rola... Tenho tempo... Por ora, estou como a outra: estende-te, perna! Lá virá quem te governa.
E, num pitoresco gesto emancipador, erguia a percutir a nádega o calcanhar, mostrando a tíbia nua.
— E o caso é que te dás bem com o sistema, — disse a mulher do Manaio, mirando-a com agrado. — Andavas aí que parecias vomitada dos cães...
— Fazia lástima... — disse a Clara.
— Mas agora não... estás limpa!
— Meu proveito!
— Que demónio tinhas tu?...
Chegava a Idazita, a correr, e colava-se ao pescoço da mãe, que perguntou:
— Então o pai?...
— Ficou lá em cima, no Puncaré... Mandou-me embora.
E a Intruja, inquirindo também a Perdigota, malignamente :
— Diz que eram moléstias...
— Isso são aldrabices da Balhona!
— Sempre se sai com cada uma! — ajudava, de reforço à amiga, a Bandeirinha.
— E o caso é que ganhei má fama!
— É uma invejosa!
— Mas não! Era sangue mau que eu tinha... para mo puxar fora, minha mãe pôs-me sobre o vazio do estomago, três dias a fio, um frango, frito vivo em cera virgem...
— Fizeste isso!?... — exclamou a Intruja, piscando para a Clara um olho incrédulo.
— É verdade! E depois aberto ao meio... Que revolução me fez!
E por uma reminiscência irritante sacudida, a rapariga ergueu-se, vindo tomar com carinho o braço a Chica. A mãe dizia-lhe:
— Anda comer.
— Não me apetece nada...
— Sempre estás uma perua choca!
— Se vossemecê me deixasse!
Acocorou-se à margem do grupo, de sobrecenho. E implicativa a mãe:
— Anda, minha focinhuda!
— Deixe-a lá... — aconselhou a Ana com doçura ; e passava uma posta de peixe à lida: — Toma.
— Dá-lhe antes carne, — ofereceu a do Manaio.
— Nada, que é mau costume.
— Fica aí comer! — disse com desgosto a outra.
— Eu falo franco... — interveio a Clara. — Até que quisesse trazer mais que o vinho, não podia! Vejam vocês: não chego a receber nove-tostões de féria. Agora tirem-lhe pro padeiro, tenda, botica... fora o que o meu Serafim me carda...
— Coitada!
— E eu então, com isto! — desculpava-se também a Ana, passando com amor a mão esburgada pelos anéis de oiro do cabelo de lida, e achegando a outra filhita contra o regaço.
Mordida de tédio por este sudário de tristezas, desandara a Bandeirinha, indo sentar-se junto da Chica com interesse. Foi quando, numa adorável sinceridade, a Perdigota:
— Pois eu cá também não estou com imposturas... por cada saca que vocês abriam, entrava em mim uma alma nova! Tinha uma fome de pedras. Estava desde ontem à tarde com uma xícara de café!
— Fosses lá por casa, mulher! — disse a do Manaio, compadecida.
E a Joaninha, agradecendo, num sorriso:
— Ó tia Clara, arranje-me lugar nos teares, lá no Almargem.
— Tu sujeitavas-te lá!
Mas já a Joana desandava também para onde a amiga, que com meiga solicitude interpelava a Chica sobre a sua depressiva irritabilidade, a sua melancolia irredutível.
E a pobre neurasténica, escanzelado produto de sucessivas estratificações da miséria, com os olhos cismadores boiando no vago, ia pausadamente arrastando :
— Então, que querem vocês?... A minha vida é de noite... Em me aparecendo a luz do sol, é isto! — Levava com desgosto as mãos aos olhos. — Põe-se-me em toda a cabeça um peso, que parece de chumbo... vejo tudo numa confusão, não tenho forças para nada! — Caíam-lhe numa pesada hipostenia os braços e franziam-se-lhe dolorosamente as capelas dos olhos, agora sem defesa. — Por minha vontade estava sempre a dormir... É quando eu vivo... E então, como não posso, como não me deixam, ando ás vezes todo o dia a chorar ou a rir, sem saber de quê?.
E, dizendo, encolhia os ombros numa inconsciência, e insinuando o indicador direito entre o lenço s o cabelo, coçava atrás da orelha com delícia.
— Porque não comes, para criar forças? — gritou-lhe a Joaninha.
— Comer?... tudo me sabe mal!
— És tola!
— O que eu tenho sempre é sede...
— Só se queres vinho.
— Tomara eu que me deixassem lá estar sempre metida no meu canto! Escusava de ninguém ma ver e eu de ver ninguém... Escusavam de me querer mal, de ninguém me ter inveja.
— Quem é que te quer mal, mulher?...
— Ó filha, todos! — acudiu com rancorosa vivacidade a rapariga, em cujos olhos de cinza um relâmpago passou de obsessiva desconfiança. E vendo que a mãe cabeceava ao peso da digestão, num ripanço pantagruélico: — A começar lá poios de casa... Contrariam-me, espezinham-me em tudo! Ainda hoje... em vez de me trazerem para aqui, porque me não deixaram eles ir antes para a igreja?... Gosto tanto do cheiro do incenso!
— E eu! — disse a Bandeirinha com volúpia.
— Esta manhã acordei aos vómitos... E então o coração aos pulos... sempre a suar! — Premiu num gesto brusco a região lombar direita, ranilhando num esgar de angústia a face emaciada. — Cá está esta maldita dor nas costas! Quando me não vêm também aos queixos... — Pela deslocação do movimento, uma tossi-ta seca e breve a sacudiu. E no mesmo instante a derrancada criatura: — Estou este pastel que vocês veem... Bem posso tirar passaporte pro outro mundo! — E um frio desânimo lhe molhava a anémica frouxidão das pálpebras.
A Bandeirinha e a Joana trocaram um olhar do enfado. A Chica ia dizendo:
— Pois então vocês cuidam que eu de noite que durmo? Isso sim!... Estou para ali assim, sossegada, a malucar, a pensar... Sonho acordada. É o meu tempo melhor! A horas tantas, meus pais largam a roncar e deixam-me à vontade viver com quem eu quero. Oh que ricas horas que eu passo então! Que de gente me aparece ali assim... como se me alegra e paramenta aquela casa! Ás vezes, lá tenho minhas passagens mais aflitas... mas, de ordinário, puxo da cabeça e vai aparece-me tudo quanto me dá gosto, tudo quanto melhor eu quero... Grandes travessas de arroz doce, o Santo António das Comendadeiras... e por fim, — aqui fez pausa, e depois, com o olhar inflamado e um perturbado acento na expressão, — por fim lá vêm também o Ventura... levanto-me, agarro-o, toda eu sou lume... embrulho-me, gozo com ele, como se fosse a valer!
Na concomitante hipercinesia desta ardente evocação, o dessorado corpito da Chica tremeu num mórbido alvoroço, os seus destemperados nervos acordaram. E já de novo a pobre hipnopatia levava doridamente a mão ao lado; e a curtas intermitências da tosse:
— Maldita dor! Um dia acabo com a vida!
O seu dolorido queixume, sem um eco simpático, arrastou-se amargamente, numa arrepiada ressonância, pelo espaço, como se fora, num lugar paresiado e ermo, simplesmente o reflexo da tristeza apática do céu... Porque a este tempo a mãe, amparada a um cómodo recosto de pedras, desatara a ressonar, definitivamente adormecida; fazendo-lhe epicúria parelha a Intruja, a todo o comprimento na terra estendida, de braços abertos, esbagachado o ventre para o ar. Fora a Clara em cata do marido; as duas tunantes tinham abalado para junto do grupo mais próximo; ao passo que a Ana, com a lida adormecida nos joelhos, morosamente embalava a filhita de peito, que chorando agitava no ar as manitas roxas:
— Coitada da minha menina, que nasceu para passar fominha!
E sobre estas suas palavras de magoada resignação um cansado silêncio caiu, a espaços avivada apenas pelo tilintar das malhas, em cima, num jogo de chinquilho.
Era isto na horta do Puncaré quintalejo banal debruado de caniçados com o seu toldo, gotejando topázios, de parreiras; por baixo um tosco enfileiramento de velhas ripas, cheias de canjirões girando; e tendo à frente, arrimada ao muro branco, a indispensável baiuca, com mais mesas, e entre estas e a renque das pipas o traço gorduroso do balcão.
Lá estava abancado, junto da porta, o Serafim, patibularmente verde, puxando as farripas com a mão à frente e persuasivo movendo os grossos lábios, na sua libertária catequese a dois homens largos de ombros, de pele taninosa e mãos de pedra. Acolitavam-no o Esticado e o Zanaga, com a pupila vinolenta e o gesto vingador, polarizados no mesmo evangelizador empenho.
— Se vocês ouvissem, rapazes! Este agora, sim, que é homem decidido! — insinuante conclamava o Serafim, com instantâneos fogachos na apagada lassidão dos olhos. — E tem boas escoras lá fora!
— Vocês handem-o ouvir! — corroborava o Zanaga, cujo desmarcado estrabismo lhe permitia ao mesmo tempo aquecer a alma dos dois recém-chegados na imperativa divergência dos seus olhos.
— Este sabe o que quer!
— Queira a gente arriscar-se, que virámos esta caranguejola toda de pernas para o ar!
Não viu ele o frio protesto do Puncaré, que incrédulo sorria, lá do balcão.
— Eu cá um dos primeiros a quem mo atiro, é a esse miserável ao serviço de quem nós andámos agora... — prometeu, de mandibula cerrada, um dos dois broncos iniciados, ameaçadoramente erguendo a manápula enorme.
— Quem é ele? — perguntou o Esticado.
— Um malandro, um estupor podre de rico...
— Só amigas tem seis! — exclamou o outro comensal, crispando numa odienta turbação os olhos.
Ao que jocosamente, enquanto servia aguardente a um freguês, o taberneiro:
— Que diabo tem isso? Não acho demais... Diz que a cada homem é dado sete mulheres e meia...
— O quê!?... Isso é lá para eles... que cá a um pobre, nem meia, se calhar!
— Vamos, vamos... — disse, com envaidecido mistério, o dono da locanda.
— Onde é a tua ucharia, ó Puncaré?... perguntou-lhe em ar de censura o Serafim. E vendo que ele, fazendo o troco ao da aguardente, se limitava a sorrir de manha: — Ora mete-te com a tua vida!
— Pois esse malandro, — volveu o pedreiro, — é dos tais que não pensam senão em explorar a pobreza! Sem precisão... Diretor não sei de quantos bancos bons contos de réis a juros, léguas e léguas de terras em Africa...
— Não o mandar a gente para lá!
— Em suma, dinheiro por toda a parte! Pois para os que estão abaixo dele é mesmo um cão! Não quer gastar, só quer receber...
— Então... diz que é para levar as massas ali pro alto de S. João, — chalaceou o Zanaga.
— Já para isso lá mandou fazer uma burra no carneiro! — o lascarinho do bodegueiro apoiou, voltando a meter-se na conversa.
E todos riram.
— Acabámos-lhe agora um grande prédio na Avenida... — disse, passada a galhofa, um dos pedreiros.
— Pois só o que aquele malandro forrou, em descontos e multas, lá da sua alta recreação, palavra! Fazia a independência de qualquer de nós.
— Oh, se fazia!
— Mas também a gente vinguemo-nos, arre! Ontem, depois de tudo pronto, ao descer do telhado,, fui-me ao zinco dos canos com a tesoura, zás! Que zás... — Refazia o gesto, num regalo. — Retalhei-o todo!
— E eu?... — secundou o outro. — Uns poucos de algirozes lá ficaram partidos!
— E furei-lhe o encanamento do gaz com um prego! — disse o outro.
— Anda-me! — aclamava o Serafim, esfregando-as mãos e acesos num mégalofobo espasmo os olhos.
E em torno destes justiceiros sociais pela ruina, nova gente afluíra, premia-se um círculo deliciado, por sobre cuja demolidora febre desenhava o ratado cachimbo do Zanaga cabalísticas ameaças.
— Aquilo agora, em chovendo, é obra... — inquiria odiento o Serafim, com as pelhancas da face assopradas num prazer maligno.
— Está claro! — aclarava um dos pedreiros, radiante, coçando a guedelha. — A água repassa as argamassas frescas, tudo aquilo amolece... Não tem remédio senão gastar mais dinheiro... manda-nos logo chamar.
— É bem feito, ladrões! — exclamou de repente o Esticado com o seu bigode arrogante erguido, certo no aplauso aquiescente dos outros. — Pois então vocês não veem como eles andem sempre com o olho em cima de nós?... Se compramos uma corrente, um fato novo, uma bugiaria qualquer, logo isso lhes serve para nos abaixarem o salario!
— Também é certo...
— Corja!
E com um tonitruante murro sobre à mesa selou a libertária apostrofe, terrincando os dentes.
Á porta do quintal surdiu um busto grandalhão de homem refeito, em camisa, calvo e matacões grisalhos, malha na mão:
— Ó Esticado! Anda... a nossa partida é agora.
Como o caixoteiro não desse mostras de ter ouvido, insistiu, mais alto:
— Ó minha lesma! Não ouves?
Sem maior atenção, o Esticado apenas teve um depressivo encolher de ombros. E então, desapontado rodando, o pretenso parceiro:
— Sensaborões!
Logo as atenções do rancho, um momento desviadas, voltaram a fixar-se na figura desaprumada do Serafim, que com as jugulares congestionadas e cosidos numa visga ameaça os olhos, continuou:
— Nada, estamos fartos de ser bestas de carga! O mundo é para todos! O nosso S. Martinho vai agora chegar.
— Ah, isso vai! É já para a semana... — observou, chocarreiro o Queimadela.
— Não digo isso, estúpido! — repontou irado o tanoeiro, — mas quero dizer a reivindicação, a posse, o gozo dos nossos direitos naturais... Nem mais impostos, nem mais governos, nem mais sujeição nenhuma! — Aqui arpoava com a mão o braço de um dos pedreiros, e com gulosa intimativa: — Cada um governa-se, pronto! Pois então?... Aquilo a que deitar a unha, é seu!
— Quem me dera já!
— Oh, que rica vida!
— Então?... É o mais natural, o mais próprio da nossa condição.
— Para que somos nós homens?... — concluía o Zanaga.
E, preso na convulsiva ginástica dos lábios, garatujava macabras interrogações no ar o seu cachimbo fumegante.
— Quer então dizer que, se eu roubar, se arrombar, por exemplo, as gavetas ao merceeiro da avenida ali em baixo, — disse de chacota o Queimadela, — ninguém me toma contas... não deixo de ser homem honrado?
— Já se deixa ver que não!
— Não me fazem crime por isso?
— Não, homem! É de justiça que passe para os outros, para os que precisam, o que ele tem a mais... Fizeste a coisa mais natural.
— O meu rico amor! Que me dizes?... — exclamou num grotesco espalhado o Queimadela, posto de salto ao pé do tanoeiro: — Se não fosses Serafim, digo-te que eras um anjo!
E afagava e beijava, em contrafeitos momos de jogral, o tanoeiro, perante a estimulada avidez dos circunstantes.
Sério, o Serafim defendia-se.
— És doido! — Depois, voltando à sua ideia: — Ainda ontem o disse o nosso homem... E provou-o e justificou-o muito bem! Ah, tinham de vocês ouvi-lo!
E com o apoio do meneio pendular da nobre cabeça do Esticado, continuou atropeladamente reeditando, num destrambelhado rosário de sabatina mal ingerida, muitas das alucinadas apóstrofes, das paradoxais verdades, das audácias candentes que na memorável noite anterior o verbo impulsivo e quente de mestre Mateus lhe colara a branco na cérebro.
Mas um pequeno contratempo veio cortar-lhe a hiperémica torrente da eloquência. Num dos mais inflamados ratos do seu propagandista furor, quando este automático Demóstenes saloio reforçava a sua argumentação com uma nova tarraçada de vinho surge-lhe de improviso à porta a Clara, censurando:
— Ó Serafim!...
Colhido de surpresa pela intempestiva aparição, o tanoeiro, com o olhar branco e imobilizado no ar o braço, enlivideceu. Mas num instante, adivinhando o sentir dos que o rodeavam e cobrando animo:
— Roda!
De sua banda a mulher não se intimidou, e cravando nele os olhos imperativos:
— Anda daí, Serafim!
— Ora livra-te dela... — alguém do grupo murmurou.
Vexado e confuso, o Serafim teve uns segundos de vergonhoso enleio; mas por fim, dominando-se, repetiu :
— Rode lá para onde estava! Já lhe disse... — Acobardada por ver tanto homem, não teve a Clara remédio senão obedecer. E ele então, radiante do esforço, aprumando de importância o descadeirado tronco e assentando com império o copo na mesa: — Então, hein?...
Mal tinha porém tempo de reatar conversa, e já o Esticado, indicando-lhe a mesma porta por onde a Clara saíra, o acotovelava:
— E agora este?...
Era o bojo enorme do Silvério, que tomava de lés a lés a entrada, fazendo sombra. Mal o viu, o Serafim:
— Safa! Que azar... Já aqui não estou bem!
E ergueu-se num ímpeto de contrariedade, esmigalhando nos dedos o cigarro.
Entretanto o Silvério avançara de pausa, e com a mais afável melúria:
— Boa tarde, rapazes! — Vendo porém o silêncio de hostilidade que a sua presença determinara, e que, tomados do exemplo do Serafim, todos à uma &e levantavam, numa queixosa estranheza arrastou:
— Então?...
Mas, impaciente, o Serafim retrucou logo:
— Adeus, amigo! — E desprezivelmente, dando-lhe costas: — Gireza!
Dito o quê, saiu, levando espontaneamente na cauda arrebanhados os mais companheiros; enquanto o Esticado ia pagar ao balcão, e na desconfiada dilatação do espanto mais se exagerava a extravagante paropsia do Zanaga.
O Silvério, impercetivelmente pálido, manteve-se superior à demonstração, e foi moroso e tranquilo sentar-se a um canto, pedindo genebra, enquanto encolhia num cínico desdém os ombros.
Cá fora, mal tendo torneia do quintalejo, o Serafim parou à espera do Esticado com os punhos ainda maquinalmente cerrados na sua instintiva osga ao gordo malandrim. Deu então de acaso com os olhos num amoroso grupo, ali um pouco à parte, cosido na sombra de uma oliveira; o qual o fez, assim que o amigo chegou, puxar-lhe com intimativa a jaqueta:
— Olha, olha, olha...
— O que é?...
— Tu não te querias acreditar! — E, apontando, tinha nos olhos um consolado rir sarcasticamente.
Era com efeito uma das mulheres do Silvério que ali assim de rebuço derriçava com um gargajola de carapuça e cinta, — por certo o mesmo cuja saborida aparição lhe fizera aquela manhã, no atabalhoado ímpeto do prazer, pôr a capa do avesso... Ele, matreiro, imóvel e fito como um podengo de fila à sua presa, insinuava-lhe doces coisas sensuais, que a fresca mocetona apreendia, numa repassada volúpia de todo o seu ser, vicioso e insatisfeito, com a expressão dengue, encolhida a atitude, as mãos correndo nervosas a fímbria do avental, e os olhos baixos distraidamente seguindo a impressão circular da ponta do seu pé calcando a terra.
Animalmente arrepanhados os malares num rictos de sátiro, o birbante aventurou:
— Então, meu amor! Secas-me a alma... Quando há de ser o nosso casamento?
— Tem muita pressa? — objetou ela, sorrindo com malicia.
— Naturalmente...
— Espere o meu quarto de hora...
— E quando virá ele?...
— Não sei!
— Isto é para ralar um homem!
— Então! Eu também esperei que a minha mãe me parisse... Espere, se quiser!
E desta vez a rapariga, num arrebite sensual, ergueu o rosto em togo ao namorado, varando-o com um olhar meigo e impudente, que para breve lhe garantia a satisfação do seu desejo…
Vendo porém que eram observados, derivaram sonsamente a continuar o seu idílio para detrás do caramanchão.
Indignado, surpreso, não se fartava o Esticado de os olhar:
— Mas que cabra esta! Parece impossível! Com três filhos... Quem havia de dizer?...
— Ora! — redarguiu o Serafim. — A mim nunca ela me enganou! — Então não se via logo? — Isto, mulher que olha de lado... já se sabe... é com a vaca assistida.
Ia andando sempre, sem desfitar os dois; e esfregando as mãos num maligno júbilo:
— O que eu não sei é como outro ainda cabe pelas portas!
Passavam agora pela frente do caramanchão; e um momento pararam, atraídos pela reboante animação e a grossa estúrdia que extravasando marulhava no recinto. — Cá fora, pitorescamente ladeando o gradeamento verde, vestido de madressilva, apinhoavam-se híbridos grupos de curiosos, — tristes mulheritas ávidas de emoções, derreados frascários ruminando maus instintos, cascalheiras rondas de crianças, — miserável rodilha humana indefinidamente rolando em cacho pelo anfiteatro da vertente, apagada mancha ruça escalonada na baça lividez da terra, sob a frialdade hostil do céu impassível. Dentro formigava um amontoamento folião, havia condensada uma patusca alegria bravejando para o exterior, no meio da qual, numa discreta penumbra de santuário, adorado e cingido como um semideus, faceiramente destacava, — entronado num mocho de verga, à ilharga a vigilância esfíngica da amasia, — o vulto abrejeirado e casquilho do João dos Unguentos. Miravam-no numa respeitosa emulação os homens, acotovelavam-no familiarmente as raparigas. E o envaidecido farmacopola, rolando sensualmente os olhos, absoluto senhor da situação, da pequena estância embalava em sentidos acordes os ecos preguiçosos.
Quando os dois pararam em frente, chegava-lhe a amiga um copito de licor aos lábios lambisqueiros; e o marmanjão, depois de beber, tendo enrolado a língua num estalido regalado, voltou a arranhar com amorosa fúria o bandolim, cantando:
Os teus olhos, Mariquinhas,
Quando se fitam nos meus,
Dizem coisas, fazem coisas...
Ai, Jesus, valha-me Deus!
Ai! Ai!
Ai, que dor!
Aqui todo o mulherio atacou em coro, acabando com ele:
Eu não sei quem possa estar
Ausente do seu amor!
Enquanto, dominadora e feliz, atirando ao ar grossas fumaças, à função presidia a virago ao lado; e a mesma beatífica pasmaceira desfranzia em roda os lábios aos circunstantes.
— Vê lá tu se este se rala! — disse para o companheiro filosoficamente o Serafim.
E, orientados a nova taberna, os dois foram andando.
Ficava-lhes gemendo sempre nas costas, progressivamente atenuado, do bandolim do João aquele peganhar lascivo... Os mais acompanhavam em coro, passiva e arrastadamente, por vezes num monótono desfiar de ladainha, dir-se-ia como que por obrigação. Eram sem brio os compassos, eram as vozes sem frescura. Uma toada banal de alcouce, rasteira e dissolvente. Tinham os rapazes improvisado à frente do caramanchão uma toirada. Pelo declive absconso da ladeira farandolavam docemente pequenas rondas de mulheres, dançando. Os homens, animalmente acocorados, tinham pregadas atitudes de brutos, ou olhavam alvarmente o céu. E uma grande pacificação, uma volutuosa inércia sobrenadando... a folhagem imóvel, a luz peneirada, o ar sereno. — Largo e absorvente panorama, que com um pouco mais de luz avivando as arestas das coisas, e o antigo vigor plástico restituído ás figuras, seria a viva reprodução de uma dessas soberbas telas pagãs que imortalizaram o pincel clássico de Siemiradzki ou de, Kaulbach.
Num momento em que a banzeira canção parou, acercou-se do João com respeito uma mulher morena e redonda, com olheiras:
— Ó Sr. Joãozinho, desculpe... mas o meu homem está muito mal!
— Vocês conversam tanto... — sublinhou do lado a amasia, numa amorável censura.
E a mulherzinha a suspirar:
— Isso sim! Foi tempo...
— Dá-lhe um caldinho de agriões todas as noites, já te disse... — receitou o saloio esculápio; acrescentando de malicia: — E deixa-o dormir...
Depois, entre o rir escarninho dos circunstantes:
— E de manhã duas colheres de toucinho, com ovos, canela e assucar, tudo batido e feito ao lume. Ou então, cose uns marmelos, parte-os em fatias e dá-lhos com assucar.
Ruborizada, a mulher acuou, agradecendo; ao tempo que um velhinho trôpego e sincero, — de olhos mortais, o agudo crânio em osso, e na face chupada a branca barba grossa e prismática com arestas de gelo, — demandava com humildade os grupos, de um para outro passando, trémulo e curvo, como quem esmola, de carapuça na mão.
— Preciso muito, rapazes... pela minha boa sorte! — lamuriava ele na sua voz tarda e côncava. — Cinco netinhos em casa, ainda sem poderem ganhar... a mãe deles numa cama, perdida... a minha Joaquina a mesma coisa! Todos os dias enche bacias de sangue... eu, o estafermo que veem. E o meu pobre filho, que era quem valia a tudo, quem a todos nos amparava... então, por amor de Deus!... esse partiu a perna, lá está no hospital... e nós sem uma migalha de pão! — Por fim, gemia dolorosamente, com a voz molhada: — Ai, livre-os Deus Nosso Senhor!
Os homens abatiam os ombros de dó, as mulheres desviavam a vista, apiedadas; mas nem por isso aquele suplicativo pregão surtia o efeito desejado, porque o pobre ia a um, ia a outro, e cada um de disfarce lhe voltava costas, num retraimento desconfiado, sem que uma só mão caridosa lhe acudisse à precisão.
Foi quando o João dos Unguentos, chamando com ar de importância o velho:
— Homem, deixa lá ver a mão...
O triste velhinho, tremulando, estendeu timidamente, pesada e enorme a dançar no extremo do braço esquelético, a sua escoriada mão de proletário, retalhada profusamente, em todas as direções cavada de sulcos profundos, surramposa e dura pela sobreposição de setenta anos seguidos de trabalho, imundície e de miséria. O João examinou-a, investigou-lhe as linhas com carinho; e por fim, compenetradamente, franzindo numa compassiva expressão o rosto:
— Diabo! Tens a vida atrapalhada...
E logo, metendo mão ao colete, verteu-lhe na carapuça quanto cobre trazia. O que foi sugestivo sinal para que também toda a assistência pressurosamente socorresse com o seu óbolo o homenzinho, a quem agora, com o saco verde cheio, a comoção quase fazia ajoelhar.
Rompia a este tempo em assobiada troça a garotada contra uma criatura fantástica e repelente, que no campo em frente passava, toda em farrapos pendentes, cortado rente o cabelo, o rosto embiocado, os olhos no chão. — De estatura menos que meã, alcachinada e torpe, baloiçava à frente o tronco em perros movimentos de autómato, atirando ao acaso as pernas, desarticulando em bruscos sacões o arcaboiço descarnado. Era toda ela um frangalho. Parecia a atormentada criação de algum pesadelo demolidor de Gavarni. Não seria fácil marcar-lhe a idade; assim como, a não ser pelo traje, seria impossível definir-lhe o sexo. Pavorosamente repugnante, não haveria meio de destrinçar naquele esquálido andrajo ambulante o que era pessoa do que era coisa. A mesma viscosidade uniforme de cor, a mesma repulsiva e sórdida promiscuidade confundia atanada asperidão da epiderme com a imunda rodilha que era o lenço, com o retalho de manta que lhe servia de chale, com a sarapilheira farpada que lhe formava a saia. A sua macabra e exótica figura pendia vorazmente para o solo, prolongada conicamente, do vértice microcefálico da cabeça ás negras e fundas ranhuras do artelho descomunal. Ela ia andando e esquadrinhando com avara sofreguidão a terra, indiferente a tudo o mais, a alma toda nos olhos, num sinistro alheamento; escolhendo de preferência a sua industriosa freima os sítios onde houvera merendas, cujos restos a megera se abaixava a apanhar avidamente.
A Bandeirinha, quando a viu, deu-lhe vontade de lançar. As criancitas fugiam diante dela, choramingando — que era a cuca, — e indo esconder de susto o rosto no colo das mães. Os cães ladravam-lhe. Mas ela continuava sempre a sua colheita, serena, imperturbavelmente. Evitava arisca os grupos, os lábios monologavam blasfémias surdas, e no extremo de uma das suas enormes palmoiras acabavam de desfazer-se uns miserandos restos de chinelo. Não a largavam os rapazes, que ela sacudia em gestos de símio, dizendo obscenidades. E assim foi esmadrigada seguindo a latrinária aparição, cata aqui, fisga acolá... disputando aos animais e escondendo no regaço côdeas de pão, espinhas, ossos, cascas de fruta e pontas de cigarro.
Mas já do lado oposto do campo um bando d& cigarreiras rompera a gritar estouvadamente:
— A Toira! Olha a Toira! Viva a Toira!
Assim falavam de uma galharda e turbulenta rapariga, que açodada e vibrante apontara, vinda do fundo do vale, trazendo na cola um farisqueiro rancho de galãs.
— Agora Toira — objetou com o seu pique de inveja a Perdigota. — Vocês deviam-lhe chamar mas era a choca.
E apontava como argumento vivo a matilha dos pretendentes.
Mas a rapariga tinha em dois atrevidos saltos atingido o grupo das amigas, que a aclamavam num entusiasmo folião, batendo palmas, colhidas todas na simpática esfera de influência desta grande figura rosada e insinuante.
— Donde vens tu, minha doida?... — perguntava-lhe uma afetuosamente.
— Então agora... já são aos pares? — maliciosa outra inquiria, olhando de viés os rafeiros.
— Pois olha que continuam a fazer cruzes na boca! — protestou logo a Toira despachadamente, na sua acariciadora voz de predestinada.
— O quê!?...
— Já te disse!
— Ainda que assim seja, da fama já tu te não livras. — insinuou uma outra, sardenta, mordendo os beiços.
— E a mim bem se me dá! — fez num desprezível dar de ombros a estabanada.
— Com que então, honradinha?... isto! Honradinha?... — não se pode ter que não comentasse, cascalhando de moía, a Perdigota. — Sempre a gente ouve coisas!
A Toira afiançou, muito afogueada, espalmando a mão com ímpeto sobre o amplo amojo dos seios:
— Até ao ponto de hoje ainda desavergonhado nenhum se pode gabar...
— Então nem o Ventura? — interpelou com os olhos em brasa a Bandeirinha.
— Não! Não! E não!
E batia o pé com decisão, arregalando os olhos.
A indignação da pretensa donzela chamou a atenção do alveitar, que, passando à amasia o bandolim, chamou:
— Anda cá, rapariga!
A Toira obedeceu num pronto; enquanto estimulada a multidão corria a rodeia-la, e o João acrescentava misteriosamente, a ganhar auditório:
— Também sempre quero ver...
Depois, passeando de importância em torno a vista:
— Quem tem aí uma linha, uma guita, que me empreste?
Adiantou-se, erguido ao alto por entre aquele mar de cabeças, um dessangrado bracito oferecendo um carretel de algodão branco, que o João tomou, passado de mão em mão, agradecendo:
— Bem, vamos a isto... — volveu ele com entono de charlatão, desenrolando a linha vagarosamente, de braços erguidos. Depois partiu dela uma porção; restituiu o carrinho à dona, agradecendo outra vez; e novamente para a Toira:
— Ora bem... Chega-te cá...
Corando, a rapariga aproximou-se, cheia de respeito. Fez-se logo de roda um grande silêncio. Apertaram círculo as mulheres; e enquanto os homens, numa afetada indiferença, esboçavam sorrisos incrédulos, por sobre os seus ombros avidamente avançavam pequeninas cabeças supersticiosas.
O João comandou:
— Abre a boca! Aperta...
Fez-lhe entalar as duas pontas da linha entre os dentes, que a Toira mostrou muito brancos e iguais, brilhantes e húmidos como nácar.
O que foi causa a que, de inveja, a Bandeirinha exclamasse:
— Olha que linda mobília de sala de entrada ela tem!
— Mas logo as demais, numa impaciência, lhe impuseram silêncio.
O João, muito sério, passara os dois ramos da linha por sob o queixo da observada, e aí, cruzando-os, ergueu-os depois, a fechar circulo, até à raiz do nariz, onde os equilibrou com dificuldade. E quando obteve, em sucessivas tentativas, exata esta medida:
— Agora larga!
A Toira soltou a linha; e o João passou-lha em volta do pescoço, que ela não chegou para abarcar. Ele então, perentoriamente, sentenciou com ares de Salomão, batendo-lhe protetor no ombro:
— Disseste a verdade, rapariga! Tomaram elas! Deixa-as falar...
E guapa e rutilante, no meio do estrondoso aplauso de umas, da desapontada confusão das outras, a Toira sumiu-se, desatou novamente a correr.
Entretanto o Serafim, o Esticado e o Zanaga prosseguiam na sua digressão doutrinal pelas tabernas. Seguia-os a Clara a distancia, inseparavelmente. Começava a tarde a descair, vislumbrando numa escassa luz de crepúsculo o movimento crescente de figuras masculinas que aquele catequista furor impulsionava. Vaga e difusa como um ar de sonho, envolta no cocegante véu do mistério, a notícia do conciliábulo noturno anterior alastrara e correra, fazendo que a multidão procurasse com ardente avidez colher o verbo inspirador também dos raros iniciados. Assim, a cada passo, em todas as direções apontavam e seguiam, cávios e oblíquos como conspiradores, grupos minazes de matulões perscrutando suspeitosamente o Espaço. Ao cruzarem uns pelos outros, acotovelavam-se, faziam-se interrogações, e havia de banda a banda inflamadas interjeições, vertidas em segredo nos ouvidos. Assim como o dia avançava, na mesma proporção em que aquele rubro boato emancipador crescia, também processionalmente ia engrossando a corrente na direção da última locanda onde perorasse o Serafim. Aí em torno dele, as sucessivas camadas de pobretanas afluíam, seguindo todos depois na mesma obsessiva embriaguez para a estação mais próxima. Porque todos queriam ouvir informes, colher impressões reflexas desse ainda desconhecido e já lendário Messias da véspera... todos queriam alistar-se adeptos do homem temerário e singular que lhes vinha dizer coisas novas, como eles nunca tinham ouvido!
Depois, progressivamente, à medida como as sombras da noite, afogando primeiro em luto o vale, iam morosas trepando pelas colinas, os mesmos grupos erráticos voltavam a definir-se, mas agora em sentido oposto, numa refrataria pausa, já descendo, ladeados das mulheres e os filhos, com uma torva repugnância voltando a acolher-se à negra escravidão das suas tocas. Vinha de longe, docemente atenuada na distância, a gemebunda toada dos harmóniuns dos padeiros. Picavam-se ao acaso de lumes as colinas distantes da cidade, pontilhava-se o céu das primeiras estrelas. E esses derreados bandos de bastardos da sorte iam descendo, vagarosos e mudos na sua eterna humilhação, como vergados à fatalidade de um jugo invisível. No em tanto, a sugestiva estenia propagandista do Serafim sacudira-os em intermitências bruscas de furor; e nos olhos vingadores brilhavam-lhes logo extintos, instantâneos fogachos de revolta.
Quando a meia encosta passava, na frente do caramanchão, já deserto, o Zanaga aprumou-se com decisão, impondo alto aos que iam com ele; e estendendo na noite, a todo o comprimento do braço, à brasa do cachimbo, a apontar em baixo a Fabrica de pólvora sem fumo, onde saltavam também as primeiras luzes:
— Rapazes! Ali está uma das primeiras casas onde a gente temos que entrar...
Noite feita, marchava agora pela estrada, amparado apenas da Clara, o Serafim, titubeante e arrastado, trocando as pernas, tão totalmente enfrascado em vinho, como por completo falido de baboseiras. A cada momento parava, renitente, gesticulando à toa, com a cabeça pesada, as mãos inertes, preso nesta amaurótica irresolução dos bêbados; e não raro implicava então com a companheira:
— Deixa-me, mulher... Mal hajas, que não serves senão para comer!
— Ah, eu não ganho também?...
— Ganhar o quê?... Vocês são mas é umas carraças, que sugam em todo sentido um homem! Vai-te daqui!
E deu-lhe com as costas da mão uma violenta bofetada.
A mulher recalcitrou com um murro entre as espaduas do beberrão, a quem facilmente desequilibrou, atirando-o a terra. Ele porém ainda teve tempo, ao resvalar, para deitar-lhe as mãos a um braço; do sorte que ambos caíram e uns momentos rolaram pelo chão, lutando. Por fim ela desenvencilhou-se, ajudou-o caridosamente a erguer-se, apanhou o chale, compôs o lenço; e tomando de novo o braço ao malandrim, lá foi penosamente amparando, ladeira abaixo, aquela misera carcaça devastada pelo álcool e pela fome.
Mais abaixo, ao fundo do vale, dispunham-se â passar a linha, quando à queima-roupa lhes voou pela frente um tramway, reboante de alaridos, estrupidante de alegria. Verdadeiro tramway de domingo, ia repleto; rugia dentro alacremente a estúrdia de uma filarmónica; das portinholas extravasavam cachos de cabeças turbulentas. A ferrolhada, o ruido, a corda esfusiante daqueles pequeninos retângulos de fogo vergastando a retina tria e inerte do Serafim, tornaram a exaspera-lo. Num cambeteio impotente, estonteado, parou, de punhos cerrados para o comboio, fechando os olhos.
— Vês tu como todos esses malandros vão de paródia?... Só eu aqui a atura-la a você!
E com rancorosa birra aplicou nova sova à mulher, que numa passiva resignação agora, muda e submissa, sem reagir, ia sempre andando com ele.
Assim nesta interminável rezinga, nesta bruta expansão animal ora em pé, aos rebolões, ora de rastos, entre gestos de carinho e pragas de arrelia, foram os dois palmilhando caminho, até que, tarde da noite, entraram em casa; quando já no compartimento ao lado, na sua enxerga arrumada sobre o vão da escada, havia muito que o Esticado resfolgava a sono alto, e ao lado dele a pobre da Ana, estiraçada e imóvel, com a filhita implacavelmente sugando-a, o aflitivo pescoço erguido e esticados em ânsias de dispneia os lábios, abria numa insónia de extenuamento os grandes olhos febris na escuridão.